Monday, March 27, 2006

O (estranho) filme Smoking Room

Quarta-feira passada passou um filme espanhol no Cinemax chamado Smoking Room. A história girava em torno de uma empresa recém-comprada por americanos e que havia proibido que se fumasse em suas dependências. Um dos funcionários, fumante, resolve fazer um abaixo-assinado contra aquela norma, mas acaba esbarrando na má vontade enorme de seus colegas de empresa. Eis o fio da meada.

"Fio da meada". Na verdade, a história é um pouco mais complicada, e aqui já começam os problemas do filme, que aliás ganhou prêmios na Espanha. Os diretores queriam ir mais além. Por exemplo, em certa parte tratam do problema do racismo, porque um dos funcionários confessa a um colega que não gostou de terem posto um preto num alto cargo. Em outra passagem, alguém reclama da imposição de hábitos americanos na empresa. Adiante, um funcionário desabafa dizendo que trabalha como um louco, está por isso com o casamento ameaçado e que pensa em se matar. Outro cara desenvolve uma tese qualquer sobre o sentido da existência, pelo menos no sentido de como certas ações aparentemente insignificantes podem modificar nossas vidas. E, acredite, há um montão de outras coisas tratadas. O problema é que o filme tem 88 minutos. Ele é, portanto, uma série de digressões que mal tem relação com o tal fio da meada. Na verdade, embora o filme se chame Smoking Room, o fio de meada serve de pretexto para fazer com que a história se desenvolva. Se você portanto for vê-lo pensando que haverá discussões em torno do problema da proibição de fumar nas empresas, esqueça: parece que não foi essa a intenção dos diretores.

O filme demonstra bem duas coisas: que há sempre algum interesse alheio por trás das ações das pessoas e que para coisas sem tanta importância as gentes se organizam prontamente. É que, ao longo do filme, enquanto o infeliz caça assinaturas, outros estão organizando uma pelada de fim de semana. O abaixo-assinado não acontece, mas a pelada sim, e aliás muito bem, obrigado. Quanto ao interesse, parece que sempre tem alguém de rabo-preso. Até mesmo o infeliz do herói já teve problemas anteriores com a empresa. Mas o problema do rabo-preso ficou especialmente engraçado naquele filme, porque se por um acaso o que levou o sujeito a bolar o abaixo-assinado na verdade foi algo diverso do alegado, tampouco a história do próprio filme poderia escapar dessa observação, já que o problema da probição de fumar é trabalhado também de forma alheia à questão em si. Será que fizeram isso de propósito?

Quero prestar contas ao simpático leitor que teve a boa vontade de me acompanhar até agora e que quer saber simplesmente se gostei ou não do filme. Respondo dizendo que não. Aquelas digressões todas só serviram para deixar o filme chato, e até mesmo um tanto pretensioso. Dizer mais do que deveria é um pecado que todos nós, sujeitos que se expressam de algum jeito para um público qualquer, estão arriscados a cometer, e com o dobro dos prejuízos em relação a alguém que o faça privadamente. É aquela história: se há muitos que cantam debaixo do chuveiro, quantos mais cantariam do mesmo jeito num palco? Talvez se o filme se fixasse, tão humildemente quanto o preguinho na madeira, no tema proposto, ele não seria tão esquisito.

Por sinal, há alguma coisa mais estranha em "Smoking Room". Os personagens parecem todos meio lelés da cuca. É como se os doidos vestissem momentaneamente a roupa de funcionário de empresa para que pudessem sobreviver. Eles não saíam por aí gritando como condenados ou dizendo que nasceram de uma abóbora que miava, porém tinham um jeitão estranho. Tentaram fazer com que os modos e os diálogos parecessem normais, coisa corriqueira, mas eles eram tudo, menos normais e corriqueiros. Os diálogos, supostamente naturais, são sem pé nem cabeça. Várias vezes há conversa apenas entre duas pessoas. Uma então dispara um sem-número de idéias, meio desencontradas umas das outras, mas que no final servem para formar só uma impressão, enquanto a outra apenas a acompanha, às vezes dizendo um inócuo "Não pode ser!" ou alguma outra expressão aparentada. Também o cenário do filme, que se passa quase todo dentro de um edifício, a câmara que focaliza de um jeito estranho cada ator, tudo contribui para fazer com que haja um clima esquisitão. Será que os diretores têm uma idéia tão inusitada do que é trabalhar numa empresa e de como são os empregados?

É por essas razões que o filme é uma mistura esquisita de drama com humor. Não que seja um drama e humor involuntários. Só não ficou muito bem feito. Na verdade, não sei como algo assim pode ficar bem feito, mas de qualquer modo não foi o caso de Smoking Room.

Sunday, March 26, 2006

Comentário curto e atrasado sobre o Oscar

O Oscar. Não vi muitos porque nunca gostei muito. Depois desse último que assisti, e parece que sabiam que eu estava vendo só para implicarem comigo (digressão: há uma certa tendência inata nas pessoas de achar que as coisas ocorrem para e por causa delas. Não faço a menor idéia se isso faz ou não pelo menos algum sentido, mas é divertido dizer coisas como "Aquela lontra só arremessou estrume em Damião porque eu estava com ele." Também é engraçado imaginar que há uma conspiração mundial contra ti, especialmente se você não tem um inimigo sequer, o que talvez seja mesmo indício de que estão de tramóia contra a tua obesa, magra ou normal pessoa. Mas voltemos ao texto, obrigado pela atenção, etc.), mas como eu estava dizendo, depois desse último prêmio do Oscar, fiquei não só com desvontade como até com medo de voltar a assisti-lo.

Que há de mais apavorante que piadas horríveis contadas por três horas? Respondo, pode deixar: o politicamente correto. Só que a perversão do mundo parece não ter limites, porque o Oscar foi uma mistura devidamente dosada de uma coisa e outra, com pitadas de mau gosto e coisas do mesmo sangue de barata. Foi obra de um cientista macabro.

Pelo menos uma daquelas opiniões, que a premiação foi politicamente correta, não foi de minha exclusiva lavra. Foi o presidente Juscelino Kubitschek que a proferiu, embora estivesse durante o evento vestido de José Wilker. Na verdade, o presidente vestido de ator, embora todo presidente seja um ator, e atores se comportem como presidentes, até foi mais enfático, dizendo que o Oscar foi politicamente corretíssimo. Ele disse aquilo em tom elogioso. Fiquei embasbacado, porque foi a primeira vez que ouvi alguém dizer aquela expressão em tom sério e satisfeito. Permita-me outra digressão, leitor, bela leitora. Quinta-feira última assisti, para variar, a Gilmore Girls. Portanto, o que direi é meio que para iniciados. Luke e Lorelai tinham acabado de sair de um jantar com os pais da Lorelai. Ambos estavam meio confusos após um montaréu de coisas ditas pela Emily e pelo Richard. Luke pôs a mão no peito e perguntou a Lorelai algo como "Que sensação estranha é essa que estou sentido, uma mistura de raiva com fraqueza paralisante?" Lorelai diz então que ele acabara de ser gilmorizado. Gilmorização é o mais belo conceito que explica o que sinto quando penso em universidades e nessa chateação do politicamente correto. Gostei.

Mas foi isso o Oscar, emporcalhando a tv com o politicamente corretíssimo. Quem não assistiu não perdeu nada.

Thursday, March 23, 2006

Militância e ressentimento

Não há nada mais irritante que um ateu militante. Melhor dizendo, na verdade até há: o gay militante. Porém, talvez acima de um e outro esteja o abortista militante, maior pretendente da coroa das coisas que mais são irritantes. Pessoalmente, consigo respeitar gays e ateus. Abortistas não; merecem tanto desprezo quanto os defensores de extermínio de etnias. Mas isso é outra conversa.

Não sei o que se passa na cadeia de valores de militantes dos tipos que mencionei, mas uma coisa é certa: eles passaram e continuam passando demais da conta do limite do tolerável. Ouso dizer mesmo que são umas ameaças públicas, gente maluca que enxerga a realidade de um modo torto e que por isso pretende nos arrastar para seu mundo doente. Esta expressão, "doente", é de fato uma descrição real.

Todos aqueles tipos de militantes são repugnantes porque eles próprios só têm razão de ser devido ao ódio que destilam contra seus inimigos. Sim, ódio, porque eles buscam a todo preço destruir seus opositores mediante toda a sorte de expedientes malucos, justificativas nonsenses, chantagens emocionais e o diabo a quatro. Não há possibilidade de argumentarmos racional e friamente com alguém desse tipo - no máximo, só por desencargo de consciência ou, se tivermos um quê de professor, com aquele otimismo inerente à educação que não morre jamais e que permite que depositemos confiança no mais inepto dos educandos. O problema, de qualquer jeito, é mais sério. Isso requer uma justificativa.

Militantes gays, ateus ou abortistas seguem bem aquela fórmula de Marx, segundo a qual devemos transformar tudo pois já passou o tempo de buscarmos uma interpretação das coisas. Essa atitude é uma impostura do ponto de vista do conhecimento. Na verdade, é o apelo à inimizade entre nós e o mundo. Quando buscamos compreender as coisas, nos sentimos como que arrebatados por elas e, por que não, até elas. Tudo parece fascinante a quem quer conhecer. Mesmo o mais asqueroso animal ou a mais abstrata idéia, o mais insignificante pó ou a mais complicada composição química, tudo é transfigurado durante o caminho do conhecimento de modo que o conhecedor age como se estivesse enamorado pela coisa que é investigada. Sempre se descobre algo especial, único, inusitado, e há até mesmo algo de misterioso e de inexplicável que nos fascina naquilo que contemplamos. A coisa está aí, embora eu não a conheça perfeitamente bem; percebo seus detalhes e me apaixono por ela tal como ela é, sem tirar nem por nada, ainda que esteja cercada de mistérios insondáveis - talvez por isso mesmo ela acabe se tornando especial. Aquele que é curioso (no sentido bom do termo), o amigo da verdade, é um entusiasta. Eis a palavra mais adequada, se atentarmos para seu significado mais primitivo: um arrebatado por algo divino. Tudo tem algo de divino porque foi tocado por Deus.

O conselho de Marx para que transformemos tudo sem que interpretemos mais nada é um aviltamento contra a ordem natural das coisas. Na raiz disso está a inimizade ante o mundo: contra a sua ordem, contra a sua excelência, contra a sua essência. Nada disso interessa. Na verdade, essas coisas acabam tendo uma relação problemática com os seguidores do conselho de Marx porque elas impõem uma resistência natural que frustra a vontade daqueles senhores. É impossível contorná-la completamente, mas buscam de alguma maneira adaptá-la aos seus caprichos, como se tivessem nascido para serem senhores do universo. Para tanto, qualquer meio que esteja à disposição é válido desde que, claro, contribua com a causa. Um empreendimento tão grandioso assim assume naturalmente uma gravidade imponente, e seus próceres acabam se sentindo como se fossem pessoas muito importantes, levando o progresso ao mundo, quando na verdade não passam de sujeitos muito abusados, para dizer o mínimo.

