Já aparecem notícias sobre um pai que quer pedir à justiça a eutanásia do filho. (Aliás, pena de morte todo mundo é contra, mas aborto e eutanásia, pelo visto, não são um problema. Se o Estado não pode executar criminosos condenados, então com que direito ele pode permitir que inocentes sejam mortos?) Será a versão nacional do caso Schiavo.
Havendo coisas dessa espécie, não deixo de pensar que vivo na época mais porca de todos os tempos. Isso porque ninguém pode dar a desculpa da "inocente ignorância", pela qual outras civilizações praticaram as mais sórdidas barbáries com a consciência mais limpa. Nada disso: já passamos por tanta coisa ao longo desses três mil anos que esse tipo de atitude hoje em dia só indica uma satânica perversidade.
Por sinal, numa época tão besta como a nossa, realmente não consigo entender por que muita gente se preocupa em esticar sua expectativa de vida até ao máximo. É como querer por livre e espontânea vontade assistir por uma semana Cidade de Deus, com direito ao mais exaustivo making of. Eu hein, que gente masoquista! Não, obrigado: esta vida já é grande o suficiente e para mim já bastam as canalhices destes anos; dispenso as apresentações do século vindouro.
Nada melhor que relembrarmos as palavras do velho Eclesiastes:
E louvei mais os mortos que os vivos: e reputei mais venturosos do que uns e outros, ao que ainda não é nado, e que não tem visto os males que se fazem debaixo do sol. (Ecl 4,2s)
Thursday, September 01, 2005
Wednesday, August 31, 2005
Cultura no abismo
OBS: O texto a seguir foi publicado anteriormente na versão antiga d' "O Teocrata" alguns anos atrás. Eu até mudaria uma coisa ou outra mas, citando alguém de caráter tão duvidoso quanto Pôncio Pilatos, digo que o que escrevi, escrevi.
Mas que a tentação de retirar o nome de Tchaikovsky foi grande demais, ah, isso foi...
E só uma curiosidade: a parte onde digo "Creio de maneira clara e distinta" foi empolgação depois de ler Descartes. É uma expressão muito escrota, mas enfim, eu estava deslumbrado...
Uma das grandes idéias que se teve a respeito de expandir o acesso de música clássica ao povo foi a cobrança bastante generosa do ingresso do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro. Por apenas cinco reais, pode-se assistir, da galeria, obras de autores do porte de um Tchaikovsky, um Beethoven, um Schubert, entre muitos outros grandes. Frisas e camarotes também são bem acessíveis, já que custam vinte reais. Ainda é exceção à regra em matéria de valores de ingressos. Porém já é um começo.
Outra boa idéia nesse ponto é o programa muito simpático do senador Arthur da Távola. Passa na Rede Senado, em vários horários, e se chama sugestivamente Quem tem medo de música clássica?
Isso pode dar a impressão de que existe uma preocupação real em expandir a música erudita para a população. Infelizmente, tal coisa é bastante duvidosa. Eu mesmo, há alguns anos, deparei-me pela primeira vez com uma orquestra sinfônica ao vivo. Não me recordo bem qual era. Ela estava tocando a céu aberto na Cinelândia. Como eu estava andando sem rumo e fiquei surpreso e curioso em observar a orquestra, pus-me a apreciá-la. Lembro bastante das músicas que tocaram: partes de O Guarani, Aquarela do Brasil, e fecharam de forma triunfal com Assim Falou Zaratustra, de Strauss.
Estava totalmente fascinado, prazerosamente ouvindo a apresentação quando, findado o espetáculo gratuito, eis que o maestro resolveu falar. Para maior surpresa minha (e do público, irmanados comigo nessa impressão), ele noticiava que a respectiva apresentação havia sido motivada devido a pauperização da orquestra e, para alertar a população, resolveram fazer uma espécie de ato público, que poderia também ser revertido em ajuda financeira, mediante a aquisição de cds produzidos pelos músicos que ali estavam. Em outras palavras, estavam mendigando em praça pública.
Claro que todos estavam perplexos! Como seria possível não haver patrocínio para algo tão grandioso? No momento, eu não estava acompanhado pelo dinheiro, caso contrário teria feito minha doação idealista. Saí de lá entristecido.
Hoje, pensando nesse assunto e no esforço de gente que gostaria que todos ouvissem e gostassem de um Bach, tenho de concordar com a verdade, esta sempre disposta a nos constranger para o bem. Ela nos estapeia; mas como se pode querer que todos ajam para tal fim, mesmo que seja algo legítimo e benéfico, se os meios para alcançá-lo são inexistentes ou pouco claros e tênues o suficiente para que não se os perceba?
Creio de maneira clara e distinta no que se segue: podemos até mesmo obrigar e constranger um indivíduo a visualizar as coisas mais belas e notáveis. Contudo, de que isso adiantará se ele anteriormente não tiver obtido todos os pré-requisitos para que seu espírito se torne dócil o suficiente para participar daquilo que é belo? Seja lá quem tenha assistido ao filme Laranja Mecânica, de Kubrick, sabe do que falo. Alex, um psicótico, na prisão, resolveu ler a Bíblia para poder aparentar bom-comportamento e participar de um programa de reabilitação, a fim de se ver livre. Porém, sempre que pensava em Cristo, imaginava-se sendo o Seu carrasco, com todo prazer, e era isso que o motivava a devorar as Sagradas Escrituras...
Penso que a sensibilidade seja uma componente importante para a apreciação daquilo que se revela belo. Não depende, para qualquer cidadão, de seu nível de renda, de sua posição social ou até mesmo, em certo sentido, de sua aquisição intelectual (se por “aquisição intelectual” se entende a mera acumulação de dados e estimulação do raciocínio, sem guiamento moral e verdadeiro). Sim, todos esses fatores servem de auxílio, mas não são de forma alguma seus determinantes. Talvez seja uma disposição individual que vem desde o berço. Mas, com absoluta clareza, a cultivação da docilidade espiritual para com o belo se dá não só por meio do costume, mas também pela aquisição e interiorização daquilo que é mais essencial numa obra de arte – a sua forma, mas muito além disso, o seu fim, que está em nós, e não em si. Quando a ponte entre o indivíduo e a obra de arte é construída, guiada pelo bem, aí sim ela se torna de real valor. E de infinitamente superior valor é aquela obra de arte que se conecta com toda a humanidade, representando possibilidades divinas fornecidas pela própria natureza, engrandecendo o próprio homem.
Caso essa “conexão primordial” não aconteça, então a obra de arte não passará de um amontoado de fragmentos, sem o menor sentido ou finalidade, soltos ao acaso. Não possuindo uma unidade, não significam nada.
Não é de se espantar a total negligência e até o desprezo da população quando o assunto cai em música clássica. Foge-se disso como o diabo da cruz. Para piorar, existe ainda um verdadeiro muro de preconceitos criados pela própria elite. Isso é simplesmente motivado apenas para reafirmar uma aparente superioridade intelectual perante aos demais. Mas é uma superioridade oca. Essa elite cada vez se deteriora mais. Chega ao cúmulo de achar plenamente normal o fato de louvar um Schumann e noutra ocasião agir irresponsavelmente e de forma totalmente repreensível. É essa elite cultural que, ao afirmar a beleza de uma fuga de Bach, o mestre cujas obras possuem um caráter religioso, despreza totalmente qualquer religião, faz apologia ao consumo de determinadas drogas, põe-se debruçada a polêmicas mesquinhas (“direitos” aos gays, cotas raciais) etc.
Sendo assim, sinto-me muito mais angustiado sabendo que a dita elite brasileira perde cada vez mais suas referências no que tange aos valores morais e estéticos do que sabendo (o que sempre se soube) que a maior parte da população está se lixando para Mozart. Até mesmo o chorinho, tão aclamado como música popular de enorme qualidade, se faz desconhecido para o povo. Se essa elite perde a cada dia o solo onde antes confusamente caminhava, então amanhã tombará, e levará para o abismo o restante de seus compatriotas. Nesse transloucado fenômeno, pode vir a ser o contato entre povo e arte, essa menina tão judiada hoje em dia, uma experiência das mais nefastas.
Mas que a tentação de retirar o nome de Tchaikovsky foi grande demais, ah, isso foi...
E só uma curiosidade: a parte onde digo "Creio de maneira clara e distinta" foi empolgação depois de ler Descartes. É uma expressão muito escrota, mas enfim, eu estava deslumbrado...
Uma das grandes idéias que se teve a respeito de expandir o acesso de música clássica ao povo foi a cobrança bastante generosa do ingresso do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro. Por apenas cinco reais, pode-se assistir, da galeria, obras de autores do porte de um Tchaikovsky, um Beethoven, um Schubert, entre muitos outros grandes. Frisas e camarotes também são bem acessíveis, já que custam vinte reais. Ainda é exceção à regra em matéria de valores de ingressos. Porém já é um começo.
Outra boa idéia nesse ponto é o programa muito simpático do senador Arthur da Távola. Passa na Rede Senado, em vários horários, e se chama sugestivamente Quem tem medo de música clássica?
Isso pode dar a impressão de que existe uma preocupação real em expandir a música erudita para a população. Infelizmente, tal coisa é bastante duvidosa. Eu mesmo, há alguns anos, deparei-me pela primeira vez com uma orquestra sinfônica ao vivo. Não me recordo bem qual era. Ela estava tocando a céu aberto na Cinelândia. Como eu estava andando sem rumo e fiquei surpreso e curioso em observar a orquestra, pus-me a apreciá-la. Lembro bastante das músicas que tocaram: partes de O Guarani, Aquarela do Brasil, e fecharam de forma triunfal com Assim Falou Zaratustra, de Strauss.
Estava totalmente fascinado, prazerosamente ouvindo a apresentação quando, findado o espetáculo gratuito, eis que o maestro resolveu falar. Para maior surpresa minha (e do público, irmanados comigo nessa impressão), ele noticiava que a respectiva apresentação havia sido motivada devido a pauperização da orquestra e, para alertar a população, resolveram fazer uma espécie de ato público, que poderia também ser revertido em ajuda financeira, mediante a aquisição de cds produzidos pelos músicos que ali estavam. Em outras palavras, estavam mendigando em praça pública.
Claro que todos estavam perplexos! Como seria possível não haver patrocínio para algo tão grandioso? No momento, eu não estava acompanhado pelo dinheiro, caso contrário teria feito minha doação idealista. Saí de lá entristecido.
Hoje, pensando nesse assunto e no esforço de gente que gostaria que todos ouvissem e gostassem de um Bach, tenho de concordar com a verdade, esta sempre disposta a nos constranger para o bem. Ela nos estapeia; mas como se pode querer que todos ajam para tal fim, mesmo que seja algo legítimo e benéfico, se os meios para alcançá-lo são inexistentes ou pouco claros e tênues o suficiente para que não se os perceba?
Creio de maneira clara e distinta no que se segue: podemos até mesmo obrigar e constranger um indivíduo a visualizar as coisas mais belas e notáveis. Contudo, de que isso adiantará se ele anteriormente não tiver obtido todos os pré-requisitos para que seu espírito se torne dócil o suficiente para participar daquilo que é belo? Seja lá quem tenha assistido ao filme Laranja Mecânica, de Kubrick, sabe do que falo. Alex, um psicótico, na prisão, resolveu ler a Bíblia para poder aparentar bom-comportamento e participar de um programa de reabilitação, a fim de se ver livre. Porém, sempre que pensava em Cristo, imaginava-se sendo o Seu carrasco, com todo prazer, e era isso que o motivava a devorar as Sagradas Escrituras...
Penso que a sensibilidade seja uma componente importante para a apreciação daquilo que se revela belo. Não depende, para qualquer cidadão, de seu nível de renda, de sua posição social ou até mesmo, em certo sentido, de sua aquisição intelectual (se por “aquisição intelectual” se entende a mera acumulação de dados e estimulação do raciocínio, sem guiamento moral e verdadeiro). Sim, todos esses fatores servem de auxílio, mas não são de forma alguma seus determinantes. Talvez seja uma disposição individual que vem desde o berço. Mas, com absoluta clareza, a cultivação da docilidade espiritual para com o belo se dá não só por meio do costume, mas também pela aquisição e interiorização daquilo que é mais essencial numa obra de arte – a sua forma, mas muito além disso, o seu fim, que está em nós, e não em si. Quando a ponte entre o indivíduo e a obra de arte é construída, guiada pelo bem, aí sim ela se torna de real valor. E de infinitamente superior valor é aquela obra de arte que se conecta com toda a humanidade, representando possibilidades divinas fornecidas pela própria natureza, engrandecendo o próprio homem.
Caso essa “conexão primordial” não aconteça, então a obra de arte não passará de um amontoado de fragmentos, sem o menor sentido ou finalidade, soltos ao acaso. Não possuindo uma unidade, não significam nada.
Não é de se espantar a total negligência e até o desprezo da população quando o assunto cai em música clássica. Foge-se disso como o diabo da cruz. Para piorar, existe ainda um verdadeiro muro de preconceitos criados pela própria elite. Isso é simplesmente motivado apenas para reafirmar uma aparente superioridade intelectual perante aos demais. Mas é uma superioridade oca. Essa elite cada vez se deteriora mais. Chega ao cúmulo de achar plenamente normal o fato de louvar um Schumann e noutra ocasião agir irresponsavelmente e de forma totalmente repreensível. É essa elite cultural que, ao afirmar a beleza de uma fuga de Bach, o mestre cujas obras possuem um caráter religioso, despreza totalmente qualquer religião, faz apologia ao consumo de determinadas drogas, põe-se debruçada a polêmicas mesquinhas (“direitos” aos gays, cotas raciais) etc.
Sendo assim, sinto-me muito mais angustiado sabendo que a dita elite brasileira perde cada vez mais suas referências no que tange aos valores morais e estéticos do que sabendo (o que sempre se soube) que a maior parte da população está se lixando para Mozart. Até mesmo o chorinho, tão aclamado como música popular de enorme qualidade, se faz desconhecido para o povo. Se essa elite perde a cada dia o solo onde antes confusamente caminhava, então amanhã tombará, e levará para o abismo o restante de seus compatriotas. Nesse transloucado fenômeno, pode vir a ser o contato entre povo e arte, essa menina tão judiada hoje em dia, uma experiência das mais nefastas.
Sunday, August 28, 2005
O "mundo interior"
Amigos, a Rachel, num comentário ao post anterior, escreveu uma coisa que vale a pena gastarmos um pouco de nosso já sofrido tempo para refletirmos. Vou aqui copiar o que ela disse: "nosso corpo é só matéria... Ainda que hoje em dia algumas pessoas dêem mais importância a ele do que a outras coisas..."
O que ela disse me servirá de gancho para algo que há tempos estou para escrever desde a época do meu primeiro (e finado) blog.
Numa novela mais ou menos recente, havia uma música que agarrava minha atenção. Lembro só de uma parte, que aparentemente é uma bobagem qualquer. Era mais ou menos assim: Money no bolso, saúde e sucesso/ Money no bolso é tudo o que quero. Ora, não era pela beleza dos versos que eu a ouvia com curiosidade, muito menos pelo seu ritmo. Não, nada disso. O que me chamou a atenção é que de repente surgia, em plena novela das oito, um dos ideais populares mais famosos da Antiga Grécia!
"Como certas coisas ditas tão naturalmente hoje são antiqüíssimas!", pensei.
Suspeito que quem compôs aquela música não conheça muita coisa sobre poesia antiga, muito menos o público da novela. Mas em relação às coisas do espírito, não precisamos muitas vezes ler para conhecê-las: muito está no ar. E eis que pesquei, naquela musiquinha, mas em outras palavras, escondidinha, uma famosa canção báquica que resumia em poucas linhas o ideal popular grego. Vejamos qual era:
O bem supremo do mortal é a saúde;
O segundo, a formosura do corpo;
O terceiro, uma fortuna adquirida sem mácula;
O quarto, desfrutar entre amigos o esplendor da juventude.
In: Jaeger, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego. Trad. Artur M. Parreira, 4a. ed., São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 529
Se lembrarmos por exemplo da Ilíada, onde Aquiles preferiu a glória e fama imortal, ainda que morresse na juventude, a passar uma vida tranqüila e sem incidentes em seu país, perceberemos como esses valores, fortuna-saúde-glória, eram plenamente apreciados como o que de mais alto havia na vida. Nada mais familiar a nós: quantos não querem enriquecer, ter sucesso profissional e/ou viver bem?
No entanto, ainda que tudo isso seja natural, o que chama a atenção é a importância dada a esses valores. A hierarquia de uma bela vida, em outras palavras, é puramente material. Como tudo isso é bem antigo, não é apenas uma inovação de nossos tempos. O que chama a atenção é sua persistência, demonstrando que faz parte da realidade humana.
A superação deste ideal de vida foi sem dúvida nenhuma uma das mais gloriosas aquisições da história da humanidade. Tornou-se patrimônio comum. Daí que os responsáveis por tão grandiosa descoberta sejam tão fundamentais e próximos de nós.
Pois bem, naqueles antigos tempos surgiu um homem que seria para sempre considerado um exemplo de conduta e fundador de todo um projeto filosófico. Sua aparência era desconcertante: calvo, cabeçudo, nariz feio, barrigudo. Uma espécie de ogro. Mas esse homem caricato era ele mesmo, em sua própria existência, a representação de uma nova forma de vida, com uma hirarquia de valores absolutamente original. Seu nome era Sócrates. Não nos faltam relatos interessantíssimos acerca de sua vida. Sua preocupação com o cultivo da alma em primeiro lugar o fazia viril a tal ponto que Alcibíades relatou que já o vira, certa vez, num acampamento militar, ficar de pé por horas a fio e em meio à neve, absorto em reflexões. Outros lembraram de seu heroísmo durante a guerra. Embora não fosse miserável, desleixava-se dos bens materiais de modo espantoso, embora nisto em particular alguns de seus discípulos o superassem exageradamente. E é justamente um sujeito desses, que à primeira vista ninguém daria nada, representando (de modo exemplar) em vida e de modo coerente sua hierarquia de valores, que demonstrou a preeminência de um "mundo interior" sobre tudo o mais. Acabou condenado a tomar cicuta pelos próprios atenienses.
Aquele senhor era uma figura estranhíssima para seus contemporâneos. Mas não só pela sua aparência. Então por qual motivo? Porque ele "coloca no plano mais elevado os bens da alma, em segundo lugar os bens do corpo, e no grau inferior os bens materiais, como a riqueza e o poder", como lembrou bem Jaeger em seu livro já citado (p. 528). Isso significa que o filósofo descobriu "algo de novo, o mundo interior" (p. 529). Eis aqui a radical contribuição de Sócrates: "A arete [virtude] que ele nos fala é um valor espíritual" (p.529). Este é um caminho novo, que rapidamente, num dos maiores milagres de todos os tempos, foi seguido, sem interrupção, por outros dois homens que se tornaram igualmente patrimônio comum e legado da humanidade: Platão e Aristóteles. Foi uma das maiores proezas que o homem, apenas com sua razão, já conseguiu, cujos efeitos nos embriagam até hoje.
Essa "missão divina" socrática e o seu "cuidado da alma" não soam estranhos para nós, ou pelo menos não tanto quanto para os seus contemporâneos. Somos seus herdeiros, mas não diretamente. O responsável pela ponte com ele é nada mais nada menos que o Cristianismo, que nesse sentido possui com Sócrates afinidades por demais claras. Essa religião também encontra a riqueza inesgotável de nosso "castelo interior". Mas quanto à hirarquia de valores, Nosso Senhor resumiu quais eram os principais mandamentos que devemos seguir, os quais estão bem longe daquela velha canção báquica: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Eis o verdadeiro "bem supremo do mortal" - embora neste mundo o percebamos confusamente. O resto vem por acréscimo.
No entanto, apenas a descoberta do "mundo interior" não é o suficiente. É necessário relacioná-lo de modo harmonioso com os outros bens, pois do contrário poderemos perigosa e tragicamente cindir em duas a nossa única realidade, cavando um abismo entre o mundo espiritual e o mundo natural. Seja o corpo, por exemplo. Ele nos é um bem precioso à medida que por ele podemos, aqui neste mundo, dar testemunho e graças a Deus e aos próximos. Ele, enquanto "morada da alma" (o que é diferente de uma "prisão") - ainda que a alma resida nele provisoriamente -, ambos em harmonia um com o outro, sendo o corpo fiel e submisso à alma, é sagrado e digno de respeito e admiração, como um servente que realiza adequadamente suas funções. É nesse sentido que nossa saúde é um dos nossos bens fundamentais, pois é óbvio que somente podemos praticar o bem se estivermos vivos. Por outro lado, a monarquia da alma no governo de nossas vontades é a segunda condição para tal. Contudo, havendo uma cisão - ou mesmo descrença - na relação (tensa e frágil) entre aqueles dois mundos, então nosso corpo perde seu caráter sagrado ou, o que talvez seja pior, instaura a anarquia e o caos, antes refreados pelo governo da alma. É o criado provocando uma rebelião anárquica.
Este tema é interessante e pretendo algum dia (isto é, daqui a zilhões de anos) retomá-lo. Mas pelo menos acho que consegui dizer um pouco sobre o que há tempos tenho vontade, me aproveitando gentilmente do comentário mais gentil ainda da Rachel.
O que ela disse me servirá de gancho para algo que há tempos estou para escrever desde a época do meu primeiro (e finado) blog.
Numa novela mais ou menos recente, havia uma música que agarrava minha atenção. Lembro só de uma parte, que aparentemente é uma bobagem qualquer. Era mais ou menos assim: Money no bolso, saúde e sucesso/ Money no bolso é tudo o que quero. Ora, não era pela beleza dos versos que eu a ouvia com curiosidade, muito menos pelo seu ritmo. Não, nada disso. O que me chamou a atenção é que de repente surgia, em plena novela das oito, um dos ideais populares mais famosos da Antiga Grécia!
