O problema mais grave de um filme como o “Inteligência Artificial” é o que chamo de “complexo de inho”. É um robozinho que tem aparência de menininho e que é adotado por um casalzinho, cujo filhinho está gravemente incapacitado. Ah: existe ainda um ursinho que vive atrás do robozinho. Isso sem contar em como este sujeitinho é enjoadinho. Confesso que se eu comprasse um robô assim, depois das primeiras três horas me seria difícil resistir à tentação de jogá-lo fora ou pelo menos devolvê-lo. Haja paciência...
Esses inhos têm seu motivo, e não é nada relacionado propriamente ao filme, mas a quem o vê. Porque das várias maneiras de cativar um espectador, uma das mais fáceis é a apelação aos sentimentalismos(inhos). Quem não fica emocionado vendo a história de um garotinho – ainda que seja um robozinho – que acaba sendo largado às próprias custas pela mamãezinha que ele tanto ama, esta uma mulherzinha muito carente, coitada? Quem resiste às desventuras do garotinho, acompanhado pelo seu ursinho e por um robô-prostituto bonzinho? E a beleza das cores do filme, com aquela cidade toda de néon à noite? Ora, se mulher pelada é para quem tem o sangue fervendo, e a violência gratuita é para quem for desprovido de sentimentos, o “complexo do inho” é a maneira de cativar quem tem coração mole ou está cansado das outras duas maneiras de apelação.
O pior de tudo é que o argumento do filme é muito bom. Vejam só quantas questões sobre o fato de uma empresa resolver produzir andróides com o intuito de serem substitutos de crianças para pais que, por diversos motivos, não podem tê-las, não surgem! É um tema sério e tenebroso por natureza. Todo mundo pode adivinhar que as conseqüências de algo assim não serão nenhuma beleza, e o próprio filme o comprova. Aliás, o pior de tudo é que o diretor não é nenhum incompetente. Nos lampejos sem apelação, ele mostra todo o seu potencial. Aquela cena mais para o fim, onde o garotinho vê uma série de cópias de si mesmo na empresa que o fabricou, por exemplo, é quase digna de redimir o filme. Ou aquela onde vários robôs buscam, no meio da sucata, alguma coisa que lhes sirva, inevitavelmente nos demonstra a gravidade do problema. Ou mesmo aquela cena onde o garotinho é abandonado pela mãe, que comove seriamente - a despeito de algum exagero por parte dos atores ou da trilha sonora, não me lembro direito. No entanto, Spielberg joga tudo fora quando quer porque quer meter um bando de ETs a fim de dar um final feliz, mesmo às custas da nossa paciência. Se o leitor prestar atenção no desenrolar do filme, verá que não há alternativa alguma para que ele termine bem. Tudo conspira contra aquele garotinho infeliz, o que de certa maneira, dentro daquele enredo, faz sentido, ou seja, faz bem. Então qual foi a única maneira de não deixar o público chateadinho? Foi inventar aquele esdrúxulo expediente dos ETs, quando era para o filme terminar, com todas aquelas explicações chatas. Seria menos pior se o próprio Jesus Cristo transformasse o garotinho num moleque de verdade.
Kubrick participou da elaboração do argumento daquele filme. Ora, pergunto ao leitor: se fosse ele o diretor em lugar do Spielberg, você poderia imaginar todos esses inhos? Respondo por ti: não! Ainda que o filmasse como uma fábula, provavelmente seria de propósito canhestra, afinal de contas, dadas as circunstâncias em que se passa o filme, a redenção do robozinho em gente de carne e osso não responderia a questão: e quanto aos outros milhares que surgiriam? E o problema da criação deles? É por causa de problemas assim que fica difícil comparar o “Inteligência Artificial” com Pinóquio: ambos se passam em circunstâncias muito diversas. Gepeto não criava simulacros de crianças. E sua sociedade nem podia imaginar um tráfico de bonecos ou um mal-estar de algumas pessoas diante de andróides (ou bonecos, que seja).
Por fim, toda a fábula possui um vilão. Pergunto: quem é o sujeito malvado da hitória? O caçador de robôs? Não, ele é, digamos assim, "politicamente correto", afinal tem muita preocupação em não pegar uma pessoa por engano. Os motoqueiros? Não, aparecem muito rápido. O público que quer ver os andróides serem destruídos? Mas não, diacho!, a gente compreende perfeitamente a posição deles. O único vilão que concebo é o menininho que foi causa da expulsão do andróide. Convenhamos que um vilãozinho desses não dá para o gasto...
