Mais uma vez, D. Lourenço criticou o Orkut. Quando ele escreveu a sua primeira crítica, senti-me realmente tentado a abandonar o Orkut. Já o tinha feito antes, provavelmente devido àquele motivo lembrado pelo sábio monge: "o vazio dos jovens é tamanho que eles cansam de si mesmos também". Não o abandonei pela segunda vez, mas praticamente as minhas atuações orkutianas se resumiram em combinar os jogos com meu time de pelada, já que é mais prático assim do que telefonar para cada um.
Pois bem, ainda que as minhas palavras tenham algo de hipócrita, posto que sou usuário, meu maior incômodo não é tanto com o Orkut, mas com essa nossa propensão extraordinariamente moderna de publicidade da vida. Ainda não pensei muito bem sobre o tema, mas creio que carregamos de fato um homem-massa escondido no coração. Embora na maior parte das vezes tenhamos opiniões sumamente tolas, sentimos uma estranha necessidade de compartilhá-las, supondo que haja alguma centelha de genialidade escondida nelas. No fundo está a necessidade de exibição de nós mesmos, como se puséssemos a nossa pessoa num estandarte e saíssemos desfilando com ela, por mais tolos que sejamos. Disso resulta, naturalmente, na publicidade de cada aspecto da nossa vida, por mais insignificante que ele seja, como se o mundo não pudesse dar mais uma volta em torno de si mesmo até que o maior número possível de pessoas saiba da nossa existência, supostamente espetacular a ponto de servir como matéria de publicidade. Cada um de nós acaba sendo um exibicionista em potencial, às vezes em grau heróico. Não é nada espantoso que tudo se torne de interesse público, desde as opiniões até os relacionamentos mais íntimos.
Enquanto somos propagandistas de nós mesmos, no campo político surge o Estado policial. Não sei até que ponto existe uma relação de causa e efeito entre ambos, porém a falta daquilo que toscamente chamarei de "consciência real de intimidade" facilita bastante a atuação de qualquer Estado policial. Se nós mesmos nos fichamos gratuita e alegremente, conforme o sucesso do Orkut não deixa mentir, por que o mesmo não poderia ser feito em nome do Estado? O culto a nossa personalidade, esse exibicionismo de si mesmo, pode desembocar, em termos políticos, na mais completa submissão ao poder do Estado. Talvez seja uma conclusão um tanto precipitada, embora mereça alguma atenção.
Sunday, June 15, 2008
Thursday, May 29, 2008
Breve reflexão sobre uma coisa qualquer
Ontem eu pude experimentar o quão próxima e surpreendente pode ser a maldade, pois assim que mencionei o meu desejo de assistir a "A Noviça Rebelde" para minha mãe, ela, essa que me fez vir ao mundo, soltou aquele som característico de quando colocam em dúvida o gênero alheio, para usar uma expressão a um só tempo pedante, estranha e da moda. A última vez que tomei conhecimento de algo ligeiramente semelhante foi quando fofocaram para mim que a mãe do meu tio dissera em certa ocasião que eu era demasiadamente educado, destilando no ambiente a sua pérfida intenção. Agora bem: nem só de desconfianças convivo. Há vários anos, enquanto alguns amigos e eu trocávamos insinuações peraltas acerca da sexualidade de cada um de nós, uma amiga partiu sincera e seriamente em defesa da minha honra masculina, cousa que me deixou mui orgulhoso. Todavia, refletindo com a sabedoria de quase uma década de intervalo, suponho que houve uma inversão total de valores durante o ocorrido, já que foi uma mulher que defendera a minha honra. Se esses tempos não fossem tão originais, algo dessa monta jamais teria passado despercebido.
Ainda que pareçamos uns mata-mouros, solteirice e razoável trato cordial são hoje em dia considerados um pé na veadagem. Segundo o observador moderno, quem quer que seja assim estará prestes a assumir a sua condição e por conseguinte tombará de quatro rapidamente por força das circunstâncias. Isso explica em parte a constante necessidade de mentir dos rapazes acerca de suas relações amorosas, algo aliás que não sei se é tão freqüente entre as moças.
Parece-me fato inequívoco que em não poucas ocasiões as mulheres assumem um comportamento viril. Peço licença ao leitor para contar um episódio. Certa vez eu vi um casal em frente a um bar. A mulher, devido às suas roupas, aparentava ter acabado de sair de uma academia, enquanto seu companheiro parecia ter saído de um escritório. Os dois estavam parados diante do bar decidindo o que fariam. Mal tendo eles tomado a decisão, qual não foi a minha surpresa quando a mulher resolveu entrar no bar para buscar uma mesa, depois duas cadeiras, em seguida uma terceira a fim de acomodar sua mochila e a maleta do homem e, não satisfeita com tudo isso, ainda buscar a cerveja e os copos. Eu, que a tudo observava do meu apartamento, permanecia incrédulo. Mais espantoso ainda era o fato de a mulher também sempre tomar a iniciativa dos beijos, já que o homem estava um tanto apático. Todavia, a fim de evitar recriminações tão-somente àquele pobre cidadão, lanço mão de minha própria experiência. Em pelo menos duas ocasiões em que fui a lanchonetes com alguma amiga, sucedeu o mesmo fato: sem mais nem menos, elas tomavam a iniciativa de ir buscar o que comeríamos, mesmo sob os meus mais vigorosos protestos. Houve também a vez em que fui prontamente abrir uma porta para uma amiga grávida passar, ao que ela tomou a dianteira e ainda por cima disse que não precisava. Insisti, dizendo que seria um prazer me sentir útil, porém ela declinou. Horas antes, quando decidi lavar a louça de sua casa por pura cortesia, ela não só me proibiu, tomando a tarefa para si, ainda me dirigiu para o labor desonroso de evitar que seu pequeno cão mordesse umas caixinhas de sucrilhos que estavam suficientemente próximas de sua tentação.
Por puro capricho, menciono ao leitor que já disputei futebol com mulheres, mas sempre deixando de usar uma força excessiva. Que o leitor não me considere pretensioso, mas joguei como se fosse os EUA em guerra no Vietnã: deixando de usar o que tinha de melhor para ficar próximo do nível do adversário, e perdendo ocasionalmente.
Certamente muitos casos semelhantes poderiam ser trazidos à tona pelo leitor, mas não é a ele que dirijo minha perplexidade, mas à leitora. Talvez ela possa me explicar tão estranhos fatos.
Ainda que pareçamos uns mata-mouros, solteirice e razoável trato cordial são hoje em dia considerados um pé na veadagem. Segundo o observador moderno, quem quer que seja assim estará prestes a assumir a sua condição e por conseguinte tombará de quatro rapidamente por força das circunstâncias. Isso explica em parte a constante necessidade de mentir dos rapazes acerca de suas relações amorosas, algo aliás que não sei se é tão freqüente entre as moças.
Parece-me fato inequívoco que em não poucas ocasiões as mulheres assumem um comportamento viril. Peço licença ao leitor para contar um episódio. Certa vez eu vi um casal em frente a um bar. A mulher, devido às suas roupas, aparentava ter acabado de sair de uma academia, enquanto seu companheiro parecia ter saído de um escritório. Os dois estavam parados diante do bar decidindo o que fariam. Mal tendo eles tomado a decisão, qual não foi a minha surpresa quando a mulher resolveu entrar no bar para buscar uma mesa, depois duas cadeiras, em seguida uma terceira a fim de acomodar sua mochila e a maleta do homem e, não satisfeita com tudo isso, ainda buscar a cerveja e os copos. Eu, que a tudo observava do meu apartamento, permanecia incrédulo. Mais espantoso ainda era o fato de a mulher também sempre tomar a iniciativa dos beijos, já que o homem estava um tanto apático. Todavia, a fim de evitar recriminações tão-somente àquele pobre cidadão, lanço mão de minha própria experiência. Em pelo menos duas ocasiões em que fui a lanchonetes com alguma amiga, sucedeu o mesmo fato: sem mais nem menos, elas tomavam a iniciativa de ir buscar o que comeríamos, mesmo sob os meus mais vigorosos protestos. Houve também a vez em que fui prontamente abrir uma porta para uma amiga grávida passar, ao que ela tomou a dianteira e ainda por cima disse que não precisava. Insisti, dizendo que seria um prazer me sentir útil, porém ela declinou. Horas antes, quando decidi lavar a louça de sua casa por pura cortesia, ela não só me proibiu, tomando a tarefa para si, ainda me dirigiu para o labor desonroso de evitar que seu pequeno cão mordesse umas caixinhas de sucrilhos que estavam suficientemente próximas de sua tentação.
Por puro capricho, menciono ao leitor que já disputei futebol com mulheres, mas sempre deixando de usar uma força excessiva. Que o leitor não me considere pretensioso, mas joguei como se fosse os EUA em guerra no Vietnã: deixando de usar o que tinha de melhor para ficar próximo do nível do adversário, e perdendo ocasionalmente.
Certamente muitos casos semelhantes poderiam ser trazidos à tona pelo leitor, mas não é a ele que dirijo minha perplexidade, mas à leitora. Talvez ela possa me explicar tão estranhos fatos.
Monday, May 19, 2008
Uma notícia injustamente esquecida por mim por puro desleixo
Já tive oportunidade de reclamar do pedido de perdão feito pelo cardeal Renato Martino na época do julgamento de Saddam Hussein. Pois bem, por mais que eu discorde desse e de muitos outros comentários políticos seus, tenho de confessar que cometi um deslize por puro desleixo. No ano passado, deixei de citar as suas corajosas palavras contra a decisão da Anistia Internacional de apoiar o extermínio sistemático de seres humanos que ainda não nasceram, coisa vulgarmente conhecida como aborto, bem como sua atitude diante do término da cooperação do Vaticano com essa organização. Fiquei muito contente quando soube dessa notícia e desejei escrever a respeito, porém acabei deixando a idéia na gaveta e só fui lembrar dela com quase um ano de atraso. Mas como diz o ditado, a justiça tarda mas não falha. Fica então reparada a injustiça.
Thursday, May 15, 2008
Do quase fanatismo livresco
Hoje, eu, em pé na cozinha, segurando algo para beber, sem camisa, meditava sobre a destemperança de meu fogão. Ignorando completamente o ensinamento grego segundo o qual a virtude é medíocre -- eis uma prova clamorosa de minha má interpretação da sabedoria antiga --, ele insiste em oferecer apenas duas opções de acendimento: um quase nada ou fogo excessivo. Assim, todas as vezes que preciso assar algo no forno, vejo-me obrigado a optar entre o cru -- notai como um simples r torna tudo mais galante -- e o queimado. Sou obrigado a manter prontidão constante, até porque às vezes o fogo baixinho some e a boca só assopra gás. É preciso mudar de vida, ou melhor, de fogão.
