Saturday, September 23, 2006

O aborto ou: por que política em excesso é ruim?

Meu computador já está bom. Aliás, está bom faz um tempinho. Resolvi tirar férias do blog. Coincidentemente, acabei retornando junto com a Primavera. Que interessante acaso, não? De todo modo, se o leitor tiver se sentido ofendido por tamanho desleixo de minha parte, peço sinceras desculpas.

Na verdade, ninguém que se ocupa de escrever e ler, mesmo que de um modo tão amador, pode dizer que está de férias. Porque coisas desse tipo são feitas justamente quando o tempo está vago, isto é, nas horas de descanso e quando o homem está apenas consigo mesmo. Um homem que realmente lê tem necessidade de ler. Daí que se ficar mais de três dias sem pegar em algum livro já começa a sentir um progressivo desconforto. Chega mesmo a se considerar mais próximo da burrice. E a diferença do sábio para o tolo, como já dizia Ortega, é que o primeiro se vê a dois passos da burrice, concentrando todos os seus esforços para dela se afastar. O tolo é narcisista, compraz-se consigo mesmo, ignorando o que há além de sua visão míope. O tolo, portanto, passa uma calma e tranqüilidade quase invejáveis.

Eu queria dizer outra coisa (caso o diacho do mosquitinho que está me infernizando deixe). A inspiração vem do comentário do post abaixo, onde um gentil anônimo citou parte de um texto recente do Olavo de Carvalho sobre o aborto.

Por esses últimos dias tenho atazanado amigos por e-mail sobre o perigo de elegermos Lula e Jandira Feghali, candidata ao Senado no Rio de Janeiro pelo PC do B. Ambos venderam suas almas para implementar o aborto no nosso país. Talvez o leitor conheça melhor minha posição porque escrevi sobre o aborto faz um tempinho aqui mesmo no blog. Mas não é sobre isso que quero comentar agora. É que me espanta a violência da atual circunstância brasileira. Ela é de tal modo ensandecida que um sujeito como eu, que não sente o mínimo prazer em discutir sobre política, de repente se vê na obrigação de dizer alguma coisa a respeito. E não só uma vez, mas reiteradas vezes.

Há certas ocasiões onde é preciso agir politicamente. Mas a peculiaridade de nossa época é que somos obrigados a viver permanentemente sob a tutela política, queiramos ou não. Somos como guardas de uma fortaleza assediada constantemente. Isso é um indício de um mal pior. Porque a política não é uma necessidade. Ela não pertence àquele último estrato para o qual as nossas energias se dirigem em busca do sentido da vida. A política é algo prosaico demais para se prestar à satisfação das ansiedades mais profundas que temos. Quando ela se converte em necessidade, em componente integral de um impulso profundo, há necessariamente um falseamento da vida. Questões de grande gravidade continuam a existir, porém sem tratamento adequado. Tudo é compreendido de modo torpe, quer dizer, apenas tendo como finalidade o lucro político. Já falarei sobre a falsidade intrínseca disso. O cúmulo é a politização radical da vida e até da realidade.

O que é mais triste é a aridez mental que a política pode provocar nos jovens. Há idades para tudo. Quem é novo não deve empregar suas principais forças em algo desse tipo. Primeiro, como já disse, porque não é algo imprescindível. Segundo, porque a política é apenas o desembocar de mil e uma atividades precedentes. Antes de buscar a reforma de todas as coisas, temos de nos preocupar com o nosso próprio interior. Mas o que ocorre é que nós jovens somos estimulados a buscar a modificação de todas as coisas. Primeiro se cria uma atmosfera de indignação ante o atual estado das coisas. Depois vem a excitação da vontade de modificar tudo. Então a gente age de modo estabanado, podendo permanecer assim para o resto de nossas vidas. Fechamo-nos tão só para esse aspecto, ignorando solenemente os demais. Mais de um jovem de talento se perdeu nesse afã ensandecido.

Talvez para a política valesse o mesmo que para a filosofia segundo o velho adágio primum vivere, deinde philosophari, primeiro viver para depois filosofar. Trocar os pés pelas mãos nessa situação significa apenas se ater a um palavrório destituído de significado. É ser seduzido pelo encanto que as palavras por si evocam, sem se ater realmente para o conteúdo. Essa é a máquina por excelência da destruição da inteligência e do analfabetismo funcional. O maior e mais flagrante exemplo disso é o problema do aborto. Pessoas como nosso presidente e a candidata ao Senado correm para legislar acerca do direito de vida ou morte que a mãe pode ter sobre seus filhos. Suponhamos que não sabemos se realmente o feto é uma pessoa. Há um problema filosófico para ser resolvido, porque não é da alçada da física nem da biologia. Essas ciências nobres apenas resvalam sobre esse tipo de problema. A virtude delas está precisamente em cumprir bem seu papel, ainda que nada possam dizer sobre questões mais tipicamente humanas. E antes disso há o problema fundamental da escala de valores, que implora também um tratamento filosófico adequado e diferenciado. Antes de nos atirarmos nessa aventura, antes é necessário algum virtuosismo interior. Quero dizer com isso que é necessário todo um treinamento que fortaleça nosso interior a fim de que, uma vez devidamente organizado e preparado, comece a alçar vôos mais altos, da mesma forma que a tensão enorme do arco permite que a flecha voe mais distante. Nada disso provém de questões utilitárias, e a política é o utilitário por excelência. O problema do aborto é discutido na maior parte das vezes tão somente tendo como base questões utilitárias. Ora, questões dessa natureza sempre buscam adaptar a coisa discutida segundo os meios propostos. Isso nada mais é que falseamento. Porque o objeto não é visto em si mesmo, mas segundo alguma conveniência. O que lhe é exterior lhe força a se transformar em algo diverso de si mesmo e mais próximo do que é exterior. O problema todo da discussão do aborto é precisamente esse: parte de um falseamento radical. É tratado sob um ponto de vista eminentemente utilitário, ou, em outras palavras, eminentemente político. Daí que a discussão seja viciada intrinsecamente e que aparentemente não tenha mais fim.

