Minha intenção primogênita era continuar a saga do desempregado, no caso eu, mas todavia atualizada, posto que desempregado não mais sou, e aliás me pus a formalizar esse artigo em meu emprego -- o esboço foi feito em casa --, emprego que talvez seja mais próprio da verdade dizer um quase-emprego. Porém minha vontade soberana cometeu uma revolução: pareceu-lhe mais superior rabiscar acerca da pedagogia do cemitério, assunto que me tem gentilmente atormentado e que considero bastante fundamental. Mas uma derradeira viragem minha vontade inquieta deu, motivada, é certo, por uma razão mais urgente, altaneira, elegante e agradável: mulheres.
Poucos assuntos são mais interessantes que as mulheres, embora elas sejam mais interessantes que mero objeto de debate. Pois se há um problema fundamental na vida de todo homem, sem dúvida é o belo sexo, expressão que já demonstra quão admiráveis são essas criaturas.
Para dar uma razão ao nosso ataque, caríssimo leitor, tratemos de duas questões a esse respeito. Para uma alma sensível -- em verdade mais acossada pela tolice da rasa experiência que pela presunçosa aspiração angélica de vida --, há duas fontes monumentais de espanto motivadas pelo feminino. Poucas coisas superam a desconcertante descoberta de que nas mulheres também reside a tosquice, não raras vezes perigosamente ombreada à tosquice viril. Não se trata aqui apenas da tosquice reinante nas despossuídas de graça ou das sumamente atrasadas mentalmente. É uma espécie de modo de ser universal. Não posso duvidar que tal coisa é manifestação daquilo que filósofos chamavam de indeterminado: ele constrange o feminino. A quem está tolamente acostumado com delírios amorosos, chocar-se com essa tosquice feminina pode ser um episódio sumamente deprimente. Não sejamos tolos a ponto de acusá-las de pecado, posto que talvez seja exatamente esse constrangimento que as torna palpáveis e interessantes, o que não significa, em nenhuma hipótese, que a palpabilidade é proporcional à tosquice. Apenas é preciso haver uma justa medida. Ademais, contra todos amantes do amor cortês algo cartesiano, é parte intrínseca da experiência de vida saber cumprimentar o que se demonstra insólito. Toda a experiência humana -- incluo aí até as mais variadas formas de técnica -- confirma que nada há de mais insólito que determinadas manifestações do feminino. Faz parte das regras inquebrantáveis da civilização, por conseguinte, tratar com algum carinho esse aspecto misterioso da nossa realidade: não nos foi dada argúcia suficiente para entender tal mistério. Bem como há o Cristo Todo, há também a mulher completa, a quem devemos amar, em toda a sua glória e em todos os seus constrangimentos.
A segunda fonte de desconcerto, talvez pela ação do indeterminado, é a união entre a mais rica beleza e a mais pobre argúcia numa só mulher. Eis o assunto da breve meditação a seguir.
A mulher por natureza identifica um modelo moral que configura essencialmente seu padrão estético, o que lhe impede muitas vezes de perceber a gravidade do desequilíbrio que assinalei. Não digo que ela não o perceba completamente: ela simplesmente não se choca. Devido a essa identificação, o próprio modelo de beleza da mulher, pautado em considerações algo estapafúrdias a nós homens, parece eivado de bizarrias. Seus padrões nos parecem incompreensíveis. O homem só consegue compreender certas considerações femininas acerca da beleza ao imaginar que elas estão repletas de subjetivismos e competições. Numa palavra, freqüentemente os juízos femininos parecem motivados pela inveja ou pela caridade. Ao tecermos a uma mulher observações objetivas acerca das justas proporções de outra, ela não raramente fará críticas ininteligíveis do ponto de vista objetivo, fisicamente falando, quando não considerará nossa afirmação estritamente objetiva um insulto pessoal. Se ela consentir, será a contragosto e com afetação de superioridade. O reduzido número de mulheres capazes de uma avaliação desinteressada é prova do que afirmo. Até quando elas concordam acerca da má catadura de outra, o prazer de sua concordância demonstra que também não é por uma questão objetiva, mas por algum senso competitivo. Quando elas consideram sinceramente alguém admirável do ponto de vista estético, normalmente é devido a considerações estrangeiras: como se o comportamento mudasse a aparência física. Força é considerarmos portanto que só aos homens foi dada a real capacidade de espanto acerca desse problema, o qual exige de nossa parte um esforço reflexivo assaz agudo e que já engendrou as mais formidáveis filosofias deste mundo.
Pois bem, como ficou suficientemente demonstrado, a mulher articula misteriosamente o físico e o psicológico, tecendo juízos estéticos que são assaz insólitos a nós homens: eis a razão da relativa falta de espanto feminino quando aqueles dois campos parecem antagônicos. Já o homem não faz essa articulação, pelo menos não inicialmente. E isso é pedra de escândalo às mulheres. Por termos a capacidade natural de realizar esse tipo de abstração, bem ao contrário das mulheres, elas consideram os nossos juízos fundados numa impostura moral. Se o leitor tiver suficiente coragem e for amigo da verdade, louve os atributos corporais de uma mulher a outra. Aos olhos da mulher, o leitor rapidamente se transformará num bárbaro ou num cretino. Porque do ponto de vista feminino, uma observação tão crua da natureza, tão desimpedida de critérios exóticos, só pode ser realizada por uma criatura no mais pleno estágio da natureza, ou então por um monstro desprovido de moralidade. O requinte de perversidade chega ao ponto de o homem considerar a beleza um salvo-conduto da tolice. Torna-se suportável uma mulher tola na proporção de sua beleza. Ouso afirmar que tal caridade mulher nenhuma é capaz de praticar.
Cara leitora, se é que ainda me resta uma eventual leitora, digo, pois, que muito embora seja verdade inconcussa que a beleza nos serve como estimulante, reconheço que a falta constante de agrados mais espirituais convida a toda sorte de dores e constrangimentos. Não é difícil de gerenciar os rompantes de toleima caso forem esporádicos e suportáveis. Se contudo forem excessivamente intensos e constantes, tais como uma dor de dente, apenas uma fortaleza heróica tornaria capaz de suportar tantas adversidades.
Preciso desfazer um eventual mal-entendido antes de terminar. Talvez o leitor tenha se perguntado como é possível ao homem ficar espantado com o choque entre beleza e falta de espírito, já que ele lida tão bem com a união de ambas em uma mulher. A resposta está precisamente na constatação das duas realidades distintas. A mulher não se espanta porque percebe de uma forma bastante insólita a união entre beleza e espírito, enquanto o homem as percebe inicialmente como duas realidade separadas e distintas. Só com o desenvolver do tempo é que o problema começa a se lhe tornar nítido. Antecipando-me a uma eventual leitora irônica, em nada isso demonstra a falta de capacidade cognitiva masculina. Ocorre no caso apenas operações mui distintas. A intuição feminina e a operação de síntese masculina são de natureza diversa, produzindo, no fim, resultados igualmente diversos. Prova é que por maior que seja a operação de síntese masculina, muito dificilmente ele considerará que o espiritual de uma mulher predomina e reconfigura a sua aparência. Entre a espirituosa mas desgraciosa e a graciosa mas desespirituosa, esta última normalmente lhe chamará mais a atenção. Já a mulher, ainda que não desprovida de percepção objetiva, muito dificilmente enfrentará dilemas ao lidar com alguém espiritualmente agradável mas de aparência assaz original. Nisso, como em quase tudo, homens e mulheres são fatalmente diferentes.
No futuro, talvez eu continue a tratar dessa questão, mas por enquanto adeus.
Sunday, October 04, 2009
Thursday, July 02, 2009
Wednesday, April 22, 2009
No qual continuo o post anterior
Mas eu tive a sensação de que "tudo está dominado" ao ver um monge batendo palmas e fazendo coreografia, empolgado com as festividades, ainda que fizesse tudo discretamente. Diante de situações desse tipo, lembro-me de Matatias e de sua fúria santa, que desencadeou a revolta dos Macabeus. É duro permanecer impassível, quiçá sorridente, em meio a tantas coisas. Esperemos que D. Orani dê um jeito nessa situação.
Da cerimônia de posse de D. Orani, novo arcebispo do Rio de Janeiro
Confesso que no momento em que nosso arcebispo fez seu pronunciamento, eu simplesmente me desliguei no meio das intermináveis saudações às autoridades, quando ele virou a primeira ou segunda folha e continuou saudando-as, o que me fez lembrar da Doação de Constantino, em cujo início há tantos títulos referentes ao imperador que aparentemente a doação é apenas um detalhe no documento, e só retornei a mim nos aplausos finais. Se de fato o discurso de D. Orani foi de cerca de meia hora, então bizarramente fiquei meia hora em transe. Conforme um amigo me disse, não foi nada fácil acompanhar a litania das autoridades feitas pelo núncio, D. Eusébio e D. Orani.
Naquele domingo, por acaso eu folheava à noite meu catecismo, no qual está dito que a igreja é um excelente local para oração, mas aparentemente isso não é aplicável a certas zonas do Rio de Janeiro. Acho que foi a primeira vez em que realmente tive dificuldade de orar numa igreja no momento da comunhão, tamanha a baderna. O negócio estava tão feio que no banco à minha frente havia duas ou três pessoas que simplesmente estavam ouvindo uma partida de futebol no meio da missa. Não sei se na Idade Média havia bagunças nas igrejas -- acho que já li em algum lugar sobre gente entrando com bichos em igrejas e que isso não era raro --, mas atualmente a situação está se tornando insuportável, se é que já não o está em determinadas igrejas.
Eu só gostaria que as pessoas não berrassem na igreja, não fizessem tumultos por farra, nem que transformassem as missas numa ode à breguice e ao kitsch, mas aparentemente é pedir demais. Qualquer dia, do jeito que a banda toca, haverá lutas de sumô em plena missa, a fim de atrair mais fiéis e de tornar tudo mais intrigante.
Naquele domingo, por acaso eu folheava à noite meu catecismo, no qual está dito que a igreja é um excelente local para oração, mas aparentemente isso não é aplicável a certas zonas do Rio de Janeiro. Acho que foi a primeira vez em que realmente tive dificuldade de orar numa igreja no momento da comunhão, tamanha a baderna. O negócio estava tão feio que no banco à minha frente havia duas ou três pessoas que simplesmente estavam ouvindo uma partida de futebol no meio da missa. Não sei se na Idade Média havia bagunças nas igrejas -- acho que já li em algum lugar sobre gente entrando com bichos em igrejas e que isso não era raro --, mas atualmente a situação está se tornando insuportável, se é que já não o está em determinadas igrejas.
Eu só gostaria que as pessoas não berrassem na igreja, não fizessem tumultos por farra, nem que transformassem as missas numa ode à breguice e ao kitsch, mas aparentemente é pedir demais. Qualquer dia, do jeito que a banda toca, haverá lutas de sumô em plena missa, a fim de atrair mais fiéis e de tornar tudo mais intrigante.
Friday, April 10, 2009
De como tento me livrar de certos ranços que me impedem de usufruir bem da vida religiosa
Antigamente, e devo alertar que por esse advérbio entendo um passado de seis anos, eu era de certa forma influenciado pelas opiniões dos assim chamados "tradicionalistas", cujo mote é que houve na década de 60, devido a um concílio infeliz, a criação de uma igreja diferente da Igreja: seria a "Outra", nas palavras de Gustavo Corção. A "Outra" seria uma espécie de anti-Igreja e até mesmo parasita: dentro da própria Igreja ela lhe consumiria. Vem disso a célebre expressão "auto-destruição da Igreja." Dadas as dificuldades que atualmente cercam a Igreja, o poder de atração dessa idéia é hipnotizador, pois parece explicar de modo mais ou menos simples praticamente tudo. Todavia, nada como um ano após outro. Atualmente, acho que me livrei em boa parte dessa explicação, pois ela me parece não só desprovida de sentido mas também maléfica. Meus motivos não são difíceis de entender, embora sejam, talvez, difíceis de vivenciar. Tentarei, pois, explicar esse meu aparente enigma.
Não tocarei em questões teológicas nem filósoficas, pois não quero me enrolar ridiculamente. Ademais, a prudência exige que não nos atiremos de cabeça em águas que não conhecemos a profundidade. Portanto peço ao leitor católico que aceite tão-somente algumas idéias bem simples. Com efeito, sabemos por exemplo que a Igreja foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que "sobre ela as portas do inferno jamais prevalecerão". Precisamos então confiar na Igreja assim como confiamos em Jesus Cristo: é absolutamente impossível separar um do outro. Sabemos também que o Espírito Santo sempre estará ao lado da Igreja, afinal "o Senhor é meu pastor e nada me faltará". Certa vez Bento XVI, na época cardeal, disse que a Igreja é um barco antigo mas seguro e bem provado. Ele tinha razão, porque se ainda que estivermos no vale da morte o Senhor estará conosco, também Ele estará com a comunidade de fiéis em meio às tribulações que ela vier a atravessar ao longo dos séculos. Jesus Cristo, conforme as Santas Escrituras, diante do temor dos Seus ministros quando da tempestade no mar, acalmou-a, e todos seguiram boa viagem. Do mesmo modo, sendo a Igreja um barco e o mundo águas revoltas, o Espírito Santo estará sempre presente a fim de que tudo concorra bem. Nossas preocupações são decorrentes da nossa pouca fé: acaso não disse o Senhor que "não vos preocupeis com o dia de amanhã"? A Igreja também é nossa "mãe e mestra", "mater et magistra". À certeza inabalável de suas decisões como mestra, junta-se a doçura da mãe que cuida de seus pequeninos. Ora, quando alunos acatamos aquilo que o mestre nos ensina, e como filhos confiamos em nossas mães sem temor algum. A Igreja não ensina novidades, mas guarda e atualiza todo o patrimônio sagrado. Doutra maneira, ela nos ampara em todas as nossas necessidades, pois é a Esposa de Cristo e nós os Seus filhos. Daí que devemos acatá-la como mãe e como guardiã do que há de mais precioso, que é a tradição sagrada.
Se o leitor é católico, tais pontos, simples, são indisputáveis. Nessas questões de princípio ninguém deve tocar. Porém sabemos como a nossa fé caminha aos solavancos, principalmente nas adversidades. Quantos podem resistir aos assaltos daqueles que, vendo-nos em circunstâncias miseráveis, caçoam e dizem: "Esperou no Senhor, livre-o; salve-o, se é que o ama"? Eu próprio tenho dificuldade de entender muitíssimas coisas. Contudo, aqueles pontos simples precisam ser a minha rota de fuga. Se dissermos todos os dias "creio", e se pedirmos a Deus força para crermos n'Ele e na Santa Igreja, enfim, se aceitarmos a graça de Deus, ela será derramada em nós e nos fortificará. Nossas dúvidas serão aos poucos saciadas, pois Jesus Cristo já dissera: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á, porque todo o que busca, recebe: e o que busca, acha: e a quem bate, abrir-se-á". É preciso, portanto, ter confiança, pois se nossas dúvidas forem sinceras elas serão satisfeitas.
