Friday, December 21, 2007

O Gandhi brasileiro

Eu não poderia deixar de expressar a minha felicidade quando soube que enfim terminou a greve de fome do lamentavelmente conhecido Dom Luiz Cappio, já que seria uma lástima morrer de forma tão imbecil.

Sei bem que vivemos em tempos loucos. Prova disso foi a própria ação deste senhor, utilizando o martírio como forma de suicídio a fim de embargar uma obra puramente técnica do governo. Se ela é boa ou não, que os interessados investiguem. Contudo, é o fim da picada utilizar Cristo crucificado como justificativa a fim de manifestar descontentamento para com uma obra governamental e, pior ainda, como instrumento para impor a sua vontade. Eu até compreenderia, embora discordasse, se Dom Luiz Cappio se mortificasse em protesto contra os constantes assédios do governo para a liberalização do aborto, do casamento gay, da manipulação de embriões para pesquisas de células-tronco etc. Conforme uma vez disse Cícero a respeito de Marco Antônio, nada mais cômodo do que falarmos acerca de seus podres, já que a matéria para tanto é fecundíssima. Mas parece que na hierarquia de valores do tristemente célebre Dom Luiz Cappio, a engenharia, para não falarmos de sua vontade, é superior a tudo, inclusive ao próprio magistério da Igreja que ele teoricamente representa ou deveria representar.

Note bem o leitor como tudo isso é tragicômico. Sabemos bem que algumas crianças, quando se vêem constrangidas a fazer alguma coisa, simplesmente se atiram no chão e de lá não saem senão pela violência. Embora às vezes seja um espetáculo desagradável de ver, no final das contas é uma daquelas situações ridículas que nos fazem rir. Agora bem: que dizer de um adulto que, mutatis mutandis, não só faz a mesma coisa como inclusive põe a sua própria vida em risco? Porque foi exatamente a atitude de Dom Luiz Cappio. Já que sua vontade não seria acatada, preferiu lançar mão do recurso da chantagem. Ora, sabemos que um adulto tem noção do que é certo ou errado, ou ao menos deveria ter, o que implica num senso de hierarquia. Toda essa situação foi de um ridículo atroz, mas quase uma piada mortal. Eu diria que a greve de fome daquele cavalheiro foi tão-somente uma encenação barata destinada a comover os mais sensíveis e desatentos, ou quem sabe para o deleite dos mais cínicos, ainda que sua vida corresse perigo, e aliás mesmo se ele viesse a falecer. Foi uma situação que lembra a daquela outra figura tristemente célebre, deputada Cida Diogo, que veio às lágrimas se dizendo mortalmente ofendida por causa de certas declarações do deputado Clodovil. Por mais que essas duas pessoas enganem a si próprias, é tudo farsa, ação de mocinhos satisfeitos, conforme já dizia o mestre José Ortega y Gasset. Daí que, tentando ser Gandhi, não passou de uma paródia bisonha, parecido com aquele personagem de Chico Anísio, o Vampiro Brasileiro.

1 comment:

Carlos said...

Oi, rapaz!
Bom ver textos teus novamente!

Essa imagem da criança esperneando foi exatamente a mesma que se passou pela minha cabeça quando vi as notícias sobre esse dom Luiz Cappio.

E pior: ele ainda morreria em estado de pecado grave, pois um católico não pode atentar contra a própria vida. Aliás, até que se confesse esse senhor teria que ser proibido de ministrar qualquer sacramento, sob pena de sacrilégio.

Um grande abraço!