Dizer algo sobre o visual de Procurando Nemo chega a ser desnecessário. É tão evidente, tão monstruosamente clara a beleza de suas imagens, que qualquer elogio se torna pleonasmo. É tudo tão colorido e tão bonito que dá vontade de dizer que foi para vê-lo que minha visão foi feita.
Mas não é apenas o visual que merece elogios. O roteiro é muito divertido. Os diálogos são bons. E claro, geralmente os trocadilhos com hábitos de bichos nesse tipo de filme dão certo. Um polvinho soltando uma pequena tinta negra, como se estivesse se mijando de medo, ao ver um imenso tubarão; tubarões que se juntam numa espécie de AA, repetindo para si mesmos que peixes são amigos, não comida; tartarugas surfistas; um peixinho - o mais divertido do filme - que não consegue reter lembranças recentes, mais ou menos como (dizem que) as baratas são; um peixe-palhaço que não consegue fazer uma só piada decente. E por aí vai.
Se eu fosse comentar cada cena que ri sem parar, o leitor acabaria por não ler apenas um post, mas um livro. Por exemplo, a cena da sobrinha do dentista no consultório. Como era engraçado vê-la se debater apavorada quando entra um pelicano na sala e logo em seguida um peixe sai do aquário para cair em sua cabeça... Ou aquela da explosão de minas submarinas que forma bolhas, fazendo com que um pelicano, alheio a tudo aquilo e vendo se formar uma ao lado de seu amigo, ache que ele soltou um pum.
Logo após o filme, fiquei pensando com os meus botões algo sobre as animações japonesas. Não sou de ver muita animação, porém das poucas que assisti pude perceber que os japoneses, em termos de roteiro, são de longe os mais bizarros: violência desmesurada atrelada a um senso de humor no mínimo alienígena. Confesso que nunca fui muito fã de filmes de animação japonesa, cujas histórias são muito esquisitas. As americanas não - quer dizer, não tanto. Não sei se por serem uma cultura mais próxima de nós, o fato é que geralmente prefiro a deles. Alguns têm um senso de humor esquisito, algo que parece estar se tornando quase um gênero a parte. Porém mesmo assim eu fico com os EUA.
Um outro motivo para minha simpatia para com as animações dos EUA é que suas histórias são bem mais despretensiosas. Você não precisa ter um nível de "abstração" enorme para compreendê-las. Claro, sempre há exceções, como aquela da MTV que tinha uma mulher espiã que, igualzinho ao Kenny do South Park, sempre morria no final (esqueci o nome, cartas para a redação, por favor).
Mas estou fugindo do Nemo. Que são essas palavras, leitor? Faça que nem o pai do simpático peixinho e saia por aí procurando-o logo.
Saturday, February 26, 2005
Saturday, February 19, 2005
Faxina
Estive arrumando o caos que virou a parte dos links bem ali, ó, do lado da página. Aproveitei e coloquei alguns novos. Como olhei e gostei da obra, vou tirar o domingo que vem para meu descanso, e santifico este sábado.
Tenho o projeto de comentar cada um deles, mas e a falta de paciência? Por enquanto, leitor, não tenha medo e vá trombando com eles, porque o caminho dos justos é sempre difícil, mas o fim é belo.
Tenho o projeto de comentar cada um deles, mas e a falta de paciência? Por enquanto, leitor, não tenha medo e vá trombando com eles, porque o caminho dos justos é sempre difícil, mas o fim é belo.
Conde de Gobineau e o Brasil
Certa vez, Stefan Zweig comentou que o Conde de Gobineau, após visitar o Brasil, afirmou que o único indivíduo racialmente puro no país era o Nosso Imperador D. Pedro II. O país tinha praticamente a população do Estado do Rio de Janeiro. E ainda que D. Pedro II causasse profunda impressão em quem achasse muito cool as teorias de superioridade nórdica (o homem tinha quase 1,90m, olhos azuis e branco até não poder mais, embora tivesse voz fina - ninguém é perfeito.), acho que no fundo o Conde de Gobineau estava fazendo aquilo que desde o mais pífio pigmeu até um nobre francês talvez não hesitariam em face de um sujeito mais poderoso: o famoso puxa-saquismo.
Mas hoje em dia, se o Conde de Gobineau visitasse nosso país, já ficaria chocado, só para começar, com o nosso presidente, Sr. Luís Inácio Molusco da Silva. Acho divertido imaginar o que ele escreveria em seu diário após uma entrevista com o Sem-Dedo.
Um país que tem quem tem como presidente não poderia ser, é claro, lá muito respeitável. Vejam o Theatro Municipal, por exemplo, se não me engano em dezembro. Eu estava passando pela Cinelândia quando, ao literalmente rufarem os tambores, em frente a uma multidão que se acotovelava em sua frente, saiu um monte de mulatos descamisados pulando de um lado para o outro. Chamam aquilo, ao que parece, de capoeira. Pois o Municipal se transformara - pelo menos a entrada - em palco de ginga de capoeiras. "Ha", pensei na hora, "imagina só o que o Conde de Gobineau diria sobre isso", e fiquei rindo sozinho, enquanto quem me via desse jeito na calçada achava apenas que eu era um bobo alegre.
Aquilo foi mesmo engraçado. Porém mais curioso foi o que um amigo meu me disse ontem. Na verdade, curioso e escatológico, porque esse meu amigo disse que, ao ver numa rua perto da minha casa um monte de cocô ao lado de uma camisinha usada, perguntou para seus botões também o que o Conde diria sobre aquilo. "Que as pessoas neste país copulam e defecam pelas ruas", foi o que meu amigo especulou. Mas quem disse que apenas essa hipótese é verossímil? O Conde poderia imaginar que as pessoas neste país defecam enquanto copulam pelas ruas desse país. Ou copulam enquanto defecam, o que dá na mesma. Bom, em todo o caso, qualquer das hipóteses é provável, pelo menos a julgar o Rio de Janeiro, que ainda querem que se torne capital do turismo.
Não é possível cogitar coisa muito diferente no país do Molusco. Aliás, a chegada mui triunfal do Molusco ao poder foi o coroamento do estrume.
Ah, Conde de Gobineau... Para você ser meu parâmetro de comparação com o Brasil ou, pelo menos, com o Rio de Janeiro, é sinal de que há algo de podre neste reino.
Mas hoje em dia, se o Conde de Gobineau visitasse nosso país, já ficaria chocado, só para começar, com o nosso presidente, Sr. Luís Inácio Molusco da Silva. Acho divertido imaginar o que ele escreveria em seu diário após uma entrevista com o Sem-Dedo.
Um país que tem quem tem como presidente não poderia ser, é claro, lá muito respeitável. Vejam o Theatro Municipal, por exemplo, se não me engano em dezembro. Eu estava passando pela Cinelândia quando, ao literalmente rufarem os tambores, em frente a uma multidão que se acotovelava em sua frente, saiu um monte de mulatos descamisados pulando de um lado para o outro. Chamam aquilo, ao que parece, de capoeira. Pois o Municipal se transformara - pelo menos a entrada - em palco de ginga de capoeiras. "Ha", pensei na hora, "imagina só o que o Conde de Gobineau diria sobre isso", e fiquei rindo sozinho, enquanto quem me via desse jeito na calçada achava apenas que eu era um bobo alegre.
Aquilo foi mesmo engraçado. Porém mais curioso foi o que um amigo meu me disse ontem. Na verdade, curioso e escatológico, porque esse meu amigo disse que, ao ver numa rua perto da minha casa um monte de cocô ao lado de uma camisinha usada, perguntou para seus botões também o que o Conde diria sobre aquilo. "Que as pessoas neste país copulam e defecam pelas ruas", foi o que meu amigo especulou. Mas quem disse que apenas essa hipótese é verossímil? O Conde poderia imaginar que as pessoas neste país defecam enquanto copulam pelas ruas desse país. Ou copulam enquanto defecam, o que dá na mesma. Bom, em todo o caso, qualquer das hipóteses é provável, pelo menos a julgar o Rio de Janeiro, que ainda querem que se torne capital do turismo.
Não é possível cogitar coisa muito diferente no país do Molusco. Aliás, a chegada mui triunfal do Molusco ao poder foi o coroamento do estrume.
Ah, Conde de Gobineau... Para você ser meu parâmetro de comparação com o Brasil ou, pelo menos, com o Rio de Janeiro, é sinal de que há algo de podre neste reino.
Tuesday, February 15, 2005
A farsa do Coelhinho Rosa, do Sapato Dentuço e do Anão Todo Janota em um ato-relâmpago
(A história se passa para lá de Bagdá. Coelhinho Rosa, passeando pela estrada afora, encontra o Sapato Dentuço às margens do rio Eufrates, cantando algo como "My shoes sing the blues", canção anônima muito dançante do Iraque)
Coelhinho Rosa (Olhando atentamente para os dentes do Sapato Dentuço.) - Sapato, me responde uma coisa: por que você tem dentes?
Sapato Dentuço - Naturalmente para pronunciar palavras que exijam as dentais. Por exemplo: como eu pronunciaria a palavra “dentais” se não tivesse dentes?
Coelhinho Rosa - Ué, e quem não tem os dentes da frente? Como fala “dentais”?
Sapato Dentuço - Deve dizer “zentais” ou coisa parecida. Mas nunca conversei com alguém sem dentes.
Coelhinho Rosa - Nunca? Nunca ouviu alguém falando algo sem dentadura?
Sapato Dentuço - Lembro de umas sandálias sem dentes. Elas tinham a ponta torta e curvada para dentro.
Coelhinho Rosa – Ué, as sandálias todas não são sem dentes?
Sapato Dentuço - Deve ser por isso que tinham a ponta como eu te disse. Mas não lembro da pronúncia delas direito. Não falavam português bem, talvez por serem havaianas. (Dá risadas com o trocadilho infame, batendo a sola no chão.)
Coelhinho Rosa - Mas, continuando, e por que você é dentuço?
Sapato Dentuço - Você tem alguma coisa contra meus dentes?
Coelhinho Rosa - Não... É que é esquisito um sapato de dentes, ainda mais se for dentuço.
Sapato Dentuço - Você fala dos meus dentes e não comentou nada da minha cueca. Olha, ela está a mostra, é branca e com o “s” do super-homem. Olha aqui, ó.
Coelhinho Rosa (Olhando para o céu.) – Eu não tô com vontade de ver sua cueca, que coisa!
Sapato Dentuço - Olha aqui, ó!
Coelhinho Rosa - Sapato viado...
Sapato Dentuço - Como?
Coelhinho Rosa - Sapato gaiato...
Sapato Dentuço - Mas você não acha estranho eu andar de cueca para fora? Ninguém nunca me pergunta nada sobre isso. Faço para aparecer, mas parece que tá difícil alguém perceber. Só reparam meus dentes.
Coelhinho Rosa - Você usa cueca só para disfarçar os dentes?
Sapato Dentuço - É, mas não adianta.
Coelhinho Rosa - Eu não disse nada para não te dar cadarço. (Ri do trocadilho mal-feito, balançando a pancinha.)
Sapato Dentuço - Pelo menos não adoro um cenourão.
Coelhinho Rosa - Quem disse que coelho só come cenoura? E você, que toda hora te metem o pé todo?
Sapato Dentuço - Viado.
Coelhinho Rosa - Não sou viado.
Sapato Dentuço - Não, é? Você é um coelhinho, que é bicho todo fresco. Para piorar, é todo rosinha. Deve andar rebolando o rabinho todo alegre.
Coelhinho Rosa - Já viu como sou quando encontro uma coelha?
Sapato Dentuço - Tem um monte de gay que finge ser homem.
Coelhinho Rosa - Mas não sou homem, sou coelho!!!
Sapato Dentuço - Além de viadinho, tem mau gosto. Colocar três exclamações numa frase é coisa de filisteu. Aliás, colocar mais de um ponto na frase é coisa bem de filisteu.
Coelhinho Rosa - Ressaltar uma idéia é coisa de filisteu por acaso?
