Dia desses eu estava me lamentando pelo fato de não haver mais aquelas aventuras em território inóspito e repleto de selvagens de antigamente, quando um amigo meu me relatou suas agruras no Colégio de Aplicação aqui do Rio de Janeiro. Ofensas, ataques da turba, relaxamento moral, covardia da direção, tudo isso houve. Pois então eu pensei cá comigo: na falta de índios do Velho Oeste, bárbaros citas, dervixes furiosos ou repugnantes canibais, temos os nossos selvagens estudantes do secundário (sem contar os do ensino superior) - e por extensão seus rudes mestres.
Quando uso a expressão "selvagem", apenas constato o fato da civilização não ter se aprofundado na alma de boa parte dos indivíduos que está na escola - que, ironicamente, em teoria serve para lhes ensinar seus rudimentos. Aliás, não digo algo muito diverso do próprio Ortega y Gasset quando ele se referia ao barbarismo moderno. Quando você tem apenas as noções superficiais de civilização, quando você não a tem radicalmente em tua vida, então você é um bárbaro, independente da espessura da casca de saber que haja em ti.
O mais bizarro de tudo é que essa selvajaria é tão disseminada, tão reproduzida, que não seria loucura nenhuma imaginar que ela, como aliás costuma haver em qualquer tipo de loucura, é metódica. É um fato presente demais para ser um simples acaso: daí essa sua característica moderna - e "técnica". Há mesmo professores e teóricos que dão seu sangue em prol dela. Pois como explicar que normalmente, ao contrário das expectativas de qualquer indivíduo minimamente sensato, o sujeito saia mais burro, perigoso e selvagem da escola que antes de ter entrado? Como explicar que num tempo em que tantos freqüentam escolas, nunca houve gente mais tola e sem-educação quanto agora? Não era para ser precisamente o oposto?
Vou me explicar melhor. O problema não é a nossa notória indolência, nem o nosso temperamento cordial, nem o nosso caráter frívolo e/ou festeiro. Neca de pitibiriba. Se essa fosse a questão, então ninguém olharia para o passado a fim de relembrar dos nostálgicos tempos em que, segundo os mais velhos, as escolas eram boas (ainda que sempre achemos o passado melhor): sempre teria sido como hoje em dia. Mas não é verdade. Essas loucuras e desordens são muito claramente atuais.
Por que as coisas estão desse modo?
Resposta: não sei dizer. Mas que é muito esquisito, é.
Porém ao menos essa situação vexatória serve como experiência interessante, pois assim dá para termos uma pálida idéia do tipo de coisa que os missionários portugueses tiveram de enfrentar durante a catequização dos índios, ou assim podemos imaginar como se comportavam as tribos germânicas pré-romanização e pré-cristianismo. A substância, definitivamente, é a mesma. A originalidade é o fato de ser sistemática a transmissão da loucura, como uma doença contagiosa. Numa palavra: sistematicamente idiota. E tem gente que até se orgulha disso...
***
A Cris, do blog Ego Confession, disse: "Cada dia que passa eu tenho mais vontade de me enfiar num filme do Fred Astaire ou num dos desenhos dos Jetsons." Ela não é a única... Eu mesmo já me imaginei cerca de cento e trinta e duas vezes em um mosteiro. Não haveria monges dançando na chuva ou pilotando carros voadores, mas é, no meu estranho ponto de vista, algo equivalente.
Aliás, o ambiente ao nosso redor é projeção de nosso espírito. Mesmo quando as circunstâncias nos são desfavoráveis é possível fazer o bem. A arte, por exemplo, não tem a sua medida de grandeza no fato de vencer a resistência da matéria inerte a ponto de transformá-la em coisa quase espiritual, uma espécie de reflexo da alma do artista? E que é o senso poético senão uma forma de transcendência da precariedade deste mundo? Ora, onde faltam o senso poético e a arte o caos e a matéria bruta imperam. Sendo assim, pelo menos a minha cidade, o Rio de Janeiro, está assim tão caótica e brutal (numa palavra: feia) porque tem faltado a nós cariocas um mínimo senso poético e artístico. Nosso espírito tem comido muito pó ultimamente.
Onde faltam Astaires, abundam Cidades de Deus.
***
Um assunto está relacionado intimamente ao outro, porque onde impera a selvajaria, falta a beleza. Se nosso espírito é selvagem, como nosso ambiente poderá ser belo? Não, pelo contrário: é essa feiúra de doer que costuma nos agredir assim que colocamos nossos pés para fora de casa. Melhor dizendo, nem dentro de nossas casas estamos a salvo. Basta ligarmos a tv ou o rádio para sermos chicoteados pelo mau gosto. Ou mesmo basta irmos até a janela e nos depararmos, atônitos, com um vizinho enorme de gordo fazendo polichinelo ao som de música sertaneja. Eis o bravinho novo mundo.
Não sei dizer qual a solução para um mal tão enorme. Da minha parte, sigo o lema do Chapolim Colorado: "Siga-me os bons!" A imitação dos bons é um fruto que certamente dará bons resultados. Isso implica em saber escolher. Qual é o critério? Talvez experimentando de tudo e ficando com o melhor. Não é assim a nossa vida? Então nada melhor que nos educarmos da mesma maneira que vivemos. É ao menos a minha idéia e o que tento fazer, se bem que toscamente.
Friday, October 14, 2005
Wednesday, October 12, 2005
Há moças que não conhecem Johnny Depp
Eu ia escrever sobre a razão do mundo ter sido criado e qual a finalidade última do homem, porém algo mais urgente me incomoda, algo que desnorteou meus padrões a respeito de garotas e que vale a pena registrar. É que conheci um grupo delas que nunca, jamais ouviu falar em Johnny Depp (na melhor das hipóteses "se lembrava vagamente").
Johnny Depp! Para mim, toda garota (menos a minha amiga Rosselline, sabe-se lá Deus o motivo) adorava aquele sujeito. E para minha professora de inglês também. Tanto é que, durante a aula de sábado passado, mostrando a foto do ator, perguntou só para as garotas quem era ele. Silêncio. Eu, que havia dormido uma horinha apenas na noite anterior, achei que estava sonhando. "Mas vocês não lembram quem é ele?", ela perguntou. Juro que vi três pontinhos saindo da cabeça de cada uma das moças. "Mas não lembram dele em nenhum filme?", foi a outra tentativa da professora. Nada. Sobrou para mim a tarefa hercúlea de responder, até porque o outro homem da sala era um senhor de idade, o qual, presumivelmente (e depois admitido pela sua própria boca), jamais havia visto tal gajo. "É o Johnny Depp", respondi. As garotas riram, porque antes a professora disse que todas elas saberiam responder. "Pronto, já vão achar que sento na mariola", pensei. Sorte que eu estava com a barba por fazer.
A professora tentava lembrar alguns de seus filmes, mas não conseguia. Lá fui eu ajudar: "Do Inferno, Piratas do Caribe, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça..." Alguém subitamente associou nome e imagem e lembrou de A Fantástica Fábrica de Chocolates.
É verdade que não contribui em nada para a inteligência saber quem é aquele cara. Por outro lado, estou tão acostumado a ouvir que aquele ator é lindo, maravilhoso, etc, que estranhei muito quando um grupo de garotas nem suspeitou quem ele era pela foto. Talvez a partir daí passem a compor o longo fã clube de Johnny Depp, não sei.
PS - Pelas minhas contas, nesses últimos seis anos fui conhecendo, cada vez mais admirado, um pouco melhor as mulheres. Marcos atrás de marcos fui conquistando, como um alpinista que só a duras penas escala o monte imenso e difícil. É claro que meus anos de formação na matéria, dada a sua natural complexidade, ainda estão muito longe de terminar, porém, quando olho para trás, inevitavelmente acho graça dos meus antigos pensamentos a esse respeito. Mas o evento do sábado passado em nada se inclui profundamente nisso. Foi apenas algo curioso.
Johnny Depp! Para mim, toda garota (menos a minha amiga Rosselline, sabe-se lá Deus o motivo) adorava aquele sujeito. E para minha professora de inglês também. Tanto é que, durante a aula de sábado passado, mostrando a foto do ator, perguntou só para as garotas quem era ele. Silêncio. Eu, que havia dormido uma horinha apenas na noite anterior, achei que estava sonhando. "Mas vocês não lembram quem é ele?", ela perguntou. Juro que vi três pontinhos saindo da cabeça de cada uma das moças. "Mas não lembram dele em nenhum filme?", foi a outra tentativa da professora. Nada. Sobrou para mim a tarefa hercúlea de responder, até porque o outro homem da sala era um senhor de idade, o qual, presumivelmente (e depois admitido pela sua própria boca), jamais havia visto tal gajo. "É o Johnny Depp", respondi. As garotas riram, porque antes a professora disse que todas elas saberiam responder. "Pronto, já vão achar que sento na mariola", pensei. Sorte que eu estava com a barba por fazer.
A professora tentava lembrar alguns de seus filmes, mas não conseguia. Lá fui eu ajudar: "Do Inferno, Piratas do Caribe, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça..." Alguém subitamente associou nome e imagem e lembrou de A Fantástica Fábrica de Chocolates.
É verdade que não contribui em nada para a inteligência saber quem é aquele cara. Por outro lado, estou tão acostumado a ouvir que aquele ator é lindo, maravilhoso, etc, que estranhei muito quando um grupo de garotas nem suspeitou quem ele era pela foto. Talvez a partir daí passem a compor o longo fã clube de Johnny Depp, não sei.
PS - Pelas minhas contas, nesses últimos seis anos fui conhecendo, cada vez mais admirado, um pouco melhor as mulheres. Marcos atrás de marcos fui conquistando, como um alpinista que só a duras penas escala o monte imenso e difícil. É claro que meus anos de formação na matéria, dada a sua natural complexidade, ainda estão muito longe de terminar, porém, quando olho para trás, inevitavelmente acho graça dos meus antigos pensamentos a esse respeito. Mas o evento do sábado passado em nada se inclui profundamente nisso. Foi apenas algo curioso.
Sunday, October 02, 2005
Autores impossíveis de encontrar ou que quase ninguém conhece
Aproveitando o gancho do outro post, aproveito para dizer que há uma classe de autores aqui do Brasil cujas obras simplesmente estão no limbo, ainda que sejam importantes e provoquem alvoroço só de serem mencionados.
Façamos eu e você, bondoso leitor, uma pequena digressão. A Idade Média: não é segredo para ninguém a dificuldade que havia para se conseguir algum livro naquela época. Seja São Francisco de Assis, por exemplo. Aquele santo homem não tinha acesso a toda a Bíblia. Ele a tinha em fragamentos e os compartilhava com seus companheiros, de modo que todos pudessem realizar a piedosa leitura do Novo Testamento em pedaços, mais ou menos como fez há muitos séculos atrás aquele outrora legionário e posteriormente santo, São Martinho de Tours, ao rasgar seu manto para dar a metade ao pobre. Pelo contrário, hoje não precisamos em geral passar por tais dificuldades. Aliás, eu mesmo, enquanto escrevo essas linhas tortas, tenho uma bíblia enorme numa prateleira atrás de mim, e me dou ao luxo de ter uma outra, protestante, ali ao lado, e sem contar a Vulgata e a Bíblia de Jerusalém que estão aqui no meu HD. Não faltam os meios para milhares de publicações, mas disso decorre a superabundância de porcarias. Chega a ser incrivelmente pecaminosa e despudorada quantidade de publicações que hoje há, uma espécie de hybris literária! Mortimer Adler dizia que dos milhares de livros que são atualmente publicados, pouca coisa prestava mesmo para uma simples leitura, e menos ainda para outras subseqüentes. Gustavo Corção dizia com outras palavras a mesma idéia: há livros demais no mundo.
Porém há poucos, inacreditavelmente poucos, do próprio Gustavo Corção. Quem quer que goste daquele autor e resolva caçar suas obras terá a sensação de estar subitamente de volta à Idade Média. Por que eu digo isso? Será que eu fiz uma alusão sutil ao seu livro "O Século do Nada", onde em certa altura ele nos diz que o século XIII foi o mais glorioso da história? Pior: será que eu estou na verdade sutilmente dizendo que ele é um retrógrado, um reacionário? Nem tanto nem tão pouco. O problema é justamente o mais básico, é encontrar seus livros.
Alguns deles podemos encontrar sem problemas, como "Lições do Abismo" e "A Descoberta do Outro". Outros são mais complicados, como mulheres que fazem questão de preservar sabe-se lá que mistério, como "As Fronteiras da Técnica" e "Conversa em Sol Maior". Mas há aqueles que são uma espécie de Graal. Me refiro especialmente a três: "As Descontinuidades da Criação", "Dois Amores, Duas Cidades" e o já citado "O Século do Nada". Deus do céu, onde eles estão?
Os dois primeiros são, se não me falha a memória, da década de sessenta; o último é dos idos de setenta. Suspeito que há apenas uma miserável edição de cada. E o pior de tudo é que naqueles três há uma espécie de compêndio da mais vigorosa crítica filosófica (e da civilização moderna) feitas pelo Gustavo Corção, de maneira que não lê-los equivale a conhecer suas mais vigorosas idéias um tanto indiretamente, apenas por deduções. É uma lacuna terrível. Daí que a pergunta que naturalmente brota desse fato seja a seguinte: se são livros tão importantes, e mesmo de alto nível, por que raios não são reeditados? Minha resposta: não sei. Ou melhor, desconfio, mas é um assunto para outra ocasião.
Não menos bizarra é a situação do Olavo de Carvalho. Para alguém que é tão conhecido nos meios intelectuais tupiniquins, é no mínimo bizarro o fato de praticamente todos os seus livros estarem esgotados há tempos. Sobre isso me vem à cabeça um bordão: "quem comprou comprou, quem não comprou não compra mais". Talvez com a ilustre exceção de "O Jardim das Aflições", o leitor que quiser buscar pelos livros do filósofo acabará infelizmente chupando o dedo. Ora, isso acaba criando uma situação paradoxal: até que ponto ele é conhecido, se todos os seus livros são tão difíceis de se achar? Logicamente a pergunta vale também para Gustavo Corção.
Tanto Gustavo Corção quanto Olavo de Carvalho acabam se tornando, dadas as circunstâncias "medievais" de suas publicações, escritores de "dupla face": há aquele que o público em geral conhece pelos artigos de jornal ou pelo ouvir dizer - que é o escritor "exotérico" - e há aquele conhecido por um reduzido grupo de estudantes e estudiosos que tem acesso a todas as suas obras (ou pelo menos às principais) - que é o escritor "esotérico". Levando-se em consideração que tanto um quanto outro não possuem nenhum tipo de ensinamento secreto, então é claro que ambos viraram uma espécie de escritor de "dupla face" não porque quiseram, mas por causa da reação hostil que de uma maneira ou de outra provocaram e ainda provocam em nosso país. Sim, hostis, porque não é segredo para ninguém o tipo de hostilidade que ambos receberam, o que torna mais absurda a questão, pois se quase ninguém conhece de fato suas principais idéias, por que tanta reação animalesca e desproporcional? Por que tanto azedume, a ponto de por exemplo no Orkut criarem várias comunidades insultando o filósofo? Por que várias pessoas, quando se referem ao Corção, fazem caretas? Sendo pessoas tão díspares e de tão variadas influências intelectuais, o que ambos têm que desagrada a tanta gente?
Sim, meus amigos, há um motivo em especial, o qual engloba ainda muitos outros autores - e não necessariamente nacionais. Dei apenas como exemplo aqueles dois. Tal motivo está além do já notório problema do volume incomensurável de lixo que sai do prelo, inunda as livrarias e deságua na mente do infeliz leitor, devastando sua inteligência e finalmente criando uma barreira de entulho entre ele e as obras de real valor. É verdade que isso faz parte do problema. Mas não será agora que tratarei de buscar uma explicação para esse desconcertante fato. Que você guarde apenas o seguinte: o que era uma deficiência (em certo sentido uma feliz deficiência!) da Idade Média, hoje é praticado de forma metódica aqui no Brasil, de maneira que uma série de valiosíssimos autores são arremessados no limbo, enquanto superabundam outros de duvidosa procedência e de má catadura. E me calarei sobre o tipo de formação que conseqüentemente recebemos.
Façamos eu e você, bondoso leitor, uma pequena digressão. A Idade Média: não é segredo para ninguém a dificuldade que havia para se conseguir algum livro naquela época. Seja São Francisco de Assis, por exemplo. Aquele santo homem não tinha acesso a toda a Bíblia. Ele a tinha em fragamentos e os compartilhava com seus companheiros, de modo que todos pudessem realizar a piedosa leitura do Novo Testamento em pedaços, mais ou menos como fez há muitos séculos atrás aquele outrora legionário e posteriormente santo, São Martinho de Tours, ao rasgar seu manto para dar a metade ao pobre. Pelo contrário, hoje não precisamos em geral passar por tais dificuldades. Aliás, eu mesmo, enquanto escrevo essas linhas tortas, tenho uma bíblia enorme numa prateleira atrás de mim, e me dou ao luxo de ter uma outra, protestante, ali ao lado, e sem contar a Vulgata e a Bíblia de Jerusalém que estão aqui no meu HD. Não faltam os meios para milhares de publicações, mas disso decorre a superabundância de porcarias. Chega a ser incrivelmente pecaminosa e despudorada quantidade de publicações que hoje há, uma espécie de hybris literária! Mortimer Adler dizia que dos milhares de livros que são atualmente publicados, pouca coisa prestava mesmo para uma simples leitura, e menos ainda para outras subseqüentes. Gustavo Corção dizia com outras palavras a mesma idéia: há livros demais no mundo.
Porém há poucos, inacreditavelmente poucos, do próprio Gustavo Corção. Quem quer que goste daquele autor e resolva caçar suas obras terá a sensação de estar subitamente de volta à Idade Média. Por que eu digo isso? Será que eu fiz uma alusão sutil ao seu livro "O Século do Nada", onde em certa altura ele nos diz que o século XIII foi o mais glorioso da história? Pior: será que eu estou na verdade sutilmente dizendo que ele é um retrógrado, um reacionário? Nem tanto nem tão pouco. O problema é justamente o mais básico, é encontrar seus livros.
Alguns deles podemos encontrar sem problemas, como "Lições do Abismo" e "A Descoberta do Outro". Outros são mais complicados, como mulheres que fazem questão de preservar sabe-se lá que mistério, como "As Fronteiras da Técnica" e "Conversa em Sol Maior". Mas há aqueles que são uma espécie de Graal. Me refiro especialmente a três: "As Descontinuidades da Criação", "Dois Amores, Duas Cidades" e o já citado "O Século do Nada". Deus do céu, onde eles estão?
Os dois primeiros são, se não me falha a memória, da década de sessenta; o último é dos idos de setenta. Suspeito que há apenas uma miserável edição de cada. E o pior de tudo é que naqueles três há uma espécie de compêndio da mais vigorosa crítica filosófica (e da civilização moderna) feitas pelo Gustavo Corção, de maneira que não lê-los equivale a conhecer suas mais vigorosas idéias um tanto indiretamente, apenas por deduções. É uma lacuna terrível. Daí que a pergunta que naturalmente brota desse fato seja a seguinte: se são livros tão importantes, e mesmo de alto nível, por que raios não são reeditados? Minha resposta: não sei. Ou melhor, desconfio, mas é um assunto para outra ocasião.
Não menos bizarra é a situação do Olavo de Carvalho. Para alguém que é tão conhecido nos meios intelectuais tupiniquins, é no mínimo bizarro o fato de praticamente todos os seus livros estarem esgotados há tempos. Sobre isso me vem à cabeça um bordão: "quem comprou comprou, quem não comprou não compra mais". Talvez com a ilustre exceção de "O Jardim das Aflições", o leitor que quiser buscar pelos livros do filósofo acabará infelizmente chupando o dedo. Ora, isso acaba criando uma situação paradoxal: até que ponto ele é conhecido, se todos os seus livros são tão difíceis de se achar? Logicamente a pergunta vale também para Gustavo Corção.
Tanto Gustavo Corção quanto Olavo de Carvalho acabam se tornando, dadas as circunstâncias "medievais" de suas publicações, escritores de "dupla face": há aquele que o público em geral conhece pelos artigos de jornal ou pelo ouvir dizer - que é o escritor "exotérico" - e há aquele conhecido por um reduzido grupo de estudantes e estudiosos que tem acesso a todas as suas obras (ou pelo menos às principais) - que é o escritor "esotérico". Levando-se em consideração que tanto um quanto outro não possuem nenhum tipo de ensinamento secreto, então é claro que ambos viraram uma espécie de escritor de "dupla face" não porque quiseram, mas por causa da reação hostil que de uma maneira ou de outra provocaram e ainda provocam em nosso país. Sim, hostis, porque não é segredo para ninguém o tipo de hostilidade que ambos receberam, o que torna mais absurda a questão, pois se quase ninguém conhece de fato suas principais idéias, por que tanta reação animalesca e desproporcional? Por que tanto azedume, a ponto de por exemplo no Orkut criarem várias comunidades insultando o filósofo? Por que várias pessoas, quando se referem ao Corção, fazem caretas? Sendo pessoas tão díspares e de tão variadas influências intelectuais, o que ambos têm que desagrada a tanta gente?
Sim, meus amigos, há um motivo em especial, o qual engloba ainda muitos outros autores - e não necessariamente nacionais. Dei apenas como exemplo aqueles dois. Tal motivo está além do já notório problema do volume incomensurável de lixo que sai do prelo, inunda as livrarias e deságua na mente do infeliz leitor, devastando sua inteligência e finalmente criando uma barreira de entulho entre ele e as obras de real valor. É verdade que isso faz parte do problema. Mas não será agora que tratarei de buscar uma explicação para esse desconcertante fato. Que você guarde apenas o seguinte: o que era uma deficiência (em certo sentido uma feliz deficiência!) da Idade Média, hoje é praticado de forma metódica aqui no Brasil, de maneira que uma série de valiosíssimos autores são arremessados no limbo, enquanto superabundam outros de duvidosa procedência e de má catadura. E me calarei sobre o tipo de formação que conseqüentemente recebemos.
Saturday, October 01, 2005
Em busca de "Dois Amores, Duas Cidades"
Peguei meu capuz e minha espada e saí a buscar pelo meu prêmio, "Dois Amores, Duas Cidades". Ô livro difícil de encontrar, já faz anos que procuro, procuro... e nada.