Se eu fosse mudar o que tem de ser mudado, passaria a viver num pesadelo heraclitiano. Ademais, como um brasileiro exemplar, prefiro me lamuriar pela falta de vinténs. Na realidade, minha questão com dinheiro vai mais além, porque anos de pouquidão monetária me ensinaram a necessidade de poupar e de estabelecer prioridades inabaláveis. Dada a minha natureza, converto dinheiro normalmente em livros, e de preferência usados. Meu cérebro opera então do seguinte modo: se há um filme interessante em cartaz, em seguida penso no custo e na quantidade de bons livros usados que eu poderia comprar. Este procedimento fatalmente me faz dar adeus ao filme. Julgo até que esse modo de operar do meu cérebro permaneceria semelhante na hipótese de eu receber alguma fortuna. Todavia é bom deixar claro, antes de me acusarem de hipocrisia devido aos meus gastos com Internet, TV a cabo e sorvetes, que minha teimosia livresca nunca se transformou em obstinação fanática, exceto naquelas situações extremíssimas em que tudo é válido em nome da sobrevivência.
Conquanto tudo isso seja verdade, confesso ao estimado leitor que já me pus a cogitar se seria mais do meu agrado a companhia de alguma bela dama ou assistir a aulas de algum grande mestre. Entre a companhia da belíssima Ana Paula Arósio e uma aula de Aristóteles, o que o leitor escolheria? É uma pergunta algo sofística, pois envolve comparação entre gêneros mui diversos -- na verdade é apenas um esclarecimento àqueles que transbordam de maldade no coração. O fato insólito de eu ter me feito essa pergunta e ainda por cima ter claudicado na resposta é um indício de como funciona meu espírito. Preciso dizer, em todo o caso, que já ofereci uma resposta certa vez, mas será um prazer deixar a curiosidade do leitor insaciada.
Àqueles que compartilham desse meu espírito, um bom adeus, e àqueles que consideram tudo isso uma grande disparatada, também.
Se eu fosse mudar o que tem de ser mudado, passaria a viver num pesadelo heraclitiano. Ademais, como um brasileiro exemplar, prefiro me lamuriar pela falta de vinténs. Na realidade, minha questão com dinheiro vai mais além, porque anos de pouquidão monetária me ensinaram a necessidade de poupar e de estabelecer prioridades inabaláveis. Dada a minha natureza, converto dinheiro normalmente em livros, e de preferência usados. Meu cérebro opera então do seguinte modo: se há um filme interessante em cartaz, em seguida penso no custo e na quantidade de bons livros usados que eu poderia comprar. Este procedimento fatalmente me faz dar adeus ao filme. Julgo até que esse modo de operar do meu cérebro permaneceria semelhante na hipótese de eu receber alguma fortuna. Todavia é bom deixar claro, antes de me acusarem de hipocrisia devido aos meus gastos com Internet, TV a cabo e sorvetes, que minha teimosia livresca nunca se transformou em obstinação fanática, exceto naquelas situações extremíssimas em que tudo é válido em nome da sobrevivência.
Conquanto tudo isso seja verdade, confesso ao estimado leitor que já me pus a cogitar se seria mais do meu agrado a companhia de alguma bela dama ou assistir a aulas de algum grande mestre. Entre a companhia da belíssima Ana Paula Arósio e uma aula de Aristóteles, o que o leitor escolheria? É uma pergunta algo sofística, pois envolve comparação entre gêneros mui diversos -- na verdade é apenas um esclarecimento àqueles que transbordam de maldade no coração. O fato insólito de eu ter me feito essa pergunta e ainda por cima ter claudicado na resposta é um indício de como funciona meu espírito. Preciso dizer, em todo o caso, que já ofereci uma resposta certa vez, mas será um prazer deixar a curiosidade do leitor insaciada.
Àqueles que compartilham desse meu espírito, um bom adeus, e àqueles que consideram tudo isso uma grande disparatada, também.
Wednesday, May 14, 2008
Dos pré-candidatos à prefeitura do Rio
Outro dia um amigo, com autêntico sadismo, listava-me os possíveis candidatos para a prefeitura do Rio de Janeiro, ao que eu respondia a cada nome como Xerxes quando informado do malogro de sua expedição: ai!
Levando-se em consideração qualquer que seja a pobreza de espírito que assolará a capital, este senhor que atualmente nos governa já não me parece mais tão péssimo, afinal de contas não é defensor feroz das drogas, não é apologista contumaz do aborto e de regimes totalitários, nem é fiel receptador de ingênuas esmolas. É portanto provável que sigamos na nossa longa idade das trevas. Daí ser útil aprender que da mesma forma que é comum na natureza a carcaça se tornar uma bela iguaria de chacais e demais carniceiros, no mundo dos homens uma cidade e um país em acentuada decadência são o prato cheio dos mais tenebrosos políticos.
Levando-se em consideração qualquer que seja a pobreza de espírito que assolará a capital, este senhor que atualmente nos governa já não me parece mais tão péssimo, afinal de contas não é defensor feroz das drogas, não é apologista contumaz do aborto e de regimes totalitários, nem é fiel receptador de ingênuas esmolas. É portanto provável que sigamos na nossa longa idade das trevas. Daí ser útil aprender que da mesma forma que é comum na natureza a carcaça se tornar uma bela iguaria de chacais e demais carniceiros, no mundo dos homens uma cidade e um país em acentuada decadência são o prato cheio dos mais tenebrosos políticos.
Friday, May 09, 2008
Artur da Távola (1936-2008)

Soube há pouco do falecimento, hoje, do senador Artur da Távola, a quem destinei simpatias desde quando, há oito ou nove anos, assisti pela primeira vez ao seu programa Quem tem medo da música clássica. Seu objetivo era oferecer música clássica a ouvinte calouros. Sua intenção de disseminar cultura era realmente sincera, cousa rara nesses estranhos tempos. Ele participava igualmente de outros programas, tal como um na Rádio MEC cujo nome me escapou.
Sua condição de saúda andava precária há algum tempo. Pude notar isso quando ele, visivelmente debilitado, insistiu em apresentar mais um de seus programas na TV Senado. Causou-me admiração, pois haveria maior demonstração de seu sincero desejo de difundir cultura? Desejei que ele tão logo se recuperasse, mas confesso que vê-lo daquele jeito não me deu muitas esperanças. Recebi portanto a notícia de seu falecimento sem muita surpresa.
Eis o seu derradeiro post:
EMBORA ENFERMO DESDE AGOSTO DE 2007, COM RISCO DE VIDA, NAS BREVES OPORTUNIDADE EM QUE NÃO ESTEVE INTERNADO, O TITULAR DESTE BLOG NELE NÃO MAIS PÔDE ESCREVER. ELE FICOU ABEERTO SUJEITO À INTERFERÊNCIA DE INTERNAUTAS QUE SE COMPRAZEM EM ENTRAR EM DOMÍNIOS ALHEIOS.
EMBORA NÃO MAIS INTERNADO EM HOSPITAL PROSSIGO EM TRATAMENETO DOMÉSTICO E ASIM SERÁ POR ALGUM TEMPO.NESSAS CIRCUNSTÂNCIAS PEÇO DESCULPAS A QUEM O PROCURE. ELE ESTÁ MOMENTÂNEAMENTE CONGELADO POR SEU TITULAR. ESPERO VOLTAR NA OLENITUDE DE MINHAS POSSIBILIDADES DENRO DE DOISOU TRÊS MESES.
E CONTO COM SUA COMPREENSÃO.
FRATERNALMENTE
ARTUR DA TAVOLA
Despeçamo-nos com a frase que mais soía dizer no programa: "Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão". Fique com Deus.
Thursday, May 08, 2008
Dos blogs carolíngios e do parcial fim dos bons blogs de antanho
Meu cumpadre Carlos, em seu furor iniciático, pôs-se a criar não um, mas dois novos blogs, perfazendo assim uma trilogia, se é que posso chamar assim, blogueira, ainda que o seu antigo endereço blogspoteiro -- ó tempos, quase deu um puteiro -- naufragasse quase completamente. Tudo isso que eu disse é, todavia, acochambração, afinal ele já criara outros blogs até chegar a essa trilogia, mas como o número três, por evocar a trindade, é mais belo de ser dito, fiquemos com ele com um entusiasmo fanático.
Ele me disse que era ótimo para criar blogs e ruim para mantê-los, ao que eu respondi, ele e sua noiva poderão dar fé, que meu cumpadre é um ótimo arroz de festa. Agora bem: sou o último cidadão desta gloriosíssima república a reclamar disso, afinal eu mesmo toco o meu blog de maneira assaz canhestra.
Ligo-os evidentemente a este blog, muito embora não me seja permitido cogitar se graças a isso haverá maior freqüência em seus novos endereços. Como minha mentalidade a respeito de números e estatísticas é sumamente medieval, desconheço quase completamente dados referentes a este meu próprio blog, embora a quantidade de comentários seja algum indício -- insuficiente, claro está.
Seja o leitor devidamente informado. Os blogs do Carlos inaugurados há mais ou menos tempo são o Ad Dexteram e Minhas Circunstâncias.
Já que a pauta hoje são blogs, houve o anúncio do naufrágio do famoso portal Wunderblogs. É possível ao urubu esfaimado saborear as carcaças ainda expostas, pois, muito embora tenha sido decretada falência, a navegação por lá permanece viável, ao menos por algum momento. Sinto-me mal porque tanto gostava do portal como isso ocorreu oficialmente após eu ter mencionado minha admiração pelo blog de Alexandre Soares Silva, coisa que o leitor poderá ler em algum post anterior. Alguns membros migraram para outro portal, o Apostos. Confesso que imaginei até escrever uma obra magna em oito volumes chamada "História e declínio dos Wunderblogs", ao que minha preguiça, fiel amante, e meu bom senso, às vezes vivo, me impediram.
Perdoe-me o leitor pela declamação velhaca que farei, mas houve um tempo, e aqui não critico os que hoje existem, em que havia uma grande quantidade de excelentes blogs. Talvez dizer que havia uma grande quantidade seja mui expansivo, mas isso não isola da verdade o fato de ter havido vários excelentes blogs, ao menos para meu alvitre. Podiam ser muito ou pouco conhecidos, algo que em nada influía na ótima qualidade apresentada. Um por um, todavia, eles foram dando um último suspiro, como ocorrido com Gradus ad Parnassum, Alexandrinas, Despoina Damale etc. etc. etc. Os veteranos, contudo, deram espaço a muitos novatos, de maneira que o exemplo, aparentemente, não fora em vão. Apenas lastimo que muitos dos bons blogs de antanho tenham naufragado quase completamente.