Quanto mais se afundam em seus sonhos delirantes, mais a realidade torna-se-lhes hostil, e é aqui que surge a prova final. Se ainda houver em suas almas algum resquício de amor ao mundo, pode ser que ocorra uma gradual reviravolta em suas vidas. No entanto, se eles estiverem completamente viciados, eles sentirão ódio do mundo, aliado a uma impotência essencial que lhes impede de fazer tudo o que querem. Então surge o mais vil veneno da alma, corruptor supremo dos homens a ponto de lhes fazer enxergar só o mal onde houver o mais puro bem: o ressentimento. É nele que surge o motor de toda uma série de abominações contra a ordem do mundo, porque o ressentimento carrega uma raiva mal contida que se transforma em sentimendo de vingança com requintes de perversidade. Nada mais distante do amor.

É o ressentimento que move o militante gay, ateu, etc. Como ele é fundamentalmente impotente, sua ação será uma mistura de temeridade com pusilanimidade, porque se de um lado sempre deixará transparecer seu caráter frágil (por exemplo, o militante tal diz que pertence a um grupo de perseguidos pela sociedade), por outro ele utilizará todos os meios que estiverem à sua disposição, sob a desculpa de que quer apenas proteger a si mesmo e a seu grupo, para ferir de morte, de modo ousado, seu rival, nem que para isso carrega para o fundo do poço toda a nação e quiçá o mundo.

Pretendo no futuro comentar melhor sobre o problema grave do ressentimento como motor de todas essas loucuras.

Saturday, March 04, 2006

Como escrever bem?

Um bom amigo meu, certo dia, se queixava comigo porque achava que escrevia mal até não mais poder. Enquanto ele fazia suas confissões, eu sorria um pouco, mais ou menos como quem diz em tom de galhofa: "Bem vindo ao clube, amigão!"

Infelizmente eu não estava em condições de lhe dar algum conselho para que escrevesse melhor, pois sou a penúltima pessoa deste mundo que tem condições de dar conselhos: não a última, porque já vi horror pior que o meu. Mas se não estou no último lugar da fila, então alguma coisa eu sei, ou supostamente penso saber.

Vamos então ser poéticos, leitor, e fantasiemos juntos.

Uma coisa que me parece ser tão clara quanto Jesus ter sido filho de Maria é que só se aprende a escrever primeiramente lendo. Só que há leituras e leituras. Será difícil saber escrever lendo jornais, ou pelo menos os jornais de hoje em dia, que são escritos do jeito mais troncho possível. Às vezes é tal o descuido com o texto que podemos mudar de posição os parágrafos e até todas as frases sem que haja a menor diferença. As idéias não formam um todo amarradinho, sem contar quando são vagas, imprecisas. Pelo contrário, mais parece que foram expelidas com toda a má vontade deste mundo, cuspidas no papel a intervalos irregulares. Não será pelos jornais que aprenderemos a escrever, embora haja as sempre honradas exceções. Pensemos então nos livros. Mas quais? Há livros que só servem de alimento às traças, e com razão. A promiscuidade de publicações deveria ser um pecado equivalente à luxúria. É uma montanha de entulho que sem dúvida nenhuma tende ao infinito. A situação só não está irremediavelmente perdida porque da mesma forma que a existência de um só justo redime toda a cidade corrompida, também um bom livro justifica de certa maneira a má nomeada dos seus demais irmãos de papel.

Mas essa retomada de confiança nos livros não respondeu a pergunta: quais? No caso em questão, leitor, só podem ser os clássicos. Teremos então de ler as principais obras de nossa língua, antes de mais nada, a fim de saber como se deve escrever. E aqui peço licença ao Senhor Fio da Meada para convidar a Senhorita Digressão. Acho útil lembrar ao leitor de onde vem a expressão "clássico". Sabemos que o português é derivado do latim, e naturalmente há milhares de palavras provenientes da língua de Cícero. A nossa palavra em questão está nesse vasto grupo: provém do termo classici. Segundo Áulio Gélio, ele se referia, em sentido estrito, à primeira das classes instituídas pelo rei Sérvio Túlio. Com o passar do tempo, o sentido da palavra também passou a desiginar aquilo que fosse mais exemplar e elevado. Até hoje dizemos que um "sujeito desclassificado" é aquele sem modos, enquanto o que tem classe é mais digno. Naturalmente, o termo foi sendo utilizado também para designar as obras que eram mais estimadas. Assim, da mesma forma que há várias categorias de cidadãos, sendo que uma delas é a mais elevada (e por isso mesmo a menor, se bem que a mais poderosa), há várias categorias de livros, dentre as quais o seleto grupo dos clássicos. E onde um romano aprendia os clássicos? Na classis, que em português dará a nossa classe. Era através deles que o jovem romano, auxiliado pelo grammaticus, dominava com maior solidez o latim. Ortografia, gramática e, é claro, um mergulho em sua cultura, tudo isso o moço romano aprendia através dos clássicos. Aqui o Senhor Fio da Meada gentilmente pede a mão da Senhorita Digressão, porque o ensino dos jovens latinos muito tem a ver com o que estamos discutindo, leitor, que é o saber escrever. Os clássicos serviam como exemplos para o aprendizado. E, coisa curiosa, o ensino da gramática, segundo os antigos, vinha exatamente acompanhado do ensino literário. Esse verdadeiro legado romano foi largamente utilizado durante boa parte da longa Idade Média.

Do que foi dito, poderíamos fazer a seguinte pergunta: quais autores estariam para a nossa língua assim como Cícero e outros estavam para o latim e Homero e os demais ilustres helenos para o grego? Tendo em vista que as obras clássicas têm a característica de estarem já consolidadas - elas se tornam uma autoridade por si mesmas e pela força da tradição -, citemos só uns poucos nomes como exemplo: Camões, Pe. Antônio Vieira, Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e Machado de Assis. É lógico que há muitos outros, e não apenas no campo da literatura propriamente dita: é o caso de Joaquim Nabuco, só para dar um exemplo. Cada um desses autores (e muitos outros) são muito úteis como exemplo do bom modo de escrever, e é muito útil imitá-los como estudo. Com a prática, as construções mais intrincadas e o vocabulário mais nebuloso tornar-se-ão familiares. Nossa compreensão do idioma aumentará aos poucos, e então saberemos nos expressar muito melhor que antes, sem contar que ao mesmo tempo nossa própria cultura literária crescerá.

Leitor, aqui termina a nossa fantasia, mas antes quero dizer mais três palavras.

Vou aos poucos colocando em prática tudo isso que te disse, embora eu esteja seguro da minha defasagem, sobretudo se compararmos com que idade um moço romano já dominava perfeitamente sua língua. O domínio do próprio idioma é uma condição básica para o desenvolvimento cultural, portanto é mais que urgente estarmos largamente familiarizados com ele, ou seja, é vital dominá-lo bem, ainda que às vezes ele nos seja violentamente hostil. É preciso aprender a domesticá-lo.

A discussão acerca do que é um clássico certamente não se encerra com o que eu disse, pois minha intenção era só dizer uma coisinha em linhas bem gerais. Além disso, é importante avaliar até que ponto os clássicos de uma língua estrangeira podem ser úteis para a nossa.

Por último, ainda que eu incorra no pecado de subestimar o leitor amigo, aviso que é claro que a discussão sobre como escrever bem não se esgota aqui. Há outras coisas importantes também. No entanto, achei por bem atacar um dos pontos mais necessários e tradicionais, que é o auxílio dos clássicos.

Monday, February 27, 2006

A política

A política é algo estranho. Parece que quanto mais presente ela estiver numa comunidade, quer dizer, quanto mais precisamos dela, tanto mais anormais estão as coisas.

O ideal é não termos de recorrer à política, ou pelo menos não tanto. Ela é apenas uma espécie de técnica - isto mesmo, técnica - para que seja possível viver bem em comunidade - e só. Nesse sentido, sua "manutenção" é mínima, até mesmo um tanto prosaica. Claro, muitas pessoas podem ter muitas idéias sobre o que é viver bem e como tornar isso possível. Contudo, todas elas precisam ter como pressuposto que as leis têm de ser tão genéricas quanto possível e que garantam que não haja empecilhos para que a sociedade funcione por si mesma. Digo isso porque tenho o seguinte pressuposto: que a sociedade por si mesmo funciona bem, mas às vezes é necessário dar uns retoques aqui e ali. Em casos mais extremos, que por isso são completamente excepcionais, aí sim podemos dedicar bastante energia a fim de sanar o problema, mas só enquanto houver tal necessidade.

Quando os homens se reúnem para fazer política, naturalmente há discordâncias sobre o que se deve fazer ou não, o que é mais necessário, etc, e assim principiam os partidos. No entanto, findados os objetivos, dissipa-se o partido, que já não teria mais razão de ser. Isso aconteceu durante toda a história. Todavia, o que torna a nossa época particularmente estranhíssima do ponto de vista político é que agora os partidos permanecem por si mesmos, a despeito do tempo de existência e do que fazem. Eles mesmos se tornam a razão de seu próprio existir. Isso é tão arraigado que ninguém nem cogita a possibilidade de desfazer um partido após algum tempo: pelo contrário, não é o partido que nos serve, mas a gente é que serve ao partido. Esta é uma perversão.

A existência do partido fica então condicionada a uma situação problemática e insolúvel, porque na verdade os partidos acabam existindo cada vez mais em função de si mesmos e menos para resolver o que tinham de resolver. Daí que a politização da sociedade seja uma tendência. E se a sociedade inteira se politiza, então o próprio partido vai sendo encarado num sentido falsamente profundo, onde ele encarnaria de algum modo o que há de mais essencial no homem (ou até mesmo na realidade). Ele passa a ter um fundamento metafísico. Foi graças a isso que surgiram partidos como o comunista e o nazista, e talvez surja coisa pior no futuro. E coisas assim são a maior perversão da política.

É preciso então reorganizar a hierarquia das coisas, pondo a política em seu devido lugar. Mas despolitizar numa época tão politizada não será tarefa fácil.

Sunday, February 26, 2006

Quando um sambista deslumbrado tenta falar de religião

Nota: Já havia um tempinho que eu não escrevia notas. Mas o motivo para tanto é que este texto é um rascunho, nada revisado. Então talvez eu mude alguma coisa só depois do carnaval, não porque cairei na farra, mas por pura e simples preguiça. E se nada a obstar, piparotes.

Tentei não dizer nada sobre o carnaval, mas não consegui. Parece que me incomodam de propósito. Isso porque em certa ocasião um sambista disse na tv que "o carnaval une mais gente que a religião". Em outro canal, uma senhorita disse sobre o carnaval: "É uma festa excelente porque não há diferença de classes na folia". Digo de passagem que o senhor e a senhorita não eram intelectuais, ao menos no sentido normal que a palavra um dia já teve, porque no sentido da "longa marcha rumo ao aparelho do Estado" (Gramsci) eles podem ser considerados intelectuais orgânicos. Notem bem: se você colocar de um lado da balança alguém como, digamos, Carlos Alberto Nunes, e, do outro, o sambista que disse aquela asneira, do ponto de vista da tal marcha rumo ao aparelho do Estado o sambista leva a melhor, porque contribuiu para a agitação revolucionária de algum modo, enquanto C.A. Nunes não passa de um esquisitão que traduziu para nossa língua todo Platão, todo teatro de Shakespeare e a Ilíada e a Odisséia, empreendimento este neutro do ponto de vista do conflito entre esquerda e direita.