Pois se o leitor deduziu, a julgar o início deste texto, que eu o encontrei, está enganado! Novamente minha busca foi infrutífera, se bem que, da mesma forma que já dizia o bordão "Deus escreve certo por linhas tortas", acabei encontrando outros livrinhos que parecem ser interessantes.
Na verdade, acho divertido sair em busca de livros em sebos, mesmo se o lugar parecer mais uma fachada para algum tipo de atividade criminosa. Tinha um sebo assim na esquina de uma rua aqui perto mas que esqueci o nome - é a da sede da Polícia Civil - com uma outra rua que também não lembro como se chama, embora eu passe por ali com uma freqüência absurda. (Tenho um problema terrível com nomes de rua, embora eu saiba, por experiência, como chegar em tal e tal lugar, como os ratos e demais criaturas.) O lugar era parcialmente devastado e os indivíduos ali dentro tinham má-catadura, além de, logo na entrada, ter sentado um traveco velho. Que lugar esquisito. Mas isso foi há anos, porque hoje em dia aquilo virou um sebo decente - onde aliás comprei uns dois livrinhos.
Já esquadrinhei o Centro da cidade - talvez exceto um ou outro lugar que eu tenha me esquecido - sem encontrar o dito livro. Mas a cidade é grande, há vários e vários sebos - ou supostos sebos - por aqui. Minha cruzada então continuará, pelo menos até eu voltar a ter dinheiro, pois gastei tudo hoje.
Ah sim, eu já ia esquecendo o propósito deste post: se alguma alma caridosa souber onde estão vendendo "Dois Amores, Duas Cidades", de Gustavo Corção, dois volumes, editora Agir, por favor acene de modo educado. Se for leitora caridosa e solteira, me caso na hora. Se leitor, um muito afetuoso porém não efeminado abraço já basta. Bom dia.
Pois se o leitor deduziu, a julgar o início deste texto, que eu o encontrei, está enganado! Novamente minha busca foi infrutífera, se bem que, da mesma forma que já dizia o bordão "Deus escreve certo por linhas tortas", acabei encontrando outros livrinhos que parecem ser interessantes.
Na verdade, acho divertido sair em busca de livros em sebos, mesmo se o lugar parecer mais uma fachada para algum tipo de atividade criminosa. Tinha um sebo assim na esquina de uma rua aqui perto mas que esqueci o nome - é a da sede da Polícia Civil - com uma outra rua que também não lembro como se chama, embora eu passe por ali com uma freqüência absurda. (Tenho um problema terrível com nomes de rua, embora eu saiba, por experiência, como chegar em tal e tal lugar, como os ratos e demais criaturas.) O lugar era parcialmente devastado e os indivíduos ali dentro tinham má-catadura, além de, logo na entrada, ter sentado um traveco velho. Que lugar esquisito. Mas isso foi há anos, porque hoje em dia aquilo virou um sebo decente - onde aliás comprei uns dois livrinhos.
Já esquadrinhei o Centro da cidade - talvez exceto um ou outro lugar que eu tenha me esquecido - sem encontrar o dito livro. Mas a cidade é grande, há vários e vários sebos - ou supostos sebos - por aqui. Minha cruzada então continuará, pelo menos até eu voltar a ter dinheiro, pois gastei tudo hoje.
Ah sim, eu já ia esquecendo o propósito deste post: se alguma alma caridosa souber onde estão vendendo "Dois Amores, Duas Cidades", de Gustavo Corção, dois volumes, editora Agir, por favor acene de modo educado. Se for leitora caridosa e solteira, me caso na hora. Se leitor, um muito afetuoso porém não efeminado abraço já basta. Bom dia.
Thursday, September 22, 2005
Conversa fora
Olá, caro leitor, como vai? Andou lendo muito? Você ouviu alguma música interessante? Quer contar alguma coisa? Mas me conte depois, pois embora eu não tenha muito assunto, quero divagar um pouquinho.
Hoje acordei com uma notícia extremamente grave: senhor de meia-idade romeno fratura o pinto depois de se distrair vendo a bela esposa de 25 anos lavando a roupa. O senhor carregava um pesado saco quando se excitou vendo a mulher. Então sem querer deixou o saco cair em cima do pinto, que quebrou. “Não pudemos fazer muita coisa”, disse o médico. “Ele poderá usar o pinto para tudo, exceto relações sexuais”. (Aliás, diga-se de passagem que já escrevi uma pequena história parecida.)
Que azar. Parece que ele tinha uns 50 e poucos anos. É equivalente a ganhar na loteria e logo em seguida ter um enfarte. Que será daqui em diante daquele casal? Se pudesse, eu escreveria um e-mail para eles, afinal de contas nós homens temos entre nossa classe uma espécie de elo empático em assuntos de tão grave (e dolorida) natureza. Se quem me está lendo for homem, ótimo, não preciso me justificar. Se mulher, faça um teste: chegue para algum homem e conte essa história. Na hora, garanto, ele, se for mesmo homem, de alguma maneira sentirá uma pontada de dor também, fazendo mesmo alguma caretinha.
Esse tipo de infortúnio é similar ao que havia com George Constanza. Não, ele não vivia quebrando o pinto ou coisa parecida, mas freqüentemente dava um azar monumental quando tudo parecia bem. O fracasso era apaixonado pelo pobre amigo de Seinfeld. Tudo dava errado. Com certeza aquele sujeito, por tantos funestos acontecimentos contra ele, como se o mundo estivesse contra si mesmo, com certeza ele devia ser gnóstico. Seinfeld era judeu, Elaine não sei, e Kramer... Bem, esse acho que nem Deus explica.
Infelizmente esse assunto que escolhi para abrir este texto é como o sexo: não dá para inventar muito e variações demais podem causar algum mal. É dessas coisas que dão tédio. Mas por falar nisso (em tédio, não em sexo), senti um súbito cansaço com relação ao Orkut. Talvez seja a overdose – embora varie de objeto para objeto –, porque tenho passado tempo demais por lá. Basicamente as mesmíssimas pessoas que conheço fazem parte da minha lista de contato. Logo, por que diabos fico entrando lá? Certo, as comunidades... Estou em mais de cem, o que não é nada assombroso, já que vi com esses olhos aqui que a terra há de comer gente que está em mais de 500 e até mesmo em 999 – o diabo de ponta-cabeça, segundo interpretação “midraxiana” que acabei de fazer. (Quem sabe não viro mestre judeu? Por sinal, certa vez, no Saturday Night Live, um comediante estava andando de um lado para o outro quando quase tropeça num fio elétrico. Ele: “Nossa, quase viro judeu”. Vi faz anos aquilo, mas até hoje fico rindo.) Também vi o perfil de um sujeito gordinho, dos seus 40 e poucos anos e que estava em mais de 500 comunidades dedicadas ao Chavez et magna caterva. Até criaram uma comunidade para o infeliz.
Eu criei uma também: “Saudades da Inquisição”, onde há uma descrição explicando o motivo do nome e tal, mas que ainda assim uma miríade de antas entra para perturbar, ofender e cobrar por explicações. Até com o Holocausto comparam a Inquisição. Por essas e outras dá vontade de ser professor, só para ensinar para uns poucos que a Inquisição estava muito, mas muito longe de ser como o Holocausto, que a Revolução Francesa por exemplo estaria talvez mais próxima disso, etc, etc, etc. E dá vontade também de virar professor só para tentar explicar alguma coisa que valha sobre a Idade Média. E é melhor virar professor que purpurina, muito embora minha vida não esteja pendendo nem para um lado nem para outro. Mas estou fugindo do assunto, ou ele está escapando de mim. Assunto, vem cá, vem.
Há comunidades legais no Orkut, umas bem engraçadas. Mas pude notar, pela “Gilmore Girls Brasil”, que a quantidade de garotas que gostam daquele seriado é enorme. Será que é um seriado-mulherzinha? Que seja, é de boa qualidade, gosto muito. Há outros seriados que gosto bastante, como O.C., Smallville, etc. Detesto aqueles do tipo realidade-escrotíssima, com um de polícia que passa na AXN, ou aqueles com gente sendo dissecada ou hospitalizada. Se eu quiser ver um negócio horroroso desses, basta eu andar aqui pela Rua Mem de Sá, onde tem uma churrascaria entre um IML e um INCA, sem contar os travecos e prédios com aparência de Dresden após o bombardeio aliado. É uma das ruas mais horríveis que já vi. Aliás, já divaguei cá com meus botões várias vezes sobre aquela rua, mas deixo minhas opiniões por enquanto dentro do saco.
Por outro lado, voltando ao Orkut, além daqueles reencontros com fulano que há milênios não vemos e que provavelmente não voltaremos mesmo a encontrar sem ser por lá, e sem contar uma ou outra agradável surpresa – afinal de contas sempre conhecemos gente legal –, o que achei mais legal foi ter encontrado o profile do Olavo de Carvalho. Fiquei desconfiado, achando que era falso, mas depois pude ver que não. É legal visitar seu scrapbook. Infelizmente até lá aparecem retardados insultando-o, mas o filósofo nunca deixa nada passar, sempre insultando na mesma medida, o que é sempre engraçado. Eu só soube que ele também usava o Orkut quando uma vez, numa das comunidades dedicadas a ele, durante uma discussão acerca de um artigo seu sobre o darwinismo, e em meio a uma polêmica, ele apareceu e começou a postar um monte de textos indicando as fontes em que se apoiava para dizer o que disse, além de sair refutando todo mundo. É, Sócrates estava perfeitamente certo quando dizia que era um espetáculo interessante a refutação de supostos sábios: não é à toa que O Imbecil Coletivo (tanto o primeiro quanto o segundo) e vários de seus artigos fizeram e fazem com que o Olavo de Carvalho tenha tantos admiradores – e inimigos, claro, claro. É uma leitura divertida e séria ao mesmo tempo, embora a obra do filósofo seja muito mais extensa que sua parte polêmica.
Bom, chega de divagações por ora. E ótimo dia, leitor, adeus. Ou melhor, me conte o que leu, que música ouviu, o que houve contigo. Sabia que adoro dormir de madrugada? Não? Só espere um minuto para eu pegar o cafezinho. Fique à vontade.
Hoje acordei com uma notícia extremamente grave: senhor de meia-idade romeno fratura o pinto depois de se distrair vendo a bela esposa de 25 anos lavando a roupa. O senhor carregava um pesado saco quando se excitou vendo a mulher. Então sem querer deixou o saco cair em cima do pinto, que quebrou. “Não pudemos fazer muita coisa”, disse o médico. “Ele poderá usar o pinto para tudo, exceto relações sexuais”. (Aliás, diga-se de passagem que já escrevi uma pequena história parecida.)
Que azar. Parece que ele tinha uns 50 e poucos anos. É equivalente a ganhar na loteria e logo em seguida ter um enfarte. Que será daqui em diante daquele casal? Se pudesse, eu escreveria um e-mail para eles, afinal de contas nós homens temos entre nossa classe uma espécie de elo empático em assuntos de tão grave (e dolorida) natureza. Se quem me está lendo for homem, ótimo, não preciso me justificar. Se mulher, faça um teste: chegue para algum homem e conte essa história. Na hora, garanto, ele, se for mesmo homem, de alguma maneira sentirá uma pontada de dor também, fazendo mesmo alguma caretinha.
Esse tipo de infortúnio é similar ao que havia com George Constanza. Não, ele não vivia quebrando o pinto ou coisa parecida, mas freqüentemente dava um azar monumental quando tudo parecia bem. O fracasso era apaixonado pelo pobre amigo de Seinfeld. Tudo dava errado. Com certeza aquele sujeito, por tantos funestos acontecimentos contra ele, como se o mundo estivesse contra si mesmo, com certeza ele devia ser gnóstico. Seinfeld era judeu, Elaine não sei, e Kramer... Bem, esse acho que nem Deus explica.
Infelizmente esse assunto que escolhi para abrir este texto é como o sexo: não dá para inventar muito e variações demais podem causar algum mal. É dessas coisas que dão tédio. Mas por falar nisso (em tédio, não em sexo), senti um súbito cansaço com relação ao Orkut. Talvez seja a overdose – embora varie de objeto para objeto –, porque tenho passado tempo demais por lá. Basicamente as mesmíssimas pessoas que conheço fazem parte da minha lista de contato. Logo, por que diabos fico entrando lá? Certo, as comunidades... Estou em mais de cem, o que não é nada assombroso, já que vi com esses olhos aqui que a terra há de comer gente que está em mais de 500 e até mesmo em 999 – o diabo de ponta-cabeça, segundo interpretação “midraxiana” que acabei de fazer. (Quem sabe não viro mestre judeu? Por sinal, certa vez, no Saturday Night Live, um comediante estava andando de um lado para o outro quando quase tropeça num fio elétrico. Ele: “Nossa, quase viro judeu”. Vi faz anos aquilo, mas até hoje fico rindo.) Também vi o perfil de um sujeito gordinho, dos seus 40 e poucos anos e que estava em mais de 500 comunidades dedicadas ao Chavez et magna caterva. Até criaram uma comunidade para o infeliz.
Eu criei uma também: “Saudades da Inquisição”, onde há uma descrição explicando o motivo do nome e tal, mas que ainda assim uma miríade de antas entra para perturbar, ofender e cobrar por explicações. Até com o Holocausto comparam a Inquisição. Por essas e outras dá vontade de ser professor, só para ensinar para uns poucos que a Inquisição estava muito, mas muito longe de ser como o Holocausto, que a Revolução Francesa por exemplo estaria talvez mais próxima disso, etc, etc, etc. E dá vontade também de virar professor só para tentar explicar alguma coisa que valha sobre a Idade Média. E é melhor virar professor que purpurina, muito embora minha vida não esteja pendendo nem para um lado nem para outro. Mas estou fugindo do assunto, ou ele está escapando de mim. Assunto, vem cá, vem.
Há comunidades legais no Orkut, umas bem engraçadas. Mas pude notar, pela “Gilmore Girls Brasil”, que a quantidade de garotas que gostam daquele seriado é enorme. Será que é um seriado-mulherzinha? Que seja, é de boa qualidade, gosto muito. Há outros seriados que gosto bastante, como O.C., Smallville, etc. Detesto aqueles do tipo realidade-escrotíssima, com um de polícia que passa na AXN, ou aqueles com gente sendo dissecada ou hospitalizada. Se eu quiser ver um negócio horroroso desses, basta eu andar aqui pela Rua Mem de Sá, onde tem uma churrascaria entre um IML e um INCA, sem contar os travecos e prédios com aparência de Dresden após o bombardeio aliado. É uma das ruas mais horríveis que já vi. Aliás, já divaguei cá com meus botões várias vezes sobre aquela rua, mas deixo minhas opiniões por enquanto dentro do saco.
Por outro lado, voltando ao Orkut, além daqueles reencontros com fulano que há milênios não vemos e que provavelmente não voltaremos mesmo a encontrar sem ser por lá, e sem contar uma ou outra agradável surpresa – afinal de contas sempre conhecemos gente legal –, o que achei mais legal foi ter encontrado o profile do Olavo de Carvalho. Fiquei desconfiado, achando que era falso, mas depois pude ver que não. É legal visitar seu scrapbook. Infelizmente até lá aparecem retardados insultando-o, mas o filósofo nunca deixa nada passar, sempre insultando na mesma medida, o que é sempre engraçado. Eu só soube que ele também usava o Orkut quando uma vez, numa das comunidades dedicadas a ele, durante uma discussão acerca de um artigo seu sobre o darwinismo, e em meio a uma polêmica, ele apareceu e começou a postar um monte de textos indicando as fontes em que se apoiava para dizer o que disse, além de sair refutando todo mundo. É, Sócrates estava perfeitamente certo quando dizia que era um espetáculo interessante a refutação de supostos sábios: não é à toa que O Imbecil Coletivo (tanto o primeiro quanto o segundo) e vários de seus artigos fizeram e fazem com que o Olavo de Carvalho tenha tantos admiradores – e inimigos, claro, claro. É uma leitura divertida e séria ao mesmo tempo, embora a obra do filósofo seja muito mais extensa que sua parte polêmica.
Bom, chega de divagações por ora. E ótimo dia, leitor, adeus. Ou melhor, me conte o que leu, que música ouviu, o que houve contigo. Sabia que adoro dormir de madrugada? Não? Só espere um minuto para eu pegar o cafezinho. Fique à vontade.
Sunday, September 18, 2005
O início da piada
Todo mundo sabe que um dos principais personagens de qualquer piada de português deve se chamar Manoel, embora Joaquim seja uma variação ou sidekick. E todo mundo sabe que tanto um quanto outro se destacam pela sua absoluta paspalhice.
Muito bem, tive hoje um insight. Todo mundo diz que o Brasil é uma palhaçada, que é uma piada, etc. Não é para menos: nossa república foi fundada por ninguém mais ninguém menos que um Manuel: o Manuel Diodoro da Fonseca. Aquele ilustre senhor não era português, mas tenho certeza que percebeu que bobajada fez e onde se enfiou, já que em um mísero casal de anos pulou fora da presidência. (E olha que nem fiz menção à célebre Proclamção da República, onde dizem que Manuel teria tirado o chapéu e gritado sinceramente: "Viva o Imperador!")
Então a nossa história republicana poderia começar mais ou menos assim:
- Certa vez, Manuel resolveu fundar uma república no Brasil...
Muito bem, tive hoje um insight. Todo mundo diz que o Brasil é uma palhaçada, que é uma piada, etc. Não é para menos: nossa república foi fundada por ninguém mais ninguém menos que um Manuel: o Manuel Diodoro da Fonseca. Aquele ilustre senhor não era português, mas tenho certeza que percebeu que bobajada fez e onde se enfiou, já que em um mísero casal de anos pulou fora da presidência. (E olha que nem fiz menção à célebre Proclamção da República, onde dizem que Manuel teria tirado o chapéu e gritado sinceramente: "Viva o Imperador!")
Então a nossa história republicana poderia começar mais ou menos assim:
- Certa vez, Manuel resolveu fundar uma república no Brasil...
Sunday, September 11, 2005
Quem quer ficar nu?
Meus queridos e poucos leitores, já faz um tempinho que penso no seguinte: a vida intelectual é equivalente a ficar peladão numa avenida movimentada.
Ora, mais que o corpo, o nosso mais profundo retiro é nossa própria mente. Só Deus sabe o que cada um realmente pensa. Daí que revelar nossas idéias seja sempre um espetáculo um tanto quanto desconcertante, a menos, é claro, que estejamos bem desavergonhados ou nos comportemos como Adão e Eva, que viviam nus sem saber. Mas o desafio é, tendo comido a maçã da autoconsciência, permanecermos corajosamente nus.
Porém me permitam os quatro amigos leitores uma pequena digressão. Não que eu tenha um belo conhecimento do assunto, mas acho estranho imaginar que a mente e o corpo estejam radicalmente separados. Nesse sentido, apelo às sábias e filosóficas palavras de Drago no Rocky IV: "Se morrer, morreu". O sujeito só voltará no Dia do Juízo Final. Por acreditar nessa grande união, acho que a defesa da intimidade da alma está relacionada à defesa da intimidade do corpo. Isso porque não somos criaturas descarnadas: o que se passa na alma tem reflexos no corpo e vice-versa. Mas notem bem que não fundamento nada porque são apenas impressões minhas. Deixemos então para lá.
Quando o intelectual (seja lá de que ramo for: escritor, cientista, etc) se dá conta de que está, de certa maneira, dando a cara a tapa, surge logo um dilema: prosseguir até as últimas conseqüências ou nunca mais se distinguir de todos, tornando-se membro indiscernível d'"a massa", no máximo um bajulador do povo, um vendedor de feira? Percebam que me refiro ao próprio ofício do intelectual como algo totalmente diverso do comum das gentes, algo que o torna a um só tempo esquisito e transparente, vulnerável, uma criatura singular.
Darei um exemplo de cada atitude.
Pensem vocês nos grandes tempos da Grécia Clássica, onde todo intelectual é de alguma forma cidadão daquela pólis que se tornou eterna para nós. Naqueles idos surgiu uma raça nova de homens. De repente começaram a questionar tudo o que havia entre o céu e a terra, e mesmo o que havia no céu e debaixo da terra. Nada lhes escapava. Todavia, até porque se embriagaram um pouco com suas próprias e estupendas descobertas, entraram em choque com sua própria cultura, com seu próprio povo, sendo então vistos com desconfiança. O famoso Protágoras, no homônimo e maravilhoso diálogo de Platão, chegou a dizer que ele era o único que tinha coragem de se autoproclamar sofista. O termo grego que se ajusta bem a isso tudo é a palavra hybris, que quer dizer desmedida. Pois bem, toda aquela saga humana parecia descambar numa terrível hybris, uma desmedida ambição que parecia não só desconhecer os limites da humanidade como também a menosprezava. Isso era, do ponto de vista antigo, um crime de impiedade. Como se isso tudo já não bastasse, Sócrates teve a "audácia" de descobrir um novo mundo, o mundo interior, afirmando ao mesmo tempo que em nome de sua missão divina jamais cessaria de buscar a verdade, mesmo se terrivelmente ameaçado. Tudo culminou com a sua pena de morte. Ainda assim, aquelas conquistas foram passadas a seus sucessores imediatos, notadamente Platão e Aristóteles.
No extremo oposto temos uma época que morreu há pouco, o século XX. Longe de vermos em tão grande escala homens dispostos a enfrentar a fúria da multidão, armados contra os ataques do mundo, como diria Kleist, o que houve foi, pelo contrário, a revanche d' "a massa". De repente, os intelectuais sentiram não apenas vergonha, mas nojo de si mesmos. Todo seu afazer parecia estúpido e sem sentido. Necessitavam de justificativas segundo o que eles mesmos imaginavam ser o "espírito do povo" ou "a justiça dos oprimidos". Então, na mais perturbadora reviravolta de valores de todos os tempos (mas que teve ensaios sangrentos desde 1789), os intelectuais começaram a se suicidar, blasfemando contra si mesmos, em arroubos incríveis de paroxismo delirante. Esses senhores tomaram para si a estranha missão de defender a justiça, em nome do povo, contra qualquer um que ousasse se elevar dentre os demais. Em muitíssimos casos, como no comunismo e no nazismo, houve mesmo perseguições violentíssimas, prisões em massa, genocídios, etc. Aquela casta era vista como inimiga, podre e corrompida. Consta que o gordo Marechal-do-Reich Göring certa vez disse: "Cada vez que ouço falar em Bildung [formação, no mesmo sentido de paidéia] saco o meu revólver". Nunca foi tão difícil ser intelectual como no século passado (e, por que não?, também nesse começo de século).