Ele me disse que era ótimo para criar blogs e ruim para mantê-los, ao que eu respondi, ele e sua noiva poderão dar fé, que meu cumpadre é um ótimo arroz de festa. Agora bem: sou o último cidadão desta gloriosíssima república a reclamar disso, afinal eu mesmo toco o meu blog de maneira assaz canhestra.
Ligo-os evidentemente a este blog, muito embora não me seja permitido cogitar se graças a isso haverá maior freqüência em seus novos endereços. Como minha mentalidade a respeito de números e estatísticas é sumamente medieval, desconheço quase completamente dados referentes a este meu próprio blog, embora a quantidade de comentários seja algum indício -- insuficiente, claro está.
Seja o leitor devidamente informado. Os blogs do Carlos inaugurados há mais ou menos tempo são o Ad Dexteram e Minhas Circunstâncias.
Já que a pauta hoje são blogs, houve o anúncio do naufrágio do famoso portal Wunderblogs. É possível ao urubu esfaimado saborear as carcaças ainda expostas, pois, muito embora tenha sido decretada falência, a navegação por lá permanece viável, ao menos por algum momento. Sinto-me mal porque tanto gostava do portal como isso ocorreu oficialmente após eu ter mencionado minha admiração pelo blog de Alexandre Soares Silva, coisa que o leitor poderá ler em algum post anterior. Alguns membros migraram para outro portal, o Apostos. Confesso que imaginei até escrever uma obra magna em oito volumes chamada "História e declínio dos Wunderblogs", ao que minha preguiça, fiel amante, e meu bom senso, às vezes vivo, me impediram.
Perdoe-me o leitor pela declamação velhaca que farei, mas houve um tempo, e aqui não critico os que hoje existem, em que havia uma grande quantidade de excelentes blogs. Talvez dizer que havia uma grande quantidade seja mui expansivo, mas isso não isola da verdade o fato de ter havido vários excelentes blogs, ao menos para meu alvitre. Podiam ser muito ou pouco conhecidos, algo que em nada influía na ótima qualidade apresentada. Um por um, todavia, eles foram dando um último suspiro, como ocorrido com Gradus ad Parnassum, Alexandrinas, Despoina Damale etc. etc. etc. Os veteranos, contudo, deram espaço a muitos novatos, de maneira que o exemplo, aparentemente, não fora em vão. Apenas lastimo que muitos dos bons blogs de antanho tenham naufragado quase completamente.
Breve lembrança de idas ao dentista
Animou-me a escrever algo a desdita da Cris ao arrancar seu siso. Tenho de admitir que quase caí na tentação de dizer que seu siso era caro, porém seria uma audácia da minha parte, pois nunca fomos apresentados e, agora que foi extraído, não o seremos mais, exceto, é possível, quando soar o momento dos mortos se levantarem. Que fique ao leitor piedoso a mensagem.
Mas eu falava, ou melhor, dizia da inspiração momentânea. Pois bem, eu também passei por uma experiência dessas, quando me divorciei dos sisos superiores há dois anos. O que me causou espécie não foi a extração em si, pois, exceto uma agulhada dolorida na hora de fazer o ponto, minha dentista conduziu tudo com enorme habilidade. O problema foi depois, já que meu modo de falar por cerca de meia hora ficou mui semelhante ao do veteraníssimo Sylvester Stallone. Cheguei a fazer uma troça do fato à dentista, porém ela não considerou muita graça nisso e riu tão-somente por piedade de mim, eu, que ainda por cima era obrigado a lutar contra uma baba que insistia em passear mundo afora.
O leitor não poderia viver sem saber também que minhas experiências ao dentista não foram somente aquelas. Eu já era veterano quando do ocorrido, pois eu havia sobrevivido sem traumas a um tratamento de canal. Diga-se de passagem que só consenti em ser submetido a esse tratamento porque conduzi uma situação precária até o derradeiro instante em que passei a sentir furiosíssimas dores de dente. Ignorei o que houve com muitos a minha volta e sofri, o que confirma os dizeres homéricos a respeito dos tolos só aprenderem com a experiência.
Em matéria de desgraça a humanidade se rejubila. Foi portanto natural que me dissessem apocalipses a respeito do tratamento de canal, e eu mesmo, confesso, senti algum prazer quando mencionei o que ocorre durante a extração do siso a uma prima que será a próxima vítima de algum dentista. Todavia não me abalei demais, não por heroísmo, mas por cálculo. Se o tratamento de canal era a única solução, então não adiantaria me lamuriar. Quando a sobrevivência corre perigo, tudo é válido. Foi pensando nessas coisas sumamente dramáticas que busquei um dentista.
Não me recordo o número de sessões de tortura em potencial a que fui submetido, mas sobrevivi intacto, principalmente por causa da invocação contínua a Santo Inácio de Loyola. A recordação de sua impassibilidade quando puseram seu osso no lugar após fratura na guerra me encheu de coragem. Além do mais, ficava imaginando por que espécie de sofrimento um Alexandre Magno e um Carlos Magno tiveram de suportar naqueles tempos tão brutais. Ora, se eles sofreram inumeráveis dores sem anestesia, por que eu deveria chorar havendo à minha disposição anestesia e tudo o mais? Sem jamais deixar de invocar o Santo Inácio de Loyola, fiquei um tanto mais tranqüilo na cadeira do dentista. Fui, portanto, homem, pelo menos enquanto a anestesia surtiu efeito. E para evitar qualquer desdoiro, ela surtiu efeito sempre que foi solicitada.
Como não sou ingrato demais, naquela época me surgiu uma enorme curiosidade de saber qualquer coisa da história da anestesia. Fiz uma longuíssima pesquisa de dez minutos na Internet e descobri de fato alguma coisa, mas infelizmente tudo isso agora está perdido em algum compartimento inacessível do meu cérebro. Impossibilitado de escrever qualquer linha desse assunto, invito o leitor a pesquisar também. Ainda assim, fica, pois, outra homenagem feita por mim àqueles que descobriram a anestesia. E digo outra homenagem porque na época fiz ao meu dentista algum brevíssimo elogio a ela e aos seus responsáveis.
Se Shostakovich se aventurou a criar uma sinfonia em honra à industrialização soviética, espero que algum outro talentoso músico crie uma música em homenagem a algo bem mais universalmente válido, como é o caso da anestesia. E ainda teria algo a dizer sobre o inusitado de ter alguém manipulando literalmente a nossa boca, mas me despeço já, adeus.
Mas eu falava, ou melhor, dizia da inspiração momentânea. Pois bem, eu também passei por uma experiência dessas, quando me divorciei dos sisos superiores há dois anos. O que me causou espécie não foi a extração em si, pois, exceto uma agulhada dolorida na hora de fazer o ponto, minha dentista conduziu tudo com enorme habilidade. O problema foi depois, já que meu modo de falar por cerca de meia hora ficou mui semelhante ao do veteraníssimo Sylvester Stallone. Cheguei a fazer uma troça do fato à dentista, porém ela não considerou muita graça nisso e riu tão-somente por piedade de mim, eu, que ainda por cima era obrigado a lutar contra uma baba que insistia em passear mundo afora.
O leitor não poderia viver sem saber também que minhas experiências ao dentista não foram somente aquelas. Eu já era veterano quando do ocorrido, pois eu havia sobrevivido sem traumas a um tratamento de canal. Diga-se de passagem que só consenti em ser submetido a esse tratamento porque conduzi uma situação precária até o derradeiro instante em que passei a sentir furiosíssimas dores de dente. Ignorei o que houve com muitos a minha volta e sofri, o que confirma os dizeres homéricos a respeito dos tolos só aprenderem com a experiência.
Em matéria de desgraça a humanidade se rejubila. Foi portanto natural que me dissessem apocalipses a respeito do tratamento de canal, e eu mesmo, confesso, senti algum prazer quando mencionei o que ocorre durante a extração do siso a uma prima que será a próxima vítima de algum dentista. Todavia não me abalei demais, não por heroísmo, mas por cálculo. Se o tratamento de canal era a única solução, então não adiantaria me lamuriar. Quando a sobrevivência corre perigo, tudo é válido. Foi pensando nessas coisas sumamente dramáticas que busquei um dentista.
Não me recordo o número de sessões de tortura em potencial a que fui submetido, mas sobrevivi intacto, principalmente por causa da invocação contínua a Santo Inácio de Loyola. A recordação de sua impassibilidade quando puseram seu osso no lugar após fratura na guerra me encheu de coragem. Além do mais, ficava imaginando por que espécie de sofrimento um Alexandre Magno e um Carlos Magno tiveram de suportar naqueles tempos tão brutais. Ora, se eles sofreram inumeráveis dores sem anestesia, por que eu deveria chorar havendo à minha disposição anestesia e tudo o mais? Sem jamais deixar de invocar o Santo Inácio de Loyola, fiquei um tanto mais tranqüilo na cadeira do dentista. Fui, portanto, homem, pelo menos enquanto a anestesia surtiu efeito. E para evitar qualquer desdoiro, ela surtiu efeito sempre que foi solicitada.
Como não sou ingrato demais, naquela época me surgiu uma enorme curiosidade de saber qualquer coisa da história da anestesia. Fiz uma longuíssima pesquisa de dez minutos na Internet e descobri de fato alguma coisa, mas infelizmente tudo isso agora está perdido em algum compartimento inacessível do meu cérebro. Impossibilitado de escrever qualquer linha desse assunto, invito o leitor a pesquisar também. Ainda assim, fica, pois, outra homenagem feita por mim àqueles que descobriram a anestesia. E digo outra homenagem porque na época fiz ao meu dentista algum brevíssimo elogio a ela e aos seus responsáveis.
Se Shostakovich se aventurou a criar uma sinfonia em honra à industrialização soviética, espero que algum outro talentoso músico crie uma música em homenagem a algo bem mais universalmente válido, como é o caso da anestesia. E ainda teria algo a dizer sobre o inusitado de ter alguém manipulando literalmente a nossa boca, mas me despeço já, adeus.
Friday, April 04, 2008
Uma feliz Páscoa
Mantendo-me fiel ao meu desleixo, gostaria de desejar uma feliz Páscoa atrasada a todos.