Isso explica um pouco porque certos cidadãos como Scheler, Zubiri e Husserl são geralmente deixados de lado pelos "intelectuais", trocados por gente do calibre de Sartre, Foucault e, por que não?, sambistas: nossos "intelectuais" não querem compreender mais coisa alguma, só querem encher o saco com o sonho humilde de transformar o mundo.

Voltemos à afirmação daquele senhor. Um disparate tão grande talvez em outras épocas fosse motivo de censura pública, ou pelo menos censura da própria consciência. Mas não, passou em branco, e até imagino que com certo aplauso. O sambista disse o que não deveria ter dito porque segundo ele o samba une, enquanto a religião afasta. "Vejam só quantas guerras religiosas já houve!", asseverou. Se o samba tem um poder tão maravilhoso de união, porque o primeiro lugar onde surgem as desordens da nossa cidade é justamente nos morros, já que as escolas de samba por lá ficam? Então antes de mais nada. deveriam tocar mais samba para tentar unir a população de suas comunidades a fim de que parem de se matar e matar quem por lá não mora. Mas há samba nos morros desde não sei quando, o que me leva a concluir que este não deve ser o melhor método, pois a violência na cidade só tem aumentado. E justamente São Paulo e Rio (que ergueu um lugar chamado Apoteose a fim de homenagear gente tocando tambor e de tanguinha), cidades que têm sido o centro das escolas de samba, são ambas violentíssimas. Por outro lado, quantos amantes de samba há no país? Talvez menos que de evangélicos. E há envagélicos em todo o mundo, inclusive em países comunistas - caçados e torturados por aquelas bandas, diga-se de passagem -, enquanto sambistas só existem em um ou outro canto do mundo a título de "cultura exótica", completamente insignificante. E não me parece que a ONU já tenha cogitado terminar conflitos como o que há entre Israel e os palestinos com a força da bateria da Estação Primeira de Mangueira.

Se há muitos evangélicos, mais ainda há católicos, e em praticamente todos os países. Mais de um bilhão de fiéis em todo o mundo não é um exemplo claro e raro de união entre os povos? Uma coisa dessas só é possível porque embora diversas as pessoas se unem através de uma série de valores transcendentes. E quem irá se matar por causa do samba? Na verdade talvez até haja algum infeliz, afinal existem pessoas que se matam por causa do futebol. Isso só depõe a favor da religião, porque com ela essas sandices não aconteceriam. Identificar religião e catástrofe é, eu sei, o ponto de vista de muita gente, e o fato de um sambista dizer algo desse tipo demostra como essas opiniões bizarras já estão se espalhando entre o povão.

Embora o samba tenha uma folha de serviços tão irrelevante, defendê-lo acima da religião é coisa de burrinho. É uma falta de senso de proporções tão troncha que chego a duvidar que disseram aquilo que eu mesmo ouvi. É uma daquelas coisas que você não sabe até que ponto termina a malícia e começa a burrice.

Quanto ao que disse a senhorita, se ela soubesse as implicações e os pressupostos daquela frase, talvez evitasse para sempre repeti-la. Isso porque tal idéia apóia-se no preconceito marxista de que a sociedade está divida em classes antagônicas, e que a mais progressita deve eliminar a "reacionária". Daí que, enxergando as coisas desse modo, o carnaval parece algo esquisito: exploradores e explorados, inimigos entre si, mas festejando juntos. Nem preciso dizer a opinião desses senhores quando o assunto é futebol, e em especial a Copa do Mundo. Tudo isso deve parecer-lhes um tipo de hipnose, explorada maquiavelicamente pelas elites reacionárias. Eis um pensamento esquisito, cujos defensores de tão insólita opinião o dr. Simão Bacamarte com razão internaria na Casa Verde. E se o carnaval é estranho, que dizer da religião, onde na missa os mesmíssimos inimigos comungam juntos em nome de um Deus que certa vez disse que aquilo que Ele une homem nenhum separa? Nem a alegria boba do carnaval nem a alegria esperançosa do Cristianismo são alienantes, ao contrário das doutrinas que pregam que a discórdia é o fundamento de todas as coisas. Não: o fundamento de todas as coisas é precisamente este Deus que mantém os opostos unidos. Aquelas doutrinas, estas sim alienam o homem, fazendo com que ele enxergue problemas e discórdias que na verdade só existem em sua cabeça.

Embora o que disseram o senhor e a senhorita careça de fundamento, tais idéias tem por alguma razão um valor autoprobante, de tal modo que nos meios supostamente esclarecidos elas passam como se fossem evidências inquestionáveis, quando na verdade deviam ser consideradas no mínimo inusitadas. Na verdade, elas são mais propaganda que idéias propriamente ditas. Seus fundamentos estão menos em si mesmos que nas intenções dúbias de que as diz. Elas são, numa palavra, propaganda de guerra. É preciso desmascará-las no ato.

Friday, February 24, 2006

Xi, de novo os comentários sumiram...

Voltei sem meus sisos inferiores e meu blog sem os antigos comentários.

Trato terrivelmente mal os visitantes! Não sei se argumento a favor de minha ignorância, porque entendo muito mal dessas alterações de templates - e vejam que este aqui já veio pronto, era só uma questão de optar! -, ou se contra minha falta de prudência, porque justamente por eu entender tão pouco dessas coisas melhor talvez seria nada fazer. Em todo caso, neste blog, onde o branco se tornou preto para de novo voltar a ser branco, achei melhor adotar o sistema de comentários do Blogger, até porque o anterior já caducara algumas vezes, fazendo o desfavor de apagar vários comentários.

Peço desculpas pelos novos transtornos, ainda que involuntários.

Saturday, February 04, 2006

Este blog entrará em recesso por tempo indeterminado

Eis que um vilão qualquer quis que este blog entrasse em recesso por tempo indeterminado devido aos achaques de velhice precoce de meu computador.

Nestas últimas semanas, meu computador não permanece ligado por mais de uma hora, se bem que às vezes ele não está naqueles dias e me atura por mais algum tempo. Ora, se não consigo levar menos de meia hora para me despedir de alguém (meu amigo Thiago pode dar fé, já que em certa ocasião levamos mais de uma hora para nos despedirmos), e se levo mais de uma hora para almoçar de modo adequado - outras pessoas podem dar fé do que estou dizendo -, quanto tempo mais não me é necessário para sentar a buzanfa na cadeira a fim de escrever alguma coisinha neste blog? A verdade é que sou uma pessoa lenta - oh, e que dizer de meus proverbiais atrasos, embora eu esteja melhorando? -, lenta até não mais poder, se bem que nesta minha vagarosa vida eu já tenha conhecido gente pior, que de tão devagar parecia viver em um tempo paralelo, como se morasse em Plutão, aquele lugarzinho que de tão moroso flertar com o sol só recebe uns raiozinhos de luz da estrela-mãe por questões de caridade.

De repente, como o juiz é vilão, desacatarei vez ou outra seu querer e postarei alguma coisa na medida do possível, mas não estranhem se talvez eu dê uma sumidinha. Mas caso haja algum pagão que esteja a ler este meu texto, tenha um pingo de caridade e vaticine por gentileza quando é que tudo por aqui voltará ao normal. De agradecimento pedirei aos céus que você seja salvo. Deuses imortais, o tempora, o mores.

Sunday, January 22, 2006

Cigarro e neurose

Tenho uma verdadeira simpatia pelos fumantes. Fico chateado com a maneira como eles são tratados, parecendo um bando de marginais só por causa de um maldito cigarrinho.

Que as pessoas são neuróticas não tenho dúvidas. Sempre há alguma esquisitice, alguma coisa mal resolvida na nossa biografia, alguma coisa a ser revista não sem alguma dor. Não há remissão de pecados sem a devida luta contra si mesmo. O problema todo é quando descaradamente dirigem as neuroses e frustrações do povo contra determinadas coisas que não são maléficas. Isso é o fim da picada. Um bom exemplo disso é justamente o maldito cigarrinho.

Certa vez, quando eu ainda era um bebezinho no segundo grau, havia uma professora de Biologia que fumava demais. Nós então achávamos - eu não, mas como não me opus a nada, me coloco nessa ciranda - que ela cometia uma espécie de impiedade em plena sala quando fumava. Começávamos naqueles momentos a incorporar uns nazistinhas de plantão e gritávamos literalmente para que ela apagasse aquilo. Era uma cena linda, a turma às patadas obrigando a professora a apagar o cigarro, como se nossa ação, digna de 1984, fosse no futuro cantada pelos aedos. Era ridículo.

Igualmente ridículo é quando pessoas absolutamente mal-educadas começam a fazer cara feia na rua quando alguém na frente está fumando. Chegam a tentar pateticamente dispersar a fumaça como se fosse Zyklon-B, aos prantos. Isso é coisa de neuróticos, mal-educados neuróticos. E me calo sobre aqueles procedimentos vergonhosos em restaurantes e lugares afins, onde a pessoa é obrigada ilegalmente a parar de fumar. Passemos.

Há anos atrás vi na GNT um programa em que uma empresa de fumo passava por uma verdadeira sabatina de uma comissão parlamentar americana. Desde o início, a comissão estava francamente hostil. Talvez por já prever semelhante procedimento, a empresa contratou uns quinze advogados para defendê-la, muito embora não fosse um julgamento. Os congressistas ignoravam solenemente, por despreparo, malícia ou ambos, aquele princípio pelo qual o réu é considerado inocente até que se prove o contrário. O modo como a sabatina era conduzida forçava o tempo todo a empresa a provar que não comercializava veneno. Só faltou o auto-de-fé. Em certa altura, um parlamentar perguntou se por um acaso os advogados tinham filhos pequenos. Acho que a maioria respondeu que sim. O mesmo parlamentar, com malícia extrema, em seguida fez uma pergunta inacreditável a cada um dos senhores advogados:

- Sr. Tal, se o cigarro é tão inofensivo como dizes, permitirias então que teus filhos fumassem?

Os advogados, um por um, não sabiam o que responder, porque provavelmente não esperavam aquele tipo de pergunta. Não lembro exatamente o que disseram, mas não responderam nem que sim, nem que não, e foram passando a bola adiante. No final a impressão que ficou, como era óbvio de imaginar, foi que eles só defendiam a empresa porque eram pagos, pois intimamente cada um eles não sabia se o cigarro era mesmo nocivo. Uma autêntica bola fora.