Sapato Dentuço - Começa sempre assim: primeiro ressalta, depois já tá rebolando todo ressaltadinho.
Coelhinho Rosa - Isso não tem nada a ver!!!
Sapato Dentuço - Já começou a por um monte de pontos de novo.
Coelhinho Rosa - Quer dizer, isso não tem nada a ver!
Sapato Dentuço - Melhorou.
Coelhinho Rosa - E você, que é um lambe-chão? Sempre fica se arrastando, que nem um mendigão, no chão imundo. E vez ou outra se mete na merda! E toma esses pontos, toma! (Arremessa umas quatro ou cinco exclamações em qualquer lugar do Sapato, que dá uma mordida no Coelhinho. Este começa a chorar e gritar “ui, ui ui, meu santinho!”, correndo depois para sua toca. O Sapato exprime um ar de vitória e escárnio, de maneira que apenas um sapato dentuço sói fazer. Entretanto, aparece o Anãozinho Todo Janota, chamando a atenção do Sapato Dentuço.)
Anãozinho Todo Janota - Por Allah, que dor de barriga... Nunca mais como pastel naquele chinês... (Percebe o Sapato Dentuço, e sorri.) Este sapato vai servir direitinho de privada! Meu bumbunzinho cabe perfeitamente em sua entrada. (Ajoelha-se, fazendo mil rapapés e salamaleques.) Obrigado, Allah, obrigado!
Sapato Dentuço (Exprimindo todo o inconformismo de sua situação, como igualmente soem fazer os sapatos.) - Droga...
(Caem as cortinas. No fundo, toca "What a wonderful world".)
Coelhinho Rosa (Olhando atentamente para os dentes do Sapato Dentuço.) - Sapato, me responde uma coisa: por que você tem dentes?
Sapato Dentuço - Naturalmente para pronunciar palavras que exijam as dentais. Por exemplo: como eu pronunciaria a palavra “dentais” se não tivesse dentes?
Coelhinho Rosa - Ué, e quem não tem os dentes da frente? Como fala “dentais”?
Sapato Dentuço - Deve dizer “zentais” ou coisa parecida. Mas nunca conversei com alguém sem dentes.
Coelhinho Rosa - Nunca? Nunca ouviu alguém falando algo sem dentadura?
Sapato Dentuço - Lembro de umas sandálias sem dentes. Elas tinham a ponta torta e curvada para dentro.
Coelhinho Rosa – Ué, as sandálias todas não são sem dentes?
Sapato Dentuço - Deve ser por isso que tinham a ponta como eu te disse. Mas não lembro da pronúncia delas direito. Não falavam português bem, talvez por serem havaianas. (Dá risadas com o trocadilho infame, batendo a sola no chão.)
Coelhinho Rosa - Mas, continuando, e por que você é dentuço?
Sapato Dentuço - Você tem alguma coisa contra meus dentes?
Coelhinho Rosa - Não... É que é esquisito um sapato de dentes, ainda mais se for dentuço.
Sapato Dentuço - Você fala dos meus dentes e não comentou nada da minha cueca. Olha, ela está a mostra, é branca e com o “s” do super-homem. Olha aqui, ó.
Coelhinho Rosa (Olhando para o céu.) – Eu não tô com vontade de ver sua cueca, que coisa!
Sapato Dentuço - Olha aqui, ó!
Coelhinho Rosa - Sapato viado...
Sapato Dentuço - Como?
Coelhinho Rosa - Sapato gaiato...
Sapato Dentuço - Mas você não acha estranho eu andar de cueca para fora? Ninguém nunca me pergunta nada sobre isso. Faço para aparecer, mas parece que tá difícil alguém perceber. Só reparam meus dentes.
Coelhinho Rosa - Você usa cueca só para disfarçar os dentes?
Sapato Dentuço - É, mas não adianta.
Coelhinho Rosa - Eu não disse nada para não te dar cadarço. (Ri do trocadilho mal-feito, balançando a pancinha.)
Sapato Dentuço - Pelo menos não adoro um cenourão.
Coelhinho Rosa - Quem disse que coelho só come cenoura? E você, que toda hora te metem o pé todo?
Sapato Dentuço - Viado.
Coelhinho Rosa - Não sou viado.
Sapato Dentuço - Não, é? Você é um coelhinho, que é bicho todo fresco. Para piorar, é todo rosinha. Deve andar rebolando o rabinho todo alegre.
Coelhinho Rosa - Já viu como sou quando encontro uma coelha?
Sapato Dentuço - Tem um monte de gay que finge ser homem.
Coelhinho Rosa - Mas não sou homem, sou coelho!!!
Sapato Dentuço - Além de viadinho, tem mau gosto. Colocar três exclamações numa frase é coisa de filisteu. Aliás, colocar mais de um ponto na frase é coisa bem de filisteu.
Coelhinho Rosa - Ressaltar uma idéia é coisa de filisteu por acaso?
Sapato Dentuço - Começa sempre assim: primeiro ressalta, depois já tá rebolando todo ressaltadinho.
Coelhinho Rosa - Isso não tem nada a ver!!!
Sapato Dentuço - Já começou a por um monte de pontos de novo.
Coelhinho Rosa - Quer dizer, isso não tem nada a ver!
Sapato Dentuço - Melhorou.
Coelhinho Rosa - E você, que é um lambe-chão? Sempre fica se arrastando, que nem um mendigão, no chão imundo. E vez ou outra se mete na merda! E toma esses pontos, toma! (Arremessa umas quatro ou cinco exclamações em qualquer lugar do Sapato, que dá uma mordida no Coelhinho. Este começa a chorar e gritar “ui, ui ui, meu santinho!”, correndo depois para sua toca. O Sapato exprime um ar de vitória e escárnio, de maneira que apenas um sapato dentuço sói fazer. Entretanto, aparece o Anãozinho Todo Janota, chamando a atenção do Sapato Dentuço.)
Anãozinho Todo Janota - Por Allah, que dor de barriga... Nunca mais como pastel naquele chinês... (Percebe o Sapato Dentuço, e sorri.) Este sapato vai servir direitinho de privada! Meu bumbunzinho cabe perfeitamente em sua entrada. (Ajoelha-se, fazendo mil rapapés e salamaleques.) Obrigado, Allah, obrigado!
Sapato Dentuço (Exprimindo todo o inconformismo de sua situação, como igualmente soem fazer os sapatos.) - Droga...
(Caem as cortinas. No fundo, toca "What a wonderful world".)
Saturday, February 12, 2005
Martírio

Um intermezzo nesta última semana pelas plagas cabofrienses me fez relembrar de como já estão distantes os tempos em que um homem cedia gentilmente a passagem a uma mulher. Atualmente este hábito está relegado a seres esquisitões ou proto-mártires da completa barbárie que está por vir - como se já não existisse -, o que dá na mesma.
Por isso, para todos de boa fé que sonham com o retorno da velha e boa monarquia - Ordem - por estas bandas (pleonasmo, porque toda monarquia é velha e boa), termino este texto pondo mais uma vez a foto do czar, que é santo, Nicolau II, mártir da e pela Sua Mãe Rússia, para o qual valem as seguintes palavras do Salmo 21: Eles transpassaram as minhas mãos, e os meus pés; contaram todos os meus ossos; e eles mesmos me estiveram considerando e olhando. Repartiram entre si os meus vestidos, e lançaram sortes sobre minha túnica
Friday, February 04, 2005
Destilando mau-humor sobre o tal do Fórum
Se ser contra a guerra do Iraque não é uma demonstração de canalhice, então pelo menos é de bobismo levado ao extremo, afinal de contas um governante bigodudo salafrário que mandou para os jardins de Allah mais de trezentos mil de seus próprios cidadãos tinha de ser expulso a chutes de uma imensa botina, mais ou menos como acontece em desenhos animados. Aliás, seria ótimo se realmente o chutassem ou o "torturassem" como fizeram com aqueles pobres-diabos que até então eram os temíveis cães-de-guarda do Iraque (por exemplo, fazendo pipi na cabeça dele, o que, convenhamos, é um tapa com luvas de pelica se comparado aos milhares de mortos, mutilações e coisas belas do gênero que ocorriam no Iraque).
Contudo, bobismo maior é esse Fórum Social Mundial. Ingressar naquilo é escrever na própria testa um atestado de, na melhor das hipóteses, bobão. Exatamente isso: bobão. Mais ainda será caso tenha a displicência de viajar milhares de quilômetros para visitar aquilo, como foi o caso de Saramago ou daquele francês enjoado que há anos atrás foi convidado para, a título de cortesia, invadir umas fazendinhas com o MST.
Não sei o número de pessoas que foram ao Fórum, já que minha preocupação com semelhante coisa se retringe apenas em expressar o óbvio, isto é, sua bobice crônica. Mas suponho que muitas pessoas para lá foram. E possivelmente vários jovens brasileiros, sem contar os que não viajaram mas olham para aquilo ao menos com vaga simpatia, comprovando que, por natureza, fomos doutrinados a por nossos bumbuns para o alto e rezar segundo a Meca esquerdóide.
O problema aumenta quando começam a meter a mão em meu bolso para financiar um bando de bobões a se masturbar debaixo do chuveiro ou a andar nus de um lado para o outro. Aliás, não ficou claro se estavam se masturbando juntos ou não, o que não seria nenhuma surpresa. Não interessa. A própria idéia de financiar com dinheiro público algo como o Fórum Social Mundial é um absurdo de fazer o sol, caso tivesse sentimentos, se esconder para sempre de vergonha. Queria ver a reação dos participantes daquele circo se o Estado patrocinasse anualmente um megaencontro da nata da intelectualidade liberal do mundo.
(Breves parênteses: essa história de masturbação me fez lembrar de uma cena d'A Lagoa Azul (aquele filme com a linda Brooke Shields), na qual a mocinha pega o rapazinho se masturbando. Ora, ambos estavam onde muitos considerariam um paraíso natural, isto é, uma ilha tropical sem uma única biblioteca próxima, muito menos um computador - algo similar ao inferno, na pobre opinião deste mais pobre ainda autor. Não há um paralelo evidente entre essa cena e o que aconteceu no FSM, no paraíso esquerdistóide, onde singelas moças viram rapazes com, se o leitor me permite usar uma expressão adaptada aos tempos modernos, a mão na "botija"?)
Ah, cansei de escrever sobre estas bobices. Fiquei com vontade de mudar completamente de assunto (o texto é meu, faço as inversões que eu quiser, rá, rá, rá...) e dizer algo sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço, filme este que esperei uns quatro anos (sem a menor expectativa, por mais estranho que possa parecer) para assistir, e que no final das contas nem gostei muito. Ele passou de madrugada no Corujão, acho que na madrugada de quarta para quinta (dia 3/02?). Mas deixarei para comentar amanhã ou depois que eu voltar de viagem, semana que vêm.
OBS: Acho que está se tornando um hábito deste blog o empurrar textos com a barriga para um futuro incerto... Não se alarmem, não se alarmem. A este assunto pelo menos voltarei logo.
Contudo, bobismo maior é esse Fórum Social Mundial. Ingressar naquilo é escrever na própria testa um atestado de, na melhor das hipóteses, bobão. Exatamente isso: bobão. Mais ainda será caso tenha a displicência de viajar milhares de quilômetros para visitar aquilo, como foi o caso de Saramago ou daquele francês enjoado que há anos atrás foi convidado para, a título de cortesia, invadir umas fazendinhas com o MST.
Não sei o número de pessoas que foram ao Fórum, já que minha preocupação com semelhante coisa se retringe apenas em expressar o óbvio, isto é, sua bobice crônica. Mas suponho que muitas pessoas para lá foram. E possivelmente vários jovens brasileiros, sem contar os que não viajaram mas olham para aquilo ao menos com vaga simpatia, comprovando que, por natureza, fomos doutrinados a por nossos bumbuns para o alto e rezar segundo a Meca esquerdóide.
