Thursday, June 02, 2011

Ars poetica

Si uis me flere, dolendum est primum ipsi tibi. Eis a famosa sentença horaciana em sua Ars Poetica. Não tenho muito tempo para desenvolver um assunto tão rico, mas eu gostaria de dizer que é muito importante ao escritor possuir a capacidade aludida por Horácio: se quiser comover, é preciso que você primeiro se condoa. É necessário um patrimônio de experiências a fim de que nossas palavras signifiquem algo mais do que meros conceitos destituídos de concretude. Em certo sentido, é bom ser pedestre. Esse patrimônio não precisa advir de ferimentos em nossa própria carne: uma sensibilidade cultivada e uma boa capacidade imaginativa bastam. Para eu entender as degraças que se abateram sobre Cartago, Atenas ou Alemanha, não preciso ter eu mesmo compartilhado dos males de seus habitantes, a não ser imaginativamente, bastando para isso que sejam ativadas experiências correspondentes. Podemos aplicar ao assunto o que disse Eric Voegelin em certa passagem de A nova ciência da política:

O teórico talvez não precise ser a encarnação do próprio modelo de virtude, mas deve ao menos ser capaz de reproduzir imaginativamente as experiências que sua teoria busca explicar. (...) A teoria como explicação de certas experiências só é inteligível para aqueles em que a explicação desperte experiências paralelas como base empírica para testar a validade da teoria. Se a exposição teórica não chegar, pelo menos em parte, a ativar experiências correspondentes, dará sempre a impressão de ser conversa fiada ou poderá ser rejeitada como expressão irrelevante de opiniões subjetivas. O debate teórico só pode ser conduzido entre spoudaios, no sentido aristotélico [i.e, o homem maduro, aquele que realizou em grau máximo as potencialidades da natureza humana, que formou seu caráter na realização das virtudes intelectuais e éticas, o homem que, no auge de seu desenvolvimento, atinge o bios theoretikos]; a teoria não tem argumentos contra o homem que se sente, ou finge sentir-se, incapaz de reproduzir a experiência. (pp. 56-7)


Numa palavra, é preciso que se estabeleça entre o leitor e a história uma espécie de simpatia fundamental que ative nele experiências correspondentes ou que ele seja capaz de reproduzi-la ao menos imaginativamente. Lembremos da reação de Ulisses ao ouvir um aedo recitar na corte dos feácios a queda de Tróia. Tal processo não ocorre somente na literatura, mas também na música, na pintura e na fotografia. Um caso interessante é o da canção O Tod, wie bitter bist Du, de Brahms. Ela ativa imediatamente em nós um sentimento compreensível em última análise pela experiência da morte (note o leitor a ênfase na palavra bitter). O texto da canção foi extraído do capítulo 41 do Eclesiástico. Ele nos convida à meditação profunda, enquanto a música explora suas possibilidades dramáticas de forma inesquecível. Dor também pode ser ouvida -- se podemos dizer que ouvimos uma dor -- em Fili mi de Heinrich Schütz, em texto também bíblico, que conta a dor de Davi ao saber da morte de seu filho Absalão. Tanto num caso como no outro temos a música nos ajuda a reproduzir imaginativamente o sentimento dos textos.

O Tod, wie bitter bist Du



Fili mi

A imprensa mal divulgou a manifestação ocorrida em Brasília contra o PLC122

Trabalho numa empresa de monitoria de informação, o que me obriga a passar quase o dia inteiro assistindo a telejornais. Hoje não foi diferente, mas o que me chamou a atenção foi nenhum dos programas que monitoro ter sequer soltado uma nota sobre a manifestação havida em Brasília contra o PLC122, que reuniu cerca de 20 mil pessoas.

A maioria dos programas que vejo são da Record, tanto canal aberto como fechado. Pois bem, nem o Página 1, que vai ao ar das 10h às 11h, nem o Direto da Redação, das 14h30 às 15h30, nem o Hora News, que costuma ir das 16h40 às 17h30, nem o Jornal da Record, das 20h30 até por volta das 21h25, enfim, nenhum deles citou absolutamente nada. Monitoro também o Jornal da Globo News, edições das 16h e das 19h: nenhum deles também citou nada. Alguém poderia argumentar que o fato de a manifestação só ocorrer às 15h excluiria necessariamente da programação matutina informes a respeito, mas respondo dizendo que a afirmação é absurda, já que é mais do que comum a imprensa cobrir um evento até dias antes de ele ser realizado.

As únicas notícias que vi sobre gays foram acerca de agressões contra um homossexual e uma lésbica no Rio e sobre o TCU querer saber se houve desperdício de verbas públicas com a retirada do tal kit gay, ambas na Rede Record. Houve também uma sobre prostituição masculina e consumo de drogas -- amanhã será a vez dos travestis, numa série de reportagens sobre prostituição no Brasil.

É tão flagrante a completa falta de parcialidade da imprensa que, se bem me lembro, monitorei notícias em vários veículos sobre um abraço simbólico em torno do Planalto dado por militantes do movimento gay no dia em que estiverem em Brasília semana retrasada. Por que divulgaram essa notícia e se calaram sobre o que ocorreu nessa quarta? O mais estranho é que a Record, pelo que percebi ao monitorá-la, tem feito uma quantidade impressionante de comentários contra o tal kit gay. Não sei se o fato de o pastor Silas Malafaia ter encabeçado a manifestação em Brasília provocou algum ressentimento no pastor Edir Macedo, mas que isso tudo é estranho, é.

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Como citei a Rede Record, aproveitarei a oportunidade para fazer um testemunho da mendacidade cultural a que chegamos. Numa matéria sobre o acesso das classes baixas a colégios particulares, o Jornal da Record mostrou um grupo de crianças tocando um trecho da Ode à alegria, mas em off a jornalista afirma que executavam Vivaldi. Que o leitor testemunhe a ignorância jornalística.



Não duvido nada que as crianças sejam mais cultas que esses jornalistas.

Sobre o acesso das classes inferiores ao bom estudo, lembro de uma instituição que sempre primou pelo acesso de humildes aos níveis hierárquicos mais elevados: Igreja Católica. A título de exemplo, basta a lembrança de um filho de camponês chamado Hildebrando, homem do séc. XI, que entrou na história como papa Gregório VII e nos céus como santo.

Wednesday, September 22, 2010

Ainda do desejo de ser promovido em empresas bagunçadas

Pois novamente direi algo acerca de ser promovido em empresas bagunçadas. É semelhante a uma cena do filme "A Queda", em que um general alemão, após ter sido nomeado comandante das forças de Berlim, diz morrer era mais vantajoso que receber tal honra. A quem as entrelinhas foram sutis demais, explico que às vezes é melhor permanecer mediocremente oculto a brilhar montado num enorme pepino.

Thursday, September 16, 2010

Do desejo de ser promovido em empresas bagunçadas

Refletindo acerca da cobiça por cargos mais altos em empresas bagunçadas -- a experiência é pessoal, ainda que a vontade seja de terceiros --, lembrei-me, por estranho que pareça, de um episódio do desenho "Liga da Justiça". O poderoso Darkside, para variar, queria subjugar a Terra, mas precisava de ajuda. Convenceu o líder de uns criminosos que o tornaria um grande rei caso o auxiliasse. Não sendo difícil instigar a cobiça de criminosos, foi feito o acordo. Pois bem, após plantar um artefato nuclear num ponto estratégico, o criminoso entrou em contato com Darkside a fim de ser resgatado do local o mais rapidamente possível. O super-vilão, contudo, disse-lhe que já estava satisfeito e simplesmente se despediu. Tendo ficado compreensivelmente indignado, o criminoso disse a Darkside que ele havia quebrado o acordo de lhe tornar o rei do mundo, ao que obteve como resposta: "Mas eu lhe tornei efetivamente rei. O rei dos tolos." Ora bem: eis ao que leva o desejo de promoção em determinadas circunstâncias...

