Thursday, May 15, 2008

Do quase fanatismo livresco

Hoje, eu, em pé na cozinha, segurando algo para beber, sem camisa, meditava sobre a destemperança de meu fogão. Ignorando completamente o ensinamento grego segundo o qual a virtude é medíocre -- eis uma prova clamorosa de minha má interpretação da sabedoria antiga --, ele insiste em oferecer apenas duas opções de acendimento: um quase nada ou fogo excessivo. Assim, todas as vezes que preciso assar algo no forno, vejo-me obrigado a optar entre o cru -- notai como um simples r torna tudo mais galante -- e o queimado. Sou obrigado a manter prontidão constante, até porque às vezes o fogo baixinho some e a boca só assopra gás. É preciso mudar de vida, ou melhor, de fogão.

Se eu fosse mudar o que tem de ser mudado, passaria a viver num pesadelo heraclitiano. Ademais, como um brasileiro exemplar, prefiro me lamuriar pela falta de vinténs. Na realidade, minha questão com dinheiro vai mais além, porque anos de pouquidão monetária me ensinaram a necessidade de poupar e de estabelecer prioridades inabaláveis. Dada a minha natureza, converto dinheiro normalmente em livros, e de preferência usados. Meu cérebro opera então do seguinte modo: se há um filme interessante em cartaz, em seguida penso no custo e na quantidade de bons livros usados que eu poderia comprar. Este procedimento fatalmente me faz dar adeus ao filme. Julgo até que esse modo de operar do meu cérebro permaneceria semelhante na hipótese de eu receber alguma fortuna. Todavia é bom deixar claro, antes de me acusarem de hipocrisia devido aos meus gastos com Internet, TV a cabo e sorvetes, que minha teimosia livresca nunca se transformou em obstinação fanática, exceto naquelas situações extremíssimas em que tudo é válido em nome da sobrevivência.

Conquanto tudo isso seja verdade, confesso ao estimado leitor que já me pus a cogitar se seria mais do meu agrado a companhia de alguma bela dama ou assistir a aulas de algum grande mestre. Entre a companhia da belíssima Ana Paula Arósio e uma aula de Aristóteles, o que o leitor escolheria? É uma pergunta algo sofística, pois envolve comparação entre gêneros mui diversos -- na verdade é apenas um esclarecimento àqueles que transbordam de maldade no coração. O fato insólito de eu ter me feito essa pergunta e ainda por cima ter claudicado na resposta é um indício de como funciona meu espírito. Preciso dizer, em todo o caso, que já ofereci uma resposta certa vez, mas será um prazer deixar a curiosidade do leitor insaciada.

Àqueles que compartilham desse meu espírito, um bom adeus, e àqueles que consideram tudo isso uma grande disparatada, também.

2 comments:

Carlos said...

Rapaz, o primeiro parágrafo desse texto é uma metáfora de proporções bíblicas. Seria preciso muita exegese para esgotar tanta parábola. E não estou satirizando não, achei bom mesmo. Pensei, por exemplo, que esse teu fogão pode ser um homem religioso com um tipo de distúrbio bipolar, ou um sujeito inconstante, mas falador. Sei lá, pensei um montão de coisas que você mesmo não deve ter sequer sonhado quando escreveu. hahaha

Um abração.

Cassiano said...

Um intérprete como você é um perigo para minha alma, porque eleva a minha vaidade a níveis condenatórios. E esse é só um dos perigos, pois, de outro modo, se for considerada a minha barba, acabarei me achando um profeta e, por extensão, mais um Inri Christi.

Abração!