O problema aumenta quando começam a meter a mão em meu bolso para financiar um bando de bobões a se masturbar debaixo do chuveiro ou a andar nus de um lado para o outro. Aliás, não ficou claro se estavam se masturbando juntos ou não, o que não seria nenhuma surpresa. Não interessa. A própria idéia de financiar com dinheiro público algo como o Fórum Social Mundial é um absurdo de fazer o sol, caso tivesse sentimentos, se esconder para sempre de vergonha. Queria ver a reação dos participantes daquele circo se o Estado patrocinasse anualmente um megaencontro da nata da intelectualidade liberal do mundo.
(Breves parênteses: essa história de masturbação me fez lembrar de uma cena d'A Lagoa Azul (aquele filme com a linda Brooke Shields), na qual a mocinha pega o rapazinho se masturbando. Ora, ambos estavam onde muitos considerariam um paraíso natural, isto é, uma ilha tropical sem uma única biblioteca próxima, muito menos um computador - algo similar ao inferno, na pobre opinião deste mais pobre ainda autor. Não há um paralelo evidente entre essa cena e o que aconteceu no FSM, no paraíso esquerdistóide, onde singelas moças viram rapazes com, se o leitor me permite usar uma expressão adaptada aos tempos modernos, a mão na "botija"?)
Ah, cansei de escrever sobre estas bobices. Fiquei com vontade de mudar completamente de assunto (o texto é meu, faço as inversões que eu quiser, rá, rá, rá...) e dizer algo sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço, filme este que esperei uns quatro anos (sem a menor expectativa, por mais estranho que possa parecer) para assistir, e que no final das contas nem gostei muito. Ele passou de madrugada no Corujão, acho que na madrugada de quarta para quinta (dia 3/02?). Mas deixarei para comentar amanhã ou depois que eu voltar de viagem, semana que vêm.
OBS: Acho que está se tornando um hábito deste blog o empurrar textos com a barriga para um futuro incerto... Não se alarmem, não se alarmem. A este assunto pelo menos voltarei logo.
Thursday, February 03, 2005
Panorama nacional
Os leitores deste blog terão de parar seja lá o que estiverem fazendo para dar uma lida nisso. E avaliem suas respectivas ignorâncias sobre o assunto segundo o grau de estranheza que o texto provocar em vocês.
Eu ia linkar também um texto sobre a Inquisição, mas fica para próxima. Ou, caso acessem o Orkut, procurem pela comunidade Saudades da Inquisição e dêem uma olhadela por lá. Gracias.
Eu ia linkar também um texto sobre a Inquisição, mas fica para próxima. Ou, caso acessem o Orkut, procurem pela comunidade Saudades da Inquisição e dêem uma olhadela por lá. Gracias.
Monday, January 31, 2005
Fechemos o nariz e entremos nas escolas públicas
Fechemos o nariz e entremos nas escolas públicas. Funcionam em prédios abomináveis, projetados por arquitetos de galinheiro a soldo de políticos analfabetos.
Por exemplo, o sofrido e sofrível professor de português. Não ensina mais gramática e literatura. Como ensinar o que não sabe? Ele e seus colegas nunca aprenderam gramática ou literatura, pois estudaram nas piores universidades do mundo, públicas ou privadas — todas muito bem privadas, naquele sentido fétido da coisa.
O vestibular, nas humanidades, não existe mais para premiar o aluno competente, mas para sustentar um negócio da China que começa nos livros didáticos da escola básica e média, passa bem passado pelos cursinhos e termina em gran finale nas próprias universidades.
Selecionar os melhores é elitismo malvado, covardia de bichão-papão. É dever do professor universitário dar as mãos aos desafortunados da sociedade ou da natureza e erguê-los até o próprio nível — o que, aliás, não é muito difícil. Encolhe, cada vez mais, a diferença de conhecimento que sempre houve entre aluno e professor. Nunca um doutoramento foi tão fácil como no Brasil depois da ditadura militar (que teve o honroso mérito de começar a massificação do ensino, brilhantemente continuada pela esquerda peemedebista, peessedebista e petista, que no fundo não passam de farinha do mesmo saco).
Gramática virou sinônimo de torpe repressão burguesa, embora não se usem mais essas palavras do velho e carunchado comunismo. Gramsci ensinou a esquerda a ser mais sutil... A própria Escola de Frankfurt teria um vocabulário mais light para repetir a mesma idéia. Literatura, sobretudo a boa, é disfarce ideológico (no sentido marxista da palavra) — blablablá de intelectuais pequenos burgueses a serviço das classes dominantes. Bom escritor é quem usa linguagem coloquial, em sadia identificação com as massas oprimidas pelo açúcar e o colesterol. Ou quem não usa linguagem alguma, como os concretistas e os minimalistas.
Com a bunda confortavelmente sentada na poltrona multiculturalista, jurando serem iguais todas as culturas e terem o mesmo direito à luz do sol pedagógico — niilismo caridoso —, a inteligência iletrada escreve livros didáticos para aprimorar nos alunos a idéia, mil vezes engolida na tevê, de que uma letra boçal de rap é igual ou superior a um soneto de Camões.
Para usar a linguagem dessa gente: querem excluir a literatura do currículo e incluir o lixo da mídia, expresso segundo a doce cartilha do politicamente correto. Para agradar o aluno, difunde-se todo tipo de besteira, universalmente reduzida a texto. Hoje, tudo é texto. No mesmo nível estão o artigo de jornal, a bula de remédio, a receita de bolo, a letra do Chico e o conto de Machado. O que importa é “ler o texto do mundo”, palavra de ordem dos cursos de letras, propagada no incompreensível dialeto acadêmico pela imbecilidade semiótica, de braço-dado com as sobras requentadas do marxismo ressentido.
Só um Deus pode nos salvar, diria Heidegger. Ou um dilúvio. De preferência, com água sanitária.
(Texto de José Carlos Zamboni, do dia 30 de janeiro. Tem muito texto interessante sobre literatura por lá, visitem, visitem)
Por exemplo, o sofrido e sofrível professor de português. Não ensina mais gramática e literatura. Como ensinar o que não sabe? Ele e seus colegas nunca aprenderam gramática ou literatura, pois estudaram nas piores universidades do mundo, públicas ou privadas — todas muito bem privadas, naquele sentido fétido da coisa.
O vestibular, nas humanidades, não existe mais para premiar o aluno competente, mas para sustentar um negócio da China que começa nos livros didáticos da escola básica e média, passa bem passado pelos cursinhos e termina em gran finale nas próprias universidades.
Selecionar os melhores é elitismo malvado, covardia de bichão-papão. É dever do professor universitário dar as mãos aos desafortunados da sociedade ou da natureza e erguê-los até o próprio nível — o que, aliás, não é muito difícil. Encolhe, cada vez mais, a diferença de conhecimento que sempre houve entre aluno e professor. Nunca um doutoramento foi tão fácil como no Brasil depois da ditadura militar (que teve o honroso mérito de começar a massificação do ensino, brilhantemente continuada pela esquerda peemedebista, peessedebista e petista, que no fundo não passam de farinha do mesmo saco).
Gramática virou sinônimo de torpe repressão burguesa, embora não se usem mais essas palavras do velho e carunchado comunismo. Gramsci ensinou a esquerda a ser mais sutil... A própria Escola de Frankfurt teria um vocabulário mais light para repetir a mesma idéia. Literatura, sobretudo a boa, é disfarce ideológico (no sentido marxista da palavra) — blablablá de intelectuais pequenos burgueses a serviço das classes dominantes. Bom escritor é quem usa linguagem coloquial, em sadia identificação com as massas oprimidas pelo açúcar e o colesterol. Ou quem não usa linguagem alguma, como os concretistas e os minimalistas.
Com a bunda confortavelmente sentada na poltrona multiculturalista, jurando serem iguais todas as culturas e terem o mesmo direito à luz do sol pedagógico — niilismo caridoso —, a inteligência iletrada escreve livros didáticos para aprimorar nos alunos a idéia, mil vezes engolida na tevê, de que uma letra boçal de rap é igual ou superior a um soneto de Camões.
Para usar a linguagem dessa gente: querem excluir a literatura do currículo e incluir o lixo da mídia, expresso segundo a doce cartilha do politicamente correto. Para agradar o aluno, difunde-se todo tipo de besteira, universalmente reduzida a texto. Hoje, tudo é texto. No mesmo nível estão o artigo de jornal, a bula de remédio, a receita de bolo, a letra do Chico e o conto de Machado. O que importa é “ler o texto do mundo”, palavra de ordem dos cursos de letras, propagada no incompreensível dialeto acadêmico pela imbecilidade semiótica, de braço-dado com as sobras requentadas do marxismo ressentido.
Só um Deus pode nos salvar, diria Heidegger. Ou um dilúvio. De preferência, com água sanitária.
(Texto de José Carlos Zamboni, do dia 30 de janeiro. Tem muito texto interessante sobre literatura por lá, visitem, visitem)
Saturday, January 29, 2005
Provérbios
Mulher? Pois faço minhas as palavras do antigo provérbio:
Nem tam fermosa que matte, nem tam fea que espante,
Até porque
A quem tem molher fermosa, castello em fronteira, vinha na carreira, nam lhe falta cançeira.
Mas também não é sempre ruim casar com mulher feia de dar medo (segundo o provérbio, claro...), já que
Quem casa com molher rica e fea, tem ruim cama e boa mesa,
E caso sejas feia, porém pobre, tranqüiliza-te, leitora, pois
Nam há panella tam fea que nam ache seu cobertouro.
Todavia, se por maldade do fado além de feia não fores muito inteligente (tadinha de ti), nem assim tudo está a perder, porque
De noite à candea, a burra parece donzella.
Agora, se o leitor ou a leitora não gostaram do que escrevi, nada poderei fazer, senão concluir tristemente que
Nam ha geraçam, sem rameira ou ladram.
(E se quiserem mais, procurem por 500 provérbios portugueses antigos)
Nem tam fermosa que matte, nem tam fea que espante,
Até porque
A quem tem molher fermosa, castello em fronteira, vinha na carreira, nam lhe falta cançeira.
Mas também não é sempre ruim casar com mulher feia de dar medo (segundo o provérbio, claro...), já que
Quem casa com molher rica e fea, tem ruim cama e boa mesa,
E caso sejas feia, porém pobre, tranqüiliza-te, leitora, pois
Nam há panella tam fea que nam ache seu cobertouro.
Todavia, se por maldade do fado além de feia não fores muito inteligente (tadinha de ti), nem assim tudo está a perder, porque
De noite à candea, a burra parece donzella.
Agora, se o leitor ou a leitora não gostaram do que escrevi, nada poderei fazer, senão concluir tristemente que
Nam ha geraçam, sem rameira ou ladram.
(E se quiserem mais, procurem por 500 provérbios portugueses antigos)
Silogismo de véspera de carnaval
Se moro perto da Marquês de Sapucaí, e todo homem é mortal, então quero minha cota de virgens no Jardim de Allah.
Monday, January 24, 2005
Mais um desconcerto do mundo (prelúdio para um texto maior num futuro incerto)
Que mundo é esse em que as pessoas olham de jeito esquisito quando você diz que gosta de Bach? Ou que, além de olhar esquisito por isso, acharia lindo se você dissesse que adora Chico Buarque ou, se cercado por gente de má catadura, que você admira Mano Brown, Marcelo D2, Charle Brown Jr. e excrescências do gênero? Mais, mais bizarro ainda é se tal situação ocorrer não em meio ao povão - que gosta aliás de coisas menos degradantes em geral -, porém entre aqueles que teoricamente são considerados a elite, o supra-sumo da laranja podre chamada de (des)educação nacional.