"Como certas coisas ditas tão naturalmente hoje são antiqüíssimas!", pensei.
Suspeito que quem compôs aquela música não conheça muita coisa sobre poesia antiga, muito menos o público da novela. Mas em relação às coisas do espírito, não precisamos muitas vezes ler para conhecê-las: muito está no ar. E eis que pesquei, naquela musiquinha, mas em outras palavras, escondidinha, uma famosa canção báquica que resumia em poucas linhas o ideal popular grego. Vejamos qual era:
O bem supremo do mortal é a saúde;
O segundo, a formosura do corpo;
O terceiro, uma fortuna adquirida sem mácula;
O quarto, desfrutar entre amigos o esplendor da juventude.
In: Jaeger, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego. Trad. Artur M. Parreira, 4a. ed., São Paulo, Martins Fontes, 2001, p. 529
Se lembrarmos por exemplo da Ilíada, onde Aquiles preferiu a glória e fama imortal, ainda que morresse na juventude, a passar uma vida tranqüila e sem incidentes em seu país, perceberemos como esses valores, fortuna-saúde-glória, eram plenamente apreciados como o que de mais alto havia na vida. Nada mais familiar a nós: quantos não querem enriquecer, ter sucesso profissional e/ou viver bem?
No entanto, ainda que tudo isso seja natural, o que chama a atenção é a importância dada a esses valores. A hierarquia de uma bela vida, em outras palavras, é puramente material. Como tudo isso é bem antigo, não é apenas uma inovação de nossos tempos. O que chama a atenção é sua persistência, demonstrando que faz parte da realidade humana.
A superação deste ideal de vida foi sem dúvida nenhuma uma das mais gloriosas aquisições da história da humanidade. Tornou-se patrimônio comum. Daí que os responsáveis por tão grandiosa descoberta sejam tão fundamentais e próximos de nós.
Pois bem, naqueles antigos tempos surgiu um homem que seria para sempre considerado um exemplo de conduta e fundador de todo um projeto filosófico. Sua aparência era desconcertante: calvo, cabeçudo, nariz feio, barrigudo. Uma espécie de ogro. Mas esse homem caricato era ele mesmo, em sua própria existência, a representação de uma nova forma de vida, com uma hirarquia de valores absolutamente original. Seu nome era Sócrates. Não nos faltam relatos interessantíssimos acerca de sua vida. Sua preocupação com o cultivo da alma em primeiro lugar o fazia viril a tal ponto que Alcibíades relatou que já o vira, certa vez, num acampamento militar, ficar de pé por horas a fio e em meio à neve, absorto em reflexões. Outros lembraram de seu heroísmo durante a guerra. Embora não fosse miserável, desleixava-se dos bens materiais de modo espantoso, embora nisto em particular alguns de seus discípulos o superassem exageradamente. E é justamente um sujeito desses, que à primeira vista ninguém daria nada, representando (de modo exemplar) em vida e de modo coerente sua hierarquia de valores, que demonstrou a preeminência de um "mundo interior" sobre tudo o mais. Acabou condenado a tomar cicuta pelos próprios atenienses.
Aquele senhor era uma figura estranhíssima para seus contemporâneos. Mas não só pela sua aparência. Então por qual motivo? Porque ele "coloca no plano mais elevado os bens da alma, em segundo lugar os bens do corpo, e no grau inferior os bens materiais, como a riqueza e o poder", como lembrou bem Jaeger em seu livro já citado (p. 528). Isso significa que o filósofo descobriu "algo de novo, o mundo interior" (p. 529). Eis aqui a radical contribuição de Sócrates: "A arete [virtude] que ele nos fala é um valor espíritual" (p.529). Este é um caminho novo, que rapidamente, num dos maiores milagres de todos os tempos, foi seguido, sem interrupção, por outros dois homens que se tornaram igualmente patrimônio comum e legado da humanidade: Platão e Aristóteles. Foi uma das maiores proezas que o homem, apenas com sua razão, já conseguiu, cujos efeitos nos embriagam até hoje.
Essa "missão divina" socrática e o seu "cuidado da alma" não soam estranhos para nós, ou pelo menos não tanto quanto para os seus contemporâneos. Somos seus herdeiros, mas não diretamente. O responsável pela ponte com ele é nada mais nada menos que o Cristianismo, que nesse sentido possui com Sócrates afinidades por demais claras. Essa religião também encontra a riqueza inesgotável de nosso "castelo interior". Mas quanto à hirarquia de valores, Nosso Senhor resumiu quais eram os principais mandamentos que devemos seguir, os quais estão bem longe daquela velha canção báquica: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Eis o verdadeiro "bem supremo do mortal" - embora neste mundo o percebamos confusamente. O resto vem por acréscimo.
No entanto, apenas a descoberta do "mundo interior" não é o suficiente. É necessário relacioná-lo de modo harmonioso com os outros bens, pois do contrário poderemos perigosa e tragicamente cindir em duas a nossa única realidade, cavando um abismo entre o mundo espiritual e o mundo natural. Seja o corpo, por exemplo. Ele nos é um bem precioso à medida que por ele podemos, aqui neste mundo, dar testemunho e graças a Deus e aos próximos. Ele, enquanto "morada da alma" (o que é diferente de uma "prisão") - ainda que a alma resida nele provisoriamente -, ambos em harmonia um com o outro, sendo o corpo fiel e submisso à alma, é sagrado e digno de respeito e admiração, como um servente que realiza adequadamente suas funções. É nesse sentido que nossa saúde é um dos nossos bens fundamentais, pois é óbvio que somente podemos praticar o bem se estivermos vivos. Por outro lado, a monarquia da alma no governo de nossas vontades é a segunda condição para tal. Contudo, havendo uma cisão - ou mesmo descrença - na relação (tensa e frágil) entre aqueles dois mundos, então nosso corpo perde seu caráter sagrado ou, o que talvez seja pior, instaura a anarquia e o caos, antes refreados pelo governo da alma. É o criado provocando uma rebelião anárquica.
Este tema é interessante e pretendo algum dia (isto é, daqui a zilhões de anos) retomá-lo. Mas pelo menos acho que consegui dizer um pouco sobre o que há tempos tenho vontade, me aproveitando gentilmente do comentário mais gentil ainda da Rachel.
Saturday, August 27, 2005
Heinrich von Kleist - Estória (Diógenes)
"Perguntaram a Diógenes onde queria ser enterrado quando morresse. Ele respondeu: "No meio do campo." O que, replicou alguém, você quer ser comido pelos pássaros e animais selvagens? "Então que se coloque ao meu lado o meu bastão", respondeu ele, "para que possa espantá-los". Espantá-los!, gritou outro; se você está morto, não tem mais sensação nenhuma! "Pois então o que me importa", retrucou, "se os pássaros me comerão ou não?"
Kleist, Heinrich von. "A Marquesa d'O... e Outras Estórias". Trad. e posfácio de Cláudia Cavalcanti, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1992, p. 217
Kleist, Heinrich von. "A Marquesa d'O... e Outras Estórias". Trad. e posfácio de Cláudia Cavalcanti, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1992, p. 217
Saturday, August 20, 2005
Thursday, August 18, 2005
Meleca, seqüestraram os comentários antigos
Os comentários anteriores a abril simplesmente desapareceram. Quem teria sido o responsável por semelhante abominação? Quem é o seqüestrador? Qual o preço do resgate? Ou será que eles queriam mais liberdade e fugiram de mim?
Sei que cada um deles foi tecido no calmo lar de cada um dos poucos e bondosos leitores destas plagas, me cobrindo com uma pequena manta de belas contribuições. Daí o motivo de meu aborrecimento.
Eu havia, faz um tempo, modificado o sistema de comentários, o que me levou a cometer a atrocidade de apagar os que já existiam. Então não sei se mudo mais uma vez, pois há o perigo de novamente as contribuições dos gentis leitores acabarem no vastíssimo limbo virtual. Por outro lado, será péssimo caso esse sistema de comentários continue a adotar essa política de cunho stalinista: fazer expurgos generalizados de tempos em tempos.
Verei que posso fazer. E mais uma vez peço desculpas ao leitor, que sendo já tão maltrado pelas confusas linhas que traço, agora de brinde tem seus comentários mais antigos sumariamente apagados.
Sei que cada um deles foi tecido no calmo lar de cada um dos poucos e bondosos leitores destas plagas, me cobrindo com uma pequena manta de belas contribuições. Daí o motivo de meu aborrecimento.
Eu havia, faz um tempo, modificado o sistema de comentários, o que me levou a cometer a atrocidade de apagar os que já existiam. Então não sei se mudo mais uma vez, pois há o perigo de novamente as contribuições dos gentis leitores acabarem no vastíssimo limbo virtual. Por outro lado, será péssimo caso esse sistema de comentários continue a adotar essa política de cunho stalinista: fazer expurgos generalizados de tempos em tempos.
Verei que posso fazer. E mais uma vez peço desculpas ao leitor, que sendo já tão maltrado pelas confusas linhas que traço, agora de brinde tem seus comentários mais antigos sumariamente apagados.
Sunday, August 14, 2005
Sobre o intelectual
Posso estar enganado, mas talvez a profissão (?) de intelectual é das mais ingratas que existe.
Primeiro e mais fundamental: porque o intelectual deve lidar com a verdade. E isso, bondoso leitor, fará com que você, caso intelectual, passe por maus bocados. Em épocas tão bizarras como a nossa, ser intelectual, nesse sentido, é praticar exílio voluntário. (Aqui vale uma explicação. Quando eu digo que esta época é bizarra, não recorro a uma figura de estilo: é constatação de um fato. Mas se o leitor quiser uma imagem mais literária do que estou dizendo, então afirmo que nunca a gravidade se fez mais terrível e presente.) E isso porque a simples menção ou idéia de compromisso com a verdade chega a ser para muitos algo estúpido e deplorável. "O que é a verdade?", perguntava Pilatos. Pois hoje essa dúvida é tida como inquestionável certeza da não existência de uma verdade sequer (que não, é óbvio, que nenhuma verdade existe...).
Além de estarmos cercados por milhares de Pilatos (quando não nos comportamos que nem o próprio, às vezes), o intelectual vive normalmente uma vida estranha aos olhos da multidão. Ele é, definitivamente, um outsider, alguém que vive num fundamental descompasso com o restante do povo. Ele tem um gênero de vida tão singular que parece um outro tipo de ser humano. Suas preocupações geralmente estão em outra ordem. Que tipo de gente procura saber por que chove, por que o sol é quente e brilha, o que é a alma e se ela é imortal, qual a origem dos idiomas, qual o sentido da vida, o que é justiça, quanto mede a diagonal do quadrado, qual o órgão responsável pelos nossos pensamentos, etc? Daí a relação de amor e ódio que ele trava com o povo. Não sei se o leitor já reparou, mas em termos gerais o intelectual é venerado só depois de morto. Enquanto vivo, ou ninguém dá muita atenção ao que ele diz, ou caso dêem o tratam com desprezo, com as devidas exceções. Daí a célebre história de Tales e sua escrava. Por outro lado, chega a ser natural como o intelectual muitas vezes olha com desprezo (etimologicamente: "olhar por cima") o restante do povo, considerando-o ingrato. Talvez fosse demais dizer que o intelectual gostaria de ser amado e sente aquele tipo de rancor dos apaixonados que são solenemente ignorados, às vezes com deliberado pouco-caso, pelas suas amadas? Mas não acho nenhum pouco absurdo de se imaginar que, do ponto de vista da honra, só umas poucas e precárias vezes o intelectual recebe em troca honrarias à sua altura. Os antigos diziam que a guerra é gerada pela afronta à honra. Quem sabe então se todas essas filosofias niilistas são, no fundo, causadas por tal e rude golpe no orgulho do pensador (detesto esse termo) que as produziu?
A vida do intelectual é mesmo sui generis. "Como essa gente", pensa ele, "consegue se manter impassível e até algumas vezes hostil a coisas tão belas quanto a literatura, a ciência, a filosofia? Como é possível viver sem isso? Como é possível não ser intelectual?" Tais questões não deixam de ter uma bela dose de amor-próprio. Mas amor-prório esse repleto de fundamentos. Porque, como certa vez disse Ortega y Gasset, a vida do intelectual é maravilhosa. Coisas magníficas passeiam sem cessar ante seus olhos. Ele vive num estupor constante. E é nesse sentido que Aristóteles, na Metafísica, disse que
foi a admiração o que inicialmente levou os homens a filosofar
e que
buscar uma explicação das coisas e se admirar delas é reconhecer que as ignora; por esta razão o filósofo é, até certo ponto, um homem aficcionado pelos mitos, porque o mito se constrói sobre assuntos maravilhosos. (Met, I, 2. Grifos meus.)
É essa capacidade (ou falta de) que separa o intelectual do restante do povo: a maior parte das pessoas não sente admiração por nada senão aquilo que foge do habitual (eis uma teoria do jornalismo), enquanto para o intelectual tudo lhe parece maravilhoso. E mesmo quando ele está de posse plena dos conhecimentos a respeito de algo, ainda assim aquilo lhe parece belo. "Nada causaria mais assombro a um geômetra que ver que a relação do diâmetro à circunferência resultasse comensurável", disse também o mesmo Aristóteles. Se era admirável como as coisas são o que são, após o pleno conhecimento delas torna-se admirável como elas poderiam deixar de ser o que são. E tal estupor é proporcional, claro, à beleza do objeto contemplado. (Tal idéia tem como pressuposto que há uma hierarquia entre todas as coisas, mas isso é outra conversa.)
Aqui o leitor pode estar se perguntando se uma vida tão admirável pode ser tão ingrata. E digo que é justamente nessa admiração que está um grande perigo. Benedetto Croce disse certa vez que os maiores descalabros já ditos vieram justamente dos grande e famosos intelectuais. São coisas que nenhuma pessoa normal e minimamente sensata jamais diria. Ele citou como exemplos a implicância de Platão com a poesia e a presunção freudiana sobre a importância capital na vida humana daquilo que eu chamaria de mundo sub-humano. Mais exemplos de loucuras certamente não faltam - e sempre muito bem argumentados, como aliás todo louco costuma fazer. Zenão e a negação do movimento, Parmênides e a negação do mundo sensível, Marx e suas teorias a respeito da importância fundamental da economia, etc. Pois a admiração que todos esses e muitos outros intelectuais tiveram com o mundo foi tal que por um momento perderam o senso da realidade e o juízo, totalmente absorvidos por suas próprias divagações. Isso é mais ou menos como se tivessem tomado um baita porre de vinho. E como tal, a ressaca vem sempre terrível. (Acho que a filosofia realista é uma espécie de engove dos disparates intelectuais: ainda que não evite um eventual porre, nos protege bem dos efeitos da ressaca seguinte.)
Eis a que humilhação, a que espécie de miséria o intelectual está perigosamente destinado. É aquele famoso bordão que diz que a pior queda é a dos grandes. O longo livro da imbecilidade humana tem como principal contribuição esse tipo tão sui generis de homem, como um cachorro que não larga o osso.
Primeiro e mais fundamental: porque o intelectual deve lidar com a verdade. E isso, bondoso leitor, fará com que você, caso intelectual, passe por maus bocados. Em épocas tão bizarras como a nossa, ser intelectual, nesse sentido, é praticar exílio voluntário. (Aqui vale uma explicação. Quando eu digo que esta época é bizarra, não recorro a uma figura de estilo: é constatação de um fato. Mas se o leitor quiser uma imagem mais literária do que estou dizendo, então afirmo que nunca a gravidade se fez mais terrível e presente.) E isso porque a simples menção ou idéia de compromisso com a verdade chega a ser para muitos algo estúpido e deplorável. "O que é a verdade?", perguntava Pilatos. Pois hoje essa dúvida é tida como inquestionável certeza da não existência de uma verdade sequer (que não, é óbvio, que nenhuma verdade existe...).
Além de estarmos cercados por milhares de Pilatos (quando não nos comportamos que nem o próprio, às vezes), o intelectual vive normalmente uma vida estranha aos olhos da multidão. Ele é, definitivamente, um outsider, alguém que vive num fundamental descompasso com o restante do povo. Ele tem um gênero de vida tão singular que parece um outro tipo de ser humano. Suas preocupações geralmente estão em outra ordem. Que tipo de gente procura saber por que chove, por que o sol é quente e brilha, o que é a alma e se ela é imortal, qual a origem dos idiomas, qual o sentido da vida, o que é justiça, quanto mede a diagonal do quadrado, qual o órgão responsável pelos nossos pensamentos, etc? Daí a relação de amor e ódio que ele trava com o povo. Não sei se o leitor já reparou, mas em termos gerais o intelectual é venerado só depois de morto. Enquanto vivo, ou ninguém dá muita atenção ao que ele diz, ou caso dêem o tratam com desprezo, com as devidas exceções. Daí a célebre história de Tales e sua escrava. Por outro lado, chega a ser natural como o intelectual muitas vezes olha com desprezo (etimologicamente: "olhar por cima") o restante do povo, considerando-o ingrato. Talvez fosse demais dizer que o intelectual gostaria de ser amado e sente aquele tipo de rancor dos apaixonados que são solenemente ignorados, às vezes com deliberado pouco-caso, pelas suas amadas? Mas não acho nenhum pouco absurdo de se imaginar que, do ponto de vista da honra, só umas poucas e precárias vezes o intelectual recebe em troca honrarias à sua altura. Os antigos diziam que a guerra é gerada pela afronta à honra. Quem sabe então se todas essas filosofias niilistas são, no fundo, causadas por tal e rude golpe no orgulho do pensador (detesto esse termo) que as produziu?
A vida do intelectual é mesmo sui generis. "Como essa gente", pensa ele, "consegue se manter impassível e até algumas vezes hostil a coisas tão belas quanto a literatura, a ciência, a filosofia? Como é possível viver sem isso? Como é possível não ser intelectual?" Tais questões não deixam de ter uma bela dose de amor-próprio. Mas amor-prório esse repleto de fundamentos. Porque, como certa vez disse Ortega y Gasset, a vida do intelectual é maravilhosa. Coisas magníficas passeiam sem cessar ante seus olhos. Ele vive num estupor constante. E é nesse sentido que Aristóteles, na Metafísica, disse que
foi a admiração o que inicialmente levou os homens a filosofar
e que
buscar uma explicação das coisas e se admirar delas é reconhecer que as ignora; por esta razão o filósofo é, até certo ponto, um homem aficcionado pelos mitos, porque o mito se constrói sobre assuntos maravilhosos. (Met, I, 2. Grifos meus.)
É essa capacidade (ou falta de) que separa o intelectual do restante do povo: a maior parte das pessoas não sente admiração por nada senão aquilo que foge do habitual (eis uma teoria do jornalismo), enquanto para o intelectual tudo lhe parece maravilhoso. E mesmo quando ele está de posse plena dos conhecimentos a respeito de algo, ainda assim aquilo lhe parece belo. "Nada causaria mais assombro a um geômetra que ver que a relação do diâmetro à circunferência resultasse comensurável", disse também o mesmo Aristóteles. Se era admirável como as coisas são o que são, após o pleno conhecimento delas torna-se admirável como elas poderiam deixar de ser o que são. E tal estupor é proporcional, claro, à beleza do objeto contemplado. (Tal idéia tem como pressuposto que há uma hierarquia entre todas as coisas, mas isso é outra conversa.)
Aqui o leitor pode estar se perguntando se uma vida tão admirável pode ser tão ingrata. E digo que é justamente nessa admiração que está um grande perigo. Benedetto Croce disse certa vez que os maiores descalabros já ditos vieram justamente dos grande e famosos intelectuais. São coisas que nenhuma pessoa normal e minimamente sensata jamais diria. Ele citou como exemplos a implicância de Platão com a poesia e a presunção freudiana sobre a importância capital na vida humana daquilo que eu chamaria de mundo sub-humano. Mais exemplos de loucuras certamente não faltam - e sempre muito bem argumentados, como aliás todo louco costuma fazer. Zenão e a negação do movimento, Parmênides e a negação do mundo sensível, Marx e suas teorias a respeito da importância fundamental da economia, etc. Pois a admiração que todos esses e muitos outros intelectuais tiveram com o mundo foi tal que por um momento perderam o senso da realidade e o juízo, totalmente absorvidos por suas próprias divagações. Isso é mais ou menos como se tivessem tomado um baita porre de vinho. E como tal, a ressaca vem sempre terrível. (Acho que a filosofia realista é uma espécie de engove dos disparates intelectuais: ainda que não evite um eventual porre, nos protege bem dos efeitos da ressaca seguinte.)
Eis a que humilhação, a que espécie de miséria o intelectual está perigosamente destinado. É aquele famoso bordão que diz que a pior queda é a dos grandes. O longo livro da imbecilidade humana tem como principal contribuição esse tipo tão sui generis de homem, como um cachorro que não larga o osso.
Thursday, August 11, 2005
Sobre o que me levou a trancar a matrícula de minha faculdade ou: confronto com a verdade
Vou contar a vocês a história secreta que me levou a trancar a matrícula da minha faculdade.
Estava eu prestes a entregar livros na biblioteca da faculdade quando uma figura estranha me atendeu:
- Pois não?
- ...
- Algum problema?
- Não sei dizer...
- O que foi?
- É a primeira vez que sou atendido por um animal.
- Desculpe?
- Você é um animal.
- O senhor também.
- Não, quero dizer... Você é mesmo um animal...
- Sim, e o senhor igualmente.