Embora eu tenha criticado tão asperamente “Inteligência Artificial”, ele não é uma porcaria. Como eu disse antes, há cenas realmente belas, fora toda aquela potencialidade do roteiro. Mas bateu na trave, e por culpa consciente do diretor, fazer o quê?
Enfim, se eu tiver que recomendar esse filme a um público específico, recomendo aos de coração mole, que acham que tudo tem de ser muito bonitinho e fofo, independente do conteúdo infantilizante com que se depararem, e todo o gênero de pessoas impressionáveis. Pelo mesmo motivo recomendo a quem está habituado a assistir porcarias como “Cidade de Deus” e adjacências, porque pelo menos um filme como “Inteligência Artificial” pode servir como inspiração a conversas mais sérias e elevadas, o que não é o caso daquele troço horroroso.
Sunday, April 10, 2005
Thursday, April 07, 2005
Uma bela recordação de João Paulo II
"Você tem que regularizar teus assuntos com a Igreja!", dizia asperamente João Paulo II a Ernesto Cardenal, na época ministro do governo revolucionário da Nicarágua e ao mesmo tempo sacerdote.
Vi a admoestação do papa faz poucos anos num programa. Lembro-me apenas desta parte: o papa no aeroporto apontando sucessivamente o dedo bem no rosto do Cardenal (repararam como ele lembra o Leonardo Boff?) e dizendo algo, zangado. Cardenal nem se mexeu.
Acho que não é possível que nenhuma pessoa razoável tenha percebido a própria mão do Espírito Santo naquela ocasião. Aquele feito, aparentemente tão simples, apresentava-se com um contorno heróico e acabou por ser memorável. Afinal de contas, não era isto que todos esperavam que acontecesse com todo o clérigo que namorasse o marxismo?
Não estou apto para dizer algo sobre o pontificado de João Paulo II, afinal de contas não tenho a menor obrigação ou competência para comentá-lo, ainda que seja a respeito do tão divulgado beijo que o papa deu no Corão, seja ainda sobre a excomunhão de Dom Lefebvre. Porém aquela foto, além daquele vídeo que assisti, estarão para sempre na minha memória.
Wednesday, April 06, 2005
Ao invés de Catilina, José Dirceu
Eis que, pela estranha imaginação do escritor destas linhas, Cícero (sim, Marco Túlio Cícero, o eminente romano) é transportado para a atualidade deste nosso belíssimo país. Ora, que seria de nós se aquele homem, vivendo bem nestas plagas, descobrisse as sórdidas ligações entre o PT, as FARCs e outros grupos terroristas, que teriam como fim a revolução, não apenas no Brasil senão em toda a América Latina e quiçá no resto do mundo? Então, em sessão do senado, Cícero entraria e, encontrando José Dirceu, eis que, com postura altiva, pediria a palavra e, olhando bem nos olhos de Dirceu, em tom grave dispararia no plenário:
Até quando, José Dirceu, abusarás de nossa paciência? quanto zombará de nós ainda esse teu atrevimento? onde vai dar consigo tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te façam nem as sentinelas noturnas de Brasília, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bons, nem este seguríssimo lugar do Senado, nem a presença e semblante dos que aqui estão? Não pressentes manifestos teus conselhos? não vês a todos estes inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resolução tomaste? Oh tempos! oh costumes! percebe estas coisas o Senado, o presidente as vê, e ainda assim vive semelhante homem! Que digo, vive? antes vem ao Senado, é participante do conselho público, assinala e designa com os olhos, para a morte, a cada um de nós. E nós, homens de valor, nos parece ter satisfeito à República, evitando as suas armas e insolência! Muito tempo há, José Dirceu, que tu devias ser preso por ordem dos supremos magistrados, e cair sobre ti a ruína que há tanto tempo maquinas contra todos nós. Porventura, na antiga Roma, o insigne P. Cipião, Pontífice Máximo, não matou a Tibério Graco, por deteriorar um pouco o estado de sua república? e nós havemos de sofrer a José Dirceu, que com acordos escusos com as FARCs e outros terroristas quer assolar nosso país e a América Latina? Passo em silêncio aqueles antiqüíssimos exemplos, de quando, também em Roma, C. Servílio Ahala matou com suas próprias mãos a Spúrio Mélio, que procurava introduzir novidades. Houve antigamente na história dos nossos antepassados esta fortaleza, de reprimirem homens de valor com mais severos castigos ao cidadão pernicioso que ao cruelíssimo inimigo. Temos pois já contra ti, José Dirceu, decreto veemente e severo; não falta conselho à República do Brasil; nós, abertamente o digo, nós somos os que faltamos.
