Friday, May 18, 2007

Um pouco sobre o Brasil

Ortega y Gasset dizia que uma das principais características dos "mocinhos satisfeitos" (señoritos satisfechos) era sua falta de autenticidade. Os "mocinhos satisfeitos" têm a noção de que algumas coisas têm de ser o que são, mas eles fazem questão de berrar justamente o contrário. É tudo fingimento. Vejamos o que o filósofo espanhol diz sobre isso em A Rebelião das Massas:

Seria bom que estivéssemos forçados a aceitar como autêntico ser de uma pessoa o que ela pretendia mostrar-nos como tal. Se alguém se obstina a afirmar que dois mais dois é igual a cinco, e não há motivo para supô-lo demente, devemos afirmar que não o crê, por muito que grite e ainda se deixe matar para sustentá-lo.


(Só um adendo: esse ensinamento é valiosíssimo. Na esdrúxula polêmica entre Clodovil e uma deputada, podemos ver de que forma ela, que de autêntica só tem o fato de ser uma "senhorita satisfeita", fez todas as pirraças do mundo para debalde nos convencer que Clodovil a atacou terrivelmente. Claro que foi fingimento, além de petulância assombrosa. Foi exatamente esse tipo de fanfarronada que notabilizou os fascistas.)

Faz pouco tempo que nosso país entrou na bagunça dos tempos modernos, talvez em meados dos anos 50. E entrou desamparado, feito um filhote de gato perdido entre milhares de transeuntes velozes e desatentos. Esse é um dos nossos principais e mais graves problemas. Porque agora, como aliás ocorre em outros lugares, há a proliferação incrível de homens-massa em todas as partes da sociedade, mas, ao contrário do resto do mundo, aqui não há nenhum porto seguro onde possamos baixar velas e descansar. Se quisermos nos salvar - é isso que está em jogo -, teremos de levar a sério o velho ensinamento da Bíblia e suar muito para encarar esse problema. Estamos todos perdidos e é preciso que encontremos nosso rumo, pois não há brasileiro que possa responder satisfatoriamente o que é, afinal de contas, ser brasileiro. Essa alienação impressionante faz com que nossa nação exista apenas em forma de esboço. Nada mais propício para que todas as mazelas do mundo aqui encontrem acolhida segura e entusiasmada. Isso é urgente, porque do contrário não só nosso futuro estará comprometido como o pouco que ainda resta do passado será jogado no lixo.

Ainda é preciso enfatizar um ponto. Parece que a distância oceânica entre nosso país e a Europa acabou repercutindo no nosso afastamento de seu legado, o que redundou numa distância quase de civilizações. Aqui peço licença ao leitor porque é urgente um parêntese. Correndo o risco de ser arbitrário, preciso agora dizer apenas que me refiro em especial à Europa e não aos EUA porque acho que ainda devemos muita coisa àquele continente de onde saiu certa vez o almirante Cabral. Embora uma nação admirável, os EUA hoje são uma espécie de sonho da Alemanha antes da Grande Guerra. Além do mais, talvez seja preciso mais tempo para vermos se o poder de mando dos nossos belos irmãos do norte é comparável ou até superior ao da Inglaterra, que foi uma espécie de diretora de escola do mundo inteiro por tempo considerável. Mas eles têm feito, já há algum tempo, o meritório esforço de trazer para si o legado passado. A Alemanha, por exemplo, já o fez: o alemão foi se tornando uma língua culta à medida em que Homero, Platão e Aristóteles foram sendo entendidos segundo o ponto de vista alemão. Via-se claramente que era ali que se encontrava os ecos da velha Atenas. Em parte isso fez com que eles começassem a olhar seus vizinhos de uma forma mesquinha, mas isso é outra história. O que quero dizer é o seguinte: será que ao ler em inglês temos a mesma sensação de irmos ao Liceu ou à Academia como nossos vovozinhos tinham quando liam em alemão? Mas talvez não haja motivos para muita incredulidade, porque os EUA, sendo a encarnação da técnica e da liberdade política, essas duas forças sem as quais nossos países definhariam de forma catastrófica, precisam se manter, quase por necessidade absoluta, à altura do que são. Daí que essa questão de legado, que para nós às vezes pode parecer mais um jogo de espírito, para eles terá de ser uma questão imperiosa de vida ou morte. Deixemos que o tempo mostre como eles vão lidar com esse problema