Thursday, June 10, 2010

De um breve comentário sobre um espetáculo artístico

Tenho diante de mim uma cabrocha executando passos ao som de Jeux d'eau, de Ravel, em programa da TV Brasil. Não posso dizer que o espetáculo esteja sendo do meu agradado, e isso por uma dupla razão. Ora, tendo os movimentos de dança me feito lembrar da menina possuída pelo demônio em O Exorcista, custa-me captar qualquer beleza ou sentido artístico no que está sendo executado, descontando, é claro, a minha supina ignorância em matéria de dança. Digo, aliás, que a beleza da cabrocha é proporcional à sua performance, o que muito me entristece. Ao menos para mim, embrutecido pelos sentidos como sou, não é fácil contemplar os passos de dançarinas um tanto desprovidas de recursos estéticos. Contudo, posto que há sempre rastros de bem por toda a parte neste mundo admirável, ao menos é possível dizer que dança e estética estão assaz harmonizadas, embora sob a classe do mal.

Tuesday, February 16, 2010

A. da Silva Mello, "Mistérios e Realidades dêste e do outro Mundo" (3ª ed, pp 35-41)

Queremos lembrar os célebres cavalos de Eberfeld, que constituíram um dos mais assombrosos acontecimentos do mundo civilizado, dando lugar a elevado número de publicações, mesmo de autoridades científicas. O ruído feito em torno da descoberta foi imenso e só diminuiu quando encontrada explicação para o fenômeno. O professor Claparède, da Universidade de Genebra, proclamou-o como "o acontecimento mais sensacional que jamais surgiu na Psicologia". Karl Krall, no seu livro "Animais que pensam", baseado em suas experiências, que foram a continuação das de Von Osten, o descobridor da maravilha inesperada, fêz um estudo minucioso da questão, já estribado em considerável bibliografia.

O fato capital, de onde partiu todo o movimento, proveio das experiências de W. von Osten, um velho oficial alemão aposentado, que dedicou parte da sua vida ao estudo da inteligência dos animais. Em 1900, adquiriu um cavalo russo, que se tornou célebre sob o nome de Hans, apelidado "o sábio", ao qual ensinou cálculo por meio de quilhas, e, depois, de números. Os resultados foram tão extraordinários que se falou de uma transformação da psicologia animal e de descobertas que o homem estava longe de suspeitar. O cavalo aprendeu a contar, a calcular e a resolver pequenos problemas. "Mas Hans não sabia sòmente calcular: podia ler, era musicista, sabendo distinguir acordes harmoniosos de dissonantes. Possuía memória extraordinária, conseguindo indicar a data os dias da semana. Numa palavra: sabia resolver tôdas as operações que um bom colegial de 14 anos é capaz de efetuar." Em poucas semanas aprendeu a extrair raízes quadradas e cúbicas e, logo depois, a soletrar e a ler, servindo-se de um alfabeto convencional imaginado por seus mestres. Durante muitos anos Osten entregou-se, com dedicação nunca vista, à educação do animal, que recebia aulas uma a duas vêzes por dia. A tarefa foi árdua e só prosseguiu a passos muito lentos, pois tudo era desconhecido naquela nova aprendizagem, cheia de mistérios e surpresas, tanto para o mestre, quanto para o discípulo. Osten, de temperamento excêntrico, considerado por muitos como verdadeiro maníaco, não conseguiu, durante longo espaço de tempo, despertar interêsse em tôrno da sua descoberta, que não foi mesmo tomada em consideração. Já desesperado da situação, tentou, por meio de anúncio de jornal, chamar a atenção sobre o extraordinário fenômeno, propondo vender o animal, do qual enumerava as singulares capacidade intelectuais, que demonstraria, gratuitamente, aos interessados. Nessas circunstâncias, apareceu-lhe Eugen Zobel, escritor e profundo conhecedor de hipologia, que, vivamente interessado pelo assunto, publicou diversos artigos sôbre Hans, desde então conhecido como o cavalo sábio. Daquele momento em diante, houve imensa agitação em tôrno do fato, que despertou a curiosidade do grande público, sem contar muitos psicólogos e cientistas. A casa da rua Griebenow 10, na região norte de Berlim, onde morava von Osten e se encontrava o animal, passou a receber tal número de visitantes que se tornou necessária a intervenção da polícia para regular o trânsito circunvizinho. Até do estrangeiro chegavam personalidades de renome para estudar o estranho fenômeno, que vinha revolucionar tudo o que sabíamos dos animais, que agora apareciam como possuidores de inteligência idêntica à do homem, sob todos os pontos de vista! Hans fazia cálculos de alta matemática, conhecia linguagem humana, compreendia alemão, entendia perguntas que lhe eram feitas e dava-lhes respostas inteligentes, demonstrando que raciocinava de maneira idêntica à do ser humano.

É natural que se levantasse grande agitação em tôrno da descoberta, que, desde logo, conduziu às mais desconcertadas opiniões, das mais favoráveis e entusiásticas, às mais céticas e negativas. A imprensa publicava artigo sôbre artigo, surgiam livros sôbre a questão, dando lugar a discussões tão vivas e apaixonadas, que o govêrno e as universidades se sentiam na obrigação de dar atenção ao assunto, estudando-o objetivamente. Eberfeld tornou-se um verdadeiro centro de peregrinação, sobretudo para sábios, que acorriam de diversos países e de todos os recantos da Alemanha. Entre êles, foram registrados: Edinger, o eminente neurologista de Francfort; Claparède, da Universidade de Genebra; Kraemer e Ziegler, de Sttutgart; Sarasin, de Basilea; Besredka, do Instituto Pasteur de Paris; Ostwald, Schoeller e o físico Gehrke, de Berlim; William Mackenzie, de Génova; Assogioli, de Florença; Freudenberg, de Bruxelas; Hartkopf, de Colônia; Buttel-Reepen, de Oldenburg; Ferrari, de Bolonha, Goldstein, de Darmstadt, e inúmeros outros, alguns dos quais se convenceram de que os animais realmente calculavam e que as operações matemáticas eram manifestações da sua inteligência. Maeterlinck, vindo da Bélgica para estudar o fenômeno, ficou maravilhado diante do que pôde observar. Ele próprio confessa ter sido sempre fraco em Matemática e que se sentiu emocionado ao propor ao animal problemas dessa natureza. Realizou experiências com o cavalo Muhamed que, ao lado de Zarif, se revelou ainda mais inteligente que Hans, todos agora sob a direção de Karl Krall, autor do livro fundamental sobre a questão. Maeterlinck relata que devido à sua ignorância em Matemática, formulou erradamente o problema que apresentou ao cavalo e que êste, sem poder resolvê-lo, ficou perplexo, com a pata suspensa no ar. Não foi senão quando Krall descobriu o êrro e corrigiu o problema, que o animal encontrou a solução.