Para que o leitor faça uma idéia do descalabro, darei um exemplo: certa vez alguém ficou admirado por eu estar com um cd da ópera Sigfried na mão. "Wagner? Nossa...", o alguém proferiu, e em seguida fez uma cara de quem ficou mui impressionado. "Mas que coisa bizarra", pensei, "que tem de mais isso?" Depois fui notando como em geral a reação de muitos quando eu dizia que ia ao Municipal era a mesma. A carranca era idêntica. E meu pensamento não mudava: "Mas que coisa...". Acontece, porém, que na quase totalidade dos casos isso se dava com gente teoricamente instruída - mais que a média -, e que também teoricamente deveria considerar Sigfried natural. Natural e quase obrigatório (para o bem ou para o mal).
No entanto, esse povo, a maior parte da tal da elite cultural do país, parece se sentir mais à vontade com sua Bossa Nova - ou, no pior dos casos, com aqueles semi-anencéfalos (termo em moda) drogados que se julgam artistas sublimes.
É totalmente constrangedor, num ambiente desses, dizer que adoro por exemplo Bach. Não sou um conhecedor erudito, mas aos olhos da multidão (leia-se: a maior parte da elite cultural do país) passo miraculosamente a sê-lo. Caso então eu diga por extenso e devagar o nome de uma obra sua qualquer(por exemplo, uma cantata que gosto muito, Ach wie flüchtig, ach wie nichtig (Ah, quão fugaz, quão fútil é a vida dos homens, BWV 26)), presumivelmente isso servirá para impressionar duplamente: primeiro, porque é música de Bach, e segundo, porque é alemão, e nomes germânicos (e cultura alemã em geral) costumam causar furor por essas plagas.
Aliás, por falar em Bach, lembrei de um pequeno incidente lamentável: estava eu conversando sobre música com um sujeito teoricamente mais instruído que a média quando, ao ser perguntado sobre que músicas eu costumava ouvir em casa, respondi "Bach". "Hã?", perguntou-me o infeliz, fazendo as caretas de praxe nesse tipo de situação. "Bach", tornei a responder. "Bar? Como assim?", ele ousou dizer. "Bach, o compositor alemão", eu disse meio constrangido. "Nunca ouvi falar", finalizou às tontas, e mudou de assunto.
Nem me darei ao trabalho de citar outros exemplos que comprovam um desconhecimento total, absoluto e esmagador de alguma noção de literatura universal e/ou nacional.
É sobre esse tipo de coisa que estou a reclamar cá convosco, leitor. Sobre gente que passou mais anos que a média na escola, está estudando ou já se formou nas universidades mais prestigiadas do país, mas caminha pelo universo eminentemente humano tradicionalmente alcunhado de "cultura" como se, cego, pisasse em ovos.
Daí que julgo possuir um bom método de avaliação de uma elite de qualquer país: escolha aleatoriamente três ou quatro estudantes das melhores universidades, diga que você adora o Quarteto de cordas em ré menor KV 421, em especial o terceiro movimento, e observe atentamente a reação geral. Se praticamente todos fizerem alguma careta, pode ter certeza, leitor: são brasileiros com orgulho, e não desistem nunca de serem os mocorongos felizes com seu status.
Para que o leitor faça uma idéia do descalabro, darei um exemplo: certa vez alguém ficou admirado por eu estar com um cd da ópera Sigfried na mão. "Wagner? Nossa...", o alguém proferiu, e em seguida fez uma cara de quem ficou mui impressionado. "Mas que coisa bizarra", pensei, "que tem de mais isso?" Depois fui notando como em geral a reação de muitos quando eu dizia que ia ao Municipal era a mesma. A carranca era idêntica. E meu pensamento não mudava: "Mas que coisa...". Acontece, porém, que na quase totalidade dos casos isso se dava com gente teoricamente instruída - mais que a média -, e que também teoricamente deveria considerar Sigfried natural. Natural e quase obrigatório (para o bem ou para o mal).
No entanto, esse povo, a maior parte da tal da elite cultural do país, parece se sentir mais à vontade com sua Bossa Nova - ou, no pior dos casos, com aqueles semi-anencéfalos (termo em moda) drogados que se julgam artistas sublimes.
É totalmente constrangedor, num ambiente desses, dizer que adoro por exemplo Bach. Não sou um conhecedor erudito, mas aos olhos da multidão (leia-se: a maior parte da elite cultural do país) passo miraculosamente a sê-lo. Caso então eu diga por extenso e devagar o nome de uma obra sua qualquer(por exemplo, uma cantata que gosto muito, Ach wie flüchtig, ach wie nichtig (Ah, quão fugaz, quão fútil é a vida dos homens, BWV 26)), presumivelmente isso servirá para impressionar duplamente: primeiro, porque é música de Bach, e segundo, porque é alemão, e nomes germânicos (e cultura alemã em geral) costumam causar furor por essas plagas.
Aliás, por falar em Bach, lembrei de um pequeno incidente lamentável: estava eu conversando sobre música com um sujeito teoricamente mais instruído que a média quando, ao ser perguntado sobre que músicas eu costumava ouvir em casa, respondi "Bach". "Hã?", perguntou-me o infeliz, fazendo as caretas de praxe nesse tipo de situação. "Bach", tornei a responder. "Bar? Como assim?", ele ousou dizer. "Bach, o compositor alemão", eu disse meio constrangido. "Nunca ouvi falar", finalizou às tontas, e mudou de assunto.
Nem me darei ao trabalho de citar outros exemplos que comprovam um desconhecimento total, absoluto e esmagador de alguma noção de literatura universal e/ou nacional.
É sobre esse tipo de coisa que estou a reclamar cá convosco, leitor. Sobre gente que passou mais anos que a média na escola, está estudando ou já se formou nas universidades mais prestigiadas do país, mas caminha pelo universo eminentemente humano tradicionalmente alcunhado de "cultura" como se, cego, pisasse em ovos.
Daí que julgo possuir um bom método de avaliação de uma elite de qualquer país: escolha aleatoriamente três ou quatro estudantes das melhores universidades, diga que você adora o Quarteto de cordas em ré menor KV 421, em especial o terceiro movimento, e observe atentamente a reação geral. Se praticamente todos fizerem alguma careta, pode ter certeza, leitor: são brasileiros com orgulho, e não desistem nunca de serem os mocorongos felizes com seu status.
Sunday, January 23, 2005
Minha história da "estória"
A cada dia que passa mais eu confirmo minha imbecilidade. O leitor pensa que assumo tal coisa com a alma alegre e disposta a encontrar a luz fora da caverna? Engana-se! Em 99,9% dos casos, tenho a vontade de mergulhar num mutismo absoluto e opressivo, mutismo esse que sempre transforme minha cabeça em bigorna para continuamente ressoar quão pobre de alma estou.
Hoje foi um desses dias, o dia que, além de comprovar o que acabei de dizer, também comprovei a lástima de minha educação.
O negócio foi o seguinte: fui passear pelo blog do Ruy Goiaba e li o texto Oh, life is bigger. Até aí tudo bem (o texto, por sinal, é bem legal). Na parte de comentários, ele disse que "estória" era um neologismo bocó e que os dicionaristas não o seguiram. Quem começou com essa história toda foi Guimarães Rosa, e os livros da Ediouro logo divulgaram essa distinção (história/fato e estória/ficção).
Eu fui alfabetizado com o diacho dessa distinção. Lembro bem de uma série de professores comentando sobre ela e inclusive acho que na própria faculdade ouvi algo a respeito. Logo, tudo aquilo me deixou confuso: tratei de pegar meu Dicionário prático ilustrado (1960); não encontrei "estória" nenhuma. Então apelei para o terceiro volume do dicionário do Laudelino Freire (1954): nadica de nada. Então surtei...
Faço questão de lembrar ao leitor que em situações assim eu jamais confio em dicionários de bolso, ainda mais dessas edições recentes.
Demorei um tempinho para voltar ao normal, após ter praguejado (mais uma vez) contra minha (má) formação. Por sinal, paulatinamente vou me tornando uma espécie de gnóstico neste tipo de situação, imaginando que ela, minha formação, foi uma pegadinha feita por alguma divindade malvada apenas para me fazer sofrer nesta débil existência.
Oh vida, meus caros... Cheguei a conclusão que ela é ao menos uma constante limpeza das porcarias do passado. Então, amigos, estou aqui lavando minha roupa suja. E a partir deste dia, onde vocês leram a palavra estória saída destes meus magros dedos, entendam história - e suspensos todos os dispositivos em contrário...
Hoje foi um desses dias, o dia que, além de comprovar o que acabei de dizer, também comprovei a lástima de minha educação.
O negócio foi o seguinte: fui passear pelo blog do Ruy Goiaba e li o texto Oh, life is bigger. Até aí tudo bem (o texto, por sinal, é bem legal). Na parte de comentários, ele disse que "estória" era um neologismo bocó e que os dicionaristas não o seguiram. Quem começou com essa história toda foi Guimarães Rosa, e os livros da Ediouro logo divulgaram essa distinção (história/fato e estória/ficção).
Eu fui alfabetizado com o diacho dessa distinção. Lembro bem de uma série de professores comentando sobre ela e inclusive acho que na própria faculdade ouvi algo a respeito. Logo, tudo aquilo me deixou confuso: tratei de pegar meu Dicionário prático ilustrado (1960); não encontrei "estória" nenhuma. Então apelei para o terceiro volume do dicionário do Laudelino Freire (1954): nadica de nada. Então surtei...
Faço questão de lembrar ao leitor que em situações assim eu jamais confio em dicionários de bolso, ainda mais dessas edições recentes.
Demorei um tempinho para voltar ao normal, após ter praguejado (mais uma vez) contra minha (má) formação. Por sinal, paulatinamente vou me tornando uma espécie de gnóstico neste tipo de situação, imaginando que ela, minha formação, foi uma pegadinha feita por alguma divindade malvada apenas para me fazer sofrer nesta débil existência.
Oh vida, meus caros... Cheguei a conclusão que ela é ao menos uma constante limpeza das porcarias do passado. Então, amigos, estou aqui lavando minha roupa suja. E a partir deste dia, onde vocês leram a palavra estória saída destes meus magros dedos, entendam história - e suspensos todos os dispositivos em contrário...
Friday, January 21, 2005
Vida que insiste em ser vivida
Vida que insiste em ser vivida,
Por que não cessa de uma só vez
Este tormento que me alucina,
Que transtorna minha vista,
Que desmembra meu corpo todo
E, como água, espalha-o no chão
Para me confundir completamente?
De que adianta erguer meu rosto
Para contemplar, admirado, apenas
Um ponto luzente no céu escuro,
Se dele não ouço coisa alguma,
Se um palmo sequer meus olhos vêem,
Se sou atacado por todos os lados
Por uma dúzia de monstros de chifre?
Ah!, se tenho sede - e sede terrível -,
Como posso ao menos dizer algo
Se não sei o que pensar ou mesmo
Para quem me dirigir, e se a idéia,
Que de repente queima minha mente,
Surge confusa na minha garganta
Mas a língua gruda no céu da boca?
A única coisa firme que sinto aqui
É o chão sob meus pés: será que
A vida a ser vivida é um arrastar-se
Perpétuo na relva para, me humilhando
Aos olhos do povo, eu prosseguir
Aos poucos adiante, nunca mais
Ouvindo, enxergando ou falando?
Por que não cessa de uma só vez
Este tormento que me alucina,
Que transtorna minha vista,
Que desmembra meu corpo todo
E, como água, espalha-o no chão
Para me confundir completamente?
De que adianta erguer meu rosto
Para contemplar, admirado, apenas
Um ponto luzente no céu escuro,
Se dele não ouço coisa alguma,
Se um palmo sequer meus olhos vêem,
Se sou atacado por todos os lados
Por uma dúzia de monstros de chifre?
Ah!, se tenho sede - e sede terrível -,
Como posso ao menos dizer algo
Se não sei o que pensar ou mesmo
Para quem me dirigir, e se a idéia,
Que de repente queima minha mente,
Surge confusa na minha garganta
Mas a língua gruda no céu da boca?
A única coisa firme que sinto aqui
É o chão sob meus pés: será que
A vida a ser vivida é um arrastar-se
Perpétuo na relva para, me humilhando
Aos olhos do povo, eu prosseguir
Aos poucos adiante, nunca mais
Ouvindo, enxergando ou falando?