Fechado o parêntese, voltemos. Eu dizia que a diferença entre nós e a Europa é quase de civilizações. Isso quer dizer que estamos cada vez mais afastados de nossas próprias raízes. Agora note bem o leitor: estou me referindo ao seu legado. Porque não importa simplemente o que distinto filósofo europeu hoje pense ou escreva sobre o que for. É preciso que ele seja claramente um membro atual desse passado europeu, sem decadentismos. Quando a nossa nação começou a crescer, a Europa já estava perdendo a si mesma. Numa palavra, começou a entrar em decadência. E nos dirigimos justamente para aquele país que mais experimentava anemia: a França. Crescemos sob as asas de uma senhora que não aguentava mais a si mesma. Do outro lado do Reno havia uma nação pujante e curiosa, que moldava o mundo moderno com espírito bastante curioso. Seus cientistas ganhavam prêmios Nobel, suas universidades eram consideradas as melhores do mundo e sua literatura começava a ser reputada como fundamental - sem contar a sua música, que bem antes já era motivo de respeito e veneração. Esta nação era a Alemanha. Descontemos as imperfeições graves que não a permitiram estar à altura dos tempos. O início do século XX foi uma das épocas mais paradoxais para aquele país, porque suas glórias no saber foram contrabalanceadas pelas catástrofes no terreno político. É uma versão curiosa daquele dito: sorte no amor, azar no jogo. O fato é que foi lá que homens de espírito sacudiram todas as áreas do conhecimento humano. Pois bem, nosso país, sempre atrasado e pouquíssimo curioso, perdeu a oportunidade de se ligar com aquele movimento importante. Nação prosaica que é, para o Brasil só duas coisas chamaram basicamente a atenção: a guerra e a política. Infelizmente não houve quem percebesse esse problema e chamasse a atenção. A única coisa que interessava era o modismo. O que chegava aqui já estava marcado pelo tempo. Mas na Europa em geral também o problema era esse. O termo mais comum era "movimento". Tudo se tornou uma questão de movimento, da física até a política e o manifesto artístico. Um dia o sujeito defendia a tese A, depois cria em B só para no futuro estar com X, sempre com incrível entusiasmo. Vale mencionar um detalhe: eram sempre movimentos anti alguma coisa, mas isso, como eu disse, para esse texto é um detalhe. Feito a cobra hipnotizada pelos sons enigmáticos do flautista, o brasileiro se deliciou com tudo o que aparecia. É que temos um ranço caipira. Porque tudo o que descobrimos parece a coisa mais nova e mais bela.

Quando o brasileiro consegue entrar em contato com o que vem lá do outro lado do mar, é comum que ele se encha de confiança e represente pela enésima vez o papel do jesuíta catequizando o índio. Um homem como José Bonifácio, que de mendaz, falso ou mesquinho não tinha nada, quando voltou ao Brasil após 36 anos fora, escreveu a D. João VI: "Estou sempre pronto para servir a Sua Majestade como homem de Letras, última consolação sólida que me resta entre Botocudos e Árabes do Mato" Alerto o leitor que o grifo não é meu, mas do Patriarca. Não há religião nessa empreitada. Sem a batina, porém com o orgulho do caipira que agora está na cidade grande e conta seus triunfos diários para os da sua terra, a única figura que esse brasileiro pode representar é a do entrão. Daí essa mistura tão estranha no brasileiro que entrou em contato com o que está do outro lado do mar: é ao mesmo tempo um jesuíta e um entrão, o que equivale dizer que não é nem uma coisa nem outra. Falta-lhe, portanto, autenticidade. Onde ela estaria? Quase ninguém sabe, e os que sabem parecem criaturas nascidas de geração espontânea, porque não foi pela riqueza da terra nacional que essas pessoas surgiram. Essa terra é estranha para esse brasileiro e ele não se sente à vontade senão no círculo reduzido de seus conhecidos. Não faz idéia de pátria porque isso é uma abstração forçada demais para a sua realidade. Esse brasileiro é um apátrida: não é daqui, afinal está cercado de "botocudos e árabes do mato" que sequer imaginam o que seja la finesse; não é lá do outro lado do mar, porque não passa de um forasteiro sem espírito de jogo querendo ingressar no clube de cavalheiros. Falta-lhe o pedigree: ele é sine nobilitatis, snob. Sem pátria e sem autenticidade, o brasileiro é a criatura mais perdida do mundo.

Embora a situação exija uma resposta filosófica, o brasileiro, por ser tão avesso ao espírito, prefere deixar tudo de lado e ver se as coisas se ajeitam ou, como as pessoas gostam de falar, "dar um jeitinho". Ver que a situação é seríssima envolve uma dimensão trágica. Essa dimensão é uma das exigências para a aquisição de cultura, e não é à toa que o brasileiro, quando a tem, é de um modo insuficiente, não profundo e geralmente só estético. Cada vez mais está fadado a ser das duas uma: ou o sertanejo ultra-realista ou o intectual polido mas sem muita profundidade. Como geralmente nosso país prefere isso à própria salvação, o verso de Rimbaud poderia substituir o famigerado "Ordem e Progresso" da bandeira: Par délicatesse j’ai perdu ma vie.