O discurso não pararia por aí, mas sim a minha imaginação. Basta o leitor ler a Primeira Oração de Cícero contra L. Catilina, tendo a boa vontade de fazer as devidas adaptações para o nosso contexto. Pena que isso ficará apenas no mundo das idéias. E até, boa noite.
Até quando, José Dirceu, abusarás de nossa paciência? quanto zombará de nós ainda esse teu atrevimento? onde vai dar consigo tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te façam nem as sentinelas noturnas de Brasília, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bons, nem este seguríssimo lugar do Senado, nem a presença e semblante dos que aqui estão? Não pressentes manifestos teus conselhos? não vês a todos estes inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resolução tomaste? Oh tempos! oh costumes! percebe estas coisas o Senado, o presidente as vê, e ainda assim vive semelhante homem! Que digo, vive? antes vem ao Senado, é participante do conselho público, assinala e designa com os olhos, para a morte, a cada um de nós. E nós, homens de valor, nos parece ter satisfeito à República, evitando as suas armas e insolência! Muito tempo há, José Dirceu, que tu devias ser preso por ordem dos supremos magistrados, e cair sobre ti a ruína que há tanto tempo maquinas contra todos nós. Porventura, na antiga Roma, o insigne P. Cipião, Pontífice Máximo, não matou a Tibério Graco, por deteriorar um pouco o estado de sua república? e nós havemos de sofrer a José Dirceu, que com acordos escusos com as FARCs e outros terroristas quer assolar nosso país e a América Latina? Passo em silêncio aqueles antiqüíssimos exemplos, de quando, também em Roma, C. Servílio Ahala matou com suas próprias mãos a Spúrio Mélio, que procurava introduzir novidades. Houve antigamente na história dos nossos antepassados esta fortaleza, de reprimirem homens de valor com mais severos castigos ao cidadão pernicioso que ao cruelíssimo inimigo. Temos pois já contra ti, José Dirceu, decreto veemente e severo; não falta conselho à República do Brasil; nós, abertamente o digo, nós somos os que faltamos.
O discurso não pararia por aí, mas sim a minha imaginação. Basta o leitor ler a Primeira Oração de Cícero contra L. Catilina, tendo a boa vontade de fazer as devidas adaptações para o nosso contexto. Pena que isso ficará apenas no mundo das idéias. E até, boa noite.
Sunday, April 03, 2005
Duas recomendações musicais da semana
Recomendo espalhafatosamente a Fantasia e fuga em lá menor do velho da peruca. Esta música de 1720 para órgão não é apenas boa: é de outro mundo. Somente as modulações iniciais já dão uma idéia de sua beleza. Infelizmente estas pobres palavras não se servem para explicar sua qualidade. Aliás, que palavras servem para esgotar qualquer música? Então que o leitor corra e a ouça o mais rápido possível.
Outra recomendação para esta semana, em homenagem ao papa João Paulo II, é a Missa Papae Marcelli, de Giovanni Pierluigi da Palestrina. Esta música, de 1567 e para coro a capela, é de outro mundo, mas por motivo diferente da de Bach: é suave, toda declamada, própria dentro de uma igreja, sendo aqui fora algo meio esquisito, deslocado. Não acho, porém, que seja uma blasfêmia escutá-la na comodidade do lar; é como se o ouvinte fosse transportado para uma catedral. Aliás, reza a lenda que, em vésperas da música polifônica ser abolida no Concílio de Trento, a fim de apenas ser permitido o coral gregoriano, os prelados, tomando conhecimento desta obra, mudaram de idéia. Por que a proibiriam? Porque, segundo eles, não era possível compreender o que era cantado, tal era a complexidade da música polifônica, composta por mestres flamengos, na época. O texto era apenas um pequeno suporte para suas músicas, sem contar o grande número de textos profanos com que trabalhavam. Palestrina simplificou a polifonia, tornando a letra compreensível. Não esqueça o leitor que tudo isso acontecia no ambiente da Contra-Reforma.
Bom, em todo o caso, aqui fica a sugestão. Se o leitor quiser uma dica, faça como eu: busque pelo Soulseek, um desses programas que compartilham arquivos entre os usuários online. Foi assim que encontrei essas duas músicas.