Wednesday, January 19, 2005
Alexander
Se o leitor achou que pelo título eu faria algum comentário geral sobre o filme de Oliver Stone, enganou-se. Pode conseguir coisa assim lendo uma entrevista com um historiador ou comentários de alguém que detestou o filme.
Posso até imaginar alguém se perguntando: Mas então esse sujeito quer escrever sobre o quê? Ora, Aristóteles aparece no filme. E meus ouvidos aguçados iguais a um bicho-que-não-lembro perceberam uma coisa estranha, dessas que só gente neurótica faz questão de perceber e corrigir. Quando em off a voz de Ptolomeu (ele é o narrador do filme) apresenta Aristóteles, diz o seguinte: "(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)", ou coisa parecida. Foi esquisito, mas deixemos por enquanto isso de lado para primeiramente vermos como ficou Aristóteles depois de quase dois mil e trezentos anos após sua morte aqui.
Quem incorporou o Estagirita foi Christopher Plummer, que se não me engano fez A queda do Império Romano. Bom, para quem não sabe, Aristóteles, quando tutor de Alexandre, tinha uns 43 anos anos. Ora, tudo bem que Plummer poderia passar por um Aristóteles mais velho, porém se com aquela idade Aristóteles tinha já cabelo e barba tão branca, além de andar de bengala, então parece que naquela época as pessoas eram mais acabadas. E pior de tudo que ginásios havia para se exercitar, o que talvez demonstre que o pobre Estagirita ou tinha algum problema genético ou, além de ter levado uma vida extremamente sedentária, se rendeu à bebida e às noites áticas em sua juventude, contrariando sua própria Ética e o que aprendeu de Platão. Ou, ainda, parecia que tinha mais de sessenta por causa de um longo desgaste físico devido aos seus fatigantes estudos, o que redimiria seu visual para a história.
Além do problema da velhice precoce, houve aquele outro que citei linhas acima ("(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)"). Quem disse isso foi Ptolomeu (Anthony Hopkins) já bem idoso, o que talvez demonstre que já estava meio esclerosado. A frase é equívoca. O leitor pode justamente se perguntar se Ptolomeu gagá/Hopkins quis dizer que Aristóteles apenas saiu de Atenas para ensinar Alexandre ou se Aristóteles era ateniense, pois era normal no mundo grego as pessoas terem como sobrenome seus locais de nascimento (cidades e aldeias). Porém ambas as hipóteses são falsas. A primeira porque Aristóteles não veio de Atenas, mas de Mitilene, para lecionar a Alexandre (se o leitor tiver curiosidade sobre o assunto, pode ler o Aristóteles, segunda parte, cap.V, de Werner Jaeger ou simplesmente entrar neste site e conferir.); a segunda pelo simples fato de Aristóteles ter nascido na Estagira, pequena cidade na Trácia perto da Macedônia e bem distante de Atenas.
Fora isso, não lembro de mais nada para reclamar sobre a participação do Estagirita no filme. Ao menos por enquanto. É que gente neurótica como eu gosta de esmiuçar tudo nos mínimos detalhes e reclamar sem parar, tanto que estou comentando sobre um personagem que não apareceu nem por dez miseráveis minutos num filme de três horas e que não teve importância quase nenhuma para o enredo. Agora, sobre o filme mesmo, não direi nada, pois basta lembrarmos um Alexandre Magno igual ao Colin Farrell.
Posso até imaginar alguém se perguntando: Mas então esse sujeito quer escrever sobre o quê? Ora, Aristóteles aparece no filme. E meus ouvidos aguçados iguais a um bicho-que-não-lembro perceberam uma coisa estranha, dessas que só gente neurótica faz questão de perceber e corrigir. Quando em off a voz de Ptolomeu (ele é o narrador do filme) apresenta Aristóteles, diz o seguinte: "(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)", ou coisa parecida. Foi esquisito, mas deixemos por enquanto isso de lado para primeiramente vermos como ficou Aristóteles depois de quase dois mil e trezentos anos após sua morte aqui.
Quem incorporou o Estagirita foi Christopher Plummer, que se não me engano fez A queda do Império Romano. Bom, para quem não sabe, Aristóteles, quando tutor de Alexandre, tinha uns 43 anos anos. Ora, tudo bem que Plummer poderia passar por um Aristóteles mais velho, porém se com aquela idade Aristóteles tinha já cabelo e barba tão branca, além de andar de bengala, então parece que naquela época as pessoas eram mais acabadas. E pior de tudo que ginásios havia para se exercitar, o que talvez demonstre que o pobre Estagirita ou tinha algum problema genético ou, além de ter levado uma vida extremamente sedentária, se rendeu à bebida e às noites áticas em sua juventude, contrariando sua própria Ética e o que aprendeu de Platão. Ou, ainda, parecia que tinha mais de sessenta por causa de um longo desgaste físico devido aos seus fatigantes estudos, o que redimiria seu visual para a história.
Além do problema da velhice precoce, houve aquele outro que citei linhas acima ("(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)"). Quem disse isso foi Ptolomeu (Anthony Hopkins) já bem idoso, o que talvez demonstre que já estava meio esclerosado. A frase é equívoca. O leitor pode justamente se perguntar se Ptolomeu gagá/Hopkins quis dizer que Aristóteles apenas saiu de Atenas para ensinar Alexandre ou se Aristóteles era ateniense, pois era normal no mundo grego as pessoas terem como sobrenome seus locais de nascimento (cidades e aldeias). Porém ambas as hipóteses são falsas. A primeira porque Aristóteles não veio de Atenas, mas de Mitilene, para lecionar a Alexandre (se o leitor tiver curiosidade sobre o assunto, pode ler o Aristóteles, segunda parte, cap.V, de Werner Jaeger ou simplesmente entrar neste site e conferir.); a segunda pelo simples fato de Aristóteles ter nascido na Estagira, pequena cidade na Trácia perto da Macedônia e bem distante de Atenas.
Fora isso, não lembro de mais nada para reclamar sobre a participação do Estagirita no filme. Ao menos por enquanto. É que gente neurótica como eu gosta de esmiuçar tudo nos mínimos detalhes e reclamar sem parar, tanto que estou comentando sobre um personagem que não apareceu nem por dez miseráveis minutos num filme de três horas e que não teve importância quase nenhuma para o enredo. Agora, sobre o filme mesmo, não direi nada, pois basta lembrarmos um Alexandre Magno igual ao Colin Farrell.
Sunday, January 16, 2005
Samba do Estagirita
Um dos meus planos para este ano é enfim compor um samba em homenagem ao Estagirita. Faz mais ou menos um ano que planejo isso mas por incompetência não consegui nada mais que este comecinho:
(solta a bateria da minha escola de coração, vai!)
Lá na Estagira, há alguns milênios atrás atrás,
que seria cantado assim:
Lááá na Estagiiiiiira, há alguns milênios a-trááás...
Não consigo desenvolver mais nada. Não sei se é o começo que nasceu ruim ou é o tema que, por natureza, é anti-samba-enredo.
Oh sim, por enquanto não tem nome. E nem sei se terá. Mas, em todo caso, se não sair como samba, há de ser como algum ritmo musical.
(solta a bateria da minha escola de coração, vai!)
Lá na Estagira, há alguns milênios atrás atrás,
que seria cantado assim:
Lááá na Estagiiiiiira, há alguns milênios a-trááás...
Não consigo desenvolver mais nada. Não sei se é o começo que nasceu ruim ou é o tema que, por natureza, é anti-samba-enredo.
Oh sim, por enquanto não tem nome. E nem sei se terá. Mas, em todo caso, se não sair como samba, há de ser como algum ritmo musical.
O Corpo
Juro que tentei com boa vontade assistir O Corpo; não deu. Mal o filme começara e já estava instalado um clima pseudos: uma arqueóloga atéia (Olivia Williams) descobre uma ossada que supostamente seria de Jesus. O Vaticano envia então um jesuíta (Antonio Banderas) para investigar esse acontecimento e ambos, padre e arqueóloga, se vêem metidos numa trama sórdida. Que coisas óbvias provavelmente ocorrerão no filme e que nem precisamos ver o resto para saber?
uno: Discussões do tipo “religião versus ciência”;
duo: Padre posteriormente tendo crise de fé
tres: Arqueóloga também posteriormente tendo crise de fé;
quattuor: Clima entre padre e arqueóloga, etc.
Minha paciência não cessou durante os três minutos iniciais – que geralmente já indicam se um filme é ou não bom –, mas sim num diálogo especialmente bobo entre os protagonistas. Depois do padre apelar inutilmente para a relativização da verdade à arqueóloga (“você tem de enxergar também com minha verdade”, que coisa!), o jesuíta pateticamente disse mais ou menos o seguinte:
- Mas você não pode prosseguir com isso, milhões de pessoas acreditam que Jesus é Deus, isso acabará com a fé delas!
Se um jesuíta argumentasse assim comigo e tivesse suas idéias amparadas pelo Vaticano, julgo que eu escolheria entre duas alternativas: a) me converteria ao islamismo ou judaísmo; b) suporia que tudo aquilo era o prenúncio do fim dos tempos. Convenhamos, ora bolas: um jesuíta enviado especialmente pelo Vaticano defender a fé católica dizendo que seria melhor esconder que o catolicismo era realmente uma mentira para não chocar as pessoas... só faltava depois comentar alegremente sobre o movimento Economia e Humanismo, fundado pelo Pe. Lebret e pelo Pe. Desroches. E se não me engano, Banderas era um padre de El Salvador convertido tardiamente. Bem que não seria estranho se ele inclusive fizesse alguma menção à teologia da libertação...
Essa argumentação singular do jesuíta não deve, presumo, encontrar apoio em nenhuma parte das Escrituras, nem nos Santos Padres e nem na tradição da Igreja. Pois não é humanamente possível que uma religião de dois mil anos, defendida por uma multidão de filósofos, possua suas bases em algo tão chinfrim.
Isso foi o bastante para eu desligar a TV. Aliás, já que o assunto deste texto versa sobre fé, imaginei um filme onde “descobrissem” (como se os estudiosos do assunto já não soubessem) que Galileu, o fundador da ciência experimental, estava completamente errado e a Inquisição certa. Ou um filme sobre a vida de Karl Marx, mostrando, entre outras coisas muito apreciáveis, o episódio em que, malgrado seus protestos contra o tratamento dado pelos patrões às suas domésticas, ele expulsa de casa sua doméstica por tê-la engravidado, ou o episódio em que ele, escrevendo O Capital (refutado há mais de cem anos), percebendo que estatisticamente o proletariado melhorava de vida graças ao capitalismo, utiliza dados de trinta anos antes para supostamente mostrar como eles viviam na miséria.
* * *
Para finalizar, embora eu não tenha lido O Código Da Vinci, a opinião de algumas pessoas que o leram e que julgo inteligentes me fez achar que é mais uma obra pseudos, dessas para ganhar dinheiro às custas da ignorância alheia. Confiando nessa boa gente, tratarei de seguir o conselho de Bismarck – “a gente aprende com erro dos outros” – e procurarei ler o que todo mundo deveria: os clássicos. Entenda o leitor que me refiro a um plano de leitura baseado na educação liberal tal como ensinava Mortimer J. Adler. E isso leva um certo tempo. E se é para perder tempo, que seja com Civilization, embora eu ainda cisme com a civilopédia da segunda versão, onde diz que o comunismo é um ideal nunca realizado na história.
uno: Discussões do tipo “religião versus ciência”;
duo: Padre posteriormente tendo crise de fé
tres: Arqueóloga também posteriormente tendo crise de fé;
quattuor: Clima entre padre e arqueóloga, etc.