A primeira comissão científica para estudar o caso de Hans iniciou seus trabalhos em setembro de 1904, sendo composta de professores de Psicologia, Fisiologia, Zoologia, Veterinária e de especialistas em equitação e adestramento de animais, além de oficiais de cavalaria, do diretor do Jardim Zoológico e do diretor do Circo Busch, de Berlim. Essa comição comprovou a veracidade dos fenômenos relatados e nada tendo encontrado de falso ou suspeito, concluiu que os fatos eram reais, sendo merecedores de profunda investigação cientítica. Imediatamente depois, em Outubro de 1904, o Ministério da Educação nomeou nova comissão para ocupar-se do assunto, desta vez formada pelo professor C. Stumpf, diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de Berlim e dos seus dois assistentes, O. Pfungst e Hornbostel. Depois de algumas semanas de trabalho, chegou a comissão a resultados completamente diferentes, apresentando um extenso relatório, no qual "sustentava que o cavalo não era dotado de inteligência, não reconhecia letras nem números, não sabia calcular, obedecendo simplesmente a sinais imperceptíveis, que, inconscientemente, escapavam à argúciado seu próprio mestre". A verificação parecia de grande evidência, pois experiências feitas no escuro ou depois de se haver tapado os olhos do animal fracassaram por completo. O mesmo aconteceu quando eram os resultados desconhecidos das pessoas presentes, ou, simplesmente, da pessoa que dirigia a pergunta ao animal, assim como quando êste não a podia ver.

Emilio Rendich, pintor italiano que vivia em Berlim e acompanhara cheio de admiração as experiências de von Osten, acabou por duvidar dos fatos, sobretudo de que o animal agisse servindo-se ùnicamente da sua própria inteligência. Rendich percebeu que o cavalo se orientava por movimentos quase imperceptíveis fornecidos inconscientemente pelo instrutor, cuja boa fé e honestidade estavam fora de dúvida. Bastava um movimento mínimo da cabeça de von Osten para o animal orientar-se quanto ao momento em que devia bater a pata, tudo de acôrdo com os resultados esperados. Para demonstrar que o mecanismo de transmissão era realmente êsse, Rendich realizou experiências com uma cadela de sua propriedade, Nora, cujos resultados foram inteiramente semelhantes aos de von Osten com seu cavalo Hans. A cadela lia, calculava, reconhecia notas musicais e, por meio de latidos, dava respostas às perguntas que lhe eram feitas. E ninguém percebia os sinais que o dono lhe transmitia! Por meio dêsses sinais inconscientes e imperceptíveis, foi encontrada explicação para os fatos em questão, desde logo aceita pelo professor Stumpf e seus auxiliares, que assistiram às experiências de Rendich.

Já antes, em 1903, Albert Moll, então presidente da Sociedade de Psicologia de Berlim, havia feito verificações idênticas, chegando à conclusão de que o cavalo nada apresentava de extraordinário, pois apenas reagia a sinais que lhe eram dados imperceptìvelmente. Mais tarde, isso foi demonstrado experimentalmente por Pfungst, que conseguiu verificar os sinais dados inconscientemente, reproduzindo-se conscientemente. Dessa maneira, êle obteve as mesmas reações do animal, independentemente das questões que lhe eram propostas. Por vêzes, mesmo sem formular a pergunta, apenas nela pensando intensamente, obtinha-se do animal a resposta esperada, pois o simples ato de concentrar a atenção sôbre determinada questão já era suficiente para levar o experimentador a executar movimentos imperceptíveis, que serviam para estabelecer a resposta.

O que aconteceu com Hans, o cão Rolf, de Marnheim e a gata Daisy, e outros animais, reproduziu-se com Basso, um chimpanzé do Jardim Zoológico de Frankfurt, que se se tornou centro de atração devido à sua capacidade intelectual, idêntica à do cavalo Hans, sobretudo para cálculos. Houve, igualmente, aí, muita disputa em tôrno dêsse caso, tendo-se apelado até para a telepatia, com o fim de explicá-lo. Finalmente, tudo acabou nos sinais imperceptíveis fornecidos pelo guarda e dos quais êle próprio não tinha conhecimento.

Dessa maneira, foi abandonada a explicação da transmissão directa de pensamento, assim como da telepatia e do mediunismo, que alguns autores quiseram explorar para interpretar os fenômenos em questão. Tudo terminou no mais puro cumberlandismo, isto é, na averiguação de que a pretensa transmissão de pensamento não passava do emprêgo de sinais convencionais, reduzindo-se o processo ao simples mecanismo da "dressagem", pela qual são transmitidas ao animal as ordens do domesticador. Aliás, parece que o interêsse e a atenção do animal eram despertados e mantidos pela ofêrta de pão, cenoura e outros alimentos, recurso muito usado nos habituais processos de adestramento. Em todo o caso, não foi fácil pôr a claro o mecanismo dessas manifestações, que a princípio deram lugar às mais fantásticas suposições. O próprio professor C. Stumpf, que fizera parte da primeira Comissão, concluindo pela realidade e inexplicabilidade do fenômeno, é o mesmo que assina o segundo parecer, que destruiu o mistério, explicando-o de modo tão simples e natural. "Pelo relatório da Comissão científica foi destruído o limbo de glória que havia cercado o cavalo de von Osten, no que êle tinha de mais extraordinário e mesmo inacreditável. Apesar de tôda a sua arte, saber ler e calcular, tornou-se um simples cavalo de circo, semelhante a muitos outros, apenas reagindo a sinais menos perceptíveis. Com isso desapareceu também o interêsse que havia em tôrno dêsse prodigioso animal, raramente aparecendo, desde então, qualquer pessoa para assistir às novas experiências". É o que nos diz Karl Krall, enquanto Maeterlinck acrescenta: "Houve na opinião pública uma grande e brusca reviravolta. Sentia-se uma espécie de alívio algo covarde, vendo-se sùbitamente extinguir-se um milagre que já ameaçava lançar perturbação nesse pequeno rebanho tão satisfeito com as verdades já adquiridas. Ao pobre von Osten nada valeu protestar; não foi mais ouvido, a causa estava perdida. Também não se levantou mais dêsse golpe oficial, tornando-se motivo de chacota de todos aquêles que, a princípio, havia maravilhado. E assim morreu na amargura e no isolamento, a 21 de julho de 1909, na idade de 71 anos." É dessa maneira, românticamente, que Maeterlinck descreve o final da vida de von Osten. Na verdade, êle morreu de um câncer do fígado, que o fêz sofrer enormemente. E, durante a doença, não cessou de praguejar contra o pobre Hans, amaldiçoando-o de tôdas as maneiras, como responsável por todos os seus males. Talvez constitua isso um elemento psicológico de valor para esclarecer a marcha que tomaram os acontecimentos!