Outra recomendação para esta semana, em homenagem ao papa João Paulo II, é a Missa Papae Marcelli, de Giovanni Pierluigi da Palestrina. Esta música, de 1567 e para coro a capela, é de outro mundo, mas por motivo diferente da de Bach: é suave, toda declamada, própria dentro de uma igreja, sendo aqui fora algo meio esquisito, deslocado. Não acho, porém, que seja uma blasfêmia escutá-la na comodidade do lar; é como se o ouvinte fosse transportado para uma catedral. Aliás, reza a lenda que, em vésperas da música polifônica ser abolida no Concílio de Trento, a fim de apenas ser permitido o coral gregoriano, os prelados, tomando conhecimento desta obra, mudaram de idéia. Por que a proibiriam? Porque, segundo eles, não era possível compreender o que era cantado, tal era a complexidade da música polifônica, composta por mestres flamengos, na época. O texto era apenas um pequeno suporte para suas músicas, sem contar o grande número de textos profanos com que trabalhavam. Palestrina simplificou a polifonia, tornando a letra compreensível. Não esqueça o leitor que tudo isso acontecia no ambiente da Contra-Reforma.
Bom, em todo o caso, aqui fica a sugestão. Se o leitor quiser uma dica, faça como eu: busque pelo Soulseek, um desses programas que compartilham arquivos entre os usuários online. Foi assim que encontrei essas duas músicas.
Thursday, March 31, 2005
Nove excelentíssimas desculpas para se dar um murro na cara de alguém, segundo as ilustres maneiras de pensar e raciocinar de sábios contemporâneos
1)Eu te dei um murro na cara porque Deus não existe; logo, tudo é permitido;
2)Eu te dei murro na cara porque a verdade não existe; logo, você não pode afirmar que te bati;
3)Eu te dei um murro na cara porque não existe causa; logo, não posso ter te batido porque dizer o que fiz é se reportar a alguma espécie de causa;
4)Eu te dei um murro na cara porque tudo é relativo; logo, você ter apanhado ou não depende de um ponto de vista;
5)Eu te dei um murro na cara porque a moral é pura conveniência; logo, naquele instante o murro foi conveniente;
6)Eu te dei um murro na cara porque nada deve ser levado a sério; logo, foi só por uma descontração;
7)Eu te dei um murro na cara porque tudo é obra do acaso; logo, não foi minha culpa, mas dos azares da existência;
8)Eu te dei um murro na cara porque o homem é fundamentalmente átomos; logo, foi apenas um contato arbitrário de partículas atômicas por si mesmas, sem nenhuma destruição ou alteração mútua;
9)Eu te dei um murro na cara porque a vida se resume em uma luta constante pela evolução e sobrevivência; logo, pela seleção natural você é mais fraco e precisa, pelo bem comum, cair fora.
2)Eu te dei murro na cara porque a verdade não existe; logo, você não pode afirmar que te bati;
3)Eu te dei um murro na cara porque não existe causa; logo, não posso ter te batido porque dizer o que fiz é se reportar a alguma espécie de causa;
4)Eu te dei um murro na cara porque tudo é relativo; logo, você ter apanhado ou não depende de um ponto de vista;
5)Eu te dei um murro na cara porque a moral é pura conveniência; logo, naquele instante o murro foi conveniente;
6)Eu te dei um murro na cara porque nada deve ser levado a sério; logo, foi só por uma descontração;
7)Eu te dei um murro na cara porque tudo é obra do acaso; logo, não foi minha culpa, mas dos azares da existência;
8)Eu te dei um murro na cara porque o homem é fundamentalmente átomos; logo, foi apenas um contato arbitrário de partículas atômicas por si mesmas, sem nenhuma destruição ou alteração mútua;
9)Eu te dei um murro na cara porque a vida se resume em uma luta constante pela evolução e sobrevivência; logo, pela seleção natural você é mais fraco e precisa, pelo bem comum, cair fora.
Wednesday, March 30, 2005
Um pequeno reparo ao texto sobre o caso Schiavo
Desculpe, leitor, mas preciso fazer um pequeno reparo ao texto do caso Shiavo. Eu disse que o pai de família nas tribos germânicas tinha o direito de vida e morte sobre sua mulher, escravos e filhos. Escrevi uma tolice, fazendo uma confusão dos diabos. Na verdade, quem tinha o direito de vida e morte sobre seus filhos era o pater familias. Um romano podia abandonar à própria sorte uma criança, o que equivale dizer que assinava sua sentença de morte. Nas tribos germânicas, muito embora não fosse permitido o infanticídio, ainda assim o pai podia abandoná-la. Ela, então, ficava sob a tutela dos parentes maternos.
Tal era a sorte dos mais fracos nas sociedades de onde surgiu a Idade Média. Somente na era medieval a situação dos pequenos mudou drasticamente, tudo graças ao empenho da Igreja.
Será que a nossa atual situação com relação às crianças é mais um indício do abandono do cristianismo por boa parte do mundo? É um retorno às práticas romanas e germânicas com relação à sorte das crianças? Não sei, mas toda essa história é muito sugestiva.