No entanto, preciso dizer ao leitor que tudo aquilo que for ocasião de perda deve ser dispensado. Compreendo perfeitamente o quão difícil é às vezes agir assim, porque há momentos em que uma renúncia parece uma afronta não só a nós mesmos como também aos outros. Darei como exemplo todas as discussões acerca da licitude do último concílio. Ora, as discussões a respeito moveram escândalo após escândalo. Isso é absolutamente inaceitável. Tal como a Reforma produziu um escândalo tão imenso que pôs as almas de todos os fiéis em perigo, as discussões acerca da validade do último concílio também têm sido ocasião de muitas perdas: o que mais tem havido são insubmissões, mentiras e calúnias. Numa palavra, tem havido ataques constantes à caridade. Note o leitor que nem entro na questão de nossa irrelevância diante desses problemas. Realmente, por uma questão de humildade, seria ridículo nos revolvermos demais a esse respeito. Todavia, estou atacando o problema de um modo que vai mais além. Considero extremamente maléfico se envolver demais nessas discussões, porque são de fato motivo de perda. Já dissera Nosso Senhor: "Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o, e lança-o fora de ti: porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno." Que palavras formidáveis e aterrorizantes! Assim, em termos práticos, eu tento evitar, na medida do possível, entrar em discussões acerca do concílio, a não ser para lembrar que a Igreja é fiel a Deus e que o concílio, sendo da Igreja, é também fiel a Deus. Por outro lado, já que o próprio Jesus Cristo dissera que é necessário tirar antes a trave de nosso próprio olho antes de falar do cisco no olho de outrem, tento evitar, na medida do possível, falar ou pensar mal de alguém, a não ser de brincadeira. Claro que freqüentemente me pego nessas faltas, mas se eu próprio não consigo me submeter à Igreja como é preciso, até que ponto é justo eu reclamar de um padre ou leigo insubmissos? Finalmente, se porventura eu observar que a pessoa, mau grado ter opiniões estranhas (uso "mau grado" porque não compreendo a forma "malgrado"), está sinceramente em busca de uma resposta pessoal, serei o último a denigri-la: o problema não é a busca em si, mas o jeito como conduz suas buscas. Seria um problema de direção espiritual -- não que eu esteja me considerando um diretor espiritual, é óbvio.
Há muito a dizer ainda sobre o assunto, mas basta por enquanto.
Não tocarei em questões teológicas nem filósoficas, pois não quero me enrolar ridiculamente. Ademais, a prudência exige que não nos atiremos de cabeça em águas que não conhecemos a profundidade. Portanto peço ao leitor católico que aceite tão-somente algumas idéias bem simples. Com efeito, sabemos por exemplo que a Igreja foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que "sobre ela as portas do inferno jamais prevalecerão". Precisamos então confiar na Igreja assim como confiamos em Jesus Cristo: é absolutamente impossível separar um do outro. Sabemos também que o Espírito Santo sempre estará ao lado da Igreja, afinal "o Senhor é meu pastor e nada me faltará". Certa vez Bento XVI, na época cardeal, disse que a Igreja é um barco antigo mas seguro e bem provado. Ele tinha razão, porque se ainda que estivermos no vale da morte o Senhor estará conosco, também Ele estará com a comunidade de fiéis em meio às tribulações que ela vier a atravessar ao longo dos séculos. Jesus Cristo, conforme as Santas Escrituras, diante do temor dos Seus ministros quando da tempestade no mar, acalmou-a, e todos seguiram boa viagem. Do mesmo modo, sendo a Igreja um barco e o mundo águas revoltas, o Espírito Santo estará sempre presente a fim de que tudo concorra bem. Nossas preocupações são decorrentes da nossa pouca fé: acaso não disse o Senhor que "não vos preocupeis com o dia de amanhã"? A Igreja também é nossa "mãe e mestra", "mater et magistra". À certeza inabalável de suas decisões como mestra, junta-se a doçura da mãe que cuida de seus pequeninos. Ora, quando alunos acatamos aquilo que o mestre nos ensina, e como filhos confiamos em nossas mães sem temor algum. A Igreja não ensina novidades, mas guarda e atualiza todo o patrimônio sagrado. Doutra maneira, ela nos ampara em todas as nossas necessidades, pois é a Esposa de Cristo e nós os Seus filhos. Daí que devemos acatá-la como mãe e como guardiã do que há de mais precioso, que é a tradição sagrada.
Se o leitor é católico, tais pontos, simples, são indisputáveis. Nessas questões de princípio ninguém deve tocar. Porém sabemos como a nossa fé caminha aos solavancos, principalmente nas adversidades. Quantos podem resistir aos assaltos daqueles que, vendo-nos em circunstâncias miseráveis, caçoam e dizem: "Esperou no Senhor, livre-o; salve-o, se é que o ama"? Eu próprio tenho dificuldade de entender muitíssimas coisas. Contudo, aqueles pontos simples precisam ser a minha rota de fuga. Se dissermos todos os dias "creio", e se pedirmos a Deus força para crermos n'Ele e na Santa Igreja, enfim, se aceitarmos a graça de Deus, ela será derramada em nós e nos fortificará. Nossas dúvidas serão aos poucos saciadas, pois Jesus Cristo já dissera: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á, porque todo o que busca, recebe: e o que busca, acha: e a quem bate, abrir-se-á". É preciso, portanto, ter confiança, pois se nossas dúvidas forem sinceras elas serão satisfeitas.
No entanto, preciso dizer ao leitor que tudo aquilo que for ocasião de perda deve ser dispensado. Compreendo perfeitamente o quão difícil é às vezes agir assim, porque há momentos em que uma renúncia parece uma afronta não só a nós mesmos como também aos outros. Darei como exemplo todas as discussões acerca da licitude do último concílio. Ora, as discussões a respeito moveram escândalo após escândalo. Isso é absolutamente inaceitável. Tal como a Reforma produziu um escândalo tão imenso que pôs as almas de todos os fiéis em perigo, as discussões acerca da validade do último concílio também têm sido ocasião de muitas perdas: o que mais tem havido são insubmissões, mentiras e calúnias. Numa palavra, tem havido ataques constantes à caridade. Note o leitor que nem entro na questão de nossa irrelevância diante desses problemas. Realmente, por uma questão de humildade, seria ridículo nos revolvermos demais a esse respeito. Todavia, estou atacando o problema de um modo que vai mais além. Considero extremamente maléfico se envolver demais nessas discussões, porque são de fato motivo de perda. Já dissera Nosso Senhor: "Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o, e lança-o fora de ti: porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno." Que palavras formidáveis e aterrorizantes! Assim, em termos práticos, eu tento evitar, na medida do possível, entrar em discussões acerca do concílio, a não ser para lembrar que a Igreja é fiel a Deus e que o concílio, sendo da Igreja, é também fiel a Deus. Por outro lado, já que o próprio Jesus Cristo dissera que é necessário tirar antes a trave de nosso próprio olho antes de falar do cisco no olho de outrem, tento evitar, na medida do possível, falar ou pensar mal de alguém, a não ser de brincadeira. Claro que freqüentemente me pego nessas faltas, mas se eu próprio não consigo me submeter à Igreja como é preciso, até que ponto é justo eu reclamar de um padre ou leigo insubmissos? Finalmente, se porventura eu observar que a pessoa, mau grado ter opiniões estranhas (uso "mau grado" porque não compreendo a forma "malgrado"), está sinceramente em busca de uma resposta pessoal, serei o último a denigri-la: o problema não é a busca em si, mas o jeito como conduz suas buscas. Seria um problema de direção espiritual -- não que eu esteja me considerando um diretor espiritual, é óbvio.
Há muito a dizer ainda sobre o assunto, mas basta por enquanto.
Thursday, March 12, 2009
A saga de um desempregado
Blogs foram feitos para relatar experiências pessoais, ou essa é a fama que em geral eles têm. Eu diria de outra forma: blog é um dos vários meios pelos quais compartilhamos nossas misérias com estranhos. Somos como uma dessas pessoas que ficam tão loucas para desabafar que não perdoam o primeiro gaiato que aparece na frente, que no caso presente é você, caro leitor. Essa minha observação, aliás, modéstia de lado, é muito interessante, porque costumeiramente tendemos -- inclusive eu -- a considerar blogs como exibicionismo. Isso não está totalmente errado. Blogs, bem como qualquer outro meio de escrita, é, do ponto de vista de quem escreve coisas pessoais, como estar nu em alguma avenida: uns gostam mais, outros menos, mas é exibicionismo. Contudo, o que nesta vida não é vaidade? Não, caríssimo leitor. Meus colegas blogueiros ou eu passarmos determinada imagem, conscientemente ou não, a ti, não é apenas uma questão de identidade. O que está em jogo é um catolicíssimo compartilhar de lágrimas dos degredados filhos de Eva. Desde aquele que exibe suas medalhas ao que aponta para suas dores, tudo é uma busca pelo irmão perdido, a fim de que ele nos acompanhe fraternalmente.
Meu objetivo agora não é fazer o leitor chorar, nem muito menos pretendo reclamar como velho da vida. Imagino que todos nós já sabemos que a vida tem um aspecto bastante complicado. Porém é bom senso ter noção de que não vivemos numa Sibéria stalinista. Nem eu poderia reclamar exageradamente, a não ser para efeitos retóricos, mas isso, confio, o leitor de bom senso conseguirá perceber.
Quarta passada, enquanto eu zanzava pelo Centro do Rio atrás de algo para fazer, dei-me conta da quantidade de pessoas que possivelmente também ficam zanzando com o mesmo objeto no Centro. Nesse bairro, diariamente, a quantidade de gente que está procurando algum emprego deve ser realmente muito assombrosa. Dei-me conta disso desde que vi as filas em agências de emprego, cotidianamente lotadíssimas, ou a quantidade de pessoas que vão aos montes a consultorias de trabalho. Devido à minha própria situação, fiquei mais sensível a essas coisas, da mesma forma que pensei na quantidade de pessoas que ficam vagando pelas ruas, sem muita razão, após perder entes queridos, como Gustavo Corção e eu mesmo fizemos. Não cheguei a fazer como Gustavo Corção, que às vezes seguia automaticamente transeuntes de madrugada, mas já dei boas voltas de madrugada, como se isso servisse de distração. Não sei muito bem a razão desse comportamento. Pode ser, talvez, porque achamos de alguma maneira que a pessoa amada e falecida vai cruzar conosco na rua. Porém estou fugindo um pouco do meu propósito neste parágrafo, que é comentar acerca da quantidade nebulosa de pessoas andando no Centro do Rio puramente atrás de emprego. A fim de me repetir, torno a dizer que as agências de emprego são sintomáticas. Há uma agência governamental próxima da Igreja de São José. Tenho o hábito de passar ali perto, e não me recordo de um só santo dia em que não tenha visto filas de manhã. É algo que me faz lembrar das históricas filas de desempregados no período do entre-guerras, com a única diferença de que não aparecem agitadores profissionais querendo incitar as multidões à revolta. Um fato auxiliar é a quantidade de gentes em locais para concurso público. Essa manada de gente só pode indicar que a insegurança quanto ao emprego é ampla, geral e irrestrita. O outro fator, agências de recrutamento, é também eloqüente. Não cometerei o absurdo de exigir do leitor a ida a uma dessas agências: confie na minha experiência. Fui a uma e fiquei espantado com a enorme quantidade de pessoas indo e indo e indo tão-somente para entregar currículos e pedir qualquer salário baixo – isso quando não diziam que topavam qualquer coisa, usando o termo “a combinar”. O mais impressionante é que pelas conversas eu tive a sensação de que ninguém tinha muita noção do que queria, exceto trabalhar: gente de todas as idades. Aliás, quando a tormenta se acalmou, perguntei à atendente se sempre era daquele jeito, ao que ela me disse que normalmente era muito pior. A sala de espera, se é que podemos chamar assim um local onde só cabem três pessoas sentadas e outras três de pé, parecia um formigueiro. Ninguém ficava muito. Mais lá para dentro, havia essas dinâmicas de emprego que mais me parecem humilhações adicionais criadas por algum sádico contra quem topa tudo por dinheiro. Por amor a um possível emprego, todos se submetem a tudo, o que não é de se estranhar.
Aqui no Centro há o Mosteiro de São Bento. Esse ano, graças a um amigo, passei a freqüentá-lo durante as manhãs, 7h15, umas duas vezes no meio da semana, sempre que minha preguiça é vencida. Gosto de ir andando. Nessas idas, acabo geralmente passando em meio ao maior zunzunzum já às 6h20: o mundo se levanta cedo. Fico sempre impressionado com a quantidade de pessoas por essas redondezas. É normalmente gente de todos os cantos da cidade, e isso quando não são de fora. Em meu prédio, por exemplo, há dois porteiros que moram em cidades próximas. Aproveito para dizer que é totalmente falsa a impressão de que cariocas não toleram trabalho: ao contrário, topam tudo em qualquer horário. A visão das hordas na praia é enganosa. A população em geral não fica só na praia. Suspeito que o problema é que ela não parece ser bem qualificada, para usar um termo econômico. Isso por si não me parece justificar tamanho desemprego, porém não sou especialista nessas coisas. A única pessoa satisfeita com a economia do país é o presidente, porém todos sabem que ele não é autoridade para nada. Por outro lado, é freqüente observar como as pessoas tentam se virar do jeito que dá. É o caso dos vendedores ambulantes. Eles são o maior exemplo de como é falso também supor que o brasileiro, ou pelo menos o carioca, não tem espírito empreendedor. Muito pelo contrário: estamos lotados de espíritos empreendedores, mas que não conseguem avançar de vez por alguma razão que me escapa. Perto do Campo de Santana, na altura da Biblioteca Estadual, há sempre muito cedo uma lanchonete improvisada ao ar livre. Vendem caldo de cana, suco, pastel e sanduíches a trabalhadores. Quando passo por ali bem cedo, jamais deixo de ver uns vinte clientes, sem contar os outros que se dirigem àquele “estabelecimento”. Essa lanchonete improvisada só funciona bem cedinho: pouco mais tarde desaparece, junto com o vermelhidão da aurora. É de se crer que ocorram iniciativas semelhantes em muitos outros lugares.
Conforme eu tenho visto anúncios de emprego, chamou-me atenção a admirável formalização do nome dos cargos. A maioria das pessoas e eu sabemos o que é um faxineiro e um varredor. Contudo, ai daquele que buscar vagas pela Internet com esses nomes! Hoje em dia, por um motivo que me escapa inteiramente, nossos caros faxineiros e varredores se transformaram em um insosso "auxiliar geral. Peão-de-obra também desapareceu: acho que se transformou em “auxiliar de produção". São nomes mais elegantes, sem dúvida, porém totalmente vagos. Isso me parece algum ranço técnico-jurídico ingrato, misturado a algo politicamente correto. Os juristas medievais eram mais criativos. Como disse Marc Bloch, algum jurista de veias poéticas cunhou o termo "feudo do sol" aos alódios, isto é, terras que não eram enfeudadas, desprovidas de encargos feudais. Como eram terras que não foram dadas por ninguém ao seu proprietário, daí a expressão "do sol". Hoje em dia, época da exatidão técnico-matemática e do politicamente correto, expressões poéticas como aquela são inimagináveis no sistema jurídico. O concreto faxineiro se torna um abstrato "auxiliar geral".