No dia eu achei aquilo lindo, porque parecia uma prova eloqüente da falsidade dos argumentos dos pró-tabagistas. Mas logo em seguida eu pensei cá comigo: os advogados não disseram que o cigarro é totalmente inofensivo, mas que não era a praga que os congressistas afirmavam, e que o controle de qualidade era um método eficaz para a preservação da saúde das pessoas. Levando-se em consideração isso, a pergunta do parlamentar era uma pegadinha, e todos os quinze advogados caíram. Podiam replicar perguntando se o parlamentar tinha filhos pequenos, se ele dirigia, e se ele permitiria então que seu filhinho passeasse de carro. Podiam até mesmo trocar "dirigir" por "beber": o raciocínio seria o mesmo. Um outro exemplo do que quero dizer é o seguinte: dia desses eu vi no jornal que os cosméticos para adultos são nocivos para as crianças, porque os de adultos contém substâncias nocivas para a saúde delas. Agora bem: proibiríamos então a venda de cosméticos? Segundo o raciocínio do parlamentar, sim, e assim muitas outras coisas deveriam ser proibidas também, como o carro. Não sei como aqueles advogados não tiveram presença de espírito naquela hora, e olha que eles ganham milhões no que fazem!

Desde aquele programa fiquei com uma pulga atrás da orelha com as medidas antitabagistas. Nunca me pareceram firmadas em razões decentes. Não sou um conhecedor virtuose das discussões sobre o fumo, mas sei que há alguns fatores que não são considerados com a devida cautela. Por exemplo, o problema da poluição do ar. Quem sabe se o fumo é apenas um pequeno problema inserido em algo muito mais vasto, que é a porcaria de ar que respiramos nas cidades grandes? Também não sei dizer se o ar é mesmo tão ruim quanto afirmei, mas é uma hipótese a ser investigada. Ainda que algum leitor, lembrando-se do velho provérbio “a prudência é uma virtude”, diga que por via das dúvidas é melhor controlar de algum jeito a venda do fumo, eu diria que nem por isso é válido concluir que o cigarro é igual ao comunismo: intrinsecamente perverso.

Há também a questão óbvia da qualidade do cigarro: pode ser que os que causem mal são apenas os piores, como um iogurte estragado causa dor de barriga sem que por isso o iogurte bom seja considerado nocivo. Por outro lado, as pessoas têm diferentes graus de susceptibilidade às mais variadas substâncias. Não é à toa que existe alergia: algo que teu organismo não acusa como hostil pode ter efeitos completamente contrários em outras pessoas. O mesmo pode se dar com o fumo: pode haver pessoas mais susceptíveis aos seus efeitos, mas sem que com isso o cigarro em si seja algo condenável.

Por fim, há o problema, como eu disse antes, da neurose. Da mesma forma que nosso organismo pode ser tão sensível que acusa como hostil algo que na verdade não é ruim em si, as pessoas podem estar predispostas a agir mal ante algo que muitos digam que é ruim, embora esse algo não seja verdadeiramente ruim. Vou dar um exemplo simples: minha boa mãe. Um dia ela pediu Novalgina. Fui pegar, mas fiquei curioso em saber se ela, caso eu desse só água, teria a reação de desgosto como se estivesse tomando aquele remédio horrível só porque pensava mesmo que o estava tomando. Muito bem: só dei água para ela. Adivinhem? Ela fez uma careta horrível, me agradeceu, e já ia fazer outra coisa se eu não ficasse rindo e dizendo que não havia uma só gota de Novalgina. Se eu quisesse averiguar cientificamente isso, eu teria de testar em outras pessoas tal procedimento, mas acho que não é necessário porque já vi coisas semelhantes ocorrerem. Além do mais, a mente é algo tão misterioso que pode muito bem enganar o próprio corpo a ponto de a gente sentir algo como se fosse uma outra coisa (exemplo: a pessoa come cebola e pensa que é maçã, como ocorre em hipnoses).

Como nada disso, ao que parece, foi analisado minuciosamente - porque os cientistas devem analisar tudo minuciosamente -, então sempre me pareceram por demais audaciosas as afirmações sumárias veiculadas contra os cigarros, tendo como base certezas no mínimo duvidosas. E se é loucura considerar uma pessoa culpada não havendo indícios conclusivos para tanto, o mesmo se dá com o cigarro. Infelizmente a situação é tão estranha que até médicos entram nessa ciranda, emitindo juízos não segundo a ciência, mas segundo aquela coisa amorfa e esquisita chamada consenso. Consenso? Talvez fosse melhor dizer “politicamente correto”.

Portanto, ainda permaneço simpatizante de quem fuma, até porque, como eu disse antes, acho absolutamente maluca a hostilidade que pessoas aparentemente normais dirigem contra eles. E antes que um maldoso leitor diga que defendo tais coisas em causa própria, afirmo que nem fumo, nem sou pago por alguma empresa tabagista para dizer essas coisas, até porque se o fosse, eu estaria ganhando bem e já teria pagado alguém para mudar o layout do meu bloguinho. E se um leitor malicioso, usando da mesma malícia daqueles parlamentares, disser que se eu acho o cigarro tão inofensivo então eu deveria fumar, respondo que usar sungas até onde sei não é algo maléfico para a saúde, e nem por isso eu as uso, já que não gosto nenhum pouco. Acho supinamente ridículo andar de cuecas em público, anda que um chato no melhor "estilo Pródico de ser" venha discutir que cueca é uma coisa, sunga é outra. Não acho ridículo fumar, mas fora em uma ocasião onde literalmente queimei a língua da maneira mais prosaica possível, nunca me deu vontade de fumar. Por último, faltaria saber as razões de haver esse nonsense todo sobre o fumo. Não sei responder, mas certamente deve haver alguma coisa por trás disso.

Sunday, January 15, 2006

Dia de casamento

Ontem, pela primeira vez em minha vida, fui a um casamento. Senti que estava avançando um grauzinho na participação da vida "sócio-familiar".

Ah, o casamento... Que posso falar do que vi? Um igreja pequena, modesta, mas acolhedora e linda por dentro, mais ou menos que nem a Sagrada Família na manjedoura. E que calor lá não fazia, como se ela estivesse tentando espantar definitivamente os frios ventos de qualquer ceticismo, trazendo para nós o calor das verdades únicas do matrimônio sagrado! O recinto fervia pela alegria, recinto este onde lá no alto havia escrito: "ESTE LUGAR É SAGRADO". Tenhamos sempre isso em mente quando pensarmos numa igreja, por mais modesta que ela seja, e em tudo que for divino. É uma frase que desperta naqueles que têm o divino em si temor e tremor, alegria pueril e sujeição filial. "ESTE LUGAR É SAGRADO".

Acima do altar havia, ao redor de Deus Pai, anjinhos com instrumentos musicais, certamente festejando mais que nós o sacramento. Bem abaixo, entre o céu e o submundo, havia os padrinhos bem vestidos, acertadamente mais discretos que os noivos, que em pouco tempo estarão trocando alianças, que simbolizam a imperturbável eternidade. Entre os noivos, e em frente aos padrinhos, o padre, já um senhor, como convém à imaginação para ocasiões dessa natureza, abençoava o vínculo eterno dos esposos, dizendo coisas que ninguém entende e... Ah, que importa? Todos queriam apenas que o padre terminasse logo de abençoar para que os esposos se beijassem, agora transmutados divininamente em sr. e sra... Ao mesmo tempo que o padre abençoava, muita gente falava, um falatório tremendo ao meu lado, sem contar com as célebres crianças chorando sem nem terem idéia do que faziam naquele templo consagrado em primeiro lugar a Deus, em segundo à Santa Cecília, etc, etc.

Será que o problema atual é a falta de timing para o silêncio?

Que dizer dos juramentos? Os esposos com olhos fixos um no outro, jurando, jurando, jurando... Juram até que ficarão unidos até a morte. Tem gente que diz que isso é estranho, algo falso. Pois ame, e você penhorará o universo, e ainda assim parecerá pouco. Não é um juramento em vão, porque o que está em jogo é a manutenção de um futuro lar, ainda que este atravesse as piores tribulações. No fundo, o que está havendo é Cristo dizendo aos noivos que se crerem nele, tudo será calmo e límpido. Basta seguir cristãmente a vida conjugal, basta crer nele, e todos ganharão o cêntuplo.

Depois o casal ia embora, com a mesma pompa que entrou, assim como os padrinhos e pais dos noivos. Nós, as pessoas escolhidas como testemunhas do amor, a comunidade que acolhia com prazer aquele novo casal, nós olhávamos aquele único espetáculo e desejávamos, cada um ao seu modo, em meio a sorrisos e lágrimas, humildemente um bom futuro aos recém-casados sr. e sra...

O casamento está fundado na casa, e participa da sacralidade do templo. Assim, no futuro, assim que os novos esposos fundarem um lar, eles poderão também olhar para ele e pensar: "ESTE LUGAR É SAGRADO", amém.

Sunday, January 08, 2006

Primeiro Post do Ano é em Homenagem ao Ano Novo

Eu já estava todo contente e faceiro, prestes a escrever alguma coisa sobre o Ano Novo, quando de repente me deparei com um texto do Gustavo Corção: Ano Novo? Ali está tudinho o que eu gostaria de escrever sobre o assunto, embora me falte capacidade para tanto.

Resta-me dizer que o que foi de bom agrado não foi foguetório nenhum, já que permaneci na gruta que chamo de lar. Na-na-ni-na-não. Nada de praia, reuniões, etc. Não há criatura mais prazerosamente anti-social do que eu, e quando penso nisso acho muito bom, dados os vexames coletivos dos quais escapei, se bem que nem sempre. Passei o Ano Novo "monasticamente" - já já vem a explicação das aspas - assistindo à TV, sem a menor curiosidade de ver o foguetório da praia de não sei onde, tendo de fundo a banda não sei qual, havendo trocentas milhões de almas acotovelando-se umas às outras. E amigo leitor, não poderia ser o fim mais perfeito de mais uma monótona volta do sol em torno do nosso planetinha: creia, uma maratona de doze horas de James Bond, preludiada por Rocky III, que eu não via desde que Maomé II tomou de assalto Constantinopla! E para maior gáudio, ainda havia Pepsi e pavê me fazendo companhia! Realmente este é de todos o melhor mundo possível.

Tal é minha idéia de retiro do mundo, explicando portanto as aspas. Mas não inveje minha sorte, caro leitor. Eu é que tenho de te agradecer, pois se você não cresse que a cada volta do sol tudo se renovará, não haveria especiais tais como aquele. Então permaneça com tua adoração do irmão sol que eu me divertirei com o resto.

Saturday, December 24, 2005

A singular história do dr. Onofre e de sua esposa Wilhelmina

Após dois anos separado de sua mulher por motivos de viagem tão chatinhos que chateariam o mais chato leitor, dr. Onofre, que era conhecido pelo seu extremíssimo fanatismo por música erudita -- em certo dia chuvoso ousou arrancar com uma moeda o olho de uma velhinha que disse que chorava copiosamente quando ouvia "O lago dos cines" --, dr. Onofre resolveu enviar de presente à sua mulher um cd contendo a Partitia no.2 de Bach tocada pelo virtuose Yehudi Menuhin, com uma dedicatória mais ou menos assim: "À minha Peruquinha; Do seu amado Frô-frô.", gênero de apelidos ridículos que geralmente os casais soem dar-se mutuamente.