Algumas palavras sobre qualquer coisa
Ainda que seja sumamente ridículo, devo confessar ao leitor que hoje em dia me escapa frivolamente o motivo do nome deste meu querido blog. Sim, frivolamente, porque haveria outro motivo senão a pura gaiatice da lembrança? É precisamente isto, enfim, que me falta, a lembrança. Junto com ela, e me parece bastante evidente, está a perda do fio que liga este que vos escreve hoje à idéia um dia concebida há alguns anos atrás por mim mesmo. É tão-somente a minha teimosia que não me permite modificar o título desse blog, além de ele exercer sobre mim um misterioso fascínio.
Nunca é demais repetir ao leitor que o blog, ou melhor, minha estréia em um blog, não nasceu na primeira data escrita ali ao lado, mas em outra. A verdadeira estréia é anterior coisa de um ano apenas, em 2003, porém o velho blog, também batizado como este aqui, teve breve existência e foi tragado pelas intempéries cibernéticas. Mas o ensaio foi sucedido por outro ensaio, mais breve ainda, donde é necessário concluir que este blog atual é uma re-re-estréia, sendo que nenhum dos outros deixou rastros facilmente visíveis.
Levando-se em conta que praticamente tenho 26 anos, posto que farei aniversário agora em abril e coincidentemente no dia de mesmo número da idade que terei, 26, pode o leitor facilmente verificar que publico alguma coisa desde os 21 anos. Não lembro agora se meus amigos Carlos, Francisco e eu chegamos a desenvolver "O Teocrata" já em 2002, mas creio que sim. Isso quer dizer que venho garrancheando na Internet, sem jamais abrir mão de um amadorismo atroz, há seis anos, isto é, desde meus 20 anos. São, portanto, seis anos de experiências irregulares e amadorísticas.
Sinceramente, é uma diversão tremenda. Isso não significa dizer que é uma frivolidade total, ainda que haja qualquer coisa do gênero. Agora bem: que seria do homem se fosse apenas seriedades e tragédias? Eu mesmo respondo: seria nada, porque teria sido há muito aniquilado pelo peso do mundo hostil. É, portanto, necessário respirar. Todavia, julgo ser necessário deixar claro que, no meu caso em particular, a asfixia universitária que me oprimia me levou a buscar correndo alguma fresta de ar. Eu poderia dramatizar e dizer que foi uma questão de sanidade mental o que me levou a buscar um ambiente paralelo ao que eu freqüentava. Aliás, eu gostaria de mencionar que os belíssimos sites de Pedro Sette Câmara e de Alexandre Soares Silva, e me desculpem os outros que injustamente não foram citados, estejam ainda na ativa ou não, foram e são verdadeiras delícias para qualquer espírito angustiado -- culturalmente falando. Ao menos para este que vos fala, o ambiente universitário carregado demais e eu diria até azedo para nosso espírito. Agora bem: não fosse por tais exemplos, talvez nunca o Carlos teria tido a idéia de criarmos um blog no lugar do o site que já tínhamos.
O que me levou a rabiscar na Internet foi o desejo de expressar alguma coisa diferente do que era obrigado a engolir na faculdade, muito embora, verdade seja dita, a pretensão não acompanhasse e nem acompanhe a qualidade mirada. Na realidade, não demorou muito para eu perceber que a faculdade era um anel que se estreitava quanto mais eu procurava me movimentar de acordo com, por assim dizer, outros ritmos. A algumas pessoas, é possível desligar a si mesmo e levar as coisas de um modo robótico. Infelizmente, tentei por bastante tempo agir assim e não fui muito bem sucedido. Rabiscar na Internet não foi uma válvuda de escape a toda a prova, mas serviu realmente como respiradouro. Talvez o leitor considere o que direi um tanto poético ou algo obscuro, mas poucas são as coisas mais agradáveis do que o sentimento de liberdade retamente guiado pelo que é verdadeiramente bom.
Parece-me um pouco afetado esse modo de dizer, mas não sei como expressar de outra forma tudo o que disse. Muito embora possam parecer afetadas, nem por isso essas palavras carecem de verdade.
Não sei se algum dia justifiquei a existência desse ou de qualquer outro blog que criei. Bom, aproveito a ocasião para solenemente dizer que não há a menor justificativa senão essas que eu disse, seja lá se ficaram claras ou não. Não chegarei ao cúmulo de dizer que este meu blog é auto-justificável, logo necessário, como se fosse um axioma. Que o amável leitor tenha apenas em sua mente essas sofridas palavras, escritas pelo não menos sofrido cidadão que vos fala. E tenha um bom dia.
Nunca é demais repetir ao leitor que o blog, ou melhor, minha estréia em um blog, não nasceu na primeira data escrita ali ao lado, mas em outra. A verdadeira estréia é anterior coisa de um ano apenas, em 2003, porém o velho blog, também batizado como este aqui, teve breve existência e foi tragado pelas intempéries cibernéticas. Mas o ensaio foi sucedido por outro ensaio, mais breve ainda, donde é necessário concluir que este blog atual é uma re-re-estréia, sendo que nenhum dos outros deixou rastros facilmente visíveis.
Levando-se em conta que praticamente tenho 26 anos, posto que farei aniversário agora em abril e coincidentemente no dia de mesmo número da idade que terei, 26, pode o leitor facilmente verificar que publico alguma coisa desde os 21 anos. Não lembro agora se meus amigos Carlos, Francisco e eu chegamos a desenvolver "O Teocrata" já em 2002, mas creio que sim. Isso quer dizer que venho garrancheando na Internet, sem jamais abrir mão de um amadorismo atroz, há seis anos, isto é, desde meus 20 anos. São, portanto, seis anos de experiências irregulares e amadorísticas.
Sinceramente, é uma diversão tremenda. Isso não significa dizer que é uma frivolidade total, ainda que haja qualquer coisa do gênero. Agora bem: que seria do homem se fosse apenas seriedades e tragédias? Eu mesmo respondo: seria nada, porque teria sido há muito aniquilado pelo peso do mundo hostil. É, portanto, necessário respirar. Todavia, julgo ser necessário deixar claro que, no meu caso em particular, a asfixia universitária que me oprimia me levou a buscar correndo alguma fresta de ar. Eu poderia dramatizar e dizer que foi uma questão de sanidade mental o que me levou a buscar um ambiente paralelo ao que eu freqüentava. Aliás, eu gostaria de mencionar que os belíssimos sites de Pedro Sette Câmara e de Alexandre Soares Silva, e me desculpem os outros que injustamente não foram citados, estejam ainda na ativa ou não, foram e são verdadeiras delícias para qualquer espírito angustiado -- culturalmente falando. Ao menos para este que vos fala, o ambiente universitário carregado demais e eu diria até azedo para nosso espírito. Agora bem: não fosse por tais exemplos, talvez nunca o Carlos teria tido a idéia de criarmos um blog no lugar do o site que já tínhamos.
O que me levou a rabiscar na Internet foi o desejo de expressar alguma coisa diferente do que era obrigado a engolir na faculdade, muito embora, verdade seja dita, a pretensão não acompanhasse e nem acompanhe a qualidade mirada. Na realidade, não demorou muito para eu perceber que a faculdade era um anel que se estreitava quanto mais eu procurava me movimentar de acordo com, por assim dizer, outros ritmos. A algumas pessoas, é possível desligar a si mesmo e levar as coisas de um modo robótico. Infelizmente, tentei por bastante tempo agir assim e não fui muito bem sucedido. Rabiscar na Internet não foi uma válvuda de escape a toda a prova, mas serviu realmente como respiradouro. Talvez o leitor considere o que direi um tanto poético ou algo obscuro, mas poucas são as coisas mais agradáveis do que o sentimento de liberdade retamente guiado pelo que é verdadeiramente bom.
Parece-me um pouco afetado esse modo de dizer, mas não sei como expressar de outra forma tudo o que disse. Muito embora possam parecer afetadas, nem por isso essas palavras carecem de verdade.
Não sei se algum dia justifiquei a existência desse ou de qualquer outro blog que criei. Bom, aproveito a ocasião para solenemente dizer que não há a menor justificativa senão essas que eu disse, seja lá se ficaram claras ou não. Não chegarei ao cúmulo de dizer que este meu blog é auto-justificável, logo necessário, como se fosse um axioma. Que o amável leitor tenha apenas em sua mente essas sofridas palavras, escritas pelo não menos sofrido cidadão que vos fala. E tenha um bom dia.
Monday, March 31, 2008
Bach, Erbarme dich, mein Gott (da Paixão segundo São Mateus)
Meu caro leitor, eis um outro belo vídeo, ou melhor, outra bela música. Ela faz parte da Paixão segundo São Mateus, de Bach. Essa parte se chama "Erbarme dich, mein Gott". Em minha humilíssima opinião, é uma das músicas por assim dizer mais sentidas da história do mundo. É verdadeiramente inacreditável como Bach transpôs tão felizmente para música o sentimento de súplica do fiel arrependido para Deus. São obras assim que parecem nos transportar para um mundo superior. Que o leitor ouça e julgue por si próprio ouvindo essa belíssima interpretação da Julia Hamari. Serão os melhores sete minutos e meio já gastos.
Eis o texto em alemão, seguido por uma tradução em inglês:
Erbarme dich,
Mein Gott, um meiner Zähren willen!
Schaue hier,
Herz und Auge weint vor dir
Bitterlich
Look thou here,
Heart and eyes now weep for thee
Bitterly.
Eis o texto em alemão, seguido por uma tradução em inglês:
Erbarme dich,
Mein Gott, um meiner Zähren willen!
Schaue hier,
Herz und Auge weint vor dir
Bitterlich
Have mercy Lord,
My God, because of this my weeping!Look thou here,
Heart and eyes now weep for thee
Bitterly.
Saturday, March 22, 2008
Allegri, Miserere
Levando-se em consideração que estamos no fim da Semana Santa, e continuando a seqüência de músicas pelo Youtube, eu gostaria de indicar ao leitor uma das peças mais famosas da história da música: o Miserere do compositor italiano Gregorio Allegri. É a segunda vez que o indico ao estimado leitor, mas dessa vez teremos a oportunidade de ouvi-lo com uma qualidade maior e graças a uma generosíssima alma que resolveu colocá-lo no Youtube.