Infelizmente a casta intelectual de nosso país constantemente dá uma série de pavorosas demonstrações de temor e tremor ante o seu próprio ofício, preferindo bajular (numa estranha inversão da hybris) "a massa" enquanto envenena seu afazer próprio. Não foi à toa que chegamos a ter o presidente mais tolo de nossa história, amplamente escorado pela nossa fina flor cultural.
Contudo, é preciso explicar um pouco melhor esse problema na vida intelectual que é "a massa", e por que pus esse termo entre aspas. Mas pertenço ao gênero humano, tendo de prestar contas ao animal faminto que compartilha minha natureza. Ai, a fome. E sem contar o cansaço: ser espírito de luz talvez tivesse suas vantagens, embora parece um tanto aboiolado... Aliás, a julgar o céu, parece que hoje será um dia esplêndido. Tenham um bom dia.
Ora, mais que o corpo, o nosso mais profundo retiro é nossa própria mente. Só Deus sabe o que cada um realmente pensa. Daí que revelar nossas idéias seja sempre um espetáculo um tanto quanto desconcertante, a menos, é claro, que estejamos bem desavergonhados ou nos comportemos como Adão e Eva, que viviam nus sem saber. Mas o desafio é, tendo comido a maçã da autoconsciência, permanecermos corajosamente nus.
Porém me permitam os quatro amigos leitores uma pequena digressão. Não que eu tenha um belo conhecimento do assunto, mas acho estranho imaginar que a mente e o corpo estejam radicalmente separados. Nesse sentido, apelo às sábias e filosóficas palavras de Drago no Rocky IV: "Se morrer, morreu". O sujeito só voltará no Dia do Juízo Final. Por acreditar nessa grande união, acho que a defesa da intimidade da alma está relacionada à defesa da intimidade do corpo. Isso porque não somos criaturas descarnadas: o que se passa na alma tem reflexos no corpo e vice-versa. Mas notem bem que não fundamento nada porque são apenas impressões minhas. Deixemos então para lá.
Quando o intelectual (seja lá de que ramo for: escritor, cientista, etc) se dá conta de que está, de certa maneira, dando a cara a tapa, surge logo um dilema: prosseguir até as últimas conseqüências ou nunca mais se distinguir de todos, tornando-se membro indiscernível d'"a massa", no máximo um bajulador do povo, um vendedor de feira? Percebam que me refiro ao próprio ofício do intelectual como algo totalmente diverso do comum das gentes, algo que o torna a um só tempo esquisito e transparente, vulnerável, uma criatura singular.
Darei um exemplo de cada atitude.
Pensem vocês nos grandes tempos da Grécia Clássica, onde todo intelectual é de alguma forma cidadão daquela pólis que se tornou eterna para nós. Naqueles idos surgiu uma raça nova de homens. De repente começaram a questionar tudo o que havia entre o céu e a terra, e mesmo o que havia no céu e debaixo da terra. Nada lhes escapava. Todavia, até porque se embriagaram um pouco com suas próprias e estupendas descobertas, entraram em choque com sua própria cultura, com seu próprio povo, sendo então vistos com desconfiança. O famoso Protágoras, no homônimo e maravilhoso diálogo de Platão, chegou a dizer que ele era o único que tinha coragem de se autoproclamar sofista. O termo grego que se ajusta bem a isso tudo é a palavra hybris, que quer dizer desmedida. Pois bem, toda aquela saga humana parecia descambar numa terrível hybris, uma desmedida ambição que parecia não só desconhecer os limites da humanidade como também a menosprezava. Isso era, do ponto de vista antigo, um crime de impiedade. Como se isso tudo já não bastasse, Sócrates teve a "audácia" de descobrir um novo mundo, o mundo interior, afirmando ao mesmo tempo que em nome de sua missão divina jamais cessaria de buscar a verdade, mesmo se terrivelmente ameaçado. Tudo culminou com a sua pena de morte. Ainda assim, aquelas conquistas foram passadas a seus sucessores imediatos, notadamente Platão e Aristóteles.
No extremo oposto temos uma época que morreu há pouco, o século XX. Longe de vermos em tão grande escala homens dispostos a enfrentar a fúria da multidão, armados contra os ataques do mundo, como diria Kleist, o que houve foi, pelo contrário, a revanche d' "a massa". De repente, os intelectuais sentiram não apenas vergonha, mas nojo de si mesmos. Todo seu afazer parecia estúpido e sem sentido. Necessitavam de justificativas segundo o que eles mesmos imaginavam ser o "espírito do povo" ou "a justiça dos oprimidos". Então, na mais perturbadora reviravolta de valores de todos os tempos (mas que teve ensaios sangrentos desde 1789), os intelectuais começaram a se suicidar, blasfemando contra si mesmos, em arroubos incríveis de paroxismo delirante. Esses senhores tomaram para si a estranha missão de defender a justiça, em nome do povo, contra qualquer um que ousasse se elevar dentre os demais. Em muitíssimos casos, como no comunismo e no nazismo, houve mesmo perseguições violentíssimas, prisões em massa, genocídios, etc. Aquela casta era vista como inimiga, podre e corrompida. Consta que o gordo Marechal-do-Reich Göring certa vez disse: "Cada vez que ouço falar em Bildung [formação, no mesmo sentido de paidéia] saco o meu revólver". Nunca foi tão difícil ser intelectual como no século passado (e, por que não?, também nesse começo de século).
Infelizmente a casta intelectual de nosso país constantemente dá uma série de pavorosas demonstrações de temor e tremor ante o seu próprio ofício, preferindo bajular (numa estranha inversão da hybris) "a massa" enquanto envenena seu afazer próprio. Não foi à toa que chegamos a ter o presidente mais tolo de nossa história, amplamente escorado pela nossa fina flor cultural.
Contudo, é preciso explicar um pouco melhor esse problema na vida intelectual que é "a massa", e por que pus esse termo entre aspas. Mas pertenço ao gênero humano, tendo de prestar contas ao animal faminto que compartilha minha natureza. Ai, a fome. E sem contar o cansaço: ser espírito de luz talvez tivesse suas vantagens, embora parece um tanto aboiolado... Aliás, a julgar o céu, parece que hoje será um dia esplêndido. Tenham um bom dia.
Saturday, September 10, 2005
Friday, September 09, 2005
Post depois de pensar em recentes conversas com mulheres (em forma de curtíssimo diálogo)
- Cheguei à seguinte conclusão: mulheres são um truflojuxi.
- Hein?
- Exatamente...
- Hein?
- Exatamente...
Sunday, September 04, 2005
Homenagem aos desinformados
O marido é interrompido em sua leitura pela esposa:
- Amor, você soube do Katrina? Que arrasou New Orleans?
- "O" Katrina? É drag queen? Ouvi falar. Causou furor em New York.
- Não, amor, o furacão!
- Aquele time do sul? Qual é mesmo o nome? Ferroviário?
- Ai, amor, esquece, vai... Continua lendo isso aí. Que homem mais desinformado!
Então ele volta a ler: "Maria Stuart", de Schiller.
- Amor, você soube do Katrina? Que arrasou New Orleans?
- "O" Katrina? É drag queen? Ouvi falar. Causou furor em New York.
- Não, amor, o furacão!
- Aquele time do sul? Qual é mesmo o nome? Ferroviário?
- Ai, amor, esquece, vai... Continua lendo isso aí. Que homem mais desinformado!
Então ele volta a ler: "Maria Stuart", de Schiller.
Saturday, September 03, 2005
Os sofrimentos do jovem boi
Dia 1
Querido diário,
Nesta fazenda é tudo muito calmo. Tão calmo e devagar que resolvi escrever um diário, pois eu precisava me distrair. Mas não sei o que dizer, porque nada demais acontece em minha vida. Fico apenas parado, comendo grama.
Não quero deixar de ressaltar a bondade do meu dono. Simplesmente me deixa aqui, no meu canto, comendo, conversando ou dormindo, em sua propriedade. Enquanto isso, briga com seus dois filhos por só quererem passar o dia todinho deitados na rede e vendo TV. Acho que ele gosta mais de mim que deles.
Dia 6
Hoje foi um dia aborrecido para mim. Suponho que todos os meus amigos tenham algum tipo de disfunção mental. Um deles, por exemplo, quando me aproximo e digo "olá!", começa então a babar. Algo me diz que ele sofreu lobotomia.
Ninguém supera, entretanto, um outro. Mal começa a caminhar, defeca. Poxa, isso é uma falta de higiene terrível, por causa de seres assim que a medicina tem tanto trabalho. No meu caso, sempre procuro um lugar reservado. E o pior de tudo é que ele finge que não é com ele quando chamo a atenção: simplesmente ignora minha bronca e vai embora. Nojentinho.
Por outro lado, há um muito, muito enjoado. Ele tem um problema de atenção, porque quando algo lhe desperta interesse, ele fica lá, paradinho, de boca aberta, olhos esbugalhados. Mas quando pergunto o que foi, ele não sabe me dizer nada. Só diz "Hmm".
Meus amigos, aliás, são muito monossilábicos.
Dia 20
Um dia fui beber água e notei uma vaquinha me observando. Fingi que não era comigo. Ela cochichou algo com as amigas e ficaram rindo. Sei que era de mim, afinal eu era o único que estava ali. Quer dizer, tinha um marreco, mas ele sempre estava por lá, nunca ninguém ligou pra ele, ainda que tente chamar a atenção de tudo que é jeito. Aliás, ele veio de uma família que passou por muitas tragédias. Seu pai e dois irmãos foram assassinados por alguns moleques. Seu cunhado teve uma brilhante vida terminada de modo trágico, nas bocas de um cão. Por causa disso que o marreco busca atenção e carinho. E ele tem uma visão da vida muito trágica (evidentemente), berrando que seremos todos traídos e mortos. Ora, é um absurdo imaginar que todos os nossos companheiros que foram viajar na verdade foram mortos. Além do que seria bastante estúpido o nosso dono gastar anos e dinheiro conosco para simplesmente nos matar. Mas nada convence o marreco.
A vaquinha é bonitinha. Boa cor, esbanja saúde, educada ao se abaixar para apanhar grama (diferentemente de certas sujeitinhas, que são muito atiradas para o meu gosto). Eu já a observava antes, porém discretamente, sem acreditar que pudéssemos ficar juntos. Mas agora, depois dela me olhar daquele jeito, sinto um arrepio no meu dorso. Tenho esperança agora.
A única coisa que me incomoda é quando os filho do dono vêm tirar seu leite. Por que ela fica ali parada, deixando aquelas mãos bobas fazerem o que querem? Será que vale a pena ter de passar por isso? Eu só não faço nada porque o dono já salvou minha vida, quando um cachorrão surgiu do nada e pulou em meu pescoço (ui, dói só de lembrar). Minha dívida, minha gratidão, tudo me impede - ainda que de modo meio envergonhado - de tomar uma atitude contra aquela sem-vergonhice danada que só.
Dia 23
Meu dono apareceu com um desconhecido. Falavam alguma coisa que não dava para escutar direito. Cheguei perto, como quem não quer nada, e ouvi o desconhecido me elogiando, dizendo que pareço ser alguém de muito valor. Meu dono sorriu orgulhoso, o que me deixou envaidecido. Resolvi então andar perto deles, querendo que a Mimosinha, a vaquinha musa de meus sonhos, visse tudo. Dei sorte, porque ela olhou para o lado e me viu todo garboso. O resto da conversa não escutei, tão enfeitiçado que estava com a vaquinha. Só deu para ouvir algo como "estamos acertados".
Que tudo se dane, quero viver só para ela!
Dia 29
Meu Deus, quero me matar! Estou apaixonado pela Mimosinha e querem me vender! Justamente quando a minha vida parecia tão maravilhosa, os pastos tão gostosos, meus amigos tão divertidos! Ai, que vida! que tormento!
Meus olhos arderam ao vê-la, sabendo que poderia ser a última vez. Ela permaneceu quieta, calada, com a graminha na boca, olhando perdidamente para o vazio. Sei que está por dentro muito triste. Mas nós, seres bovinos, temos um código de ética muito rígido para essas coisas. Temos de ter calma, acima de tudo. Somos criaturas civilizadas, pacíficas. Melhor morrer que matar. Porém assim não posso suportar!
Segundo mês, dia 4
Me despedi de todos, menos dela, porque era cedo demais quando me pegaram e ela dormia. Meu dono e o comprador foram unânimes em dizer que me achavam um pouco mais magro, de pior aparência que há dias atrás. Tive vontade de morder a manga de suas camisas, puxá-los para perto de mim e dizer: "Acaso vocês haveriam de gostar se fossem bruscamente separados de suas amadas? Já conheceram o amor?" No entanto, ao invés disso, num arroubo de desespero, atirei-me aos pés de meu antigo dono, murmurando coisas desencontradas. Pensaram que eu estava doente, mas depois de uma pequena discussão, assim mesmo me puseram num caminhão e me levaram embora.
Contudo, antes deixei, como lembrança, um poeminha nas patas de um pequeno e bondoso bezerrinho, filho de uma das amigas de minha musa e que costuma estar perto dos machos mais adultos a fim de aprender a pastar adequadamente. Implorei para que o mancebo o entregasse tão logo a Mimosinha acordasse. Seu conteúdo era o seguinte:
Muitas horas já pastei,
Muitas vezes já comi,
Mas jamais me cansarei
De tudo que sinto por ti.
Apenas te vendo pastando
Sentia meu peito pulando:
Não há mais bela vaquinha
Do que você, Mimosinha.
O destino porém me trocou o dono.
Longe de ti, sentirei abandono,
Porque irei para outra fazenda,
O coração sem qualquer remenda,
Pensando em que belo presentinho
Não seria um nosso bezerrinho!
Com que dor escrevo essas coisas. Acho até que não há mais razão de existir esse diário. Ou minha vida. Que dor, que traição!
Adeus, minha amada imortal, adeus!
Querido diário,
Nesta fazenda é tudo muito calmo. Tão calmo e devagar que resolvi escrever um diário, pois eu precisava me distrair. Mas não sei o que dizer, porque nada demais acontece em minha vida. Fico apenas parado, comendo grama.
Não quero deixar de ressaltar a bondade do meu dono. Simplesmente me deixa aqui, no meu canto, comendo, conversando ou dormindo, em sua propriedade. Enquanto isso, briga com seus dois filhos por só quererem passar o dia todinho deitados na rede e vendo TV. Acho que ele gosta mais de mim que deles.
Dia 6
Hoje foi um dia aborrecido para mim. Suponho que todos os meus amigos tenham algum tipo de disfunção mental. Um deles, por exemplo, quando me aproximo e digo "olá!", começa então a babar. Algo me diz que ele sofreu lobotomia.
Ninguém supera, entretanto, um outro. Mal começa a caminhar, defeca. Poxa, isso é uma falta de higiene terrível, por causa de seres assim que a medicina tem tanto trabalho. No meu caso, sempre procuro um lugar reservado. E o pior de tudo é que ele finge que não é com ele quando chamo a atenção: simplesmente ignora minha bronca e vai embora. Nojentinho.
Por outro lado, há um muito, muito enjoado. Ele tem um problema de atenção, porque quando algo lhe desperta interesse, ele fica lá, paradinho, de boca aberta, olhos esbugalhados. Mas quando pergunto o que foi, ele não sabe me dizer nada. Só diz "Hmm".
Meus amigos, aliás, são muito monossilábicos.
Dia 20
Um dia fui beber água e notei uma vaquinha me observando. Fingi que não era comigo. Ela cochichou algo com as amigas e ficaram rindo. Sei que era de mim, afinal eu era o único que estava ali. Quer dizer, tinha um marreco, mas ele sempre estava por lá, nunca ninguém ligou pra ele, ainda que tente chamar a atenção de tudo que é jeito. Aliás, ele veio de uma família que passou por muitas tragédias. Seu pai e dois irmãos foram assassinados por alguns moleques. Seu cunhado teve uma brilhante vida terminada de modo trágico, nas bocas de um cão. Por causa disso que o marreco busca atenção e carinho. E ele tem uma visão da vida muito trágica (evidentemente), berrando que seremos todos traídos e mortos. Ora, é um absurdo imaginar que todos os nossos companheiros que foram viajar na verdade foram mortos. Além do que seria bastante estúpido o nosso dono gastar anos e dinheiro conosco para simplesmente nos matar. Mas nada convence o marreco.
A vaquinha é bonitinha. Boa cor, esbanja saúde, educada ao se abaixar para apanhar grama (diferentemente de certas sujeitinhas, que são muito atiradas para o meu gosto). Eu já a observava antes, porém discretamente, sem acreditar que pudéssemos ficar juntos. Mas agora, depois dela me olhar daquele jeito, sinto um arrepio no meu dorso. Tenho esperança agora.
A única coisa que me incomoda é quando os filho do dono vêm tirar seu leite. Por que ela fica ali parada, deixando aquelas mãos bobas fazerem o que querem? Será que vale a pena ter de passar por isso? Eu só não faço nada porque o dono já salvou minha vida, quando um cachorrão surgiu do nada e pulou em meu pescoço (ui, dói só de lembrar). Minha dívida, minha gratidão, tudo me impede - ainda que de modo meio envergonhado - de tomar uma atitude contra aquela sem-vergonhice danada que só.
Dia 23
Meu dono apareceu com um desconhecido. Falavam alguma coisa que não dava para escutar direito. Cheguei perto, como quem não quer nada, e ouvi o desconhecido me elogiando, dizendo que pareço ser alguém de muito valor. Meu dono sorriu orgulhoso, o que me deixou envaidecido. Resolvi então andar perto deles, querendo que a Mimosinha, a vaquinha musa de meus sonhos, visse tudo. Dei sorte, porque ela olhou para o lado e me viu todo garboso. O resto da conversa não escutei, tão enfeitiçado que estava com a vaquinha. Só deu para ouvir algo como "estamos acertados".
Que tudo se dane, quero viver só para ela!
Dia 29
Meu Deus, quero me matar! Estou apaixonado pela Mimosinha e querem me vender! Justamente quando a minha vida parecia tão maravilhosa, os pastos tão gostosos, meus amigos tão divertidos! Ai, que vida! que tormento!
Meus olhos arderam ao vê-la, sabendo que poderia ser a última vez. Ela permaneceu quieta, calada, com a graminha na boca, olhando perdidamente para o vazio. Sei que está por dentro muito triste. Mas nós, seres bovinos, temos um código de ética muito rígido para essas coisas. Temos de ter calma, acima de tudo. Somos criaturas civilizadas, pacíficas. Melhor morrer que matar. Porém assim não posso suportar!
Segundo mês, dia 4
Me despedi de todos, menos dela, porque era cedo demais quando me pegaram e ela dormia. Meu dono e o comprador foram unânimes em dizer que me achavam um pouco mais magro, de pior aparência que há dias atrás. Tive vontade de morder a manga de suas camisas, puxá-los para perto de mim e dizer: "Acaso vocês haveriam de gostar se fossem bruscamente separados de suas amadas? Já conheceram o amor?" No entanto, ao invés disso, num arroubo de desespero, atirei-me aos pés de meu antigo dono, murmurando coisas desencontradas. Pensaram que eu estava doente, mas depois de uma pequena discussão, assim mesmo me puseram num caminhão e me levaram embora.
Contudo, antes deixei, como lembrança, um poeminha nas patas de um pequeno e bondoso bezerrinho, filho de uma das amigas de minha musa e que costuma estar perto dos machos mais adultos a fim de aprender a pastar adequadamente. Implorei para que o mancebo o entregasse tão logo a Mimosinha acordasse. Seu conteúdo era o seguinte:
Muitas horas já pastei,
Muitas vezes já comi,
Mas jamais me cansarei
De tudo que sinto por ti.
Apenas te vendo pastando
Sentia meu peito pulando:
Não há mais bela vaquinha
Do que você, Mimosinha.
O destino porém me trocou o dono.
Longe de ti, sentirei abandono,
Porque irei para outra fazenda,
O coração sem qualquer remenda,
Pensando em que belo presentinho
Não seria um nosso bezerrinho!
Com que dor escrevo essas coisas. Acho até que não há mais razão de existir esse diário. Ou minha vida. Que dor, que traição!
Adeus, minha amada imortal, adeus!
Thursday, September 01, 2005
Eutanásia nos outros é refresco
Já aparecem notícias sobre um pai que quer pedir à justiça a eutanásia do filho. (Aliás, pena de morte todo mundo é contra, mas aborto e eutanásia, pelo visto, não são um problema. Se o Estado não pode executar criminosos condenados, então com que direito ele pode permitir que inocentes sejam mortos?) Será a versão nacional do caso Schiavo.
Havendo coisas dessa espécie, não deixo de pensar que vivo na época mais porca de todos os tempos. Isso porque ninguém pode dar a desculpa da "inocente ignorância", pela qual outras civilizações praticaram as mais sórdidas barbáries com a consciência mais limpa. Nada disso: já passamos por tanta coisa ao longo desses três mil anos que esse tipo de atitude hoje em dia só indica uma satânica perversidade.
Por sinal, numa época tão besta como a nossa, realmente não consigo entender por que muita gente se preocupa em esticar sua expectativa de vida até ao máximo. É como querer por livre e espontânea vontade assistir por uma semana Cidade de Deus, com direito ao mais exaustivo making of. Eu hein, que gente masoquista! Não, obrigado: esta vida já é grande o suficiente e para mim já bastam as canalhices destes anos; dispenso as apresentações do século vindouro.
Nada melhor que relembrarmos as palavras do velho Eclesiastes:
E louvei mais os mortos que os vivos: e reputei mais venturosos do que uns e outros, ao que ainda não é nado, e que não tem visto os males que se fazem debaixo do sol. (Ecl 4,2s)
Havendo coisas dessa espécie, não deixo de pensar que vivo na época mais porca de todos os tempos. Isso porque ninguém pode dar a desculpa da "inocente ignorância", pela qual outras civilizações praticaram as mais sórdidas barbáries com a consciência mais limpa. Nada disso: já passamos por tanta coisa ao longo desses três mil anos que esse tipo de atitude hoje em dia só indica uma satânica perversidade.