Eu, que nunca tive empregos formais, vi-me numa situação inusitada. Ao ter de fazer currículos online, freqüentemente tinha de mencionar um emprego bem específico, o que é normal. Contudo, jamais tinha me dado conta da tecnicidade dos empregos e da pluralidade de funções. Há semanas venho lendo isso e até agora não consegui entender a diferença entre um emprego profissional e um operativo, conforme li nalgum site de empregos. Tampouco sei o que significa a hierarquia auxiliar-técnico-estagiário-júnior-gestor, e que o leitor me corrija se acaso tropecei na hierarquia correta. Dentro do meu mundo, inicialmente há professores e os outros, sendo que dentre os primeiros a gradação se dá pelo título adquirido: isso por si só já é um verdadeiro inferno. Quanto aos outros, até pouco tempo atrás achei que havia o jornalista, o editor, o advogado, o faxineiro, o lanterninha... Porém descubro que há assistentes, que são diferentes dos auxiliares. Há igualmente um bando de júniors, certamente, imagino, antecessores dos sêniors. Para mim, um assistente e um auxiliar são a mesma coisa, porém na tecnicidade empregatícia há diferenças. Se o leitor me permitir uma referência filosófica assaz bizarra, eu chamaria essa explosão de tipos de emprego e especializações de "kantismo empregatício positivista", posto que após Kant e positivismo tudo virou objeto de ciência, mesmo as coisas mais inusitadamente irreais. Contudo, faltaria com o bom senso se durante uma entrevista de emprego eu objetasse que tal emprego, mau grado -- faço de bom grado um assassínio -- remunerar bem, é um delírio de inspiração kantista-positivista, portanto necessariamente inferior a outras funções. Conhecer monstruosidades lingüísticas como “endomarketing" só me causam furor e ressentimento. Calo-me quanto a empregos cujos significados, a partir do nome, são ininteligíveis, ainda que bem remunerados.
A minha situação só me tem confirmado aquilo que eu já havia percebido: sou pária. Aparentemente, estou um pouquinho acima da média educacional, porém um pouquinho abaixo da excelência do ensino superior. Vivo portanto num intramundo, e aqui, gentil leitor, não há empregos. Se eu fosse um ex-clérigo, vivesse enfurnado num bar e amasse vagabundear pelas estradas e saias alheias, talvez eu poderia ser um goliardo, se é que isso significa pertencer a uma classe. Estou muito mais próximo do clérigo que disse a Raimundo Lúlio que havia passado a juventude estudando e esmolando. Seria essa situação, aliás, imaginável a nós, um estudante universitário literalmente mendigo? Só consigo imaginar algo parecido a partir das pobrezas estudantis russas de Dostoievski. Atualmente conseguimos ser universitários sem piolhos, sem lepra e, o que é melhor, cercados de belas universitárias, ainda que isso varie dramaticamente de curso para curso: eu, por exemplo, desde meus tempos de segundo grau de Eletrotécnica, jamais tive a sorte de estudar com belas moças.
Daqui do intramundo observo o quão distante é a perspectiva de emprego de um intelectual de quem não é intelectual. Se um historiador do futuro investigasse nossa época, analisando que tipo de emprego costumeiramente era oferecido em 2009, talvez ele concluísse que nós éramos criaturas excepcionalmente inteligentes, posto que aparentemente ninguém quer saber mais de professores ou qualquer coisa desse gênero. Há milhares de cargos para “auxiliar geral”, para técnico de informática, jornalista... E para quem quer dar aulas? Só se for de idiomas. Obviamente isso é um exagero retórico: a questão é a baixa quantidade de cargos desse tipo. É também óbvio que existem mais varredores que professores, mas isso não explica a inacreditável baixa demanda. Existe realmente um abismo entre intelectuais e a população em geral, de modo que o contato entre eles é puramente acidental. O povo é uma coisa que o intelectual vê de longe, enquanto o intelectual é algo que escapa completamente do horizonte do povo. Não que isso seja totalmente estranho por si: o problema é que por essas bandas a coisa é muito pior. Mas estou já escapando do assunto.
Como só podemos viver no intramundo comendo e bebendo o que as pessoas do mundo comem e bebem também, não dá para ficar contemplando aristotelicamente a realidade. Porém as pessoas no mundo exigem qualificações excessivamente formais ou se agrupam em convênios: ambos, em português bem claro, significam tão-somente armação e boquinha. Os “superiores” usam de esperteza a fim de restringir o acesso aos seus cargos. Qualificações excessivamente formais e convênios são seu escudo protetor contra as hordas vindas do inframundo. Aliás, o mesmo se dá com concursos públicos: são a chance dos “superiores” viverem tranqüilamente. Assim, um concurso público que exige 2° grau e que dá todo o tipo de benefícios a quem passar será disputado preferencialmente pelos “superiores”: o mesmo ocorre em concurso que exige tão-somente 1° grau. Na realidade, concurso público é a boquinha dos “superiores”. Os que estão entre os “superiores” e não conseguem participar da boquinha vão ocupar cargos imediatamente inferiores, supostamente destinados aos do inframundo, e os que estão no inframundo mas são melhores que seus companheiros vão ocupar os cargos destes. Os últimos, no fim das contas, vão pastar e comer grama. As regulamentações a fim de proteger os direitos dos trabalhadores servem apenas para dificultar contratações e arremessar todo mundo na rua o mais rapidamente possível. A acrescentar as autênticas sacanagens empregatícias, é de se espantar como chamam tudo isso de exemplo autêntico da maldade inerente ao capitalismo, quanto é apenas exemplo de pega-pra-capar tupiniquim.
Dizendo assim, até parece que meu caso específico é culpa da maldade ambiente. Não é bem assim. Como esse blog não é um confessionário, não devo me dirigir ao leitor como se você fosse meu padre confessor. Digo tão-somente que, dada a situação ambiente, eu também fiz questão de me enrolar. Creio que ter escapado heroicamente da universidade não foi nenhum pouco virtuoso. Certamente as universidades têm problemas muito graves, porém a solução não me parece fugir, ainda mais quem não tem muitas fontes de renda. É uma simples questão de bom senso. Sou o primeiro a dizer que freqüentemente topamos com situações deprimentes em faculdades, mas também quero ser um dos primeiros a dizer que cada faculdade é um microcosmo: o que ocorre na faculdade de História da UFRJ é diferente do que ocorre na da UFF. E mesmo em cada uma delas existe um tremendo saco de gatos. Passados quatro ou cinco anos sem pôr os pés numa sala universitária, hoje tenho melhor noção dos problemas que o positivismo trouxe aos estudos. Eles chegam a ser ininteligíveis para quase todo mundo, tal é a influência dos seus pressupostos metodológicos aparentemente sensatos e humildes. As opiniões e estudos esquerdistas certamente estão bem disseminados e são irritantes. Todavia, uma faculdade não é só isso: bem ou mal, determinadas coisas você só conhecerá, ou pelo menos conhecerá mais facilmente, numa faculdade. Ademais, digo por experiência própria que se na universidade já ficamos angustiados por encontrar pouca gente disposta a estudar verdadeiramente assuntos amplos, fora dela é virtualmente impossível encontrar alguém. Não acho essa situação boa, mas a verdade é essa. Há também o problema tradicional da confusão entre estudo acadêmico e estudo academicista. O primeiro é um autêntico estudo superior, enquanto o segundo é tão-somente sua cópia exterior. Tudo isso é de conhecimento geral, mas é necessário enfrentar a selva e reter o que vier de bom.
Meus gostos históricos são bem variados: vão desde a Antigüidade até Segunda Guerra Mundial. Sei muito bem que este último assunto, na UFRJ, foi tomado por loucos esquerdistas, de modo que é quase impossível estudar adequadamente o assunto. Por outro lado, estudos sobre a vida de Jesus foram tomados por outros loucos, esquerdistas ou não. Atenho-me ao meio termo, ou melhor, na Idade Média, não toda, é claro. Também por experiência pessoal vi que é possível estudá-la sem cometer indecências. O fato de haver uma propensão enorme a se estudar autores franceses não é um problema grave. Não há nenhum impedimento grave aos meus estudos, exceto circunstâncias externas, isto é, conseguir novamente minha matrícula e ter condições materiais para me manter estudando e vivendo adequadamente.
Se eu tivesse tido essas precauções eu não estaria tão enrolado. Mas “o tolo só aprende por experiência”, nos dizeres de Homero. Vejamos se consigo levar adiante o que aprendi com minhas tolices.
Meu objetivo agora não é fazer o leitor chorar, nem muito menos pretendo reclamar como velho da vida. Imagino que todos nós já sabemos que a vida tem um aspecto bastante complicado. Porém é bom senso ter noção de que não vivemos numa Sibéria stalinista. Nem eu poderia reclamar exageradamente, a não ser para efeitos retóricos, mas isso, confio, o leitor de bom senso conseguirá perceber.
Quarta passada, enquanto eu zanzava pelo Centro do Rio atrás de algo para fazer, dei-me conta da quantidade de pessoas que possivelmente também ficam zanzando com o mesmo objeto no Centro. Nesse bairro, diariamente, a quantidade de gente que está procurando algum emprego deve ser realmente muito assombrosa. Dei-me conta disso desde que vi as filas em agências de emprego, cotidianamente lotadíssimas, ou a quantidade de pessoas que vão aos montes a consultorias de trabalho. Devido à minha própria situação, fiquei mais sensível a essas coisas, da mesma forma que pensei na quantidade de pessoas que ficam vagando pelas ruas, sem muita razão, após perder entes queridos, como Gustavo Corção e eu mesmo fizemos. Não cheguei a fazer como Gustavo Corção, que às vezes seguia automaticamente transeuntes de madrugada, mas já dei boas voltas de madrugada, como se isso servisse de distração. Não sei muito bem a razão desse comportamento. Pode ser, talvez, porque achamos de alguma maneira que a pessoa amada e falecida vai cruzar conosco na rua. Porém estou fugindo um pouco do meu propósito neste parágrafo, que é comentar acerca da quantidade nebulosa de pessoas andando no Centro do Rio puramente atrás de emprego. A fim de me repetir, torno a dizer que as agências de emprego são sintomáticas. Há uma agência governamental próxima da Igreja de São José. Tenho o hábito de passar ali perto, e não me recordo de um só santo dia em que não tenha visto filas de manhã. É algo que me faz lembrar das históricas filas de desempregados no período do entre-guerras, com a única diferença de que não aparecem agitadores profissionais querendo incitar as multidões à revolta. Um fato auxiliar é a quantidade de gentes em locais para concurso público. Essa manada de gente só pode indicar que a insegurança quanto ao emprego é ampla, geral e irrestrita. O outro fator, agências de recrutamento, é também eloqüente. Não cometerei o absurdo de exigir do leitor a ida a uma dessas agências: confie na minha experiência. Fui a uma e fiquei espantado com a enorme quantidade de pessoas indo e indo e indo tão-somente para entregar currículos e pedir qualquer salário baixo – isso quando não diziam que topavam qualquer coisa, usando o termo “a combinar”. O mais impressionante é que pelas conversas eu tive a sensação de que ninguém tinha muita noção do que queria, exceto trabalhar: gente de todas as idades. Aliás, quando a tormenta se acalmou, perguntei à atendente se sempre era daquele jeito, ao que ela me disse que normalmente era muito pior. A sala de espera, se é que podemos chamar assim um local onde só cabem três pessoas sentadas e outras três de pé, parecia um formigueiro. Ninguém ficava muito. Mais lá para dentro, havia essas dinâmicas de emprego que mais me parecem humilhações adicionais criadas por algum sádico contra quem topa tudo por dinheiro. Por amor a um possível emprego, todos se submetem a tudo, o que não é de se estranhar.
Aqui no Centro há o Mosteiro de São Bento. Esse ano, graças a um amigo, passei a freqüentá-lo durante as manhãs, 7h15, umas duas vezes no meio da semana, sempre que minha preguiça é vencida. Gosto de ir andando. Nessas idas, acabo geralmente passando em meio ao maior zunzunzum já às 6h20: o mundo se levanta cedo. Fico sempre impressionado com a quantidade de pessoas por essas redondezas. É normalmente gente de todos os cantos da cidade, e isso quando não são de fora. Em meu prédio, por exemplo, há dois porteiros que moram em cidades próximas. Aproveito para dizer que é totalmente falsa a impressão de que cariocas não toleram trabalho: ao contrário, topam tudo em qualquer horário. A visão das hordas na praia é enganosa. A população em geral não fica só na praia. Suspeito que o problema é que ela não parece ser bem qualificada, para usar um termo econômico. Isso por si não me parece justificar tamanho desemprego, porém não sou especialista nessas coisas. A única pessoa satisfeita com a economia do país é o presidente, porém todos sabem que ele não é autoridade para nada. Por outro lado, é freqüente observar como as pessoas tentam se virar do jeito que dá. É o caso dos vendedores ambulantes. Eles são o maior exemplo de como é falso também supor que o brasileiro, ou pelo menos o carioca, não tem espírito empreendedor. Muito pelo contrário: estamos lotados de espíritos empreendedores, mas que não conseguem avançar de vez por alguma razão que me escapa. Perto do Campo de Santana, na altura da Biblioteca Estadual, há sempre muito cedo uma lanchonete improvisada ao ar livre. Vendem caldo de cana, suco, pastel e sanduíches a trabalhadores. Quando passo por ali bem cedo, jamais deixo de ver uns vinte clientes, sem contar os outros que se dirigem àquele “estabelecimento”. Essa lanchonete improvisada só funciona bem cedinho: pouco mais tarde desaparece, junto com o vermelhidão da aurora. É de se crer que ocorram iniciativas semelhantes em muitos outros lugares.
Conforme eu tenho visto anúncios de emprego, chamou-me atenção a admirável formalização do nome dos cargos. A maioria das pessoas e eu sabemos o que é um faxineiro e um varredor. Contudo, ai daquele que buscar vagas pela Internet com esses nomes! Hoje em dia, por um motivo que me escapa inteiramente, nossos caros faxineiros e varredores se transformaram em um insosso "auxiliar geral. Peão-de-obra também desapareceu: acho que se transformou em “auxiliar de produção". São nomes mais elegantes, sem dúvida, porém totalmente vagos. Isso me parece algum ranço técnico-jurídico ingrato, misturado a algo politicamente correto. Os juristas medievais eram mais criativos. Como disse Marc Bloch, algum jurista de veias poéticas cunhou o termo "feudo do sol" aos alódios, isto é, terras que não eram enfeudadas, desprovidas de encargos feudais. Como eram terras que não foram dadas por ninguém ao seu proprietário, daí a expressão "do sol". Hoje em dia, época da exatidão técnico-matemática e do politicamente correto, expressões poéticas como aquela são inimagináveis no sistema jurídico. O concreto faxineiro se torna um abstrato "auxiliar geral".