Minha paciência não cessou durante os três minutos iniciais – que geralmente já indicam se um filme é ou não bom –, mas sim num diálogo especialmente bobo entre os protagonistas. Depois do padre apelar inutilmente para a relativização da verdade à arqueóloga (“você tem de enxergar também com minha verdade”, que coisa!), o jesuíta pateticamente disse mais ou menos o seguinte:
- Mas você não pode prosseguir com isso, milhões de pessoas acreditam que Jesus é Deus, isso acabará com a fé delas!
Se um jesuíta argumentasse assim comigo e tivesse suas idéias amparadas pelo Vaticano, julgo que eu escolheria entre duas alternativas: a) me converteria ao islamismo ou judaísmo; b) suporia que tudo aquilo era o prenúncio do fim dos tempos. Convenhamos, ora bolas: um jesuíta enviado especialmente pelo Vaticano defender a fé católica dizendo que seria melhor esconder que o catolicismo era realmente uma mentira para não chocar as pessoas... só faltava depois comentar alegremente sobre o movimento Economia e Humanismo, fundado pelo Pe. Lebret e pelo Pe. Desroches. E se não me engano, Banderas era um padre de El Salvador convertido tardiamente. Bem que não seria estranho se ele inclusive fizesse alguma menção à teologia da libertação...
Essa argumentação singular do jesuíta não deve, presumo, encontrar apoio em nenhuma parte das Escrituras, nem nos Santos Padres e nem na tradição da Igreja. Pois não é humanamente possível que uma religião de dois mil anos, defendida por uma multidão de filósofos, possua suas bases em algo tão chinfrim.
Isso foi o bastante para eu desligar a TV. Aliás, já que o assunto deste texto versa sobre fé, imaginei um filme onde “descobrissem” (como se os estudiosos do assunto já não soubessem) que Galileu, o fundador da ciência experimental, estava completamente errado e a Inquisição certa. Ou um filme sobre a vida de Karl Marx, mostrando, entre outras coisas muito apreciáveis, o episódio em que, malgrado seus protestos contra o tratamento dado pelos patrões às suas domésticas, ele expulsa de casa sua doméstica por tê-la engravidado, ou o episódio em que ele, escrevendo O Capital (refutado há mais de cem anos), percebendo que estatisticamente o proletariado melhorava de vida graças ao capitalismo, utiliza dados de trinta anos antes para supostamente mostrar como eles viviam na miséria.
* * *
Para finalizar, embora eu não tenha lido O Código Da Vinci, a opinião de algumas pessoas que o leram e que julgo inteligentes me fez achar que é mais uma obra pseudos, dessas para ganhar dinheiro às custas da ignorância alheia. Confiando nessa boa gente, tratarei de seguir o conselho de Bismarck – “a gente aprende com erro dos outros” – e procurarei ler o que todo mundo deveria: os clássicos. Entenda o leitor que me refiro a um plano de leitura baseado na educação liberal tal como ensinava Mortimer J. Adler. E isso leva um certo tempo. E se é para perder tempo, que seja com Civilization, embora eu ainda cisme com a civilopédia da segunda versão, onde diz que o comunismo é um ideal nunca realizado na história.
Tuesday, January 11, 2005
Do comportamento do público em salas de concerto
Por acaso, pulando de canal em canal, peguei pela metade o Oratório de Natal de Bach. Como elogiar essa obra é querer explicar ao leitor que o fogo queima, digo apenas uma coisa: que a platéia sempre se supera nesse tipo de evento. Ora, imagine só, leitor: numa obra de mais de uma hora, a platéia aplaudindo a cada término de ária ou duo... Nos quinze minutos finais, provavelmente com a mão já em carne viva, o público parou de se intrometer. Ainda bem; imagino que simbolicamente foi Bach que do Céu usava a palmatória naquela gente mal-educada.
Interrupções fora de hora, ao menos em concertos, são coisas de praxe por estas plagas verde-amarelas. Não sei dizer como é lá fora; mas aqui a coisa chega a um nível absurdo. Coisas de brasileiro, coisas de brasileiro...
Já prevendo algumas (más) reações devido a minha simpática alusão aos brasileiros, peço licença para contar algo que eu presenciei com estes olhos muxoxos que a terra há de comer e passar mal: eu e meu amigo Thiago fôramos ao Theatro Municipal (aqui no Rio) assistir a alguns trechos de Beethoven, se não me engano no ano passado ou retrasado. Pois bem, a orquestra tocava o último movimento da Nona, quando, no meio da parte coral, após uns dez minutos, quando o coral silenciava para a entrada do tenor (no verso Und der Cherub steht vor Gott), de repente a platéia veio abaixo. As pessoas começaram a aplaudir freneticamente, provavelmente achando que a música terminara por ali mesmo. É verdade, admito, que aquele trecho é bem empolgante, mas daí interromper a música é demais. Não lembro bem, mas acho que inclusive houve um princípio de u-hu!, que graças aos céus morreu prematuro. Naquele fatídico instante, meu corpo se contraiu de tal maneira e meus olhos, pasmos, procuravam com tal ênfase uma explicação visível para aquilo que possivelmente meu amigo deve ter se assustado comigo. Acho que ele mais tarde até confessou que já ia aplaudir – oh, desejo mimético! -, mas se viu inibido ante minha expressão de horror.
Um público despreparado é sempre imprevisível. Imagine o leitor um tatu-bola que seja perseguido por agentes do FBI munidos daquelas armas que dão choques, e eventualmente acabe por ser acertado uma ou duas vezes: coisa tão esquisita quanto à percepção do público ouvindo a Nona. Veja bem, não estou aqui dizendo que apenas criaturas intelectualizadas têm a capacidade de ouvir Beethoven, mas sim que uma gafe é bem provável caso não estivermos adestrados o suficiente para enfrentar certas situações.
Noutra ocasião, acho que no início do ano passado, também no Municipal, à medida que o coro ia entrando as pessoas aplaudiam. O problema todo era que as pessoas aplaudiam a cada fileira que entrava, pois o coro era grande, o que tornava os aplausos intermináveis: eles iam terminando quando de repente uma nova fileira surgia do nada; então retornava o frisson popular. Evidente que aquilo deu no saco. A impressão que dava é que ninguém agüentava mais aplaudir, mas por uma idiotice qualquer não cessavam. Enfim, até o bom-senso dessa gente não funciona em questão tão prática: se era para aplaudir, que assim fizesse quando o maestro surgisse, reservando a bateção para o final. Fiquei com vontade de tirar meus sapatos e batê-los um no outro para ver se o ridículo da situação fizesse com que o frisson baixasse.
E quanto àqueles pequenos ruídos que o público sempre reserva para o momento imediatamente anterior à execução da música? Barulhos pequenos, porém praticados de maneira tão persistente e sincronizada que julgo não ser de todo temerário supor que em meio ao público se forma, por natureza, neste instante, uma espécie de “orquestra paralela”, provando assim empiricamente que todos os homens são músicos em potencial. Talvez pela ânsia de provar que ainda está vivo, embora calado e em ambiente escuro, o público faz as cadeiras rangerem, sussurra de maneira que todos ouçam, chora – literalmente, conquanto (pelo menos que eu tenha presenciado) apenas as criancinhas –, tosse de forma assustadora, etc. Isso sem contar com um ou outro velho que parece não ligar muito para as convenções sociais e insiste em falar alto, aborrecendo-se quando reprimido. Isso me fez lembrar um conhecido meu, que com seus quase sessenta anos teve a autoridade de me dizer que “esses velhos acham que só porque são velhos podem fazer o que querem” (sic), após ouvir um senhor que lamentavelmente cismava em gritar após o alerta para o início do espetáculo.
Eu ia reclamar de mais algumas coisas a respeito do comportamento do público (quando não é o pessoal do próprio espetáculo que causa vexame: vivem dizendo que em teatro o pessoal da fileira da frente recebe uma ducha de saliva dos atores babões. Isso sem contar os espetáculos ditos de "vanguarda", nos quais o pobre-diabo do espectador paga para ser feito de gato-e-sapato pelos supostos artistas; ou mesmo aqueles pobres miseráveis que pagaram não-sei-quantos-reais para assistir Caetano Veloso sendo despido até ficar com o bumbum murcho de fora. É por essas e outras que não vou ao teatro, já que não costumo pagar para ser tratado, à semelhança dos masoquistas, como um vira-lata pulguento.), porém estes pequenos exemplos bastam para aqueles que já têm uma certa experiência nestas coisas. E para quem não tem, que faça como eu próprio fiz nas primeiras idas ao Municipal: vai acompanhado por alguém mais sábio, e só cometa a audácia de aplaudir não quando a chusma assim o fizer, mas tão-somente quando o sábio assim o fizer.
Marido e mulher deveriam aplicar a base deste princípio em seu relacionamento mútuo, e então seriam para sempre felizes. Mas perdão, leitor, por essa inferência aparentemente desconexa. É um subplot de um futuro texto, tenha paciência...
Interrupções fora de hora, ao menos em concertos, são coisas de praxe por estas plagas verde-amarelas. Não sei dizer como é lá fora; mas aqui a coisa chega a um nível absurdo. Coisas de brasileiro, coisas de brasileiro...
Já prevendo algumas (más) reações devido a minha simpática alusão aos brasileiros, peço licença para contar algo que eu presenciei com estes olhos muxoxos que a terra há de comer e passar mal: eu e meu amigo Thiago fôramos ao Theatro Municipal (aqui no Rio) assistir a alguns trechos de Beethoven, se não me engano no ano passado ou retrasado. Pois bem, a orquestra tocava o último movimento da Nona, quando, no meio da parte coral, após uns dez minutos, quando o coral silenciava para a entrada do tenor (no verso Und der Cherub steht vor Gott), de repente a platéia veio abaixo. As pessoas começaram a aplaudir freneticamente, provavelmente achando que a música terminara por ali mesmo. É verdade, admito, que aquele trecho é bem empolgante, mas daí interromper a música é demais. Não lembro bem, mas acho que inclusive houve um princípio de u-hu!, que graças aos céus morreu prematuro. Naquele fatídico instante, meu corpo se contraiu de tal maneira e meus olhos, pasmos, procuravam com tal ênfase uma explicação visível para aquilo que possivelmente meu amigo deve ter se assustado comigo. Acho que ele mais tarde até confessou que já ia aplaudir – oh, desejo mimético! -, mas se viu inibido ante minha expressão de horror.
Um público despreparado é sempre imprevisível. Imagine o leitor um tatu-bola que seja perseguido por agentes do FBI munidos daquelas armas que dão choques, e eventualmente acabe por ser acertado uma ou duas vezes: coisa tão esquisita quanto à percepção do público ouvindo a Nona. Veja bem, não estou aqui dizendo que apenas criaturas intelectualizadas têm a capacidade de ouvir Beethoven, mas sim que uma gafe é bem provável caso não estivermos adestrados o suficiente para enfrentar certas situações.
Noutra ocasião, acho que no início do ano passado, também no Municipal, à medida que o coro ia entrando as pessoas aplaudiam. O problema todo era que as pessoas aplaudiam a cada fileira que entrava, pois o coro era grande, o que tornava os aplausos intermináveis: eles iam terminando quando de repente uma nova fileira surgia do nada; então retornava o frisson popular. Evidente que aquilo deu no saco. A impressão que dava é que ninguém agüentava mais aplaudir, mas por uma idiotice qualquer não cessavam. Enfim, até o bom-senso dessa gente não funciona em questão tão prática: se era para aplaudir, que assim fizesse quando o maestro surgisse, reservando a bateção para o final. Fiquei com vontade de tirar meus sapatos e batê-los um no outro para ver se o ridículo da situação fizesse com que o frisson baixasse.