Por sinal, numa época tão besta como a nossa, realmente não consigo entender por que muita gente se preocupa em esticar sua expectativa de vida até ao máximo. É como querer por livre e espontânea vontade assistir por uma semana Cidade de Deus, com direito ao mais exaustivo making of. Eu hein, que gente masoquista! Não, obrigado: esta vida já é grande o suficiente e para mim já bastam as canalhices destes anos; dispenso as apresentações do século vindouro.
Nada melhor que relembrarmos as palavras do velho Eclesiastes:
E louvei mais os mortos que os vivos: e reputei mais venturosos do que uns e outros, ao que ainda não é nado, e que não tem visto os males que se fazem debaixo do sol. (Ecl 4,2s)
Wednesday, August 31, 2005
Cultura no abismo
OBS: O texto a seguir foi publicado anteriormente na versão antiga d' "O Teocrata" alguns anos atrás. Eu até mudaria uma coisa ou outra mas, citando alguém de caráter tão duvidoso quanto Pôncio Pilatos, digo que o que escrevi, escrevi.
Mas que a tentação de retirar o nome de Tchaikovsky foi grande demais, ah, isso foi...
E só uma curiosidade: a parte onde digo "Creio de maneira clara e distinta" foi empolgação depois de ler Descartes. É uma expressão muito escrota, mas enfim, eu estava deslumbrado...
Uma das grandes idéias que se teve a respeito de expandir o acesso de música clássica ao povo foi a cobrança bastante generosa do ingresso do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro. Por apenas cinco reais, pode-se assistir, da galeria, obras de autores do porte de um Tchaikovsky, um Beethoven, um Schubert, entre muitos outros grandes. Frisas e camarotes também são bem acessíveis, já que custam vinte reais. Ainda é exceção à regra em matéria de valores de ingressos. Porém já é um começo.
Outra boa idéia nesse ponto é o programa muito simpático do senador Arthur da Távola. Passa na Rede Senado, em vários horários, e se chama sugestivamente Quem tem medo de música clássica?
Isso pode dar a impressão de que existe uma preocupação real em expandir a música erudita para a população. Infelizmente, tal coisa é bastante duvidosa. Eu mesmo, há alguns anos, deparei-me pela primeira vez com uma orquestra sinfônica ao vivo. Não me recordo bem qual era. Ela estava tocando a céu aberto na Cinelândia. Como eu estava andando sem rumo e fiquei surpreso e curioso em observar a orquestra, pus-me a apreciá-la. Lembro bastante das músicas que tocaram: partes de O Guarani, Aquarela do Brasil, e fecharam de forma triunfal com Assim Falou Zaratustra, de Strauss.
Estava totalmente fascinado, prazerosamente ouvindo a apresentação quando, findado o espetáculo gratuito, eis que o maestro resolveu falar. Para maior surpresa minha (e do público, irmanados comigo nessa impressão), ele noticiava que a respectiva apresentação havia sido motivada devido a pauperização da orquestra e, para alertar a população, resolveram fazer uma espécie de ato público, que poderia também ser revertido em ajuda financeira, mediante a aquisição de cds produzidos pelos músicos que ali estavam. Em outras palavras, estavam mendigando em praça pública.
Claro que todos estavam perplexos! Como seria possível não haver patrocínio para algo tão grandioso? No momento, eu não estava acompanhado pelo dinheiro, caso contrário teria feito minha doação idealista. Saí de lá entristecido.
Hoje, pensando nesse assunto e no esforço de gente que gostaria que todos ouvissem e gostassem de um Bach, tenho de concordar com a verdade, esta sempre disposta a nos constranger para o bem. Ela nos estapeia; mas como se pode querer que todos ajam para tal fim, mesmo que seja algo legítimo e benéfico, se os meios para alcançá-lo são inexistentes ou pouco claros e tênues o suficiente para que não se os perceba?
Creio de maneira clara e distinta no que se segue: podemos até mesmo obrigar e constranger um indivíduo a visualizar as coisas mais belas e notáveis. Contudo, de que isso adiantará se ele anteriormente não tiver obtido todos os pré-requisitos para que seu espírito se torne dócil o suficiente para participar daquilo que é belo? Seja lá quem tenha assistido ao filme Laranja Mecânica, de Kubrick, sabe do que falo. Alex, um psicótico, na prisão, resolveu ler a Bíblia para poder aparentar bom-comportamento e participar de um programa de reabilitação, a fim de se ver livre. Porém, sempre que pensava em Cristo, imaginava-se sendo o Seu carrasco, com todo prazer, e era isso que o motivava a devorar as Sagradas Escrituras...
Penso que a sensibilidade seja uma componente importante para a apreciação daquilo que se revela belo. Não depende, para qualquer cidadão, de seu nível de renda, de sua posição social ou até mesmo, em certo sentido, de sua aquisição intelectual (se por “aquisição intelectual” se entende a mera acumulação de dados e estimulação do raciocínio, sem guiamento moral e verdadeiro). Sim, todos esses fatores servem de auxílio, mas não são de forma alguma seus determinantes. Talvez seja uma disposição individual que vem desde o berço. Mas, com absoluta clareza, a cultivação da docilidade espiritual para com o belo se dá não só por meio do costume, mas também pela aquisição e interiorização daquilo que é mais essencial numa obra de arte – a sua forma, mas muito além disso, o seu fim, que está em nós, e não em si. Quando a ponte entre o indivíduo e a obra de arte é construída, guiada pelo bem, aí sim ela se torna de real valor. E de infinitamente superior valor é aquela obra de arte que se conecta com toda a humanidade, representando possibilidades divinas fornecidas pela própria natureza, engrandecendo o próprio homem.
Caso essa “conexão primordial” não aconteça, então a obra de arte não passará de um amontoado de fragmentos, sem o menor sentido ou finalidade, soltos ao acaso. Não possuindo uma unidade, não significam nada.
Não é de se espantar a total negligência e até o desprezo da população quando o assunto cai em música clássica. Foge-se disso como o diabo da cruz. Para piorar, existe ainda um verdadeiro muro de preconceitos criados pela própria elite. Isso é simplesmente motivado apenas para reafirmar uma aparente superioridade intelectual perante aos demais. Mas é uma superioridade oca. Essa elite cada vez se deteriora mais. Chega ao cúmulo de achar plenamente normal o fato de louvar um Schumann e noutra ocasião agir irresponsavelmente e de forma totalmente repreensível. É essa elite cultural que, ao afirmar a beleza de uma fuga de Bach, o mestre cujas obras possuem um caráter religioso, despreza totalmente qualquer religião, faz apologia ao consumo de determinadas drogas, põe-se debruçada a polêmicas mesquinhas (“direitos” aos gays, cotas raciais) etc.
Sendo assim, sinto-me muito mais angustiado sabendo que a dita elite brasileira perde cada vez mais suas referências no que tange aos valores morais e estéticos do que sabendo (o que sempre se soube) que a maior parte da população está se lixando para Mozart. Até mesmo o chorinho, tão aclamado como música popular de enorme qualidade, se faz desconhecido para o povo. Se essa elite perde a cada dia o solo onde antes confusamente caminhava, então amanhã tombará, e levará para o abismo o restante de seus compatriotas. Nesse transloucado fenômeno, pode vir a ser o contato entre povo e arte, essa menina tão judiada hoje em dia, uma experiência das mais nefastas.
Mas que a tentação de retirar o nome de Tchaikovsky foi grande demais, ah, isso foi...
E só uma curiosidade: a parte onde digo "Creio de maneira clara e distinta" foi empolgação depois de ler Descartes. É uma expressão muito escrota, mas enfim, eu estava deslumbrado...
Uma das grandes idéias que se teve a respeito de expandir o acesso de música clássica ao povo foi a cobrança bastante generosa do ingresso do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro. Por apenas cinco reais, pode-se assistir, da galeria, obras de autores do porte de um Tchaikovsky, um Beethoven, um Schubert, entre muitos outros grandes. Frisas e camarotes também são bem acessíveis, já que custam vinte reais. Ainda é exceção à regra em matéria de valores de ingressos. Porém já é um começo.
Outra boa idéia nesse ponto é o programa muito simpático do senador Arthur da Távola. Passa na Rede Senado, em vários horários, e se chama sugestivamente Quem tem medo de música clássica?
Isso pode dar a impressão de que existe uma preocupação real em expandir a música erudita para a população. Infelizmente, tal coisa é bastante duvidosa. Eu mesmo, há alguns anos, deparei-me pela primeira vez com uma orquestra sinfônica ao vivo. Não me recordo bem qual era. Ela estava tocando a céu aberto na Cinelândia. Como eu estava andando sem rumo e fiquei surpreso e curioso em observar a orquestra, pus-me a apreciá-la. Lembro bastante das músicas que tocaram: partes de O Guarani, Aquarela do Brasil, e fecharam de forma triunfal com Assim Falou Zaratustra, de Strauss.
Estava totalmente fascinado, prazerosamente ouvindo a apresentação quando, findado o espetáculo gratuito, eis que o maestro resolveu falar. Para maior surpresa minha (e do público, irmanados comigo nessa impressão), ele noticiava que a respectiva apresentação havia sido motivada devido a pauperização da orquestra e, para alertar a população, resolveram fazer uma espécie de ato público, que poderia também ser revertido em ajuda financeira, mediante a aquisição de cds produzidos pelos músicos que ali estavam. Em outras palavras, estavam mendigando em praça pública.
Claro que todos estavam perplexos! Como seria possível não haver patrocínio para algo tão grandioso? No momento, eu não estava acompanhado pelo dinheiro, caso contrário teria feito minha doação idealista. Saí de lá entristecido.
Hoje, pensando nesse assunto e no esforço de gente que gostaria que todos ouvissem e gostassem de um Bach, tenho de concordar com a verdade, esta sempre disposta a nos constranger para o bem. Ela nos estapeia; mas como se pode querer que todos ajam para tal fim, mesmo que seja algo legítimo e benéfico, se os meios para alcançá-lo são inexistentes ou pouco claros e tênues o suficiente para que não se os perceba?
Creio de maneira clara e distinta no que se segue: podemos até mesmo obrigar e constranger um indivíduo a visualizar as coisas mais belas e notáveis. Contudo, de que isso adiantará se ele anteriormente não tiver obtido todos os pré-requisitos para que seu espírito se torne dócil o suficiente para participar daquilo que é belo? Seja lá quem tenha assistido ao filme Laranja Mecânica, de Kubrick, sabe do que falo. Alex, um psicótico, na prisão, resolveu ler a Bíblia para poder aparentar bom-comportamento e participar de um programa de reabilitação, a fim de se ver livre. Porém, sempre que pensava em Cristo, imaginava-se sendo o Seu carrasco, com todo prazer, e era isso que o motivava a devorar as Sagradas Escrituras...
Penso que a sensibilidade seja uma componente importante para a apreciação daquilo que se revela belo. Não depende, para qualquer cidadão, de seu nível de renda, de sua posição social ou até mesmo, em certo sentido, de sua aquisição intelectual (se por “aquisição intelectual” se entende a mera acumulação de dados e estimulação do raciocínio, sem guiamento moral e verdadeiro). Sim, todos esses fatores servem de auxílio, mas não são de forma alguma seus determinantes. Talvez seja uma disposição individual que vem desde o berço. Mas, com absoluta clareza, a cultivação da docilidade espiritual para com o belo se dá não só por meio do costume, mas também pela aquisição e interiorização daquilo que é mais essencial numa obra de arte – a sua forma, mas muito além disso, o seu fim, que está em nós, e não em si. Quando a ponte entre o indivíduo e a obra de arte é construída, guiada pelo bem, aí sim ela se torna de real valor. E de infinitamente superior valor é aquela obra de arte que se conecta com toda a humanidade, representando possibilidades divinas fornecidas pela própria natureza, engrandecendo o próprio homem.
Caso essa “conexão primordial” não aconteça, então a obra de arte não passará de um amontoado de fragmentos, sem o menor sentido ou finalidade, soltos ao acaso. Não possuindo uma unidade, não significam nada.
Não é de se espantar a total negligência e até o desprezo da população quando o assunto cai em música clássica. Foge-se disso como o diabo da cruz. Para piorar, existe ainda um verdadeiro muro de preconceitos criados pela própria elite. Isso é simplesmente motivado apenas para reafirmar uma aparente superioridade intelectual perante aos demais. Mas é uma superioridade oca. Essa elite cada vez se deteriora mais. Chega ao cúmulo de achar plenamente normal o fato de louvar um Schumann e noutra ocasião agir irresponsavelmente e de forma totalmente repreensível. É essa elite cultural que, ao afirmar a beleza de uma fuga de Bach, o mestre cujas obras possuem um caráter religioso, despreza totalmente qualquer religião, faz apologia ao consumo de determinadas drogas, põe-se debruçada a polêmicas mesquinhas (“direitos” aos gays, cotas raciais) etc.
Sendo assim, sinto-me muito mais angustiado sabendo que a dita elite brasileira perde cada vez mais suas referências no que tange aos valores morais e estéticos do que sabendo (o que sempre se soube) que a maior parte da população está se lixando para Mozart. Até mesmo o chorinho, tão aclamado como música popular de enorme qualidade, se faz desconhecido para o povo. Se essa elite perde a cada dia o solo onde antes confusamente caminhava, então amanhã tombará, e levará para o abismo o restante de seus compatriotas. Nesse transloucado fenômeno, pode vir a ser o contato entre povo e arte, essa menina tão judiada hoje em dia, uma experiência das mais nefastas.
Sunday, August 28, 2005
O "mundo interior"
Amigos, a Rachel, num comentário ao post anterior, escreveu uma coisa que vale a pena gastarmos um pouco de nosso já sofrido tempo para refletirmos. Vou aqui copiar o que ela disse: "nosso corpo é só matéria... Ainda que hoje em dia algumas pessoas dêem mais importância a ele do que a outras coisas..."
O que ela disse me servirá de gancho para algo que há tempos estou para escrever desde a época do meu primeiro (e finado) blog.
Numa novela mais ou menos recente, havia uma música que agarrava minha atenção. Lembro só de uma parte, que aparentemente é uma bobagem qualquer. Era mais ou menos assim: Money no bolso, saúde e sucesso/ Money no bolso é tudo o que quero. Ora, não era pela beleza dos versos que eu a ouvia com curiosidade, muito menos pelo seu ritmo. Não, nada disso. O que me chamou a atenção é que de repente surgia, em plena novela das oito, um dos ideais populares mais famosos da Antiga Grécia!
"Como certas coisas ditas tão naturalmente hoje são antiqüíssimas!", pensei.
Suspeito que quem compôs aquela música não conheça muita coisa sobre poesia antiga, muito menos o público da novela. Mas em relação às coisas do espírito, não precisamos muitas vezes ler para conhecê-las: muito está no ar. E eis que pesquei, naquela musiquinha, mas em outras palavras, escondidinha, uma famosa canção báquica que resumia em poucas linhas o ideal popular grego. Vejamos qual era:
O bem supremo do mortal é a saúde;
O segundo, a formosura do corpo;
O terceiro, uma fortuna adquirida sem mácula;
O quarto, desfrutar entre amigos o esplendor da juventude.
In: Jaeger, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego. Trad. Artur M. Parreira, 4a. ed., São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 529
Se lembrarmos por exemplo da Ilíada, onde Aquiles preferiu a glória e fama imortal, ainda que morresse na juventude, a passar uma vida tranqüila e sem incidentes em seu país, perceberemos como esses valores, fortuna-saúde-glória, eram plenamente apreciados como o que de mais alto havia na vida. Nada mais familiar a nós: quantos não querem enriquecer, ter sucesso profissional e/ou viver bem?
No entanto, ainda que tudo isso seja natural, o que chama a atenção é a importância dada a esses valores. A hierarquia de uma bela vida, em outras palavras, é puramente material. Como tudo isso é bem antigo, não é apenas uma inovação de nossos tempos. O que chama a atenção é sua persistência, demonstrando que faz parte da realidade humana.
A superação deste ideal de vida foi sem dúvida nenhuma uma das mais gloriosas aquisições da história da humanidade. Tornou-se patrimônio comum. Daí que os responsáveis por tão grandiosa descoberta sejam tão fundamentais e próximos de nós.
Pois bem, naqueles antigos tempos surgiu um homem que seria para sempre considerado um exemplo de conduta e fundador de todo um projeto filosófico. Sua aparência era desconcertante: calvo, cabeçudo, nariz feio, barrigudo. Uma espécie de ogro. Mas esse homem caricato era ele mesmo, em sua própria existência, a representação de uma nova forma de vida, com uma hirarquia de valores absolutamente original. Seu nome era Sócrates. Não nos faltam relatos interessantíssimos acerca de sua vida. Sua preocupação com o cultivo da alma em primeiro lugar o fazia viril a tal ponto que Alcibíades relatou que já o vira, certa vez, num acampamento militar, ficar de pé por horas a fio e em meio à neve, absorto em reflexões. Outros lembraram de seu heroísmo durante a guerra. Embora não fosse miserável, desleixava-se dos bens materiais de modo espantoso, embora nisto em particular alguns de seus discípulos o superassem exageradamente. E é justamente um sujeito desses, que à primeira vista ninguém daria nada, representando (de modo exemplar) em vida e de modo coerente sua hierarquia de valores, que demonstrou a preeminência de um "mundo interior" sobre tudo o mais. Acabou condenado a tomar cicuta pelos próprios atenienses.
Aquele senhor era uma figura estranhíssima para seus contemporâneos. Mas não só pela sua aparência. Então por qual motivo? Porque ele "coloca no plano mais elevado os bens da alma, em segundo lugar os bens do corpo, e no grau inferior os bens materiais, como a riqueza e o poder", como lembrou bem Jaeger em seu livro já citado (p. 528). Isso significa que o filósofo descobriu "algo de novo, o mundo interior" (p. 529). Eis aqui a radical contribuição de Sócrates: "A arete [virtude] que ele nos fala é um valor espíritual" (p.529). Este é um caminho novo, que rapidamente, num dos maiores milagres de todos os tempos, foi seguido, sem interrupção, por outros dois homens que se tornaram igualmente patrimônio comum e legado da humanidade: Platão e Aristóteles. Foi uma das maiores proezas que o homem, apenas com sua razão, já conseguiu, cujos efeitos nos embriagam até hoje.
Essa "missão divina" socrática e o seu "cuidado da alma" não soam estranhos para nós, ou pelo menos não tanto quanto para os seus contemporâneos. Somos seus herdeiros, mas não diretamente. O responsável pela ponte com ele é nada mais nada menos que o Cristianismo, que nesse sentido possui com Sócrates afinidades por demais claras. Essa religião também encontra a riqueza inesgotável de nosso "castelo interior". Mas quanto à hirarquia de valores, Nosso Senhor resumiu quais eram os principais mandamentos que devemos seguir, os quais estão bem longe daquela velha canção báquica: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Eis o verdadeiro "bem supremo do mortal" - embora neste mundo o percebamos confusamente. O resto vem por acréscimo.
No entanto, apenas a descoberta do "mundo interior" não é o suficiente. É necessário relacioná-lo de modo harmonioso com os outros bens, pois do contrário poderemos perigosa e tragicamente cindir em duas a nossa única realidade, cavando um abismo entre o mundo espiritual e o mundo natural. Seja o corpo, por exemplo. Ele nos é um bem precioso à medida que por ele podemos, aqui neste mundo, dar testemunho e graças a Deus e aos próximos. Ele, enquanto "morada da alma" (o que é diferente de uma "prisão") - ainda que a alma resida nele provisoriamente -, ambos em harmonia um com o outro, sendo o corpo fiel e submisso à alma, é sagrado e digno de respeito e admiração, como um servente que realiza adequadamente suas funções. É nesse sentido que nossa saúde é um dos nossos bens fundamentais, pois é óbvio que somente podemos praticar o bem se estivermos vivos. Por outro lado, a monarquia da alma no governo de nossas vontades é a segunda condição para tal. Contudo, havendo uma cisão - ou mesmo descrença - na relação (tensa e frágil) entre aqueles dois mundos, então nosso corpo perde seu caráter sagrado ou, o que talvez seja pior, instaura a anarquia e o caos, antes refreados pelo governo da alma. É o criado provocando uma rebelião anárquica.
Este tema é interessante e pretendo algum dia (isto é, daqui a zilhões de anos) retomá-lo. Mas pelo menos acho que consegui dizer um pouco sobre o que há tempos tenho vontade, me aproveitando gentilmente do comentário mais gentil ainda da Rachel.
O que ela disse me servirá de gancho para algo que há tempos estou para escrever desde a época do meu primeiro (e finado) blog.
Numa novela mais ou menos recente, havia uma música que agarrava minha atenção. Lembro só de uma parte, que aparentemente é uma bobagem qualquer. Era mais ou menos assim: Money no bolso, saúde e sucesso/ Money no bolso é tudo o que quero. Ora, não era pela beleza dos versos que eu a ouvia com curiosidade, muito menos pelo seu ritmo. Não, nada disso. O que me chamou a atenção é que de repente surgia, em plena novela das oito, um dos ideais populares mais famosos da Antiga Grécia!
"Como certas coisas ditas tão naturalmente hoje são antiqüíssimas!", pensei.
Suspeito que quem compôs aquela música não conheça muita coisa sobre poesia antiga, muito menos o público da novela. Mas em relação às coisas do espírito, não precisamos muitas vezes ler para conhecê-las: muito está no ar. E eis que pesquei, naquela musiquinha, mas em outras palavras, escondidinha, uma famosa canção báquica que resumia em poucas linhas o ideal popular grego. Vejamos qual era:
O bem supremo do mortal é a saúde;
O segundo, a formosura do corpo;
O terceiro, uma fortuna adquirida sem mácula;
O quarto, desfrutar entre amigos o esplendor da juventude.
In: Jaeger, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego. Trad. Artur M. Parreira, 4a. ed., São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 529
Se lembrarmos por exemplo da Ilíada, onde Aquiles preferiu a glória e fama imortal, ainda que morresse na juventude, a passar uma vida tranqüila e sem incidentes em seu país, perceberemos como esses valores, fortuna-saúde-glória, eram plenamente apreciados como o que de mais alto havia na vida. Nada mais familiar a nós: quantos não querem enriquecer, ter sucesso profissional e/ou viver bem?