Eu, que nunca tive empregos formais, vi-me numa situação inusitada. Ao ter de fazer currículos online, freqüentemente tinha de mencionar um emprego bem específico, o que é normal. Contudo, jamais tinha me dado conta da tecnicidade dos empregos e da pluralidade de funções. Há semanas venho lendo isso e até agora não consegui entender a diferença entre um emprego profissional e um operativo, conforme li nalgum site de empregos. Tampouco sei o que significa a hierarquia auxiliar-técnico-estagiário-júnior-gestor, e que o leitor me corrija se acaso tropecei na hierarquia correta. Dentro do meu mundo, inicialmente há professores e os outros, sendo que dentre os primeiros a gradação se dá pelo título adquirido: isso por si só já é um verdadeiro inferno. Quanto aos outros, até pouco tempo atrás achei que havia o jornalista, o editor, o advogado, o faxineiro, o lanterninha... Porém descubro que há assistentes, que são diferentes dos auxiliares. Há igualmente um bando de júniors, certamente, imagino, antecessores dos sêniors. Para mim, um assistente e um auxiliar são a mesma coisa, porém na tecnicidade empregatícia há diferenças. Se o leitor me permitir uma referência filosófica assaz bizarra, eu chamaria essa explosão de tipos de emprego e especializações de "kantismo empregatício positivista", posto que após Kant e positivismo tudo virou objeto de ciência, mesmo as coisas mais inusitadamente irreais. Contudo, faltaria com o bom senso se durante uma entrevista de emprego eu objetasse que tal emprego, mau grado -- faço de bom grado um assassínio -- remunerar bem, é um delírio de inspiração kantista-positivista, portanto necessariamente inferior a outras funções. Conhecer monstruosidades lingüísticas como “endomarketing" só me causam furor e ressentimento. Calo-me quanto a empregos cujos significados, a partir do nome, são ininteligíveis, ainda que bem remunerados.
A minha situação só me tem confirmado aquilo que eu já havia percebido: sou pária. Aparentemente, estou um pouquinho acima da média educacional, porém um pouquinho abaixo da excelência do ensino superior. Vivo portanto num intramundo, e aqui, gentil leitor, não há empregos. Se eu fosse um ex-clérigo, vivesse enfurnado num bar e amasse vagabundear pelas estradas e saias alheias, talvez eu poderia ser um goliardo, se é que isso significa pertencer a uma classe. Estou muito mais próximo do clérigo que disse a Raimundo Lúlio que havia passado a juventude estudando e esmolando. Seria essa situação, aliás, imaginável a nós, um estudante universitário literalmente mendigo? Só consigo imaginar algo parecido a partir das pobrezas estudantis russas de Dostoievski. Atualmente conseguimos ser universitários sem piolhos, sem lepra e, o que é melhor, cercados de belas universitárias, ainda que isso varie dramaticamente de curso para curso: eu, por exemplo, desde meus tempos de segundo grau de Eletrotécnica, jamais tive a sorte de estudar com belas moças.
Daqui do intramundo observo o quão distante é a perspectiva de emprego de um intelectual de quem não é intelectual. Se um historiador do futuro investigasse nossa época, analisando que tipo de emprego costumeiramente era oferecido em 2009, talvez ele concluísse que nós éramos criaturas excepcionalmente inteligentes, posto que aparentemente ninguém quer saber mais de professores ou qualquer coisa desse gênero. Há milhares de cargos para “auxiliar geral”, para técnico de informática, jornalista... E para quem quer dar aulas? Só se for de idiomas. Obviamente isso é um exagero retórico: a questão é a baixa quantidade de cargos desse tipo. É também óbvio que existem mais varredores que professores, mas isso não explica a inacreditável baixa demanda. Existe realmente um abismo entre intelectuais e a população em geral, de modo que o contato entre eles é puramente acidental. O povo é uma coisa que o intelectual vê de longe, enquanto o intelectual é algo que escapa completamente do horizonte do povo. Não que isso seja totalmente estranho por si: o problema é que por essas bandas a coisa é muito pior. Mas estou já escapando do assunto.
Como só podemos viver no intramundo comendo e bebendo o que as pessoas do mundo comem e bebem também, não dá para ficar contemplando aristotelicamente a realidade. Porém as pessoas no mundo exigem qualificações excessivamente formais ou se agrupam em convênios: ambos, em português bem claro, significam tão-somente armação e boquinha. Os “superiores” usam de esperteza a fim de restringir o acesso aos seus cargos. Qualificações excessivamente formais e convênios são seu escudo protetor contra as hordas vindas do inframundo. Aliás, o mesmo se dá com concursos públicos: são a chance dos “superiores” viverem tranqüilamente. Assim, um concurso público que exige 2° grau e que dá todo o tipo de benefícios a quem passar será disputado preferencialmente pelos “superiores”: o mesmo ocorre em concurso que exige tão-somente 1° grau. Na realidade, concurso público é a boquinha dos “superiores”. Os que estão entre os “superiores” e não conseguem participar da boquinha vão ocupar cargos imediatamente inferiores, supostamente destinados aos do inframundo, e os que estão no inframundo mas são melhores que seus companheiros vão ocupar os cargos destes. Os últimos, no fim das contas, vão pastar e comer grama. As regulamentações a fim de proteger os direitos dos trabalhadores servem apenas para dificultar contratações e arremessar todo mundo na rua o mais rapidamente possível. A acrescentar as autênticas sacanagens empregatícias, é de se espantar como chamam tudo isso de exemplo autêntico da maldade inerente ao capitalismo, quanto é apenas exemplo de pega-pra-capar tupiniquim.
Dizendo assim, até parece que meu caso específico é culpa da maldade ambiente. Não é bem assim. Como esse blog não é um confessionário, não devo me dirigir ao leitor como se você fosse meu padre confessor. Digo tão-somente que, dada a situação ambiente, eu também fiz questão de me enrolar. Creio que ter escapado heroicamente da universidade não foi nenhum pouco virtuoso. Certamente as universidades têm problemas muito graves, porém a solução não me parece fugir, ainda mais quem não tem muitas fontes de renda. É uma simples questão de bom senso. Sou o primeiro a dizer que freqüentemente topamos com situações deprimentes em faculdades, mas também quero ser um dos primeiros a dizer que cada faculdade é um microcosmo: o que ocorre na faculdade de História da UFRJ é diferente do que ocorre na da UFF. E mesmo em cada uma delas existe um tremendo saco de gatos. Passados quatro ou cinco anos sem pôr os pés numa sala universitária, hoje tenho melhor noção dos problemas que o positivismo trouxe aos estudos. Eles chegam a ser ininteligíveis para quase todo mundo, tal é a influência dos seus pressupostos metodológicos aparentemente sensatos e humildes. As opiniões e estudos esquerdistas certamente estão bem disseminados e são irritantes. Todavia, uma faculdade não é só isso: bem ou mal, determinadas coisas você só conhecerá, ou pelo menos conhecerá mais facilmente, numa faculdade. Ademais, digo por experiência própria que se na universidade já ficamos angustiados por encontrar pouca gente disposta a estudar verdadeiramente assuntos amplos, fora dela é virtualmente impossível encontrar alguém. Não acho essa situação boa, mas a verdade é essa. Há também o problema tradicional da confusão entre estudo acadêmico e estudo academicista. O primeiro é um autêntico estudo superior, enquanto o segundo é tão-somente sua cópia exterior. Tudo isso é de conhecimento geral, mas é necessário enfrentar a selva e reter o que vier de bom.
Meus gostos históricos são bem variados: vão desde a Antigüidade até Segunda Guerra Mundial. Sei muito bem que este último assunto, na UFRJ, foi tomado por loucos esquerdistas, de modo que é quase impossível estudar adequadamente o assunto. Por outro lado, estudos sobre a vida de Jesus foram tomados por outros loucos, esquerdistas ou não. Atenho-me ao meio termo, ou melhor, na Idade Média, não toda, é claro. Também por experiência pessoal vi que é possível estudá-la sem cometer indecências. O fato de haver uma propensão enorme a se estudar autores franceses não é um problema grave. Não há nenhum impedimento grave aos meus estudos, exceto circunstâncias externas, isto é, conseguir novamente minha matrícula e ter condições materiais para me manter estudando e vivendo adequadamente.
Se eu tivesse tido essas precauções eu não estaria tão enrolado. Mas “o tolo só aprende por experiência”, nos dizeres de Homero. Vejamos se consigo levar adiante o que aprendi com minhas tolices.
Friday, March 06, 2009
Do último post do Omayr
O blog do Omayr é um dos mais felizes que há. Sempre há textos muito interessantes, ou citações muito boas. Porém eu gostaria de convidar o amigo leitor a ler seu último post, um relato pessoal, que está magnífico.
Wednesday, March 04, 2009
Divórcio e barbárie
(Nota: Mais um post requentado.)
Provavelmente o leitor acharia muito estranho se um filho fosse ao cartório para anular sua união com os pais ou vice-versa. Isso não seria menos esquisito se ocorresse com nossos irmãos, tios, primos, avós, etc. Mas é bem possível que o leitor não estranhe tanto se um marido insatisfeito fosse ao mesmo cartório para anular suas ligações com a esposa. Estamos tão habituados com a idéia de divórcio que ela se tornou algo tão natural quanto o Corcovado.
O que é o casamento? É a união indissolúvel entre marido e mulher, visando constituição de família. Atentemos para a palavra “indissolúvel”: se é assim, então onde fica o divórcio? Não fica; aliás pode até ficar no caso do casamento civil. Pois o Estado até matrimônios gere, como se não bastasse sugar nossos míseros centavos a cada mês com dezenas de impostos, obrigatoriedade do voto, do serviço militar... Até violar seus cidadãos quando mortos, sob o pomposo nome de “autopsia”, ele quer. Só que, em se tratando de casamento, o Estado não supre uma peculiaridade desta união. É que a Igreja une sob os auspícios de um dom sobrenatural, criando no instante dos votos um parentesco que não foi o de nascimento. Assim, por causa desse dom, os nubentes vêem suas famílias crescer: surge uma segunda mãe, um segundo pai, um segundo primo, um segundo avô etc. etc. Quando um casal se une desse modo, pode-se dizer que cada um se casa com a família do outro. E o resultado dessa união, realmente espantosa, é a junção de várias pessoas em uma só: de um pouco de sangue de cada família surge uma nova criaturazinha, que é conclusão concreta (melhor: carnal) dessa união. Eis que a ligação de sangue sobrenatural se desdobrou e criou uma ligação carnal em forma de pessoa. A palavra empenhada ao pé do altar se fez carne: é o nascimento da criança.
Se pai e mãe são tão parentes quanto primo e tia, como é possível haver o divórcio? Só pode ficar no casamento civil, que une sem unir. Não quero dizer com isso que os anjos não desceram dos céus e transformaram a união de duas pessoas no cartório no principal acontecimento do universo naquele exato instante. E se várias pessoas se casam ao mesmo tempo, então por um mistério também cada uma será o centro do universo. Porém o que eu quero dizer é que o Estado não tem o poder sobrenatural para sacralizar esta união. Tenho um certo receio de usar a palavra “conveniência” para explicar isso, pois dá margem a equívocos. Se o leitor tiver boa vontade, entenderá que com isso digo que o casamento em cartório acaba se baseando em formalidade jurídica, um assinar de papéis, embora um assinar de papéis todo especial. Mas é apenas ali no papel que está a salvaguarda do casamento. E sabemos como papéis são frágeis.
Há um agravante nesta já insólita situação, que não sei dizer se filosoficamente é causa do movimento ou final disso tudo. É o problema da palavra empenhada. Antigamente, quando quase ninguém sabia escrever, só alguém muito original consideraria indispensável um contrato por escrito e assinado para empenhar um juramento. Em épocas muito remotas, as pessoas juravam nas e pelas coisas mais insólitas: água, vinho, fogo... Até os coitados dos santos eram empenhados, ou as mães. Coitados de ambos! Esses hábitos até hoje podem ser vistos na nossa própria sociedade, ainda que tenham perdido a freqüência e importância original. Em pleno século XX, meu avô, segundo lendas, quando empenhava a palavra, dizia também que jurava pelo seu bigode, pois aquilo era a prova de ele ser um homem, e homens não quebram a palavra. Bigode! Não sei dizer se ele se viu muitas vezes com o bigode aparado; em todo caso, é um exemplo engraçado de como essas coisas permaneceram até os dias de hoje.
Devemos acrescentar na nossa breve história dos juramentos que eles sempre tinham um caráter sagrado. Ninguém escolhia a água por ela ser uma substância intrigante ou o vinho porque o juramento era coisa de gente bêbada. Jurava-se sob a água porque muitos acreditavam que no princípio tudo era água, sendo as coisas agora compostas substancialmente por ela – era a substância mais importante que existia. Ou o fogo, segundo outros. Quanto ao vinho, não sei dizer o motivo, mas imagino que tenha alguma relação com Baco ou outro deus. Além disso, não podemos esquecer que a palavra, por si só, é um atributo que os deuses gentilmente nos emprestaram. Se atentássemos para a sua importância, pensaríamos cinco, dez vezes antes de usá-la. Então o juramento é (ou era, se formos muito pessimistas) algo muito especial e até misterioso, sagrado quanto à sua natureza. Quebrar uma promessa, um pacto, só gente impiedosa, só gente completamente afastada da civilização, só teria coragem um bárbaro.
E o que seria o divórcio senão uma quebra de um juramento? Para piorar a situação, um dos mais importantes juramentos que duas pessoas podem fazer? Não é verdade que apenas os bárbaros não empenham seriamente a palavra? Pois aí está, leitor: nós somos incivilizados, impiedosos, pois em uma quantidade absurda de casos, além de não pensarmos no absurdo que é o desligamento de um laço de parentesco, não levamos a sério nossos próprios votos. Não medimos as conseqüências da nossa própria palavra empenhada e não hesitamos em quebrá-la quando melhor nos convém. Elegemos a eficiência como o mais soberbo princípio e, a partir daí, vivemos na mais medíocre prática de conveniências, de egoísmos e do amor-próprio. Esse problema é tão grave que chega a ameaçar uma sociedade. Se do ponto de vista individual cria inimizades, de um ponto de vista mais geral o juramento se torna uma prática vazia. A sociedade acaba aceitando o império universal da desconfiança. Por que não poderia alguém se “divorciar” da sociedade e, por razões de conveniência, realizar um golpe de Estado e rasgar a Constituição? E o que impediria, em um mundo assim, de um país quebrar tratados cuja tinta que serviu para sua assinatura mal secara? É o mundo das traições, das apunhaladas, dos advogados e promotores em número absurdo, do medo, da desconfiança e do descrédito. É a volta a quatro patas a um estado primitivo, onde tudo parece conspirar contra nós.