A obra de von Osten foi, como dissemos, prosseguida por Karl Krall, a quem aquêle doou o seu Hans e que fêz experiências com outros cavalos, sobretudo os de nome Muhamed e Zarif, que, sob muitos aspectos, se revelaram mais inteligentes que o próprio Hans, cognominado o sábio. Krall procurou demonstrar que as observações de von Osten eram exactas e que os animais em questão realmente possuiam as qualidades intelectuais que lhes eram atribuidas. Procurou excluir as causas do êrro, sobretudo em relação aos sinais imperceptíveis e, com auxílio do seu colaborador, Dr. Schoeller, tentou ensinar a Muhamed, o seu cavalo mais inteligente, a se exprimir por meio da palavra articulada. O animal fêz esforços para consegui-lo, mas terminou por parar de repente, dizendo em alemão, por meio de pancadas dadas com a pata, na sua estranha linguagem fonética: "Ig hb kein gud Stim", que quer dizer: "Eu não tenho boa voz!" Essa simples frase possui incalculável valor para decidir a questão, pois traduz raciocínio de caráter puramente humano, que mostra capacidade de expressão em idioma também puramente humano. Já se tem alegado, com tôda a razão, que a sabedoria animal atribuída aos cavalos de Eberfeld pressupõe o conhecimento de um idioma humano, no caso em questão da língua alemã, o que ultrapassa tudo o que se pode admitir, mesmo por hipótese. É verdade que Krall, no seu livro, fornece protocolos dando a impressão de que mantinha conversa com os seus cavalos em têrmos estritamente humanos, até porpondo-lhes enigmas, que êles conseguiam resolver. Em vez, porém, dêsses exageros possuirem qualquer valor de prova, o que antes demonstram é quanto deve haver de falso e errôneo em tais interpretações. Antes de tudo, é preciso considerar que os conhecimentos em causa em nada adiantariam aos animais, estando fora das suas tendências e necessidades biológicas. Se não fôsse assim, seria mais fácil, em vez das complicas experiências realizadas por Krall e outros autores, que se dissesse simplesmente ao animal onde se encontravam guardados os seus alimentos, deixando-os procurá-los por simples informação verbal. Certamente, teriam êles mais interêsse em realizar essa prova do que em fazer cálculos matemáticos, inteiramente estranhos à sua maneira de viver e que as próprias crianças, nas escolas, têm dificuldade de aprender.

Charles Richet, referindo-se aos animais sábios, apresenta um argumento de grande valor: "Não podemos admitir que Muhamed, Rolf, Hanschen e Berto sejam sêres excepcionais. Se êles deram provas de inteligência, é quase certo que tanbém outros animais as dariam. Porque, então, os fatos relativos aos cavalos de Eberfeld e aos cães de Mannheim não se repetiram? Porque ficaram isolados na ciência, ou na lenda? Se a aptidão de cavalos para o cálculo fôsse um fenômeno verdadeiro e não uma ilusão, poder-se-iam criar centenas de cavalos calculadores. E não foi isso o que aconteceu. O silêncio fez-se em tôrno dos cavalo de Eberfeld. Não apareceram outros! Porque, se não foi uma ilusão, idola temporis? Tal é, penso eu, a mais grave objeção que pode ser feita aos fatos alegados por Krall. E é uma objeção tão grave, que arrasta à negação".

Aliás, não era a primeira vez que se pretendia haver descoberto características de inteligência humana no cavalos e outros animais, pois, já em tempos passados, haviam aparecido casos idênticos aos de Eberfeld. Basta recorda o que nos conta Guer sôbre um célebre cavalo exposto na feira de Saint Germain, em 1732, e que andou em excursão por outras cidades da França. Êsse animal reconhecia cartas de baralho, dados de jogar, horas e minutos no relógio e dinheiro em moedas, batendo com a pata para designar os seus valores. O filósofo Le Gandre, que descreve o fato, diz nada haver nêle de falso ou exagerado, pois tudo era executado diante de numerosos observadores. Conclui, porém, que o cavalo era guiado por sinais, por gestos e pela voz do dono, acrescentando que o extraordinário é que esse sinais fôssem imperceptíveis, passando despercebidos à assistência.

Sunday, October 04, 2009

De como a união entre beleza e toleima numa só mulher é das primeiras causas de espanto

Minha intenção primogênita era continuar a saga do desempregado, no caso eu, mas todavia atualizada, posto que desempregado não mais sou, e aliás me pus a formalizar esse artigo em meu emprego -- o esboço foi feito em casa --, emprego que talvez seja mais próprio da verdade dizer um quase-emprego. Porém minha vontade soberana cometeu uma revolução: pareceu-lhe mais superior rabiscar acerca da pedagogia do cemitério, assunto que me tem gentilmente atormentado e que considero bastante fundamental. Mas uma derradeira viragem minha vontade inquieta deu, motivada, é certo, por uma razão mais urgente, altaneira, elegante e agradável: mulheres.

Poucos assuntos são mais interessantes que as mulheres, embora elas sejam mais interessantes que mero objeto de debate. Pois se há um problema fundamental na vida de todo homem, sem dúvida é o belo sexo, expressão que já demonstra quão admiráveis são essas criaturas.

Para dar uma razão ao nosso ataque, caríssimo leitor, tratemos de duas questões a esse respeito. Para uma alma sensível -- em verdade mais acossada pela tolice da rasa experiência que pela presunçosa aspiração angélica de vida --, há duas fontes monumentais de espanto motivadas pelo feminino. Poucas coisas superam a desconcertante descoberta de que nas mulheres também reside a tosquice, não raras vezes perigosamente ombreada à tosquice viril. Não se trata aqui apenas da tosquice reinante nas despossuídas de graça ou das sumamente atrasadas mentalmente. É uma espécie de modo de ser universal. Não posso duvidar que tal coisa é manifestação daquilo que filósofos chamavam de indeterminado: ele constrange o feminino. A quem está tolamente acostumado com delírios amorosos, chocar-se com essa tosquice feminina pode ser um episódio sumamente deprimente. Não sejamos tolos a ponto de acusá-las de pecado, posto que talvez seja exatamente esse constrangimento que as torna palpáveis e interessantes, o que não significa, em nenhuma hipótese, que a palpabilidade é proporcional à tosquice. Apenas é preciso haver uma justa medida. Ademais, contra todos amantes do amor cortês algo cartesiano, é parte intrínseca da experiência de vida saber cumprimentar o que se demonstra insólito. Toda a experiência humana -- incluo aí até as mais variadas formas de técnica -- confirma que nada há de mais insólito que determinadas manifestações do feminino. Faz parte das regras inquebrantáveis da civilização, por conseguinte, tratar com algum carinho esse aspecto misterioso da nossa realidade: não nos foi dada argúcia suficiente para entender tal mistério. Bem como há o Cristo Todo, há também a mulher completa, a quem devemos amar, em toda a sua glória e em todos os seus constrangimentos.

A segunda fonte de desconcerto, talvez pela ação do indeterminado, é a união entre a mais rica beleza e a mais pobre argúcia numa só mulher. Eis o assunto da breve meditação a seguir.

A mulher por natureza identifica um modelo moral que configura essencialmente seu padrão estético, o que lhe impede muitas vezes de perceber a gravidade do desequilíbrio que assinalei. Não digo que ela não o perceba completamente: ela simplesmente não se choca. Devido a essa identificação, o próprio modelo de beleza da mulher, pautado em considerações algo estapafúrdias a nós homens, parece eivado de bizarrias. Seus padrões nos parecem incompreensíveis. O homem só consegue compreender certas considerações femininas acerca da beleza ao imaginar que elas estão repletas de subjetivismos e competições. Numa palavra, freqüentemente os juízos femininos parecem motivados pela inveja ou pela caridade. Ao tecermos a uma mulher observações objetivas acerca das justas proporções de outra, ela não raramente fará críticas ininteligíveis do ponto de vista objetivo, fisicamente falando, quando não considerará nossa afirmação estritamente objetiva um insulto pessoal. Se ela consentir, será a contragosto e com afetação de superioridade. O reduzido número de mulheres capazes de uma avaliação desinteressada é prova do que afirmo. Até quando elas concordam acerca da má catadura de outra, o prazer de sua concordância demonstra que também não é por uma questão objetiva, mas por algum senso competitivo. Quando elas consideram sinceramente alguém admirável do ponto de vista estético, normalmente é devido a considerações estrangeiras: como se o comportamento mudasse a aparência física. Força é considerarmos portanto que só aos homens foi dada a real capacidade de espanto acerca desse problema, o qual exige de nossa parte um esforço reflexivo assaz agudo e que já engendrou as mais formidáveis filosofias deste mundo.

