Wednesday, December 21, 2005

A última de Janer Cristaldo e religião

Janer Cristaldo é conhecido - sem contar seus trabalhos literários e jornalísticos (já fiz um rápido comentário sobre seu livro O paraíso sexual-democrata aqui no blog) - pelo seu ateísmo militante contra o Cristianismo e o Islamismo. Agora ele resolveu bombardear o Judaísmo, fechando com chave de ouro este ano com uma guerra - se é que podemos chamar assim tal modo de proceder - contra as três grandes tradições monoteístas do mundo.

Estando no Ocidente, e o Ocidente, queiramos ou não, só tem razão de ser graças ao Cristianismo, Janer Cristaldo preferiu por um motivo qualquer não apenas renegar tal herança e tradição como inclusive agredi-la sem o menor pudor. Por outro lado, o tradicional inimigo do mundo ocidental, o Islamismo, nem por isso deixou de ser agredido por ele. E sendo o Judaísmo de certa maneira comum a ambas as tradições, era só questão de tempo ele resolver agredi-lo também.

O problema de Cristaldo é que ele geralmente faz uma imagem no mínimo esquisita das religiões e passa então a atacá-las, como se estivesse realmente dizendo alguma coisa sobre elas. Ao leitor um pouco informado a respeito de todas elas fica o problema de saber se Cristaldo assim procede por incompreensão crônica, pura má-fé ou um pouco de ambas. Não sei, só Deus e o próprio Cristaldo sabem a verdade. O máximo que podemos fazer é cogitar.

Quem quiser saber direito sobre isso que vá ao seu site e leia o que ele costuma escrever. Em dado instante ele diz que o Cristianismo é mais nefasto que o comunismo e o nazismo, e busca sustentar tamanha loucura apontando para nada mais, nada menos, que a Inquisição. Ao Islamismo ele oferece argumentos - se é que são argumentos - relacionando esta religião com a barbárie e o terrorismo, considerando assim normal, da maneira mais esquisita possível, que somente nos fins do século XX o Islão, em mais de mil anos de história, tenha sido empregado sistematicamente como fundamento de crimes e loucuras por um grupo de assassinos e psicóticos. Por fim, agora ele nos brinda com pinceladas torpes e interpretações caducas sobre Maimônides. Depois de fantasiar o sábio judeu como se este fosse uma espécie de delinqüente, conclui: "E depois os judeus se queixam de ser uma raça perseguida."

Este último texto, Sobre Maimônides, saiu no Mídia sem Máscara. Logo em seguida foi criticado pelo Olavo de Carvalho, que disse, dentre outras coisas, que "não se pode dizer que ele esteja em descompasso com a moda", que o site se "destina a finalidades mais relevantes e não deveria ser desperdiçado com futilidades odientas", que seus últimos artigos "não têm pé nem cabeça", etc. Olavo de Carvalho disse ainda que aqueles últimos artigos "contrastam de maneira patética com as coisas espetaculares que ele escreveu, em outras épocas, contra o indigenismo fake, na Folha de S. Paulo, ou contra o socialismo proxeneta, no seu livro memorável 'O Paraíso Sexual-Democrata.'" O problema se deu quando o Janer Cristaldo "decidiu dar um upgrade impossível na sua seleção de assuntos, passando dos temas terrestres aos celestes sem ter para isso nem mesmo asas de galinha."

Para quem não sabe, o filósofo é editor do site. Ora, surgir opiniões tão díspares assim num jornal, ainda que o Mídia sem Máscara não tenha sido bolado para servir de trampolim de críticas às religiões, é algo que não deixa de ser interessante, e mais ainda porque, sendo editor, o filósofo não censurou o artigo. Mas não ter sido censurado não significa que ele está para além do bem e do mal. Tanto assim foi que Olavo de Carvalho o criticou.

Devo dizer ao leitor que essa não foi a primeira vez que Cristaldo foi criticado por aquelas bandas. Há algum tempo alguém por lá polemizou com ele por causa de alguns de seus artigos a respeito da Inquisição. Por mais que o jornalista dissesse bobagens sobre o assunto, ele não foi censurado vez alguma.

Agora (no artigo Franceses e "franceses") ele resolveu dar uma resposta ligeira ao Olavo, estranhando o fato de este tê-lo criticado após ter defendido semana passada (em Não é caso para rir, artigo do Jornal do Brasil de 15/12/05) o direito de criticar a religião alheia, quando comentou sobre a censura de um livro do bispo Edir Macedo porque ele escrevera que as entidades de candomblé e umbanda eram demônios. Diga-se de passagem, aliás, que decisivamente só um jumento seria capaz de censurar um livro por isso, e que só em um lugar bastante anormal as coisas se passariam assim, como é o caso do nosso país. Mas este "estranhamento" do Janer é outra coisa sem pé nem cabeça, porque é mais do que óbvio que Olavo de Carvalho protestava só contra a censura. O que Janer fez foi ampliar falsamente o protesto do Olavo para que parecesse contraditório com o que o filósofo escreveu contra ele, dando a impressão de que, quando o assunto é religião, o Olavo só protesta quando convém defender o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. Mas no artigo fica claro que o ateu tem o direito de criticar todas as religiões, o que não significa que ele não pode ser duramente criticado.

O direito de falar mal contra algo implica que outros tenham o direito de protestar contra quem falou mal. De outro modo, para onde iria a liberdade de expressão? Se Janer Cristaldo criticou duramente Maimônides, porque o próprio Cristaldo estaria imune às críticas? Levando-se em conta, por outro lado, que ele criticou da forma mais atabalhoada possível o sábio judeu, com que direito ele poderia reclamar se alguém fizesse o mesmo com ele? Não quero dizer com isso nem que devemos falar mal do Janer simplesmente por falar, nem que o Olavo o criticou de modo atabalhoado. O que digo é que Cristaldo deveria pensar duas, três, mil vezes antes de escrever semelhantes coisas ao invés de dizer bobagens e logo em seguida, quando criticado, querer aplicar o que chamo de "golpe do ofendido": o sujeito fala asneiras contra ti e na hora que você revida no mesmo tom ele choraminga dizendo que você passou dos limites, que ele quer uma conversa civilizada, etc. É o cúmulo!

O "golpe do ofendido" que Janer usou parece muito com o jeito de ele argumentar sobre religião: não dá para saber onde termina a má-fé e começa a burrice propriamente dita. O único que sabe é Deus - começo a pensar até que ponto Cristaldo realmente sabe também, porque dada a insistência com que ele volta e meia escreve o que escreve sobre o assunto, parece que nem ele mais sabe.

2 comments:

cleber said...

"Ocidente, queiramos ou não, só tem razão de ser graças ao Cristianismo"...

O autor do artigo não esqueceu só um pouquinho das contribuições greco-romanas, não?

Cassiano Farias said...

Não me esqueci. O fato é que o mundo romano se distingue do mundo ocidental porque este é essencialmente cristão. Noutras palavras, o mundo ocidental é a cristandade ocidental.

A contribuição greco-romana, naturalmente, é um dos elementos da nossa civilização, mas não é o mais fundamental. Os romanos também conheciam a cultura grega.

Sendo a nossa perspectiva eminentemente cristã, tomamos o legado greco-romano de um modo radicalmente distinto, talvez até mesmo escandaloso para gregos e romanos. É nesse sentido que você deve entender aquela minha afirmação.