Provavelmente o leitor acharia muito estranho se um filho fosse ao cartório para anular sua união com os pais ou vice-versa. Isso não seria menos esquisito se ocorresse com nossos irmãos, tios, primos, avós, etc. Mas é bem possível que o leitor não estranhe tanto se um marido insatisfeito fosse ao mesmo cartório para anular suas ligações com a esposa. Estamos tão habituados com a idéia de divórcio que ela se tornou algo tão natural quanto o Corcovado.
O que é o casamento? É a união indissolúvel entre marido e mulher, visando constituição de família. Atentemos para a palavra “indissolúvel”: se é assim, então onde fica o divórcio? Não fica; aliás pode até ficar no caso do casamento civil. Pois o Estado até matrimônios gere, como se não bastasse sugar nossos míseros centavos a cada mês com dezenas de impostos, obrigatoriedade do voto, do serviço militar... Até violar seus cidadãos quando mortos, sob o pomposo nome de “autopsia”, ele quer. Só que, em se tratando de casamento, o Estado não supre uma peculiaridade desta união. É que a Igreja une sob os auspícios de um dom sobrenatural, criando no instante dos votos um parentesco que não foi o de nascimento. Assim, por causa desse dom, os nubentes vêem suas famílias crescer: surge uma segunda mãe, um segundo pai, um segundo primo, um segundo avô etc. etc. Quando um casal se une desse modo, pode-se dizer que cada um se casa com a família do outro. E o resultado dessa união, realmente espantosa, é a junção de várias pessoas em uma só: de um pouco de sangue de cada família surge uma nova criaturazinha, que é conclusão concreta (melhor: carnal) dessa união. Eis que a ligação de sangue sobrenatural se desdobrou e criou uma ligação carnal em forma de pessoa. A palavra empenhada ao pé do altar se fez carne: é o nascimento da criança.
Se pai e mãe são tão parentes quanto primo e tia, como é possível haver o divórcio? Só pode ficar no casamento civil, que une sem unir. Não quero dizer com isso que os anjos não desceram dos céus e transformaram a união de duas pessoas no cartório no principal acontecimento do universo naquele exato instante. E se várias pessoas se casam ao mesmo tempo, então por um mistério também cada uma será o centro do universo. Porém o que eu quero dizer é que o Estado não tem o poder sobrenatural para sacralizar esta união. Tenho um certo receio de usar a palavra “conveniência” para explicar isso, pois dá margem a equívocos. Se o leitor tiver boa vontade, entenderá que com isso digo que o casamento em cartório acaba se baseando em formalidade jurídica, um assinar de papéis, embora um assinar de papéis todo especial. Mas é apenas ali no papel que está a salvaguarda do casamento. E sabemos como papéis são frágeis.
Há um agravante nesta já insólita situação, que não sei dizer se filosoficamente é causa do movimento ou final disso tudo. É o problema da palavra empenhada. Antigamente, quando quase ninguém sabia escrever, só alguém muito original consideraria indispensável um contrato por escrito e assinado para empenhar um juramento. Em épocas muito remotas, as pessoas juravam nas e pelas coisas mais insólitas: água, vinho, fogo... Até os coitados dos santos eram empenhados, ou as mães. Coitados de ambos! Esses hábitos até hoje podem ser vistos na nossa própria sociedade, ainda que tenham perdido a freqüência e importância original. Em pleno século XX, meu avô, segundo lendas, quando empenhava a palavra, dizia também que jurava pelo seu bigode, pois aquilo era a prova de ele ser um homem, e homens não quebram a palavra. Bigode! Não sei dizer se ele se viu muitas vezes com o bigode aparado; em todo caso, é um exemplo engraçado de como essas coisas permaneceram até os dias de hoje.
Devemos acrescentar na nossa breve história dos juramentos que eles sempre tinham um caráter sagrado. Ninguém escolhia a água por ela ser uma substância intrigante ou o vinho porque o juramento era coisa de gente bêbada. Jurava-se sob a água porque muitos acreditavam que no princípio tudo era água, sendo as coisas agora compostas substancialmente por ela – era a substância mais importante que existia. Ou o fogo, segundo outros. Quanto ao vinho, não sei dizer o motivo, mas imagino que tenha alguma relação com Baco ou outro deus. Além disso, não podemos esquecer que a palavra, por si só, é um atributo que os deuses gentilmente nos emprestaram. Se atentássemos para a sua importância, pensaríamos cinco, dez vezes antes de usá-la. Então o juramento é (ou era, se formos muito pessimistas) algo muito especial e até misterioso, sagrado quanto à sua natureza. Quebrar uma promessa, um pacto, só gente impiedosa, só gente completamente afastada da civilização, só teria coragem um bárbaro.
E o que seria o divórcio senão uma quebra de um juramento? Para piorar a situação, um dos mais importantes juramentos que duas pessoas podem fazer? Não é verdade que apenas os bárbaros não empenham seriamente a palavra? Pois aí está, leitor: nós somos incivilizados, impiedosos, pois em uma quantidade absurda de casos, além de não pensarmos no absurdo que é o desligamento de um laço de parentesco, não levamos a sério nossos próprios votos. Não medimos as conseqüências da nossa própria palavra empenhada e não hesitamos em quebrá-la quando melhor nos convém. Elegemos a eficiência como o mais soberbo princípio e, a partir daí, vivemos na mais medíocre prática de conveniências, de egoísmos e do amor-próprio. Esse problema é tão grave que chega a ameaçar uma sociedade. Se do ponto de vista individual cria inimizades, de um ponto de vista mais geral o juramento se torna uma prática vazia. A sociedade acaba aceitando o império universal da desconfiança. Por que não poderia alguém se “divorciar” da sociedade e, por razões de conveniência, realizar um golpe de Estado e rasgar a Constituição? E o que impediria, em um mundo assim, de um país quebrar tratados cuja tinta que serviu para sua assinatura mal secara? É o mundo das traições, das apunhaladas, dos advogados e promotores em número absurdo, do medo, da desconfiança e do descrédito. É a volta a quatro patas a um estado primitivo, onde tudo parece conspirar contra nós.
Tuesday, March 03, 2009
O sultão e o Anjo da Morte
(Nota: Já publiquei esse texto, mas decidi reescrevê-lo parcialmente. No futuro escreverei uma segunda versão com um final levemente alterado.)
Contarei a vocês, amigos, uma história oriental. Não é minha: faz parte desse conjunto de lendas que simplesmente brotam das névoas da história, portanto verdadeiras em espírito. O fim é meio abrupto, mas não contarei a moral.
Certa vez o sultão contemplava orgulhoso e solitário a sua cidade da varanda de seu enorme palácio. Toda aquela opulência lhe parecia a manifestação e testemunho de sua própria glória, como se uma idéia grandiosa tivesse sido atualizada por uma pessoa semelhantemente grandiosa, um milagre que havia se tornado ato em todos os pormenores. Certamente não havia cidade em todo orbe tão bela quanto àquela. Essa contemplação tinha traço de Narciso, porque ao olhar a cidade ele via tão-somente a si mesmo. Todavia, eis que de repente o sultão sentiu um calafrio tremendo, prenúncio de toda a calamidade. Do alto da abóbada celeste escura e estrelada, desceu, tal como um raio, um anjo de beleza terrível. Não era uma criatura qualquer, mas aquele que é a boca de Deus para o flagelo. Estava ali o Anjo da Morte. E o sultão estremeceu. Com uma voz indescritível, logo disse o Anjo: "Ó homem, eis que Deus me enviou para te anunciar terrível desgraça. Prepara-te, pois tocarei a tua cidade como jamais fora antes tocada." Tendo ouvido tão sinistro oráculo, o sultão lhe respondeu: "Que fiz de mal? Ora, diga-me conforme a verdade: quantos hão de tombar? Se foi o Senhor que te enviou, então pela graça de Deus misericordioso te rogo para que me digas!" Falou o Anjo: "Cinco mil tombarão nas próximas semanas de doença terrível. Prepara-te e te alegra, ó homem, porque nem sempre é dado conhecer a extensão da própria desgraça. Tu és pecador, mas Deus é fiel." E voltou aos céus o Anjo da Morte.
Mal tendo desaparecido o Anjo, o sultão, homem extremamente prático como todos bons governantes devem ser, tratou de expedir ordens o quanto antes para que a cidade suportasse o flagelo vindouro. As ordens eram dadas com certa melancolia, pois ele considerava a empresa difícil e o fato vindouro brutal. Mas não se discute a vontade de Deus. A cidade foi preparada, na medida do possível, para suportar a calamidade iminente.
A semana seguinte chegou e as pessoas começaram a morrer. O sultão, bastante apreensivo, observava os acontecimentos e agia de acordo com suas possibilidades, sem jamais deixar de contabilizar o número de mortos: estava certo que a desgraça cessaria tão logo a quantidade de almas mencionada pelo Anjo subisse aos céus. Na primeira semana Deus chamou aos céus setecentas almas. Na segunda foram mil e quinhentas. Na terceira foram mais mil. O pânico era generalizado. O espírito do povo sofria golpe atrás de golpe. E não cessava de morrer gente até que houve um total de mais de trinta mil mortos em pouco mais de um mês, o que deixou indignado o sultão, que repetia de si para si: "Para o inferno aquele demônio mentiroso!" Eis então que novamente o Anjo da Morte apareceu e lhe perguntou: "Ó homem, por que blasfemas?" Respondeu-lhe o sultão: "Tu me enganaste, demônio! Falaste que cinco mil homens tombariam de doença terrível. Ora, em pouco mais de um mês morreram mais de trinta mil!" Disse-lhe o Anjo: "Decerto, ó homem, cinco mil tombaram de peste terrível." O sultão, ao ouvir tais palavras, sentiu o coração queimar, e sua alma se inquietou, e uma ira aparentemente justa se apossou dele. Exasperado, disse, com a voz irada: "Zombas de mim, maldito cão dos infernos! Seis vezes mais homens tombaram do que isso!" Então lhe respondeu o Anjo da Morte: "Ó homem de pouca fé e insensato, que duvida do aviso do céu! Celerado! Cinco mil tombaram de peste. O restante, em verdade vos digo, o restante morreu de medo da peste."
Contarei a vocês, amigos, uma história oriental. Não é minha: faz parte desse conjunto de lendas que simplesmente brotam das névoas da história, portanto verdadeiras em espírito. O fim é meio abrupto, mas não contarei a moral.
Certa vez o sultão contemplava orgulhoso e solitário a sua cidade da varanda de seu enorme palácio. Toda aquela opulência lhe parecia a manifestação e testemunho de sua própria glória, como se uma idéia grandiosa tivesse sido atualizada por uma pessoa semelhantemente grandiosa, um milagre que havia se tornado ato em todos os pormenores. Certamente não havia cidade em todo orbe tão bela quanto àquela. Essa contemplação tinha traço de Narciso, porque ao olhar a cidade ele via tão-somente a si mesmo. Todavia, eis que de repente o sultão sentiu um calafrio tremendo, prenúncio de toda a calamidade. Do alto da abóbada celeste escura e estrelada, desceu, tal como um raio, um anjo de beleza terrível. Não era uma criatura qualquer, mas aquele que é a boca de Deus para o flagelo. Estava ali o Anjo da Morte. E o sultão estremeceu. Com uma voz indescritível, logo disse o Anjo: "Ó homem, eis que Deus me enviou para te anunciar terrível desgraça. Prepara-te, pois tocarei a tua cidade como jamais fora antes tocada." Tendo ouvido tão sinistro oráculo, o sultão lhe respondeu: "Que fiz de mal? Ora, diga-me conforme a verdade: quantos hão de tombar? Se foi o Senhor que te enviou, então pela graça de Deus misericordioso te rogo para que me digas!" Falou o Anjo: "Cinco mil tombarão nas próximas semanas de doença terrível. Prepara-te e te alegra, ó homem, porque nem sempre é dado conhecer a extensão da própria desgraça. Tu és pecador, mas Deus é fiel." E voltou aos céus o Anjo da Morte.
Mal tendo desaparecido o Anjo, o sultão, homem extremamente prático como todos bons governantes devem ser, tratou de expedir ordens o quanto antes para que a cidade suportasse o flagelo vindouro. As ordens eram dadas com certa melancolia, pois ele considerava a empresa difícil e o fato vindouro brutal. Mas não se discute a vontade de Deus. A cidade foi preparada, na medida do possível, para suportar a calamidade iminente.
A semana seguinte chegou e as pessoas começaram a morrer. O sultão, bastante apreensivo, observava os acontecimentos e agia de acordo com suas possibilidades, sem jamais deixar de contabilizar o número de mortos: estava certo que a desgraça cessaria tão logo a quantidade de almas mencionada pelo Anjo subisse aos céus. Na primeira semana Deus chamou aos céus setecentas almas. Na segunda foram mil e quinhentas. Na terceira foram mais mil. O pânico era generalizado. O espírito do povo sofria golpe atrás de golpe. E não cessava de morrer gente até que houve um total de mais de trinta mil mortos em pouco mais de um mês, o que deixou indignado o sultão, que repetia de si para si: "Para o inferno aquele demônio mentiroso!" Eis então que novamente o Anjo da Morte apareceu e lhe perguntou: "Ó homem, por que blasfemas?" Respondeu-lhe o sultão: "Tu me enganaste, demônio! Falaste que cinco mil homens tombariam de doença terrível. Ora, em pouco mais de um mês morreram mais de trinta mil!" Disse-lhe o Anjo: "Decerto, ó homem, cinco mil tombaram de peste terrível." O sultão, ao ouvir tais palavras, sentiu o coração queimar, e sua alma se inquietou, e uma ira aparentemente justa se apossou dele. Exasperado, disse, com a voz irada: "Zombas de mim, maldito cão dos infernos! Seis vezes mais homens tombaram do que isso!" Então lhe respondeu o Anjo da Morte: "Ó homem de pouca fé e insensato, que duvida do aviso do céu! Celerado! Cinco mil tombaram de peste. O restante, em verdade vos digo, o restante morreu de medo da peste."
Monday, March 02, 2009
Da Igreja e o comunismo
Olavo de Carvalho, tanto no True Outspeak de segunda última, bem como em muitíssimas ocasiões, tem dito que a Igreja silenciou publicamente acerca da perversidade do comunismo desde o último concílio. Essa acusação, no entanto, está longe da verdade. A tal ponto a Igreja condena pública e expressamente o comunismo que no próprio catecismo há referências a malignidade do comunismo.
Está claramente dito, na seção acerca do sétimo mandamento, que o comunismo e o socialismo são pecados contra este mandamento, e contrários à doutrina social da Igreja:
Isso significa que todo católico deve (ou deveria) saber que professar o comunismo é um pecado grave, e que a Igreja está clara, visível e inequivocamente em combate contra o comunismo, como aliás sempre esteve. Ora, o pecado contra o sétimo mandamento não é o único mal do comunismo. Sendo uma ideologia atéia, e sendo o ateísmo igualmente um pecado gravíssimo, o comunismo é uma afronta ao primeiro mandamento:
Sendo o comunismo ateu e contrário à doutrina social da Igreja, aquele que o professa está queimado em pelo menos dois mandamentos. Todavia, o comunismo também é uma idéia genocida, totalitária, contrária à família e às autoridades legitimamente estabelecidas, promovedor de discórdias, inimigo da propriedade privada e defensor de muitas outras coisas absurdas. Portanto, logicamente ele está em choque contra virtualmente todos os mandamentos de Deus, não havendo sequer necessidade de sempre repetir a palavra "comunismo" em cada exemplo de pecado contra os mandamentos.