No entanto, ainda que tudo isso seja natural, o que chama a atenção é a importância dada a esses valores. A hierarquia de uma bela vida, em outras palavras, é puramente material. Como tudo isso é bem antigo, não é apenas uma inovação de nossos tempos. O que chama a atenção é sua persistência, demonstrando que faz parte da realidade humana.
A superação deste ideal de vida foi sem dúvida nenhuma uma das mais gloriosas aquisições da história da humanidade. Tornou-se patrimônio comum. Daí que os responsáveis por tão grandiosa descoberta sejam tão fundamentais e próximos de nós.
Pois bem, naqueles antigos tempos surgiu um homem que seria para sempre considerado um exemplo de conduta e fundador de todo um projeto filosófico. Sua aparência era desconcertante: calvo, cabeçudo, nariz feio, barrigudo. Uma espécie de ogro. Mas esse homem caricato era ele mesmo, em sua própria existência, a representação de uma nova forma de vida, com uma hirarquia de valores absolutamente original. Seu nome era Sócrates. Não nos faltam relatos interessantíssimos acerca de sua vida. Sua preocupação com o cultivo da alma em primeiro lugar o fazia viril a tal ponto que Alcibíades relatou que já o vira, certa vez, num acampamento militar, ficar de pé por horas a fio e em meio à neve, absorto em reflexões. Outros lembraram de seu heroísmo durante a guerra. Embora não fosse miserável, desleixava-se dos bens materiais de modo espantoso, embora nisto em particular alguns de seus discípulos o superassem exageradamente. E é justamente um sujeito desses, que à primeira vista ninguém daria nada, representando (de modo exemplar) em vida e de modo coerente sua hierarquia de valores, que demonstrou a preeminência de um "mundo interior" sobre tudo o mais. Acabou condenado a tomar cicuta pelos próprios atenienses.
Aquele senhor era uma figura estranhíssima para seus contemporâneos. Mas não só pela sua aparência. Então por qual motivo? Porque ele "coloca no plano mais elevado os bens da alma, em segundo lugar os bens do corpo, e no grau inferior os bens materiais, como a riqueza e o poder", como lembrou bem Jaeger em seu livro já citado (p. 528). Isso significa que o filósofo descobriu "algo de novo, o mundo interior" (p. 529). Eis aqui a radical contribuição de Sócrates: "A arete [virtude] que ele nos fala é um valor espíritual" (p.529). Este é um caminho novo, que rapidamente, num dos maiores milagres de todos os tempos, foi seguido, sem interrupção, por outros dois homens que se tornaram igualmente patrimônio comum e legado da humanidade: Platão e Aristóteles. Foi uma das maiores proezas que o homem, apenas com sua razão, já conseguiu, cujos efeitos nos embriagam até hoje.
Essa "missão divina" socrática e o seu "cuidado da alma" não soam estranhos para nós, ou pelo menos não tanto quanto para os seus contemporâneos. Somos seus herdeiros, mas não diretamente. O responsável pela ponte com ele é nada mais nada menos que o Cristianismo, que nesse sentido possui com Sócrates afinidades por demais claras. Essa religião também encontra a riqueza inesgotável de nosso "castelo interior". Mas quanto à hirarquia de valores, Nosso Senhor resumiu quais eram os principais mandamentos que devemos seguir, os quais estão bem longe daquela velha canção báquica: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Eis o verdadeiro "bem supremo do mortal" - embora neste mundo o percebamos confusamente. O resto vem por acréscimo.
No entanto, apenas a descoberta do "mundo interior" não é o suficiente. É necessário relacioná-lo de modo harmonioso com os outros bens, pois do contrário poderemos perigosa e tragicamente cindir em duas a nossa única realidade, cavando um abismo entre o mundo espiritual e o mundo natural. Seja o corpo, por exemplo. Ele nos é um bem precioso à medida que por ele podemos, aqui neste mundo, dar testemunho e graças a Deus e aos próximos. Ele, enquanto "morada da alma" (o que é diferente de uma "prisão") - ainda que a alma resida nele provisoriamente -, ambos em harmonia um com o outro, sendo o corpo fiel e submisso à alma, é sagrado e digno de respeito e admiração, como um servente que realiza adequadamente suas funções. É nesse sentido que nossa saúde é um dos nossos bens fundamentais, pois é óbvio que somente podemos praticar o bem se estivermos vivos. Por outro lado, a monarquia da alma no governo de nossas vontades é a segunda condição para tal. Contudo, havendo uma cisão - ou mesmo descrença - na relação (tensa e frágil) entre aqueles dois mundos, então nosso corpo perde seu caráter sagrado ou, o que talvez seja pior, instaura a anarquia e o caos, antes refreados pelo governo da alma. É o criado provocando uma rebelião anárquica.
Este tema é interessante e pretendo algum dia (isto é, daqui a zilhões de anos) retomá-lo. Mas pelo menos acho que consegui dizer um pouco sobre o que há tempos tenho vontade, me aproveitando gentilmente do comentário mais gentil ainda da Rachel.
Saturday, August 27, 2005
Heinrich von Kleist - Estória (Diógenes)
"Perguntaram a Diógenes onde queria ser enterrado quando morresse. Ele respondeu: "No meio do campo." O que, replicou alguém, você quer ser comido pelos pássaros e animais selvagens? "Então que se coloque ao meu lado o meu bastão", respondeu ele, "para que possa espantá-los". Espantá-los!, gritou outro; se você está morto, não tem mais sensação nenhuma! "Pois então o que me importa", retrucou, "se os pássaros me comerão ou não?"
Kleist, Heinrich von. "A Marquesa d'O... e Outras Estórias". Trad. e posfácio de Cláudia Cavalcanti, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1992, p. 217
Kleist, Heinrich von. "A Marquesa d'O... e Outras Estórias". Trad. e posfácio de Cláudia Cavalcanti, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1992, p. 217
Saturday, August 20, 2005
Thursday, August 18, 2005
Meleca, seqüestraram os comentários antigos
Os comentários anteriores a abril simplesmente desapareceram. Quem teria sido o responsável por semelhante abominação? Quem é o seqüestrador? Qual o preço do resgate? Ou será que eles queriam mais liberdade e fugiram de mim?
Sei que cada um deles foi tecido no calmo lar de cada um dos poucos e bondosos leitores destas plagas, me cobrindo com uma pequena manta de belas contribuições. Daí o motivo de meu aborrecimento.
Eu havia, faz um tempo, modificado o sistema de comentários, o que me levou a cometer a atrocidade de apagar os que já existiam. Então não sei se mudo mais uma vez, pois há o perigo de novamente as contribuições dos gentis leitores acabarem no vastíssimo limbo virtual. Por outro lado, será péssimo caso esse sistema de comentários continue a adotar essa política de cunho stalinista: fazer expurgos generalizados de tempos em tempos.
Verei que posso fazer. E mais uma vez peço desculpas ao leitor, que sendo já tão maltrado pelas confusas linhas que traço, agora de brinde tem seus comentários mais antigos sumariamente apagados.
Sei que cada um deles foi tecido no calmo lar de cada um dos poucos e bondosos leitores destas plagas, me cobrindo com uma pequena manta de belas contribuições. Daí o motivo de meu aborrecimento.
Eu havia, faz um tempo, modificado o sistema de comentários, o que me levou a cometer a atrocidade de apagar os que já existiam. Então não sei se mudo mais uma vez, pois há o perigo de novamente as contribuições dos gentis leitores acabarem no vastíssimo limbo virtual. Por outro lado, será péssimo caso esse sistema de comentários continue a adotar essa política de cunho stalinista: fazer expurgos generalizados de tempos em tempos.
Verei que posso fazer. E mais uma vez peço desculpas ao leitor, que sendo já tão maltrado pelas confusas linhas que traço, agora de brinde tem seus comentários mais antigos sumariamente apagados.
Sunday, August 14, 2005
Sobre o intelectual
Posso estar enganado, mas talvez a profissão (?) de intelectual é das mais ingratas que existe.
Primeiro e mais fundamental: porque o intelectual deve lidar com a verdade. E isso, bondoso leitor, fará com que você, caso intelectual, passe por maus bocados. Em épocas tão bizarras como a nossa, ser intelectual, nesse sentido, é praticar exílio voluntário. (Aqui vale uma explicação. Quando eu digo que esta época é bizarra, não recorro a uma figura de estilo: é constatação de um fato. Mas se o leitor quiser uma imagem mais literária do que estou dizendo, então afirmo que nunca a gravidade se fez mais terrível e presente.) E isso porque a simples menção ou idéia de compromisso com a verdade chega a ser para muitos algo estúpido e deplorável. "O que é a verdade?", perguntava Pilatos. Pois hoje essa dúvida é tida como inquestionável certeza da não existência de uma verdade sequer (que não, é óbvio, que nenhuma verdade existe...).
Além de estarmos cercados por milhares de Pilatos (quando não nos comportamos que nem o próprio, às vezes), o intelectual vive normalmente uma vida estranha aos olhos da multidão. Ele é, definitivamente, um outsider, alguém que vive num fundamental descompasso com o restante do povo. Ele tem um gênero de vida tão singular que parece um outro tipo de ser humano. Suas preocupações geralmente estão em outra ordem. Que tipo de gente procura saber por que chove, por que o sol é quente e brilha, o que é a alma e se ela é imortal, qual a origem dos idiomas, qual o sentido da vida, o que é justiça, quanto mede a diagonal do quadrado, qual o órgão responsável pelos nossos pensamentos, etc? Daí a relação de amor e ódio que ele trava com o povo. Não sei se o leitor já reparou, mas em termos gerais o intelectual é venerado só depois de morto. Enquanto vivo, ou ninguém dá muita atenção ao que ele diz, ou caso dêem o tratam com desprezo, com as devidas exceções. Daí a célebre história de Tales e sua escrava. Por outro lado, chega a ser natural como o intelectual muitas vezes olha com desprezo (etimologicamente: "olhar por cima") o restante do povo, considerando-o ingrato. Talvez fosse demais dizer que o intelectual gostaria de ser amado e sente aquele tipo de rancor dos apaixonados que são solenemente ignorados, às vezes com deliberado pouco-caso, pelas suas amadas? Mas não acho nenhum pouco absurdo de se imaginar que, do ponto de vista da honra, só umas poucas e precárias vezes o intelectual recebe em troca honrarias à sua altura. Os antigos diziam que a guerra é gerada pela afronta à honra. Quem sabe então se todas essas filosofias niilistas são, no fundo, causadas por tal e rude golpe no orgulho do pensador (detesto esse termo) que as produziu?
A vida do intelectual é mesmo sui generis. "Como essa gente", pensa ele, "consegue se manter impassível e até algumas vezes hostil a coisas tão belas quanto a literatura, a ciência, a filosofia? Como é possível viver sem isso? Como é possível não ser intelectual?" Tais questões não deixam de ter uma bela dose de amor-próprio. Mas amor-prório esse repleto de fundamentos. Porque, como certa vez disse Ortega y Gasset, a vida do intelectual é maravilhosa. Coisas magníficas passeiam sem cessar ante seus olhos. Ele vive num estupor constante. E é nesse sentido que Aristóteles, na Metafísica, disse que
foi a admiração o que inicialmente levou os homens a filosofar
e que
buscar uma explicação das coisas e se admirar delas é reconhecer que as ignora; por esta razão o filósofo é, até certo ponto, um homem aficcionado pelos mitos, porque o mito se constrói sobre assuntos maravilhosos. (Met, I, 2. Grifos meus.)
É essa capacidade (ou falta de) que separa o intelectual do restante do povo: a maior parte das pessoas não sente admiração por nada senão aquilo que foge do habitual (eis uma teoria do jornalismo), enquanto para o intelectual tudo lhe parece maravilhoso. E mesmo quando ele está de posse plena dos conhecimentos a respeito de algo, ainda assim aquilo lhe parece belo. "Nada causaria mais assombro a um geômetra que ver que a relação do diâmetro à circunferência resultasse comensurável", disse também o mesmo Aristóteles. Se era admirável como as coisas são o que são, após o pleno conhecimento delas torna-se admirável como elas poderiam deixar de ser o que são. E tal estupor é proporcional, claro, à beleza do objeto contemplado. (Tal idéia tem como pressuposto que há uma hierarquia entre todas as coisas, mas isso é outra conversa.)
Aqui o leitor pode estar se perguntando se uma vida tão admirável pode ser tão ingrata. E digo que é justamente nessa admiração que está um grande perigo. Benedetto Croce disse certa vez que os maiores descalabros já ditos vieram justamente dos grande e famosos intelectuais. São coisas que nenhuma pessoa normal e minimamente sensata jamais diria. Ele citou como exemplos a implicância de Platão com a poesia e a presunção freudiana sobre a importância capital na vida humana daquilo que eu chamaria de mundo sub-humano. Mais exemplos de loucuras certamente não faltam - e sempre muito bem argumentados, como aliás todo louco costuma fazer. Zenão e a negação do movimento, Parmênides e a negação do mundo sensível, Marx e suas teorias a respeito da importância fundamental da economia, etc. Pois a admiração que todos esses e muitos outros intelectuais tiveram com o mundo foi tal que por um momento perderam o senso da realidade e o juízo, totalmente absorvidos por suas próprias divagações. Isso é mais ou menos como se tivessem tomado um baita porre de vinho. E como tal, a ressaca vem sempre terrível. (Acho que a filosofia realista é uma espécie de engove dos disparates intelectuais: ainda que não evite um eventual porre, nos protege bem dos efeitos da ressaca seguinte.)
Eis a que humilhação, a que espécie de miséria o intelectual está perigosamente destinado. É aquele famoso bordão que diz que a pior queda é a dos grandes. O longo livro da imbecilidade humana tem como principal contribuição esse tipo tão sui generis de homem, como um cachorro que não larga o osso.
Primeiro e mais fundamental: porque o intelectual deve lidar com a verdade. E isso, bondoso leitor, fará com que você, caso intelectual, passe por maus bocados. Em épocas tão bizarras como a nossa, ser intelectual, nesse sentido, é praticar exílio voluntário. (Aqui vale uma explicação. Quando eu digo que esta época é bizarra, não recorro a uma figura de estilo: é constatação de um fato. Mas se o leitor quiser uma imagem mais literária do que estou dizendo, então afirmo que nunca a gravidade se fez mais terrível e presente.) E isso porque a simples menção ou idéia de compromisso com a verdade chega a ser para muitos algo estúpido e deplorável. "O que é a verdade?", perguntava Pilatos. Pois hoje essa dúvida é tida como inquestionável certeza da não existência de uma verdade sequer (que não, é óbvio, que nenhuma verdade existe...).
Além de estarmos cercados por milhares de Pilatos (quando não nos comportamos que nem o próprio, às vezes), o intelectual vive normalmente uma vida estranha aos olhos da multidão. Ele é, definitivamente, um outsider, alguém que vive num fundamental descompasso com o restante do povo. Ele tem um gênero de vida tão singular que parece um outro tipo de ser humano. Suas preocupações geralmente estão em outra ordem. Que tipo de gente procura saber por que chove, por que o sol é quente e brilha, o que é a alma e se ela é imortal, qual a origem dos idiomas, qual o sentido da vida, o que é justiça, quanto mede a diagonal do quadrado, qual o órgão responsável pelos nossos pensamentos, etc? Daí a relação de amor e ódio que ele trava com o povo. Não sei se o leitor já reparou, mas em termos gerais o intelectual é venerado só depois de morto. Enquanto vivo, ou ninguém dá muita atenção ao que ele diz, ou caso dêem o tratam com desprezo, com as devidas exceções. Daí a célebre história de Tales e sua escrava. Por outro lado, chega a ser natural como o intelectual muitas vezes olha com desprezo (etimologicamente: "olhar por cima") o restante do povo, considerando-o ingrato. Talvez fosse demais dizer que o intelectual gostaria de ser amado e sente aquele tipo de rancor dos apaixonados que são solenemente ignorados, às vezes com deliberado pouco-caso, pelas suas amadas? Mas não acho nenhum pouco absurdo de se imaginar que, do ponto de vista da honra, só umas poucas e precárias vezes o intelectual recebe em troca honrarias à sua altura. Os antigos diziam que a guerra é gerada pela afronta à honra. Quem sabe então se todas essas filosofias niilistas são, no fundo, causadas por tal e rude golpe no orgulho do pensador (detesto esse termo) que as produziu?
A vida do intelectual é mesmo sui generis. "Como essa gente", pensa ele, "consegue se manter impassível e até algumas vezes hostil a coisas tão belas quanto a literatura, a ciência, a filosofia? Como é possível viver sem isso? Como é possível não ser intelectual?" Tais questões não deixam de ter uma bela dose de amor-próprio. Mas amor-prório esse repleto de fundamentos. Porque, como certa vez disse Ortega y Gasset, a vida do intelectual é maravilhosa. Coisas magníficas passeiam sem cessar ante seus olhos. Ele vive num estupor constante. E é nesse sentido que Aristóteles, na Metafísica, disse que
foi a admiração o que inicialmente levou os homens a filosofar
e que
buscar uma explicação das coisas e se admirar delas é reconhecer que as ignora; por esta razão o filósofo é, até certo ponto, um homem aficcionado pelos mitos, porque o mito se constrói sobre assuntos maravilhosos. (Met, I, 2. Grifos meus.)
É essa capacidade (ou falta de) que separa o intelectual do restante do povo: a maior parte das pessoas não sente admiração por nada senão aquilo que foge do habitual (eis uma teoria do jornalismo), enquanto para o intelectual tudo lhe parece maravilhoso. E mesmo quando ele está de posse plena dos conhecimentos a respeito de algo, ainda assim aquilo lhe parece belo. "Nada causaria mais assombro a um geômetra que ver que a relação do diâmetro à circunferência resultasse comensurável", disse também o mesmo Aristóteles. Se era admirável como as coisas são o que são, após o pleno conhecimento delas torna-se admirável como elas poderiam deixar de ser o que são. E tal estupor é proporcional, claro, à beleza do objeto contemplado. (Tal idéia tem como pressuposto que há uma hierarquia entre todas as coisas, mas isso é outra conversa.)
Aqui o leitor pode estar se perguntando se uma vida tão admirável pode ser tão ingrata. E digo que é justamente nessa admiração que está um grande perigo. Benedetto Croce disse certa vez que os maiores descalabros já ditos vieram justamente dos grande e famosos intelectuais. São coisas que nenhuma pessoa normal e minimamente sensata jamais diria. Ele citou como exemplos a implicância de Platão com a poesia e a presunção freudiana sobre a importância capital na vida humana daquilo que eu chamaria de mundo sub-humano. Mais exemplos de loucuras certamente não faltam - e sempre muito bem argumentados, como aliás todo louco costuma fazer. Zenão e a negação do movimento, Parmênides e a negação do mundo sensível, Marx e suas teorias a respeito da importância fundamental da economia, etc. Pois a admiração que todos esses e muitos outros intelectuais tiveram com o mundo foi tal que por um momento perderam o senso da realidade e o juízo, totalmente absorvidos por suas próprias divagações. Isso é mais ou menos como se tivessem tomado um baita porre de vinho. E como tal, a ressaca vem sempre terrível. (Acho que a filosofia realista é uma espécie de engove dos disparates intelectuais: ainda que não evite um eventual porre, nos protege bem dos efeitos da ressaca seguinte.)
Eis a que humilhação, a que espécie de miséria o intelectual está perigosamente destinado. É aquele famoso bordão que diz que a pior queda é a dos grandes. O longo livro da imbecilidade humana tem como principal contribuição esse tipo tão sui generis de homem, como um cachorro que não larga o osso.
Thursday, August 11, 2005
Sobre o que me levou a trancar a matrícula de minha faculdade ou: confronto com a verdade
Vou contar a vocês a história secreta que me levou a trancar a matrícula da minha faculdade.
Estava eu prestes a entregar livros na biblioteca da faculdade quando uma figura estranha me atendeu:
- Pois não?
- ...
- Algum problema?
- Não sei dizer...
- O que foi?
- É a primeira vez que sou atendido por um animal.
- Desculpe?
- Você é um animal.
- O senhor também.
- Não, quero dizer... Você é mesmo um animal...
- Sim, e o senhor igualmente.
- Não, não... Quero dizer... Você é um tatu!
- Evidentemente. Algum problema?
- Não sei dizer...
- Entrei por concurso e graças a cotas.
- Cota para tatu?
- Sim. Há uma desproporção entre nossa espécie na natureza e na universidade.
- Como você consegue segurar essa caneta sem polegar opositor?
- Hã?
- Me perdoe, mas não sei o que dizer para um tatu que trabalha como atendente de biblioteca.
- Pergunte se cavei meu próprio buraco vindo para cá.
- Hein?
- É uma piada sem graça que de vez em quando me contam.
- Não entendi...
- Tudo bem. Qual seu nome e seu curso?
- Hm, desculpe mas... Como é possível um tatu trabalhar aqui?
- Olha, me responda uma coisa: você não passou no vestibular?
- Hm... Sim...
- Você está em qual período?
- No último.
- Então não está escrevendo uma monografia e prestes a se formar?
- Sim.
- E em breve não dará aulas?
- Assim espero.
- Ora, se você, sendo quem é, passou no vestibular, cursou faculdade, está prestes a se formar e ainda por cima dará aula, por que eu, sendo quem sou, não posso trabalhar aqui?
- Eu... Com licença, preciso resolver um problema que acabou de me ocorrer...
- À vontade, passar bem.
E foi assim que tranquei a matrícula de minha faculdade.
Estava eu prestes a entregar livros na biblioteca da faculdade quando uma figura estranha me atendeu:
- Pois não?
- ...
- Algum problema?
- Não sei dizer...
- O que foi?
- É a primeira vez que sou atendido por um animal.
- Desculpe?
- Você é um animal.
- O senhor também.
- Não, quero dizer... Você é mesmo um animal...
- Sim, e o senhor igualmente.
- Não, não... Quero dizer... Você é um tatu!
- Evidentemente. Algum problema?
- Não sei dizer...
- Entrei por concurso e graças a cotas.
- Cota para tatu?
- Sim. Há uma desproporção entre nossa espécie na natureza e na universidade.
- Como você consegue segurar essa caneta sem polegar opositor?