Sunday, March 16, 2008
Rossini, Tarantela napolitana
Caríssimo leitor, eu vos deixo com a versão de Rossini para a Tarantela Napolitana, cantada pelo legendário Enrico Caruso. É uma música que particularmente gosto bastante por causa do seu agradável sabor regional, seu ritmo irresistível, sua alegre energia e sua ingenuidade popular. Há tembém de dizer que não deixa de ser divertida uma certa pompa nessa orquestração, o que torna a atmosfera vigorosa da música ainda mais divertida. Como se tudo isso parecesse pouco, a voz de Enrico Caruso torna tudo ainda melhor. Portanto, ligue a tua caixa de som e aproveite os próximos três minutos. Esteja à vontade para dançar.
A letra, inclusive com tradução para inglês, francês e alemão, pode ser encontrada aqui. E para uma comparação, que o leitor ouça a voz de Mario Lanza cantando a mesmíssima música, porém numa versão ainda mais rápida e breve.
A letra, inclusive com tradução para inglês, francês e alemão, pode ser encontrada aqui. E para uma comparação, que o leitor ouça a voz de Mario Lanza cantando a mesmíssima música, porém numa versão ainda mais rápida e breve.
Sunday, March 09, 2008
Um último exemplo da superioridade nipônica em relação ao Brasil ou: Jiban é superior à Tropa de elite
Houve grande celeuma em torno do filme Tropa de elite. Sem entrar no mérito, nós, criaturas que pela primeira vez viram a luz entre os anos 1978-84, teríamos de ser os últimos a manifestar grande espanto ou incredulidade, ao menos aqueles que tiveram uma formação espiritual semelhante a minha. A explicação disso é demasiado simples: desde a infância, já conhecíamos alguém muitíssimo superior ao Capitão Nascimento, em todos os sentidos possíveis e imagináveis. Refiro-me ao policial de aço Jiban. Note bem o leitor que no todo e nos detalhes, o policial de aço Jiban antecipa e supera a qualquer coisa semelhante ao BOPE, inclusive na cláusula estabelecida pelo sábio legislador e citada pelo policial, segundo a qual é garantido ao agente da lei executar um criminoso se as circunstâncias assim o exigirem.
Essa é a prova mais cabal e definitiva da real superioridade nipônica. Enquanto a nação se embasbaca com as ações praticadas pelo BOPE, nós, criaturas desmamadas em séries japonesas, tranqüilamente contemplamos a tudo isso. Por fim, eu gostaria de iniciar uma campanha para encaminhar toda a série Jiban para os nossos sapientíssimos legisladores, pois assim eles terão a oportunidade de refletir bastante sobre o problema da segurança pública.
Essa é a prova mais cabal e definitiva da real superioridade nipônica. Enquanto a nação se embasbaca com as ações praticadas pelo BOPE, nós, criaturas desmamadas em séries japonesas, tranqüilamente contemplamos a tudo isso. Por fim, eu gostaria de iniciar uma campanha para encaminhar toda a série Jiban para os nossos sapientíssimos legisladores, pois assim eles terão a oportunidade de refletir bastante sobre o problema da segurança pública.
Dois exemplos da superioridade nipônica em relação a nós
Na humílima opinião deste que vos escreve, o vídeo que o leitor terá a oportunidade de assistir é moral e artisticamente mil vezes superior a praticamente toda a produção de cinema e televisão de nossa pátria, embora o caráter demasiado positivista desse vídeo não me agrade e destrua um pouco o sentido poético da filmagem. Ouso até dizer que a trilha sonora, apenas pelo trecho que nos é permitido ouvir, facilmente supera muito da MPB.
Caso não tenha ficado satisfeito, que o leitor veja um outro, cujo comentário superior, linha por linha, poderia ser repetido neste parágrafo.
Seria impossível para mim, ainda, deixar de lado um derradeiro vídeo, um verdadeiro Gradus ad Parnassum desse gênero tão japonês. Sua qualidade dramática já é caracteristicamente ressaltada na canção de abertura.
Caso não tenha ficado satisfeito, que o leitor veja um outro, cujo comentário superior, linha por linha, poderia ser repetido neste parágrafo.
Seria impossível para mim, ainda, deixar de lado um derradeiro vídeo, um verdadeiro Gradus ad Parnassum desse gênero tão japonês. Sua qualidade dramática já é caracteristicamente ressaltada na canção de abertura.
Saturday, March 01, 2008
Brevíssimo agradecimento à preguiça
Enquanto Sócrates tinha em si o famoso dáimon que não lhe deixava fazer algo equívoco, eu possuo um que me tem sido bastante útil, embora nada perfeito e moral e teologicamente duvidoso. Todavia, apesar dos pesares, e como este mundo carece de perfeição, eu não poderia deixar mais um ano sem o elogio a essa figura que me tem acompanhado há tanto tempo. Portanto, caríssimo leitor, enquanto o virtuoso Sócrates tinha a companhia de seu dáimon, eu tenho a da preguiça, espécie de dáimon dos pobres de espírito. Seria sumamente injusto eu criticá-la sem discernimento, apesar dos graves ditos de muitos santos. Daí que eu invoco à maneira dos antigos a musa, para que eu possa listar alguns empreendimentos duvidosos que deixei de praticar por causa desse querido e pecaminoso não-ser: filiar-me ao PSB; participar de Centros Acadêmicos ou de chapas; ler uma pilha monumental de textos que hoje em dia apenas jazem em algumas gavetas, enquanto outros provavelmente estão dando algum trabalho a um eventual catador de papel; participar de laboratórios de estudos acerca de peripécias em Angola e Moçambique; ir a passeatas, embora tenha sido bastante agradável o final de uma em que participei etc. E muito mais eu listaria, se para tanto trabalho não fosse tão longa a preguiça.
Friday, February 01, 2008
Uma galinha mexicana seguiu o conselho mui sábio de Herr Smith
Vejam vocês como a vida imita a arte. Acabei de saber que no México estão botando ovos verdes. Infelizmente não foi ainda uma pessoa, como Herr Smith desejava, pois o método tradicional ainda vigora: uma galinha chamada Rabanita foi a autora da proeza. Celebremos tal feito belíssimo e torçamos para que logo alguém faça o mesmo que Rabanita e bote ovos inusitados. E bom dia.
"Rabanita", uma galinha que em um primeiro momento parece ser uma ave normal, vem chamando atenção na província de Huecatitla, no México, ao colocar ovos em tom esverdeado.
Até agora, ninguém conseguiu dar uma explicação para o fenômeno, afirma Elvira Romero, dona de Rabanita, mostrando orgulhosa um cesto cheio de ovos verdes.
Esteban Rosas, o marido de Elvira, assegurou que "todo mundo da cidade veio ver, porque ninguém acreditava".
Elvira agora é conhecida como "a mulher da galinha dos ovos verdes" e até mesmo seu neto, de 11 anos, está fazendo sucesso na escola.
Rabanita é a única das 13 galinhas de Elvira que coloca ovos verdes e ela diz estar tomando conta da ave "com todo carinho".
"Não vou deixá-la até que Deus a leve", disse.
Terra
30/01/2008 00:50h
***
Galinha "Rabanita" atrai atenção ao pôr ovos verdes
http://www.tvcanal13.com.br/noticias/galinharabanita-atrai-atencao-ao-por-ovos-verdes-13156.asp"Rabanita", uma galinha que em um primeiro momento parece ser uma ave normal, vem chamando atenção na província de Huecatitla, no México, ao colocar ovos em tom esverdeado.
Até agora, ninguém conseguiu dar uma explicação para o fenômeno, afirma Elvira Romero, dona de Rabanita, mostrando orgulhosa um cesto cheio de ovos verdes.
Esteban Rosas, o marido de Elvira, assegurou que "todo mundo da cidade veio ver, porque ninguém acreditava".
Elvira agora é conhecida como "a mulher da galinha dos ovos verdes" e até mesmo seu neto, de 11 anos, está fazendo sucesso na escola.
Rabanita é a única das 13 galinhas de Elvira que coloca ovos verdes e ela diz estar tomando conta da ave "com todo carinho".
"Não vou deixá-la até que Deus a leve", disse.
Terra
30/01/2008 00:50h
Friday, January 18, 2008
E um feliz Natal
Não considero que desejar com atraso um Feliz Natal seja um despropósito. Gostaria de invocar um exemplo forçado: os Reis Magos só visitaram o Menino Jesus algum tempo depois de Seu nascimento. Ora, se eles se atrasaram um pouquinho, por que eu também não poderia? Portanto, desejo a todos um Feliz Natal.
Um feliz ano-novo atrasado
Gostaria de desejar muitas felicidades aos amigos que freqüentam, assim imagino, este mal escrito blog, pois, afinal de contas, novamente o enorme pedaço de pedra que habitamos e flutua no espaço graças a várias tensões físicas que equilibram os corpos no universo vai, de novo, dar outra volta ao redor de um astro que por sua vez também dá uma volta ao nosso redor, caso você, ó leitor, se coloque como referencial do movimento. Todos sabemos que este fenômeno é um acontecimento sideral interessantíssimo, afinal de contas são vários globos interagindo no universo, criando aquilo que certos homens com imagem poética mais dilatada costumam chamar de harmonia das esferas, algo que, em termos práticos, não servirá nem para você ter um emprego melhor, nem para cozinhar mais decentemente, nem para acordar sempre no horário, nem para contar uma agradável piada – desconsiderando, é claro, a querela a respeito do valor da astrologia. Não podemos esquecer também que é muito mais bonito desejarmos felicidades duas ou três vezes por ano, e isso por causa de uns poucos motivos: o que se faz só de vez em quando mas com certa pompa nos parece mais aprazível e menos vulgar; porque o Natal e o Ano-Bom sempre são motivos de júbilo, e também o aniversário, mas este é opcional porque esquecível – o dos outros, claro está; e, finalmente, porque consideramos louco perigoso quem deseja toda hora felicidades ou quer nos abraçar demais. Seria muito ridículo desejarmos felicidades todos os dias, exceto no caso de Deus, pois a criação é leve para ele, ou seja, boa e feliz.
Deixemos porém este prefácio um tanto formal a fim de conhecermos algo sobre um notável senhor, que chamarei de Herr Smith. Era um homem dado a originalidades, ou seja, bastante excêntrico. Vejamos o que ele disse quando ouviu os tradicionais votos de felicidade, numa roda de amigos, durante uma virada de ano:
-- Escuto, amigos, vários votos de felicidade e de saúde. Pois eu desejaria a todos vocês que pusessem ovos.