Como tudo isso é dito expressamente no próprio catecismo, que é ensinado a todos os fiéis do mundo inteiro, fica evidente que a Igreja permanece em combate feroz contra o comunismo desde sempre e com toda a sua força, não sendo verdade, pois, que a partir do último concílio ela deixou de condená-lo. Tudo isso é de conhecimento básico para todo católico.
Por fim, eu gostaria de dizer que já vi missas em que padres condenavam explicitamente o comunismo. É verdade que já vi uma missa em que um padre criticava a propriedade privada, como se ela fosse pecaminosa de fato, porém esse pretenso ensinamento é um absurdo total, claramente contrário ao catecismo da Igreja, que, ao contrário, considera a propriedade privada legítima, desde que fundada na justiça. Ademais, infelizmente sempre houve heresiarcas no seio da Igreja, mas ela sempre soube defender o depósito da fé da maneira mais sábia e inequívoca. Por mais terríveis que sejam os inimigos da fé e por mais que eles cerquem a Igreja, ela nunca se deixou acovardar nem se amesquinhar: todos os erros em todos os tempos foram combatidos com bravura e nunca deixaram de ser denunciados pelas principais autoridades sacerdotais. Acusar a Igreja atualmente do contrário está em desacordo com a tradição e bem longe do que tem acontecido na realidade.
Está claramente dito, na seção acerca do sétimo mandamento, que o comunismo e o socialismo são pecados contra este mandamento, e contrários à doutrina social da Igreja:
512. O que é que se opõe à doutrina social da Igreja?
2424 – 2425
Opõem-se à doutrina social da Igreja os sistemas económicos e sociais que sacrificam os direitos fundamentais das pessoas ou que fazem do lucro a sua regra exclusiva ou o seu fim último. Por isso, a Igreja rejeita as ideologias associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou às formas ateias e totalitárias de «socialismo». Rejeita, além disso, na prática do «capitalismo», o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano.
Isso significa que todo católico deve (ou deveria) saber que professar o comunismo é um pecado grave, e que a Igreja está clara, visível e inequivocamente em combate contra o comunismo, como aliás sempre esteve. Ora, o pecado contra o sétimo mandamento não é o único mal do comunismo. Sendo uma ideologia atéia, e sendo o ateísmo igualmente um pecado gravíssimo, o comunismo é uma afronta ao primeiro mandamento:
445. Que proíbe Deus ao ordenar: «Não terás outros deuses perante Mim» (Ex 20,2)?
2110-2128
2138-2140
Este mandamento proíbe:
- o politeísmo e a idolatria, que diviniza uma criatura, o poder, o dinheiro, e até mesmo o demónio;
- a superstição, que é um desvio do culto devido ao verdadeiro Deus, e que se expressa nas várias formas de adivinhação, magia, feitiçaria e espiritismo;
- a irreligião, expressa no tentar a Deus com palavras ou actos, no sacrilégio, que profana pessoas ou coisas sagradas sobretudo a Eucaristia, e na simonia, que pretende comprar ou vender realidades espirituais;
- o ateísmo, que nega a existência de Deus, fundando-se muitas vezes numa falsa concepção de autonomia humana;
- o agnosticismo, segundo o qual nada se poder saber de Deus, e que inclui o indiferentismo e o ateísmo prático
Sendo o comunismo ateu e contrário à doutrina social da Igreja, aquele que o professa está queimado em pelo menos dois mandamentos. Todavia, o comunismo também é uma idéia genocida, totalitária, contrária à família e às autoridades legitimamente estabelecidas, promovedor de discórdias, inimigo da propriedade privada e defensor de muitas outras coisas absurdas. Portanto, logicamente ele está em choque contra virtualmente todos os mandamentos de Deus, não havendo sequer necessidade de sempre repetir a palavra "comunismo" em cada exemplo de pecado contra os mandamentos.
Como tudo isso é dito expressamente no próprio catecismo, que é ensinado a todos os fiéis do mundo inteiro, fica evidente que a Igreja permanece em combate feroz contra o comunismo desde sempre e com toda a sua força, não sendo verdade, pois, que a partir do último concílio ela deixou de condená-lo. Tudo isso é de conhecimento básico para todo católico.
Por fim, eu gostaria de dizer que já vi missas em que padres condenavam explicitamente o comunismo. É verdade que já vi uma missa em que um padre criticava a propriedade privada, como se ela fosse pecaminosa de fato, porém esse pretenso ensinamento é um absurdo total, claramente contrário ao catecismo da Igreja, que, ao contrário, considera a propriedade privada legítima, desde que fundada na justiça. Ademais, infelizmente sempre houve heresiarcas no seio da Igreja, mas ela sempre soube defender o depósito da fé da maneira mais sábia e inequívoca. Por mais terríveis que sejam os inimigos da fé e por mais que eles cerquem a Igreja, ela nunca se deixou acovardar nem se amesquinhar: todos os erros em todos os tempos foram combatidos com bravura e nunca deixaram de ser denunciados pelas principais autoridades sacerdotais. Acusar a Igreja atualmente do contrário está em desacordo com a tradição e bem longe do que tem acontecido na realidade.
Tuesday, February 24, 2009
Pedagogia do cemitério
A disposição de certos locais mais ou menos próximos de onde moro me chama a atenção, tanto por ter sido fruto do acaso como pela significação simbólica. A Lapa, chamada de área boêmia do Rio, é um bom exemplo. Logo no início, há vários estabelecimentos festivos, onde há tanta gente apinhada que não raro é difícil de andar. Não raro também é o consumo de drogas e prostituição. Se continuarmos andando e passando pelos Arcos de Lapa, ainda haverá as mesmas coisas, porém bem mais a frente está uma funerária, e ao seu lado o Instituto Médico Legal. Caminhando mais um pouco, deparamo-nos com o INCA e o Hospital da Cruz Vermelha, embora haja outros estabelecimentos de saúde próximos. Ora, o sentido disso sempre me foi muito presente: além do desregramento está a morte. Não sei se muitas pessoas fazem alguma reflexão desse tipo ao passar por todos esses lugares, mas deveriam.
Bem próximo de onde moro, a ponto de ser impossível de dormir no meu quarto quando há carnaval, há o Sambódromo. O que muitos não sabem ou não se deram conta é que ali perto há o Cemitério do Catumbi, talvez a menos de duzentos passos. Considero simplesmente inacreditável que nenhum carioca tenha refletido acerca disso. Os mortos jazem a não muitos metros das extravagâncias. Deveria ser, aliás, costume fazer uma peregrinação até aquele cemitério após ir ao Sambódromo, como medida educativa. Vejam os gregos por exemplo. Lembro-me muito mal de uma aula em que um rapaz falava acerca de uma festa muito estranha na Grécia clássica. A certa altura das festividades, as pessoas, dentro de tavernas, ficavam por algum tempo caladas e concentradas, de cabeça baixa e olhando para suas canecas. Não me lembro exatamente da razão desse comportamento, mas tinha alguma coisa a ver com a presença de espíritos: era como se cada um se concentrasse a fim de não ser perturbado pelos mortos. Em seguida elas voltavam ao normal e voltavam a beber e conversar. É algo análogo à missa: há o momento em que todos se confraternizam dando a paz de Cristo, mas também todos se calam imediatamente após a comunhão, sendo que anteriormente os mortos são lembrados: Memento etiam, Domine...
Fosse eu pastor ou padre e teria feito um sermão de domingo levantando esses pontos.
A morte é uma das realidades da nossa existência. Assim, toda a nossa vida está ancorada, queiramos ou não, em sua presença. Contudo, mais de um século de positivismo escamoteou tudo aquilo que não passava pelo crivo da ciência experimental. Como a morte poderia ser considerada do ponto de vista científico, ou, melhor dizendo, que ciência teria a morte como objeto? Um materialismo implícito fez com que simplesmente uma das realidades mais próprias de nossa existência fosse considerada um não-assunto. Ela ficou, no máximo, relegada ao domínio das crenças subjetivas e à conversa informal. Todavia, seria injusto considerar o positivismo o único vilão. Por mais estranho que pareça, os avanços técnicos e políticos, que permitiram a existência de uma enxurrada de pessoas como nunca se vira antes, contribuíram igualmente para o quase esquecimento da morte. Com as expectativas de vida subindo cada vez mais e com a relativa melhoria das condições de vida, uma quantidade imensa de luxo e conforto foi disponibilizada para virtualmente quase toda a humanidade. A existência começou a parecer não mais tão penosa como no passado -- um engano lamentável, mas é essa a sensação. A profunda instabilidade da vida, que se refletia tão materialmente que mesmo no Pai-Nosso é sempre pedido "o pão nosso de cada dia", atualmente parece ter se tornado um problema meramente filosófico: com efeito, a urgência do "pão nosso de cada dia" não parece ser mais tão grave assim. Catástrofes de abastecimento tais como houve na Rússia em fins do séc. XIX parecem aos olhos do observador mediano algo circunscrito tão-somente a regiões remotas do mundo. Tudo isso fez com que a realidade da morte fosse uma experiência longínqua para muitíssimas pessoas. Diferentemente de um Bach, que se tornara órfão bem jovem, perdera a primeira esposa e ao longo de sua vida quase metade dos filhos, quantos de nós passaram por algo semelhante? Para muitíssimas pessoas, realmente a morte não tem sido uma experiência próximo: quando muito, chora-se a perda de algum parente afastado ou um amigo. Quanto não conhecem a morte tão somente por assim dizer de oitiva? Contudo, mais cedo ou mais tarde, todos enfrentarão a presença da morte.
Não quero empreender uma análise a fim de descobrir se o positivismo é causa ou efeito do avanço técnico-político. Desejo apenas salientar que a morte acabou sendo posta para debaixo do tapete. Ora, tudo aquilo que é uma realidade na vida humana jamais poderá ser escondido sem prejuízo. A conseqüência disso é que ela surgirá com força redobrada. O século passado foi assaz ilustrativo: quando a morte parecia sob controle, duas guerras mundiais sangrentas e regimes totalitários causaram a morte de mais de trezentos milhões de almas, e essas mortes totalmente desprovidas de sentido não param. Ao mesmo tempo, a decadência da política tem transformado os centros urbanos em moedores de carne, principalmente em países como Brasil, onde a taxa de homicídios é assombrosa. Embora tenham tentado transformar a morte em peça de antiquário, ela vem se mostrando com uma vitalidade apavorante.
Essa situação é desconcertante. Com todo o aparato técnico, simplesmente nos vemos por assim dizer mais inermes do que nunca contra os grilhões da morte. Ela desempenha sua função com um desassombro particularmente humilhante.
(Continua...)
Bem próximo de onde moro, a ponto de ser impossível de dormir no meu quarto quando há carnaval, há o Sambódromo. O que muitos não sabem ou não se deram conta é que ali perto há o Cemitério do Catumbi, talvez a menos de duzentos passos. Considero simplesmente inacreditável que nenhum carioca tenha refletido acerca disso. Os mortos jazem a não muitos metros das extravagâncias. Deveria ser, aliás, costume fazer uma peregrinação até aquele cemitério após ir ao Sambódromo, como medida educativa. Vejam os gregos por exemplo. Lembro-me muito mal de uma aula em que um rapaz falava acerca de uma festa muito estranha na Grécia clássica. A certa altura das festividades, as pessoas, dentro de tavernas, ficavam por algum tempo caladas e concentradas, de cabeça baixa e olhando para suas canecas. Não me lembro exatamente da razão desse comportamento, mas tinha alguma coisa a ver com a presença de espíritos: era como se cada um se concentrasse a fim de não ser perturbado pelos mortos. Em seguida elas voltavam ao normal e voltavam a beber e conversar. É algo análogo à missa: há o momento em que todos se confraternizam dando a paz de Cristo, mas também todos se calam imediatamente após a comunhão, sendo que anteriormente os mortos são lembrados: Memento etiam, Domine...
Fosse eu pastor ou padre e teria feito um sermão de domingo levantando esses pontos.
A morte é uma das realidades da nossa existência. Assim, toda a nossa vida está ancorada, queiramos ou não, em sua presença. Contudo, mais de um século de positivismo escamoteou tudo aquilo que não passava pelo crivo da ciência experimental. Como a morte poderia ser considerada do ponto de vista científico, ou, melhor dizendo, que ciência teria a morte como objeto? Um materialismo implícito fez com que simplesmente uma das realidades mais próprias de nossa existência fosse considerada um não-assunto. Ela ficou, no máximo, relegada ao domínio das crenças subjetivas e à conversa informal. Todavia, seria injusto considerar o positivismo o único vilão. Por mais estranho que pareça, os avanços técnicos e políticos, que permitiram a existência de uma enxurrada de pessoas como nunca se vira antes, contribuíram igualmente para o quase esquecimento da morte. Com as expectativas de vida subindo cada vez mais e com a relativa melhoria das condições de vida, uma quantidade imensa de luxo e conforto foi disponibilizada para virtualmente quase toda a humanidade. A existência começou a parecer não mais tão penosa como no passado -- um engano lamentável, mas é essa a sensação. A profunda instabilidade da vida, que se refletia tão materialmente que mesmo no Pai-Nosso é sempre pedido "o pão nosso de cada dia", atualmente parece ter se tornado um problema meramente filosófico: com efeito, a urgência do "pão nosso de cada dia" não parece ser mais tão grave assim. Catástrofes de abastecimento tais como houve na Rússia em fins do séc. XIX parecem aos olhos do observador mediano algo circunscrito tão-somente a regiões remotas do mundo. Tudo isso fez com que a realidade da morte fosse uma experiência longínqua para muitíssimas pessoas. Diferentemente de um Bach, que se tornara órfão bem jovem, perdera a primeira esposa e ao longo de sua vida quase metade dos filhos, quantos de nós passaram por algo semelhante? Para muitíssimas pessoas, realmente a morte não tem sido uma experiência próximo: quando muito, chora-se a perda de algum parente afastado ou um amigo. Quanto não conhecem a morte tão somente por assim dizer de oitiva? Contudo, mais cedo ou mais tarde, todos enfrentarão a presença da morte.
Não quero empreender uma análise a fim de descobrir se o positivismo é causa ou efeito do avanço técnico-político. Desejo apenas salientar que a morte acabou sendo posta para debaixo do tapete. Ora, tudo aquilo que é uma realidade na vida humana jamais poderá ser escondido sem prejuízo. A conseqüência disso é que ela surgirá com força redobrada. O século passado foi assaz ilustrativo: quando a morte parecia sob controle, duas guerras mundiais sangrentas e regimes totalitários causaram a morte de mais de trezentos milhões de almas, e essas mortes totalmente desprovidas de sentido não param. Ao mesmo tempo, a decadência da política tem transformado os centros urbanos em moedores de carne, principalmente em países como Brasil, onde a taxa de homicídios é assombrosa. Embora tenham tentado transformar a morte em peça de antiquário, ela vem se mostrando com uma vitalidade apavorante.