4 comments:

Cassiano Farias said...

Não poderia deixar de passar o alerta de costume: "Cuidado, texto escrito de forma sonolenta." É que prefiro registrar aqui a idéia porque de certa forma me obriga a trabalhá-la um pouquinho.

Totalmente fora de assunto: se alguma alma bondosa estiver lendo isso aqui, eu gostaria de lhe recomendar um filme agradável: Sissy. É uma trilogia, mas dá para ver fora de ordem. É bastante encantador. Estou para escrever sobre ele faz um tempo, então de certa forma esse recado é para mim mesmo, o que não deixa de ser patético. Mas enfim, vale a pena ver.

Carlos said...

Isso que você disse sobre tudo na Europa ter virado "movimento" me lembrou aquele curso da Sorbonne, do qual li o programa a um tempo atrás. O professor, um filósofo, dizia saber que no futuro ele iria defender idéias opostas, ou pelo menos diferentes, das que defendia hoje. Meu antigo chefe, um cultíssimo embaixador, achou isso genial. Eu, porém, perguntei se, ao admitir isso, o professor não estaria afirmando que muito provavelmente no futuro consideraria impossível mudar de idéia. Naquela ocasião fui taxado de sofista, justamente por tentar desmascarar um tremendo de um sofisma. Isso me faz pensar que, se a elite cultural do nosso país não sabe diferir entre um sofisma e o seu antídoto, muito menos saberia a diferença entre Husserl e Sartre.

Ótimo texto, parabéns.
Abraços
Carlos

Cassiano Farias said...

Dizer uma coisa dessas e com ares de superioridade é evidentemente uma tolice. Achar genial quem disse algo assim é fazer jus ao título do blog: "asinum asinus fricat".

Infelizmente estamos sendo levados pela correnteza de um modo terrível, porque esse modismo se converteu em perversidade, já que estamos copiando as idéias mais infelizes do mundo. Para citar as palavras espantosas de Tácito, o Brasil se transformou na cloaca do universo. Farei a citação direitinho em algum post.

Às vezes fico pensando se nós estaremos, aqui no país, à altura dos tempos. Isso é assustador. Como a gente pode perceber tão logo coloca os pés na rua, é assustadoramente simples perverter a sociedade. Tudo começa com um sofisma no gabinete e uma omissão ou ignorância subseqüente. Digo essas coisas todas tendo em mente a Alemanha antes de Hitler. Ela também agonizava, mais ou menos como o nosso país, e ninguém tinha muita idéia do que acontecia e nem suspeitava que fim daria tudo aquilo. Houve uma espécie de torpor coletivo. É muito triste e terrível um fenômeno desses.

Em todo o caso, obrigado mais uma vez pelo elogio. E já aviso que consertei mais meia dúzia de errinhos, para teu desespero.

Abração, rapaz!

Anonymous said...

Vejam que beleza de tecnologia que me dá chance de comunicar, não em tupi, nem em alemão, mas em português brasileiro, com a zelite intelectual brasileira, ou gringos-wannabe.

Pelo menos pra isso a "republiqueta" das bananas serve. Pra produzir intelectualóides incapazes de ver o lado bom das coisas (no caso, os expoentes da cultura BRASILEIRA, dos triunfos históricos BRASILEIROS), por serem pessoas amarguradas que até o fim das vidas lamentarão o azar de não terem nascido em meio aos charmosos alpes franceses. É por isso que a lunática zelite cultural brasileira é apátrida: é complexada. Ou tem alguma mutação na massa cinzenta que a impele a irresistivelmente disepnder todos esforços (inclusive, como autêntica corja de vagabundos que de fato é, tem à disposição todo tmepo ocioso do mundo) pra imitar de forma simiesca os admirados, elegantes e muito superiores povos europeus. Depois de muito treino, já pode olhar ao redor e sentir-se entre botocudos e árabes do mato. Podem também querer a mudança de pedigree, assim como Michael Jackson quis a mudança de cor.
Estimemos melhoras a tais doentes. Quem sabe um dia se tornem menos pedantes, menos despeitados, menos toscos e passem a produzir a própria cultura, pois criatividade e originalidade são dons de quaisquer seres humanos. Quem sabe deixem o pessimismo de lado, e admitam que qualquer país tem potencial HUMANO pra ser lugar adequado à vida civilizada. Além disso, o Brasil tem potencial econômico. Vamos nos espelhar nos sagrados países europeus, sim, e nos países asiáticos, da Oceania, do norte da América; vamos deglutir essas culturas como queriam os abaporus da literatura modernista brasileira, mas em nome da identidade nacional