- Não, não... Quero dizer... Você é um tatu!
- Evidentemente. Algum problema?
- Não sei dizer...
- Entrei por concurso e graças a cotas.
- Cota para tatu?
- Sim. Há uma desproporção entre nossa espécie na natureza e na universidade.
- Como você consegue segurar essa caneta sem polegar opositor?
- Hã?
- Me perdoe, mas não sei o que dizer para um tatu que trabalha como atendente de biblioteca.
- Pergunte se cavei meu próprio buraco vindo para cá.
- Hein?
- É uma piada sem graça que de vez em quando me contam.
- Não entendi...
- Tudo bem. Qual seu nome e seu curso?
- Hm, desculpe mas... Como é possível um tatu trabalhar aqui?
- Olha, me responda uma coisa: você não passou no vestibular?
- Hm... Sim...
- Você está em qual período?
- No último.
- Então não está escrevendo uma monografia e prestes a se formar?
- Sim.
- E em breve não dará aulas?
- Assim espero.
- Ora, se você, sendo quem é, passou no vestibular, cursou faculdade, está prestes a se formar e ainda por cima dará aula, por que eu, sendo quem sou, não posso trabalhar aqui?
- Eu... Com licença, preciso resolver um problema que acabou de me ocorrer...
- À vontade, passar bem.
E foi assim que tranquei a matrícula de minha faculdade.
Estava eu prestes a entregar livros na biblioteca da faculdade quando uma figura estranha me atendeu:
- Pois não?
- ...
- Algum problema?
- Não sei dizer...
- O que foi?
- É a primeira vez que sou atendido por um animal.
- Desculpe?
- Você é um animal.
- O senhor também.
- Não, quero dizer... Você é mesmo um animal...
- Sim, e o senhor igualmente.
- Não, não... Quero dizer... Você é um tatu!
- Evidentemente. Algum problema?
- Não sei dizer...
- Entrei por concurso e graças a cotas.
- Cota para tatu?
- Sim. Há uma desproporção entre nossa espécie na natureza e na universidade.
- Como você consegue segurar essa caneta sem polegar opositor?
- Hã?
- Me perdoe, mas não sei o que dizer para um tatu que trabalha como atendente de biblioteca.
- Pergunte se cavei meu próprio buraco vindo para cá.
- Hein?
- É uma piada sem graça que de vez em quando me contam.
- Não entendi...
- Tudo bem. Qual seu nome e seu curso?
- Hm, desculpe mas... Como é possível um tatu trabalhar aqui?
- Olha, me responda uma coisa: você não passou no vestibular?
- Hm... Sim...
- Você está em qual período?
- No último.
- Então não está escrevendo uma monografia e prestes a se formar?
- Sim.
- E em breve não dará aulas?
- Assim espero.
- Ora, se você, sendo quem é, passou no vestibular, cursou faculdade, está prestes a se formar e ainda por cima dará aula, por que eu, sendo quem sou, não posso trabalhar aqui?
- Eu... Com licença, preciso resolver um problema que acabou de me ocorrer...
- À vontade, passar bem.
E foi assim que tranquei a matrícula de minha faculdade.
Sunday, August 07, 2005
O cidadão ideal (segundo a Nova Ordem Mundial)
Sem preconceitos, feminista, desarmado, cosmopolita, ecologista, moderno, progressista. Eis o homem de nossa época, quer dizer, o super-homem:

O máximo de revolta permitida:

Definitivamente, estes são tempos modernos.
O máximo de revolta permitida:
Definitivamente, estes são tempos modernos.
Thursday, August 04, 2005
Conversa na festa
Lembrei hoje de um rápido diálogo entre mim e um sujeito qualquer, numa festa faz um tempinho já:
Eu: Você já leu alguma coisa do Dostoiévski?
Um Sujeito Qualquer: Comecei a ler Niétotchka mas parei. Fui ficando deprimido.
Eu: Eu tô a fim de ler essa história também. Mas por que você ficou deprimido?
U.S.Q.: Porque fui pensando na minha vida e... [neste ponto os registros estão em estado deplorável em minha cachola]
Eu: Engraçado são os personagens dele, né? Um pior que o outro. Quer dizer, não que sejam horríveis no sentido de mal elaborados, mas o que eles têm de coitados... E sempre caindo bem no fundo do poço. Vai ver por isso que você ficou deprimido.
U.S.Q.: É.
Eu: Parece até que o Dostoiévski gostava do sofrimento. Devia ser um cara sofrido pra burro...
U.S.Q.: É. Mas o pouco que li dele me fez achar que ele se amarrava em gente outsider.
Eu: Como assim?
U.S.Q.: Uns caras muito loucos, pirados. Isso parece muito com Bukowski. Você já leu ele?
Eu (lembrando de um único conto, abominável, algo sobre uns caras que trabalhavam numa fábrica de espremer colhões e que terminavam transando): Só li um conto...
U.S.Q.: Pô, Bukowski é maior doidera! Ele é foda. Você tem que ler!
Eu: Ah... Quer dizer que você gosta de beatnicks?
U.S.Q.: [recordações aqui estão truncadas]
Eu (imaginando o que faz alguém comparar Bukowski a Dostoiévski, ou melhor, o que faz alguém gostar de um sujeito que escreveu um negócio tão escabroso como aquele conto): Vou beber. Bateu uma sede...
Eu: Você já leu alguma coisa do Dostoiévski?
Um Sujeito Qualquer: Comecei a ler Niétotchka mas parei. Fui ficando deprimido.
Eu: Eu tô a fim de ler essa história também. Mas por que você ficou deprimido?
U.S.Q.: Porque fui pensando na minha vida e... [neste ponto os registros estão em estado deplorável em minha cachola]
Eu: Engraçado são os personagens dele, né? Um pior que o outro. Quer dizer, não que sejam horríveis no sentido de mal elaborados, mas o que eles têm de coitados... E sempre caindo bem no fundo do poço. Vai ver por isso que você ficou deprimido.
U.S.Q.: É.
Eu: Parece até que o Dostoiévski gostava do sofrimento. Devia ser um cara sofrido pra burro...
U.S.Q.: É. Mas o pouco que li dele me fez achar que ele se amarrava em gente outsider.
Eu: Como assim?
U.S.Q.: Uns caras muito loucos, pirados. Isso parece muito com Bukowski. Você já leu ele?
Eu (lembrando de um único conto, abominável, algo sobre uns caras que trabalhavam numa fábrica de espremer colhões e que terminavam transando): Só li um conto...
U.S.Q.: Pô, Bukowski é maior doidera! Ele é foda. Você tem que ler!
Eu: Ah... Quer dizer que você gosta de beatnicks?
U.S.Q.: [recordações aqui estão truncadas]
Eu (imaginando o que faz alguém comparar Bukowski a Dostoiévski, ou melhor, o que faz alguém gostar de um sujeito que escreveu um negócio tão escabroso como aquele conto): Vou beber. Bateu uma sede...
Tuesday, August 02, 2005
Rápidos garranchos sobre o levar-se muito a sério
Certa vez, quase ao mesmo tempo em que olhei para o céu e vi um cometa passar assobiando (É verdade, os cometas assobiam. Os planetas dançam e as estrelas cantam. Alfa de Centauro é a mais desafinada.), pensei em fechar este blog. Posteriormente, quando coloquei meu espírito para se exercitar a poder de chibatadas, notei que tudo não passava de 2/3 de dor de dente misturada a uma pitada de preguiça de ler.
Ainda que eu nutra uma grande simpatia pelo ideal do antigo e nobre Glauco, segundo o qual temos de ser sempre os primeiros entre todos e nos distiguir de todos os demais, por outro lado acho muito engraçado e vital um inalienável direito dos homens: que a estupidez é um direito nosso.
Usando a linguagem técnica dos filósofos, os homens em geral são atualmente tolos e potencialmente inteligentes. Seria, é claro, imensa presunção de minha parte dizer que o amigo leitor pertence a este ou aquele grupo, afinal de contas, além de eu não te conhecer, você poderia suspeitar que estou puxando teu saco ou desfazendo de ti por esnobismo (que é uma característica vista com maus olhos segundo a chusma, e engraçada segundo alguns). Posso, por outro lado, afirmar que estou no grupo dos homens em geral, principalmente depois de ouvir certos dizeres em certo lugar.
Segundo o fulano, a massa apenas quer saber se não vai enfrentar a fila no banco, se poderá viajar sentada no ônibus e se voltará bem para casa. Parece que o fulano não tem preocupações dessa natureza em vida, sendo então ou puro espírito (qual seja, sem presença física neste mundo) ou deputado. Pela má catadura e pelo que notei ademais, dificilmente poderíamos considerá-lo qualquer um dos dois, ainda que espíritos atuem neste mundo e ainda que não faltem deputados com cara de pamonha passada. Ora, então este fulano é uma daquelas classes de fenômenos que permanecem um mistério para a ciência, mais ou menos como determinados tipos de raios cujos efeitos ninguém entende direito. Quanto a mim, sou um membro da massa, já que, dentre outras preocupações do gênero, quero saber se minha lâmina de barbear está com o fio decente ou qual é o preço do pão nos supermercados. Acrescentemos a isso o fato de que eu digo algo relativo à política de modo equivalente àquela vontade inadiável de fazer pipi, em meio a cobranças de pênaltis em final de campeonato: não é uma coisa que faço porque quero e muito me dá gosto, mas pela violência das circunstâncias. (Adorar jogo de futebol, aliás, preferir um jogo a um debate político é coisa de gente alienada, não é? Também gosto muito de TV, mais uma característica que segundo alguns é de gente com cérebro de esponja.)
Mas estou dizendo tudo isso e dando essa volta toda para dizer que certas coisas a gente faz naturalmente e sem dar atenção neurótica, por mais legais que sejam os resultados. Bach não descuidou dos originais de seus Concertos de Brandenburgo? Aristóteles não legou à posteridade suas obras sem nenhum plano de estudos? Santo Antão (Hm... Não seria melhor Antônio, como certa vez disse Felipe Ortiz, do finado blog Alexandrinas?), segundo meu xará Cassiano, não afirmou que não há prece perfeita se o religioso percebe que ele mesmo está rezando? Então por que nós, pequeninos homens de curta existência, tentamos ensaiar tragédias em coisas tão pequenas quanto um bloguinho, preocupados com n motivos? Isso parece na verdade uma tragicomédia.
Lembremos sempre que a estupidez é um dos direitos dos homens, e que sempre que preocupações existenciais forem os motivos de não escrevermos mais em um blog, na verdade tudo não passa de uma dor de dente e preguicite aguda da cachola. O resto são dragões virulentos e gnomos zombeteiros. E se você, bom leitor, concluir disso tudo que faço apologia da idiotice, dando-me como exemplo vivo, então você estará abusando do teu direito de ser bobo.
Ainda que eu nutra uma grande simpatia pelo ideal do antigo e nobre Glauco, segundo o qual temos de ser sempre os primeiros entre todos e nos distiguir de todos os demais, por outro lado acho muito engraçado e vital um inalienável direito dos homens: que a estupidez é um direito nosso.
Usando a linguagem técnica dos filósofos, os homens em geral são atualmente tolos e potencialmente inteligentes. Seria, é claro, imensa presunção de minha parte dizer que o amigo leitor pertence a este ou aquele grupo, afinal de contas, além de eu não te conhecer, você poderia suspeitar que estou puxando teu saco ou desfazendo de ti por esnobismo (que é uma característica vista com maus olhos segundo a chusma, e engraçada segundo alguns). Posso, por outro lado, afirmar que estou no grupo dos homens em geral, principalmente depois de ouvir certos dizeres em certo lugar.
Segundo o fulano, a massa apenas quer saber se não vai enfrentar a fila no banco, se poderá viajar sentada no ônibus e se voltará bem para casa. Parece que o fulano não tem preocupações dessa natureza em vida, sendo então ou puro espírito (qual seja, sem presença física neste mundo) ou deputado. Pela má catadura e pelo que notei ademais, dificilmente poderíamos considerá-lo qualquer um dos dois, ainda que espíritos atuem neste mundo e ainda que não faltem deputados com cara de pamonha passada. Ora, então este fulano é uma daquelas classes de fenômenos que permanecem um mistério para a ciência, mais ou menos como determinados tipos de raios cujos efeitos ninguém entende direito. Quanto a mim, sou um membro da massa, já que, dentre outras preocupações do gênero, quero saber se minha lâmina de barbear está com o fio decente ou qual é o preço do pão nos supermercados. Acrescentemos a isso o fato de que eu digo algo relativo à política de modo equivalente àquela vontade inadiável de fazer pipi, em meio a cobranças de pênaltis em final de campeonato: não é uma coisa que faço porque quero e muito me dá gosto, mas pela violência das circunstâncias. (Adorar jogo de futebol, aliás, preferir um jogo a um debate político é coisa de gente alienada, não é? Também gosto muito de TV, mais uma característica que segundo alguns é de gente com cérebro de esponja.)
Mas estou dizendo tudo isso e dando essa volta toda para dizer que certas coisas a gente faz naturalmente e sem dar atenção neurótica, por mais legais que sejam os resultados. Bach não descuidou dos originais de seus Concertos de Brandenburgo? Aristóteles não legou à posteridade suas obras sem nenhum plano de estudos? Santo Antão (Hm... Não seria melhor Antônio, como certa vez disse Felipe Ortiz, do finado blog Alexandrinas?), segundo meu xará Cassiano, não afirmou que não há prece perfeita se o religioso percebe que ele mesmo está rezando? Então por que nós, pequeninos homens de curta existência, tentamos ensaiar tragédias em coisas tão pequenas quanto um bloguinho, preocupados com n motivos? Isso parece na verdade uma tragicomédia.
Lembremos sempre que a estupidez é um dos direitos dos homens, e que sempre que preocupações existenciais forem os motivos de não escrevermos mais em um blog, na verdade tudo não passa de uma dor de dente e preguicite aguda da cachola. O resto são dragões virulentos e gnomos zombeteiros. E se você, bom leitor, concluir disso tudo que faço apologia da idiotice, dando-me como exemplo vivo, então você estará abusando do teu direito de ser bobo.
Sunday, July 24, 2005
Melhor tomar nescau "genérico" e ver uns quadros pré-rafaelitas que assistir à TVE (e não que isso seja muito vantajoso, mas...)
Apenas querendo deixar de molho meu cérebro, sentei e fui trocando de canal, enquanto comia torrada com requeijão e bebia um "genérico" de nescau. Primeiro passei por um joguinho da Major League Soccer horrível: mais de 40oC no campo, um time todo de preto, falta de habilidade mínima com a bola. Depois pulei para a Record, onde passava, com uma dublagem igualmente horrível, "1492", na parte onde Colombo faz um discurso - para ficarmos com o mesmo adjetivo, horrível - para acalmar a tripulação, muito nervosinha por não chegar a nenhuma mísera ilhota. Passei. Caí na TVE, que normalmente já não tem algo bom, num programa de um cara gordão que acha muito interessante ter sua caranchona estampada na tela. Coisa detestável, parece com aqueles sujeitos que para conversar quase nos beijam. E dava até para ver detalhes dos dentes dele.
O nome do apresentador era Abujanra (ou coisa parecida), ator - já vi aquele cara numa novela. Mas o interessante mesmo era a pose dele. Se a tevê estivesse sem som, pelos seus gestos e expressões pareceria que estava fazendo alguma revelação religiosa - ou pelo menos uma ótima sacação, que seja. E de fato começou até bem, descontada a caranchona estampada na tela: "Hoje, direi uma coisa que o público médio desconhece por absoluto, que a imprensa desse país quase não diz, e que quase ninguém sabe. Vou falar sobre um dos movimentos mais lindos e importantes da história do mundo"... Ora, naquele momento, entre um e outro gole de meu nescau "genérico", instantaneamente fiquei pensando sobre que diacho aquele homem diria. Algo que o público médio não sabe? Que a imprensa não divulga? Que é lindo e importante? Várias opções surgiram, de modo arrebatador. Será que eu teria a felicidade de escutá-lo a dizer algo sobre o movimento pré-rafaelita, que mesmo não sendo lindíssimo é interessante? Ou haveria de ser uma apresentação sumária da redenção do barroco no início do século XX? Talvez, por outro lado, alguns comentários sobre o cinema alemão na década de XX, e quem sabe trechos de filmes como "Aurora" ou "Dr. Marbuse"? Quem sabe então - hipótese que eu considerava remotíssima - ele dirá algo a respeito da catalogação pela Sociedade de Bach em Leipzig, em vários volumes, das obras completas daquele compositor?
O leitor deve ter percebido que em todas as hipóteses eu imaginava algo relacionado às artes, num período de no máximo um século e meio, dentro de tudo aquilo que o ator disse: algo que geralmente o público nunca ouviu falar, que a imprensa não divulga, etc. Finalmente eu veria na TVE algo que valesse a pena. Mas eis que, para destruir tais sonhos e criar só pesadelos, como aqueles bichos de "Monstros S.A.", o ator arrematou: "Vamos aqui falar sobre a... Comuma de Paris". Só pude exprimir duas frases de uma palavra cada, até porque eu estava comendo torrada: "Hein? Quê?" E para não perder o embalo, ele, o apresentador de caranchona estampada na tela, franzindo a testa e dando um sorriso ao mesmo tempo que falava, pediu que um historiador convidado explicasse ao público o que foi tão solene movimento. Quando o historiador começou a dizer "a Comuna de Paris foi...", retornei ao joguinho.
Mas ele estava tão ruim que, vinte minutos depois, voltei àquele canal, pois eu estava curioso em como aquilo haveria de terminar. E peguei mesmo o final. Tive sorte, pois consegui pescar a pergunta-chavão clássica quando se discute socialismo e afins. Eis o diálogo rápido:
Abujanra (sempre com aquela expressão que mencionei acima): Daria para prever que a Alemanha Ocidental engoliria a Oriental e a enriqueceria? Daria para prever o desmoronamento da União Soviética?
Historiador (despenteado e com a barba por fazer, que proporciona segundo alguns um bônus no carisma, já que seria de mau-tom não fazer o genêro "estou-nem-aí-para-a-moda-porque-sou-inteligente-demais"): Ora, quem faz previsão é astrólogo. (risos de deboche) História não é previsão, só trabalha com post-facts. Não dava para adivinhar. Por exemplo, quem é que aqui no Brasil ia adivinhar que Tancredo ia subir ao poder, acontecer aquilo tudo com ele e que Sarney viria logo em seguida? (Em seguida, apresentador e entrevistado se levantam e se abraçam, dançando tempo polca. Não, não, a dança fica por conta de minha imaginação.)
Como em tão poucas palavras alguém concentra tanta bobagem? O historiador mistura eventos acidentais, como o fato do Tancredo ter morrido por complicações de saúde, com algo puramente analisável a partir de certos pressupostos (que foram colocados em prática), como foi o comunismo, para daí concluir que tanto a conclusão de um caso quanto a do outro foram puramente acidentais. Façamos a prova dos nove a fim de averiguar se o historiador tem razão, através de comentários e análises a respeito do socialismo feitos por certas pessoas, antes e durante a URSS:
1) Meados do século XIX: Donoso Cortés afirma que a Rússia seria o palco do socialismo e de sua expansão imperialista;
2) Fins do século XIX: Eugen von Böhm-Bawerk analisa "O Capital" de Marx e diz que aquilo é uma canoa furada, insustentável;
3) Meados do século XX: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek dizem que uma economia controlada pelo Estado é inviável;
4) Fins do século XX: Ronald Reagan percebe que a URSS está com seus dias contados e a coloca numa arapuca cujo fim bom todos conhecemos;
5) Durante esse tempo todo (I): a Igreja repete constantemente que o comunismo é um perigo temível e que deve a todo custo ser evitado;
6) Durante esse tempo todo (II): uma cacetada de pessoas, mas uma cacetada mesmo, das mais diferentes opiniões, estão de acordo sobre o mal do comunismo e provam por A+B, tanto antes como durante a existência da URSS, que a experiência comunista resultaria em fracasso redundante e incrível perda de vidas;
7) E assim por diante.
Uai! E agora, em 2005, nosso caro historiador, com os (inúmeros) fatos à sua disposição, coisa que muitos dos que sabiam que o comunismo era um mal conheciam só parcamente, afirma descaradamente uma pérola dessas, achando que tudo não passou de um acaso igual ao que houve com o falecido presidente Tancredo Neves. Hazard is my ass. Desse jeito até me animo para virar historiador também.
Para combinar com o adjetivo-figurinha do início do texto: foi horrível o que ele disse. E ruim por ruim, mais uma vez retornei ao joguinho, e de novo pulei fora. Para voltar à TVE? Só se eu fosse um desses comunas que gostam de errar de novo: fui para o computador escrever isso aqui, pois me divirto mais.
Bom, como acho que sairia ganhando mais o leitor, no final das contas, vendo algo de fato um tantinho mais interessante, aqui vai um ou outro quadro de pintores pré-rafaelitas. Já disse que não acho lá mil maravilhas, mas é melhor que saber o que foi a Comuna de Paris. E até, boa noite (ou dia, que seja).

April Love, de Arthur Hughes.

Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rosseti.

Sidonia von Bork, de Sir Edward Coley Burne-Jones.
