Sunday, October 23, 2005

Zeus, Prometeu, Atena e o Cabeleireiro dos Deuses*

*Baseado em uma fábula de Esopo

Lá no grandioso Olimpo, no início do mundo, houve uma disputa entre os deuses para saber quem criava a coisa mais bela. Eis os contendores: o tonitruante Zeus, o perscrutador do futuro Prometeu e a de olhos glaucos Atena. O primeiro exibia com orgulho um animal grande, forte e chifrudo, batizando-lhe “touro”; o segundo acabara de fazer uma criatura das mais intrigantes. Embora tivesse aparência frágil, ele a ostentava como um ser de futuro promissor, chamando-lhe “homem”; por sua vez, Atena usou seus conhecimentos em arte para fazer uma construção que ao mesmo tempo fosse bela e prática, chamando-lhe “casa”.

Só que havia um problema. Nenhum outro deus queria ser árbitro daquela disputa. Alguns achavam menos pior serem arremessados do Olimpo direto para o Tártaro, embora Hefesto, por experiência própria, visse naqueles dizeres um certo exagero. Então Zeus, sapientíssimo, chamou Hermes e disse-lhe: “Meu caro, posto que eu mesmo estou envolvido na contenda, só há uma criatura neste mundo que poderá ser juiz de tão singular disputa, pois ela é próxima de todos nós e ousada, se bem que um tanto invejosa. Chame rapidamente o Cabeleireiro dos Deuses.” Enquanto Hermes era assim despachado, Zeus virou-se para os demais e continuou: “Mas não falemos que fomos nós que criamos aqueles seres, para não influenciarmos sua decisão”. Todos os deuses aplaudiram e ovacionaram Zeus pela sua sábia decisão, chegando Dionísio a ensaiar uma dança esquisita, e já estava pronto para rebolar em frenesi, quando Apolo achou por bem retirá-lo daquele augusto recinto, não sem antes chamá-lo de bêbedo e celerado.

Hermes foi correndo cumprir sua ordem e em fração de segundos voltou acompanhado por uma figura das mais singulares. Ela vinha com plumas na cabeça, uma peruca dourada, enorme, cheia de purpurina, pó-de-arroz em excesso no rosto, milhares e milhares de cordões, argolas, pulseiras e outras coisas, além de um salto alto enorme, do tamanho de um pigmeu da África. Por baixo desse imenso aparato, ela vestia uma toga feita com pele de tigre branco, repleta de esmeraldas. Oh, e que dizer de seu portentoso leque rosa, do tamanho de um gládio? Um pequeno séqüito vinha junto, cujos membros eram parecidos com aqueles sujeitos jovens de masculinidade duvidosa que Caravaggio tanto gostava de pintar. Eles pulavam de um lado para o outro e jogavam rosas por onde quer que aquela criatura viesse a passar. Então o portador do caduceu, fazendo vários rapapés e salamaleques para o pai dos deuses, disse-lhe: “Eis aqui o Cabeleireiro dos Deuses, conforme a vossa vontade.” Zeus agradeceu e pediu para que ele se aproximasse. Mal tendo chegado perto do pai dos deuses, ele não perdeu a oportunidade para falar: “Oie, meus fa-bu-lo-sos e di-vi-nos patrões! Eu estava tão atarefadinho, ai! Olha bem, hein?, tomara que esses divinos tenham me chamado por um motivo mui-to bom, se não vou rodar a baiana, viu? Vocês não sabem quem eu estava penteando agora pouco, é um babado! Ela estava vestindo...” O tonitruante interrompeu-o logo: “Tudo bem, ó embelezador de divindades, não diga mais nada. Chamei-te para que avalies qual...”