Naturalmente o mundo ficou chocado, e isto era exatamente a intenção de Herr Smith. Se o mundo fosse chocado, surgiria algo de novo e original. Tal é o poder do ser humano, que se transforma em chocadeira deste enorme globo. Era essa a sua opinião. Mas seria melhor acompanharmos o seu raciocínio:
-- Sabemos que não há nada de novo debaixo do sol. Ora, como haveria num front? O título da obra daquele senhor alemão é desnecessário. Abram as páginas do livro do Eclesiastes e vocês lerão basicamente tudo o que precisam. Novamente nosso mundo dará outra volta, como sempre, ao redor do sol. Portanto, amigos, eu desejaria um ano cheio de surpresas a todos vocês, contrariando aparentemente o ensinamento bíblico. Não me ocorreu melhor pensamento que desejar a todos vocês que pusessem ovos. Evidente que não qualquer ovo, mas os mais elegantes. Homens e mulheres, coloquem muitos ovos, de preferência coloridos!
São esses os pensamentos de Herr Smith. As opiniões a respeito do que ele disse eram em geral favoráveis, seja pelo inusitado da proposta, seja pelo estado ébrio dos convivas. E já que mal saímos da grande festança de Reveillon, desejo igualmente aos caros leitores que coloquem muitos ovos ao longo deste ano que promete tanto dessa vez –- e de preferência ovos coloridos. Ignoremos tristezas e angústias, porque o que importa, com exceção de Deus e de sua legião de fiéis, é que botemos ovos mui elegantes. E aqui me despeço, deixando para todos vocês um último pensamento do caro Herr Smith: “Se os homens pusessem ovos, jamais haveria o flagelo da fome, e se houvesse ovos de ouro, jamais haveria pobreza.”
Se por um acaso o leitor imaginou que nada mais haveria de ser dito, devo advertir que você esqueceu que uma das características das artes de nosso tempo -- incluindo a literatura -- é que jamais sabemos quando algo termina direito, e às vezes sequer entendemos quando e de onde começou, além de muitas vezes nos indagarmos do sentido daquilo que vemos, lemos ou ouvimos. Isso tudo foi para dizer que a parte que segue é uma espécie de epílogo, embora maior que a parte anterior. Vejamos então o resto sem mais desfazer as horas.
Uma senhora, que por razões de sigilo não divulgarei o nome, tendo ouvido de longe o que disse Herr Smith, foi para a sua casa absorta em reflexões. Seu marido estranhou, pois não era muito comum ver aquela senhora tão entrincheirada em divagações. Seu olhar perdia-se na curvatura do mundo, assemelhando-se mais a um boi parado ouvindo alguém berrando para que ele saia do lugar. Mas o marido, ruim observador de pessoas –- e, por conseguinte, com muito potencial para marido traído –-, achou que sua mulher estava apenas em processo de assimilação do novo ano. “O calendário pode ser algo misterioso para certos indivíduos”, foi o que achou. Em seguida coçou de uma maneira gostosinha o queixo e pensou: "Algumas coisas só as mulheres percebem." E assim rumaram para casa, quedos.
Quando o marido virou para o lado e dormiu na cama, a mulher se levantou e foi até o banheiro. Olhou-se no espelho e viu as marcas da vida. Ao que tudo indicava, a vida foi para ela uma espécie de engenheira de obras incompetente, que busca fazer reformas sem ter um bom plano, apenas conseguindo no final um resultado tosco e disfarçado superficialmente. Isso a teria deixado deprimida se as palavras que ouvira por acaso de Herr Smith não tivessem ecoado dentro de seu frágil cocoruto cabisbaixo. Ela contemplou uma oportunidade de realizar finalmente algo de especial. Animada, pois parecia ser uma linda idéia, trancou-se no banheiro e fico de cócoras, fazendo um certo esforço. Todavia, aquela situação insólita lhe fez pensar numa questão prática –- ao menos para o que ela entendia como prática naquele instante: ela não ouvira qual o modo mais apropriado de se botar ovos. Ora, sabemos que os seres humanos são dados a imitações, e o próprio Aristóteles já fez elucubrações das mais elevadas sobre o tema. Na falta de um modelo humano, a senhora se viu obrigada a imitar o modelo que parecia mais simples e conveniente: a mamãe-galinha. Mas de chofre ela foi constrangida pela verdade, porque não sabia exatamente como uma galinha botava ovos. Seu saber era por demais genérico. Dessa forma, bem entre seu desejo e a consumação desse desejo havia um muro prosaico que, por não se mostrar transponível, acabou se revelando o motor de sua frustração. Uma pequena inviabilidade técnico-prática estava vaporizando o seu sonho. Mas a senhora não deixaria mais uma vez que dificuldades dessem conselho ao desânimo, como tantas vezes houve em sua vida. Foi então que ela tomou uma decisão grave: depois de quase vinte mil anos... perdão, depois de quase vinte anos longe dos livros, ela voltaria a freqüentá-los a fim de se preparar para entrar em algum curso de apicultura! E foi o que ela contou ao marido no dia seguinte. Ele, sendo aquilo que se costuma chamar popularmente de “mosca-morta”, concordou, embora estranhasse. Que diabos ela faria num curso de apicultura?
A mulher passou sete anos estudando para entrar no curso – é evidente. Você não pensaria, insigne leitor, que rapidamente ela voltaria a se acostumar com os estudos, se é que um dia já esteve acostumada, não é mesmo? O conto se tornaria bizarramente inverossímil caso isso acontecesse.
Quando ela enfim entrou no curso de apicultura após tanto tempo, houve muitos festejos. Foi grande a surpresa do mundo. Herr Smith foi convidado para uma comemoração, fato este que o surpreendeu, já que nunca vira aquela senhora mais gorda senão naquela dia. Mas ela fez questão de cumprimentar-lhe entusiasticamente, dizendo-lhe que ele foi um dos motivos de ela entrar naquele curso. Ele nada entendeu e pediu explicações.
-- Herr Smith, não se lembra da vez em que, numa virada de ano, disseste que deveríamos todos botar ovos?
-- Perdão, madame, mas digo muitas coisas, ainda mais em estado ébrio.
-- Imaginei que fosses casado...
-- Hein? Não, não. Eu quis dizer que... Enfim, o que tem essa história de botar ovos?
A senhora percebeu que estava se abrindo demais a alguém que não conhecia direito. Além do mais, não é muito conveniente falar acerca de questões muito graves em eventos sociais. Ela adotou um tom mais genérico:
-- Gostaria apenas de dizer que o senhor inspirou meu ingresso no curso de apicultura.
-- A senhora há de compreender minha ignorância, porém não consigo compreender qual a ligação entre aquela conversa sobre botar e o curso de apicultura.
Com um pouco de dificuldade, a senhora controlou seu desejo de divulgar ao mundo a idéia tão filantrópica de botar ovos. Limitou-se novamente ao mais genérico:
-- Porque o estudioso de apicultura domina a arte da criação de aves e de multiplicá-las.
-- Apicultura? Entendo... Contudo, diga-me uma coisa, amável senhora: a definição que me deste sobre o trabalho do apicultor aprendeste onde por um acaso? Estou bastante espantado.
-- Lembro-me disso desde meus tempos de jovem ingênua. Havia um apicultor amigo de meu pai. Nunca vi o trabalho dele. Mas assim que soube que era apicultor, perguntei o que significava. Ele me disse que cuidava das mais doces, pequenas e tenras criaturas aladas, e que me mostraria seu pinto calçudo em privado assim que eu quisesse vê-lo. Jamais tornei a vê-lo, porque ele e meu pai brigaram. Nunca entendi o motivo. Qual deve ter sido a espécie de passarinhos que ele cuidava, Herr Smith?
-- Não sei, querida senhora, provavelmente alguma que ele tinha dificuldade de manter sob controle. Mas aquele homem parecia ser dado à poesia. Preciso confessar que tua conclusão acerca de ele ter sido criador de pássaros me deixou admirado. Me responda ainda outra coisa, por gentileza: quando procuraste o curso, acaso viste alguma imagem de animais? Umas abelhas, por acaso?
-- Oh, eu vi! Que curioso o senhor ter comentado isso. Vi muitas abelhas. Creio que sejam mascotes da instituição. Havia tantas imagens delas!
-- Amável senhora, percebo, ou melhor, é evidente que serás uma tremenda apicultura. Também estou espantado com a qualidade desse curso que a senhora ingressou. É tudo interessante demais.
Logo em seguida, Herr Smith se despediu, dizendo que urgentemente precisava voltar para casa, pois teria que saber quanto custava o boi gordo. Na realidade, assim que ouviu aquela definição tão heterodoxa da arte da apicultura, ele lembrou das razões que o haviam levado a não mais ir a eventos sociais. Despediu-se e foi embora rapidamente.
E o que aconteceu com a senhora?
Apenas no meio do curso estranhou o fato de jamais mencionarem aves. Fez um esforço mental supremo a fim de lembrar alguma coisa das suas lições de biologia na época do então presidente Washington -– não o George, mas o Luís, bem brasileiro. Como nada conseguia – exceto um escorrer de mucosas pelas vias aéreas – concluiu então que as abelhas faziam parte da classe das aves. Quando ela exprimiu essa opinião durante uma aula, foi motivo de incredulidade da multidão, com a exceção de um rapaz que há algum tempo achava necessário repensar a divisão biológica dos seres vivos, incluindo um componente aí que não fosse necessariamente físico-químico. O que o levou a ingressar num curso de apicultura, é difícil saber. Mas, sentindo-se inspirado pelo que entendeu como audácia científica da parte daquela senhora, encheu-se de coragem e seguiu adiante em suas especulações, o que no futuro se mostrou recompensador, pois, graças a elas, recebeu os mais variados e belos prêmios no campo da pesquisa científica. Atualmente sua hipótese da divisão dos seres vivos segundo uma gradação que considera a potência espiritual como elemento mais importante vai se tornando cada vez mais aceita.
Mas, finalmente, o que aconteceu com aquela senhora? Ela continuou por muito tempo a aplicar, ou melhor, tentando aplicar seus conhecimentos apicuários para que lograsse botar ovos. Para sua lástima, tudo parecia infrutífero, afinal as abelhas e aves não parecem formar um todo harmônico. Todavia, em certa ocasião, ela acordou com um ovo laranja com detalhes em amarelo ao seu lado. Mal tendo percebido isso, uma gotinha de lágrima se formou em seu delicado olho esquerdo e só desceu por ali, porque no primeiro a remela havia construído uma impávida fortificação. E a senhora permaneceria a contemplar aquele ovo laranja com detalhes em amarelo por muito tempo, se não fosse a insensatez de seu marido, que, num momento de puro hábito, pousou a sua busanfa, já alargada pela idade e pela má vontade da natureza, bem naquele ovo, onde talvez houvesse uma vida em potencial. Sua mulher gritou cheia de horror farsesco, mas ele, insensível, apenas supôs que já havia chegado a hora temida de usar fraldas geriátricas.