O nome do apresentador era Abujanra (ou coisa parecida), ator - já vi aquele cara numa novela. Mas o interessante mesmo era a pose dele. Se a tevê estivesse sem som, pelos seus gestos e expressões pareceria que estava fazendo alguma revelação religiosa - ou pelo menos uma ótima sacação, que seja. E de fato começou até bem, descontada a caranchona estampada na tela: "Hoje, direi uma coisa que o público médio desconhece por absoluto, que a imprensa desse país quase não diz, e que quase ninguém sabe. Vou falar sobre um dos movimentos mais lindos e importantes da história do mundo"... Ora, naquele momento, entre um e outro gole de meu nescau "genérico", instantaneamente fiquei pensando sobre que diacho aquele homem diria. Algo que o público médio não sabe? Que a imprensa não divulga? Que é lindo e importante? Várias opções surgiram, de modo arrebatador. Será que eu teria a felicidade de escutá-lo a dizer algo sobre o movimento pré-rafaelita, que mesmo não sendo lindíssimo é interessante? Ou haveria de ser uma apresentação sumária da redenção do barroco no início do século XX? Talvez, por outro lado, alguns comentários sobre o cinema alemão na década de XX, e quem sabe trechos de filmes como "Aurora" ou "Dr. Marbuse"? Quem sabe então - hipótese que eu considerava remotíssima - ele dirá algo a respeito da catalogação pela Sociedade de Bach em Leipzig, em vários volumes, das obras completas daquele compositor?
O leitor deve ter percebido que em todas as hipóteses eu imaginava algo relacionado às artes, num período de no máximo um século e meio, dentro de tudo aquilo que o ator disse: algo que geralmente o público nunca ouviu falar, que a imprensa não divulga, etc. Finalmente eu veria na TVE algo que valesse a pena. Mas eis que, para destruir tais sonhos e criar só pesadelos, como aqueles bichos de "Monstros S.A.", o ator arrematou: "Vamos aqui falar sobre a... Comuma de Paris". Só pude exprimir duas frases de uma palavra cada, até porque eu estava comendo torrada: "Hein? Quê?" E para não perder o embalo, ele, o apresentador de caranchona estampada na tela, franzindo a testa e dando um sorriso ao mesmo tempo que falava, pediu que um historiador convidado explicasse ao público o que foi tão solene movimento. Quando o historiador começou a dizer "a Comuna de Paris foi...", retornei ao joguinho.
Mas ele estava tão ruim que, vinte minutos depois, voltei àquele canal, pois eu estava curioso em como aquilo haveria de terminar. E peguei mesmo o final. Tive sorte, pois consegui pescar a pergunta-chavão clássica quando se discute socialismo e afins. Eis o diálogo rápido:
Abujanra (sempre com aquela expressão que mencionei acima): Daria para prever que a Alemanha Ocidental engoliria a Oriental e a enriqueceria? Daria para prever o desmoronamento da União Soviética?
Historiador (despenteado e com a barba por fazer, que proporciona segundo alguns um bônus no carisma, já que seria de mau-tom não fazer o genêro "estou-nem-aí-para-a-moda-porque-sou-inteligente-demais"): Ora, quem faz previsão é astrólogo. (risos de deboche) História não é previsão, só trabalha com post-facts. Não dava para adivinhar. Por exemplo, quem é que aqui no Brasil ia adivinhar que Tancredo ia subir ao poder, acontecer aquilo tudo com ele e que Sarney viria logo em seguida? (Em seguida, apresentador e entrevistado se levantam e se abraçam, dançando tempo polca. Não, não, a dança fica por conta de minha imaginação.)
Como em tão poucas palavras alguém concentra tanta bobagem? O historiador mistura eventos acidentais, como o fato do Tancredo ter morrido por complicações de saúde, com algo puramente analisável a partir de certos pressupostos (que foram colocados em prática), como foi o comunismo, para daí concluir que tanto a conclusão de um caso quanto a do outro foram puramente acidentais. Façamos a prova dos nove a fim de averiguar se o historiador tem razão, através de comentários e análises a respeito do socialismo feitos por certas pessoas, antes e durante a URSS:
1) Meados do século XIX: Donoso Cortés afirma que a Rússia seria o palco do socialismo e de sua expansão imperialista;
2) Fins do século XIX: Eugen von Böhm-Bawerk analisa "O Capital" de Marx e diz que aquilo é uma canoa furada, insustentável;
3) Meados do século XX: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek dizem que uma economia controlada pelo Estado é inviável;
4) Fins do século XX: Ronald Reagan percebe que a URSS está com seus dias contados e a coloca numa arapuca cujo fim bom todos conhecemos;
5) Durante esse tempo todo (I): a Igreja repete constantemente que o comunismo é um perigo temível e que deve a todo custo ser evitado;
6) Durante esse tempo todo (II): uma cacetada de pessoas, mas uma cacetada mesmo, das mais diferentes opiniões, estão de acordo sobre o mal do comunismo e provam por A+B, tanto antes como durante a existência da URSS, que a experiência comunista resultaria em fracasso redundante e incrível perda de vidas;
7) E assim por diante.
Uai! E agora, em 2005, nosso caro historiador, com os (inúmeros) fatos à sua disposição, coisa que muitos dos que sabiam que o comunismo era um mal conheciam só parcamente, afirma descaradamente uma pérola dessas, achando que tudo não passou de um acaso igual ao que houve com o falecido presidente Tancredo Neves. Hazard is my ass. Desse jeito até me animo para virar historiador também.
Para combinar com o adjetivo-figurinha do início do texto: foi horrível o que ele disse. E ruim por ruim, mais uma vez retornei ao joguinho, e de novo pulei fora. Para voltar à TVE? Só se eu fosse um desses comunas que gostam de errar de novo: fui para o computador escrever isso aqui, pois me divirto mais.
Bom, como acho que sairia ganhando mais o leitor, no final das contas, vendo algo de fato um tantinho mais interessante, aqui vai um ou outro quadro de pintores pré-rafaelitas. Já disse que não acho lá mil maravilhas, mas é melhor que saber o que foi a Comuna de Paris. E até, boa noite (ou dia, que seja).
April Love, de Arthur Hughes.
Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rosseti.
Sidonia von Bork, de Sir Edward Coley Burne-Jones.
Friday, July 22, 2005
Uma rápida recomendação de leitura: "O Paraíso Sexual-Democrata"
Nessa semana li "O Paraíso Sexual-Democrata", de Janer Cristaldo, que conta como é a Suécia - aliás, era, porque o livro é dos idos da década de 70. Indico-o ao leitor deste blog porque ele foi escrito de forma bem objetiva e sem puxações de saco, seja para o lado dos adoradores da Suécia, seja para os inimigos. Foi escrito, diga-se de passagem, de maneira bem inteligente, a julgar o que um Gabeira já escreveu sobre o assunto. (É verdade, tal comparação não é mérito para ninguém, mas o valor da análise de Janer Cristaldo, exceto quando faz equivocados comentários sobre o Catolicismo, é mesmo interessante.) Mas o saldo está, a meu ver, mais para quem fica com o pé atrás com aquele país, ainda que as pessoas vivam, em geral, de modo incomparavelmente muito mais confortável do que aqui.
E não poderia deixar de ser assim. Não sem razão, Janer várias vezes relembra o funcionamento de sociedades segundo vários livros do tipo "Admirável Mundo Novo", onde o controle do Estado é perfeito. O governo sueco pode, não sem exagero, ser considerado o perfeito controlador social. Onde a URSS, Cuba e países do gênero pecaram pela brutalidade, a Suécia primou pela calma astúcia, o que não deixa de ser admirável, já que os suecos têm a fama de ingênuos e desprovidos de senso de humor. Aliás, tão perfeito é este controle que o próprio Estado incita protestos - contra outros. Antes com os outros que conosco, é a sua filosofia bem pragmática. Exemplo: incentivos à países tais como o Vietnã, na época em guerra contra os EUA, através de passeatas e donativos públicos e privados vultuosos. E até contra o Brasil havia gente disposta a lutar - desde que houvesse garantias legais para não ser preso e torturado... Não estou brincando, havia quem raciocinasse desta maneira. E o autor esclarece que isso não é nenhum pouco estranho do ponto de vista de um sueco, na verdade é sintomático, porque Svensson está acostumado a ser cuidado em tudo pelo Estado onipresente, até mesmo em suas reivindicações aparentemente subversivas. Daí que ele até vai para a guerra, mas só se o Estado cuidar dele na frente de batalha.
Tenho mais coisas a dizer sobre este livro, mas deixo para outra ocasião. Só quero ressaltar que vale a pena lê-lo. E antes que eu me esqueça, sim, toda essa história de liberalização sexual começou e foi amplamente difundida por lá, e o mais lindo de tudo, como uma medida fundamentalmente política. Com trinta anos de atraso chegam os reflexos aqui no Brasil, e mesmo assim cheios de "senões". Mas este assunto fica para uma outra ocasião.
E não poderia deixar de ser assim. Não sem razão, Janer várias vezes relembra o funcionamento de sociedades segundo vários livros do tipo "Admirável Mundo Novo", onde o controle do Estado é perfeito. O governo sueco pode, não sem exagero, ser considerado o perfeito controlador social. Onde a URSS, Cuba e países do gênero pecaram pela brutalidade, a Suécia primou pela calma astúcia, o que não deixa de ser admirável, já que os suecos têm a fama de ingênuos e desprovidos de senso de humor. Aliás, tão perfeito é este controle que o próprio Estado incita protestos - contra outros. Antes com os outros que conosco, é a sua filosofia bem pragmática. Exemplo: incentivos à países tais como o Vietnã, na época em guerra contra os EUA, através de passeatas e donativos públicos e privados vultuosos. E até contra o Brasil havia gente disposta a lutar - desde que houvesse garantias legais para não ser preso e torturado... Não estou brincando, havia quem raciocinasse desta maneira. E o autor esclarece que isso não é nenhum pouco estranho do ponto de vista de um sueco, na verdade é sintomático, porque Svensson está acostumado a ser cuidado em tudo pelo Estado onipresente, até mesmo em suas reivindicações aparentemente subversivas. Daí que ele até vai para a guerra, mas só se o Estado cuidar dele na frente de batalha.
Tenho mais coisas a dizer sobre este livro, mas deixo para outra ocasião. Só quero ressaltar que vale a pena lê-lo. E antes que eu me esqueça, sim, toda essa história de liberalização sexual começou e foi amplamente difundida por lá, e o mais lindo de tudo, como uma medida fundamentalmente política. Com trinta anos de atraso chegam os reflexos aqui no Brasil, e mesmo assim cheios de "senões". Mas este assunto fica para uma outra ocasião.
Tuesday, July 19, 2005
Centelha (III)
Quanto mais escrevo, mais me dou conta que as letras possuem resistência própria. Neste sentido, a única diferença entre o trabalho com a pedra e o com as letras é que o primeiro é material na acepção plena, enquanto o segundo o é analogicamente. Daí que a habilidade de dobrar a resistência delas até que exprimam o que queremos é a mesma de talhar a pedra até que ela assuma a aparência que desejamos. Mas a arte só apareça quando as resistências são encaradas naturalmente e mesmo até, paradoxalmente, como aliadas. Então elas passam a ser uma questão puramente de técnica e razão de ser das próprias letras.
Centelha (II)
Antes de nos lançarmos às coisas do espírito, talvez seria mais sábio nos acostumarmos primeiro com o mundo concreto, que possui suas leis e resistências, que por sua vez são independentes e até às vezes hostis à nossa vontade. Será que deveríamos ser técnicos em eletricidade e/ou soldados, por exemplo, antes de nos aventurarmos em questões mais abstratas?
Centelha
Essa mania de utilizar simulações de computador a fim de analisar dados concretos da realidade não está muito longe do procedimento, segundo Aristóteles, dos pitagóricos. O mais curioso de tudo é que em ambos os casos a realidade se resume aos números e é você quem, por trás de tudo, de modo discreto, mexe os pauzinhos para que nada saia (muito) de ordem.
Team America - America, Fuck Yeah!
America...
America...
America, FUCK YEAH!
Coming again, to save the mother fucking day yeah,
America, FUCK YEAH!
Freedom is the only way yeah,
Terrorist your game is through cause now you have to answer too,
America, FUCK YEAH!
So lick my butt, and suck on my balls,
America, FUCK YEAH!
What you going to do when we come for you now,
it’s the dream that we all share; it’s the hope for tomorrow
FUCK YEAH!
McDonalds, FUCK YEAH!
Wal-Mart, FUCK YEAH!
The Gap, FUCK YEAH!
Baseball, FUCK YEAH!
NFL, FUCK, YEAH!
Rock and roll, FUCK YEAH!
The Internet, FUCK YEAH!
Slavery, FUCK YEAH!
FUCK YEAH!
Starbucks, FUCK YEAH!
Disney world, FUCK YEAH!
Porno, FUCK YEAH!
Valium, FUCK YEAH!
Reeboks, FUCK YEAH!
Fake Tits, FUCK YEAH!
Sushi, FUCK YEAH!
Taco Bell, FUCK YEAH!
Rodeos, FUCK YEAH!
Bed bath and beyond (Fuck yeah, Fuck yeah)
Liberty, FUCK YEAH!
White Slips, FUCK YEAH!
The Alamo, FUCK YEAH!
Band-aids, FUCK YEAH!
Las Vegas, FUCK YEAH!
Christmas, FUCK YEAH!
Immigrants, FUCK YEAH!
Columbine, FUCK YEAH!
Democrats, FUCK YEAH!
Republicans (republicans)
(fuck yeah, fuck yeah)
Sportsmanship
Books
(canção principal do filme Team America: World Police)
America...
America, FUCK YEAH!
Coming again, to save the mother fucking day yeah,
America, FUCK YEAH!
Freedom is the only way yeah,
Terrorist your game is through cause now you have to answer too,
America, FUCK YEAH!
So lick my butt, and suck on my balls,
America, FUCK YEAH!
What you going to do when we come for you now,
it’s the dream that we all share; it’s the hope for tomorrow
FUCK YEAH!
McDonalds, FUCK YEAH!
Wal-Mart, FUCK YEAH!
The Gap, FUCK YEAH!
Baseball, FUCK YEAH!
NFL, FUCK, YEAH!
Rock and roll, FUCK YEAH!
The Internet, FUCK YEAH!
Slavery, FUCK YEAH!
FUCK YEAH!
Starbucks, FUCK YEAH!
Disney world, FUCK YEAH!
Porno, FUCK YEAH!
Valium, FUCK YEAH!
Reeboks, FUCK YEAH!
Fake Tits, FUCK YEAH!
Sushi, FUCK YEAH!
Taco Bell, FUCK YEAH!
Rodeos, FUCK YEAH!
Bed bath and beyond (Fuck yeah, Fuck yeah)
Liberty, FUCK YEAH!
White Slips, FUCK YEAH!
The Alamo, FUCK YEAH!
Band-aids, FUCK YEAH!
Las Vegas, FUCK YEAH!
Christmas, FUCK YEAH!
Immigrants, FUCK YEAH!
Columbine, FUCK YEAH!
Democrats, FUCK YEAH!
Republicans (republicans)
(fuck yeah, fuck yeah)
Sportsmanship
Books
(canção principal do filme Team America: World Police)
Saturday, July 16, 2005
Adendo ao post anterior: "A fadinha"
Quando o sol estava belíssimo, no ponto mais alto do céu, numa faculdade qualquer se reuníam várias pessoas para debater a respeito do que, segundo seu peculiar idioma, chamavam de "Conjuntura e Estrutura Brasileira em Face às Transformações Pós-Modernas". E assim que o primeiro orador abriu a boquinha - ele era tão franzino, tadinho -, a Fadinha apareceu, como do nada, e após dizer "um, dois três, café para o freguês!", transformou todo mundo em belas xícaras, cheias de café quentinho. E levou para casa, a fim de brincar de casinha com o urso risonho da floresta e as demais fadinhas.
Ser bem-informado é coisa de canalha
Fiquei umas duas semanas acompanhando as CPIs da vida que estão rolando por aí. Conclusão: eu, além de não conseguir mais somar com eficiência números para lá dos dois algarismos, muito menos dividi-los ou multiplicá-los (subtrair estou muito acostumado, dada a minha constante perda de vinténs), comecei a ficar com preguiça de ler qualquer texto que tivesse a palavra "logicamente", ou que fosse superior a seis linhas. Parecido com a forma com que alguns índios contam, comigo agora estava sendo um, dois, três, chega-senão-pulo-deste-trem-e-ainda-processo-o-Estado.
Eu havia me esquecido como as notícias voam e carregam a gente junto para o caos. São tantos fatos e tão contraditórios uns com os outros, senão terrivelmente chatos, que não seria estranho se depois de uns dez telejornais a gente mordesse nossas próprias mães e lambesse a bota de quem nos maltrata. E uma das poucas exceções é o programa "Os Vídeos Mais Incríveis do Mundo", tão interessante que faz com que cogitemos se não seria mais adequada a existência de uma pluralidade de mundos.
Tenho de admitir que não consigo muito bem administrar as coisas. Estar constantemente informado e estudar Max Scheler é, no mínimo, equivalente a assobiar e chupar cana. Ou eu fico sabendo que foi Tião Macalé - todo mundo na tevê participa da idéia de Tião Macalé - que fraudou a previdência, ou leio uma boa definição de homem e sua posição no cosmos, uai! Terceira opção não dá.
Será que é o vácuo do ambiente que nos arrasta até o chão? Em algumas regiões deste mundo a gravidade se faz sentir com maior intensidade. Exemplo bobo: Brasil. Às vezes tenho a sensação de que a única coisa que dá para fazer em certos dias é voltar rolando para minha casa, sendo que estou bem longe de ser considerado um gordão, muito menos "step". Aliás, por falar em Brasil, dia desses que estava pensando em como seria uma versão brasileira de "A Flauta Mágica". A Rainha da Noite seria ou uma prostituta ou um traveco, e suas árias seriam algo como "vilão, não pagou e me deixou na mão!", com uns índios berrando no fundo. Mas tal assunto fica para outro momento.
Há dois ideais excelentes para o início da formação de um jovem. O primeiro é mais ou menos como no filme "Rapanui", quando as meninas daquela remota ilha se tornavam moçoilas: trancafiá-lo numa caverna por oito meses - no mínimo. Vejam que belíssimas coisas não surgiriam caso todos os jovens fossem enclausurados por, digamos, três anos, sem contato algum com o mundo exterior, apenas com a monarquia de si mesmos, porque nós nos controlamos de maneira monárquica. Tenho a certeza que, caso não houvesse uma enxurrada de novos sábios, ao menos uns dois terços de besteiras não surgiria. O segundo é uma espécie de imitação de uma curiosa lei ateniense, cujo nome é tão horrível quanto a (in)conseqüência dos atos de alguém que, graças a uma lei sua, provocasse danos à cidade, sendo ele totalmente responsabilizado, e não a Assembléia que a votou - pois ela teria sido conduzida erroneamente pelo infeliz: "Graphe paranomon". Mas segundo meus ideais de formação, se um jovem, graças ao mau ensino de um adulto, cometesse besteiras, seria o adulto totalmente responsabilizado, enquanto o jovem teria de praticar a abstinência até os vinte e cinco anos. Acreditem, não há mal maior que obrigar a se calar um adulto que adora ensinar bobajadas ou proibir que os jovens descontrolados de hoje façam sexo. Talvez uma parte significativa tivesse até de ser acompanhada psicologicamente.
Como ninguém será nem enclausurado pelos motivos que defendo, muito menos obrigado a praticar abstinência, então que se danem. Quanto a mim, sujeito e objeto deste texto (ha!, tomem aí, filósofos, que nunca pensaram que alguém pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto!), tentarei retornar sem maiores preocupações à rotina tranqüila que sempre tive: "Gilmore Girls" para lá, alusões a "Seinfeld" para cá, músicas, leituras, filmes, boxe e similares. Ser bem informado é coisa de canalha.
Eu havia me esquecido como as notícias voam e carregam a gente junto para o caos. São tantos fatos e tão contraditórios uns com os outros, senão terrivelmente chatos, que não seria estranho se depois de uns dez telejornais a gente mordesse nossas próprias mães e lambesse a bota de quem nos maltrata. E uma das poucas exceções é o programa "Os Vídeos Mais Incríveis do Mundo", tão interessante que faz com que cogitemos se não seria mais adequada a existência de uma pluralidade de mundos.
Tenho de admitir que não consigo muito bem administrar as coisas. Estar constantemente informado e estudar Max Scheler é, no mínimo, equivalente a assobiar e chupar cana. Ou eu fico sabendo que foi Tião Macalé - todo mundo na tevê participa da idéia de Tião Macalé - que fraudou a previdência, ou leio uma boa definição de homem e sua posição no cosmos, uai! Terceira opção não dá.
Será que é o vácuo do ambiente que nos arrasta até o chão? Em algumas regiões deste mundo a gravidade se faz sentir com maior intensidade. Exemplo bobo: Brasil. Às vezes tenho a sensação de que a única coisa que dá para fazer em certos dias é voltar rolando para minha casa, sendo que estou bem longe de ser considerado um gordão, muito menos "step". Aliás, por falar em Brasil, dia desses que estava pensando em como seria uma versão brasileira de "A Flauta Mágica". A Rainha da Noite seria ou uma prostituta ou um traveco, e suas árias seriam algo como "vilão, não pagou e me deixou na mão!", com uns índios berrando no fundo. Mas tal assunto fica para outro momento.