O Cabeleireiro interrompeu a fala de Zeus subitamente, estalou os dedos, chamou seu séqüito e lhe pediu para que pegasse escova, pó-de-arroz e rímel. Na velocidade de um relâmpago, lá estava o Cabeleireiro maquiando Zeus, que se debatia em seu trono de ouro. “Que se passa? O que estás fazendo?”, perguntava. “É que você está tão abatido, fabuloso...”, respondeu-lhe o maquiador de deuses. E continuou, enquanto os mancebos deitavam tanto pó no rosto do deus que uma nuvem se formava ao seu redor: “Acho que é muito trabalho. Já falei para colocar rodelas de pepino nesses olhinhos, ai, ai, ai! E esse cabelo! Venham, bambinos, vamos deixar esse deus glamuroso!” “Saiam para lá, fiquem quietos e me ouçam!”, disse o tonitruante, enquanto meio que às cegas arremessava alguns raios no chão, dois dos quais atingiram o bumbum de um pobre jovem do séqüito. Assim que a calma imperou, Zeus prosseguiu: “Como eu estava dizendo, chamei-te para que avalies qual ser dentre os que te apresentaremos é superior. Como nenhum deus quis ser árbitro desta disputa olímpica, julguei que apenas tu podias ser nosso juiz, tanto pela alta estima que nutrimos por ti, como pela imparcialidade e ousadia de teus pareceres, coisa que todos os numes concordaram.” Enquanto uma lágrima brincava de escorregar pela face do Cabeleireiro, a qual foi rapidamente secada por um dos jovens a fim de não estragar sua maquiagem, ele agradecia efusivamente por aquela honra: “Ai, que emoção louca, sinta meu coração palpitando, parece que vou ter um treco! Me segurem, bambinos...”, dizia. “Controla-te, ó maquiador supremo, e nos acompanhe”, ordenou Zeus.

Então aqueles três deuses e o Cabeleireiro, acompanhados por uma multidão de deuses, ninfas e outras criaturas muito legais, chiques e fabulosas, se dirigiram para um salão enorme, semelhante ao Panteão. Havia um palco no meio, com três panos roxos que envolviam cada um caixas enormes ou alguma outra coisa quadricular. Zeus chamou então Circe, que estava vestida com um maravilhoso vestido rosa brilhante (embora seu cabelo enorme estilo anos 60 fosse considerado por muitos démodé), pedindo-lhe que retirasse os panos que cobriam as criações. Ela então encostou os dedos indicadores nas têmporas e balançou a cabeça de olhos fechados, produzindo um som assaz brega. Eis que de repente os panos sumiram! Era possível agora ver cada uma das criações, dentro de cubos transparentes e adornados com motivos florais. Havia uma inscrição na parte de baixo dos cubos indicando o nome das criações (tudo em grego, evidentemente), mas sem a autoria. Uma banda regida por Euterpe tocava uma musiquinha janota ao fundo. Ah, eu já ia me esquecendo de dizer que lá de cima do óculo (eu já disse que o salão era parecido com o Panteão, certo?) uma luz bem amarelada esparramava-se bem em cima daquelas "obras de arte". Embora o espetáculo fosse meio kistch, e talvez exatamente por esse motivo, o Cabeleireiro estava muito empolgado, achando tudo “di-vi-no”, “um most” e “gla-mu-ro-so”. O séqüito batia palmas um tanto efeminadamente, mas não muito para os padrões olímpicos.

Zeus pediu para que a musiquinha cessasse e ordenou então que o Cabeleireiro começasse a avaliação. Todos estavam ansiosos. Ele primeiro foi olhar o touro. Colocou a mão em seu queixinho fino, olhou bem, deu uma, duas, três voltas ao redor do cubo e, abrindo seu portentoso leque e abanando-se efusivamente, deu seu parecer: “Ai, credo, que hor-ror! Está muito ruim, está muito ruim. Olha que coisa ridícula esses chifres. E olha onde estão os olhos! O bofe que criou esse bichão tinha de pô-los em cima dos chifres, (em ci-ma, captou?) porque aí, quando o touro abaixasse a cabeça para dar uma chifrada, ele continuaria olhando para onde estava indo.” Depois de dar uma risadinha discreta, porém abafada com sua luva de pelica, disse: “Nota dois pela falta de inteligência de quem a criou e um e meio pela feiúra da obra.” Alguns deuses deram uma risadinha, enquanto Zeus, com muita dificuldade, mantinha seu autocontrole. Foi então o Cabeleireiro olhar o homem. Observou-o com cuidado, retirando do bolso um daqueles óculos com uma pequena haste ao lado. Vez ou outra exclamava algo como “hm” e “ai”. Pediu em seguida para que abrissem o cubo a fim de “fazer uma avaliação mais completa”, segundo suas próprias palavras. Depois de apalpar por um certo tempo o homem (que acabou ficando muito vermelho por sinal), o Cabeleireiro emitiu novamente um parecer desdenhoso: “Tsc, tsc, tsc... Vocês parecem que não pensam, nos-sa!” Apontando o leque para o peito do homem, prosseguiu: “Colocaram o coração dentro desse peito cabeludo. Que burrice, santas! O coração tinha de ficar do lado de fo-ra, bem em cima da tes-ta (aqui ele apontava o leque para a testa do homem), porque aí a gente ia ver di-rei-ti-nho o que cada um é de verdade e não ficaria escondido nada de ruim. Nota dois pela falta de inteligência e sete pela voluptuosidade da obra. Se misturassem esse homem com aquele touro, ai, não ia ser um escândalo? Faltou um pouco de sofisticação aqui.” Prometeu estava furioso da vida, mas Epimiteu o ajudou a manter a calma. Por último ele foi analisar a casa. Já com um olhar de reprovação, mal tendo visto direito aquela obra, o Cabeleireiro começou a criticá-la: “Ai, meus di-vi-nos, o que não seria de vocês se não fosse meu ótimo gosto? Olha só essa casa, que coisa pa-vo-ro-sa. E se algum malvado se estabelecesse nas vizinhanças? A casa tinha de ter rodinhas para que o dono a empurrasse para longe, não é? Onde estão elas? Ai! Que falta de imaginação! Só gentinha ia fazer um negócio tão off. Nota dois em todos os quesitos. Agora chega de cafonice, né? Olhem que bela peruca eu fiz, essa sim é mais bonita que tudo isso aí. Esperem até eu mostrar meus vestidos de noiva para vocês.” Palas Atena mordia os lábios com fúria cega.