Nem bem passados quatro meses após o envio do presente, eis que dr. Onofre volta finalmente para seu lar. Todavia, qual não foi sua surpresa ao encontrar a belíssima Wilhelmina embarrigada, embuchada, em estado interessante, e todos os demais sinônimos que pela enorme feiúra e expressão bizarra talvez indiquem o quão esquisito é o feio milagre do nascimento. Dr. Onofre, homem que às vezes parecia saído do Antigo Testamento, desesperado, rasgou sua própria camisa e, não encontrando cinza no chão, atirou em sua própria cabeça o pudim que carregava para dar à sua virtuosa mulher. E com o pudim escorrendo pela sua cabeça um tanto trapezoidal, concertou os seguintes dizeres:

- Agonia e traição! Agonia e traição! Que se passou neste lugar enquanto eu estava em uma viagem que por motivos tão chatinhos chateariam o mais chato leitor?

- Ó celerado, homem de pouca fé! - disse a bela e boa esposa. Como duvidas de minha honestidade? Assim fiquei semanas depois de ouvir o esplêndido cd que me enviaste. Tanta beleza naquela música, tocada por tão excelso virtuose, me deixou em estado interessante.

Ao ouvir aquilo, o dr. Onofre, emocionado até não poder mais, ajoelhou-se perante a sua amada, pegou sua mão e começou a declamar alguma coisa ininteligível e com voz embargada. Mas eu farei a gentileza de traduzir a ti, leitor, o que ele quis dizer:

- Que belo dia, que céu adorável, que memorável momento! Em minha perfídia maculei a honra desta santa mulher! Perdoe-me, augusta mulher... Fui tão tolo que nem cogitei que gênero de milagres pode esta partita provocar. Eu mesmo, tendo ouvido pela primeira vez aquela obra de arte, senti que era gerado em minhas entranhas um novo ser, embora não houvesse continuidade de tão portentosa dádiva por causa deste mundo de justiça imperfeita. Ó cegueira terrível! Perdoe-me, santa mulher, perdoe-me!

Wilhelmina, visivelmente sentida ante tal espetáculo, perdoou a perfídia do marido, que acabara de babar em sua delicada mãozinha, e limpou graciosamente o cocoruco do esposo cheio de pudim.

Os meses se atropelavam e a criaturazinha se desenvolvia no ventre, no bucho, na barriga, na pança de Wilhelmina. Dr. Onofre amava a esposa como se ela fosse a primeira e última mulher da face da Terra, a despeito do despeito da chusma inominável, turba ignara e hostil a tudo que foi criado belo e maravilhoso no jogo do mundo. Assim, tiveram uma lindinha criança, batizada de Tareja Yehudi Bezerra Bach Partita de Carvalho (os íntimos a chamavam apenas pelos dois últimos nomes), no mesmo dia em que sincronicamente um coral ajudado pelos anjos entoava em alguma praça pública do mundo "Jesus alegria dos homens".

Wednesday, December 21, 2005

A última de Janer Cristaldo e religião

Janer Cristaldo é conhecido - sem contar seus trabalhos literários e jornalísticos (já fiz um rápido comentário sobre seu livro O paraíso sexual-democrata aqui no blog) - pelo seu ateísmo militante contra o Cristianismo e o Islamismo. Agora ele resolveu bombardear o Judaísmo, fechando com chave de ouro este ano com uma guerra - se é que podemos chamar assim tal modo de proceder - contra as três grandes tradições monoteístas do mundo.

Estando no Ocidente, e o Ocidente, queiramos ou não, só tem razão de ser graças ao Cristianismo, Janer Cristaldo preferiu por um motivo qualquer não apenas renegar tal herança e tradição como inclusive agredi-la sem o menor pudor. Por outro lado, o tradicional inimigo do mundo ocidental, o Islamismo, nem por isso deixou de ser agredido por ele. E sendo o Judaísmo de certa maneira comum a ambas as tradições, era só questão de tempo ele resolver agredi-lo também.

O problema de Cristaldo é que ele geralmente faz uma imagem no mínimo esquisita das religiões e passa então a atacá-las, como se estivesse realmente dizendo alguma coisa sobre elas. Ao leitor um pouco informado a respeito de todas elas fica o problema de saber se Cristaldo assim procede por incompreensão crônica, pura má-fé ou um pouco de ambas. Não sei, só Deus e o próprio Cristaldo sabem a verdade. O máximo que podemos fazer é cogitar.

Quem quiser saber direito sobre isso que vá ao seu site e leia o que ele costuma escrever. Em dado instante ele diz que o Cristianismo é mais nefasto que o comunismo e o nazismo, e busca sustentar tamanha loucura apontando para nada mais, nada menos, que a Inquisição. Ao Islamismo ele oferece argumentos - se é que são argumentos - relacionando esta religião com a barbárie e o terrorismo, considerando assim normal, da maneira mais esquisita possível, que somente nos fins do século XX o Islão, em mais de mil anos de história, tenha sido empregado sistematicamente como fundamento de crimes e loucuras por um grupo de assassinos e psicóticos. Por fim, agora ele nos brinda com pinceladas torpes e interpretações caducas sobre Maimônides. Depois de fantasiar o sábio judeu como se este fosse uma espécie de delinqüente, conclui: "E depois os judeus se queixam de ser uma raça perseguida."

Este último texto, Sobre Maimônides, saiu no Mídia sem Máscara. Logo em seguida foi criticado pelo Olavo de Carvalho, que disse, dentre outras coisas, que "não se pode dizer que ele esteja em descompasso com a moda", que o site se "destina a finalidades mais relevantes e não deveria ser desperdiçado com futilidades odientas", que seus últimos artigos "não têm pé nem cabeça", etc. Olavo de Carvalho disse ainda que aqueles últimos artigos "contrastam de maneira patética com as coisas espetaculares que ele escreveu, em outras épocas, contra o indigenismo fake, na Folha de S. Paulo, ou contra o socialismo proxeneta, no seu livro memorável 'O Paraíso Sexual-Democrata.'" O problema se deu quando o Janer Cristaldo "decidiu dar um upgrade impossível na sua seleção de assuntos, passando dos temas terrestres aos celestes sem ter para isso nem mesmo asas de galinha."

Para quem não sabe, o filósofo é editor do site. Ora, surgir opiniões tão díspares assim num jornal, ainda que o Mídia sem Máscara não tenha sido bolado para servir de trampolim de críticas às religiões, é algo que não deixa de ser interessante, e mais ainda porque, sendo editor, o filósofo não censurou o artigo. Mas não ter sido censurado não significa que ele está para além do bem e do mal. Tanto assim foi que Olavo de Carvalho o criticou.

Devo dizer ao leitor que essa não foi a primeira vez que Cristaldo foi criticado por aquelas bandas. Há algum tempo alguém por lá polemizou com ele por causa de alguns de seus artigos a respeito da Inquisição. Por mais que o jornalista dissesse bobagens sobre o assunto, ele não foi censurado vez alguma.

Agora (no artigo Franceses e "franceses") ele resolveu dar uma resposta ligeira ao Olavo, estranhando o fato de este tê-lo criticado após ter defendido semana passada (em Não é caso para rir, artigo do Jornal do Brasil de 15/12/05) o direito de criticar a religião alheia, quando comentou sobre a censura de um livro do bispo Edir Macedo porque ele escrevera que as entidades de candomblé e umbanda eram demônios. Diga-se de passagem, aliás, que decisivamente só um jumento seria capaz de censurar um livro por isso, e que só em um lugar bastante anormal as coisas se passariam assim, como é o caso do nosso país. Mas este "estranhamento" do Janer é outra coisa sem pé nem cabeça, porque é mais do que óbvio que Olavo de Carvalho protestava só contra a censura. O que Janer fez foi ampliar falsamente o protesto do Olavo para que parecesse contraditório com o que o filósofo escreveu contra ele, dando a impressão de que, quando o assunto é religião, o Olavo só protesta quando convém defender o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo. Mas no artigo fica claro que o ateu tem o direito de criticar todas as religiões, o que não significa que ele não pode ser duramente criticado.

O direito de falar mal contra algo implica que outros tenham o direito de protestar contra quem falou mal. De outro modo, para onde iria a liberdade de expressão? Se Janer Cristaldo criticou duramente Maimônides, porque o próprio Cristaldo estaria imune às críticas? Levando-se em conta, por outro lado, que ele criticou da forma mais atabalhoada possível o sábio judeu, com que direito ele poderia reclamar se alguém fizesse o mesmo com ele? Não quero dizer com isso nem que devemos falar mal do Janer simplesmente por falar, nem que o Olavo o criticou de modo atabalhoado. O que digo é que Cristaldo deveria pensar duas, três, mil vezes antes de escrever semelhantes coisas ao invés de dizer bobagens e logo em seguida, quando criticado, querer aplicar o que chamo de "golpe do ofendido": o sujeito fala asneiras contra ti e na hora que você revida no mesmo tom ele choraminga dizendo que você passou dos limites, que ele quer uma conversa civilizada, etc. É o cúmulo!

O "golpe do ofendido" que Janer usou parece muito com o jeito de ele argumentar sobre religião: não dá para saber onde termina a má-fé e começa a burrice propriamente dita. O único que sabe é Deus - começo a pensar até que ponto Cristaldo realmente sabe também, porque dada a insistência com que ele volta e meia escreve o que escreve sobre o assunto, parece que nem ele mais sabe.

Sunday, December 18, 2005

Ciências autônoma e heterônoma

Olá, leitor amigo. Enquanto vou pensando em alguma coisa nova para escrever, vou postar aqui algo que enviei a alguns amigos faz um ano e pouco. Tem relação com o post anterior. E tenha um bom dia.

Quero compartilhar com todos vocês meu ócio produtivo. É algo que li faz um tempinho. Está em O Século do Nada, do Gustavo Corção. Prestem atenção em suas palavras:

Muitos poucos são os que fizeram ou realizaram a experiência de Foucault, e os que, com o olho colado à ocular do círculo meridiano, puderam verificar com aproximação cada vez maior a uniformidade do movimento angular dos "pontos do infinito" que cruzam os fios do retículo. Todos os outros que falam da rotação da Terra, de oitiva falam. De ouvir dizer e não de uma coisa vista ou diretamente ouvida. Essa grande e respeitabilíssima maioria dos não-astrônomos, o pouco que sabem de astronomia não o sabem com ciência adequada e autônoma, sabem-no por informação, por fé humana, ou por ciência pobre, inadequada e heterônoma.