Pois bem, como ficou suficientemente demonstrado, a mulher articula misteriosamente o físico e o psicológico, tecendo juízos estéticos que são assaz insólitos a nós homens: eis a razão da relativa falta de espanto feminino quando aqueles dois campos parecem antagônicos. Já o homem não faz essa articulação, pelo menos não inicialmente. E isso é pedra de escândalo às mulheres. Por termos a capacidade natural de realizar esse tipo de abstração, bem ao contrário das mulheres, elas consideram os nossos juízos fundados numa impostura moral. Se o leitor tiver suficiente coragem e for amigo da verdade, louve os atributos corporais de uma mulher a outra. Aos olhos da mulher, o leitor rapidamente se transformará num bárbaro ou num cretino. Porque do ponto de vista feminino, uma observação tão crua da natureza, tão desimpedida de critérios exóticos, só pode ser realizada por uma criatura no mais pleno estágio da natureza, ou então por um monstro desprovido de moralidade. O requinte de perversidade chega ao ponto de o homem considerar a beleza um salvo-conduto da tolice. Torna-se suportável uma mulher tola na proporção de sua beleza. Ouso afirmar que tal caridade mulher nenhuma é capaz de praticar.

Cara leitora, se é que ainda me resta uma eventual leitora, digo, pois, que muito embora seja verdade inconcussa que a beleza nos serve como estimulante, reconheço que a falta constante de agrados mais espirituais convida a toda sorte de dores e constrangimentos. Não é difícil de gerenciar os rompantes de toleima caso forem esporádicos e suportáveis. Se contudo forem excessivamente intensos e constantes, tais como uma dor de dente, apenas uma fortaleza heróica tornaria capaz de suportar tantas adversidades.

Preciso desfazer um eventual mal-entendido antes de terminar. Talvez o leitor tenha se perguntado como é possível ao homem ficar espantado com o choque entre beleza e falta de espírito, já que ele lida tão bem com a união de ambas em uma mulher. A resposta está precisamente na constatação das duas realidades distintas. A mulher não se espanta porque percebe de uma forma bastante insólita a união entre beleza e espírito, enquanto o homem as percebe inicialmente como duas realidade separadas e distintas. Só com o desenvolver do tempo é que o problema começa a se lhe tornar nítido. Antecipando-me a uma eventual leitora irônica, em nada isso demonstra a falta de capacidade cognitiva masculina. Ocorre no caso apenas operações mui distintas. A intuição feminina e a operação de síntese masculina são de natureza diversa, produzindo, no fim, resultados igualmente diversos. Prova é que por maior que seja a operação de síntese masculina, muito dificilmente ele considerará que o espiritual de uma mulher predomina e reconfigura a sua aparência. Entre a espirituosa mas desgraciosa e a graciosa mas desespirituosa, esta última normalmente lhe chamará mais a atenção. Já a mulher, ainda que não desprovida de percepção objetiva, muito dificilmente enfrentará dilemas ao lidar com alguém espiritualmente agradável mas de aparência assaz original. Nisso, como em quase tudo, homens e mulheres são fatalmente diferentes.

No futuro, talvez eu continue a tratar dessa questão, mas por enquanto adeus.

Wednesday, April 22, 2009

No qual continuo o post anterior

Mas eu tive a sensação de que "tudo está dominado" ao ver um monge batendo palmas e fazendo coreografia, empolgado com as festividades, ainda que fizesse tudo discretamente. Diante de situações desse tipo, lembro-me de Matatias e de sua fúria santa, que desencadeou a revolta dos Macabeus. É duro permanecer impassível, quiçá sorridente, em meio a tantas coisas. Esperemos que D. Orani dê um jeito nessa situação.

Da cerimônia de posse de D. Orani, novo arcebispo do Rio de Janeiro

Confesso que no momento em que nosso arcebispo fez seu pronunciamento, eu simplesmente me desliguei no meio das intermináveis saudações às autoridades, quando ele virou a primeira ou segunda folha e continuou saudando-as, o que me fez lembrar da Doação de Constantino, em cujo início há tantos títulos referentes ao imperador que aparentemente a doação é apenas um detalhe no documento, e só retornei a mim nos aplausos finais. Se de fato o discurso de D. Orani foi de cerca de meia hora, então bizarramente fiquei meia hora em transe. Conforme um amigo me disse, não foi nada fácil acompanhar a litania das autoridades feitas pelo núncio, D. Eusébio e D. Orani.

Naquele domingo, por acaso eu folheava à noite meu catecismo, no qual está dito que a igreja é um excelente local para oração, mas aparentemente isso não é aplicável a certas zonas do Rio de Janeiro. Acho que foi a primeira vez em que realmente tive dificuldade de orar numa igreja no momento da comunhão, tamanha a baderna. O negócio estava tão feio que no banco à minha frente havia duas ou três pessoas que simplesmente estavam ouvindo uma partida de futebol no meio da missa. Não sei se na Idade Média havia bagunças nas igrejas -- acho que já li em algum lugar sobre gente entrando com bichos em igrejas e que isso não era raro --, mas atualmente a situação está se tornando insuportável, se é que já não o está em determinadas igrejas.

Eu só gostaria que as pessoas não berrassem na igreja, não fizessem tumultos por farra, nem que transformassem as missas numa ode à breguice e ao kitsch, mas aparentemente é pedir demais. Qualquer dia, do jeito que a banda toca, haverá lutas de sumô em plena missa, a fim de atrair mais fiéis e de tornar tudo mais intrigante.

Friday, April 10, 2009

De como tento me livrar de certos ranços que me impedem de usufruir bem da vida religiosa

Antigamente, e devo alertar que por esse advérbio entendo um passado de seis anos, eu era de certa forma influenciado pelas opiniões dos assim chamados "tradicionalistas", cujo mote é que houve na década de 60, devido a um concílio infeliz, a criação de uma igreja diferente da Igreja: seria a "Outra", nas palavras de Gustavo Corção. A "Outra" seria uma espécie de anti-Igreja e até mesmo parasita: dentro da própria Igreja ela lhe consumiria. Vem disso a célebre expressão "auto-destruição da Igreja." Dadas as dificuldades que atualmente cercam a Igreja, o poder de atração dessa idéia é hipnotizador, pois parece explicar de modo mais ou menos simples praticamente tudo. Todavia, nada como um ano após outro. Atualmente, acho que me livrei em boa parte dessa explicação, pois ela me parece não só desprovida de sentido mas também maléfica. Meus motivos não são difíceis de entender, embora sejam, talvez, difíceis de vivenciar. Tentarei, pois, explicar esse meu aparente enigma.