Há dois ideais excelentes para o início da formação de um jovem. O primeiro é mais ou menos como no filme "Rapanui", quando as meninas daquela remota ilha se tornavam moçoilas: trancafiá-lo numa caverna por oito meses - no mínimo. Vejam que belíssimas coisas não surgiriam caso todos os jovens fossem enclausurados por, digamos, três anos, sem contato algum com o mundo exterior, apenas com a monarquia de si mesmos, porque nós nos controlamos de maneira monárquica. Tenho a certeza que, caso não houvesse uma enxurrada de novos sábios, ao menos uns dois terços de besteiras não surgiria. O segundo é uma espécie de imitação de uma curiosa lei ateniense, cujo nome é tão horrível quanto a (in)conseqüência dos atos de alguém que, graças a uma lei sua, provocasse danos à cidade, sendo ele totalmente responsabilizado, e não a Assembléia que a votou - pois ela teria sido conduzida erroneamente pelo infeliz: "Graphe paranomon". Mas segundo meus ideais de formação, se um jovem, graças ao mau ensino de um adulto, cometesse besteiras, seria o adulto totalmente responsabilizado, enquanto o jovem teria de praticar a abstinência até os vinte e cinco anos. Acreditem, não há mal maior que obrigar a se calar um adulto que adora ensinar bobajadas ou proibir que os jovens descontrolados de hoje façam sexo. Talvez uma parte significativa tivesse até de ser acompanhada psicologicamente.
Como ninguém será nem enclausurado pelos motivos que defendo, muito menos obrigado a praticar abstinência, então que se danem. Quanto a mim, sujeito e objeto deste texto (ha!, tomem aí, filósofos, que nunca pensaram que alguém pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto!), tentarei retornar sem maiores preocupações à rotina tranqüila que sempre tive: "Gilmore Girls" para lá, alusões a "Seinfeld" para cá, músicas, leituras, filmes, boxe e similares. Ser bem informado é coisa de canalha.
Thursday, July 14, 2005
Massacre de crianças no Iraque
Eu soube da notícia pelo blog Direita.
São poucas as coisas neste mundo que provocam uma justa ira, ainda mais tão longe de nós. Mas eram crianças, cacete, e os soldados estavam distribuindo balas e brinquedos somente, até um maníaco matar a todos, ferindo inclusive um bebê de quatro dias! Santo Deus!
Hoje, mais do que nunca, tenho todos os motivos deste mundo para considerar todo aquele que ousar justificar o que chama de "resistência iraquiana", eufemismo para aquela turba bárbara, desumana e monstruosa, um total canalha. Afinal, que gênero de indivíduo buscaria defender, mesmo que discretamente, pessoas que de propósito matam inocentes, sem poupar inclusive bebês?
Vi num programa, há tempos, uma pessoa retirando com uma espátula, em Israel, os restos mortais, espalhados por todos os cantos da rua, de pessoas que morreram num mercado após a detonação de uma bomba, tudo por causa de um demente palestino. Não sei absolutamente nada sobre a Palestina, exceto o fato de ser um dos berços da demência atualmente. Ora, que sociedade normal incentivaria seus próprios membros a matar o maior número possível de inocentes?
Os EUA, a Espanha e agora a Inglaterra passaram por coisas semelhantes. É tudo de uma perversidade tão enorme que chega a ser inconcebível. É puramente demoníaco. E um dos indícios da perversidade demoníaca do caráter de algumas pessoas é a indisfarçada alegria ante a todas essas tragédias, mais ou menos como se se mostrassem vingados com a morte dos judeus no Holocausto. Pior ainda, sentimentos vindos de pessoas aparentemente normais.
Para que o leitor tenha uma idéia melhor do que eu quis dizer com "aparentemente normais", direi o que ouvi da boca de um infeliz professor que tive no segundo grau. Era meu professor de História e, no meio de uma conversa a respeito dos EUA, ele me disse: "Seria bom se houvesse o tal do grande terremoto na Califórnia, pra sacudir aquilo tudo. Tinha que acontecer alguma catástrofe pra abalar aquela gente." Na época, não dei muita importância àquelas palavras, talvez até ri, tamanha a minha loucura e falta de caráter com relação a tão grave assunto. Alguns anos se passaram e eis que houve o fatídico atentado contra as Torres Gêmeas, que me causou um estupor e tristeza inacreditáveis, como se minha mãe estivesse naquele lugar. Não lembrei na ocasião das palavras daquele sujeito que acidentalmente era professor; elas me vieram algum tempo depois. Senti então uma mistura de indignação, melancolia e tristeza, inclusive comigo mesmo. Era como se algum espírito dissesse: "eis aí a obra do teu gracejo".
Desde então, parafraseando Georges Bernanos, repito para mim mesmo: não se jogam dados com a vida. Não se pode nem é possível fazer a mínima concessão àqueles terroristas. E muito me espanta que haja pessoas afirmando que, ao contrário da Segunda Guerra, onde parecia claro que o inimigo eram os nazis, hoje tudo é nebuloso. Para mim não é nenhum pouco: onde houver gente que esteja propensa a matar inocentes, que busque chantagear o mundo sob ameaças de fabricação de armas nucleares ou que trancafie para sempre quem apenas discordou do governo, ali estão os "nazis" de nosso tempo, ainda que sejam semitas, orientais ou latinos. Aliás, hoje muitos enchem a boca para dizer que antes a Alemanha Nazista era claramente inimiga, mas basta uma rápida leitura em jornais, livros e outras fontes de opinião da época que fica patente que nada disso era tão claro, pelo menos até Hitler atacar a França e o Japão os EUA: sobrava gente que discordava da idéia de uma intervenção armada contra a Alemanha. Da mesma forma que hoje há canalhas defendendo a resistência/monstruosidade iraquiana, naqueles tempos não faltavam infelizes que juravam que Hitler era um sujeito cheio de ótimas intenções, governando uma coitada Alemanha humilhada pelas potências ocidentais. Pior de tudo que até hoje ensinam nas escolas que isso foi um dos principais motivos da Alemanha ter novamente ido à guerra. Quem nunca estudou que um dos motivos principais foi a imposição do Tratado de Versalhes, o chamado "Diktat", argumentando como um bom nazista soía fazer nos idos da década de vinte?
Por isso, meus caros, se no final das contas os países de bem (exceção: URSS, que de bem nada tinha) não foram transigentes com os nazis, por quê, por que haveriam de ser com esses malditos assassinos de crianças? Por que Israel está errado em se precaver duramente contra mais um lamentável massacre de inocentes em outro mercado? Por que os EUA, após os eventos de 2002, não podiam agir como agiram, ficando até barato para nações como o Irã e por extensão um monte, inclusive Cuba e China? Ao menos para mim está claro que, em casos extremos como esses, ou você fica a favor de canalhas ou contra, implícita ou explicitamente. Em outras palavras, ou você é canalha ou não, implícita ou explicitamente. Sim sim, não não, o resto é palavrório do Demônio.
São poucas as coisas neste mundo que provocam uma justa ira, ainda mais tão longe de nós. Mas eram crianças, cacete, e os soldados estavam distribuindo balas e brinquedos somente, até um maníaco matar a todos, ferindo inclusive um bebê de quatro dias! Santo Deus!
Hoje, mais do que nunca, tenho todos os motivos deste mundo para considerar todo aquele que ousar justificar o que chama de "resistência iraquiana", eufemismo para aquela turba bárbara, desumana e monstruosa, um total canalha. Afinal, que gênero de indivíduo buscaria defender, mesmo que discretamente, pessoas que de propósito matam inocentes, sem poupar inclusive bebês?
Vi num programa, há tempos, uma pessoa retirando com uma espátula, em Israel, os restos mortais, espalhados por todos os cantos da rua, de pessoas que morreram num mercado após a detonação de uma bomba, tudo por causa de um demente palestino. Não sei absolutamente nada sobre a Palestina, exceto o fato de ser um dos berços da demência atualmente. Ora, que sociedade normal incentivaria seus próprios membros a matar o maior número possível de inocentes?
Os EUA, a Espanha e agora a Inglaterra passaram por coisas semelhantes. É tudo de uma perversidade tão enorme que chega a ser inconcebível. É puramente demoníaco. E um dos indícios da perversidade demoníaca do caráter de algumas pessoas é a indisfarçada alegria ante a todas essas tragédias, mais ou menos como se se mostrassem vingados com a morte dos judeus no Holocausto. Pior ainda, sentimentos vindos de pessoas aparentemente normais.
Para que o leitor tenha uma idéia melhor do que eu quis dizer com "aparentemente normais", direi o que ouvi da boca de um infeliz professor que tive no segundo grau. Era meu professor de História e, no meio de uma conversa a respeito dos EUA, ele me disse: "Seria bom se houvesse o tal do grande terremoto na Califórnia, pra sacudir aquilo tudo. Tinha que acontecer alguma catástrofe pra abalar aquela gente." Na época, não dei muita importância àquelas palavras, talvez até ri, tamanha a minha loucura e falta de caráter com relação a tão grave assunto. Alguns anos se passaram e eis que houve o fatídico atentado contra as Torres Gêmeas, que me causou um estupor e tristeza inacreditáveis, como se minha mãe estivesse naquele lugar. Não lembrei na ocasião das palavras daquele sujeito que acidentalmente era professor; elas me vieram algum tempo depois. Senti então uma mistura de indignação, melancolia e tristeza, inclusive comigo mesmo. Era como se algum espírito dissesse: "eis aí a obra do teu gracejo".
Desde então, parafraseando Georges Bernanos, repito para mim mesmo: não se jogam dados com a vida. Não se pode nem é possível fazer a mínima concessão àqueles terroristas. E muito me espanta que haja pessoas afirmando que, ao contrário da Segunda Guerra, onde parecia claro que o inimigo eram os nazis, hoje tudo é nebuloso. Para mim não é nenhum pouco: onde houver gente que esteja propensa a matar inocentes, que busque chantagear o mundo sob ameaças de fabricação de armas nucleares ou que trancafie para sempre quem apenas discordou do governo, ali estão os "nazis" de nosso tempo, ainda que sejam semitas, orientais ou latinos. Aliás, hoje muitos enchem a boca para dizer que antes a Alemanha Nazista era claramente inimiga, mas basta uma rápida leitura em jornais, livros e outras fontes de opinião da época que fica patente que nada disso era tão claro, pelo menos até Hitler atacar a França e o Japão os EUA: sobrava gente que discordava da idéia de uma intervenção armada contra a Alemanha. Da mesma forma que hoje há canalhas defendendo a resistência/monstruosidade iraquiana, naqueles tempos não faltavam infelizes que juravam que Hitler era um sujeito cheio de ótimas intenções, governando uma coitada Alemanha humilhada pelas potências ocidentais. Pior de tudo que até hoje ensinam nas escolas que isso foi um dos principais motivos da Alemanha ter novamente ido à guerra. Quem nunca estudou que um dos motivos principais foi a imposição do Tratado de Versalhes, o chamado "Diktat", argumentando como um bom nazista soía fazer nos idos da década de vinte?
Por isso, meus caros, se no final das contas os países de bem (exceção: URSS, que de bem nada tinha) não foram transigentes com os nazis, por quê, por que haveriam de ser com esses malditos assassinos de crianças? Por que Israel está errado em se precaver duramente contra mais um lamentável massacre de inocentes em outro mercado? Por que os EUA, após os eventos de 2002, não podiam agir como agiram, ficando até barato para nações como o Irã e por extensão um monte, inclusive Cuba e China? Ao menos para mim está claro que, em casos extremos como esses, ou você fica a favor de canalhas ou contra, implícita ou explicitamente. Em outras palavras, ou você é canalha ou não, implícita ou explicitamente. Sim sim, não não, o resto é palavrório do Demônio.
Sunday, July 10, 2005
Diga-me a aparência do líder do teu país que te direi como tua nação é
Saturday, July 09, 2005
O filósofo já avisou...
Minha mãe costuma dizer que quem não pensa, o corpo padece (ou outra frase cheia de elipses). No atual caso do "mensalão", foi o bolso pátrio que pagou a lula, quer dizer, o pato. E já vocês repararam como alguns gostam de usar aumentativos em termos horríveis? "Mensalão", "apagão"...
Com todo o atual escândalo, o cartaz adquire toda uma involuntária ironia. Muito divertido, muito divertido. E só se surpreende quem não é um homem de boa vontade, porque sobre o atual caos o filósofo já avisou, e faz tempo. E olha que até agora, neca de ao menos suspirarem alguma coisa a respeito do Foro de São Paulo.
Aliás, por falar no filósofo, ele foi demitido do jornal "O Globo". Não diziam que as empresas Globo eram um reduto de reacionários? Tirando algum eventual indevido uso de metonímia, o único conservador que havia no jornal era o próprio filósofo. Mas sua própria demissão ele também já previu, se levarmos em consideração o que ele vivia escrevendo desde não sei quando. Foi uma questão de tempo.
Friday, July 01, 2005
Enfim, o e-mail desaforado
Como prometi, eis o e-mail enviado para "O Teocrata":
como alguém pode ser tão IMBECIL ao ponto de ser contra o aborto de fetos anencéfalos?
pesquisa com células-tronco (enquanto tetraplégicos voltam a andar) então, nem pensar, né?
pq?
pq é contra as leis de deus, pq só deus pode fazer milagres...
vcs devem estar felizes da vida agora, com o rotwailler de deus guardando Roma...
realmente, na internet se encontra muita merda.
pedofilia, neonazismo e essa bosta de site de vcs está entre os piores lixos que encontrei. qt pretensão. Goethe praqui, Dante prali, na boca de gente evidentemente reacionária, ignorante, burra e preconceituosa. gente que se diz "cristã", que fala em "amor cristão" e divulga piadinha sobre lésbica, sobre gay....
um cara que é (pela fotinho) negro e é contra o movimento negro... ridículo.
a depender da igreja católica, mermão, e dessa atitude de "conservação do status quo" que vc tanto defende, vc estaria trabalhando como escravo (seus bisavós trabalharam, não se esqueça) até hoje...
ridículo, simplesmente.
a cultura, os "poemas" e a "arte" de vcs são de uma mediocridade risível.
mas a ideologia por trás de tudo não tem a menor graça. é triste.
vcs acreditam mesmo em deus e em jesus cristo?
acreditam que maria pariu um filho do espírito santo? que ela engravidou por "milagre"?
kaskaraskasakkakaaaasss
acreditam que o mundo foi feito em sete dias?
na arca de noé, com todos os bichinhos dentro, vcs acreditam?
os imbecis aí devem ser contra o uso de preservativos em relações sexuais, né?
ah, sim, as pessoas devem fazer sexo depois do casamento, conforme reza a igreja...
por fim, a grande questão: em papai noel, vcs acreditam?
ps_ olha, eu sou branco, heterossexual, e numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos. e isso não se deve a nenhum grande mérito particular meu, mas a fato bem simples: nasci numa família bastante abastada, e dinheiro chama dinheiro, como se diz no mundo em que vivo...
digo isso para que fique bem claro que não estou advogando em causa própria, mesmo.
mas a irracionalidade de vcs é particularmente irritante pq se traveste de cultura e de razão onde existe apenas superstição. nada muito diferente do fundamentalismo muçulmano, embora estes ao menos tenham a desculpa de viver na idade média, num tipo de mentalidade que o ocidente superou já faz algum tempo... fundamentalismo cristão é algo tão obscurantista e absurdo qt foi o nazismo (com o qual a igreja católica foi deveras conivente), por ex.
passar bem, crianças
Eu já disse isso antes, mas não custa repetir: a quantidade de sujeitos que pensam assim é inimaginável, variando apenas o tom. Apenas quem não está acostumado com algo desse tipo estranharia esse gênero de "manifestação". É justamente para quem não está acostumado a se deparar com esse tipo de paroxismo que resolvi publicar esta pequena amostra da inteligência nacional - digo tal coisa porque não é o joão da esquina ou o manolo da quermesse que pensam assim, mas indivíduos que tiveram oportunidade de estudar em parte considerável de suas vidas e que constituem aquilo que se chama "público (supostamente) letrado".
Naturalmente, minha resposta foi educadíssima:
(Des)Prezado leitor,
Após toda essa manifestação de indignação que você demonstrou pelo meu site “O Teocrata”, não pude deixar de te escrever algo, afinal de contas não deixa de ser divertido espremer um piolho. Direi não por todos os membros do site, mas por mim mesmo: se eu pude crer que alguém teve a audácia de escrever toda a sorte de disparates que você escreveu – e, acredite, você não é o único idiota a escrever para a gente nesse tom, afinal de contas os idiotas têm a propriedade de formar multidões –, por que eu não acreditaria não apenas em Papai Noel, mas também em boitatá, saci, coelhinho da páscoa e National Kid? Pois existindo um leitor como você, aliás, se houve uma mulher, como a infeliz da tua mãe, que teve a insensatez de te parir, então tudo é possível. De fato sou contra aborto, mas no teu caso talvez eu fizesse uma exceção. Nisso até você de fato haveria de concordar comigo, afinal de contas, sendo você um anencéfalo que, por um milagre de Cristo, está vivo e em idade muito avançada, e como você disse que somente gente “IMBECIL” (imito aqui a tua afetação) é contra abortos de criaturas com esse mal, então não haveriam de começar por ti a título de exemplo? Mas como você é um imbecil, com ou sem capslock, então tua afirmação é autocontraditória.
O fato de você viver em família abastada só prova duas coisas: 1) que é a regra mais geral, pelo menos desde que o bárbaro disfarçado de intelectual Karl Marx se associou com Engels, o fato de pessoas de excelentes condições financeiras e posição social serem as primeiras a hipocritamente condenar uma suposta elite, “esquecendo-se” que elas mesmas são elite, e que as sociedades utópicas que propõem no lugar da que existe nada mais são que uma tirania totalitária exercida justamente por eles mesmos – com períodos de carnificina entre seus próprios membros, como se não bastassem os massacres costumeiros contra a população em geral –, dela participando um sem-número de pés-rapados como idiotas úteis e bucha-de-canhão. Se a tua cabecinha de ameba fizer algum esforço, você talvez lembrará como foi a Revolução Francesa, Russa, Chinesa, Nazista, Cubana, etc, etc, etc; 2) que a burrice e a falta de cultura não estão circunscritas aos mais pobres, afinal de contas, a julgar pelo que você escreveu, sou não apenas bem mais pobre que você como muitíssimo mais inteligente, o que não é mérito algum para mim, pois equivaleria a me considerar sábio por saber raciocinar melhor que um molusco. E ainda bem que você está “numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos” (sic), porque se te falta evidentemente o discernimento, o bom-senso e a sabedoria mais elementar inclusive de tua própria língua, ao menos existe alguma coisa para te compensar um pouquinho, o que, aliás, mais uma vez demonstra que Cristo é por demais sábio e justo, ainda que você não tenha feito nada demais senão nascer numa família abastada e não ser de todo mongolóide. Dadas as tuas circunstâncias, a vontade de Deus não deixa de ser admirável, e não sei como, em tão clara manifestação de misericórdia divina em tua vida, você não tenha se tornado ao menos padre. É um mistério...
Uma banana para ti, e vai encher o saco da tua mãe.
Com toda a consideração que você merece,
Cassiano Farias
PS: Tanto o meu e-mail quanto o teu publicarei no meu blog.
Imagino as toneladas de encheções de saco que alguém como Olavo de Carvalho recebe diariamente. Até em seu scrapbook no Orkut vão insultá-lo.
Tudo isso é lamentável e servirá, talvez, como documento histórico de uma época tão miserável como esta, na qual apenas um maravilhoso milagre insiste em salvar alguns poucos bravos.
como alguém pode ser tão IMBECIL ao ponto de ser contra o aborto de fetos anencéfalos?
pesquisa com células-tronco (enquanto tetraplégicos voltam a andar) então, nem pensar, né?
pq?
pq é contra as leis de deus, pq só deus pode fazer milagres...
vcs devem estar felizes da vida agora, com o rotwailler de deus guardando Roma...
realmente, na internet se encontra muita merda.
pedofilia, neonazismo e essa bosta de site de vcs está entre os piores lixos que encontrei. qt pretensão. Goethe praqui, Dante prali, na boca de gente evidentemente reacionária, ignorante, burra e preconceituosa. gente que se diz "cristã", que fala em "amor cristão" e divulga piadinha sobre lésbica, sobre gay....
um cara que é (pela fotinho) negro e é contra o movimento negro... ridículo.
a depender da igreja católica, mermão, e dessa atitude de "conservação do status quo" que vc tanto defende, vc estaria trabalhando como escravo (seus bisavós trabalharam, não se esqueça) até hoje...
ridículo, simplesmente.
a cultura, os "poemas" e a "arte" de vcs são de uma mediocridade risível.
mas a ideologia por trás de tudo não tem a menor graça. é triste.
vcs acreditam mesmo em deus e em jesus cristo?
acreditam que maria pariu um filho do espírito santo? que ela engravidou por "milagre"?
kaskaraskasakkakaaaasss
acreditam que o mundo foi feito em sete dias?
na arca de noé, com todos os bichinhos dentro, vcs acreditam?
os imbecis aí devem ser contra o uso de preservativos em relações sexuais, né?
ah, sim, as pessoas devem fazer sexo depois do casamento, conforme reza a igreja...
por fim, a grande questão: em papai noel, vcs acreditam?
ps_ olha, eu sou branco, heterossexual, e numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos. e isso não se deve a nenhum grande mérito particular meu, mas a fato bem simples: nasci numa família bastante abastada, e dinheiro chama dinheiro, como se diz no mundo em que vivo...
digo isso para que fique bem claro que não estou advogando em causa própria, mesmo.
mas a irracionalidade de vcs é particularmente irritante pq se traveste de cultura e de razão onde existe apenas superstição. nada muito diferente do fundamentalismo muçulmano, embora estes ao menos tenham a desculpa de viver na idade média, num tipo de mentalidade que o ocidente superou já faz algum tempo... fundamentalismo cristão é algo tão obscurantista e absurdo qt foi o nazismo (com o qual a igreja católica foi deveras conivente), por ex.
passar bem, crianças
Eu já disse isso antes, mas não custa repetir: a quantidade de sujeitos que pensam assim é inimaginável, variando apenas o tom. Apenas quem não está acostumado com algo desse tipo estranharia esse gênero de "manifestação". É justamente para quem não está acostumado a se deparar com esse tipo de paroxismo que resolvi publicar esta pequena amostra da inteligência nacional - digo tal coisa porque não é o joão da esquina ou o manolo da quermesse que pensam assim, mas indivíduos que tiveram oportunidade de estudar em parte considerável de suas vidas e que constituem aquilo que se chama "público (supostamente) letrado".