Ciência autônoma é aquela que reune um acervo de fenômenos, enquanto a heterônoma restringe-se a uma teoria de interpretação. Sobre isso Corção diz mais uma coisa interessante:

E aqui cumpre notar que, embora não pareça, a primeira parte é muito mais inacesível e impopular do que a segunda, porque são poucos os que entram em confronto direto e fratero com o irmão-fenômeno, e muitos são os que lêem as notícias das sínteses teóricas, quase sempre em formas vulgarizadas e brutalizadas.

O que isso tudo quer dizer? Quer dizer que a maioria esmagadora de nós conhece ciência devido ao que estudou no primário, ginásio e secundário, mas que esse estudo basicamente se ateve à ciência heterônoma. O dado sensível geralmente é negligenciado. Assim, eu e vocês podemos provar por malabarismos intelectuais algo que não tivemos o mínimo conhecimento sensível para comprovar ou negar. É como se soubéssemos várias teorias literárias sem ter lido um livro sequer. Em outras palavras, um blábláblá.

É claro que esse blábláblá está apoiado nalguma coisa, podemos até dizer muitas verdades com ele, porém sempre será mais de oitiva, como disse Corção. Depois dizem que crentes é que têm fé numa coisa que nem entendem direito...

Saturday, December 10, 2005

Aquisição civilizatória

O que eu direi é um pouco complicado para explicar, mas farei um esforço para me fazer compreender. Vou usar um exemplo antes de ir para a explicação propriamente dita.

Todo mundo acha que é a coisa mais óbvia do mundo que a Terra não está no centro do universo, que ela se move, etc, etc. No entanto, suponho que sejam poucos os que pararam para olhar o céu a fim de compreender como, afinal de contas, é possível que a Terra nem esteja no centro do universo, nem esteja imóvel, etc, etc. Menor ainda é o número daqueles que já viram ou ouviram falar no pêndulo de Foucault, através do qual percebemos o movimento da Terra.

Aqui chamo a atenção do leitor para o seguinte: faça você mesmo o percurso intelectual para saber se você de fato sabe o que diz ou não. Por exemplo, em relação ao que eu disse sobre a posição da Terra no cosmo e seu movimento, procure você ler documentos relativos a isso e tente transformá-los numa autêntica experiência tua, como se fosse você quem estivesse trilhando as investigações alheias, bem aos poucos, até que você consiga se tornar inclusive um hábil defensor de dois ou mais pontos de vista sobre este mesmo assunto (no mínimo dois porque assim você poderá analisar dialeticamente o problema). Assim, ao ler alguma coisa de Ptolomeu, se houver um instante em que você, tomando conhecimento, por exemplo, da teoria dos epiciclos, tiver a impressão que não é possível que o universo não seja de outra forma, então parabéns: você adquiriu um novo patamar sobre o assunto e um legado civilizatório foi absorvido por ti. Bastará apenas que você prossiga teus estudos a fim de saber que mais foi dito sobre o problema.

Mas que algum desatento não entenda por isso que estou defendendo as opiniões pré-modernas cosmológicas. Não estou entrando no mérito de sua verdade ou não, mas sim da aquisição, por parte do leitor, de conhecimentos antigos, a ponto de conseguir transformar uma experiência de investigação de outros em sua própria. É claro que nada impede que o mesmo se dê com relação à cosmologia moderna, mas faço questão de ressaltar um exemplo antigo porque para ter surgido o último foi necessário o primeiro. Isso sem contar que há tesouros escondidos no passado, de modo que os antigos freqüentemente dão ótimas dicas para nossas investigações. Isto nada mais é que uma forma do leitor perceber o caminho das discussões, poupando-se de dizer algo em tom de novidade mas que há muito já disseram. Tal procedimento poupa trabalho, pois não precisamos redescobrir a todo instante a pólvora. Acreditem que, por mais absurdo que pareça, a história intelectual está repletíssima de re-re-re-redescobertas de pólvoras e afins, e a posterior caipiragem e concentração em torno do próprio umbigo que estes lamentáveis eventos soem trazer apenas demonstram ignorância da sabedoria passada.

Uma outra vantagem desse tipo de investigação é a capacidade de reconstruirmos o percurso intelectual de quem estamos estudando. No exemplo acima, você passa a raciocinar como Ptolomeu. O mais legal desta brincadeira é que, dependendo do grau de absorção dos processos de investigação do autor que você esteja estudando, você se transforma numa pequenina cópia dele, porém atualizada. Assim, é como, em relação à astronomia, você se tornasse um pequenino discípulo de Ptolomeu com os dados modernos da ciência. E este processo é mais interessante à medida que “empregamos” certos intelectuais notórios numa perspectiva moderna. Isso prova que, independente da época em que eles viveram, suas idéias são inesgotáveis, e muito ganha quem consegue estudá-las.

Na verdade, o que estou dizendo é o que deve ser o aprendizado. Primeiro, a reconstrução do percurso intelectual de dado autor; depois, o mesmo, só que com um número cada vez maior de autores e buscando obedecer, se possível, a sucessão cronológica dos debates até chegarmos aos nossos tempos. Esse tipo de procedimento não é novo: o velho Aristóteles assim agia metodicamente. Em todos os seus livros ele sempre busca compreender as idéias de um autor sobre o tema que está sendo investigado para, logo em seguida, montar uma história do problema tratado. Por exemplo, no livro primeiro da Metafísica, em dado momento ele busca investigar o que é causa. Então ele passa em revista uma série de filósofos a fim de saber o que eles disseram sobre o assunto. Na Física, na Política e em outros livros ele faz o mesmo com cada assunto tratado. Assim, se fizermos algo parecido com o modo de estudar aristotélico com cada uma das grandes questões, isto é, problemas tais como o que é a alma, a política, a liberdade, Deus, a física, etc, aos poucos teremos um conhecimento das discussões que houve sobre cada um desses grandes temas. Aliás, essa idéia foi amplamente defendida por Mortimer Adler em seu livro How to Read a Book (há duas traduções, A Arte de Ler, a mais antiga, e Como Ler um Livro, a mais recente, se bem que ouvi falar que a última não é muito boa).

No fundo, o que está por trás de tudo isso é a aquisição do patrimônio da tradição ocidental, que nos vem através de uma série de respostas a várias questões fundamentais. Você poderá não saber direito como resolvê-las, mas pelo menos saberá por quais caminhos deverá trilhar, não caindo em erros há muito cometidos, mais ou menos como aqueles diálogos platônicos onde não há uma resposta definitiva mas várias dicas de como achá-las.

Isso tudo tem uma série de conseqüências fantásticas, mas é um assunto para outra ocasião.

Saturday, December 03, 2005

Dois amores, duas cidades


A universidade segundo a filosofia perene ou: A vida intelectual autêntica.


A universidade segundo a educação brasileira ou: Como ser uma pessoa maravilhosa no Brasil.

Sunday, November 20, 2005

Fantástico programa de TV

E lá fui eu me sentar no sofá a fim de deixar o cérebro de molho, tarefa aliás realizada por mim com mais freqüência que a devida. Julguei que não havia nada melhor para tanto que assistir no sofá ao Fantástico, que há tempos sequer eu ouvia o nome.

Antes de continuar, peço licença para dar um exemplo sonoro de quão agradável é a TV, especialmente aos domingos. Hoje à tardinha, enquanto minha mãe se suicidava mentalmente assistindo ao Domingo Legal, eu estava no quarto lendo, depois de ter passado quase mil anos limpando uma prateleira e os livros que estavam sobre ela. Enquanto eu me matava para entender o argumento de Leibniz acerca da existência de Deus, de repente comecei a escutar algo vindo da sala mais ou menos assim:

- ... e não é bom dançar funk com calcinha porque...

Concentração, concentração, por que tu me abandonaste? A partir daí havia duas pessoas perto de mim disputando minha atenção: de um lado, o filósofo, do outro, uma mulher dizendo alguma coisa sobre o problema de dançar funk com calcinha. De certa maneira, se apresentava uma demonstração da hipótese da divisão radical entre corpo e alma, pois meus sentidos escutavam o canto da sereia safada enquanto minha mente buscava feito louca onde é que minha concentração se escondera. Às vezes parece que ter um espírito neste mundo de justiça imperfeita é equivalente a estudar Metafísica na Marquês de Sapucaí. Para minha sorte, a minha mente chamou a polícia e a baderna terminou: a concentração voltou ainda a tempo e talvez lá no céu o sábio alemão expressou contentamento.

Voltemos ao sofá, onde eu me preparava preguiçosamente para a próxima abobrinha da TV. No Fantástico passava uma reportagem sobre fé, com uns sujeitos batendo palmas enquanto outros fumavam charutos. Reza o provérbio que não se deve bater palmas para maluco dançar, mas acho que aquelas supostas religiões estavam na (ou procediam da) superfície da Lua, portanto a quilômetros de distância do senso comum. Mostraram uns quatro lugares, cheios de gente no todo e em parte estranhas: em um, alguém com chapéu de boiadeiro dançava como o Tiririca, enquanto explicavam que ali descera um espírito de um capiau ("Uma figura muito humana", asseverava um estudioso da tal religião); em outro, uma mulher gordinha fumava charutão e dava conselhos em voz mole, parecendo sofrer derrame enquanto isso, embora o restante das pessoas ali presentes julgasse que tal efeito era apenas emanação de uma divindade qualquer; no seguinte, um homem vestido de Mandrake dizia estar recebendo um tal de Preto Velho, que segundo os entendidos era um velho escravo muito judiado e que aparece hoje em dia para dar sábios conselhos (que, ao que parece, de nada serviram para si mesmo, já que comeu no passado o pão que o diabo amassou); por último, um camarada recebia, segundo a voz em off, o espírito de uma princesa turca (havia até um retrato horroroso seu na casa; parecia que eu mesmo o havia pintado). Acho que essas coisas todas eram candomblé, mas não lembro. Só sei que quem participava achava tudo aquilo muito supimpa.

Boiadeiro, Preto Velho, espírito tendo derrame e princesa turca: exceto essa última, por que não um físico, um filósofo, um rei francês, um diplomata, um legionário, um esquimó, um compositor? Eu assistia àquilo tudo enquanto dava graças aos céus por jamais ter servido, ao menos até o instante que digito essas palavras barrocas, como hospedeiro de entidades. Com certeza, assim que ela retornasse para o buraco de onde saiu, eu correria direto para a igreja mais próxima: se já não bastava ser eu mesmo, quanto mais me tornar um espírito mais ridículo ainda! Que vergonha, santo Deus! Imagine, ainda por cima, ter de aturar o supremo mau-gosto desses espíritos, que só sabem beber cachaça, fumar charuto, se vestir do jeito mais brega possível e dançar ridiculamente? E isso quando homem não vira princesa turca! Creio que o senso do ridículo nos joga automaticamente nos braços de qualquer uma das grandes tradições monoteístas, ou ficamos ateus se ele acaso não estiver muito evidente.