Não tocarei em questões teológicas nem filósoficas, pois não quero me enrolar ridiculamente. Ademais, a prudência exige que não nos atiremos de cabeça em águas que não conhecemos a profundidade. Portanto peço ao leitor católico que aceite tão-somente algumas idéias bem simples. Com efeito, sabemos por exemplo que a Igreja foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que "sobre ela as portas do inferno jamais prevalecerão". Precisamos então confiar na Igreja assim como confiamos em Jesus Cristo: é absolutamente impossível separar um do outro. Sabemos também que o Espírito Santo sempre estará ao lado da Igreja, afinal "o Senhor é meu pastor e nada me faltará". Certa vez Bento XVI, na época cardeal, disse que a Igreja é um barco antigo mas seguro e bem provado. Ele tinha razão, porque se ainda que estivermos no vale da morte o Senhor estará conosco, também Ele estará com a comunidade de fiéis em meio às tribulações que ela vier a atravessar ao longo dos séculos. Jesus Cristo, conforme as Santas Escrituras, diante do temor dos Seus ministros quando da tempestade no mar, acalmou-a, e todos seguiram boa viagem. Do mesmo modo, sendo a Igreja um barco e o mundo águas revoltas, o Espírito Santo estará sempre presente a fim de que tudo concorra bem. Nossas preocupações são decorrentes da nossa pouca fé: acaso não disse o Senhor que "não vos preocupeis com o dia de amanhã"? A Igreja também é nossa "mãe e mestra", "mater et magistra". À certeza inabalável de suas decisões como mestra, junta-se a doçura da mãe que cuida de seus pequeninos. Ora, quando alunos acatamos aquilo que o mestre nos ensina, e como filhos confiamos em nossas mães sem temor algum. A Igreja não ensina novidades, mas guarda e atualiza todo o patrimônio sagrado. Doutra maneira, ela nos ampara em todas as nossas necessidades, pois é a Esposa de Cristo e nós os Seus filhos. Daí que devemos acatá-la como mãe e como guardiã do que há de mais precioso, que é a tradição sagrada.

Se o leitor é católico, tais pontos, simples, são indisputáveis. Nessas questões de princípio ninguém deve tocar. Porém sabemos como a nossa fé caminha aos solavancos, principalmente nas adversidades. Quantos podem resistir aos assaltos daqueles que, vendo-nos em circunstâncias miseráveis, caçoam e dizem: "Esperou no Senhor, livre-o; salve-o, se é que o ama"? Eu próprio tenho dificuldade de entender muitíssimas coisas. Contudo, aqueles pontos simples precisam ser a minha rota de fuga. Se dissermos todos os dias "creio", e se pedirmos a Deus força para crermos n'Ele e na Santa Igreja, enfim, se aceitarmos a graça de Deus, ela será derramada em nós e nos fortificará. Nossas dúvidas serão aos poucos saciadas, pois Jesus Cristo já dissera: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á, porque todo o que busca, recebe: e o que busca, acha: e a quem bate, abrir-se-á". É preciso, portanto, ter confiança, pois se nossas dúvidas forem sinceras elas serão satisfeitas.

No entanto, preciso dizer ao leitor que tudo aquilo que for ocasião de perda deve ser dispensado. Compreendo perfeitamente o quão difícil é às vezes agir assim, porque há momentos em que uma renúncia parece uma afronta não só a nós mesmos como também aos outros. Darei como exemplo todas as discussões acerca da licitude do último concílio. Ora, as discussões a respeito moveram escândalo após escândalo. Isso é absolutamente inaceitável. Tal como a Reforma produziu um escândalo tão imenso que pôs as almas de todos os fiéis em perigo, as discussões acerca da validade do último concílio também têm sido ocasião de muitas perdas: o que mais tem havido são insubmissões, mentiras e calúnias. Numa palavra, tem havido ataques constantes à caridade. Note o leitor que nem entro na questão de nossa irrelevância diante desses problemas. Realmente, por uma questão de humildade, seria ridículo nos revolvermos demais a esse respeito. Todavia, estou atacando o problema de um modo que vai mais além. Considero extremamente maléfico se envolver demais nessas discussões, porque são de fato motivo de perda. Já dissera Nosso Senhor: "Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o, e lança-o fora de ti: porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno." Que palavras formidáveis e aterrorizantes! Assim, em termos práticos, eu tento evitar, na medida do possível, entrar em discussões acerca do concílio, a não ser para lembrar que a Igreja é fiel a Deus e que o concílio, sendo da Igreja, é também fiel a Deus. Por outro lado, já que o próprio Jesus Cristo dissera que é necessário tirar antes a trave de nosso próprio olho antes de falar do cisco no olho de outrem, tento evitar, na medida do possível, falar ou pensar mal de alguém, a não ser de brincadeira. Claro que freqüentemente me pego nessas faltas, mas se eu próprio não consigo me submeter à Igreja como é preciso, até que ponto é justo eu reclamar de um padre ou leigo insubmissos? Finalmente, se porventura eu observar que a pessoa, mau grado ter opiniões estranhas (uso "mau grado" porque não compreendo a forma "malgrado"), está sinceramente em busca de uma resposta pessoal, serei o último a denigri-la: o problema não é a busca em si, mas o jeito como conduz suas buscas. Seria um problema de direção espiritual -- não que eu esteja me considerando um diretor espiritual, é óbvio.

Há muito a dizer ainda sobre o assunto, mas basta por enquanto.

Thursday, March 12, 2009

A saga de um desempregado

Blogs foram feitos para relatar experiências pessoais, ou essa é a fama que em geral eles têm. Eu diria de outra forma: blog é um dos vários meios pelos quais compartilhamos nossas misérias com estranhos. Somos como uma dessas pessoas que ficam tão loucas para desabafar que não perdoam o primeiro gaiato que aparece na frente, que no caso presente é você, caro leitor. Essa minha observação, aliás, modéstia de lado, é muito interessante, porque costumeiramente tendemos -- inclusive eu -- a considerar blogs como exibicionismo. Isso não está totalmente errado. Blogs, bem como qualquer outro meio de escrita, são, do ponto de vista de quem escreve coisas pessoais, como estar nu em alguma avenida: uns gostam mais, outros menos, mas é exibicionismo. Contudo, o que nesta vida não é vaidade? Não, caríssimo leitor. Meus colegas blogueiros ou eu passarmos determinada imagem, conscientemente ou não, a ti, não é apenas uma questão de identidade. O que está em jogo é um catolicíssimo compartilhar de lágrimas dos degredados filhos de Eva. Desde aquele que exibe suas medalhas ao que aponta para suas dores, tudo é uma busca pelo irmão perdido, a fim de que ele nos acompanhe fraternalmente.

Meu objetivo agora não é fazer o leitor chorar, nem muito menos pretendo reclamar como velho da vida. Imagino que todos nós já sabemos que a vida tem um aspecto bastante complicado. Porém é bom senso ter noção de que não vivemos numa Sibéria stalinista. Nem eu poderia reclamar exageradamente, a não ser para efeitos retóricos; confio no leitor inteligente.