Deixemos porém este prefácio um tanto formal a fim de conhecermos algo sobre um notável senhor, que chamarei de Herr Smith. Era um homem dado a originalidades, ou seja, bastante excêntrico. Vejamos o que ele disse quando ouviu os tradicionais votos de felicidade, numa roda de amigos, durante uma virada de ano:
-- Escuto, amigos, vários votos de felicidade e de saúde. Pois eu desejaria a todos vocês que pusessem ovos.
Naturalmente o mundo ficou chocado, e isto era exatamente a intenção de Herr Smith. Se o mundo fosse chocado, surgiria algo de novo e original. Tal é o poder do ser humano, que se transforma em chocadeira deste enorme globo. Era essa a sua opinião. Mas seria melhor acompanharmos o seu raciocínio:
-- Sabemos que não há nada de novo debaixo do sol. Ora, como haveria num front? O título da obra daquele senhor alemão é desnecessário. Abram as páginas do livro do Eclesiastes e vocês lerão basicamente tudo o que precisam. Novamente nosso mundo dará outra volta, como sempre, ao redor do sol. Portanto, amigos, eu desejaria um ano cheio de surpresas a todos vocês, contrariando aparentemente o ensinamento bíblico. Não me ocorreu melhor pensamento que desejar a todos vocês que pusessem ovos. Evidente que não qualquer ovo, mas os mais elegantes. Homens e mulheres, coloquem muitos ovos, de preferência coloridos!
São esses os pensamentos de Herr Smith. As opiniões a respeito do que ele disse eram em geral favoráveis, seja pelo inusitado da proposta, seja pelo estado ébrio dos convivas. E já que mal saímos da grande festança de Reveillon, desejo igualmente aos caros leitores que coloquem muitos ovos ao longo deste ano que promete tanto dessa vez –- e de preferência ovos coloridos. Ignoremos tristezas e angústias, porque o que importa, com exceção de Deus e de sua legião de fiéis, é que botemos ovos mui elegantes. E aqui me despeço, deixando para todos vocês um último pensamento do caro Herr Smith: “Se os homens pusessem ovos, jamais haveria o flagelo da fome, e se houvesse ovos de ouro, jamais haveria pobreza.”
Se por um acaso o leitor imaginou que nada mais haveria de ser dito, devo advertir que você esqueceu que uma das características das artes de nosso tempo -- incluindo a literatura -- é que jamais sabemos quando algo termina direito, e às vezes sequer entendemos quando e de onde começou, além de muitas vezes nos indagarmos do sentido daquilo que vemos, lemos ou ouvimos. Isso tudo foi para dizer que a parte que segue é uma espécie de epílogo, embora maior que a parte anterior. Vejamos então o resto sem mais desfazer as horas.
Uma senhora, que por razões de sigilo não divulgarei o nome, tendo ouvido de longe o que disse Herr Smith, foi para a sua casa absorta em reflexões. Seu marido estranhou, pois não era muito comum ver aquela senhora tão entrincheirada em divagações. Seu olhar perdia-se na curvatura do mundo, assemelhando-se mais a um boi parado ouvindo alguém berrando para que ele saia do lugar. Mas o marido, ruim observador de pessoas –- e, por conseguinte, com muito potencial para marido traído –-, achou que sua mulher estava apenas em processo de assimilação do novo ano. “O calendário pode ser algo misterioso para certos indivíduos”, foi o que achou. Em seguida coçou de uma maneira gostosinha o queixo e pensou: "Algumas coisas só as mulheres percebem." E assim rumaram para casa, quedos.
Quando o marido virou para o lado e dormiu na cama, a mulher se levantou e foi até o banheiro. Olhou-se no espelho e viu as marcas da vida. Ao que tudo indicava, a vida foi para ela uma espécie de engenheira de obras incompetente, que busca fazer reformas sem ter um bom plano, apenas conseguindo no final um resultado tosco e disfarçado superficialmente. Isso a teria deixado deprimida se as palavras que ouvira por acaso de Herr Smith não tivessem ecoado dentro de seu frágil cocoruto cabisbaixo. Ela contemplou uma oportunidade de realizar finalmente algo de especial. Animada, pois parecia ser uma linda idéia, trancou-se no banheiro e fico de cócoras, fazendo um certo esforço. Todavia, aquela situação insólita lhe fez pensar numa questão prática –- ao menos para o que ela entendia como prática naquele instante: ela não ouvira qual o modo mais apropriado de se botar ovos. Ora, sabemos que os seres humanos são dados a imitações, e o próprio Aristóteles já fez elucubrações das mais elevadas sobre o tema. Na falta de um modelo humano, a senhora se viu obrigada a imitar o modelo que parecia mais simples e conveniente: a mamãe-galinha. Mas de chofre ela foi constrangida pela verdade, porque não sabia exatamente como uma galinha botava ovos. Seu saber era por demais genérico. Dessa forma, bem entre seu desejo e a consumação desse desejo havia um muro prosaico que, por não se mostrar transponível, acabou se revelando o motor de sua frustração. Uma pequena inviabilidade técnico-prática estava vaporizando o seu sonho. Mas a senhora não deixaria mais uma vez que dificuldades dessem conselho ao desânimo, como tantas vezes houve em sua vida. Foi então que ela tomou uma decisão grave: depois de quase vinte mil anos... perdão, depois de quase vinte anos longe dos livros, ela voltaria a freqüentá-los a fim de se preparar para entrar em algum curso de apicultura! E foi o que ela contou ao marido no dia seguinte. Ele, sendo aquilo que se costuma chamar popularmente de “mosca-morta”, concordou, embora estranhasse. Que diabos ela faria num curso de apicultura?
A mulher passou sete anos estudando para entrar no curso – é evidente. Você não pensaria, insigne leitor, que rapidamente ela voltaria a se acostumar com os estudos, se é que um dia já esteve acostumada, não é mesmo? O conto se tornaria bizarramente inverossímil caso isso acontecesse.
Quando ela enfim entrou no curso de apicultura após tanto tempo, houve muitos festejos. Foi grande a surpresa do mundo. Herr Smith foi convidado para uma comemoração, fato este que o surpreendeu, já que nunca vira aquela senhora mais gorda senão naquela dia. Mas ela fez questão de cumprimentar-lhe entusiasticamente, dizendo-lhe que ele foi um dos motivos de ela entrar naquele curso. Ele nada entendeu e pediu explicações.
-- Herr Smith, não se lembra da vez em que, numa virada de ano, disseste que deveríamos todos botar ovos?
-- Perdão, madame, mas digo muitas coisas, ainda mais em estado ébrio.
-- Imaginei que fosses casado...
-- Hein? Não, não. Eu quis dizer que... Enfim, o que tem essa história de botar ovos?
A senhora percebeu que estava se abrindo demais a alguém que não conhecia direito. Além do mais, não é muito conveniente falar acerca de questões muito graves em eventos sociais. Ela adotou um tom mais genérico:
-- Gostaria apenas de dizer que o senhor inspirou meu ingresso no curso de apicultura.
-- A senhora há de compreender minha ignorância, porém não consigo compreender qual a ligação entre aquela conversa sobre botar e o curso de apicultura.
Com um pouco de dificuldade, a senhora controlou seu desejo de divulgar ao mundo a idéia tão filantrópica de botar ovos. Limitou-se novamente ao mais genérico:
-- Porque o estudioso de apicultura domina a arte da criação de aves e de multiplicá-las.
-- Apicultura? Entendo... Contudo, diga-me uma coisa, amável senhora: a definição que me deste sobre o trabalho do apicultor aprendeste onde por um acaso? Estou bastante espantado.
-- Lembro-me disso desde meus tempos de jovem ingênua. Havia um apicultor amigo de meu pai. Nunca vi o trabalho dele. Mas assim que soube que era apicultor, perguntei o que significava. Ele me disse que cuidava das mais doces, pequenas e tenras criaturas aladas, e que me mostraria seu pinto calçudo em privado assim que eu quisesse vê-lo. Jamais tornei a vê-lo, porque ele e meu pai brigaram. Nunca entendi o motivo. Qual deve ter sido a espécie de passarinhos que ele cuidava, Herr Smith?
-- Não sei, querida senhora, provavelmente alguma que ele tinha dificuldade de manter sob controle. Mas aquele homem parecia ser dado à poesia. Preciso confessar que tua conclusão acerca de ele ter sido criador de pássaros me deixou admirado. Me responda ainda outra coisa, por gentileza: quando procuraste o curso, acaso viste alguma imagem de animais? Umas abelhas, por acaso?
-- Oh, eu vi! Que curioso o senhor ter comentado isso. Vi muitas abelhas. Creio que sejam mascotes da instituição. Havia tantas imagens delas!
-- Amável senhora, percebo, ou melhor, é evidente que serás uma tremenda apicultura. Também estou espantado com a qualidade desse curso que a senhora ingressou. É tudo interessante demais.
Logo em seguida, Herr Smith se despediu, dizendo que urgentemente precisava voltar para casa, pois teria que saber quanto custava o boi gordo. Na realidade, assim que ouviu aquela definição tão heterodoxa da arte da apicultura, ele lembrou das razões que o haviam levado a não mais ir a eventos sociais. Despediu-se e foi embora rapidamente.
E o que aconteceu com a senhora?
Apenas no meio do curso estranhou o fato de jamais mencionarem aves. Fez um esforço mental supremo a fim de lembrar alguma coisa das suas lições de biologia na época do então presidente Washington -– não o George, mas o Luís, bem brasileiro. Como nada conseguia – exceto um escorrer de mucosas pelas vias aéreas – concluiu então que as abelhas faziam parte da classe das aves. Quando ela exprimiu essa opinião durante uma aula, foi motivo de incredulidade da multidão, com a exceção de um rapaz que há algum tempo achava necessário repensar a divisão biológica dos seres vivos, incluindo um componente aí que não fosse necessariamente físico-químico. O que o levou a ingressar num curso de apicultura, é difícil saber. Mas, sentindo-se inspirado pelo que entendeu como audácia científica da parte daquela senhora, encheu-se de coragem e seguiu adiante em suas especulações, o que no futuro se mostrou recompensador, pois, graças a elas, recebeu os mais variados e belos prêmios no campo da pesquisa científica. Atualmente sua hipótese da divisão dos seres vivos segundo uma gradação que considera a potência espiritual como elemento mais importante vai se tornando cada vez mais aceita.