Tal era a sorte dos mais fracos nas sociedades de onde surgiu a Idade Média. Somente na era medieval a situação dos pequenos mudou drasticamente, tudo graças ao empenho da Igreja.
Será que a nossa atual situação com relação às crianças é mais um indício do abandono do cristianismo por boa parte do mundo? É um retorno às práticas romanas e germânicas com relação à sorte das crianças? Não sei, mas toda essa história é muito sugestiva.
Sunday, March 27, 2005
Tolkien
Tolkien wrote in a 1953 letter to Fr. Robert Murray: "'The Lord of the Rings' is of course a fundamentally religious and Catholic work; unconsciously so at first, but consciously in the revision."
(Trecho de Don Feder que li aqui. Aliás, não sei se é mais legal a referência que ele fez sobre orcs (rather a cross between a troll with a really bad hair day and Barbra Streisand) ou a do Alexandre Soares.)
Oh sim, e adorei o Senhor dos Anéis, livro e filme, mais este que aquele. Bom dia.
(Trecho de Don Feder que li aqui. Aliás, não sei se é mais legal a referência que ele fez sobre orcs (rather a cross between a troll with a really bad hair day and Barbra Streisand) ou a do Alexandre Soares.)
Oh sim, e adorei o Senhor dos Anéis, livro e filme, mais este que aquele. Bom dia.
Mais dois blogs no "Parada Obrigatória"
Acrescentei no Parada Obrigatória dois blogs muitos bons, o do Nogy e o Despoina Damale. Farei um comentário rapidíssimo sobre ambos.
No Despoina Damale li que na tradução de Nenhuma Paixão Desperdiçada, de George Steiner, disseram que "Agostinho, em uma passagem famosa, registra o fato de seu patrão, Amboise, ser o primeiro homem que ele via ler sem mover os lábios". Animus meminisse horret, já pôs na boca de Enéias Virgílio na Eneida, e faço coro com ele quanto a esta tradução tenebrosa. Mesmo se o leitor nunca tiver lido o original, o bom-senso serve como guia. Coincidência ou não, esta semana mesmo - ou semana passada, não lembro -, eu estava comentando para minha mãe sobre esta mesmíssima passagem das Confissões. Se Sto. Ambrósio era patrão de Sto. Agostinho, e a julgar que este aderiu de vez ao cristianismo graças àquele, então que maravilhoso salário Sto. Agostinho recebeu daquele homem! Noutro post, foi particularmente delicioso saber, tão bom quanto receber uma flechada no ombro, que tem gente, em universidades, que acha que a música clássica é um "maldoso passatempo dos compositores daquele tipo de música para confundir a cabeça dos não informados sobre o assunto". Imaginem a cara indignada dos doutores que disseram isso caso estivessem ouvido, como eu cá estou agora, o último quarteto de cordas de Beethoven, composto quando ele estava completamente surdo. Uma belêuza, craro.
O blog, como o próprio autor diz, é seu "particular oasis, mas está aberto aos companheiros de viagem". Ainda estou fuçando seus vastos arquivos e já deu para encontrar muita coisa boa.
Por fim, quanto ao Nogy, ora, leiam tudo: há por enquanto apenas alguns post, mas todos ótimos. Pior que ele escreve direito sobre algumas coisas que eu esboço terrivelmente mal na minha cachola confusa, como por exemplo Da Virtude como Cosa Mentale
, ou Tempos Modernos, que chama bastante atenção: frases curtas e incisivas, demonstrando o código de conduta que o policamente correto quer de nós, revelam quão patético e aviltante ele é para uma pessoa. No entanto, conforme a primeira frase do texto, "não se fazem homens como antigamente". É então uma mistura de indignação e melancolia com esta situação. É bem provável que muita gente (e eu incluso), que apenas vagamente já pensou no assunto, acabe por se identificar com ele. Vale a pena lê-lo.
No Despoina Damale li que na tradução de Nenhuma Paixão Desperdiçada, de George Steiner, disseram que "Agostinho, em uma passagem famosa, registra o fato de seu patrão, Amboise, ser o primeiro homem que ele via ler sem mover os lábios". Animus meminisse horret, já pôs na boca de Enéias Virgílio na Eneida, e faço coro com ele quanto a esta tradução tenebrosa. Mesmo se o leitor nunca tiver lido o original, o bom-senso serve como guia. Coincidência ou não, esta semana mesmo - ou semana passada, não lembro -, eu estava comentando para minha mãe sobre esta mesmíssima passagem das Confissões. Se Sto. Ambrósio era patrão de Sto. Agostinho, e a julgar que este aderiu de vez ao cristianismo graças àquele, então que maravilhoso salário Sto. Agostinho recebeu daquele homem! Noutro post, foi particularmente delicioso saber, tão bom quanto receber uma flechada no ombro, que tem gente, em universidades, que acha que a música clássica é um "maldoso passatempo dos compositores daquele tipo de música para confundir a cabeça dos não informados sobre o assunto". Imaginem a cara indignada dos doutores que disseram isso caso estivessem ouvido, como eu cá estou agora, o último quarteto de cordas de Beethoven, composto quando ele estava completamente surdo. Uma belêuza, craro.