Quarta passada, enquanto eu zanzava pelo Centro do Rio atrás de algo para fazer, dei-me conta da quantidade de pessoas que possivelmente também ficam zanzando com o mesmo objeto no Centro. Neste bairro, diariamente, a quantidade de gente que está procurando algum emprego deve ser realmente muito assombrosa. Dei-me conta disso desde que vi as filas em agências de emprego, cotidianamente lotadíssimas, ou quando vi a quantidade de pessoas que vão aos montes a consultorias de trabalho. Devido à minha própria situação, fiquei mais sensível a essas coisas, da mesma forma que pensei nas pessoas que ficam vagando pelas ruas sem muita razão, após a perda de entes queridos, como Gustavo Corção e eu mesmo já fizemos, ainda que eu não tenha a chegado a agir exatamente como o velho católico, que por um tempo seguia às vezes, como que hipnotizado, transeuntes de madrugada. Mas já dei boas voltas de madrugada como espécie de distração. Não sei muito bem a razão de tal comportamento. Pode ser, talvez, porque achamos de alguma maneira que a pessoa amada e falecida vai cruzar conosco na rua. Porém estou fugindo um pouco do meu propósito neste parágrafo, que é comentar acerca da quantidade nebulosa de pessoas andando no Centro do Rio atrás de emprego. A fim de me repetir, torno a dizer que as agências de emprego são sintomáticas. Há uma delas, governamental, próxima da Igreja de São José. Tenho o hábito de passar ali perto, e não me recordo de um só santo dia em que não tenha visto filas de manhã. É algo que me faz lembrar das históricas filas de desempregados no período do entre-guerras, com a diferença de não aparecerem agitadores profissionais querendo incitar as multidões à revolta. Um fato auxiliar é a quantidade de gentes em locais para concurso público. Essa manada de gente só pode indicar que a insegurança quanto ao emprego é ampla, geral e irrestrita. O outro fator, agências de recrutamento, é também eloqüente. Não cometerei o absurdo de exigir do leitor a ida a uma dessas agências: confie na minha experiência. Fui a uma e fiquei espantado com o enorme número de pessoas indo e indo e indo tão-somente para entregar currículos e pedir qualquer salário baixo – isso quando não diziam que topavam qualquer coisa, usando o termo “a combinar”. O mais impressionante é que pelas conversas eu tive a sensação de que ninguém tinha muita noção do que queria, exceto trabalhar: gente de todas as idades. Aliás, quando a tormenta se acalmou, perguntei à atendente se sempre era daquele jeito, ao que ela me disse que normalmente era muito pior. A sala de espera, se é que podemos chamar assim um local onde só cabem três pessoas sentadas e outras três de pé, parecia um formigueiro. Ninguém ficava muito. Mais lá para dentro, havia essas dinâmicas de emprego que mais me parecem humilhações adicionais criadas por algum sádico contra quem topa tudo por dinheiro. Por amor a um possível emprego, todos se submetem a tudo, o que não é de se estranhar.

Aqui no Centro há o Mosteiro de São Bento. Esse ano, graças a um amigo, passei a freqüentá-lo durante as manhãs, 7h15, umas duas vezes no meio da semana, sempre que minha preguiça é vencida. Gosto de ir andando. Nessas idas, passo geralmente no maior zunzunzum já às 6h20: o mundo se levanta cedo. Fico sempre impressionado com a quantidade de pessoas por essas redondezas. É normalmente gente de todos os cantos da cidade, e isso quando não são de fora. Em meu prédio, por exemplo, há dois porteiros que moram em cidades próximas. Aproveito para dizer que é totalmente falsa a impressão de que cariocas não toleram trabalho: ao contrário, topam tudo e em qualquer horário. A visão das hordas na praia é enganosa. A população em geral não fica só na praia. Suspeito que o problema é que ela não parece ser bem qualificada, para usar um termo econômico. Isso por si não me parece justificar tamanho desemprego, porém não sou especialista nessas coisas. A única pessoa satisfeita com a economia do país é o presidente, porém todos sabem que ele não é autoridade para nada. Por outro lado, é freqüente observar como as pessoas tentam se virar do jeito que dá. É o caso dos vendedores ambulantes. Eles são o maior exemplo de como é falso também supor que o brasileiro, ou pelo menos o carioca, não tem espírito empreendedor. Muito pelo contrário: estamos lotados de espíritos empreendedores, mas que não conseguem avançar de vez por alguma razão que me escapa. Perto do Campo de Santana, na altura da Biblioteca Estadual, há sempre muito cedo uma lanchonete improvisada ao ar livre. Vendem caldo de cana, suco, pastel e sanduíches a trabalhadores. Quando passo por ali bem cedo, jamais deixo de ver uns vinte clientes, sem contar os outros que se dirigem àquele “estabelecimento”. Essa lanchonete improvisada só funciona bem cedinho: pouco mais tarde desaparece, junto com o vermelhidão da aurora. É de se crer que ocorram iniciativas semelhantes em muitos outros lugares.

Conforme eu tenho visto anúncios de emprego, chamou-me atenção a admirável formalização do nome dos cargos. A maioria das pessoas e eu sabemos o que é um faxineiro e um varredor. Contudo, ai daquele que buscar vagas pela Internet com esses nomes! Hoje em dia, por um motivo que me escapa inteiramente, nossos caros faxineiros e varredores se transformaram em um insosso "auxiliar geral. Peão-de-obra também desapareceu: acho que se transformou em “auxiliar de produção". São nomes mais elegantes, sem dúvida, porém totalmente vagos. Isso me parece algum ranço técnico-jurídico ingrato, misturado com o politicamente correto. Os juristas medievais eram mais criativos. Como disse Marc Bloch, algum deles, de veias poéticas, cunhou o termo "feudo do sol" aos alódios, isto é, terras que não eram enfeudadas, desprovidas de encargos feudais. Como eram terras que não foram dadas por ninguém ao seu proprietário, daí a expressão "do sol". Hoje em dia, época da exatidão técnico-matemática e do politicamente correto, expressões poéticas como aquela são inimagináveis no sistema jurídico. O concreto faxineiro se torna um abstrato "auxiliar geral".

Eu, que nunca tive empregos formais, vi-me numa situação inusitada. Ao ter de fazer currículos online, freqüentemente tinha de mencionar um emprego bem específico, o que é normal. Contudo, jamais tinha me dado conta da tecnicidade dos empregos e da pluralidade de funções. Há semanas venho lendo isso e até agora não consegui entender a diferença entre um emprego profissional e um operativo, conforme li nalgum site de empregos. Tampouco sei o que significa a hierarquia auxiliar-técnico-estagiário-júnior-gestor, e que o leitor me corrija se acaso tropecei na hierarquia correta. Dentro do meu mundo, inicialmente há professores e os outros, sendo que dentre os primeiros a gradação se dá pelo título adquirido: isso por si só já é um verdadeiro inferno. Quanto aos outros, até pouco tempo atrás achei que havia o jornalista, o editor, o advogado, o faxineiro, o lanterninha... Porém descubro que há assistentes, que são diferentes dos auxiliares. Há igualmente um bando de júniors, certamente, imagino, antecessores dos sêniors. Para mim, um assistente e um auxiliar são a mesma coisa, porém na tecnicidade empregatícia há diferenças. Se o leitor me permitir uma referência filosófica assaz bizarra, eu chamaria essa explosão de tipos de emprego e especializações de "kantismo empregatício positivista", já que após Kant e positivismo tudo virou objeto de ciência, mesmo as coisas mais inusitadamente irreais. Contudo, faltaria com o bom senso se durante uma entrevista de emprego eu objetasse que tal emprego, mau grado -- faço de bom grado um assassínio lingüístico -- remunerar bem, é um delírio de inspiração kantista-positivista, portanto necessariamente inferior a outras funções. Conhecer monstruosidades lingüísticas como “endomarketing" só me causam furor e ressentimento. Calo-me quanto a empregos cujos significados, a partir do nome, são ininteligíveis, ainda que bem remunerados.