Apareceu, mais para o fim da reportagem, alguém que era estudioso de religiões afro-brasileiras. Não lembro o que ele disse, até porque fiquei pensando sobre as razões que fizeram com que aquele sujeito estudasse uma coisa dessas. É equivalente a alguém que, entrando na faculdade de Medicina, resolvesse estudar a sujeira que fica atrás das unhas. Ademais, é preciso uma mistura de preguiça e falta de senso de proporção para se dedicar unicamente a isso, deixando de lado as riquezas das grandes tradições. Dou uma taça de sorvete para quem adivinhar o que um estudioso fanfarrão escolheria: se matar para saber o significado da Santíssima Trindade ou a moleza de conhecer o suposto mistério do espírito do boiadeiro?

Logo em seguida, e eu já estava em frente ao computador imaginando o que escrever para este bendito blog, em meu quarto entrou sem nenhuma cerimônia alguma coisa sobre Zumbi e Dia da Consciência Negra, ambos vindos da TV sem-educação da sala. Parece anedota inspirada na Criação: "E até novembro não havia nada, quando de repente, pluft!, e os pretos passaram a ter consciência mediante canetada do governo supremo." É uma pena que em trezentos e sessenta e cinco dias os pretos tenham noção de si mesmos apenas por pouco tempo, tendo de esperar um ano até sua próxima visita, mas não sou eu quem provocará os ilustres senhores membros de movimentos black dizendo que a tal "consciência negra" ou é muito pobre ou muito ocupada, pois os visita só de tempos em tempos: eles devem saber o que fazem e o que dizem. Aliás, que significa "consciência negra"? Esse termo é horrível. Mas que é esse cometa que surge só de ano em ano? É gostar de tambor, de Zumbi, de presepada africana? Enquanto desejam que os pretos daqui adorem essas bobagens, os de lá de fora, seja na África, seja nos EUA, querem mais é se islamizarem ou se cristianizarem. Se eu acreditasse que a história é progresso - meu pessimismo não deixa -, eu diria que os brasileiros black estão na contramão da história. Ou na mão da história do Haiti. Naquele lugar, a maravilhosa cultura dos antigos escravos desabrochou de tal modo que lá é o que é, e aliás não é à toa.

E Zumbi? Eu nem sei se aquele sujeito sabia falar português ou fazer contas. Sabe-se lá Deus o que haveria caso o conhecêssemos pessoalmente. Como alguém que só participava da cor e essência de humanidade dos brasileiros black pode ser reverenciado como símbolo nacional? Por que não escolher José do Patrocínio, Machado de Assis ou Lima Barreto como exemplos da força de pretos e mestiços? Só uma sílaba do nome do Machado de Assis vale mais para a nação que mil rebeliões de Zumbi dos Palmares.

Quer saber de uma coisa? Da próxima vez que eu resolver colocar meu cérebro de molho, eu vou ficar aqui na Internet mesmo ou folhear um livro só de figuras. Melhor que assistir àquelas coisas.

Thursday, November 17, 2005

Dominando o ímpeto de publicar

Olá, bom leitor. Desculpe pela minha demora. Todavia, por mais estranho que possa parecer, quem escreve em blogs é gente, e, como qualquer ser humano que se preza, o garrancheador de blogs gosta de tirar umas férias de vez em quando. Mas férias no sentido de publicações. Estou bem longe de deixar de escrever: ao contrário, basicamente todo dia dou um garrancheio aqui no meu computador, um outro ali no meu caderno, sem contar os textos que ficam guardados nas inúmeras gavetas de meu cérebro bizarro. Ah, que ímpeto de escrever! É desse jeito que geralmente emprego minha liberdade.

Se o ímpeto de escrever é quase incontrolável, ao menos o de publicar é domesticável.

E meus textos estavam mal-acostumados. Nem entravam em forma e já se exibiam. Vou deixá-los por mais essa semana fazendo ginástica, pois quero que fiquem mais saudáveis, fortes e atraentes. Melhor dizendo: mais verdadeiros.

Na próxima semana deixarei que eles venham brincar por aqui, pois não sou um pai muito controlador, quiçá relapso, mais no fundo um pai amoroso. Mas de nada adiantará aos meus filhinhos, tão dependentes de mim, se papai não dormir direitinho. Portanto vou me deitar. Bom dia, leitor.

Sunday, October 30, 2005

Por que 007 é tão legal?

Às vezes fico pensando se o governo de Sua Majestade sustentaria as mulheres que James Bond porventura engravidasse em suas missões. Mas nunca ninguém engravida. Bom, supondo que engravidassem, pela perfomance do agente secreto em suas missões julgo que daria para a Inglaterra fundar pelo menos uma nova cidade.

Mas 007 sabia se precaver, sabe-se lá como. Talvez fosse questão de sorte - sim, ele a tinha demais -, ou algum invento do Q que impedisse que as bond-girls engravidassem. Uma coisa é certa: levando-se em consideração o Labour Party, na certa iam dar um seguro social a todas elas, e já imagino o golpe das bond-girls, querendo ter um filhinho só para conseguir uns trocados e cidadania inglesa.

O fato de algo assim me intrigar não é o único motivo de eu gostar muito dos filmes do James Bond. Aliás, para mim é inconcebível que não gostem dele, mesmo quando apontam as falhas de roteiro, cenários bregas e cafonas, mentiras deslavadas, etc, etc. Nem todos os filmes dele são assim (ou melhor, só assim), e mesmo os que são se tornam, quando a gente pega tudo isso em conjunto, as coisas mais divertidas, ainda que às vezes constrangedoras... Em suma, é um daqueles filmes de ação divertidos, e sinto falta quando não há um vilão singularmente demente, cafona, megalomaníaco, com um braço-direito doido, ou quando não há uma forçação de barra tremenda.

James Bond é um personagem muito legal. Viaja por todo o mundo, namora as mulheres mais lindas, tem as geringonças mais modernas e inventadas por Q, adora jogar em cassinos, tem um senso de humor legal, às vezes bizarro, é um super-espião super-treinado, e, acima de tudo, está sempre salvando o mundo a serviço de Sua Majestade. Ah, e eu já ia me esquecendo: ele adora uma vodka Martini batida, não mexida (há um monte de sites explicando inclusive a diferença entre um e outro tipo). Do ponto de vista sumamente mundano, é o herói perfeito.

Ian Fleming, sujeito que criou tudo isso, era do serviço secreto britânico, no setor responsável pela segurança externa, MI-6 (Military Inteligence, Section 6). Filho de um major que foi morto na Grande Guerra, Fleming estudou na Universidade de Munique, tendo antes passado pela Academia Militar. Tinha facilidade para línguas. Trabalhou também como jornalista, e no período da Segunda Guerra serviu como oficial de elevada patente na Royal Navy no setor de Inteligência, retornando posteriormente ao jornalismo.

Foi exatamente um sujeito com experiência no mundo da espionagem e jornalismo que criou as histórias mirabolantes de 007. Ninguém pode portanto dizer que Fleming, do qual nunca li nenhum livro mas tenho grande vontade de conhecer algum, era um intrometido dizendo coisas malucas e fantasiosas sem conhecimento de causa. (Aliás, Paulo Francis disse certa vez que, em relação ao sexo, os filmes são água com açúcar se comparados com os livros, porque segundo Francis os filmes foram feitos tendo em mente o público dos EUA, bastante puritano.)

Mas por que enfim 007 se tornou tão famoso? Alguns motivos eu já dei: seu carisma, suas viagens pelo mundo, seus vilões megalomaníacos, as bond-girls maravilhosas, etc. É um filme de ação que explora direitinho o que há de mais "espetaculoso" no mundanismo: a cobiça e a luxúria, com muita classe (de um jeito caricaturado ou não), ao redor de cassinos, Martínis e paisagens pitorescas. Além do mais, os vilões não tem um tipo de cobiça qualquer, mas querem geralmente colocar o mundo de joelhos, nem Bond namora uma mulher qualquer, mas só as mais maravilhosas – sempre para cumprir seu dever para Sua Majestade. E - lá vou eu me repetir - aquelas geringonças de última tecnologia são tão legais que se tornam quase uma personagem coadjuvante: sempre elas têm de aparecer, sempre com nova roupagem - e por tabela Q, e agora esse outro que o sucederá.

Só me resta dizer alguma coisa sobre o pessoal que já interpretou 007. Sean Connery era o melhor por causa de sua presença - como eu poderia dizer? - máscula na tela. Grande, rosto quadrado e de marcas fortes, porém sofisticado e sabendo passar a ironia do personagem, conseguiu juntar tudo isso muito bem. Roger Moore conseguia ser ainda mais irônico. Foi o mais "gentleman" dos 007. Timothy Dalton não conseguia imitar nem a ironia nem o atletismo, foi o pior (só vi dele o Licence to Kill, que também em nada o ajudou - filminho que quase afundou de vez a série -, diga-se a verdade, parecendo uma versão um pouquinho mais sofisticada de Desejo de Matar). Pierce Brosnan, embora não chegasse aos pés de Moore e Connery, assumiu muito bem o papel, talvez sendo um dos James Bond mais charmosos. Do restante não posso dizer nada, porque não os vi.

Sunday, October 23, 2005

Zeus, Prometeu, Atena e o Cabeleireiro dos Deuses*

*Baseado em uma fábula de Esopo

Lá no grandioso Olimpo, no início do mundo, houve uma disputa entre os deuses para saber quem criava a coisa mais bela. Eis os contendores: o tonitruante Zeus, o perscrutador do futuro Prometeu e a de olhos glaucos Atena. O primeiro exibia com orgulho um animal grande, forte e chifrudo, batizando-lhe “touro”; o segundo acabara de fazer uma criatura das mais intrigantes. Embora tivesse aparência frágil, ele a ostentava como um ser de futuro promissor, chamando-lhe “homem”; por sua vez, Atena usou seus conhecimentos em arte para fazer uma construção que ao mesmo tempo fosse bela e prática, chamando-lhe “casa”.

Só que havia um problema. Nenhum outro deus queria ser árbitro daquela disputa. Alguns achavam menos pior serem arremessados do Olimpo direto para o Tártaro, embora Hefesto, por experiência própria, visse naqueles dizeres um certo exagero. Então Zeus, sapientíssimo, chamou Hermes e disse-lhe: “Meu caro, posto que eu mesmo estou envolvido na contenda, só há uma criatura neste mundo que poderá ser juiz de tão singular disputa, pois ela é próxima de todos nós e ousada, se bem que um tanto invejosa. Chame rapidamente o Cabeleireiro dos Deuses.” Enquanto Hermes era assim despachado, Zeus virou-se para os demais e continuou: “Mas não falemos que fomos nós que criamos aqueles seres, para não influenciarmos sua decisão”. Todos os deuses aplaudiram e ovacionaram Zeus pela sua sábia decisão, chegando Dionísio a ensaiar uma dança esquisita, e já estava pronto para rebolar em frenesi, quando Apolo achou por bem retirá-lo daquele augusto recinto, não sem antes chamá-lo de bêbedo e celerado.