O presidente e a candidata ao Senado fizeram desse falseamento radical a razão de suas vidas.

É por isso que a política acaba se convertendo em algo terrível para o jovem. Ele acaba se apressando em julgar as coisas sem antes ter tido o devido desenvolvimento, ou melhor, amadurecimento de certas faculdades que, após milhões de giros, desembocarão só acidentalmente na política. E a pior coisa que pode haver para a educação dos jovens é comprometer suas almas desde a raiz na falsidade. Todos os erros subseqüentes (e haverá muitos, em progressão geométrica) surgem desse erro primordial.

O próprio Platão tinha toda a cautela para a formação de seu político, chegando ao cúmulo de propor que só os filósofos deveriam reinar. O mesmo filósofo também dizia que a própria dialética não era assunto para jovens com menos de 25 anos: para eles, ginástica e ginástica. Platão parece ter compreendido bem o espírito juvenil. Que dizer de nossos políticos, que insistem em criar em seus partidos núcleos que absorvem o que há de melhor nos jovens, dando-lhes em troca um deserto espiritual?

Já me alonguei demais e já toquei em assuntos que saíram até demais do tópico do texto. Fica aqui, depois de voltas e mais voltas, meu gemido. Espero ansiosamente que chegue logo o dia em que possamos sossegar nosso facho da política.


***

Dei uma revisada muito au passant no texto. Achei que haveria lugar para um outro assunto, pois tem alguma relação com o que escrevi. Vejamos rapidamente umas três ou quatro palavrinhas sobre a democracia.

Há regimes que simplesmente descuidam da opinião do povo. Há outros que transformam a opinião do povo na mais tacanha tirania. Entre os dois extremos, isto é, entre o enorme desleixo e a enorme opressão, suponho que a democracia seja o meio-termo ideal. Pois ela tempera todos os homens para um saudável comprometimento político. As pessoas nem são deixadas ao Deus-dará, nem são completamente absorvidas pelos afazeres políticos. Elas não precisam ser politizadas até a medula num regime deste tipo, e isto é muito bom. A política tem o seu devido reconhecimento, o que equivale a ter seus limites próprios claramente dispostos. Além disso, de modo geral, a democracia acaba exigindo uma maior responsabilidade das pessoas para os assuntos em comunidade.

Esses rápidos apontamentos que mencionei sobre a democracia pressupõem muitíssimas coisas. Não interessa para nós agora todos os seus pressupostos. Quero apenas chamar a atenção do leitor para este ponto importante: que a democracia não tem uma natureza por si mesma, não é um antes de mais nada, porque é produto de muitíssimas outras coisas. Sua existência é precária por natureza. Daí que não é lícito sermos antes de tudo democratas. Seria ridículo, tão ridículo quanto se fôssemos antes de tudo botafoguenses.

A mais imporante aplicação prática deste princípio, segundo o qual aquilo que é secundário e precário dependende daquilo que lhe é anterior e mais estável, pode ser mais ou menos resumida assim: de nada adiantará nos atermos a certas formalidades se elas não têm qualquer força que lhes dê vida interior. Voltando ao caso da democracia, eu diria que o Parlamento, o Ministério e o voto popular na verdade são como uma espécie de signos. Eles são manifestações visíveis de algo que não é palpável, de uma idéia. É essa idéia que lhes dá vida e sentido. Se por um acaso há uma dissociação entre essa idéia e seus signos correspondentes, estes começarão a não mais fazer sentido e por fim morrerão. Daí que a defesa da democracia não se dá apenas com a preocupação com o Parlamento, com o Ministério e com o voto popular. Há muitos exemplos de tiranias que mantiveram tudo isso. Só que o espírito por trás era completamente outro. Os imperadores não aboliram o Senado. O próprio Hitler manteve deputados e periódicas consultas populares. Tornaram-se meras sombras, alusões a algo que ninguém mais entendia direito. Este é o caminho melancólico de muitas coisas do homem. O que antes esbanjava vitalidade acaba esmorecendo e só permanece como fetiche. É precisamente este um dos maiores perigos da democracia, cujos efeitos já podem ser notados há bastante tempo. Ela vem se tornando um enorme fetiche, uma espécie de fórmula mágica que ninguém entende direito mas que produz um agradável encantamento.

Infelizmente o assunto terá de ser deixado de lado meio que abruptamente. Peço desculpas mais uma vez ao bondoso e paciente leitor. Estou com um sono terrível (são agora 5h17 e estou bem mal dormido). Além do mais, este assunto é bem complicado. Quem sabe se um dia o retomo mais decentemente? Até, leitor, tenha um bom dia.

1 comment:

Rodrigo R. Pedroso said...

Belo texto, Cassiano.