- Hã?
- Me perdoe, mas não sei o que dizer para um tatu que trabalha como atendente de biblioteca.
- Pergunte se cavei meu próprio buraco vindo para cá.
- Hein?
- É uma piada sem graça que de vez em quando me contam.
- Não entendi...
- Tudo bem. Qual seu nome e seu curso?
- Hm, desculpe mas... Como é possível um tatu trabalhar aqui?
- Olha, me responda uma coisa: você não passou no vestibular?
- Hm... Sim...
- Você está em qual período?
- No último.
- Então não está escrevendo uma monografia e prestes a se formar?
- Sim.
- E em breve não dará aulas?
- Assim espero.
- Ora, se você, sendo quem é, passou no vestibular, cursou faculdade, está prestes a se formar e ainda por cima dará aula, por que eu, sendo quem sou, não posso trabalhar aqui?
- Eu... Com licença, preciso resolver um problema que acabou de me ocorrer...
- À vontade, passar bem.
E foi assim que tranquei a matrícula de minha faculdade.
Sunday, August 07, 2005
O cidadão ideal (segundo a Nova Ordem Mundial)
Sem preconceitos, feminista, desarmado, cosmopolita, ecologista, moderno, progressista. Eis o homem de nossa época, quer dizer, o super-homem:

O máximo de revolta permitida:

Definitivamente, estes são tempos modernos.
O máximo de revolta permitida:
Definitivamente, estes são tempos modernos.
Thursday, August 04, 2005
Conversa na festa
Lembrei hoje de um rápido diálogo entre mim e um sujeito qualquer, numa festa faz um tempinho já:
Eu: Você já leu alguma coisa do Dostoiévski?
Um Sujeito Qualquer: Comecei a ler Niétotchka mas parei. Fui ficando deprimido.
Eu: Eu tô a fim de ler essa história também. Mas por que você ficou deprimido?
U.S.Q.: Porque fui pensando na minha vida e... [neste ponto os registros estão em estado deplorável em minha cachola]
Eu: Engraçado são os personagens dele, né? Um pior que o outro. Quer dizer, não que sejam horríveis no sentido de mal elaborados, mas o que eles têm de coitados... E sempre caindo bem no fundo do poço. Vai ver por isso que você ficou deprimido.
U.S.Q.: É.
Eu: Parece até que o Dostoiévski gostava do sofrimento. Devia ser um cara sofrido pra burro...
U.S.Q.: É. Mas o pouco que li dele me fez achar que ele se amarrava em gente outsider.
Eu: Como assim?
U.S.Q.: Uns caras muito loucos, pirados. Isso parece muito com Bukowski. Você já leu ele?
Eu (lembrando de um único conto, abominável, algo sobre uns caras que trabalhavam numa fábrica de espremer colhões e que terminavam transando): Só li um conto...
U.S.Q.: Pô, Bukowski é maior doidera! Ele é foda. Você tem que ler!
Eu: Ah... Quer dizer que você gosta de beatnicks?
U.S.Q.: [recordações aqui estão truncadas]
Eu (imaginando o que faz alguém comparar Bukowski a Dostoiévski, ou melhor, o que faz alguém gostar de um sujeito que escreveu um negócio tão escabroso como aquele conto): Vou beber. Bateu uma sede...
Eu: Você já leu alguma coisa do Dostoiévski?
Um Sujeito Qualquer: Comecei a ler Niétotchka mas parei. Fui ficando deprimido.
Eu: Eu tô a fim de ler essa história também. Mas por que você ficou deprimido?
U.S.Q.: Porque fui pensando na minha vida e... [neste ponto os registros estão em estado deplorável em minha cachola]
Eu: Engraçado são os personagens dele, né? Um pior que o outro. Quer dizer, não que sejam horríveis no sentido de mal elaborados, mas o que eles têm de coitados... E sempre caindo bem no fundo do poço. Vai ver por isso que você ficou deprimido.
U.S.Q.: É.
Eu: Parece até que o Dostoiévski gostava do sofrimento. Devia ser um cara sofrido pra burro...
U.S.Q.: É. Mas o pouco que li dele me fez achar que ele se amarrava em gente outsider.
Eu: Como assim?
U.S.Q.: Uns caras muito loucos, pirados. Isso parece muito com Bukowski. Você já leu ele?
Eu (lembrando de um único conto, abominável, algo sobre uns caras que trabalhavam numa fábrica de espremer colhões e que terminavam transando): Só li um conto...
U.S.Q.: Pô, Bukowski é maior doidera! Ele é foda. Você tem que ler!
Eu: Ah... Quer dizer que você gosta de beatnicks?
U.S.Q.: [recordações aqui estão truncadas]
Eu (imaginando o que faz alguém comparar Bukowski a Dostoiévski, ou melhor, o que faz alguém gostar de um sujeito que escreveu um negócio tão escabroso como aquele conto): Vou beber. Bateu uma sede...
Tuesday, August 02, 2005
Rápidos garranchos sobre o levar-se muito a sério
Certa vez, quase ao mesmo tempo em que olhei para o céu e vi um cometa passar assobiando (É verdade, os cometas assobiam. Os planetas dançam e as estrelas cantam. Alfa de Centauro é a mais desafinada.), pensei em fechar este blog. Posteriormente, quando coloquei meu espírito para se exercitar a poder de chibatadas, notei que tudo não passava de 2/3 de dor de dente misturada a uma pitada de preguiça de ler.
Ainda que eu nutra uma grande simpatia pelo ideal do antigo e nobre Glauco, segundo o qual temos de ser sempre os primeiros entre todos e nos distiguir de todos os demais, por outro lado acho muito engraçado e vital um inalienável direito dos homens: que a estupidez é um direito nosso.
Usando a linguagem técnica dos filósofos, os homens em geral são atualmente tolos e potencialmente inteligentes. Seria, é claro, imensa presunção de minha parte dizer que o amigo leitor pertence a este ou aquele grupo, afinal de contas, além de eu não te conhecer, você poderia suspeitar que estou puxando teu saco ou desfazendo de ti por esnobismo (que é uma característica vista com maus olhos segundo a chusma, e engraçada segundo alguns). Posso, por outro lado, afirmar que estou no grupo dos homens em geral, principalmente depois de ouvir certos dizeres em certo lugar.
Segundo o fulano, a massa apenas quer saber se não vai enfrentar a fila no banco, se poderá viajar sentada no ônibus e se voltará bem para casa. Parece que o fulano não tem preocupações dessa natureza em vida, sendo então ou puro espírito (qual seja, sem presença física neste mundo) ou deputado. Pela má catadura e pelo que notei ademais, dificilmente poderíamos considerá-lo qualquer um dos dois, ainda que espíritos atuem neste mundo e ainda que não faltem deputados com cara de pamonha passada. Ora, então este fulano é uma daquelas classes de fenômenos que permanecem um mistério para a ciência, mais ou menos como determinados tipos de raios cujos efeitos ninguém entende direito. Quanto a mim, sou um membro da massa, já que, dentre outras preocupações do gênero, quero saber se minha lâmina de barbear está com o fio decente ou qual é o preço do pão nos supermercados. Acrescentemos a isso o fato de que eu digo algo relativo à política de modo equivalente àquela vontade inadiável de fazer pipi, em meio a cobranças de pênaltis em final de campeonato: não é uma coisa que faço porque quero e muito me dá gosto, mas pela violência das circunstâncias. (Adorar jogo de futebol, aliás, preferir um jogo a um debate político é coisa de gente alienada, não é? Também gosto muito de TV, mais uma característica que segundo alguns é de gente com cérebro de esponja.)
Mas estou dizendo tudo isso e dando essa volta toda para dizer que certas coisas a gente faz naturalmente e sem dar atenção neurótica, por mais legais que sejam os resultados. Bach não descuidou dos originais de seus Concertos de Brandenburgo? Aristóteles não legou à posteridade suas obras sem nenhum plano de estudos? Santo Antão (Hm... Não seria melhor Antônio, como certa vez disse Felipe Ortiz, do finado blog Alexandrinas?), segundo meu xará Cassiano, não afirmou que não há prece perfeita se o religioso percebe que ele mesmo está rezando? Então por que nós, pequeninos homens de curta existência, tentamos ensaiar tragédias em coisas tão pequenas quanto um bloguinho, preocupados com n motivos? Isso parece na verdade uma tragicomédia.
Lembremos sempre que a estupidez é um dos direitos dos homens, e que sempre que preocupações existenciais forem os motivos de não escrevermos mais em um blog, na verdade tudo não passa de uma dor de dente e preguicite aguda da cachola. O resto são dragões virulentos e gnomos zombeteiros. E se você, bom leitor, concluir disso tudo que faço apologia da idiotice, dando-me como exemplo vivo, então você estará abusando do teu direito de ser bobo.
Ainda que eu nutra uma grande simpatia pelo ideal do antigo e nobre Glauco, segundo o qual temos de ser sempre os primeiros entre todos e nos distiguir de todos os demais, por outro lado acho muito engraçado e vital um inalienável direito dos homens: que a estupidez é um direito nosso.
Usando a linguagem técnica dos filósofos, os homens em geral são atualmente tolos e potencialmente inteligentes. Seria, é claro, imensa presunção de minha parte dizer que o amigo leitor pertence a este ou aquele grupo, afinal de contas, além de eu não te conhecer, você poderia suspeitar que estou puxando teu saco ou desfazendo de ti por esnobismo (que é uma característica vista com maus olhos segundo a chusma, e engraçada segundo alguns). Posso, por outro lado, afirmar que estou no grupo dos homens em geral, principalmente depois de ouvir certos dizeres em certo lugar.
Segundo o fulano, a massa apenas quer saber se não vai enfrentar a fila no banco, se poderá viajar sentada no ônibus e se voltará bem para casa. Parece que o fulano não tem preocupações dessa natureza em vida, sendo então ou puro espírito (qual seja, sem presença física neste mundo) ou deputado. Pela má catadura e pelo que notei ademais, dificilmente poderíamos considerá-lo qualquer um dos dois, ainda que espíritos atuem neste mundo e ainda que não faltem deputados com cara de pamonha passada. Ora, então este fulano é uma daquelas classes de fenômenos que permanecem um mistério para a ciência, mais ou menos como determinados tipos de raios cujos efeitos ninguém entende direito. Quanto a mim, sou um membro da massa, já que, dentre outras preocupações do gênero, quero saber se minha lâmina de barbear está com o fio decente ou qual é o preço do pão nos supermercados. Acrescentemos a isso o fato de que eu digo algo relativo à política de modo equivalente àquela vontade inadiável de fazer pipi, em meio a cobranças de pênaltis em final de campeonato: não é uma coisa que faço porque quero e muito me dá gosto, mas pela violência das circunstâncias. (Adorar jogo de futebol, aliás, preferir um jogo a um debate político é coisa de gente alienada, não é? Também gosto muito de TV, mais uma característica que segundo alguns é de gente com cérebro de esponja.)
Mas estou dizendo tudo isso e dando essa volta toda para dizer que certas coisas a gente faz naturalmente e sem dar atenção neurótica, por mais legais que sejam os resultados. Bach não descuidou dos originais de seus Concertos de Brandenburgo? Aristóteles não legou à posteridade suas obras sem nenhum plano de estudos? Santo Antão (Hm... Não seria melhor Antônio, como certa vez disse Felipe Ortiz, do finado blog Alexandrinas?), segundo meu xará Cassiano, não afirmou que não há prece perfeita se o religioso percebe que ele mesmo está rezando? Então por que nós, pequeninos homens de curta existência, tentamos ensaiar tragédias em coisas tão pequenas quanto um bloguinho, preocupados com n motivos? Isso parece na verdade uma tragicomédia.
Lembremos sempre que a estupidez é um dos direitos dos homens, e que sempre que preocupações existenciais forem os motivos de não escrevermos mais em um blog, na verdade tudo não passa de uma dor de dente e preguicite aguda da cachola. O resto são dragões virulentos e gnomos zombeteiros. E se você, bom leitor, concluir disso tudo que faço apologia da idiotice, dando-me como exemplo vivo, então você estará abusando do teu direito de ser bobo.
Sunday, July 24, 2005
Melhor tomar nescau "genérico" e ver uns quadros pré-rafaelitas que assistir à TVE (e não que isso seja muito vantajoso, mas...)
Apenas querendo deixar de molho meu cérebro, sentei e fui trocando de canal, enquanto comia torrada com requeijão e bebia um "genérico" de nescau. Primeiro passei por um joguinho da Major League Soccer horrível: mais de 40oC no campo, um time todo de preto, falta de habilidade mínima com a bola. Depois pulei para a Record, onde passava, com uma dublagem igualmente horrível, "1492", na parte onde Colombo faz um discurso - para ficarmos com o mesmo adjetivo, horrível - para acalmar a tripulação, muito nervosinha por não chegar a nenhuma mísera ilhota. Passei. Caí na TVE, que normalmente já não tem algo bom, num programa de um cara gordão que acha muito interessante ter sua caranchona estampada na tela. Coisa detestável, parece com aqueles sujeitos que para conversar quase nos beijam. E dava até para ver detalhes dos dentes dele.
O nome do apresentador era Abujanra (ou coisa parecida), ator - já vi aquele cara numa novela. Mas o interessante mesmo era a pose dele. Se a tevê estivesse sem som, pelos seus gestos e expressões pareceria que estava fazendo alguma revelação religiosa - ou pelo menos uma ótima sacação, que seja. E de fato começou até bem, descontada a caranchona estampada na tela: "Hoje, direi uma coisa que o público médio desconhece por absoluto, que a imprensa desse país quase não diz, e que quase ninguém sabe. Vou falar sobre um dos movimentos mais lindos e importantes da história do mundo"... Ora, naquele momento, entre um e outro gole de meu nescau "genérico", instantaneamente fiquei pensando sobre que diacho aquele homem diria. Algo que o público médio não sabe? Que a imprensa não divulga? Que é lindo e importante? Várias opções surgiram, de modo arrebatador. Será que eu teria a felicidade de escutá-lo a dizer algo sobre o movimento pré-rafaelita, que mesmo não sendo lindíssimo é interessante? Ou haveria de ser uma apresentação sumária da redenção do barroco no início do século XX? Talvez, por outro lado, alguns comentários sobre o cinema alemão na década de XX, e quem sabe trechos de filmes como "Aurora" ou "Dr. Marbuse"? Quem sabe então - hipótese que eu considerava remotíssima - ele dirá algo a respeito da catalogação pela Sociedade de Bach em Leipzig, em vários volumes, das obras completas daquele compositor?
O leitor deve ter percebido que em todas as hipóteses eu imaginava algo relacionado às artes, num período de no máximo um século e meio, dentro de tudo aquilo que o ator disse: algo que geralmente o público nunca ouviu falar, que a imprensa não divulga, etc. Finalmente eu veria na TVE algo que valesse a pena. Mas eis que, para destruir tais sonhos e criar só pesadelos, como aqueles bichos de "Monstros S.A.", o ator arrematou: "Vamos aqui falar sobre a... Comuma de Paris". Só pude exprimir duas frases de uma palavra cada, até porque eu estava comendo torrada: "Hein? Quê?" E para não perder o embalo, ele, o apresentador de caranchona estampada na tela, franzindo a testa e dando um sorriso ao mesmo tempo que falava, pediu que um historiador convidado explicasse ao público o que foi tão solene movimento. Quando o historiador começou a dizer "a Comuna de Paris foi...", retornei ao joguinho.
Mas ele estava tão ruim que, vinte minutos depois, voltei àquele canal, pois eu estava curioso em como aquilo haveria de terminar. E peguei mesmo o final. Tive sorte, pois consegui pescar a pergunta-chavão clássica quando se discute socialismo e afins. Eis o diálogo rápido:
Abujanra (sempre com aquela expressão que mencionei acima): Daria para prever que a Alemanha Ocidental engoliria a Oriental e a enriqueceria? Daria para prever o desmoronamento da União Soviética?
Historiador (despenteado e com a barba por fazer, que proporciona segundo alguns um bônus no carisma, já que seria de mau-tom não fazer o genêro "estou-nem-aí-para-a-moda-porque-sou-inteligente-demais"): Ora, quem faz previsão é astrólogo. (risos de deboche) História não é previsão, só trabalha com post-facts. Não dava para adivinhar. Por exemplo, quem é que aqui no Brasil ia adivinhar que Tancredo ia subir ao poder, acontecer aquilo tudo com ele e que Sarney viria logo em seguida? (Em seguida, apresentador e entrevistado se levantam e se abraçam, dançando tempo polca. Não, não, a dança fica por conta de minha imaginação.)
Como em tão poucas palavras alguém concentra tanta bobagem? O historiador mistura eventos acidentais, como o fato do Tancredo ter morrido por complicações de saúde, com algo puramente analisável a partir de certos pressupostos (que foram colocados em prática), como foi o comunismo, para daí concluir que tanto a conclusão de um caso quanto a do outro foram puramente acidentais. Façamos a prova dos nove a fim de averiguar se o historiador tem razão, através de comentários e análises a respeito do socialismo feitos por certas pessoas, antes e durante a URSS:
1) Meados do século XIX: Donoso Cortés afirma que a Rússia seria o palco do socialismo e de sua expansão imperialista;
2) Fins do século XIX: Eugen von Böhm-Bawerk analisa "O Capital" de Marx e diz que aquilo é uma canoa furada, insustentável;
3) Meados do século XX: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek dizem que uma economia controlada pelo Estado é inviável;
4) Fins do século XX: Ronald Reagan percebe que a URSS está com seus dias contados e a coloca numa arapuca cujo fim bom todos conhecemos;
5) Durante esse tempo todo (I): a Igreja repete constantemente que o comunismo é um perigo temível e que deve a todo custo ser evitado;
6) Durante esse tempo todo (II): uma cacetada de pessoas, mas uma cacetada mesmo, das mais diferentes opiniões, estão de acordo sobre o mal do comunismo e provam por A+B, tanto antes como durante a existência da URSS, que a experiência comunista resultaria em fracasso redundante e incrível perda de vidas;
7) E assim por diante.
Uai! E agora, em 2005, nosso caro historiador, com os (inúmeros) fatos à sua disposição, coisa que muitos dos que sabiam que o comunismo era um mal conheciam só parcamente, afirma descaradamente uma pérola dessas, achando que tudo não passou de um acaso igual ao que houve com o falecido presidente Tancredo Neves. Hazard is my ass. Desse jeito até me animo para virar historiador também.
Para combinar com o adjetivo-figurinha do início do texto: foi horrível o que ele disse. E ruim por ruim, mais uma vez retornei ao joguinho, e de novo pulei fora. Para voltar à TVE? Só se eu fosse um desses comunas que gostam de errar de novo: fui para o computador escrever isso aqui, pois me divirto mais.
Bom, como acho que sairia ganhando mais o leitor, no final das contas, vendo algo de fato um tantinho mais interessante, aqui vai um ou outro quadro de pintores pré-rafaelitas. Já disse que não acho lá mil maravilhas, mas é melhor que saber o que foi a Comuna de Paris. E até, boa noite (ou dia, que seja).

April Love, de Arthur Hughes.

Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rosseti.

Sidonia von Bork, de Sir Edward Coley Burne-Jones.
O nome do apresentador era Abujanra (ou coisa parecida), ator - já vi aquele cara numa novela. Mas o interessante mesmo era a pose dele. Se a tevê estivesse sem som, pelos seus gestos e expressões pareceria que estava fazendo alguma revelação religiosa - ou pelo menos uma ótima sacação, que seja. E de fato começou até bem, descontada a caranchona estampada na tela: "Hoje, direi uma coisa que o público médio desconhece por absoluto, que a imprensa desse país quase não diz, e que quase ninguém sabe. Vou falar sobre um dos movimentos mais lindos e importantes da história do mundo"... Ora, naquele momento, entre um e outro gole de meu nescau "genérico", instantaneamente fiquei pensando sobre que diacho aquele homem diria. Algo que o público médio não sabe? Que a imprensa não divulga? Que é lindo e importante? Várias opções surgiram, de modo arrebatador. Será que eu teria a felicidade de escutá-lo a dizer algo sobre o movimento pré-rafaelita, que mesmo não sendo lindíssimo é interessante? Ou haveria de ser uma apresentação sumária da redenção do barroco no início do século XX? Talvez, por outro lado, alguns comentários sobre o cinema alemão na década de XX, e quem sabe trechos de filmes como "Aurora" ou "Dr. Marbuse"? Quem sabe então - hipótese que eu considerava remotíssima - ele dirá algo a respeito da catalogação pela Sociedade de Bach em Leipzig, em vários volumes, das obras completas daquele compositor?
O leitor deve ter percebido que em todas as hipóteses eu imaginava algo relacionado às artes, num período de no máximo um século e meio, dentro de tudo aquilo que o ator disse: algo que geralmente o público nunca ouviu falar, que a imprensa não divulga, etc. Finalmente eu veria na TVE algo que valesse a pena. Mas eis que, para destruir tais sonhos e criar só pesadelos, como aqueles bichos de "Monstros S.A.", o ator arrematou: "Vamos aqui falar sobre a... Comuma de Paris". Só pude exprimir duas frases de uma palavra cada, até porque eu estava comendo torrada: "Hein? Quê?" E para não perder o embalo, ele, o apresentador de caranchona estampada na tela, franzindo a testa e dando um sorriso ao mesmo tempo que falava, pediu que um historiador convidado explicasse ao público o que foi tão solene movimento. Quando o historiador começou a dizer "a Comuna de Paris foi...", retornei ao joguinho.
Mas ele estava tão ruim que, vinte minutos depois, voltei àquele canal, pois eu estava curioso em como aquilo haveria de terminar. E peguei mesmo o final. Tive sorte, pois consegui pescar a pergunta-chavão clássica quando se discute socialismo e afins. Eis o diálogo rápido:
Abujanra (sempre com aquela expressão que mencionei acima): Daria para prever que a Alemanha Ocidental engoliria a Oriental e a enriqueceria? Daria para prever o desmoronamento da União Soviética?