E quanto àqueles pequenos ruídos que o público sempre reserva para o momento imediatamente anterior à execução da música? Barulhos pequenos, porém praticados de maneira tão persistente e sincronizada que julgo não ser de todo temerário supor que em meio ao público se forma, por natureza, neste instante, uma espécie de “orquestra paralela”, provando assim empiricamente que todos os homens são músicos em potencial. Talvez pela ânsia de provar que ainda está vivo, embora calado e em ambiente escuro, o público faz as cadeiras rangerem, sussurra de maneira que todos ouçam, chora – literalmente, conquanto (pelo menos que eu tenha presenciado) apenas as criancinhas –, tosse de forma assustadora, etc. Isso sem contar com um ou outro velho que parece não ligar muito para as convenções sociais e insiste em falar alto, aborrecendo-se quando reprimido. Isso me fez lembrar um conhecido meu, que com seus quase sessenta anos teve a autoridade de me dizer que “esses velhos acham que só porque são velhos podem fazer o que querem” (sic), após ouvir um senhor que lamentavelmente cismava em gritar após o alerta para o início do espetáculo.
Eu ia reclamar de mais algumas coisas a respeito do comportamento do público (quando não é o pessoal do próprio espetáculo que causa vexame: vivem dizendo que em teatro o pessoal da fileira da frente recebe uma ducha de saliva dos atores babões. Isso sem contar os espetáculos ditos de "vanguarda", nos quais o pobre-diabo do espectador paga para ser feito de gato-e-sapato pelos supostos artistas; ou mesmo aqueles pobres miseráveis que pagaram não-sei-quantos-reais para assistir Caetano Veloso sendo despido até ficar com o bumbum murcho de fora. É por essas e outras que não vou ao teatro, já que não costumo pagar para ser tratado, à semelhança dos masoquistas, como um vira-lata pulguento.), porém estes pequenos exemplos bastam para aqueles que já têm uma certa experiência nestas coisas. E para quem não tem, que faça como eu próprio fiz nas primeiras idas ao Municipal: vai acompanhado por alguém mais sábio, e só cometa a audácia de aplaudir não quando a chusma assim o fizer, mas tão-somente quando o sábio assim o fizer.
Marido e mulher deveriam aplicar a base deste princípio em seu relacionamento mútuo, e então seriam para sempre felizes. Mas perdão, leitor, por essa inferência aparentemente desconexa. É um subplot de um futuro texto, tenha paciência...
Saturday, December 04, 2004
A comovovente história do gordo que queria ser ator mas que não passava de uma máquina de lavar
O gordo se olhou no espelho e, com as mãos no rosto, exclamou:
-- Pelos deuses, pelos deuses... Por que não consigo ser ator de verdade? -- e logo em seguida passou o dedo indicador no umbigo só para sentir cosquinha e rir de si mesmo.
Para o (seu) cúmulo, o máximo que conseguira até então foi atuar em comerciais, porém sempre como um objeto inanimado. Aquilo o frustrava demais. Sua maior "fala" foi quando interpretou uma máquina de lavar, produzindo, por uns dez minutos (quatro segundos na edição) um barulho parecido com vvvvvvrrrrruuummmmm, chop, chop, chop, sendo inclusive aplaudido pela crítica. Continuava figura anônima, todavia, mas seus amigos sempre pediam para que interpretasse novamente a máquina de lavar, proposta que muito gentilmente declinava.
O gordo já estava cansado daquilo tudo. "Posso ser mais", pensava ele com inacreditável confiança em si mesmo, "bem mais que uma maldita máquina de lavar". Por um lado, isso até era verdade: já interpretara uma mesa. Mas ele queria ser mais que apenas um móvel ou um eletrodoméstico.
E o tempo lhe foi generoso, dando-lhe um pequeno papel numa sitcom (o leitor há de convir que não importa saber em qual programa o gordo foi atuar; o que importa é que diria enfim alguma coisa que não só onomatopéias). Logo no primeiro dia de filmagens, porém, ocorreu um bizarro incidente: enquanto ele, num canto, meditava acerca de sua participação, alguém lhe arremessou uma roupa encardida. O gordo riu, julgando ser aquilo uma espécie de trote; mas na segunda vez, terceira e dali por diante, sempre que ele estava no set, num cantinho, as pessoas continuavam a lhe arremessar roupas encardidas. Isso sem contar as vezes em que no meio da gravação o diretor, com um charuto no canto da boca, apontava para ele e berrava:
-- De novo largaram esse bagulho no meio do set! Ô produção, faz o favor de tirar isso daí! -- e lá ia o gordo explicar que o "bagulho" era ele próprio, o que levava sempre o diretor a dizer "chucrute, mil perdões!"
A situação foi aos poucos se tornando intolerável. Os atores o ignoravam, alegando que não viam ninguém à sua frente, exceto uma mesa, um pequeno armário ou, como de praxe, uma máquina de lavar. E, enfim, o diretor foi lhe fazer um pedido:
-- Olha, você até que está bem no papel, mas seria melhor ainda se interpretasse, sei lá, uma máquina de lavar... Que tal uma máquina de lavar, hein?
Ao ouvir tal proposta, o gordo perdeu o controle de si mesmo e, parecido com o uso habitual nos tempos dos Patriarcas de Israel, rasgou sua própria camisa, entre insultos dirigidos ao diretor -- insultos os quais deixo a cargo da imaginação pérfida do leitor. Atirou-se ao chão, rolando de um lado para o outro, ao mesmo tempo em que não parava de chorar.
O diretor, comovido, começou a lhe falar de modo suave:
-- Meu amigo, você tem de entender que não dá para se revoltar contra aquilo que se é. Você nasceu com um talento que ninguém tem. Nunca vi uma pessoa que se passasse tão bem por uma máquina de lavar.
O gordo se acalmava. Ergueu-se pesadamente, com o cabelo desalinhado, pança e rosto meio sujos, sentou-se e apenas soluçava. Então o diretor retirou do bolso dois charutos, oferecendo um ao triste homem, que muito gentilmente declinou. Tratou de acender o seu e, sorrindo, com uma mão no ombro do infeliz, continuou:
-- Você nasceu com um dom! Olha, para você ter idéia, juro por Deus que se eu estivesse distraído agorinha, agorinha, jogaria minha maldita cueca que está para lavar na tua cabeça! Você não faz idéia do que tem, não faz idéia, não faz...
-- Diretor, respondeu o gordo, obrigado, muito mesmo!
-- Oh, gordo...
-- Oh, diretor!
Ambos se abraçaram, emocionadíssimos, e só não se beijaram porque semelhante ato repugnava-lhes a natureza. Alguns que passavam perto daquela cena comovedora estranharam o fato de o diretor estar falando aparentemente com um armário, abraçando-o e chorando. "Já vi que hoje será um daqueles dias", pensou alguém.
E assim, investindo em seu próprio talento e com o auxílio do diretor, o gordo decolou em sua carreira. Tal foi seu sucesso que no Oscar chegaram a inventar a categoria melhor ator/atriz parecido com um móvel e/ou eletrodoméstico. Sylvester Stallone e Tom Cruise ganharam, é verdade, em certas ocasiões. Mas o gordo era quase imbatível, levando muitas estatuetas para sua luxuosa mansão, alcançando glória e opulência. E viveu em felicidade até o fim de seus dias.
-- Pelos deuses, pelos deuses... Por que não consigo ser ator de verdade? -- e logo em seguida passou o dedo indicador no umbigo só para sentir cosquinha e rir de si mesmo.
Para o (seu) cúmulo, o máximo que conseguira até então foi atuar em comerciais, porém sempre como um objeto inanimado. Aquilo o frustrava demais. Sua maior "fala" foi quando interpretou uma máquina de lavar, produzindo, por uns dez minutos (quatro segundos na edição) um barulho parecido com vvvvvvrrrrruuummmmm, chop, chop, chop, sendo inclusive aplaudido pela crítica. Continuava figura anônima, todavia, mas seus amigos sempre pediam para que interpretasse novamente a máquina de lavar, proposta que muito gentilmente declinava.
O gordo já estava cansado daquilo tudo. "Posso ser mais", pensava ele com inacreditável confiança em si mesmo, "bem mais que uma maldita máquina de lavar". Por um lado, isso até era verdade: já interpretara uma mesa. Mas ele queria ser mais que apenas um móvel ou um eletrodoméstico.
E o tempo lhe foi generoso, dando-lhe um pequeno papel numa sitcom (o leitor há de convir que não importa saber em qual programa o gordo foi atuar; o que importa é que diria enfim alguma coisa que não só onomatopéias). Logo no primeiro dia de filmagens, porém, ocorreu um bizarro incidente: enquanto ele, num canto, meditava acerca de sua participação, alguém lhe arremessou uma roupa encardida. O gordo riu, julgando ser aquilo uma espécie de trote; mas na segunda vez, terceira e dali por diante, sempre que ele estava no set, num cantinho, as pessoas continuavam a lhe arremessar roupas encardidas. Isso sem contar as vezes em que no meio da gravação o diretor, com um charuto no canto da boca, apontava para ele e berrava:
-- De novo largaram esse bagulho no meio do set! Ô produção, faz o favor de tirar isso daí! -- e lá ia o gordo explicar que o "bagulho" era ele próprio, o que levava sempre o diretor a dizer "chucrute, mil perdões!"
A situação foi aos poucos se tornando intolerável. Os atores o ignoravam, alegando que não viam ninguém à sua frente, exceto uma mesa, um pequeno armário ou, como de praxe, uma máquina de lavar. E, enfim, o diretor foi lhe fazer um pedido:
-- Olha, você até que está bem no papel, mas seria melhor ainda se interpretasse, sei lá, uma máquina de lavar... Que tal uma máquina de lavar, hein?
Ao ouvir tal proposta, o gordo perdeu o controle de si mesmo e, parecido com o uso habitual nos tempos dos Patriarcas de Israel, rasgou sua própria camisa, entre insultos dirigidos ao diretor -- insultos os quais deixo a cargo da imaginação pérfida do leitor. Atirou-se ao chão, rolando de um lado para o outro, ao mesmo tempo em que não parava de chorar.
O diretor, comovido, começou a lhe falar de modo suave:
-- Meu amigo, você tem de entender que não dá para se revoltar contra aquilo que se é. Você nasceu com um talento que ninguém tem. Nunca vi uma pessoa que se passasse tão bem por uma máquina de lavar.
O gordo se acalmava. Ergueu-se pesadamente, com o cabelo desalinhado, pança e rosto meio sujos, sentou-se e apenas soluçava. Então o diretor retirou do bolso dois charutos, oferecendo um ao triste homem, que muito gentilmente declinou. Tratou de acender o seu e, sorrindo, com uma mão no ombro do infeliz, continuou:
-- Você nasceu com um dom! Olha, para você ter idéia, juro por Deus que se eu estivesse distraído agorinha, agorinha, jogaria minha maldita cueca que está para lavar na tua cabeça! Você não faz idéia do que tem, não faz idéia, não faz...
-- Diretor, respondeu o gordo, obrigado, muito mesmo!
-- Oh, gordo...
-- Oh, diretor!
Ambos se abraçaram, emocionadíssimos, e só não se beijaram porque semelhante ato repugnava-lhes a natureza. Alguns que passavam perto daquela cena comovedora estranharam o fato de o diretor estar falando aparentemente com um armário, abraçando-o e chorando. "Já vi que hoje será um daqueles dias", pensou alguém.
E assim, investindo em seu próprio talento e com o auxílio do diretor, o gordo decolou em sua carreira. Tal foi seu sucesso que no Oscar chegaram a inventar a categoria melhor ator/atriz parecido com um móvel e/ou eletrodoméstico. Sylvester Stallone e Tom Cruise ganharam, é verdade, em certas ocasiões. Mas o gordo era quase imbatível, levando muitas estatuetas para sua luxuosa mansão, alcançando glória e opulência. E viveu em felicidade até o fim de seus dias.
Friday, December 03, 2004
Bravo mundo
Joana era uma dessas pessoas que, segundo alguns, é conscientizada. Lê demais, e tudo que chega em suas mãos ela devora em dois, três dias de leitura.
É uma moça jovem, de futuro promissor na nação. Além do mais, talvez por sua postura conscientizada, ela é, segundo outros, acima de tudo lésbica. Sim, lésbica über alles. E por sua tendência em criar discussões, ela sempre foi, quanto a isto, uma pessoa exemplar – exemplar em buscar todo e qualquer tipo de argumento para defender sua causa.