O blog, como o próprio autor diz, é seu "particular oasis, mas está aberto aos companheiros de viagem". Ainda estou fuçando seus vastos arquivos e já deu para encontrar muita coisa boa.
Por fim, quanto ao Nogy, ora, leiam tudo: há por enquanto apenas alguns post, mas todos ótimos. Pior que ele escreve direito sobre algumas coisas que eu esboço terrivelmente mal na minha cachola confusa, como por exemplo Da Virtude como Cosa Mentale
, ou Tempos Modernos, que chama bastante atenção: frases curtas e incisivas, demonstrando o código de conduta que o policamente correto quer de nós, revelam quão patético e aviltante ele é para uma pessoa. No entanto, conforme a primeira frase do texto, "não se fazem homens como antigamente". É então uma mistura de indignação e melancolia com esta situação. É bem provável que muita gente (e eu incluso), que apenas vagamente já pensou no assunto, acabe por se identificar com ele. Vale a pena lê-lo.
Schiavo
Uma coisa que não entendo nesse caso, além deste nome esquisito, o qual nem sei nem quero saber se escrevi da maneira correta, é o seguinte: se a família quer religar o aparelho - exceto o marido, pelo que entendi -, por que diabos a última palavra é do Estado? Está na lei? Se está, que mudem, porque é algo particularmente extravagante.
Acho que antigamente a coisa seria resolvida mais ou menos assim: o ancião da família daria o veredicto, permanecendo quedos os outros membros da família, ou pelo menos o peso de sua palavra seria fundamental. Hoje em dia não é desse jeito. Uma pena. Se bem que já ouvi dizer que o marido tinha direito de vida e morte, nas tribos germâncias, sobre mulheres, filhos e escravos. Para os filhos entendo em parte, pois deve ser uma idéia como "se te pus no mundo, então posso te tirar também". Quanto à mulher já não sei. Deve ser algo do tipo "melhor só que mal acompanhado", em palavras variadas há milênios germânicos atrás. E em relação ao escravo, ora, quem liga? Afinal de contas, quem mandou ser bobo a ponto de se tornar propriedade?
Voltando ao caso Schiavo, não deixa de ser interessante notar que, para justificarem o assassinato da mulher, dizem que é para terminar de uma vez por todas um sofrimento inútil. No entanto, pelo pouco que acompanhei o assunto, parece que ela mal fala ou se mexe. Então como diabos acham que ela está sofrendo? Noto que um leitor está pensando que pelo menos ele não acharia lá muito agradável passar uns dez anos sem poder falar ou se mexer direito. Ora, isso não implica que qualquer um acharia melhor morrer, ou esteja sofrendo horrores. Mas talvez eu esteja mal informado e ela esteja mesmo sofrendo horrores e pediu para alguém dar um fim àquela situação. Escolheram desligar o tubo de alimentação para que morresse então logo. Então a pergunta é: quer dizer que matá-la aos poucos, de fome e sede, não a fará sofrer? Nesse caso, acho que ninguém precisa esperar a coitada proferir uma única palavrinha para imaginar o quão ruim seja passar por isso. Além do mais, parece que ninguém quer sujar as próprias mão, porém deixá-la a cargo tão-só de seu parco sustento. Já que morreria sem os aparelhos, então desligam tudo. Eu estou muito curioso para ver os médicos usando este argumento, de agora em diante, nos hospitais. Exemplo:
- Desculpe, rapariga - diz o médico todo sem-graça para a filha de uma paciente -, infelizmente não podemos usar nossa máquina de hemodiálise em tua mãezinha.
- Por quê, doutor?
- Porque a partir de abril de 2005 seguiremos o princípio de não sustentar alguém que sem máquinas morreria de qualquer jeito, e tua mãezinha, embora seja uma gordinha muito simpática, já tem 89 anos e está bem inútil socialmente, coitada. Mas por humanidade eu recomendo o telefone desta funerária aqui, ó.