Historiador (despenteado e com a barba por fazer, que proporciona segundo alguns um bônus no carisma, já que seria de mau-tom não fazer o genêro "estou-nem-aí-para-a-moda-porque-sou-inteligente-demais"): Ora, quem faz previsão é astrólogo. (risos de deboche) História não é previsão, só trabalha com post-facts. Não dava para adivinhar. Por exemplo, quem é que aqui no Brasil ia adivinhar que Tancredo ia subir ao poder, acontecer aquilo tudo com ele e que Sarney viria logo em seguida? (Em seguida, apresentador e entrevistado se levantam e se abraçam, dançando tempo polca. Não, não, a dança fica por conta de minha imaginação.)
Como em tão poucas palavras alguém concentra tanta bobagem? O historiador mistura eventos acidentais, como o fato do Tancredo ter morrido por complicações de saúde, com algo puramente analisável a partir de certos pressupostos (que foram colocados em prática), como foi o comunismo, para daí concluir que tanto a conclusão de um caso quanto a do outro foram puramente acidentais. Façamos a prova dos nove a fim de averiguar se o historiador tem razão, através de comentários e análises a respeito do socialismo feitos por certas pessoas, antes e durante a URSS:
1) Meados do século XIX: Donoso Cortés afirma que a Rússia seria o palco do socialismo e de sua expansão imperialista;
2) Fins do século XIX: Eugen von Böhm-Bawerk analisa "O Capital" de Marx e diz que aquilo é uma canoa furada, insustentável;
3) Meados do século XX: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek dizem que uma economia controlada pelo Estado é inviável;
4) Fins do século XX: Ronald Reagan percebe que a URSS está com seus dias contados e a coloca numa arapuca cujo fim bom todos conhecemos;
5) Durante esse tempo todo (I): a Igreja repete constantemente que o comunismo é um perigo temível e que deve a todo custo ser evitado;
6) Durante esse tempo todo (II): uma cacetada de pessoas, mas uma cacetada mesmo, das mais diferentes opiniões, estão de acordo sobre o mal do comunismo e provam por A+B, tanto antes como durante a existência da URSS, que a experiência comunista resultaria em fracasso redundante e incrível perda de vidas;
7) E assim por diante.
Uai! E agora, em 2005, nosso caro historiador, com os (inúmeros) fatos à sua disposição, coisa que muitos dos que sabiam que o comunismo era um mal conheciam só parcamente, afirma descaradamente uma pérola dessas, achando que tudo não passou de um acaso igual ao que houve com o falecido presidente Tancredo Neves. Hazard is my ass. Desse jeito até me animo para virar historiador também.
Para combinar com o adjetivo-figurinha do início do texto: foi horrível o que ele disse. E ruim por ruim, mais uma vez retornei ao joguinho, e de novo pulei fora. Para voltar à TVE? Só se eu fosse um desses comunas que gostam de errar de novo: fui para o computador escrever isso aqui, pois me divirto mais.
Bom, como acho que sairia ganhando mais o leitor, no final das contas, vendo algo de fato um tantinho mais interessante, aqui vai um ou outro quadro de pintores pré-rafaelitas. Já disse que não acho lá mil maravilhas, mas é melhor que saber o que foi a Comuna de Paris. E até, boa noite (ou dia, que seja).
April Love, de Arthur Hughes.
Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rosseti.
Sidonia von Bork, de Sir Edward Coley Burne-Jones.
Friday, July 22, 2005
Uma rápida recomendação de leitura: "O Paraíso Sexual-Democrata"
Nessa semana li "O Paraíso Sexual-Democrata", de Janer Cristaldo, que conta como é a Suécia - aliás, era, porque o livro é dos idos da década de 70. Indico-o ao leitor deste blog porque ele foi escrito de forma bem objetiva e sem puxações de saco, seja para o lado dos adoradores da Suécia, seja para os inimigos. Foi escrito, diga-se de passagem, de maneira bem inteligente, a julgar o que um Gabeira já escreveu sobre o assunto. (É verdade, tal comparação não é mérito para ninguém, mas o valor da análise de Janer Cristaldo, exceto quando faz equivocados comentários sobre o Catolicismo, é mesmo interessante.) Mas o saldo está, a meu ver, mais para quem fica com o pé atrás com aquele país, ainda que as pessoas vivam, em geral, de modo incomparavelmente muito mais confortável do que aqui.
E não poderia deixar de ser assim. Não sem razão, Janer várias vezes relembra o funcionamento de sociedades segundo vários livros do tipo "Admirável Mundo Novo", onde o controle do Estado é perfeito. O governo sueco pode, não sem exagero, ser considerado o perfeito controlador social. Onde a URSS, Cuba e países do gênero pecaram pela brutalidade, a Suécia primou pela calma astúcia, o que não deixa de ser admirável, já que os suecos têm a fama de ingênuos e desprovidos de senso de humor. Aliás, tão perfeito é este controle que o próprio Estado incita protestos - contra outros. Antes com os outros que conosco, é a sua filosofia bem pragmática. Exemplo: incentivos à países tais como o Vietnã, na época em guerra contra os EUA, através de passeatas e donativos públicos e privados vultuosos. E até contra o Brasil havia gente disposta a lutar - desde que houvesse garantias legais para não ser preso e torturado... Não estou brincando, havia quem raciocinasse desta maneira. E o autor esclarece que isso não é nenhum pouco estranho do ponto de vista de um sueco, na verdade é sintomático, porque Svensson está acostumado a ser cuidado em tudo pelo Estado onipresente, até mesmo em suas reivindicações aparentemente subversivas. Daí que ele até vai para a guerra, mas só se o Estado cuidar dele na frente de batalha.
Tenho mais coisas a dizer sobre este livro, mas deixo para outra ocasião. Só quero ressaltar que vale a pena lê-lo. E antes que eu me esqueça, sim, toda essa história de liberalização sexual começou e foi amplamente difundida por lá, e o mais lindo de tudo, como uma medida fundamentalmente política. Com trinta anos de atraso chegam os reflexos aqui no Brasil, e mesmo assim cheios de "senões". Mas este assunto fica para uma outra ocasião.
E não poderia deixar de ser assim. Não sem razão, Janer várias vezes relembra o funcionamento de sociedades segundo vários livros do tipo "Admirável Mundo Novo", onde o controle do Estado é perfeito. O governo sueco pode, não sem exagero, ser considerado o perfeito controlador social. Onde a URSS, Cuba e países do gênero pecaram pela brutalidade, a Suécia primou pela calma astúcia, o que não deixa de ser admirável, já que os suecos têm a fama de ingênuos e desprovidos de senso de humor. Aliás, tão perfeito é este controle que o próprio Estado incita protestos - contra outros. Antes com os outros que conosco, é a sua filosofia bem pragmática. Exemplo: incentivos à países tais como o Vietnã, na época em guerra contra os EUA, através de passeatas e donativos públicos e privados vultuosos. E até contra o Brasil havia gente disposta a lutar - desde que houvesse garantias legais para não ser preso e torturado... Não estou brincando, havia quem raciocinasse desta maneira. E o autor esclarece que isso não é nenhum pouco estranho do ponto de vista de um sueco, na verdade é sintomático, porque Svensson está acostumado a ser cuidado em tudo pelo Estado onipresente, até mesmo em suas reivindicações aparentemente subversivas. Daí que ele até vai para a guerra, mas só se o Estado cuidar dele na frente de batalha.
Tenho mais coisas a dizer sobre este livro, mas deixo para outra ocasião. Só quero ressaltar que vale a pena lê-lo. E antes que eu me esqueça, sim, toda essa história de liberalização sexual começou e foi amplamente difundida por lá, e o mais lindo de tudo, como uma medida fundamentalmente política. Com trinta anos de atraso chegam os reflexos aqui no Brasil, e mesmo assim cheios de "senões". Mas este assunto fica para uma outra ocasião.
Tuesday, July 19, 2005
Centelha (III)
Quanto mais escrevo, mais me dou conta que as letras possuem resistência própria. Neste sentido, a única diferença entre o trabalho com a pedra e o com as letras é que o primeiro é material na acepção plena, enquanto o segundo o é analogicamente. Daí que a habilidade de dobrar a resistência delas até que exprimam o que queremos é a mesma de talhar a pedra até que ela assuma a aparência que desejamos. Mas a arte só apareça quando as resistências são encaradas naturalmente e mesmo até, paradoxalmente, como aliadas. Então elas passam a ser uma questão puramente de técnica e razão de ser das próprias letras.
Centelha (II)
Antes de nos lançarmos às coisas do espírito, talvez seria mais sábio nos acostumarmos primeiro com o mundo concreto, que possui suas leis e resistências, que por sua vez são independentes e até às vezes hostis à nossa vontade. Será que deveríamos ser técnicos em eletricidade e/ou soldados, por exemplo, antes de nos aventurarmos em questões mais abstratas?
Centelha
Essa mania de utilizar simulações de computador a fim de analisar dados concretos da realidade não está muito longe do procedimento, segundo Aristóteles, dos pitagóricos. O mais curioso de tudo é que em ambos os casos a realidade se resume aos números e é você quem, por trás de tudo, de modo discreto, mexe os pauzinhos para que nada saia (muito) de ordem.
Team America - America, Fuck Yeah!
America...
America...
America, FUCK YEAH!
Coming again, to save the mother fucking day yeah,
America, FUCK YEAH!
Freedom is the only way yeah,
Terrorist your game is through cause now you have to answer too,
America, FUCK YEAH!
So lick my butt, and suck on my balls,
America, FUCK YEAH!
What you going to do when we come for you now,
it’s the dream that we all share; it’s the hope for tomorrow
FUCK YEAH!
McDonalds, FUCK YEAH!
Wal-Mart, FUCK YEAH!
The Gap, FUCK YEAH!
Baseball, FUCK YEAH!
NFL, FUCK, YEAH!
Rock and roll, FUCK YEAH!
The Internet, FUCK YEAH!
Slavery, FUCK YEAH!
FUCK YEAH!
Starbucks, FUCK YEAH!
Disney world, FUCK YEAH!
Porno, FUCK YEAH!
Valium, FUCK YEAH!
Reeboks, FUCK YEAH!
Fake Tits, FUCK YEAH!
Sushi, FUCK YEAH!
Taco Bell, FUCK YEAH!
Rodeos, FUCK YEAH!
Bed bath and beyond (Fuck yeah, Fuck yeah)
Liberty, FUCK YEAH!
White Slips, FUCK YEAH!
The Alamo, FUCK YEAH!
Band-aids, FUCK YEAH!
Las Vegas, FUCK YEAH!
Christmas, FUCK YEAH!
Immigrants, FUCK YEAH!
Columbine, FUCK YEAH!
Democrats, FUCK YEAH!
Republicans (republicans)
(fuck yeah, fuck yeah)
Sportsmanship
Books
(canção principal do filme Team America: World Police)
America...
America, FUCK YEAH!
Coming again, to save the mother fucking day yeah,
America, FUCK YEAH!
Freedom is the only way yeah,
Terrorist your game is through cause now you have to answer too,
America, FUCK YEAH!
So lick my butt, and suck on my balls,
America, FUCK YEAH!
What you going to do when we come for you now,
it’s the dream that we all share; it’s the hope for tomorrow
FUCK YEAH!
McDonalds, FUCK YEAH!
Wal-Mart, FUCK YEAH!
The Gap, FUCK YEAH!
Baseball, FUCK YEAH!
NFL, FUCK, YEAH!
Rock and roll, FUCK YEAH!
The Internet, FUCK YEAH!
Slavery, FUCK YEAH!
FUCK YEAH!
Starbucks, FUCK YEAH!
Disney world, FUCK YEAH!
Porno, FUCK YEAH!
Valium, FUCK YEAH!
Reeboks, FUCK YEAH!
Fake Tits, FUCK YEAH!
Sushi, FUCK YEAH!
Taco Bell, FUCK YEAH!
Rodeos, FUCK YEAH!
Bed bath and beyond (Fuck yeah, Fuck yeah)
Liberty, FUCK YEAH!
White Slips, FUCK YEAH!
The Alamo, FUCK YEAH!
Band-aids, FUCK YEAH!
Las Vegas, FUCK YEAH!
Christmas, FUCK YEAH!
Immigrants, FUCK YEAH!
Columbine, FUCK YEAH!
Democrats, FUCK YEAH!
Republicans (republicans)
(fuck yeah, fuck yeah)
Sportsmanship
Books
(canção principal do filme Team America: World Police)
Saturday, July 16, 2005
Adendo ao post anterior: "A fadinha"
Quando o sol estava belíssimo, no ponto mais alto do céu, numa faculdade qualquer se reuníam várias pessoas para debater a respeito do que, segundo seu peculiar idioma, chamavam de "Conjuntura e Estrutura Brasileira em Face às Transformações Pós-Modernas". E assim que o primeiro orador abriu a boquinha - ele era tão franzino, tadinho -, a Fadinha apareceu, como do nada, e após dizer "um, dois três, café para o freguês!", transformou todo mundo em belas xícaras, cheias de café quentinho. E levou para casa, a fim de brincar de casinha com o urso risonho da floresta e as demais fadinhas.
Ser bem-informado é coisa de canalha
Fiquei umas duas semanas acompanhando as CPIs da vida que estão rolando por aí. Conclusão: eu, além de não conseguir mais somar com eficiência números para lá dos dois algarismos, muito menos dividi-los ou multiplicá-los (subtrair estou muito acostumado, dada a minha constante perda de vinténs), comecei a ficar com preguiça de ler qualquer texto que tivesse a palavra "logicamente", ou que fosse superior a seis linhas. Parecido com a forma com que alguns índios contam, comigo agora estava sendo um, dois, três, chega-senão-pulo-deste-trem-e-ainda-processo-o-Estado.
Eu havia me esquecido como as notícias voam e carregam a gente junto para o caos. São tantos fatos e tão contraditórios uns com os outros, senão terrivelmente chatos, que não seria estranho se depois de uns dez telejornais a gente mordesse nossas próprias mães e lambesse a bota de quem nos maltrata. E uma das poucas exceções é o programa "Os Vídeos Mais Incríveis do Mundo", tão interessante que faz com que cogitemos se não seria mais adequada a existência de uma pluralidade de mundos.
Tenho de admitir que não consigo muito bem administrar as coisas. Estar constantemente informado e estudar Max Scheler é, no mínimo, equivalente a assobiar e chupar cana. Ou eu fico sabendo que foi Tião Macalé - todo mundo na tevê participa da idéia de Tião Macalé - que fraudou a previdência, ou leio uma boa definição de homem e sua posição no cosmos, uai! Terceira opção não dá.
Será que é o vácuo do ambiente que nos arrasta até o chão? Em algumas regiões deste mundo a gravidade se faz sentir com maior intensidade. Exemplo bobo: Brasil. Às vezes tenho a sensação de que a única coisa que dá para fazer em certos dias é voltar rolando para minha casa, sendo que estou bem longe de ser considerado um gordão, muito menos "step". Aliás, por falar em Brasil, dia desses que estava pensando em como seria uma versão brasileira de "A Flauta Mágica". A Rainha da Noite seria ou uma prostituta ou um traveco, e suas árias seriam algo como "vilão, não pagou e me deixou na mão!", com uns índios berrando no fundo. Mas tal assunto fica para outro momento.
Há dois ideais excelentes para o início da formação de um jovem. O primeiro é mais ou menos como no filme "Rapanui", quando as meninas daquela remota ilha se tornavam moçoilas: trancafiá-lo numa caverna por oito meses - no mínimo. Vejam que belíssimas coisas não surgiriam caso todos os jovens fossem enclausurados por, digamos, três anos, sem contato algum com o mundo exterior, apenas com a monarquia de si mesmos, porque nós nos controlamos de maneira monárquica. Tenho a certeza que, caso não houvesse uma enxurrada de novos sábios, ao menos uns dois terços de besteiras não surgiria. O segundo é uma espécie de imitação de uma curiosa lei ateniense, cujo nome é tão horrível quanto a (in)conseqüência dos atos de alguém que, graças a uma lei sua, provocasse danos à cidade, sendo ele totalmente responsabilizado, e não a Assembléia que a votou - pois ela teria sido conduzida erroneamente pelo infeliz: "Graphe paranomon". Mas segundo meus ideais de formação, se um jovem, graças ao mau ensino de um adulto, cometesse besteiras, seria o adulto totalmente responsabilizado, enquanto o jovem teria de praticar a abstinência até os vinte e cinco anos. Acreditem, não há mal maior que obrigar a se calar um adulto que adora ensinar bobajadas ou proibir que os jovens descontrolados de hoje façam sexo. Talvez uma parte significativa tivesse até de ser acompanhada psicologicamente.
Como ninguém será nem enclausurado pelos motivos que defendo, muito menos obrigado a praticar abstinência, então que se danem. Quanto a mim, sujeito e objeto deste texto (ha!, tomem aí, filósofos, que nunca pensaram que alguém pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto!), tentarei retornar sem maiores preocupações à rotina tranqüila que sempre tive: "Gilmore Girls" para lá, alusões a "Seinfeld" para cá, músicas, leituras, filmes, boxe e similares. Ser bem informado é coisa de canalha.
Eu havia me esquecido como as notícias voam e carregam a gente junto para o caos. São tantos fatos e tão contraditórios uns com os outros, senão terrivelmente chatos, que não seria estranho se depois de uns dez telejornais a gente mordesse nossas próprias mães e lambesse a bota de quem nos maltrata. E uma das poucas exceções é o programa "Os Vídeos Mais Incríveis do Mundo", tão interessante que faz com que cogitemos se não seria mais adequada a existência de uma pluralidade de mundos.
Tenho de admitir que não consigo muito bem administrar as coisas. Estar constantemente informado e estudar Max Scheler é, no mínimo, equivalente a assobiar e chupar cana. Ou eu fico sabendo que foi Tião Macalé - todo mundo na tevê participa da idéia de Tião Macalé - que fraudou a previdência, ou leio uma boa definição de homem e sua posição no cosmos, uai! Terceira opção não dá.
Será que é o vácuo do ambiente que nos arrasta até o chão? Em algumas regiões deste mundo a gravidade se faz sentir com maior intensidade. Exemplo bobo: Brasil. Às vezes tenho a sensação de que a única coisa que dá para fazer em certos dias é voltar rolando para minha casa, sendo que estou bem longe de ser considerado um gordão, muito menos "step". Aliás, por falar em Brasil, dia desses que estava pensando em como seria uma versão brasileira de "A Flauta Mágica". A Rainha da Noite seria ou uma prostituta ou um traveco, e suas árias seriam algo como "vilão, não pagou e me deixou na mão!", com uns índios berrando no fundo. Mas tal assunto fica para outro momento.
Há dois ideais excelentes para o início da formação de um jovem. O primeiro é mais ou menos como no filme "Rapanui", quando as meninas daquela remota ilha se tornavam moçoilas: trancafiá-lo numa caverna por oito meses - no mínimo. Vejam que belíssimas coisas não surgiriam caso todos os jovens fossem enclausurados por, digamos, três anos, sem contato algum com o mundo exterior, apenas com a monarquia de si mesmos, porque nós nos controlamos de maneira monárquica. Tenho a certeza que, caso não houvesse uma enxurrada de novos sábios, ao menos uns dois terços de besteiras não surgiria. O segundo é uma espécie de imitação de uma curiosa lei ateniense, cujo nome é tão horrível quanto a (in)conseqüência dos atos de alguém que, graças a uma lei sua, provocasse danos à cidade, sendo ele totalmente responsabilizado, e não a Assembléia que a votou - pois ela teria sido conduzida erroneamente pelo infeliz: "Graphe paranomon". Mas segundo meus ideais de formação, se um jovem, graças ao mau ensino de um adulto, cometesse besteiras, seria o adulto totalmente responsabilizado, enquanto o jovem teria de praticar a abstinência até os vinte e cinco anos. Acreditem, não há mal maior que obrigar a se calar um adulto que adora ensinar bobajadas ou proibir que os jovens descontrolados de hoje façam sexo. Talvez uma parte significativa tivesse até de ser acompanhada psicologicamente.
Como ninguém será nem enclausurado pelos motivos que defendo, muito menos obrigado a praticar abstinência, então que se danem. Quanto a mim, sujeito e objeto deste texto (ha!, tomem aí, filósofos, que nunca pensaram que alguém pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto!), tentarei retornar sem maiores preocupações à rotina tranqüila que sempre tive: "Gilmore Girls" para lá, alusões a "Seinfeld" para cá, músicas, leituras, filmes, boxe e similares. Ser bem informado é coisa de canalha.
Thursday, July 14, 2005
Massacre de crianças no Iraque
Eu soube da notícia pelo blog Direita.
São poucas as coisas neste mundo que provocam uma justa ira, ainda mais tão longe de nós. Mas eram crianças, cacete, e os soldados estavam distribuindo balas e brinquedos somente, até um maníaco matar a todos, ferindo inclusive um bebê de quatro dias! Santo Deus!
Hoje, mais do que nunca, tenho todos os motivos deste mundo para considerar todo aquele que ousar justificar o que chama de "resistência iraquiana", eufemismo para aquela turba bárbara, desumana e monstruosa, um total canalha. Afinal, que gênero de indivíduo buscaria defender, mesmo que discretamente, pessoas que de propósito matam inocentes, sem poupar inclusive bebês?
Vi num programa, há tempos, uma pessoa retirando com uma espátula, em Israel, os restos mortais, espalhados por todos os cantos da rua, de pessoas que morreram num mercado após a detonação de uma bomba, tudo por causa de um demente palestino. Não sei absolutamente nada sobre a Palestina, exceto o fato de ser um dos berços da demência atualmente. Ora, que sociedade normal incentivaria seus próprios membros a matar o maior número possível de inocentes?
Os EUA, a Espanha e agora a Inglaterra passaram por coisas semelhantes. É tudo de uma perversidade tão enorme que chega a ser inconcebível. É puramente demoníaco. E um dos indícios da perversidade demoníaca do caráter de algumas pessoas é a indisfarçada alegria ante a todas essas tragédias, mais ou menos como se se mostrassem vingados com a morte dos judeus no Holocausto. Pior ainda, sentimentos vindos de pessoas aparentemente normais.