Essa situação é desconcertante. Com todo o aparato técnico, simplesmente nos vemos por assim dizer mais inermes do que nunca contra os grilhões da morte. Ela desempenha sua função com um desassombro particularmente humilhante.
(Continua...)
Ida ao concerto
(Como estava pessimamente escrito, decidi republicar este post, ainda que certas coisas provavelmente tenham me passado em branco. Não é improvável eu reescrevê-lo novamente.)
Sábado fui assistir à apresentação de Daniel Taylor na Sala Cecília Meirelles acompanhado por mais um Taylor, A.J.P., o falecido historiador inglês que escreveu A Segunda Guerra Mundial. Não sei se os dois têm algum parentesco, mas direi alguma coisa sobre ambos. Contudo, direi primeiramente certas coisas imediatamente anteriores à apresentação.
Tendo chegado cedo, cousa espantosa vindo de alguém tão mal relacionado com os ponteiros como eu, decidi fazer uma hora numa igreja ali próxima. Mal entrei e vi um sujeito baixinho ensaiando umas músicas com um coro tão animado quanto feminino e de idade algo avançada. Ao lado, uma senhora tocava um teclado num estilo tal que julguei ser alguma performance ultra-moderna. Devo mencionar ao leitor que uma das pragas modernas é, na minha opinião, o teclado. Por mais que digam que ele soe como qualquer coisa imaginável, na minha modesta opinião ele soa apenas como um teclado tentando ser qualquer coisa imaginável. A falta de entrosamento entre o coro e o teclado era impressionante, sendo compensada pela extrema desafinação daquelas almas piedosas, algo que o baixinho, animado como estava em lhes ensinar canções, parecia ignorar completamente. Sua boa vontade era igualmente impressionante, e então percebi que talvez ele estivesse cumprindo algum tipo de penitência inusitada misturada com algum tipo de masoquismo, o que talvez tornasse a penitência inútil.
Aquilo não foi minha primeira comoção musical do dia, pois sentira algo semelhante ao passar, muitas horas antes, em frente à Igreja da Santa Cruz dos Militares, caso minha memória não me engane. No momento da comunhão, alguém teve a belíssima idéia de fazer um acompanhamento musical num estilo semelhante a Ivan Lins, porém em tons por assim dizer sacros. Nunca me passara pela cabeça uma missa sitiada pela cafonice, mas naquele momento as pessoas conseguiram esse milagre. Infelizmente meu dáimon me mandou apertar o passo, embora eu esteja até agora querendo saber que raio de música era aquela.
Quanto à igrejinha do baixinho animado, igrejinha aliás muito bela e que conheci graças a um evento totalmente mundano, isto é, quando da apresentação de quartetos de cordas de Beethoven, decidi, pois, ficar ainda mais, pelo menos até a hora da comunhão, esperando que Deus não me julgasse mal por ter de sair no meio da missa por causa do concerto. Chamou-me a atenção todas as pessoas serem de idade avançada. Numa igreja aqui perto de casa algo semelhante parece ocorrer no meio de semana, exceto uma vez que vi uma senhorita de minissaia lá dentro. Mas aquela igrejinha estava razoavelmente cheia, num sábado frio e chuvoso, cousa mui louvável. Em todo o caso, eu era o caçula. Obviamente não havia razões para me incomodar com nada disso. Um incômodo, na realidade, irrompeu mal tendo começado a missa. Antes que alguém me julgue destituído de espiritualidade, advirto que me refiro ao andamento estranho da missa. Aquele sujeito baixinho, que então descobri ser o pároco, juntamente com seu assistente, coreografava um balançar de braços dos fiéis. Havia uma cantoria de gosto duvidoso, uns gestos estranhos, uma música mal feita, uma leitura um tanto canhestra de passagens bíblicas, enfim, tudo era terrivelmente mal conduzido. Naqueles momentos, enquanto eu me perdia a olhar aquela igreja tão agradável, eis que me surgiram as palavras que certa vez meu amigo Carlos escrevera em seu blog sobre a união da beleza com a liturgia. O que ele escreveu é, garanto, produto de considerações mui pessoais, pois ele próprio experimentara cenas litúrgicas esquisitas. Mas, pedindo gentilmente licença a meu amigo, eu avançaria um pouco mais e diria que toda a missa que não leva suficientemente a sério a união da beleza com a liturgia cai, na menos pior das hipóteses, no cômico. Em certa ocasião, durante missa em lembrança à minha avó falecida, havia um cidadão que entoava cânticos numa voz tão bizarra e com um jeito de falar tão inaudito que foi um empreendimento heróico manter o auto-controle para não rir durante tão grave evento.
Como eu estava com um espírito de concerto, não pude deixar de matutar que atualmente seria um período glorioso para as missas de Haydn, as quais, na época, foram ignoradas por causa de seu espírito alegre demais. Ora, sequer precisaríamos de uma orquestra e coro: bastaria um tocador de cd ou um desses cacarecos tecnológicos atuais que desconheço velhacamente. Por que, dentre as opções, há o hábito de sempre escolherem a mais infeliz? O mais curioso é o raciocínio de que o povo precisa daquilo que mais lhe convém, tendo implicitamente a noção de que o povo só gosta do que for pior. Música mal feita no lugar de Haydn parece ser, na cabeça de alguns, mais próprio ao povo.
Deixei, pois, a agitação de papéis de lado, mesmo antes da comunhão, e me dirigi à sala de concerto, embora, para meu espanto, faltasse ainda meia hora para o início da apresentação. Sentei-me e decidi conversar um pouco com o historiador inglês, autor de A Segunda Guerra Mundial.
Não há nada pior que estar em má companhia. Talvez a única coisa pior é não poder desembaraçar-se dela. Para me gáudio, não era o caso em questão. A.J.P. Taylor me foi um ótimo companheiro de conversações, de tal modo que o deixei falar o tempo todo a fim de aprender.
Esse livro foi escrito no início da década de 60 e se tornou um clássico, embora tenha sido inicialmente detestado, exceto por "ex"-nazistas. Eu tinhja ouvido falar de Taylor graças a um outro excelente historiador, John Lukács, mas não podia imaginar que, além de ser inteligente, ele era tão divertido. Sua ironia é sutil -- às vezes nem tanto --, bem agradável, o que me rendeu algumas risadas, como no momento em que ele diz que as indenizações de guerra da Alemanha eram motivos "de insatisfação intelectual; coisa para lamentar à noite, e não motivos de sofrimento na vida cotidiana", que, em bom português, significa "frescura". Na mesma página, ainda sobre as indenizações, ele continua: "O homem de negócios em dificuldade, o professor mal pago, o trabalhador desempregado, todos as culpavam pelas suas dificuldades. O choro de uma criança faminta era um protesto contra elas. Os velhos iam para a cova devido às reparações." Ironia e sarcasmo que segundo meu imaginar só os ingleses conseguem desempenhar tão bem. Contudo, não pude deixar de perceber como tudo aquilo se aplica extraordinariamente ao Brasil, com a única diferença de o culpado ser a "exclusão social" ou o "capitalismo". Numa página anterior, ele diz que os ingleses começaram "a denunciar a loucura das reparações, tão logo se apossaram da frota mercante alemã", cousa que deve ter irritado mais de um inglês ao ler isso. Essas e outras passagens indicam que Taylor era polêmico, porque ele estava atacando todos os sagrados lugares-comuns: que a Alemanha não tinha como pagar as indenizações de guerra; que o Tratado de Versalhes foi totalmente péssimo para aquele país; que o programa de rearmamento alemão foi pesado durante quase toda a década de 30; que a guerra mundial foi tramada por Hitler; que o ditador, aliás, era um estadista -- Lukács desenvolveu mais esse ponto; que planos como a anexação da Bélgica e Ucrânia, guerra contra a França e o Lebensraum não eram idéias típicas de Hitler, mas alemãs, e desde a Primeira Guerra. A lista é ainda mais extensa. Não foi por acaso que seu livro teve inicialmente uma recepção péssima e, para piorar, acabou erroneamente saudado por "ex"-nazistas, portanto interpretado por todos como uma espécie de reabilitação de Adolf Hitler: interpretação completamente torta, diga-se de passagem.
É lamentável quando o historiador é obrigado a seguir a opinião de todos tão-somente porque parece ser a mais agradável. A idéia de oposição ao establishment por si mesma é agradável apenas a quem não saiu da adolescência mental. No caso do historiador, a situação é mais complicada porque, afinal de contas, a pesquisa jamais cessa. Um estudioso busca explicar o que ocorreu, nunca se satisfazando com as explicações aparentes. Um pesquisar tem de ser uma pessoa séria, não um instrumento que ecoa a opinião do dia. O exemplo do modo como o próprio Taylor conta de como foi obrigado a rever suas posições ao longo de suas pesquisas é ótimo. Ele, como diria Aristóteles, foi constrangido pela verdade, muito embora fossem contrárias não só às suas primeiras opiniões como ao consenso: ele acabou sendo detestado por muitos. É uma infelicidade monstruosa que em nosso país os cursos de história tenham sido tomados por selvagens cujo espírito é o oposto ao do verdadeiro historiador, embora esses infelizes se considerem espíritos críticos: eles querem unanimidade tão-somente. Mas que o leitor não exagere duplamente o que estou dizendo: Taylor não tem razão sempre e eu ainda estou lendo o livro*.
Precisei terminar a agradável conversa com Taylor porque o concerto iria começar. Até o instante em que escrevo estas linhas tortas, não compreendi por que os organizadores chamaram o evento de "Música Antiga", já que nem Dowland, nem Handel e nem as composições anônimas apresentadas eram música antiga. Naturalmente, a dúvida que surge é saber o que diabos significa esse termo. O canto gregoriano é antiqüíssimo, talvez a música mais antiga ainda em uso, mas não tenho certeza se seria apropriado classificá-lo como música antiga. Talvez seja mais próprio usar o termo para as músicas da Antigüidade, mas é bom que se diga que os próprios medievais, a certa altura, dividiam os estilos em ars antiqua e ars nova, e isso nada tinha a ver com a Antigüidade. Para o nosso gosto e, por que não, da própria Renascença, ars nova é algo inacreditavelmente arcaico, tanto quanto ars antiqua. E sabemos muito pouco da música da Antigüidade. Do ponto de vista da música clássica -- o termo aqui se refere à música de um determinado período --, talvez não seja um absurdo total considerar que o período barroco e anterior não passam de algo cafona e fora de moda, ainda que seja uma extravagância colocar no mesmo saco gente tão diferente como Handel e Dowland. É sempre complicado estabelecer o que é moderno e o que é velho segundo o que parece mais antiquado. Mas, como diria Taylor, são inquietações intelectuais boas para incomodar o sono, mas que não afetam em nada a vida cotidiana. Assim, estando o termo equivocado ou não, os músicos estavam lá e havia público suficiente para a apresentação.
Evidentemente, a atração principal do concerto era o contratenor Donald Taylor, o qual, repito, não faço a menor idéia se é parente ou não do historiador inglês. A primeira parte da apresentação foi consagrada a Dowland e compositores anônimos. Se o leitor nunca ouviu o compositor inglês, saiba que suas músicas são ótimas para incentivar a produção de bílis negra. É impressionante como Dowland compôs tantas músicas melancólicas. Na minha opinião, um dos melhores momentos foi quando Taylor cantou I saw my lady weep, embora não tenha havido uma segunda voz. Não que ele tivesse se apresentado sozinho: havia uma soprano extremamente bonitinha com ele, trajando um longo vestido esverdeado. Dentro do meu limitado entendimento musical, ela cantava muito bem. Pensei nas palavras de um poeta que dizia não haver nada mais agradável que ouvir um talento combinado a uma feição bela. Não posso cometer a injustiça de esquecer o senhor do alaúde, instrumento delicado que foi muito bem tocado.
A segunda parte foi dedicada quase inteiramente a Handel, com acompanhamento de piano. Confesso que seria mais agradável se houvesse uma pequena orquestra de câmara, mas não quero choramingar porque o pianista era muito bom. Se alguém tinha alguma dúvida de sua habilidade, suponho que ela tenha desabao após a execução de uma transcrição de Liszt de uma peça bachiana, se não me engano algum prelúdio e fuga. Algumas árias de Handel sustentaram alguma melancolia, ainda que bela, como durante a apresentação de um duo da ópera Theodora. Para quebrar a melancolia, o espetáculo findou com duas árias heróicas da ópera Giulio Cesare, em que Taylor alternava entre contratenor e barítono, exibindo suas habilidades vocais. Durante as árias heróicas, ele também fazia questão de interpretá-las, explicando antes ao público brevemente do que se tratava.
Eu estava tão perto do palco que não perdi um único perdigoto, nem uma eventual enxurrada deles, mas suficientemente afastado para me pôr a salvo deles. Eu gostaria de ter visto mais o pianista usando o pedal, mas a cabeça de um senhor na primeira fileira embargou-me o intento, bem como do senhor desprovido de cabelos que estava atrás dele. São detalhes irrelevantes, pois a apresentação foi boa, mesmo quando Taylor disse que o Ptolomeu da ópera conseguia ser ainda mais malvado que Bush.
Foi uma sensação curiosa voltar para casa depois daquele evento, pois tive de passar pelo mafuá dos Arcos da Lapa, zona considerada boêmia. Era como se eu estivesse me perdendo nas mais profundas trevas da antiga Germânia ou nos pântanos da velha Britânia. Minha imaginação não concebe as razões que levam um semelhante meu a embrenhar-se prazerosamente num local tão feio e lotado de mafomas e demais gentes de má catadura. Agora bem: a memória do espetáculo anulou aquele ambiente. Segui embalado por aquelas músicas até meu lar, como aliás já o tinha feito em outra ocasião, durante o festival dedicado a Beethoven, o que comprova que a boa arte nos permite sustentar muitos tormentos.
*Isso foi quando publiquei pela primeira vez esse post. Tendo já terminado de ler o livro, apenas devo repetir que ele é realmente excelente. Sua principal contribuição foi reorientar a história diplomática do período do entre-guerras, além de fazer repensar muitos lugares-comuns que infelizmente até hoje são repetidos. Certas vezes Taylor exagera: ao contrário do que ele diz, Hitler bem provavelmente desejava atacar militarmente a Tchecoslováquia e a Polônia, mas é também provável que ele não quisesse envolver as potências ocidentais no jogo. Ele, porém, era um homem de inclinações extremas, até mesmo suicidas, ignorando os riscos de suas cartadas: ao contrário de homens como Chamberlain, Hitler era um jogador.
Há um apêndice interessantíssimo, que é trancrição de um breve curso dado por Taylor numa universidade na década de 70. Ele explica que em raros casos as guerras são realmente planejadas de antemão. Mas há outro motivo para esse apêndice ser interessante. Taylor diz que seu livro A segunda guerra mundial, no qual ele buscava as causas do conflito mundial, tinha um equívoco: ele não analisou os fatos até 1941, quando realmente o conflito se torna mundial. O livro termina com uma análise da crise polonesa. De 1939 a 1941, a guerra teria sido apenas européia, e como tal, fadada a ser contada tão-somente como mais um dos inumeráveis conflitos europeus ao longo da história.