Suponho ser desnecessário afirmar que Hipócrates sairia do Purgatório a mando de Deus apenas para refutar esses médicos, além de bater neles com um cajado e retornar desta ver para o Céu cumprida a missão. Mas consideremos que, por humanidade, matassem a pobre coitada de uma vez. Com um tiro, por exemplo, afinal de contas que diferença faz o meio aplicado, senão de um lado a cara de nojo do sujeitinho que terá em si miolos, do outro a limpeza da morte burocrática sob encomenda estatal? Pois bem, um tiro. Ainda assim a decisão é errada, pois quem disse que depois de morta a mulher não vai sofrer mais ainda? Afinal de contas ninguém sabe quê diabos acontece depois que alguém morre. Ok, só o Estado sabe (e Platão e mais algumas pessoas, só que já morreram e aparentemente não voltaram para nos contar), segundo alguns. Como por enquanto ele não tem boca para nos dizer como é o outro lado, então é melhor deixá-la viva mesmo. Fora que há o argumento da era pré-cambriana, segundo o qual ninguém tem o direito de matar ninguém. Mas prefiro o argumento mais recente.
O que ficou faltando ainda? Ah sim, a possibilidade da mulher se recuperar. Responda-me rápido, leitor: faça que nem o dr. Manhattan e pense na possibilidade de você ter nascido onde nasceu, ter tido os pais que teve e ser quem você é, sem contar outras circunstâncias. Se for mais provável a mulher sair do coma que tudo isso ter acontecido como aconteceu contigo, leitor, então faz menos sentido você estar vivo e lendo meu texto que esperarmos pela recuperação - coisa mais provável, nesta hipótese - da mulher. Se você não gostou deste argumento, tenho um outro saído do forno: é possível que ela melhore? Se for, então onde está mesmo o motivo para assassiná-la? É aquele ali que está na lata do lixo? Ah, bom lugar: a justiça é tudo estar disposto segundo seu fim próprio. E se não for? Ora, leia o parágrafo acima e tudo estará devidamente explicado.
Não sei se ficou faltando alguma coisa para eu completar meu questionamento acerca deste caso - e de outros parecidos, que ocorrerão; já me sinto satisfeito com o que eu disse. Quer dizer, faltou apenas dizer que, do ponto de vista legal, deve ser um evento sobrenatural discutir a respeito do direito de alguém se suicidar ou de um indivíduo matar outro desde que em conivência com a vítima, que nesse caso é também co-autora de seu próprio assassinato. Algo que nem Cícero poderia resolver...
Agora posso parar de escrever e fazer outra coisa, até porque nem era sobre isso que inicialmente eu queria comentar. Na verdade, primeiro eu queria perguntar se há algum leitor deste blog que leve muito à sério Darwin, no sentido de costumeiramente, ao se referir à história natural, sempre começar dizendo, num tom grave, "segundo a evolução..." e coisas análogas. Em seguida, eu gostaria de perguntar para este hipotético leitor darwinista se ele poderia me explicar pela evolução como é que surgiu a visão e a audição, de preferência através de escritos do próprio Darwin sobre o assunto, e não através daqueles "olha, eu chutaria que...", pois são muito desagradáveis. Se uma teoria explicativa finge que não vê algum dado da realidade, então ela tem de ser (re)vista com mais cuidado, sabem como é...
Acho que antigamente a coisa seria resolvida mais ou menos assim: o ancião da família daria o veredicto, permanecendo quedos os outros membros da família, ou pelo menos o peso de sua palavra seria fundamental. Hoje em dia não é desse jeito. Uma pena. Se bem que já ouvi dizer que o marido tinha direito de vida e morte, nas tribos germâncias, sobre mulheres, filhos e escravos. Para os filhos entendo em parte, pois deve ser uma idéia como "se te pus no mundo, então posso te tirar também". Quanto à mulher já não sei. Deve ser algo do tipo "melhor só que mal acompanhado", em palavras variadas há milênios germânicos atrás. E em relação ao escravo, ora, quem liga? Afinal de contas, quem mandou ser bobo a ponto de se tornar propriedade?