Começou um falatório enorme no salão. O Cabeleireiro, enquanto isso, mostrava as perucas e os vestidos de noiva que havia criado, dizendo que seriam a última moda no Olimpo. Não cessava de dar nota dez para suas próprias criações, às vezes até onze. Aquilo era demais para a paciência de Zeus. Completamente indignado, Zeus potentíssimo segurou o Cabeleireiro pelas pernas e o virou de ponta cabeça. O séqüito ensaiou um “ooooh”, que não teve vida longa por causa de suas gargantinhas frágeis. Por estar de cabeça para baixo, a peruca do maquiador dos deuses caiu, causando risadas entre todos. Zeus o levou assim até a beirada do Olimpo, acompanhado pela multidão de deuses e demais criaturas legais, chiques e fabulosas. Enquanto caminhava, disse-lhe: “Ó besta desavergonhada, fomos nós deuses que criamos tudo aquilo. Eu, o touro; Prometeu, o homem; Atena, a casa. Mas tu, além de ousadamente nos criticar cheio de inveja, ainda por cima elogiaste tuas perucas e vestidos de noiva acima de nossas obras. Vejamos se continuarás cheio de garbo depois que eu te arremassar para fora do Olimpo.” Então o pai dos deuses, ignorando as súplicas do infeliz, arremessou-o bem longe, fazendo o mesmo com todo o seu séqüito. “Isso dói, isso dói...”, dizia Hefesto, fazendo caretas de dor só em pensar naquela queda.

Vários aplaudiram aquela sábia decisão e disseram: “Viva el-rei Zeus!”, embora outros lamentassem o fato de a partir daí não estarem mais atualizados com a última moda. Então Euterpe voltou com a banda e começou outra musiquinha janota. Dionísio novamente apareceu, desta vez nu, balançando seu bumbum e fazendo caretas. E novamente começou outra discussão entre os olímpicos.

Epílogo

O Cabeleireiro dos Deuses e seu séqüito foram arremessados tão longe e com tanta força que foram parar no Tártaro, fazendo um estrondo tremendo na queda. Hades, acordado com o barulho, saiu de pijamas para ver o que foi aquilo. “De novo aqueles porcalhões do Olimpo jogaram entulho aqui. Será que pensam que meus domínios são um lixão?”, ele resmungava, enquanto chamava Perséfone para começar a limpeza. “Pelo menos da última vez deu para reaproveitar o ar-condicionado que jogaram fora”, respondeu-lhe a esposa, com creme no rosto, amarrando o roupão e saindo com o esposo. Mas para a surpresa do casal infernal, eles se depararam com aquele singular grupo. Mal o ex-maquiador dos deuses observara enfim onde estava e vira aquele casal, balançou negativamente a cabeça e começou a dizer: “Que lugar mais feio, tão down! Que roupinhas ca-fo-nér-ri-mas a de vocês! E que carinhas são essas, hein?” E levantando-se com um certo esforço, ajudado pelos jovens, disse-lhes: “Vamos, bambinos, temos muito trabalho!”

Hades e Perséfone se entreolhavam confusos.

1 comment:

jeferson said...

eu aprende que videos e uma coisa de ser ler e aprender !!!!!!!!! e saber no alto da montanhas do arco de amor!!!!!!!!! hahahahahhahahha radardar
remetente:jessica
autora: laura
escreveu:lucas
eu gostei
e vc?
linda jessica