Naturalmente, minha resposta foi educadíssima:
(Des)Prezado leitor,
Após toda essa manifestação de indignação que você demonstrou pelo meu site “O Teocrata”, não pude deixar de te escrever algo, afinal de contas não deixa de ser divertido espremer um piolho. Direi não por todos os membros do site, mas por mim mesmo: se eu pude crer que alguém teve a audácia de escrever toda a sorte de disparates que você escreveu – e, acredite, você não é o único idiota a escrever para a gente nesse tom, afinal de contas os idiotas têm a propriedade de formar multidões –, por que eu não acreditaria não apenas em Papai Noel, mas também em boitatá, saci, coelhinho da páscoa e National Kid? Pois existindo um leitor como você, aliás, se houve uma mulher, como a infeliz da tua mãe, que teve a insensatez de te parir, então tudo é possível. De fato sou contra aborto, mas no teu caso talvez eu fizesse uma exceção. Nisso até você de fato haveria de concordar comigo, afinal de contas, sendo você um anencéfalo que, por um milagre de Cristo, está vivo e em idade muito avançada, e como você disse que somente gente “IMBECIL” (imito aqui a tua afetação) é contra abortos de criaturas com esse mal, então não haveriam de começar por ti a título de exemplo? Mas como você é um imbecil, com ou sem capslock, então tua afirmação é autocontraditória.
O fato de você viver em família abastada só prova duas coisas: 1) que é a regra mais geral, pelo menos desde que o bárbaro disfarçado de intelectual Karl Marx se associou com Engels, o fato de pessoas de excelentes condições financeiras e posição social serem as primeiras a hipocritamente condenar uma suposta elite, “esquecendo-se” que elas mesmas são elite, e que as sociedades utópicas que propõem no lugar da que existe nada mais são que uma tirania totalitária exercida justamente por eles mesmos – com períodos de carnificina entre seus próprios membros, como se não bastassem os massacres costumeiros contra a população em geral –, dela participando um sem-número de pés-rapados como idiotas úteis e bucha-de-canhão. Se a tua cabecinha de ameba fizer algum esforço, você talvez lembrará como foi a Revolução Francesa, Russa, Chinesa, Nazista, Cubana, etc, etc, etc; 2) que a burrice e a falta de cultura não estão circunscritas aos mais pobres, afinal de contas, a julgar pelo que você escreveu, sou não apenas bem mais pobre que você como muitíssimo mais inteligente, o que não é mérito algum para mim, pois equivaleria a me considerar sábio por saber raciocinar melhor que um molusco. E ainda bem que você está “numa situação socioeconômica provavelmente muito, mas muito melhor do que a de TODOS esses conservadorzinhos de merda aí reunidos” (sic), porque se te falta evidentemente o discernimento, o bom-senso e a sabedoria mais elementar inclusive de tua própria língua, ao menos existe alguma coisa para te compensar um pouquinho, o que, aliás, mais uma vez demonstra que Cristo é por demais sábio e justo, ainda que você não tenha feito nada demais senão nascer numa família abastada e não ser de todo mongolóide. Dadas as tuas circunstâncias, a vontade de Deus não deixa de ser admirável, e não sei como, em tão clara manifestação de misericórdia divina em tua vida, você não tenha se tornado ao menos padre. É um mistério...
Uma banana para ti, e vai encher o saco da tua mãe.
Com toda a consideração que você merece,
Cassiano Farias
PS: Tanto o meu e-mail quanto o teu publicarei no meu blog.
Imagino as toneladas de encheções de saco que alguém como Olavo de Carvalho recebe diariamente. Até em seu scrapbook no Orkut vão insultá-lo.
Tudo isso é lamentável e servirá, talvez, como documento histórico de uma época tão miserável como esta, na qual apenas um maravilhoso milagre insiste em salvar alguns poucos bravos.
Thursday, June 30, 2005
Notas
Deus meu, o que as pessoas não fazem escondidas pelo anonimato? Isso pensei após ter visto, numa sala de bate-papo, alguém com o nick "kérokú" - que insistia em dizer que por trás daquele nome havia um sujeito sério. Pessoas assim são parecidas com aqueles gordões, mas muito gordões mesmo, que não conseguem ver o próprio pinto: da mesma forma, não é possível enxergar a seriedade escondida por trás de um nick como aquele.
E já pensaram se as pessoas pudessem ficar invisíveis, como a Mulher-Invisível do Quarteto Fantástico? Imaginem quanta coisa não haveria! Donde concluo que Deus é sapientíssimo por não fazer deste mundo uma espécie de revista do Super-Homem. Não há dúvidas de que este é o melhor dos mundos possíveis.
***
Cinco minutos assistindo à novela "América" e tive a sensação de ter aberto uma caixa de Pandora. De modo sintético, surgiam propagandas politicamente corretas, militância gay, distorções sobre os EUA e deboche aos evangélicos. Pouco mais de um minuto para cada questão. Cinco minutos bastaram para, nessa sobrecarga de informações (?), eu me sentir zonzo como não me sentia faz algum tempo.
Mas sempre haverá a desculpa de que "não foi bem assim", "não foi isso que quisemos demonstrar", já que, para alguns, só há comprovação do delito se o réu soletrar seu crime ou matar mais alguns milhares de inocentes.
***
Quem nunca assistiu ao filme "Ninotchka", então assista: é muito bom e divertido. Há frases graciosas, como "meia-noite é o horário em que metade de Paris faz amor com a outra metade". É uma comédia romântica muito espirituosa.
***
Quem nunca ouviu os motetos de Bach não sabe o dano que está cometendo a si mesmo. Eles são de uma sensibilidade mística notável, exaltação de um sentimento religioso sensível, profundo. Todos eles, em especial o moteto "Jesu meine Freude" ("Jesus minha alegria"), são impressionantes tanto pela beleza artística quanto pela intensidade da fé. A polifonia vocal a capela, em estilo "gótico" - por assim dizer -, causa uma impressão tremenda.
Não deixem de ouvi-los, meus amigos. São músicas extremamente comoventes.
E já pensaram se as pessoas pudessem ficar invisíveis, como a Mulher-Invisível do Quarteto Fantástico? Imaginem quanta coisa não haveria! Donde concluo que Deus é sapientíssimo por não fazer deste mundo uma espécie de revista do Super-Homem. Não há dúvidas de que este é o melhor dos mundos possíveis.
***
Cinco minutos assistindo à novela "América" e tive a sensação de ter aberto uma caixa de Pandora. De modo sintético, surgiam propagandas politicamente corretas, militância gay, distorções sobre os EUA e deboche aos evangélicos. Pouco mais de um minuto para cada questão. Cinco minutos bastaram para, nessa sobrecarga de informações (?), eu me sentir zonzo como não me sentia faz algum tempo.
Mas sempre haverá a desculpa de que "não foi bem assim", "não foi isso que quisemos demonstrar", já que, para alguns, só há comprovação do delito se o réu soletrar seu crime ou matar mais alguns milhares de inocentes.
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Quem nunca assistiu ao filme "Ninotchka", então assista: é muito bom e divertido. Há frases graciosas, como "meia-noite é o horário em que metade de Paris faz amor com a outra metade". É uma comédia romântica muito espirituosa.
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Quem nunca ouviu os motetos de Bach não sabe o dano que está cometendo a si mesmo. Eles são de uma sensibilidade mística notável, exaltação de um sentimento religioso sensível, profundo. Todos eles, em especial o moteto "Jesu meine Freude" ("Jesus minha alegria"), são impressionantes tanto pela beleza artística quanto pela intensidade da fé. A polifonia vocal a capela, em estilo "gótico" - por assim dizer -, causa uma impressão tremenda.
Não deixem de ouvi-los, meus amigos. São músicas extremamente comoventes.
Saturday, June 25, 2005
O ancião e a morte*
Havia numa aldeia um ancião que vivia solitário e em meio a muitíssimos trabalhos. Sua vida era triste e ele jamais se conformara com sua situação.
Durante um dia em que foi buscar lenha na floresta, assim que retornava para sua casa sentiu uma tristeza enorme em seu coração, como nunca antes. Era a revolta contra a vida. O dia lhe pareceu especialmente feio, embora o sol brilhasse como nunca. Aquela floresta, que sempre lhe acolhera, naquele momento lhe parecia um túmulo. O som dos pássaros parecia um deboche da natureza apenas contra ele. Ele se sentia arrastado por uma não sei qual força a sempre e sempre padecer. Daí que subitamente parou, atirou as pesadas lenhas que carregava nas costas ao chão e começou a suplicar pela vinda da morte.
Contudo, eis que, de repente, o sol foi barrado por uma nuvem cinzenta. Os animais se calaram. Um frio vento assobiou. E de repente, perante a si mesmo, o ancião, não sei com quantos calafrios, viu se aproximar ninguém menos que a própria Morte, em todo seu enigmático esplendor! Esta, aproximando-se do infeliz, disse em voz gutural:
- Ancião, ancião... Para que tu me tiraste de minha tranqüilidade e me convocaste? Vamos, fala.
Ele, então, ouvindo tais coisas, foi tomado por um súbito apego à floresta, aos sol e aos bichos que haviam se calado e, como se tivesse sido inspirado por algum ser superior, imediatamente lhe respondeu:
- Apenas te chamei para que me ajudes a carregar estas lenhas, cara amiga!
E a Morte riu, mais uma vez constatando que o comum de nós, nos momentos da última aflição, busca se apegar como nunca a este mundo de justiça imperfeita, ainda que mal saiba se melhor não seria aquele outro, além. Só a Morte o conhece, e só ela pode de fato rir.
*Baseado na fábula homônima de Esopo.
Durante um dia em que foi buscar lenha na floresta, assim que retornava para sua casa sentiu uma tristeza enorme em seu coração, como nunca antes. Era a revolta contra a vida. O dia lhe pareceu especialmente feio, embora o sol brilhasse como nunca. Aquela floresta, que sempre lhe acolhera, naquele momento lhe parecia um túmulo. O som dos pássaros parecia um deboche da natureza apenas contra ele. Ele se sentia arrastado por uma não sei qual força a sempre e sempre padecer. Daí que subitamente parou, atirou as pesadas lenhas que carregava nas costas ao chão e começou a suplicar pela vinda da morte.
Contudo, eis que, de repente, o sol foi barrado por uma nuvem cinzenta. Os animais se calaram. Um frio vento assobiou. E de repente, perante a si mesmo, o ancião, não sei com quantos calafrios, viu se aproximar ninguém menos que a própria Morte, em todo seu enigmático esplendor! Esta, aproximando-se do infeliz, disse em voz gutural:
- Ancião, ancião... Para que tu me tiraste de minha tranqüilidade e me convocaste? Vamos, fala.
Ele, então, ouvindo tais coisas, foi tomado por um súbito apego à floresta, aos sol e aos bichos que haviam se calado e, como se tivesse sido inspirado por algum ser superior, imediatamente lhe respondeu:
- Apenas te chamei para que me ajudes a carregar estas lenhas, cara amiga!
E a Morte riu, mais uma vez constatando que o comum de nós, nos momentos da última aflição, busca se apegar como nunca a este mundo de justiça imperfeita, ainda que mal saiba se melhor não seria aquele outro, além. Só a Morte o conhece, e só ela pode de fato rir.
*Baseado na fábula homônima de Esopo.
Thursday, June 23, 2005
Mais um link
Só para avisar ao leitor: acrescentei à lista da Pequena Paidéia Virtual um bom site, Web Gallery of Art. A qualidade das imagens é boa, valendo a pena perdemos um bocado de tempo passeando por lá.
Wednesday, June 22, 2005
Sobre uma carta ao povo brasileiro
Graças ao blog do André de Oliveira, tomei conhecimento de que escreverão mais uma “carta ao povo brasileiro”. Ora, havendo a probabilidade de escreverem algo desta natureza, e sendo a diagonal do quadrado incomensurável, então a experiência demonstra que semelhantes empreendimentos jamais são sensatos e prudentes. Não cheiram bem. Aliás, o único cheiro que cartas dessa espécie deveriam exalar é o do papel carbonizado, devidamente atirado na lareira ou forno mais próximo.
Como se não bastasse sermos agraciados por mais uma carta endereçada a todos nós, eis a razão de quererem escrevê-la: um alerta contra o “golpismo de direita”. “Deuses imortais!”, bradaria Cícero diante deste escândalo. Onde, quando, como, de que forma, através de quem surgiu este "golpismo"? Apenas posso concluir que deve ter sido causado por mim mesmo e por mais alguns gatos pingados, que nem se conhecem. Sim, tenho de admitir: estou envolvido neste “golpismo”, e por duas razões: uno, porque sou de direita, a saber, simplesmente por ser um não-esquerda. Pois se Euclides definiu o ponto como aquilo que não tem partes, tão bem posso me definir como aquele que não é esquerda. Aliás, eu poderia me definir também como um não-monitor, não-jornal, não-cozinha e até mesmo como uma negação de tudo, exceto de mim mesmo. Então, neste sentido sou de direita; duo, como um não-esquerda, definição essa que parece satisfazer as exigências intelectuais de grande parte do público alfabetizado, nesta condição sou um simpático leitor de livros de Aristóteles, de Gustavo Corção, ouvinte de Bach, espectador do desenho da Liga da Justiça e do seriado “Gilmore Girls”, fã de filmes como “Os Nibelungos”, “Procurando Nemo”, “Os Incríveis” e “Senhor dos Anéis”, admirador da vida dos santos, torcedor do Botafogo, amante de pavê e, sinal inconfundível de um não-esquerda, dotado de uma preguiça inacreditável só de pensar em fazer qualquer tipo de marcha e berrar o tempo todo. A última caminhada que fiz foi de minha antiga casa nas Laranjeiras até a Barra da Tijuca, sem reivindicar coisa alguma senão o simples fato de passear a vontade – mais um indício de pensamento burguês. Como eu vez ou outra, aqui, neste blog, escrevo sobre estes assuntos e alguns outros, então é claro que participo, ainda que sem o saber, deste “golpismo de direita”, afinal de contas estou fazendo propaganda contra-revolucionária. Portanto, para provar minha inconcebível ideologia, já pegarei meu garfo e faca para, antes de mais nada, comer alguma coisa, porque gente de direita prefere antes comer o que quer e quando quer do que esperar na fila o talão de racionamento do Estadão.
Não sei como perceberam o meu “golpismo” (aliás, por que esta palavra, “golpismo”? Quem dá golpe é apenas militar?), pois meu blog é a um só tempo escuro/obscuro, pouquíssimo freqüentado e só por gente seleta, confuso e desarrumado: um porão, em outras palavras – quer dizer, não que só gente seleta freqüente porões, mas isso é apenas um pequeno detalhe. E, nas minhas condições, creio que outros também estejam.
Eu não poderia deixar de lembrar ao impávido leitor que o excitar as massas em surtos de paranóia coletiva é o esporte preferido de líderes a um só tempo igualmente paranóicos e muito ambiciosos. O século XX foi um prodígio neste aspecto, nos brindando com camaradas invariavelmente perversos. Mas, coisa curiosa, todos eles provinham daquela camada da população, com uma ou outra exceção apenas para confirmar a regra, que Hannah Arendt chamou de “a ralé”. Muito bem: da mesma forma que a caça às raposas é modalidade tipicamente da nobreza britânica, a delinqüência em massa e loucuras coletivas parecem ser as modalidades mui praticadas pelos líderes-ralé. Ei-los, alguns: Lênin, Hitler, Stálin, Che, Fidel, Pol Pot, Mao, Trótsky... Poupo o leitor do embaraço de ler mais umas centenas de nomes. E, veja bem, todos eles incentivaram surtos e mais surtos de paranóia em seus governos: ou eram os estrangeiros que estavam querendo acabar com a revolução, ou a CIA, ou os intelectuais aburguesados, ou os judeus, ou a população urbana que nada entendia da bela e boa vida coletiva rural... Por que aqui, em meio a selva e aos micos, nada disso sucederia, justamente praticado pelos seus primos pobres do sul, que eram inclusive motivo de chacota entre seus primos ricos do norte?
E ainda tem gente que duvida que história se repete, ainda que com variações. Mas esperemos, eu e você, leitor, para ver se este blog será devidamente noticiado como partícipe do “golpismo”. Ao menos confessei.
***
Haverá, parece, uma marcha que terá o apoio de integrantes de outra, a “Marcha Mundial das Mulheres”. Ora, sabemos que “movimentos sociais”, em sânscrito, significa “desenxabidos que, sem pedir a tua opinião, agem em teu nome, e ficam zangados se você protestar”. Também a experiência acumulada por anos de labuta demonstra que todo incentivo à politização e cidadania desdobra em mulheres peludas, pobres cantando rap de protesto e gente de má-catadura gritando palavras de ordem. Sendo assim, desta vez o ovo podre descambará em Goiás, pátria do empadão: esta gente é uma azeitona e meu paladar a detesta.
E a prova insofismável de que um acúmulo quantitativo não implica, necessariamente, em salto qualitativo, é o fato de que dos muitos milhares de mulheres que talvez apóiem o abre-alas, umas poucas provavelmente se salvarão, e isso com escoriações no espírito. Donde vale lembrar o exemplo de Sodoma e Gomorra, onde o Altíssimo advertiu que salvaria a cidade se houvesse ao menos um probo. Mas quem sou eu para separar o joio do trigo imersos no esterco? Insensato aquele que excogitar sua participação naquele evento a fim de namoro.
Uma bela mocinha de movimento social é um negão bem-dotado disfarçado, espiritualmente falando. Se você bobear, te papa. Eis o meu alerta.

Membros de um movimento social em plena marcha.
Como se não bastasse sermos agraciados por mais uma carta endereçada a todos nós, eis a razão de quererem escrevê-la: um alerta contra o “golpismo de direita”. “Deuses imortais!”, bradaria Cícero diante deste escândalo. Onde, quando, como, de que forma, através de quem surgiu este "golpismo"? Apenas posso concluir que deve ter sido causado por mim mesmo e por mais alguns gatos pingados, que nem se conhecem. Sim, tenho de admitir: estou envolvido neste “golpismo”, e por duas razões: uno, porque sou de direita, a saber, simplesmente por ser um não-esquerda. Pois se Euclides definiu o ponto como aquilo que não tem partes, tão bem posso me definir como aquele que não é esquerda. Aliás, eu poderia me definir também como um não-monitor, não-jornal, não-cozinha e até mesmo como uma negação de tudo, exceto de mim mesmo. Então, neste sentido sou de direita; duo, como um não-esquerda, definição essa que parece satisfazer as exigências intelectuais de grande parte do público alfabetizado, nesta condição sou um simpático leitor de livros de Aristóteles, de Gustavo Corção, ouvinte de Bach, espectador do desenho da Liga da Justiça e do seriado “Gilmore Girls”, fã de filmes como “Os Nibelungos”, “Procurando Nemo”, “Os Incríveis” e “Senhor dos Anéis”, admirador da vida dos santos, torcedor do Botafogo, amante de pavê e, sinal inconfundível de um não-esquerda, dotado de uma preguiça inacreditável só de pensar em fazer qualquer tipo de marcha e berrar o tempo todo. A última caminhada que fiz foi de minha antiga casa nas Laranjeiras até a Barra da Tijuca, sem reivindicar coisa alguma senão o simples fato de passear a vontade – mais um indício de pensamento burguês. Como eu vez ou outra, aqui, neste blog, escrevo sobre estes assuntos e alguns outros, então é claro que participo, ainda que sem o saber, deste “golpismo de direita”, afinal de contas estou fazendo propaganda contra-revolucionária. Portanto, para provar minha inconcebível ideologia, já pegarei meu garfo e faca para, antes de mais nada, comer alguma coisa, porque gente de direita prefere antes comer o que quer e quando quer do que esperar na fila o talão de racionamento do Estadão.
Não sei como perceberam o meu “golpismo” (aliás, por que esta palavra, “golpismo”? Quem dá golpe é apenas militar?), pois meu blog é a um só tempo escuro/obscuro, pouquíssimo freqüentado e só por gente seleta, confuso e desarrumado: um porão, em outras palavras – quer dizer, não que só gente seleta freqüente porões, mas isso é apenas um pequeno detalhe. E, nas minhas condições, creio que outros também estejam.
Eu não poderia deixar de lembrar ao impávido leitor que o excitar as massas em surtos de paranóia coletiva é o esporte preferido de líderes a um só tempo igualmente paranóicos e muito ambiciosos. O século XX foi um prodígio neste aspecto, nos brindando com camaradas invariavelmente perversos. Mas, coisa curiosa, todos eles provinham daquela camada da população, com uma ou outra exceção apenas para confirmar a regra, que Hannah Arendt chamou de “a ralé”. Muito bem: da mesma forma que a caça às raposas é modalidade tipicamente da nobreza britânica, a delinqüência em massa e loucuras coletivas parecem ser as modalidades mui praticadas pelos líderes-ralé. Ei-los, alguns: Lênin, Hitler, Stálin, Che, Fidel, Pol Pot, Mao, Trótsky... Poupo o leitor do embaraço de ler mais umas centenas de nomes. E, veja bem, todos eles incentivaram surtos e mais surtos de paranóia em seus governos: ou eram os estrangeiros que estavam querendo acabar com a revolução, ou a CIA, ou os intelectuais aburguesados, ou os judeus, ou a população urbana que nada entendia da bela e boa vida coletiva rural... Por que aqui, em meio a selva e aos micos, nada disso sucederia, justamente praticado pelos seus primos pobres do sul, que eram inclusive motivo de chacota entre seus primos ricos do norte?