Hermes foi correndo cumprir sua ordem e em fração de segundos voltou acompanhado por uma figura das mais singulares. Ela vinha com plumas na cabeça, uma peruca dourada, enorme, cheia de purpurina, pó-de-arroz em excesso no rosto, milhares e milhares de cordões, argolas, pulseiras e outras coisas, além de um salto alto enorme, do tamanho de um pigmeu da África. Por baixo desse imenso aparato, ela vestia uma toga feita com pele de tigre branco, repleta de esmeraldas. Oh, e que dizer de seu portentoso leque rosa, do tamanho de um gládio? Um pequeno séqüito vinha junto, cujos membros eram parecidos com aqueles sujeitos jovens de masculinidade duvidosa que Caravaggio tanto gostava de pintar. Eles pulavam de um lado para o outro e jogavam rosas por onde quer que aquela criatura viesse a passar. Então o portador do caduceu, fazendo vários rapapés e salamaleques para o pai dos deuses, disse-lhe: “Eis aqui o Cabeleireiro dos Deuses, conforme a vossa vontade.” Zeus agradeceu e pediu para que ele se aproximasse. Mal tendo chegado perto do pai dos deuses, ele não perdeu a oportunidade para falar: “Oie, meus fa-bu-lo-sos e di-vi-nos patrões! Eu estava tão atarefadinho, ai! Olha bem, hein?, tomara que esses divinos tenham me chamado por um motivo mui-to bom, se não vou rodar a baiana, viu? Vocês não sabem quem eu estava penteando agora pouco, é um babado! Ela estava vestindo...” O tonitruante interrompeu-o logo: “Tudo bem, ó embelezador de divindades, não diga mais nada. Chamei-te para que avalies qual...”

O Cabeleireiro interrompeu a fala de Zeus subitamente, estalou os dedos, chamou seu séqüito e lhe pediu para que pegasse escova, pó-de-arroz e rímel. Na velocidade de um relâmpago, lá estava o Cabeleireiro maquiando Zeus, que se debatia em seu trono de ouro. “Que se passa? O que estás fazendo?”, perguntava. “É que você está tão abatido, fabuloso...”, respondeu-lhe o maquiador de deuses. E continuou, enquanto os mancebos deitavam tanto pó no rosto do deus que uma nuvem se formava ao seu redor: “Acho que é muito trabalho. Já falei para colocar rodelas de pepino nesses olhinhos, ai, ai, ai! E esse cabelo! Venham, bambinos, vamos deixar esse deus glamuroso!” “Saiam para lá, fiquem quietos e me ouçam!”, disse o tonitruante, enquanto meio que às cegas arremessava alguns raios no chão, dois dos quais atingiram o bumbum de um pobre jovem do séqüito. Assim que a calma imperou, Zeus prosseguiu: “Como eu estava dizendo, chamei-te para que avalies qual ser dentre os que te apresentaremos é superior. Como nenhum deus quis ser árbitro desta disputa olímpica, julguei que apenas tu podias ser nosso juiz, tanto pela alta estima que nutrimos por ti, como pela imparcialidade e ousadia de teus pareceres, coisa que todos os numes concordaram.” Enquanto uma lágrima brincava de escorregar pela face do Cabeleireiro, a qual foi rapidamente secada por um dos jovens a fim de não estragar sua maquiagem, ele agradecia efusivamente por aquela honra: “Ai, que emoção louca, sinta meu coração palpitando, parece que vou ter um treco! Me segurem, bambinos...”, dizia. “Controla-te, ó maquiador supremo, e nos acompanhe”, ordenou Zeus.

Então aqueles três deuses e o Cabeleireiro, acompanhados por uma multidão de deuses, ninfas e outras criaturas muito legais, chiques e fabulosas, se dirigiram para um salão enorme, semelhante ao Panteão. Havia um palco no meio, com três panos roxos que envolviam cada um caixas enormes ou alguma outra coisa quadricular. Zeus chamou então Circe, que estava vestida com um maravilhoso vestido rosa brilhante (embora seu cabelo enorme estilo anos 60 fosse considerado por muitos démodé), pedindo-lhe que retirasse os panos que cobriam as criações. Ela então encostou os dedos indicadores nas têmporas e balançou a cabeça de olhos fechados, produzindo um som assaz brega. Eis que de repente os panos sumiram! Era possível agora ver cada uma das criações, dentro de cubos transparentes e adornados com motivos florais. Havia uma inscrição na parte de baixo dos cubos indicando o nome das criações (tudo em grego, evidentemente), mas sem a autoria. Uma banda regida por Euterpe tocava uma musiquinha janota ao fundo. Ah, eu já ia me esquecendo de dizer que lá de cima do óculo (eu já disse que o salão era parecido com o Panteão, certo?) uma luz bem amarelada esparramava-se bem em cima daquelas "obras de arte". Embora o espetáculo fosse meio kistch, e talvez exatamente por esse motivo, o Cabeleireiro estava muito empolgado, achando tudo “di-vi-no”, “um most” e “gla-mu-ro-so”. O séqüito batia palmas um tanto efeminadamente, mas não muito para os padrões olímpicos.

Zeus pediu para que a musiquinha cessasse e ordenou então que o Cabeleireiro começasse a avaliação. Todos estavam ansiosos. Ele primeiro foi olhar o touro. Colocou a mão em seu queixinho fino, olhou bem, deu uma, duas, três voltas ao redor do cubo e, abrindo seu portentoso leque e abanando-se efusivamente, deu seu parecer: “Ai, credo, que hor-ror! Está muito ruim, está muito ruim. Olha que coisa ridícula esses chifres. E olha onde estão os olhos! O bofe que criou esse bichão tinha de pô-los em cima dos chifres, (em ci-ma, captou?) porque aí, quando o touro abaixasse a cabeça para dar uma chifrada, ele continuaria olhando para onde estava indo.” Depois de dar uma risadinha discreta, porém abafada com sua luva de pelica, disse: “Nota dois pela falta de inteligência de quem a criou e um e meio pela feiúra da obra.” Alguns deuses deram uma risadinha, enquanto Zeus, com muita dificuldade, mantinha seu autocontrole. Foi então o Cabeleireiro olhar o homem. Observou-o com cuidado, retirando do bolso um daqueles óculos com uma pequena haste ao lado. Vez ou outra exclamava algo como “hm” e “ai”. Pediu em seguida para que abrissem o cubo a fim de “fazer uma avaliação mais completa”, segundo suas próprias palavras. Depois de apalpar por um certo tempo o homem (que acabou ficando muito vermelho por sinal), o Cabeleireiro emitiu novamente um parecer desdenhoso: “Tsc, tsc, tsc... Vocês parecem que não pensam, nos-sa!” Apontando o leque para o peito do homem, prosseguiu: “Colocaram o coração dentro desse peito cabeludo. Que burrice, santas! O coração tinha de ficar do lado de fo-ra, bem em cima da tes-ta (aqui ele apontava o leque para a testa do homem), porque aí a gente ia ver di-rei-ti-nho o que cada um é de verdade e não ficaria escondido nada de ruim. Nota dois pela falta de inteligência e sete pela voluptuosidade da obra. Se misturassem esse homem com aquele touro, ai, não ia ser um escândalo? Faltou um pouco de sofisticação aqui.” Prometeu estava furioso da vida, mas Epimiteu o ajudou a manter a calma. Por último ele foi analisar a casa. Já com um olhar de reprovação, mal tendo visto direito aquela obra, o Cabeleireiro começou a criticá-la: “Ai, meus di-vi-nos, o que não seria de vocês se não fosse meu ótimo gosto? Olha só essa casa, que coisa pa-vo-ro-sa. E se algum malvado se estabelecesse nas vizinhanças? A casa tinha de ter rodinhas para que o dono a empurrasse para longe, não é? Onde estão elas? Ai! Que falta de imaginação! Só gentinha ia fazer um negócio tão off. Nota dois em todos os quesitos. Agora chega de cafonice, né? Olhem que bela peruca eu fiz, essa sim é mais bonita que tudo isso aí. Esperem até eu mostrar meus vestidos de noiva para vocês.” Palas Atena mordia os lábios com fúria cega.

Começou um falatório enorme no salão. O Cabeleireiro, enquanto isso, mostrava as perucas e os vestidos de noiva que havia criado, dizendo que seriam a última moda no Olimpo. Não cessava de dar nota dez para suas próprias criações, às vezes até onze. Aquilo era demais para a paciência de Zeus. Completamente indignado, Zeus potentíssimo segurou o Cabeleireiro pelas pernas e o virou de ponta cabeça. O séqüito ensaiou um “ooooh”, que não teve vida longa por causa de suas gargantinhas frágeis. Por estar de cabeça para baixo, a peruca do maquiador dos deuses caiu, causando risadas entre todos. Zeus o levou assim até a beirada do Olimpo, acompanhado pela multidão de deuses e demais criaturas legais, chiques e fabulosas. Enquanto caminhava, disse-lhe: “Ó besta desavergonhada, fomos nós deuses que criamos tudo aquilo. Eu, o touro; Prometeu, o homem; Atena, a casa. Mas tu, além de ousadamente nos criticar cheio de inveja, ainda por cima elogiaste tuas perucas e vestidos de noiva acima de nossas obras. Vejamos se continuarás cheio de garbo depois que eu te arremassar para fora do Olimpo.” Então o pai dos deuses, ignorando as súplicas do infeliz, arremessou-o bem longe, fazendo o mesmo com todo o seu séqüito. “Isso dói, isso dói...”, dizia Hefesto, fazendo caretas de dor só em pensar naquela queda.

Vários aplaudiram aquela sábia decisão e disseram: “Viva el-rei Zeus!”, embora outros lamentassem o fato de a partir daí não estarem mais atualizados com a última moda. Então Euterpe voltou com a banda e começou outra musiquinha janota. Dionísio novamente apareceu, desta vez nu, balançando seu bumbum e fazendo caretas. E novamente começou outra discussão entre os olímpicos.

Epílogo

O Cabeleireiro dos Deuses e seu séqüito foram arremessados tão longe e com tanta força que foram parar no Tártaro, fazendo um estrondo tremendo na queda. Hades, acordado com o barulho, saiu de pijamas para ver o que foi aquilo. “De novo aqueles porcalhões do Olimpo jogaram entulho aqui. Será que pensam que meus domínios são um lixão?”, ele resmungava, enquanto chamava Perséfone para começar a limpeza. “Pelo menos da última vez deu para reaproveitar o ar-condicionado que jogaram fora”, respondeu-lhe a esposa, com creme no rosto, amarrando o roupão e saindo com o esposo. Mas para a surpresa do casal infernal, eles se depararam com aquele singular grupo. Mal o ex-maquiador dos deuses observara enfim onde estava e vira aquele casal, balançou negativamente a cabeça e começou a dizer: “Que lugar mais feio, tão down! Que roupinhas ca-fo-nér-ri-mas a de vocês! E que carinhas são essas, hein?” E levantando-se com um certo esforço, ajudado pelos jovens, disse-lhes: “Vamos, bambinos, temos muito trabalho!”

Hades e Perséfone se entreolhavam confusos.