Para que o leitor tenha uma idéia melhor do que eu quis dizer com "aparentemente normais", direi o que ouvi da boca de um infeliz professor que tive no segundo grau. Era meu professor de História e, no meio de uma conversa a respeito dos EUA, ele me disse: "Seria bom se houvesse o tal do grande terremoto na Califórnia, pra sacudir aquilo tudo. Tinha que acontecer alguma catástrofe pra abalar aquela gente." Na época, não dei muita importância àquelas palavras, talvez até ri, tamanha a minha loucura e falta de caráter com relação a tão grave assunto. Alguns anos se passaram e eis que houve o fatídico atentado contra as Torres Gêmeas, que me causou um estupor e tristeza inacreditáveis, como se minha mãe estivesse naquele lugar. Não lembrei na ocasião das palavras daquele sujeito que acidentalmente era professor; elas me vieram algum tempo depois. Senti então uma mistura de indignação, melancolia e tristeza, inclusive comigo mesmo. Era como se algum espírito dissesse: "eis aí a obra do teu gracejo".
Desde então, parafraseando Georges Bernanos, repito para mim mesmo: não se jogam dados com a vida. Não se pode nem é possível fazer a mínima concessão àqueles terroristas. E muito me espanta que haja pessoas afirmando que, ao contrário da Segunda Guerra, onde parecia claro que o inimigo eram os nazis, hoje tudo é nebuloso. Para mim não é nenhum pouco: onde houver gente que esteja propensa a matar inocentes, que busque chantagear o mundo sob ameaças de fabricação de armas nucleares ou que trancafie para sempre quem apenas discordou do governo, ali estão os "nazis" de nosso tempo, ainda que sejam semitas, orientais ou latinos. Aliás, hoje muitos enchem a boca para dizer que antes a Alemanha Nazista era claramente inimiga, mas basta uma rápida leitura em jornais, livros e outras fontes de opinião da época que fica patente que nada disso era tão claro, pelo menos até Hitler atacar a França e o Japão os EUA: sobrava gente que discordava da idéia de uma intervenção armada contra a Alemanha. Da mesma forma que hoje há canalhas defendendo a resistência/monstruosidade iraquiana, naqueles tempos não faltavam infelizes que juravam que Hitler era um sujeito cheio de ótimas intenções, governando uma coitada Alemanha humilhada pelas potências ocidentais. Pior de tudo que até hoje ensinam nas escolas que isso foi um dos principais motivos da Alemanha ter novamente ido à guerra. Quem nunca estudou que um dos motivos principais foi a imposição do Tratado de Versalhes, o chamado "Diktat", argumentando como um bom nazista soía fazer nos idos da década de vinte?
Por isso, meus caros, se no final das contas os países de bem (exceção: URSS, que de bem nada tinha) não foram transigentes com os nazis, por quê, por que haveriam de ser com esses malditos assassinos de crianças? Por que Israel está errado em se precaver duramente contra mais um lamentável massacre de inocentes em outro mercado? Por que os EUA, após os eventos de 2002, não podiam agir como agiram, ficando até barato para nações como o Irã e por extensão um monte, inclusive Cuba e China? Ao menos para mim está claro que, em casos extremos como esses, ou você fica a favor de canalhas ou contra, implícita ou explicitamente. Em outras palavras, ou você é canalha ou não, implícita ou explicitamente. Sim sim, não não, o resto é palavrório do Demônio.
São poucas as coisas neste mundo que provocam uma justa ira, ainda mais tão longe de nós. Mas eram crianças, cacete, e os soldados estavam distribuindo balas e brinquedos somente, até um maníaco matar a todos, ferindo inclusive um bebê de quatro dias! Santo Deus!
Hoje, mais do que nunca, tenho todos os motivos deste mundo para considerar todo aquele que ousar justificar o que chama de "resistência iraquiana", eufemismo para aquela turba bárbara, desumana e monstruosa, um total canalha. Afinal, que gênero de indivíduo buscaria defender, mesmo que discretamente, pessoas que de propósito matam inocentes, sem poupar inclusive bebês?
Vi num programa, há tempos, uma pessoa retirando com uma espátula, em Israel, os restos mortais, espalhados por todos os cantos da rua, de pessoas que morreram num mercado após a detonação de uma bomba, tudo por causa de um demente palestino. Não sei absolutamente nada sobre a Palestina, exceto o fato de ser um dos berços da demência atualmente. Ora, que sociedade normal incentivaria seus próprios membros a matar o maior número possível de inocentes?
Os EUA, a Espanha e agora a Inglaterra passaram por coisas semelhantes. É tudo de uma perversidade tão enorme que chega a ser inconcebível. É puramente demoníaco. E um dos indícios da perversidade demoníaca do caráter de algumas pessoas é a indisfarçada alegria ante a todas essas tragédias, mais ou menos como se se mostrassem vingados com a morte dos judeus no Holocausto. Pior ainda, sentimentos vindos de pessoas aparentemente normais.
Para que o leitor tenha uma idéia melhor do que eu quis dizer com "aparentemente normais", direi o que ouvi da boca de um infeliz professor que tive no segundo grau. Era meu professor de História e, no meio de uma conversa a respeito dos EUA, ele me disse: "Seria bom se houvesse o tal do grande terremoto na Califórnia, pra sacudir aquilo tudo. Tinha que acontecer alguma catástrofe pra abalar aquela gente." Na época, não dei muita importância àquelas palavras, talvez até ri, tamanha a minha loucura e falta de caráter com relação a tão grave assunto. Alguns anos se passaram e eis que houve o fatídico atentado contra as Torres Gêmeas, que me causou um estupor e tristeza inacreditáveis, como se minha mãe estivesse naquele lugar. Não lembrei na ocasião das palavras daquele sujeito que acidentalmente era professor; elas me vieram algum tempo depois. Senti então uma mistura de indignação, melancolia e tristeza, inclusive comigo mesmo. Era como se algum espírito dissesse: "eis aí a obra do teu gracejo".
Desde então, parafraseando Georges Bernanos, repito para mim mesmo: não se jogam dados com a vida. Não se pode nem é possível fazer a mínima concessão àqueles terroristas. E muito me espanta que haja pessoas afirmando que, ao contrário da Segunda Guerra, onde parecia claro que o inimigo eram os nazis, hoje tudo é nebuloso. Para mim não é nenhum pouco: onde houver gente que esteja propensa a matar inocentes, que busque chantagear o mundo sob ameaças de fabricação de armas nucleares ou que trancafie para sempre quem apenas discordou do governo, ali estão os "nazis" de nosso tempo, ainda que sejam semitas, orientais ou latinos. Aliás, hoje muitos enchem a boca para dizer que antes a Alemanha Nazista era claramente inimiga, mas basta uma rápida leitura em jornais, livros e outras fontes de opinião da época que fica patente que nada disso era tão claro, pelo menos até Hitler atacar a França e o Japão os EUA: sobrava gente que discordava da idéia de uma intervenção armada contra a Alemanha. Da mesma forma que hoje há canalhas defendendo a resistência/monstruosidade iraquiana, naqueles tempos não faltavam infelizes que juravam que Hitler era um sujeito cheio de ótimas intenções, governando uma coitada Alemanha humilhada pelas potências ocidentais. Pior de tudo que até hoje ensinam nas escolas que isso foi um dos principais motivos da Alemanha ter novamente ido à guerra. Quem nunca estudou que um dos motivos principais foi a imposição do Tratado de Versalhes, o chamado "Diktat", argumentando como um bom nazista soía fazer nos idos da década de vinte?
Por isso, meus caros, se no final das contas os países de bem (exceção: URSS, que de bem nada tinha) não foram transigentes com os nazis, por quê, por que haveriam de ser com esses malditos assassinos de crianças? Por que Israel está errado em se precaver duramente contra mais um lamentável massacre de inocentes em outro mercado? Por que os EUA, após os eventos de 2002, não podiam agir como agiram, ficando até barato para nações como o Irã e por extensão um monte, inclusive Cuba e China? Ao menos para mim está claro que, em casos extremos como esses, ou você fica a favor de canalhas ou contra, implícita ou explicitamente. Em outras palavras, ou você é canalha ou não, implícita ou explicitamente. Sim sim, não não, o resto é palavrório do Demônio.
Sunday, July 10, 2005
Diga-me a aparência do líder do teu país que te direi como tua nação é
Saturday, July 09, 2005
O filósofo já avisou...
Minha mãe costuma dizer que quem não pensa, o corpo padece (ou outra frase cheia de elipses). No atual caso do "mensalão", foi o bolso pátrio que pagou a lula, quer dizer, o pato. E já vocês repararam como alguns gostam de usar aumentativos em termos horríveis? "Mensalão", "apagão"...
Com todo o atual escândalo, o cartaz adquire toda uma involuntária ironia. Muito divertido, muito divertido. E só se surpreende quem não é um homem de boa vontade, porque sobre o atual caos o filósofo já avisou, e faz tempo. E olha que até agora, neca de ao menos suspirarem alguma coisa a respeito do Foro de São Paulo.
Aliás, por falar no filósofo, ele foi demitido do jornal "O Globo". Não diziam que as empresas Globo eram um reduto de reacionários? Tirando algum eventual indevido uso de metonímia, o único conservador que havia no jornal era o próprio filósofo. Mas sua própria demissão ele também já previu, se levarmos em consideração o que ele vivia escrevendo desde não sei quando. Foi uma questão de tempo.
Friday, July 01, 2005
Enfim, o e-mail desaforado
Como prometi, eis o e-mail enviado para "O Teocrata":
como alguém pode ser tão IMBECIL ao ponto de ser contra o aborto de fetos anencéfalos?
pesquisa com células-tronco (enquanto tetraplégicos voltam a andar) então, nem pensar, né?
pq?
pq é contra as leis de deus, pq só deus pode fazer milagres...
vcs devem estar felizes da vida agora, com o rotwailler de deus guardando Roma...
realmente, na internet se encontra muita merda.
pedofilia, neonazismo e essa bosta de site de vcs está entre os piores lixos que encontrei. qt pretensão. Goethe praqui, Dante prali, na boca de gente evidentemente reacionária, ignorante, burra e preconceituosa. gente que se diz "cristã", que fala em "amor cristão" e divulga piadinha sobre lésbica, sobre gay....
um cara que é (pela fotinho) negro e é contra o movimento negro... ridículo.
a depender da igreja católica, mermão, e dessa atitude de "conservação do status quo" que vc tanto defende, vc estaria trabalhando como escravo (seus bisavós trabalharam, não se esqueça) até hoje...
ridículo, simplesmente.
a cultura, os "poemas" e a "arte" de vcs são de uma mediocridade risível.
mas a ideologia por trás de tudo não tem a menor graça. é triste.
vcs acreditam mesmo em deus e em jesus cristo?
acreditam que maria pariu um filho do espírito santo? que ela engravidou por "milagre"?
kaskaraskasakkakaaaasss
acreditam que o mundo foi feito em sete dias?
na arca de noé, com todos os bichinhos dentro, vcs acreditam?
os imbecis aí devem ser contra o uso de preservativos em relações sexuais, né?
ah, sim, as pessoas devem fazer sexo depois do casamento, conforme reza a igreja...
por fim, a grande questão: em papai noel, vcs acreditam?
ps_ olha, eu sou branco, heterossexual, e numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos. e isso não se deve a nenhum grande mérito particular meu, mas a fato bem simples: nasci numa família bastante abastada, e dinheiro chama dinheiro, como se diz no mundo em que vivo...
digo isso para que fique bem claro que não estou advogando em causa própria, mesmo.
mas a irracionalidade de vcs é particularmente irritante pq se traveste de cultura e de razão onde existe apenas superstição. nada muito diferente do fundamentalismo muçulmano, embora estes ao menos tenham a desculpa de viver na idade média, num tipo de mentalidade que o ocidente superou já faz algum tempo... fundamentalismo cristão é algo tão obscurantista e absurdo qt foi o nazismo (com o qual a igreja católica foi deveras conivente), por ex.
passar bem, crianças
Eu já disse isso antes, mas não custa repetir: a quantidade de sujeitos que pensam assim é inimaginável, variando apenas o tom. Apenas quem não está acostumado com algo desse tipo estranharia esse gênero de "manifestação". É justamente para quem não está acostumado a se deparar com esse tipo de paroxismo que resolvi publicar esta pequena amostra da inteligência nacional - digo tal coisa porque não é o joão da esquina ou o manolo da quermesse que pensam assim, mas indivíduos que tiveram oportunidade de estudar em parte considerável de suas vidas e que constituem aquilo que se chama "público (supostamente) letrado".
Naturalmente, minha resposta foi educadíssima:
(Des)Prezado leitor,
Após toda essa manifestação de indignação que você demonstrou pelo meu site “O Teocrata”, não pude deixar de te escrever algo, afinal de contas não deixa de ser divertido espremer um piolho. Direi não por todos os membros do site, mas por mim mesmo: se eu pude crer que alguém teve a audácia de escrever toda a sorte de disparates que você escreveu – e, acredite, você não é o único idiota a escrever para a gente nesse tom, afinal de contas os idiotas têm a propriedade de formar multidões –, por que eu não acreditaria não apenas em Papai Noel, mas também em boitatá, saci, coelhinho da páscoa e National Kid? Pois existindo um leitor como você, aliás, se houve uma mulher, como a infeliz da tua mãe, que teve a insensatez de te parir, então tudo é possível. De fato sou contra aborto, mas no teu caso talvez eu fizesse uma exceção. Nisso até você de fato haveria de concordar comigo, afinal de contas, sendo você um anencéfalo que, por um milagre de Cristo, está vivo e em idade muito avançada, e como você disse que somente gente “IMBECIL” (imito aqui a tua afetação) é contra abortos de criaturas com esse mal, então não haveriam de começar por ti a título de exemplo? Mas como você é um imbecil, com ou sem capslock, então tua afirmação é autocontraditória.
O fato de você viver em família abastada só prova duas coisas: 1) que é a regra mais geral, pelo menos desde que o bárbaro disfarçado de intelectual Karl Marx se associou com Engels, o fato de pessoas de excelentes condições financeiras e posição social serem as primeiras a hipocritamente condenar uma suposta elite, “esquecendo-se” que elas mesmas são elite, e que as sociedades utópicas que propõem no lugar da que existe nada mais são que uma tirania totalitária exercida justamente por eles mesmos – com períodos de carnificina entre seus próprios membros, como se não bastassem os massacres costumeiros contra a população em geral –, dela participando um sem-número de pés-rapados como idiotas úteis e bucha-de-canhão. Se a tua cabecinha de ameba fizer algum esforço, você talvez lembrará como foi a Revolução Francesa, Russa, Chinesa, Nazista, Cubana, etc, etc, etc; 2) que a burrice e a falta de cultura não estão circunscritas aos mais pobres, afinal de contas, a julgar pelo que você escreveu, sou não apenas bem mais pobre que você como muitíssimo mais inteligente, o que não é mérito algum para mim, pois equivaleria a me considerar sábio por saber raciocinar melhor que um molusco. E ainda bem que você está “numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos” (sic), porque se te falta evidentemente o discernimento, o bom-senso e a sabedoria mais elementar inclusive de tua própria língua, ao menos existe alguma coisa para te compensar um pouquinho, o que, aliás, mais uma vez demonstra que Cristo é por demais sábio e justo, ainda que você não tenha feito nada demais senão nascer numa família abastada e não ser de todo mongolóide. Dadas as tuas circunstâncias, a vontade de Deus não deixa de ser admirável, e não sei como, em tão clara manifestação de misericórdia divina em tua vida, você não tenha se tornado ao menos padre. É um mistério...
Uma banana para ti, e vai encher o saco da tua mãe.
Com toda a consideração que você merece,
Cassiano Farias
PS: Tanto o meu e-mail quanto o teu publicarei no meu blog.
Imagino as toneladas de encheções de saco que alguém como Olavo de Carvalho recebe diariamente. Até em seu scrapbook no Orkut vão insultá-lo.
Tudo isso é lamentável e servirá, talvez, como documento histórico de uma época tão miserável como esta, na qual apenas um maravilhoso milagre insiste em salvar alguns poucos bravos.
como alguém pode ser tão IMBECIL ao ponto de ser contra o aborto de fetos anencéfalos?
pesquisa com células-tronco (enquanto tetraplégicos voltam a andar) então, nem pensar, né?
pq?
pq é contra as leis de deus, pq só deus pode fazer milagres...
vcs devem estar felizes da vida agora, com o rotwailler de deus guardando Roma...
realmente, na internet se encontra muita merda.
pedofilia, neonazismo e essa bosta de site de vcs está entre os piores lixos que encontrei. qt pretensão. Goethe praqui, Dante prali, na boca de gente evidentemente reacionária, ignorante, burra e preconceituosa. gente que se diz "cristã", que fala em "amor cristão" e divulga piadinha sobre lésbica, sobre gay....
um cara que é (pela fotinho) negro e é contra o movimento negro... ridículo.
a depender da igreja católica, mermão, e dessa atitude de "conservação do status quo" que vc tanto defende, vc estaria trabalhando como escravo (seus bisavós trabalharam, não se esqueça) até hoje...
ridículo, simplesmente.
a cultura, os "poemas" e a "arte" de vcs são de uma mediocridade risível.
mas a ideologia por trás de tudo não tem a menor graça. é triste.
vcs acreditam mesmo em deus e em jesus cristo?
acreditam que maria pariu um filho do espírito santo? que ela engravidou por "milagre"?
kaskaraskasakkakaaaasss
acreditam que o mundo foi feito em sete dias?
na arca de noé, com todos os bichinhos dentro, vcs acreditam?
os imbecis aí devem ser contra o uso de preservativos em relações sexuais, né?
ah, sim, as pessoas devem fazer sexo depois do casamento, conforme reza a igreja...
por fim, a grande questão: em papai noel, vcs acreditam?
ps_ olha, eu sou branco, heterossexual, e numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos. e isso não se deve a nenhum grande mérito particular meu, mas a fato bem simples: nasci numa família bastante abastada, e dinheiro chama dinheiro, como se diz no mundo em que vivo...
digo isso para que fique bem claro que não estou advogando em causa própria, mesmo.
mas a irracionalidade de vcs é particularmente irritante pq se traveste de cultura e de razão onde existe apenas superstição. nada muito diferente do fundamentalismo muçulmano, embora estes ao menos tenham a desculpa de viver na idade média, num tipo de mentalidade que o ocidente superou já faz algum tempo... fundamentalismo cristão é algo tão obscurantista e absurdo qt foi o nazismo (com o qual a igreja católica foi deveras conivente), por ex.
passar bem, crianças
Eu já disse isso antes, mas não custa repetir: a quantidade de sujeitos que pensam assim é inimaginável, variando apenas o tom. Apenas quem não está acostumado com algo desse tipo estranharia esse gênero de "manifestação". É justamente para quem não está acostumado a se deparar com esse tipo de paroxismo que resolvi publicar esta pequena amostra da inteligência nacional - digo tal coisa porque não é o joão da esquina ou o manolo da quermesse que pensam assim, mas indivíduos que tiveram oportunidade de estudar em parte considerável de suas vidas e que constituem aquilo que se chama "público (supostamente) letrado".
Naturalmente, minha resposta foi educadíssima:
(Des)Prezado leitor,
Após toda essa manifestação de indignação que você demonstrou pelo meu site “O Teocrata”, não pude deixar de te escrever algo, afinal de contas não deixa de ser divertido espremer um piolho. Direi não por todos os membros do site, mas por mim mesmo: se eu pude crer que alguém teve a audácia de escrever toda a sorte de disparates que você escreveu – e, acredite, você não é o único idiota a escrever para a gente nesse tom, afinal de contas os idiotas têm a propriedade de formar multidões –, por que eu não acreditaria não apenas em Papai Noel, mas também em boitatá, saci, coelhinho da páscoa e National Kid? Pois existindo um leitor como você, aliás, se houve uma mulher, como a infeliz da tua mãe, que teve a insensatez de te parir, então tudo é possível. De fato sou contra aborto, mas no teu caso talvez eu fizesse uma exceção. Nisso até você de fato haveria de concordar comigo, afinal de contas, sendo você um anencéfalo que, por um milagre de Cristo, está vivo e em idade muito avançada, e como você disse que somente gente “IMBECIL” (imito aqui a tua afetação) é contra abortos de criaturas com esse mal, então não haveriam de começar por ti a título de exemplo? Mas como você é um imbecil, com ou sem capslock, então tua afirmação é autocontraditória.
O fato de você viver em família abastada só prova duas coisas: 1) que é a regra mais geral, pelo menos desde que o bárbaro disfarçado de intelectual Karl Marx se associou com Engels, o fato de pessoas de excelentes condições financeiras e posição social serem as primeiras a hipocritamente condenar uma suposta elite, “esquecendo-se” que elas mesmas são elite, e que as sociedades utópicas que propõem no lugar da que existe nada mais são que uma tirania totalitária exercida justamente por eles mesmos – com períodos de carnificina entre seus próprios membros, como se não bastassem os massacres costumeiros contra a população em geral –, dela participando um sem-número de pés-rapados como idiotas úteis e bucha-de-canhão. Se a tua cabecinha de ameba fizer algum esforço, você talvez lembrará como foi a Revolução Francesa, Russa, Chinesa, Nazista, Cubana, etc, etc, etc; 2) que a burrice e a falta de cultura não estão circunscritas aos mais pobres, afinal de contas, a julgar pelo que você escreveu, sou não apenas bem mais pobre que você como muitíssimo mais inteligente, o que não é mérito algum para mim, pois equivaleria a me considerar sábio por saber raciocinar melhor que um molusco. E ainda bem que você está “numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos” (sic), porque se te falta evidentemente o discernimento, o bom-senso e a sabedoria mais elementar inclusive de tua própria língua, ao menos existe alguma coisa para te compensar um pouquinho, o que, aliás, mais uma vez demonstra que Cristo é por demais sábio e justo, ainda que você não tenha feito nada demais senão nascer numa família abastada e não ser de todo mongolóide. Dadas as tuas circunstâncias, a vontade de Deus não deixa de ser admirável, e não sei como, em tão clara manifestação de misericórdia divina em tua vida, você não tenha se tornado ao menos padre. É um mistério...
Uma banana para ti, e vai encher o saco da tua mãe.
Com toda a consideração que você merece,
Cassiano Farias
PS: Tanto o meu e-mail quanto o teu publicarei no meu blog.
Imagino as toneladas de encheções de saco que alguém como Olavo de Carvalho recebe diariamente. Até em seu scrapbook no Orkut vão insultá-lo.
Tudo isso é lamentável e servirá, talvez, como documento histórico de uma época tão miserável como esta, na qual apenas um maravilhoso milagre insiste em salvar alguns poucos bravos.
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