Joana era, por isso mesmo, uma pessoa bastante peculiar. Não lhe interessava se nas suas discussões ela se batia contra dois mil anos de tradição cristã, ou mais de três mil de judaica, ou toda a filosofia grega, em suma, tudo o que constitui a razão de ser do Ocidente. Não, ela nem pensava em nada disso, preferia antes arremessar todo este legado na lata do lixo que ao menos cogitar acerca de suas paixões irracionais corpóreas. Pois tudo se resume a apenas essa dicotomia, segundo a mente de Joana: todos os escritos dos Santos Padres, acrescentados aos de muitos papas, filósofos e ensaístas, que no total dariam uma quantidade de páginas tão volumosa que apenas em muitas vidas alguém obteria seu pleno conhecimento, contra seu discurso pela liberdade e sua vontade e seu empenho em se fazer aceita – e quem ela julgava participar de sua mesma condição, ainda que às custas deste mesmo legado.
***
Renato era praticante da poligamia. Considerava-se também, sob muitos aspectos, bastante inteligente: afinal de contas, lia sem parar, vinha de família abastada – conquanto ele não fosse, é verdade, uma pessoa esnobe – e já se acostumara a esmagar aquilo que ele próprio chamava de “mediocridade reinante”, isto é, refutar de trás para frente e de frente para trás todo e qualquer tipo de argumento que fosse contrário ao seu peculiar estilo de vida.
Era uma pessoa agradável, simpática e gostava muito de escrever, já tendo publicado, com menos de trinta anos, dois romances, ambos sobre os problemas que a monogamia proporciona à nossa felicidade (melhor seria dizer “à dele”). Foi bem recebido pela crítica, e de fato era muito bem escrito e argumentado. Mas ele caía no mesmo problema que Joana: por trás de todo seu talento ele buscava no fundo se justificar e a todos aqueles que praticavam o que ele próprio praticava às custas de todo um mar de gênios que, desde Moisés até nossos dias, defendem a monogamia. Na verdade, o ataque deste nosso jovem talento, que começava apenas neste pequeno aspecto, isto é, na questão do amor livre, aos poucos se alastrava para um ataque à Bíblia, à filosofia, à sociedade e tudo o que ele considerava como oposto à liberdade (melhor seria dizer “à sua liberdade”). De repente, ele se tornara não apenas um apologista de uma pretensa liberdade, mas um verdadeiro carrasco do tal “legado judaico-cristão”. “Tradição, dizia Renato, nada mais é que máscara e hipocrisia”.
***
Por último, Tereza. Ela é mais uma jovem talentosa – possui apenas 21 anos. Tão jovem, ela é bastante confiante em si mesma, a ponto de dizer que nunca fez algo que se arrependesse. Curiosa opinião! Além do mais, ela é dada a discussões, como Joana. Mas – outra coisa curiosa – ela buscava sempre julgar pessoas e acontecimentos segundo os motivos mais licenciosos possíveis. Por exemplo, se alguém fizesse algo bom, na verdade havia algo de podre por trás. Daí que ela não podia conceber Cristo, que morreu na cruz para apenas nos salvar. Muito menos, ela mesma dizia, era possível levar a sério a hipótese de alguém ir à guerra por razões de honra, como é o caso atual dos EUA.
Tereza não podia conceber que no mundo há gente realmente idônea, ela sempre via algo por trás. Era com verdadeiro prazer, quase sádico, que ela gostava de desmascarar o que chamava de “pseudo-heróis e fatos deturpados”. Ela, Tereza, com seus 21 anos, parecia ter sido escolhida por Deus para fazer revelações ao mundo: parecia até mesmo que o mundo esperou quase cinco mil anos para que ela surgisse e o livrasse da imbecilidade e do erro. Provavelmente ela estranharia essa opinião minha, afinal de contas, segundo ela mesma, nenhuma criatura razoavelmente inteligente pode mais acreditar em Deus.
É uma moça jovem, de futuro promissor na nação. Além do mais, talvez por sua postura conscientizada, ela é, segundo outros, acima de tudo lésbica. Sim, lésbica über alles. E por sua tendência em criar discussões, ela sempre foi, quanto a isto, uma pessoa exemplar – exemplar em buscar todo e qualquer tipo de argumento para defender sua causa.
Joana era, por isso mesmo, uma pessoa bastante peculiar. Não lhe interessava se nas suas discussões ela se batia contra dois mil anos de tradição cristã, ou mais de três mil de judaica, ou toda a filosofia grega, em suma, tudo o que constitui a razão de ser do Ocidente. Não, ela nem pensava em nada disso, preferia antes arremessar todo este legado na lata do lixo que ao menos cogitar acerca de suas paixões irracionais corpóreas. Pois tudo se resume a apenas essa dicotomia, segundo a mente de Joana: todos os escritos dos Santos Padres, acrescentados aos de muitos papas, filósofos e ensaístas, que no total dariam uma quantidade de páginas tão volumosa que apenas em muitas vidas alguém obteria seu pleno conhecimento, contra seu discurso pela liberdade e sua vontade e seu empenho em se fazer aceita – e quem ela julgava participar de sua mesma condição, ainda que às custas deste mesmo legado.
***
Renato era praticante da poligamia. Considerava-se também, sob muitos aspectos, bastante inteligente: afinal de contas, lia sem parar, vinha de família abastada – conquanto ele não fosse, é verdade, uma pessoa esnobe – e já se acostumara a esmagar aquilo que ele próprio chamava de “mediocridade reinante”, isto é, refutar de trás para frente e de frente para trás todo e qualquer tipo de argumento que fosse contrário ao seu peculiar estilo de vida.
Era uma pessoa agradável, simpática e gostava muito de escrever, já tendo publicado, com menos de trinta anos, dois romances, ambos sobre os problemas que a monogamia proporciona à nossa felicidade (melhor seria dizer “à dele”). Foi bem recebido pela crítica, e de fato era muito bem escrito e argumentado. Mas ele caía no mesmo problema que Joana: por trás de todo seu talento ele buscava no fundo se justificar e a todos aqueles que praticavam o que ele próprio praticava às custas de todo um mar de gênios que, desde Moisés até nossos dias, defendem a monogamia. Na verdade, o ataque deste nosso jovem talento, que começava apenas neste pequeno aspecto, isto é, na questão do amor livre, aos poucos se alastrava para um ataque à Bíblia, à filosofia, à sociedade e tudo o que ele considerava como oposto à liberdade (melhor seria dizer “à sua liberdade”). De repente, ele se tornara não apenas um apologista de uma pretensa liberdade, mas um verdadeiro carrasco do tal “legado judaico-cristão”. “Tradição, dizia Renato, nada mais é que máscara e hipocrisia”.
***
Por último, Tereza. Ela é mais uma jovem talentosa – possui apenas 21 anos. Tão jovem, ela é bastante confiante em si mesma, a ponto de dizer que nunca fez algo que se arrependesse. Curiosa opinião! Além do mais, ela é dada a discussões, como Joana. Mas – outra coisa curiosa – ela buscava sempre julgar pessoas e acontecimentos segundo os motivos mais licenciosos possíveis. Por exemplo, se alguém fizesse algo bom, na verdade havia algo de podre por trás. Daí que ela não podia conceber Cristo, que morreu na cruz para apenas nos salvar. Muito menos, ela mesma dizia, era possível levar a sério a hipótese de alguém ir à guerra por razões de honra, como é o caso atual dos EUA.
Tereza não podia conceber que no mundo há gente realmente idônea, ela sempre via algo por trás. Era com verdadeiro prazer, quase sádico, que ela gostava de desmascarar o que chamava de “pseudo-heróis e fatos deturpados”. Ela, Tereza, com seus 21 anos, parecia ter sido escolhida por Deus para fazer revelações ao mundo: parecia até mesmo que o mundo esperou quase cinco mil anos para que ela surgisse e o livrasse da imbecilidade e do erro. Provavelmente ela estranharia essa opinião minha, afinal de contas, segundo ela mesma, nenhuma criatura razoavelmente inteligente pode mais acreditar em Deus.
Saturday, November 27, 2004
Cinema Nacional
O que acho sobre Cinema Nacional? Enquanto eu não pisar nele está bom. Porém é detestável quando suja o sapato. Mesmo se passar papel, seu fedor parece grudar, e aí parece que a gente participa do mesmo gênero de odor.
Acho que é falta de educação não colocar num saquinho plástico o Cinema Nacional quando alguém leva um bichinho para passear e ele tem de produzir um filme. Quando eu morava em Laranjeiras, cansava de ver vários curtas e longas serem produzidos ao meu lado, sem a dona dos respectivos diretores canídeos os ensacarem. E todos eles, dado que geralmente os filmes eram produzidos - que eu assistia - na Rua Payssandu, onde muitos moravam, viviam de maneira mais abastada que eu. Não me perguntem se o Estado tinha relação com isso, muito embora ali perto exista o Palácio Laranjeiras, se a proximidade com prédio público indicar algo. Talvez tenha como força inspiradora. Talvez, talvez.
Onde moro agora, o Centro, não costumo mais assistir a filme algum, nem pisá-los. Se bem que as ruas por onde passo sejam mais semelhantes a novelas, seriados (nacionais), etc. Terça passada inclusive vi uma atriz numa esquina esperando um ator transeunte para ser levada ao set-privê de filmagem. Pois as novelas e seriados (nacionais) são todos assim: sacanagem.
Alguns acusam melhorias desde fins dos 80's. Realmente agora é melhor: a voz do ator/atriz não demora mais para surgir após ele(a) abrir a boca. E só (de resto, continuamos - pelo menos eu - a desviar para não sujar o sapato).
Por isso eu digo: mostre-me como é teu cinema que direi de que país és. My Fair Lady jamais seria concebido pelos nossos diretores canídeos nacionais, mas Pulp Fiction devidamente favelizado sim. Aliás, eu tenho a tese de que Quentin Tarantino não é mentalmente são, mas ela é refutável. O leitor ficará apenas com a curiosidade na mão, podendo pelo menos averiguar na filmografia deste sujeito o que afirmo mas desdenhosamente não demonstro. E tenha um bom dia.
Acho que é falta de educação não colocar num saquinho plástico o Cinema Nacional quando alguém leva um bichinho para passear e ele tem de produzir um filme. Quando eu morava em Laranjeiras, cansava de ver vários curtas e longas serem produzidos ao meu lado, sem a dona dos respectivos diretores canídeos os ensacarem. E todos eles, dado que geralmente os filmes eram produzidos - que eu assistia - na Rua Payssandu, onde muitos moravam, viviam de maneira mais abastada que eu. Não me perguntem se o Estado tinha relação com isso, muito embora ali perto exista o Palácio Laranjeiras, se a proximidade com prédio público indicar algo. Talvez tenha como força inspiradora. Talvez, talvez.
Onde moro agora, o Centro, não costumo mais assistir a filme algum, nem pisá-los. Se bem que as ruas por onde passo sejam mais semelhantes a novelas, seriados (nacionais), etc. Terça passada inclusive vi uma atriz numa esquina esperando um ator transeunte para ser levada ao set-privê de filmagem. Pois as novelas e seriados (nacionais) são todos assim: sacanagem.
Alguns acusam melhorias desde fins dos 80's. Realmente agora é melhor: a voz do ator/atriz não demora mais para surgir após ele(a) abrir a boca. E só (de resto, continuamos - pelo menos eu - a desviar para não sujar o sapato).
Por isso eu digo: mostre-me como é teu cinema que direi de que país és. My Fair Lady jamais seria concebido pelos nossos diretores canídeos nacionais, mas Pulp Fiction devidamente favelizado sim. Aliás, eu tenho a tese de que Quentin Tarantino não é mentalmente são, mas ela é refutável. O leitor ficará apenas com a curiosidade na mão, podendo pelo menos averiguar na filmografia deste sujeito o que afirmo mas desdenhosamente não demonstro. E tenha um bom dia.
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