A minha situação só me tem confirmado aquilo que eu já havia percebido: sou pária. Aparentemente, estou um pouquinho acima da média educacional, porém um pouquinho abaixo da excelência do ensino superior. Vivo portanto num intramundo, e aqui, gentil leitor, não há empregos. Se eu fosse um ex-clérigo, vivesse enfurnado num bar e amasse vagabundear pelas estradas e saias alheias, talvez eu poderia ser um goliardo, se é que isso significa pertencer a uma classe. Estou muito mais próximo do clérigo que disse a Raimundo Lúlio que havia passado a juventude estudando e esmolando. Seria esta situação, aliás, concebível para nossa imaginação, um estudante universitário literalmente mendigo? Só consigo imaginar algo parecido a partir das pobrezas estudantis russas de Dostoievski. Atualmente conseguimos ser universitários sem piolhos, sem lepra e, o que é melhor, cercados de belas universitárias, ainda que isso varie dramaticamente de curso para curso: eu, por exemplo, desde meus tempos de segundo grau de Eletrotécnica, jamais tive a sorte de estudar com beldades.

Daqui do intramundo observo o quão distante é a perspectiva de emprego de um intelectual de quem não é intelectual. Se um historiador do futuro investigasse nossa época, analisando que tipo de emprego costumeiramente era oferecido em 2009, talvez ele concluísse que nós éramos criaturas excepcionalmente inteligentes, posto que aparentemente ninguém quer saber mais de professores ou qualquer coisa desse gênero. Há milhares de cargos para “auxiliar geral”, para técnico de informática, jornalista... A demanda de cargos burocráticos ultrapassa o infinito. E para quem quer dar aulas? Só se for de idiomas. Obviamente isso é um exagero retórico: a questão é a baixa quantidade de cargos daquele tipo. É também óbvio que existem mais varredores que professores, mas isso não explica a inacreditável baixa demanda. Existe realmente um abismo entre intelectuais e a população em geral, de modo que o contato entre eles é puramente acidental ou cercado de misticismo de ambas as partes. O povo é uma coisa que o intelectual vê de longe, enquanto o intelectual é algo que escapa completamente do horizonte do povo. Não que isso seja totalmente estranho por si: o problema é que por essas bandas a situação é muito dramática. Mas estou já escapando do assunto.

Como só podemos viver no intramundo comendo e bebendo o que as pessoas do mundo comem e bebem também, não dá para ficar contemplando aristotelicamente a realidade. Porém as pessoas no mundo exigem qualificações excessivamente formais ou se agrupam em convênios: ambos, em português bem claro, significam tão-somente armação e boquinha. Os “superiores” usam de esperteza a fim de restringir o acesso aos seus cargos. Qualificações excessivamente formais e convênios são seu escudo protetor contra as hordas vindas do inframundo. Aliás, o mesmo se dá com concursos públicos: são a chance dos “superiores” viverem tranqüilamente. Assim, um concurso público que exige 2° grau e que dá todo o tipo de benefícios a quem passar será disputado preferencialmente pelos “superiores”: o mesmo ocorre em concurso que exige tão-somente 1° grau. Na realidade, concurso público é a boquinha dos “superiores”. Os que estão entre os “superiores” e não conseguem participar da boquinha vão ocupar cargos imediatamente inferiores, supostamente destinados aos do inframundo, e os que estão no inframundo mas são melhores que seus companheiros vão ocupar os cargos destes. Os últimos, no fim das contas, vão pastar e comer grama. As regulamentações a fim de proteger os direitos dos trabalhadores servem apenas para dificultar contratações e arremessar todo mundo na rua o mais rapidamente possível. A acrescentar as autênticas sacanagens empregatícias, é de se espantar como chamam tudo isso de exemplo autêntico da maldade inerente ao capitalismo, quanto é apenas exemplo de pega-pra-capar tupiniquim.

Dizendo assim, até parece que meu caso específico é culpa da maldade ambiente. Não é bem assim. Como esse blog não é um confessionário, não devo me dirigir ao leitor como se você fosse meu padre confessor. Digo tão-somente que, dada a situação ambiente, eu também fiz questão de me enrolar. Creio que ter escapado heroicamente da universidade não foi uma ação virtuosa. Certamente as universidades têm problemas muito graves, porém a solução não me parece fugir, ainda mais quem não tem muitas fontes de renda. É uma simples questão de bom senso. Sou o primeiro a dizer que freqüentemente topamos com situações deprimentes em faculdades, mas também quero ser um dos primeiros a dizer que cada faculdade é um microcosmo: o que ocorre na faculdade de História da UFRJ é diferente do que ocorre na da UFF. E mesmo em cada uma delas existe um tremendo saco de gatos. Passados quatro ou cinco anos sem pôr os pés numa sala universitária, hoje tenho melhor noção dos problemas que o positivismo trouxe aos estudos. Eles chegam a ser ininteligíveis para quase todo mundo, tal é a influência dos seus pressupostos metodológicos aparentemente sensatos e humildes. As opiniões e estudos esquerdistas certamente estão bem disseminados e são irritantes. Todavia, uma faculdade não é só isso: bem ou mal, determinadas coisas você só conhecerá, ou pelo menos conhecerá mais facilmente, numa faculdade. Ademais, digo por experiência própria que se na universidade já ficamos angustiados por encontrar pouca gente disposta a estudar verdadeiramente assuntos amplos, fora dela é virtualmente impossível encontrar alguém. Não acho essa concentração toda benéfica: a academia nunca poderia ter o monopólio do que é intelectual. Mas sejamos práticos: a verdade é essa. Em termos gerais, vida intelectual não existe fora dos muros da universidade, pela simples razão de a maior parte das pessoas simpáticas ao estudo estarem nas universidades. Posso estar enganado, porém nas atuais condições a universidade, mesmo do jeito que está, é, no final das contas, um lucro. Há também o problema tradicional da confusão entre estudo acadêmico e estudo academicista. O primeiro é um autêntico estudo superior, enquanto o segundo é tão-somente sua cópia exterior. Como macaquear é mais fácil e cômodo, onde não houver seriedade haverá academicismos. Tudo isso é de conhecimento geral, mas é necessário enfrentar a selva e reter o que vier de bom.

Meus gostos históricos são bem variados: vão desde a Antigüidade até Segunda Guerra Mundial. Sei muito bem que este último assunto, na UFRJ, foi tomado por loucos esquerdistas, de modo que é impossível estudar adequadamente o assunto. Por outro lado, estudos sobre a vida de Jesus foram tomados por outros loucos, esquerdistas ou não. Em se tratando da minha faculdade de Histórico, busco me ater ao meio termo, ou melhor, na Idade Média, não toda, é claro. Também por experiência pessoal vi que é possível estudá-la sem cometer indecências. O fato de haver uma propensão enorme a se estudar meia dúzia de autores franceses não é um problema tão grave. Nenhuma dessas coisas serve de impedimento grave aos meus estudos, exceto circunstâncias externas, isto é, conseguir novamente minha matrícula e ter condições materiais para me manter estudando e vivendo adequadamente.

Se eu tivesse tido essas precauções eu não estaria tão enrolado. Mas “o tolo só aprende por experiência”, nos dizeres de Homero. Vejamos se consigo levar adiante o que aprendi com minhas tolices.