*
Sábado fui assistir à apresentação de Daniel Taylor na Sala Cecília Meirelles acompanhado por mais um Taylor, A.J.P., o falecido historiador inglês que escreveu A Segunda Guerra Mundial. Não sei se os dois têm algum parentesco, mas direi alguma coisa sobre ambos. Contudo, direi primeiramente certas coisas imediatamente anteriores à apresentação.
Tendo chegado cedo, cousa espantosa vindo de alguém tão mal relacionado com os ponteiros como eu, decidi fazer uma hora numa igreja ali próxima. Mal entrei e vi um sujeito baixinho ensaiando umas músicas com um coro tão animado quanto feminino e de idade algo avançada. Ao lado, uma senhora tocava um teclado num estilo tal que julguei ser alguma performance ultra-moderna. Devo mencionar ao leitor que uma das pragas modernas é, na minha opinião, o teclado. Por mais que digam que ele soe como qualquer coisa imaginável, na minha modesta opinião ele soa apenas como um teclado tentando ser qualquer coisa imaginável. A falta de entrosamento entre o coro e o teclado era impressionante, sendo compensada pela extrema desafinação daquelas almas piedosas, algo que o baixinho, animado como estava em lhes ensinar canções, parecia ignorar completamente. Sua boa vontade era igualmente impressionante, e então percebi que talvez ele estivesse cumprindo algum tipo de penitência inusitada misturada com algum tipo de masoquismo, o que talvez tornasse a penitência inútil.
Aquilo não foi minha primeira comoção musical do dia, pois sentira algo semelhante ao passar, muitas horas antes, em frente à Igreja da Santa Cruz dos Militares, caso minha memória não me engane. No momento da comunhão, alguém teve a belíssima idéia de fazer um acompanhamento musical num estilo semelhante a Ivan Lins, porém em tons por assim dizer sacros. Nunca me passara pela cabeça uma missa sitiada pela cafonice, mas naquele momento as pessoas conseguiram esse milagre. Infelizmente meu dáimon me mandou apertar o passo, embora eu esteja até agora querendo saber que raio de música era aquela.
Quanto à igrejinha do baixinho animado, igrejinha aliás muito bela e que conheci graças a um evento totalmente mundano, isto é, quando da apresentação de quartetos de cordas de Beethoven, decidi, pois, ficar ainda mais, pelo menos até a hora da comunhão, esperando que Deus não me julgasse mal por ter de sair no meio da missa por causa do concerto. Chamou-me a atenção todas as pessoas serem de idade avançada. Numa igreja aqui perto de casa algo semelhante parece ocorrer no meio de semana, exceto uma vez que vi uma senhorita de minissaia lá dentro. Mas aquela igrejinha estava razoavelmente cheia, num sábado frio e chuvoso, cousa mui louvável. Em todo o caso, eu era o caçula. Obviamente não havia razões para me incomodar com nada disso. Um incômodo, na realidade, irrompeu mal tendo começado a missa. Antes que alguém me julgue destituído de espiritualidade, advirto que me refiro ao andamento estranho da missa. Aquele sujeito baixinho, que então descobri ser o pároco, juntamente com seu assistente, coreografava um balançar de braços dos fiéis. Havia uma cantoria de gosto duvidoso, uns gestos estranhos, uma música mal feita, uma leitura um tanto canhestra de passagens bíblicas, enfim, tudo era terrivelmente mal conduzido. Naqueles momentos, enquanto eu me perdia a olhar aquela igreja tão agradável, eis que me surgiram as palavras que certa vez meu amigo Carlos escrevera em seu blog sobre a união da beleza com a liturgia. O que ele escreveu é, garanto, produto de considerações mui pessoais, pois ele próprio experimentara cenas litúrgicas esquisitas. Mas, pedindo gentilmente licença a meu amigo, eu avançaria um pouco mais e diria que toda a missa que não leva suficientemente a sério a união da beleza com a liturgia cai, na menos pior das hipóteses, no cômico. Em certa ocasião, durante missa em lembrança à minha avó falecida, havia um cidadão que entoava cânticos numa voz tão bizarra e com um jeito de falar tão inaudito que foi um empreendimento heróico manter o auto-controle para não rir durante tão grave evento.
Como eu estava com um espírito de concerto, não pude deixar de matutar que atualmente seria um período glorioso para as missas de Haydn, as quais, na época, foram ignoradas por causa de seu espírito alegre demais. Ora, sequer precisaríamos de uma orquestra e coro: bastaria um tocador de cd ou um desses cacarecos tecnológicos atuais que desconheço velhacamente. Por que, dentre as opções, há o hábito de sempre escolherem a mais infeliz? O mais curioso é o raciocínio de que o povo precisa daquilo que mais lhe convém, tendo implicitamente a noção de que o povo só gosta do que for pior. Música mal feita no lugar de Haydn parece ser, na cabeça de alguns, mais próprio ao povo.
Deixei, pois, a agitação de papéis de lado, mesmo antes da comunhão, e me dirigi à sala de concerto, embora, para meu espanto, faltasse ainda meia hora para o início da apresentação. Sentei-me e decidi conversar um pouco com o historiador inglês, autor de A Segunda Guerra Mundial.
Não há nada pior que estar em má companhia. Talvez a única coisa pior é não poder desembaraçar-se dela. Para me gáudio, não era o caso em questão. A.J.P. Taylor me foi um ótimo companheiro de conversações, de tal modo que o deixei falar o tempo todo a fim de aprender.
Esse livro foi escrito no início da década de 60 e se tornou um clássico, embora tenha sido inicialmente detestado, exceto por "ex"-nazistas. Eu tinhja ouvido falar de Taylor graças a um outro excelente historiador, John Lukács, mas não podia imaginar que, além de ser inteligente, ele era tão divertido. Sua ironia é sutil -- às vezes nem tanto --, bem agradável, o que me rendeu algumas risadas, como no momento em que ele diz que as indenizações de guerra da Alemanha eram motivos "de insatisfação intelectual; coisa para lamentar à noite, e não motivos de sofrimento na vida cotidiana", que, em bom português, significa "frescura". Na mesma página, ainda sobre as indenizações, ele continua: "O homem de negócios em dificuldade, o professor mal pago, o trabalhador desempregado, todos as culpavam pelas suas dificuldades. O choro de uma criança faminta era um protesto contra elas. Os velhos iam para a cova devido às reparações." Ironia e sarcasmo que segundo meu imaginar só os ingleses conseguem desempenhar tão bem. Contudo, não pude deixar de perceber como tudo aquilo se aplica extraordinariamente ao Brasil, com a única diferença de o culpado ser a "exclusão social" ou o "capitalismo". Numa página anterior, ele diz que os ingleses começaram "a denunciar a loucura das reparações, tão logo se apossaram da frota mercante alemã", cousa que deve ter irritado mais de um inglês ao ler isso. Essas e outras passagens indicam que Taylor era polêmico, porque ele estava atacando todos os sagrados lugares-comuns: que a Alemanha não tinha como pagar as indenizações de guerra; que o Tratado de Versalhes foi totalmente péssimo para aquele país; que o programa de rearmamento alemão foi pesado durante quase toda a década de 30; que a guerra mundial foi tramada por Hitler; que o ditador, aliás, era um estadista -- Lukács desenvolveu mais esse ponto; que planos como a anexação da Bélgica e Ucrânia, guerra contra a França e o Lebensraum não eram idéias típicas de Hitler, mas alemãs, e desde a Primeira Guerra. A lista é ainda mais extensa. Não foi por acaso que seu livro teve inicialmente uma recepção péssima e, para piorar, acabou erroneamente saudado por "ex"-nazistas, portanto interpretado por todos como uma espécie de reabilitação de Adolf Hitler: interpretação completamente torta, diga-se de passagem.
É lamentável quando o historiador é obrigado a seguir a opinião de todos tão-somente porque parece ser a mais agradável. A idéia de oposição ao establishment por si mesma é agradável apenas a quem não saiu da adolescência mental. No caso do historiador, a situação é mais complicada porque, afinal de contas, a pesquisa jamais cessa. Um estudioso busca explicar o que ocorreu, nunca se satisfazando com as explicações aparentes. Um pesquisar tem de ser uma pessoa séria, não um instrumento que ecoa a opinião do dia. O exemplo do modo como o próprio Taylor conta de como foi obrigado a rever suas posições ao longo de suas pesquisas é ótimo. Ele, como diria Aristóteles, foi constrangido pela verdade, muito embora fossem contrárias não só às suas primeiras opiniões como ao consenso: ele acabou sendo detestado por muitos. É uma infelicidade monstruosa que em nosso país os cursos de história tenham sido tomados por selvagens cujo espírito é o oposto ao do verdadeiro historiador, embora esses infelizes se considerem espíritos críticos: eles querem unanimidade tão-somente. Mas que o leitor não exagere duplamente o que estou dizendo: Taylor não tem razão sempre e eu ainda estou lendo o livro*.
Precisei terminar a agradável conversa com Taylor porque o concerto iria começar. Até o instante em que escrevo estas linhas tortas, não compreendi por que os organizadores chamaram o evento de "Música Antiga", já que nem Dowland, nem Handel e nem as composições anônimas apresentadas eram música antiga. Naturalmente, a dúvida que surge é saber o que diabos significa esse termo. O canto gregoriano é antiqüíssimo, talvez a música mais antiga ainda em uso, mas não tenho certeza se seria apropriado classificá-lo como música antiga. Talvez seja mais próprio usar o termo para as músicas da Antigüidade, mas é bom que se diga que os próprios medievais, a certa altura, dividiam os estilos em ars antiqua e ars nova, e isso nada tinha a ver com a Antigüidade. Para o nosso gosto e, por que não, da própria Renascença, ars nova é algo inacreditavelmente arcaico, tanto quanto ars antiqua. E sabemos muito pouco da música da Antigüidade. Do ponto de vista da música clássica -- o termo aqui se refere à música de um determinado período --, talvez não seja um absurdo total considerar que o período barroco e anterior não passam de algo cafona e fora de moda, ainda que seja uma extravagância colocar no mesmo saco gente tão diferente como Handel e Dowland. É sempre complicado estabelecer o que é moderno e o que é velho segundo o que parece mais antiquado. Mas, como diria Taylor, são inquietações intelectuais boas para incomodar o sono, mas que não afetam em nada a vida cotidiana. Assim, estando o termo equivocado ou não, os músicos estavam lá e havia público suficiente para a apresentação.
Evidentemente, a atração principal do concerto era o contratenor Donald Taylor, o qual, repito, não faço a menor idéia se é parente ou não do historiador inglês. A primeira parte da apresentação foi consagrada a Dowland e compositores anônimos. Se o leitor nunca ouviu o compositor inglês, saiba que suas músicas são ótimas para incentivar a produção de bílis negra. É impressionante como Dowland compôs tantas músicas melancólicas. Na minha opinião, um dos melhores momentos foi quando Taylor cantou I saw my lady weep, embora não tenha havido uma segunda voz. Não que ele tivesse se apresentado sozinho: havia uma soprano extremamente bonitinha com ele, trajando um longo vestido esverdeado. Dentro do meu limitado entendimento musical, ela cantava muito bem. Pensei nas palavras de um poeta que dizia não haver nada mais agradável que ouvir um talento combinado a uma feição bela. Não posso cometer a injustiça de esquecer o senhor do alaúde, instrumento delicado que foi muito bem tocado.
A segunda parte foi dedicada quase inteiramente a Handel, com acompanhamento de piano. Confesso que seria mais agradável se houvesse uma pequena orquestra de câmara, mas não quero choramingar porque o pianista era muito bom. Se alguém tinha alguma dúvida de sua habilidade, suponho que ela tenha desabao após a execução de uma transcrição de Liszt de uma peça bachiana, se não me engano algum prelúdio e fuga. Algumas árias de Handel sustentaram alguma melancolia, ainda que bela, como durante a apresentação de um duo da ópera Theodora. Para quebrar a melancolia, o espetáculo findou com duas árias heróicas da ópera Giulio Cesare, em que Taylor alternava entre contratenor e barítono, exibindo suas habilidades vocais. Durante as árias heróicas, ele também fazia questão de interpretá-las, explicando antes ao público brevemente do que se tratava.
Eu estava tão perto do palco que não perdi um único perdigoto, nem uma eventual enxurrada deles, mas suficientemente afastado para me pôr a salvo deles. Eu gostaria de ter visto mais o pianista usando o pedal, mas a cabeça de um senhor na primeira fileira embargou-me o intento, bem como do senhor desprovido de cabelos que estava atrás dele. São detalhes irrelevantes, pois a apresentação foi boa, mesmo quando Taylor disse que o Ptolomeu da ópera conseguia ser ainda mais malvado que Bush.
Foi uma sensação curiosa voltar para casa depois daquele evento, pois tive de passar pelo mafuá dos Arcos da Lapa, zona considerada boêmia. Era como se eu estivesse me perdendo nas mais profundas trevas da antiga Germânia ou nos pântanos da velha Britânia. Minha imaginação não concebe as razões que levam um semelhante meu a embrenhar-se prazerosamente num local tão feio e lotado de mafomas e demais gentes de má catadura. Agora bem: a memória do espetáculo anulou aquele ambiente. Segui embalado por aquelas músicas até meu lar, como aliás já o tinha feito em outra ocasião, durante o festival dedicado a Beethoven, o que comprova que a boa arte nos permite sustentar muitos tormentos.
*Isso foi quando publiquei pela primeira vez esse post. Tendo já terminado de ler o livro, apenas devo repetir que ele é realmente excelente. Sua principal contribuição foi reorientar a história diplomática do período do entre-guerras, além de fazer repensar muitos lugares-comuns que infelizmente até hoje são repetidos. Certas vezes Taylor exagera: ao contrário do que ele diz, Hitler bem provavelmente desejava atacar militarmente a Tchecoslováquia e a Polônia, mas é também provável que ele não quisesse envolver as potências ocidentais no jogo. Ele, porém, era um homem de inclinações extremas, até mesmo suicidas, ignorando os riscos de suas cartadas: ao contrário de homens como Chamberlain, Hitler era um jogador.
Há um apêndice interessantíssimo, que é trancrição de um breve curso dado por Taylor numa universidade na década de 70. Ele explica que em raros casos as guerras são realmente planejadas de antemão. Mas há outro motivo para esse apêndice ser interessante. Taylor diz que seu livro A segunda guerra mundial, no qual ele buscava as causas do conflito mundial, tinha um equívoco: ele não analisou os fatos até 1941, quando realmente o conflito se torna mundial. O livro termina com uma análise da crise polonesa. De 1939 a 1941, a guerra teria sido apenas européia, e como tal, fadada a ser contada tão-somente como mais um dos inumeráveis conflitos europeus ao longo da história.
Subscribe to:
Posts (Atom)