E ainda tem gente que duvida que história se repete, ainda que com variações. Mas esperemos, eu e você, leitor, para ver se este blog será devidamente noticiado como partícipe do “golpismo”. Ao menos confessei.
***
Haverá, parece, uma marcha que terá o apoio de integrantes de outra, a “Marcha Mundial das Mulheres”. Ora, sabemos que “movimentos sociais”, em sânscrito, significa “desenxabidos que, sem pedir a tua opinião, agem em teu nome, e ficam zangados se você protestar”. Também a experiência acumulada por anos de labuta demonstra que todo incentivo à politização e cidadania desdobra em mulheres peludas, pobres cantando rap de protesto e gente de má-catadura gritando palavras de ordem. Sendo assim, desta vez o ovo podre descambará em Goiás, pátria do empadão: esta gente é uma azeitona e meu paladar a detesta.
E a prova insofismável de que um acúmulo quantitativo não implica, necessariamente, em salto qualitativo, é o fato de que dos muitos milhares de mulheres que talvez apóiem o abre-alas, umas poucas provavelmente se salvarão, e isso com escoriações no espírito. Donde vale lembrar o exemplo de Sodoma e Gomorra, onde o Altíssimo advertiu que salvaria a cidade se houvesse ao menos um probo. Mas quem sou eu para separar o joio do trigo imersos no esterco? Insensato aquele que excogitar sua participação naquele evento a fim de namoro.
Uma bela mocinha de movimento social é um negão bem-dotado disfarçado, espiritualmente falando. Se você bobear, te papa. Eis o meu alerta.

Membros de um movimento social em plena marcha.
Sunday, June 19, 2005
Mantra usual
(com muita raiva, repensando acerca da aposentadoria da máquina de escrever)
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
(e assim, até a fúria passar)
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
Computador filho da mãe, travou e me fez perder um texto.
(e assim, até a fúria passar)
Saturday, June 18, 2005
Não confio em psicólogos e em psicanalistas
Nunca confiei em psicólogos ou psicanalistas. Tudo bem que não ouso nem a pau pisar numa tampa de bueiro também, mas isto é uma coisa que nada tem a ver com o assunto. Mas não confio neles.
Quer dizer, não confio, lógico, em qualquer um. À primeira vista, eu não disse nada demais: da mesma forma que é natural alguém averiguar a data de validade de um iogurte antes de comprá-lo, de um modo semelhante naturalmente buscamos - ou deveríamos buscar - informações acerca do sujeito que cuidará da gente.
No entanto, quando eu digo que não confio, é imaginando a vida pessoal do psicólogo ou do psicanalista. Será que eles costumam aplicar a si mesmos o que receitam aos outros? Ou será que eles agem como aqueles que muitos conselhos prudentes dão, mas que não aplicam nada em suas próprias vidas? Isso sem contar que, segundo imagino, a maioria foi "cozida" nalguma universidade deste país, particular ou pública, o que de antemão me deixa mais desconfiado ainda. Já ouvi falar de gente que entrou normalmente numa universidade e saiu com duas cabeças e cascos de bode no lugar dos pés. Tais fábulas me fazem sentir um terror indescritível.
Não sei, mas talvez, por via das dúvidas, melhor seria consultar primeiramente os nossos próprios pais e depois um bom padre. Ao menos em geral, estes sim vivenciam em si mesmos aquilo que dizem e querem nosso bem de forma desinteressada. Donde se conclui que apenas confio em psicólogos que sejam ao mesmo tempo parentes ou religiosos. Sobre psicanalistas não digo nada, porque primeiro tenho de continuar estudando a Poética antes de me manifestar em questões de alguma gravidade.
Ou será que estou dizendo só tolices? Ah, que seja.
Quer dizer, não confio, lógico, em qualquer um. À primeira vista, eu não disse nada demais: da mesma forma que é natural alguém averiguar a data de validade de um iogurte antes de comprá-lo, de um modo semelhante naturalmente buscamos - ou deveríamos buscar - informações acerca do sujeito que cuidará da gente.
No entanto, quando eu digo que não confio, é imaginando a vida pessoal do psicólogo ou do psicanalista. Será que eles costumam aplicar a si mesmos o que receitam aos outros? Ou será que eles agem como aqueles que muitos conselhos prudentes dão, mas que não aplicam nada em suas próprias vidas? Isso sem contar que, segundo imagino, a maioria foi "cozida" nalguma universidade deste país, particular ou pública, o que de antemão me deixa mais desconfiado ainda. Já ouvi falar de gente que entrou normalmente numa universidade e saiu com duas cabeças e cascos de bode no lugar dos pés. Tais fábulas me fazem sentir um terror indescritível.
Não sei, mas talvez, por via das dúvidas, melhor seria consultar primeiramente os nossos próprios pais e depois um bom padre. Ao menos em geral, estes sim vivenciam em si mesmos aquilo que dizem e querem nosso bem de forma desinteressada. Donde se conclui que apenas confio em psicólogos que sejam ao mesmo tempo parentes ou religiosos. Sobre psicanalistas não digo nada, porque primeiro tenho de continuar estudando a Poética antes de me manifestar em questões de alguma gravidade.
Ou será que estou dizendo só tolices? Ah, que seja.
Friday, June 17, 2005
Sobre "O Teocrata" ou: prelúdio a um e-mail desaforado
Olá, caro leitor. Contarei inicialmente uma pequena história. Rapidamente você entenderá do que se trata.
Certa vez, três sujeitos tiveram a idéia de criar um pequeno site, com o intuito de simplesmente escrever a respeito de cultura, críticas sobre livros, reportagens, etc, além de disponibilizar um espaço para a divulgação de poemas e textos de vários autores que eles julgassem importantes. Mas como esses mesmos sujeitos já imaginavam a reação de algumas pessoas quando lessem o tal site, bolaram um nome que antecipadamente já arcaria com os muito prováveis insultos que viriam: "O Teocrata".
Quem bolou o nome foi o Francisco Peçanha, que hoje em dia está ocupadíssimo, dando aulas de filosofia, e que vez ou outra aparece na caixinha de comentários do blog do Carlos. Ele teve uma boa sacação, eu e o Carlos gostamos bastante, tanto que até hoje, passados três ou quatro anos, e mesmo após a saída do Francisco, mantivemos o nome, sem cogitar a menor alteração. Ele surgiu antes dessa confusão infernal criada a partir do Onze de Setembro, onde virou moda chamar toda posição religiosa mais enérgica de "fundamentalista", "obscurantista", etc. De certa maneira, parecia que sem querer prevíamos alguma coisa, de modo totalmente obscuro.
Pois bem, "O Teocrata", onde publicávamos textos de nossa própria autoria - o Francisco saiu antes da primeira edição -, agora, reformulado, suporta três blogs (o meu, o do Carlos e o do Rafael, que participa desta brincadeira há pouco tempo) e um fotolog (da Rosselline, que poderia também criar um blog, mas seu pudor e recato são incomensuráveis), além de manter ainda os textos e poesias que já possuía anteriormente, inclusive uma pequena biblioteca eletrônica. Um blog é mais fácil e mais prático para publicação de textos que um site tradicional, daí a nossa opção em não escrevermos mais por lá - pelo menos não diretamente. Isso sem contar que, se já éramos amadores no site, aqui então nem sem fala: é como se atendêssemos as visitas em nossos blogs só de pijama, enquanto no site vestíssemos algo mais apropriado.
Diga-se de passagem que, num passado distante, tentamos levar adiante a idéia de publicar "O Teocrata" como se fosse um jornalzinho e distribui-lo, a preço simbólico, em universidades e alguns outros lugares. Hoje em dia penso que, se tivéssemos de fato levado a idéia adiante, talvez passaríamos por algo semelhante ao que houve com Pedro Sette Câmara, há alguns anos atrás, quando ele e alguns amigos distribuíam, na PUC, uma edição de "O Indivíduo" - na época um pequeno jornal universitário -, na qual ele discordava completamente dessa história para boi dormir que é a tal "consciência negra". Pois imagine se eu publicasse um texto defendendo a necessidade da Revolução de 1964 o distribuísse no IFCS! Ora, se por algo tão bobo quanto uma simples votação para centro acadêmico o pessoal de lá resolveu se estapear, com direito até a garrafadas, sendo eu uma das várias testemunhas daquele paroxismo todo, que aconteceria então se uns "reacionários ignorantes" ousassem defender abertamente algo tão "vil" e "degradante" como o movimento militar de 1964? Melhor: que não haveria de ocorrer quando lessem o primeiro artigo onde houvesse uma crítica ferrenha ao marxismo, ao PT e seja mais que for? Ora, se alguns amigos meus, na época da última eleição para presidente, já eram olhados de cara feia só porque andavam com um folheto onde se dizia que o PT era um partido totalitário enrustido, que dirá se lessem vários artigos associando o Iluminismo à ignorância, o marxismo à ditadura totalitária, os movimentos negros e gays à impostura do politicamente correto, etc, etc?
Mas, como diria Lênin, "que fazer"? Se todos nós temos vocação para escrever, então o jeito seria arcar com as conseqüências. Mas advirto logo que "O Teocrata", embora acabasse por tocar em assuntos como esse, nunca foi pensado de uma forma "política", por assim dizer. O que a gente sempre quis, e continua fazendo através dos nossos blogs, é escrever algo agradável e sobre temas que naturalmente mais gostamos, como por exemplo crítica cultural. O problema todo é que muita gente acaba lendo coisas assim de um ponto de vista puramente político - e burro -, envenenando tudo, como se fossem uma espécie de rei Midas que, ao invés de transformar aquilo que toca em ouro, transformasse tudo em cocô, acreditando piamente que de fato as coisas não passam de esterco. Talvez algum leitor que não tenha o costume de lidar com situações assim ache isso tudo muito esquisito, e de fato o é. O simples fato de escrevermos um pequeno texto sobre o cristianismo ou publicarmos um poema cujo autor é alemão, juntamente a uma crítica negativa, mesmo que superficial e fortuita, ao marxismo, é motivo para que sejamos considerados "membros da elite preconceituosa brasileira", "fundamentalistas", "nostálgicos da Idade Média", "fascistas que não mostram a cara", e demais lindezas aparentadas. E digo ainda, meu caro leitor, que estamos muito longe de sermos os únicos a passar por coisa semelhante. Todavia, os pentelhos virtuais não poupam a bolsa escrotal de ninguém, inflando até mesmo a de sujeitos tão desconhecidos e irrelevantes quanto nós, ainda que esporadicamente, mas sempre de modo característico.
É por este tipo de coisa que volta e meia digo alguma coisa sobre a loucura deste país. Não é possível nem escrever a respeito de cultura em geral sem ser considerado um indivíduo "politicamente errado". É verdade que existem muitas pessoas que não pensam dessa forma, mas parece que nosso solo é mais propício, como nenhum outro, a gerar idiotas. E como diz o provérbio, "é infinito o número de tolos", só faltando acrescentar "no Brasil". Vai ver está implícito, sei lá.
Outro dia publicarei um e-mail que recebi hoje, onde fica bem claro que tipo de disparates um retardado exemplar profere quando conhece um site do gênero de "O Teocrata", que só tem algo chocante na cabeça aloprada de um retardado, exemplar ou não. Até, até.
Certa vez, três sujeitos tiveram a idéia de criar um pequeno site, com o intuito de simplesmente escrever a respeito de cultura, críticas sobre livros, reportagens, etc, além de disponibilizar um espaço para a divulgação de poemas e textos de vários autores que eles julgassem importantes. Mas como esses mesmos sujeitos já imaginavam a reação de algumas pessoas quando lessem o tal site, bolaram um nome que antecipadamente já arcaria com os muito prováveis insultos que viriam: "O Teocrata".
Quem bolou o nome foi o Francisco Peçanha, que hoje em dia está ocupadíssimo, dando aulas de filosofia, e que vez ou outra aparece na caixinha de comentários do blog do Carlos. Ele teve uma boa sacação, eu e o Carlos gostamos bastante, tanto que até hoje, passados três ou quatro anos, e mesmo após a saída do Francisco, mantivemos o nome, sem cogitar a menor alteração. Ele surgiu antes dessa confusão infernal criada a partir do Onze de Setembro, onde virou moda chamar toda posição religiosa mais enérgica de "fundamentalista", "obscurantista", etc. De certa maneira, parecia que sem querer prevíamos alguma coisa, de modo totalmente obscuro.
Pois bem, "O Teocrata", onde publicávamos textos de nossa própria autoria - o Francisco saiu antes da primeira edição -, agora, reformulado, suporta três blogs (o meu, o do Carlos e o do Rafael, que participa desta brincadeira há pouco tempo) e um fotolog (da Rosselline, que poderia também criar um blog, mas seu pudor e recato são incomensuráveis), além de manter ainda os textos e poesias que já possuía anteriormente, inclusive uma pequena biblioteca eletrônica. Um blog é mais fácil e mais prático para publicação de textos que um site tradicional, daí a nossa opção em não escrevermos mais por lá - pelo menos não diretamente. Isso sem contar que, se já éramos amadores no site, aqui então nem sem fala: é como se atendêssemos as visitas em nossos blogs só de pijama, enquanto no site vestíssemos algo mais apropriado.
Diga-se de passagem que, num passado distante, tentamos levar adiante a idéia de publicar "O Teocrata" como se fosse um jornalzinho e distribui-lo, a preço simbólico, em universidades e alguns outros lugares. Hoje em dia penso que, se tivéssemos de fato levado a idéia adiante, talvez passaríamos por algo semelhante ao que houve com Pedro Sette Câmara, há alguns anos atrás, quando ele e alguns amigos distribuíam, na PUC, uma edição de "O Indivíduo" - na época um pequeno jornal universitário -, na qual ele discordava completamente dessa história para boi dormir que é a tal "consciência negra". Pois imagine se eu publicasse um texto defendendo a necessidade da Revolução de 1964 o distribuísse no IFCS! Ora, se por algo tão bobo quanto uma simples votação para centro acadêmico o pessoal de lá resolveu se estapear, com direito até a garrafadas, sendo eu uma das várias testemunhas daquele paroxismo todo, que aconteceria então se uns "reacionários ignorantes" ousassem defender abertamente algo tão "vil" e "degradante" como o movimento militar de 1964? Melhor: que não haveria de ocorrer quando lessem o primeiro artigo onde houvesse uma crítica ferrenha ao marxismo, ao PT e seja mais que for? Ora, se alguns amigos meus, na época da última eleição para presidente, já eram olhados de cara feia só porque andavam com um folheto onde se dizia que o PT era um partido totalitário enrustido, que dirá se lessem vários artigos associando o Iluminismo à ignorância, o marxismo à ditadura totalitária, os movimentos negros e gays à impostura do politicamente correto, etc, etc?
Mas, como diria Lênin, "que fazer"? Se todos nós temos vocação para escrever, então o jeito seria arcar com as conseqüências. Mas advirto logo que "O Teocrata", embora acabasse por tocar em assuntos como esse, nunca foi pensado de uma forma "política", por assim dizer. O que a gente sempre quis, e continua fazendo através dos nossos blogs, é escrever algo agradável e sobre temas que naturalmente mais gostamos, como por exemplo crítica cultural. O problema todo é que muita gente acaba lendo coisas assim de um ponto de vista puramente político - e burro -, envenenando tudo, como se fossem uma espécie de rei Midas que, ao invés de transformar aquilo que toca em ouro, transformasse tudo em cocô, acreditando piamente que de fato as coisas não passam de esterco. Talvez algum leitor que não tenha o costume de lidar com situações assim ache isso tudo muito esquisito, e de fato o é. O simples fato de escrevermos um pequeno texto sobre o cristianismo ou publicarmos um poema cujo autor é alemão, juntamente a uma crítica negativa, mesmo que superficial e fortuita, ao marxismo, é motivo para que sejamos considerados "membros da elite preconceituosa brasileira", "fundamentalistas", "nostálgicos da Idade Média", "fascistas que não mostram a cara", e demais lindezas aparentadas. E digo ainda, meu caro leitor, que estamos muito longe de sermos os únicos a passar por coisa semelhante. Todavia, os pentelhos virtuais não poupam a bolsa escrotal de ninguém, inflando até mesmo a de sujeitos tão desconhecidos e irrelevantes quanto nós, ainda que esporadicamente, mas sempre de modo característico.
É por este tipo de coisa que volta e meia digo alguma coisa sobre a loucura deste país. Não é possível nem escrever a respeito de cultura em geral sem ser considerado um indivíduo "politicamente errado". É verdade que existem muitas pessoas que não pensam dessa forma, mas parece que nosso solo é mais propício, como nenhum outro, a gerar idiotas. E como diz o provérbio, "é infinito o número de tolos", só faltando acrescentar "no Brasil". Vai ver está implícito, sei lá.
Outro dia publicarei um e-mail que recebi hoje, onde fica bem claro que tipo de disparates um retardado exemplar profere quando conhece um site do gênero de "O Teocrata", que só tem algo chocante na cabeça aloprada de um retardado, exemplar ou não. Até, até.
Thursday, June 16, 2005
Novos links no "Parada Obrigatória"
Por moleza, fui adiando o acréscimo de três blogs que costumo ler. Bom, de hoje não passa!
Vamos por ordem alfabética. O primeiro é o Ego Confession, de Christiane Alcântara, que é bastante simpático. Até onde pude perceber, vasculhando seus arquivos, ela tem uma certa queda por artes em geral. E diferentemente de alguns sites que já vi, ela comenta muito naturalmente sobre estes assuntos e o que mais lhe der na telha, que é sempre agradável.
O segundo é o Gradus ad Parnassum, de Edgard. Aliás, é agradável ler o seu blog não somente por causa dos interessantes textos como pelo layout. O modo de escrever do Edgard é bem peculiar. E ele adora música, essa que todo mundo chama "clássica", sabem? Pois é.
O último é o Traduções Gratuitas. Vejamos a proposta do blog segundo seu próprio autor, Luiz de Carvalho: "A proposta deste blog é publicar textos traduzidos por este pobre escriba, entre outras coisas; o critério de escolha não segue nenhum padrão didático. Críticas e sugestões às traduções serão bem-vindas." Então encontraremos neste blog Yeats, Pe. Garrigou-Lagrange, Émile Boutroux, Dietrich von Hildebrand... Quem lê-lo com freqüência perceberá que Luiz tende a publicar textos relacionados ao Cristianismo. Mas com relação às traduções, será que mais ninguém pensou ou teve a boa vontade em fazer o mesmo? Curiosamente tive essa mesma idéia um tempo atrás, quando eu lia a tradução espanhola da última parte da Economia Doméstica, obra que ao menos em parte parece ser de Aristóteles. Pensei: "por que diacho não abro um blog pra publicar traduções?" O problema todo é que meu conhecimento de outras línguas não é lá grande coisa...
Bom, estas são as novidades. Agora vou dormir, bom dia.
Vamos por ordem alfabética. O primeiro é o Ego Confession, de Christiane Alcântara, que é bastante simpático. Até onde pude perceber, vasculhando seus arquivos, ela tem uma certa queda por artes em geral. E diferentemente de alguns sites que já vi, ela comenta muito naturalmente sobre estes assuntos e o que mais lhe der na telha, que é sempre agradável.
O segundo é o Gradus ad Parnassum, de Edgard. Aliás, é agradável ler o seu blog não somente por causa dos interessantes textos como pelo layout. O modo de escrever do Edgard é bem peculiar. E ele adora música, essa que todo mundo chama "clássica", sabem? Pois é.
O último é o Traduções Gratuitas. Vejamos a proposta do blog segundo seu próprio autor, Luiz de Carvalho: "A proposta deste blog é publicar textos traduzidos por este pobre escriba, entre outras coisas; o critério de escolha não segue nenhum padrão didático. Críticas e sugestões às traduções serão bem-vindas." Então encontraremos neste blog Yeats, Pe. Garrigou-Lagrange, Émile Boutroux, Dietrich von Hildebrand... Quem lê-lo com freqüência perceberá que Luiz tende a publicar textos relacionados ao Cristianismo. Mas com relação às traduções, será que mais ninguém pensou ou teve a boa vontade em fazer o mesmo? Curiosamente tive essa mesma idéia um tempo atrás, quando eu lia a tradução espanhola da última parte da Economia Doméstica, obra que ao menos em parte parece ser de Aristóteles. Pensei: "por que diacho não abro um blog pra publicar traduções?" O problema todo é que meu conhecimento de outras línguas não é lá grande coisa...
Bom, estas são as novidades. Agora vou dormir, bom dia.
O Brasil rumo ao lodo
A atual polêmica a respeito das declarações do deputado Roberto Jefferson sobre esquemas de corrupção é mais outro claro sintoma do mal que assola este país. Não, não reclamo, como habitualmente se faz hoje em dia no Brasil, da existência da corrupção nos altos setores da administração pública. O problema é outro: da ordem de hierarquia de valores.
Sei bem que este início ficou um tanto obscuro ao leitor, mas já explico. Que você acha mais grave: um caso de corrupção entre deputados federais ou as (sórdidas) relações do líder de uma nação com grupos de terroristas, narcotraficantes, ditadores, etc? É mais grave um desvio de verbas públicas ou o financiamento para campanha presidencial cuja origem parece vir, dentre outras, de grupos de narcotraficantes? A segurança nacional está mais ameaçada graças a existência de um politicozinho corrupto ou mediante a articulação, neste próprio país, de um sem-número de grupos com o intuito de instaurar, da maneira mais discreta possível, uma revolução socialista?