Mas, finalmente, o que aconteceu com aquela senhora? Ela continuou por muito tempo a aplicar, ou melhor, tentando aplicar seus conhecimentos apicuários para que lograsse botar ovos. Para sua lástima, tudo parecia infrutífero, afinal as abelhas e aves não parecem formar um todo harmônico. Todavia, em certa ocasião, ela acordou com um ovo laranja com detalhes em amarelo ao seu lado. Mal tendo percebido isso, uma gotinha de lágrima se formou em seu delicado olho esquerdo e só desceu por ali, porque no primeiro a remela havia construído uma impávida fortificação. E a senhora permaneceria a contemplar aquele ovo laranja com detalhes em amarelo por muito tempo, se não fosse a insensatez de seu marido, que, num momento de puro hábito, pousou a sua busanfa, já alargada pela idade e pela má vontade da natureza, bem naquele ovo, onde talvez houvesse uma vida em potencial. Sua mulher gritou cheia de horror farsesco, mas ele, insensível, apenas supôs que já havia chegado a hora temida de usar fraldas geriátricas.
Saturday, January 12, 2008
O funesto conto do homem que ousou vilipendiar o bebê
Resolveram colocar a criança para falar no telefone com Josué. Um raio de pensamento logrou atingir-lhe: “Pelos céus, não quero falar com esse projeto de bigorrilho, que coisa mais chata.” Mas a mamãe não se deu conta disso e colocou o bebê para falar:
- Fala, filhinho, fala com o tio!
Bebê:
- ...
Josué, tentando parecer simpático:
- Oi, bebê, fala com o titio, fala. – mas pensando: “Ai, saco...”
Bebê:
- ...
Mamãe:
- Olha, ele quer falar alguma coisa!
Josué, tentando parecer simpático:
- Sou eu, o titio, bebê! – mas pensando: “Que ordinária! Não tá vendo que essa coisa não vai falar porcaria nenhuma?”
Bebê:
- ...
Mamãe:
- Fala, bebê, fala!
Josué, esquecendo os rudimentos da vida urbana:
- Espero que você não puxe a retardada da sua mãe, moleque idiota. Seus pais devem ser primos de primeiro grau.
Bebê:
- Gloooshfp!
Mamãe:
- Olha, ele está quase falando meu nome! Ouviu?
Josué, meio assustado:
- Como é que é? – mas pensando: “Será que esse moleque me xingou? Me respondeu? E agora? Olha a merda que fiz... Daqui a pouco esse moleque cresce, vira bandido e me dá uns tiros, tudo por causa disso...”
Mamãe, agora no telefone:
- Ouviu ele falando? Agora ele está todo agitado.
- É, ouvi. – mas pensando: “Se for verdade que as primeiras impressões são as mais fundamentais, inculquei ódio a mim mesmo nesse moleque. Meu Deus, o que foi que fiz?.”
- Vou ter que desligar, ele não me deixa falar.
- Tudo bem, depois a gente conversa. – mas pensando: “Ele deve estar pleno de ódio no coração.”
- Tchau, beijos!
- Espere! Ele está precisando de alguma coisinha?
- Ah, não precisa, está tudo bem...
- Não, que isso, vou levar um brinquedo bem chique dez pra ele. – mas pensando: “Espero que dê para subornar esse moleque, não tô a fim de ser assassinado.”
- Ah, jura? Traz um patinho? Ele adora patinhos! – mas pensando: “Chique dez? O que ele quis dizer?”
- Sim, eu levo. Deixa o titio falar com esse bebê fofo só uma coisinha...
- Não dá, ele acabou de fazer cocô.
- Cocô? – mas pensando: “O que isso quer dizer? É algum símbolo, não me resta a menor dúvida. Preciso raciocinar como se eu fosse uma criança de seis meses, é questão de vida ou morte.”
- Olha, tenho que ir, beijos.
- Ah, tudo bem... Beijos... – mas pensando: “Aniquilei meu próprio futuro, chucrute!”
Josué passou o resto de seus dias apreensivo, olhando sempre de soslaio o filho de sua amiga, suando demais e sentindo seus músculos se contraírem descontrolados, efeito este que o obrigava a fazer movimentos inusitados. Houve o boato de que Josué estava praticando algum tipo de ioga, e muitas pessoas, quando o viam se contorcendo daquela maneira tão original, balançavam a cabeça com aprovação angélica, supondo que ele estava se tornando espiritualmente mais elevado. O fato de ele se tornar mais melancólico confirmava as suspeitas. A senhora De Souza (née Childerica), praticante de um rito cristiano-oriental-cosmológico-panteísta, costumava dizer que aquela melancolia era o resultado de uma profunda desilusão energética, o que era bom, porque resultado da confluência dos poderes magnéticos do seu avatar intergalático com a evolução sumamente pessoal de seu espírito, o que poderia ser resumido com o termo “Hiai”, supostamente de origem assíria. De qualquer forma, certas atitudes suas permaneciam inexplicáveis, como da vez em que Josué, enquanto segurava o bebê, ao mesmo tempo em que o pequeno babava-lhe desmesuradamente, bradou com horror: “Comigo é nove da garrucha trouxada!”, para espanto de todas as criaturas visíveis e invisíveis que se encontravam no recinto. Em outra ocasião, a criança, com idade um pouco mais avançada, jogou-lhe feijão na camisa, o que fez Josué dar um pulo meio canastrão e gritar: “A realidade é uma quimera!” Todos esses eventos tornavam a figura de Josué enigmática, o que lhe dava, ainda mais, uma aura de divino mistério e – para não poucas senhoras e senhoritas – de inacreditável sedução. Quanto ao garoto, perturbava-lhe muito os agrados que o “titio” tão insistentemente lhe oferecia, sem contar aqueles esgares sinistros. Nunca houve explicações. Tudo permaneceu no tenebroso reino do subtendido. Portanto, eis aqui a moral da história: pientíssimo leitor, se tiveres de xingar um neném de seis meses, xingue, porém arcarás com todas as funestas conseqüências enquanto ainda fores habitante deste mundo sublunar e quiçá para depois desta vida.
- Fala, filhinho, fala com o tio!
Bebê:
- ...
Josué, tentando parecer simpático:
- Oi, bebê, fala com o titio, fala. – mas pensando: “Ai, saco...”
Bebê:
- ...
Mamãe:
- Olha, ele quer falar alguma coisa!
Josué, tentando parecer simpático:
- Sou eu, o titio, bebê! – mas pensando: “Que ordinária! Não tá vendo que essa coisa não vai falar porcaria nenhuma?”
Bebê:
- ...
Mamãe:
- Fala, bebê, fala!
Josué, esquecendo os rudimentos da vida urbana:
- Espero que você não puxe a retardada da sua mãe, moleque idiota. Seus pais devem ser primos de primeiro grau.
Bebê:
- Gloooshfp!
Mamãe:
- Olha, ele está quase falando meu nome! Ouviu?
Josué, meio assustado:
- Como é que é? – mas pensando: “Será que esse moleque me xingou? Me respondeu? E agora? Olha a merda que fiz... Daqui a pouco esse moleque cresce, vira bandido e me dá uns tiros, tudo por causa disso...”
Mamãe, agora no telefone:
- Ouviu ele falando? Agora ele está todo agitado.
- É, ouvi. – mas pensando: “Se for verdade que as primeiras impressões são as mais fundamentais, inculquei ódio a mim mesmo nesse moleque. Meu Deus, o que foi que fiz?.”
- Vou ter que desligar, ele não me deixa falar.
- Tudo bem, depois a gente conversa. – mas pensando: “Ele deve estar pleno de ódio no coração.”
- Tchau, beijos!
- Espere! Ele está precisando de alguma coisinha?
- Ah, não precisa, está tudo bem...
- Não, que isso, vou levar um brinquedo bem chique dez pra ele. – mas pensando: “Espero que dê para subornar esse moleque, não tô a fim de ser assassinado.”
- Ah, jura? Traz um patinho? Ele adora patinhos! – mas pensando: “Chique dez? O que ele quis dizer?”
- Sim, eu levo. Deixa o titio falar com esse bebê fofo só uma coisinha...
- Não dá, ele acabou de fazer cocô.
- Cocô? – mas pensando: “O que isso quer dizer? É algum símbolo, não me resta a menor dúvida. Preciso raciocinar como se eu fosse uma criança de seis meses, é questão de vida ou morte.”
- Olha, tenho que ir, beijos.
- Ah, tudo bem... Beijos... – mas pensando: “Aniquilei meu próprio futuro, chucrute!”
Josué passou o resto de seus dias apreensivo, olhando sempre de soslaio o filho de sua amiga, suando demais e sentindo seus músculos se contraírem descontrolados, efeito este que o obrigava a fazer movimentos inusitados. Houve o boato de que Josué estava praticando algum tipo de ioga, e muitas pessoas, quando o viam se contorcendo daquela maneira tão original, balançavam a cabeça com aprovação angélica, supondo que ele estava se tornando espiritualmente mais elevado. O fato de ele se tornar mais melancólico confirmava as suspeitas. A senhora De Souza (née Childerica), praticante de um rito cristiano-oriental-cosmológico-panteísta, costumava dizer que aquela melancolia era o resultado de uma profunda desilusão energética, o que era bom, porque resultado da confluência dos poderes magnéticos do seu avatar intergalático com a evolução sumamente pessoal de seu espírito, o que poderia ser resumido com o termo “Hiai”, supostamente de origem assíria. De qualquer forma, certas atitudes suas permaneciam inexplicáveis, como da vez em que Josué, enquanto segurava o bebê, ao mesmo tempo em que o pequeno babava-lhe desmesuradamente, bradou com horror: “Comigo é nove da garrucha trouxada!”, para espanto de todas as criaturas visíveis e invisíveis que se encontravam no recinto. Em outra ocasião, a criança, com idade um pouco mais avançada, jogou-lhe feijão na camisa, o que fez Josué dar um pulo meio canastrão e gritar: “A realidade é uma quimera!” Todos esses eventos tornavam a figura de Josué enigmática, o que lhe dava, ainda mais, uma aura de divino mistério e – para não poucas senhoras e senhoritas – de inacreditável sedução. Quanto ao garoto, perturbava-lhe muito os agrados que o “titio” tão insistentemente lhe oferecia, sem contar aqueles esgares sinistros. Nunca houve explicações. Tudo permaneceu no tenebroso reino do subtendido. Portanto, eis aqui a moral da história: pientíssimo leitor, se tiveres de xingar um neném de seis meses, xingue, porém arcarás com todas as funestas conseqüências enquanto ainda fores habitante deste mundo sublunar e quiçá para depois desta vida.
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