Ora, demonstrar asco infinito a um caso de corrupção mas desprezar olimpicamente todas as evidências de ameaças à segurança desta nação não só é uma reviravolta na hierarquia dos valores como igualmente uma traição à república.
Os antigos, muito mais sábios, jamais se iludiram quanto a isso. Quando Catilina ousou arquitetar um golpe para tomar o poder em Roma, Cícero lhe desbaratou o intento. Da mesma forma, quando Pausânias quis se mancomunar com Xerxes, os lacedemônios, ao descobrirem seus planos, trataram de lhe infligir pena exemplar. Agora bem: imaginem se Cícero ou os éforos considerassem mais importante de combater o desvio de rendas públicas que a investigação de indícios de crimes contra a segurança de seus países! Pior: dentre dois crimes, desvio de dinheiro público e traição à pátria, eles considerassem mais terrível o primeiro e se omitissem completamente em relação ao segundo? É lógico que as suspeitas de traição recairiam tanto em Cícero quanto nos éforos, e quanto mais eles demonstrassem toda a indignação do mundo contra a corrupção, sempre às custas de investigações sobre possíveis perigos à segurança de seus respectivos países, maior seria o motivo de desconfiarmos de seus "zelosos" governos.
É neste caso que atualmente chegamos, aqui no Brasil: todas as evidências, muitas delas bem concretas, apontando atitudes no mínimo censuráveis deste governo e de muito grupos que o apóiam, são solenemente ignoradas. Por exemplo, muito mais grave que este atual caso foi a denúncia de que as FARCs também financiaram a campanha presidencial de Lula. No entanto, a reação geral foi de desprezo olímpico para com estas acusações. Por outro lado, a simples menção a um caso de desvio de verba pública causa tanto alvoroço que inclusive ouvi de um jornalista que "as bases da nação foram estremecidas"! Isto é o cúmulo da loucura, meus amigos!
Independente do resultado dessa tal CPI dos Correios, independente da investigação acerca das declarações deste deputado, enfim, qualquer que seja o resultado de tudo isso, o fato é que nossa república está se matando aos poucos. Aliás, cada vez mais rápido, e de tal maneira que pelo menos para mim é difícil imaginar de modo otimista como este país será daqui a vinte, trinta anos. É preciso ser muito ingênuo para crer que uma reviravolta de valores que tão cruelmente vai contaminando esta nação, e cujo sintoma podemos averiguar em discussões apaixonadas como nesta atual polêmica, seja por um passe de mágica ou mudança de governo curada. O problema não é o PT ou o MST, meus amigos. Eles são apenas um sintoma.
Sei bem que este início ficou um tanto obscuro ao leitor, mas já explico. Que você acha mais grave: um caso de corrupção entre deputados federais ou as (sórdidas) relações do líder de uma nação com grupos de terroristas, narcotraficantes, ditadores, etc? É mais grave um desvio de verbas públicas ou o financiamento para campanha presidencial cuja origem parece vir, dentre outras, de grupos de narcotraficantes? A segurança nacional está mais ameaçada graças a existência de um politicozinho corrupto ou mediante a articulação, neste próprio país, de um sem-número de grupos com o intuito de instaurar, da maneira mais discreta possível, uma revolução socialista?
Ora, demonstrar asco infinito a um caso de corrupção mas desprezar olimpicamente todas as evidências de ameaças à segurança desta nação não só é uma reviravolta na hierarquia dos valores como igualmente uma traição à república.
Os antigos, muito mais sábios, jamais se iludiram quanto a isso. Quando Catilina ousou arquitetar um golpe para tomar o poder em Roma, Cícero lhe desbaratou o intento. Da mesma forma, quando Pausânias quis se mancomunar com Xerxes, os lacedemônios, ao descobrirem seus planos, trataram de lhe infligir pena exemplar. Agora bem: imaginem se Cícero ou os éforos considerassem mais importante de combater o desvio de rendas públicas que a investigação de indícios de crimes contra a segurança de seus países! Pior: dentre dois crimes, desvio de dinheiro público e traição à pátria, eles considerassem mais terrível o primeiro e se omitissem completamente em relação ao segundo? É lógico que as suspeitas de traição recairiam tanto em Cícero quanto nos éforos, e quanto mais eles demonstrassem toda a indignação do mundo contra a corrupção, sempre às custas de investigações sobre possíveis perigos à segurança de seus respectivos países, maior seria o motivo de desconfiarmos de seus "zelosos" governos.
É neste caso que atualmente chegamos, aqui no Brasil: todas as evidências, muitas delas bem concretas, apontando atitudes no mínimo censuráveis deste governo e de muito grupos que o apóiam, são solenemente ignoradas. Por exemplo, muito mais grave que este atual caso foi a denúncia de que as FARCs também financiaram a campanha presidencial de Lula. No entanto, a reação geral foi de desprezo olímpico para com estas acusações. Por outro lado, a simples menção a um caso de desvio de verba pública causa tanto alvoroço que inclusive ouvi de um jornalista que "as bases da nação foram estremecidas"! Isto é o cúmulo da loucura, meus amigos!
Independente do resultado dessa tal CPI dos Correios, independente da investigação acerca das declarações deste deputado, enfim, qualquer que seja o resultado de tudo isso, o fato é que nossa república está se matando aos poucos. Aliás, cada vez mais rápido, e de tal maneira que pelo menos para mim é difícil imaginar de modo otimista como este país será daqui a vinte, trinta anos. É preciso ser muito ingênuo para crer que uma reviravolta de valores que tão cruelmente vai contaminando esta nação, e cujo sintoma podemos averiguar em discussões apaixonadas como nesta atual polêmica, seja por um passe de mágica ou mudança de governo curada. O problema não é o PT ou o MST, meus amigos. Eles são apenas um sintoma.
Monday, June 13, 2005
"Mesmo pequenas coisas podem nos encantar"
Domingo passado foi um dia muito feliz para mim, tanto que cheguei a pensar que valeria descrevê-lo passo a passo, além de um monte de impressões minhas a respeito. Mas pensei melhor e achei que não. Basta apenas mencioná-lo, deixando ao leitor apenas a sensação de um contentamento por este mundo, coisa que às vezes parece ser tão difícil.
Na verdade, acho que eu poderia resumir a minha impressão fundamental sobre aquele tão adorável dia pegando emprestado os primeiros dois versinhos de uma linda música de Hugo Wolf, de seu Italienisches Liederbuch (Livro de Poesias Italianas), chamada Auch kleine Dinge können uns entzücken, que poderia ter sido minha trilha sonora ontem:
Auch kleine Dinge können uns entzücken,
Auch kleine Dinge können teur sein.
Mesmo pequenas coisas podem nos encantar,
Mesmo pequenas coisas podem ser preciosas.
Amigo leitor, espero que isso não só te faça imaginar como foi, em suma, meu dia, como também te ajude a relembrar aqueles pequenos e ótimos momentos que você, com certeza, já experimentou e ficaram em sua memória, servindo como pequenos bálsamos em tua vida, de forma parecida com os últimos dois versinhos daquele poema:
Denkt an die Rose nur, wie Klein sie ist,
Und duftet doch so lieblich, wie ihr wisst.
Pense em uma rosa apenas, quão pequena ela é,
E todavia tão adoravelmente perfuma, como sabeis.
Na verdade, acho que eu poderia resumir a minha impressão fundamental sobre aquele tão adorável dia pegando emprestado os primeiros dois versinhos de uma linda música de Hugo Wolf, de seu Italienisches Liederbuch (Livro de Poesias Italianas), chamada Auch kleine Dinge können uns entzücken, que poderia ter sido minha trilha sonora ontem:
Auch kleine Dinge können uns entzücken,
Auch kleine Dinge können teur sein.
Mesmo pequenas coisas podem nos encantar,
Mesmo pequenas coisas podem ser preciosas.
Amigo leitor, espero que isso não só te faça imaginar como foi, em suma, meu dia, como também te ajude a relembrar aqueles pequenos e ótimos momentos que você, com certeza, já experimentou e ficaram em sua memória, servindo como pequenos bálsamos em tua vida, de forma parecida com os últimos dois versinhos daquele poema:
Denkt an die Rose nur, wie Klein sie ist,
Und duftet doch so lieblich, wie ihr wisst.
Pense em uma rosa apenas, quão pequena ela é,
E todavia tão adoravelmente perfuma, como sabeis.
Saturday, June 11, 2005
Dia musical
Pedro saiu pelas ruas, gritando fugas e andando em sonatas. Estava vestido de órgão e perambulava ora a francesa, ora em estilo alemão.
Embora o dia estivesse um tanto rondó, algumas mulheres valsavam em pianíssimo, de modo que quem as ouvia sentia em seu peito algum tipo de allegro. Foi por uma dessas que Pedro, em pizzicato, no mesmo compasso tratou logo de estabelecer uma harmonia mútua. E no final do dia, travaram um duo em crescendo, de modo que em outros dias houve bis.
Embora o dia estivesse um tanto rondó, algumas mulheres valsavam em pianíssimo, de modo que quem as ouvia sentia em seu peito algum tipo de allegro. Foi por uma dessas que Pedro, em pizzicato, no mesmo compasso tratou logo de estabelecer uma harmonia mútua. E no final do dia, travaram um duo em crescendo, de modo que em outros dias houve bis.
Wednesday, June 08, 2005
E o questionário da moda chegou aqui
Gustavo Nogy passou a bola para mim, num tom dos mais simpáticos. Embora eu agradeça seus elogios, meu senso do real me impede de concordar com o gentil amigo, pois confesso, não sem vergonha, que não há gente mais preguiçosa e confusa do que eu. Mas enfim, então vamos lá, respondendo estas perguntas engraçadas de português de Portugal, pois, pois:
1. Não podendo sair do "Fahrenheit 451", que livro quererias ser?
Para o livro que eu direi, na verdade eu não precisaria estar num ambiente tipo “Fahrenheit 451”: bastaria a Grécia Antiga, porque eu adoraria ser um rapsodo declamando, se não toda a “Ilíada”, pelo menos os cantos VI, XVI e XXIV, que são, respectivamente, o encontro de Heitor e Andrômaca, os feitos de Pátroclo e o resgate do corpo de Heitor. Eles não apenas são bonitos como estão permeados de versos muito sábios, que só não citarei por economia de espaço. Na verdade, a “Ilíada” inteira é recheada de ensinamentos. Também adoraria decorar o “Eclesiastes” e talvez todos os Salmos, embora fosse temerário demais me confiar a salvação de um livro qualquer graças a minha duvidosa capacidade de memorização...
2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Bem que eu gostaria de dizer, como Sto. Agostinho comentou em relação ao teatro, que é loucura padecer por personagens de ficção, mas... Bom, apanhado é coisa de boiola, mas perturbado já fiquei sim. Digamos que não foi lá muito prazeroso eu ter me identificado um pouco com Raskolnikov, tirando, pelo amor de deus, o fato dele ser um assassino. Outro que me deixou desconcertado foi Édipo, porque ele me é o exemplo mais radical e terrível do problema da ignorância de nós mesmos e das nossas circunstâncias, sem contar a questão complicada de se encarar, de fato, o sentido de nossas vidas, que pode muito bem ser tão tenebroso que muitos prefeririam ignorá-lo para sempre. Hamlet e Orestes, por outro lado, sempre me deixaram pensativo porque ambos foram obrigados a cumprir um fardo imposto por algum tipo de força sobrenatural temível, e para o qual eles mesmos tiveram de pagar as conseqüências, ainda que de maneiras distintas.
3. O último livro que compraste?
Andei comprando zilhões de livros no mês passado. Não, não sou endinheirado; encontrei vários quase de graça, outros nem tanto. Vou mencionar alguns, pois senão a lista vai aumentar que só: “A Psicologia da Fé”, do Pe. Leonel Franca; “Werther”, de Goethe; “Uma Nova História da Música”, de Carpeaux; “A Nova Ciência da Política”, de Eric Voegelin; “Convite à Estética”, de Mário Ferreira dos Santos; “Problèmes de L’Art Sacré” (vários autores); “Contes”, de Boccace; “Romans et Contes”, de Voltaire; “Maria Stuart”, de S. Zweig; “Pais e Filhos”, de Turgueniev...
4. Os últimos livros que leste?
Os últimos? Mas uai, os últimos quantos? Dez? Vinte? Bom, desde o fim do ano para cá foram os seguintes: “Werther”; “Protágoras” e “Fédon”, de Platão; “O Zero e o Infinito”, de Arthur Koestler (bom para quem tenha curiosidade em conhecer na prática a maravilhosa “filosofia” da “Pátria da Revolução”, máquina de criar seres bestiais); reli “Uma Nova História da Música” e o “Mênon”, este também de Platão.
5. Que livros estás a ler?
Sempre leio várias coisas ao mesmo tempo. É aquela questão do interesse pular de assunto em assunto a todo instante. Daí não ser muito raro eu parar uma leitura pelo meio, ou só ler alguns trechos. Geralmente escolho dois livros por dia para ler, mas de forma lenta, com algumas exceções. Assim tenho lido “Os Anos de Aprendizado de Wilhem Meister”, de Goethe; “Apologia de Sócrates”, de Platão; as deliciosas “Fábulas de Esopo” (primeira tradução em língua portuguesa da integral das fábulas de Esopo em edição bilíngüe, feita pelo prof. Manuel Aveleza, que leciona na UFRJ); “Parsifal”, de Wolfram von Eschenbach (ê nomezinho), que ainda não passei da página 36; “Cartas a sus Ahijados”, seleta de cartas de Léon Bloy para Jacques e Raïssa Maritain e Pieter e Cristina van der Meer de Walcheren (há algumas interessantes; fiquei com vontade de ler vários livros dele). No ônibus, tenho algumas leituras fixas: as “Orações”, de Cícero (da coleção “Clássicos Jackson"), a “Ilíada” ou a Bíblia. Estes três são a minha oração perpétua.
6. Que livros levarias para uma ilha deserta?
Que pergunta! Ora, além da literatura básica de sobrevivência numa ilha deserta e, conforme Chesterton lembrou, quando fizeram a mesma pergunta para ele, de um manual de construção de botes? Se eu fosse parar numa ilha deserta, acho que o que menos me preocuparia seriam os livros, pois haveria trabalhos até não mais poder. Mas enfim, supondo o ócio, de cara imagino cinco para a lista: em primeiro lugar, claro, a Bíblia. Em segundo, a “Metafísica” de Aristóteles. Em terceiro, o “Fédon”. Quarto, embora eu só tenha lido um trecho ou outro, a “Suma Teológica”, de Sto. Tomás de Aquino. Por último, e também embora eu só tenha lido trechos, o “Almagest”, de Ptolomeu, pois numa ilha deserta talvez eu teria tempo e paciência de conferir aqueles cálculos todos, ainda que fosse muitíssimo mais interessante conferir os movimentos do Céu num ambiente que não seja tão luminoso quanto onde moro.
7. Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Carlos Krämer, porque ele é uma das poucas pessoas sãs que fazem História na UFRJ; Cris Alcântara, pois ela tem um blog bem divertido e estou curioso em saber o que ela lê, além de ter um gato que é meu xará - motivo fundamental; Rosselline, já que está fazendo monografia em filosofia e pode dar umas boas dicas; Francisco Peçanha, que embora eu nem saiba se ele conhece este meu blog, é, das pessoas que conheço, uma das mais cultas e com certeza indicará um monte de livros importantes. Estes dois últimos não têm blogs, então eu ficaria muito agradecido se respondessem na caixa de comentários ou, melhor ainda, se criassem algum.
1. Não podendo sair do "Fahrenheit 451", que livro quererias ser?
Para o livro que eu direi, na verdade eu não precisaria estar num ambiente tipo “Fahrenheit 451”: bastaria a Grécia Antiga, porque eu adoraria ser um rapsodo declamando, se não toda a “Ilíada”, pelo menos os cantos VI, XVI e XXIV, que são, respectivamente, o encontro de Heitor e Andrômaca, os feitos de Pátroclo e o resgate do corpo de Heitor. Eles não apenas são bonitos como estão permeados de versos muito sábios, que só não citarei por economia de espaço. Na verdade, a “Ilíada” inteira é recheada de ensinamentos. Também adoraria decorar o “Eclesiastes” e talvez todos os Salmos, embora fosse temerário demais me confiar a salvação de um livro qualquer graças a minha duvidosa capacidade de memorização...
2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Bem que eu gostaria de dizer, como Sto. Agostinho comentou em relação ao teatro, que é loucura padecer por personagens de ficção, mas... Bom, apanhado é coisa de boiola, mas perturbado já fiquei sim. Digamos que não foi lá muito prazeroso eu ter me identificado um pouco com Raskolnikov, tirando, pelo amor de deus, o fato dele ser um assassino. Outro que me deixou desconcertado foi Édipo, porque ele me é o exemplo mais radical e terrível do problema da ignorância de nós mesmos e das nossas circunstâncias, sem contar a questão complicada de se encarar, de fato, o sentido de nossas vidas, que pode muito bem ser tão tenebroso que muitos prefeririam ignorá-lo para sempre. Hamlet e Orestes, por outro lado, sempre me deixaram pensativo porque ambos foram obrigados a cumprir um fardo imposto por algum tipo de força sobrenatural temível, e para o qual eles mesmos tiveram de pagar as conseqüências, ainda que de maneiras distintas.
3. O último livro que compraste?
Andei comprando zilhões de livros no mês passado. Não, não sou endinheirado; encontrei vários quase de graça, outros nem tanto. Vou mencionar alguns, pois senão a lista vai aumentar que só: “A Psicologia da Fé”, do Pe. Leonel Franca; “Werther”, de Goethe; “Uma Nova História da Música”, de Carpeaux; “A Nova Ciência da Política”, de Eric Voegelin; “Convite à Estética”, de Mário Ferreira dos Santos; “Problèmes de L’Art Sacré” (vários autores); “Contes”, de Boccace; “Romans et Contes”, de Voltaire; “Maria Stuart”, de S. Zweig; “Pais e Filhos”, de Turgueniev...
4. Os últimos livros que leste?
Os últimos? Mas uai, os últimos quantos? Dez? Vinte? Bom, desde o fim do ano para cá foram os seguintes: “Werther”; “Protágoras” e “Fédon”, de Platão; “O Zero e o Infinito”, de Arthur Koestler (bom para quem tenha curiosidade em conhecer na prática a maravilhosa “filosofia” da “Pátria da Revolução”, máquina de criar seres bestiais); reli “Uma Nova História da Música” e o “Mênon”, este também de Platão.
5. Que livros estás a ler?
Sempre leio várias coisas ao mesmo tempo. É aquela questão do interesse pular de assunto em assunto a todo instante. Daí não ser muito raro eu parar uma leitura pelo meio, ou só ler alguns trechos. Geralmente escolho dois livros por dia para ler, mas de forma lenta, com algumas exceções. Assim tenho lido “Os Anos de Aprendizado de Wilhem Meister”, de Goethe; “Apologia de Sócrates”, de Platão; as deliciosas “Fábulas de Esopo” (primeira tradução em língua portuguesa da integral das fábulas de Esopo em edição bilíngüe, feita pelo prof. Manuel Aveleza, que leciona na UFRJ); “Parsifal”, de Wolfram von Eschenbach (ê nomezinho), que ainda não passei da página 36; “Cartas a sus Ahijados”, seleta de cartas de Léon Bloy para Jacques e Raïssa Maritain e Pieter e Cristina van der Meer de Walcheren (há algumas interessantes; fiquei com vontade de ler vários livros dele). No ônibus, tenho algumas leituras fixas: as “Orações”, de Cícero (da coleção “Clássicos Jackson"), a “Ilíada” ou a Bíblia. Estes três são a minha oração perpétua.
6. Que livros levarias para uma ilha deserta?
Que pergunta! Ora, além da literatura básica de sobrevivência numa ilha deserta e, conforme Chesterton lembrou, quando fizeram a mesma pergunta para ele, de um manual de construção de botes? Se eu fosse parar numa ilha deserta, acho que o que menos me preocuparia seriam os livros, pois haveria trabalhos até não mais poder. Mas enfim, supondo o ócio, de cara imagino cinco para a lista: em primeiro lugar, claro, a Bíblia. Em segundo, a “Metafísica” de Aristóteles. Em terceiro, o “Fédon”. Quarto, embora eu só tenha lido um trecho ou outro, a “Suma Teológica”, de Sto. Tomás de Aquino. Por último, e também embora eu só tenha lido trechos, o “Almagest”, de Ptolomeu, pois numa ilha deserta talvez eu teria tempo e paciência de conferir aqueles cálculos todos, ainda que fosse muitíssimo mais interessante conferir os movimentos do Céu num ambiente que não seja tão luminoso quanto onde moro.
7. Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Carlos Krämer, porque ele é uma das poucas pessoas sãs que fazem História na UFRJ; Cris Alcântara, pois ela tem um blog bem divertido e estou curioso em saber o que ela lê, além de ter um gato que é meu xará - motivo fundamental; Rosselline, já que está fazendo monografia em filosofia e pode dar umas boas dicas; Francisco Peçanha, que embora eu nem saiba se ele conhece este meu blog, é, das pessoas que conheço, uma das mais cultas e com certeza indicará um monte de livros importantes. Estes dois últimos não têm blogs, então eu ficaria muito agradecido se respondessem na caixa de comentários ou, melhor ainda, se criassem algum.
Thursday, June 02, 2005
Definição do Movimeno Gay, Negro, Indígena e de outros semelhantes
A palavra é: ressentimento. E Nieztsche que dizia que o Cristianismo era coisa de povinho ressentido...
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