Voltando ao caso Schiavo, não deixa de ser interessante notar que, para justificarem o assassinato da mulher, dizem que é para terminar de uma vez por todas um sofrimento inútil. No entanto, pelo pouco que acompanhei o assunto, parece que ela mal fala ou se mexe. Então como diabos acham que ela está sofrendo? Noto que um leitor está pensando que pelo menos ele não acharia lá muito agradável passar uns dez anos sem poder falar ou se mexer direito. Ora, isso não implica que qualquer um acharia melhor morrer, ou esteja sofrendo horrores. Mas talvez eu esteja mal informado e ela esteja mesmo sofrendo horrores e pediu para alguém dar um fim àquela situação. Escolheram desligar o tubo de alimentação para que morresse então logo. Então a pergunta é: quer dizer que matá-la aos poucos, de fome e sede, não a fará sofrer? Nesse caso, acho que ninguém precisa esperar a coitada proferir uma única palavrinha para imaginar o quão ruim seja passar por isso. Além do mais, parece que ninguém quer sujar as próprias mão, porém deixá-la a cargo tão-só de seu parco sustento. Já que morreria sem os aparelhos, então desligam tudo. Eu estou muito curioso para ver os médicos usando este argumento, de agora em diante, nos hospitais. Exemplo:
- Desculpe, rapariga - diz o médico todo sem-graça para a filha de uma paciente -, infelizmente não podemos usar nossa máquina de hemodiálise em tua mãezinha.
- Por quê, doutor?
- Porque a partir de abril de 2005 seguiremos o princípio de não sustentar alguém que sem máquinas morreria de qualquer jeito, e tua mãezinha, embora seja uma gordinha muito simpática, já tem 89 anos e está bem inútil socialmente, coitada. Mas por humanidade eu recomendo o telefone desta funerária aqui, ó.
Suponho ser desnecessário afirmar que Hipócrates sairia do Purgatório a mando de Deus apenas para refutar esses médicos, além de bater neles com um cajado e retornar desta ver para o Céu cumprida a missão. Mas consideremos que, por humanidade, matassem a pobre coitada de uma vez. Com um tiro, por exemplo, afinal de contas que diferença faz o meio aplicado, senão de um lado a cara de nojo do sujeitinho que terá em si miolos, do outro a limpeza da morte burocrática sob encomenda estatal? Pois bem, um tiro. Ainda assim a decisão é errada, pois quem disse que depois de morta a mulher não vai sofrer mais ainda? Afinal de contas ninguém sabe quê diabos acontece depois que alguém morre. Ok, só o Estado sabe (e Platão e mais algumas pessoas, só que já morreram e aparentemente não voltaram para nos contar), segundo alguns. Como por enquanto ele não tem boca para nos dizer como é o outro lado, então é melhor deixá-la viva mesmo. Fora que há o argumento da era pré-cambriana, segundo o qual ninguém tem o direito de matar ninguém. Mas prefiro o argumento mais recente.
O que ficou faltando ainda? Ah sim, a possibilidade da mulher se recuperar. Responda-me rápido, leitor: faça que nem o dr. Manhattan e pense na possibilidade de você ter nascido onde nasceu, ter tido os pais que teve e ser quem você é, sem contar outras circunstâncias. Se for mais provável a mulher sair do coma que tudo isso ter acontecido como aconteceu contigo, leitor, então faz menos sentido você estar vivo e lendo meu texto que esperarmos pela recuperação - coisa mais provável, nesta hipótese - da mulher. Se você não gostou deste argumento, tenho um outro saído do forno: é possível que ela melhore? Se for, então onde está mesmo o motivo para assassiná-la? É aquele ali que está na lata do lixo? Ah, bom lugar: a justiça é tudo estar disposto segundo seu fim próprio. E se não for? Ora, leia o parágrafo acima e tudo estará devidamente explicado.
Não sei se ficou faltando alguma coisa para eu completar meu questionamento acerca deste caso - e de outros parecidos, que ocorrerão; já me sinto satisfeito com o que eu disse. Quer dizer, faltou apenas dizer que, do ponto de vista legal, deve ser um evento sobrenatural discutir a respeito do direito de alguém se suicidar ou de um indivíduo matar outro desde que em conivência com a vítima, que nesse caso é também co-autora de seu próprio assassinato. Algo que nem Cícero poderia resolver...
Agora posso parar de escrever e fazer outra coisa, até porque nem era sobre isso que inicialmente eu queria comentar. Na verdade, primeiro eu queria perguntar se há algum leitor deste blog que leve muito à sério Darwin, no sentido de costumeiramente, ao se referir à história natural, sempre começar dizendo, num tom grave, "segundo a evolução..." e coisas análogas. Em seguida, eu gostaria de perguntar para este hipotético leitor darwinista se ele poderia me explicar pela evolução como é que surgiu a visão e a audição, de preferência através de escritos do próprio Darwin sobre o assunto, e não através daqueles "olha, eu chutaria que...", pois são muito desagradáveis. Se uma teoria explicativa finge que não vê algum dado da realidade, então ela tem de ser (re)vista com mais cuidado, sabem como é...
Tuesday, March 22, 2005
Há 320 anos atrás...
Talvez alguém não tenha entendido o motivo de eu ter dito no último post que essa semana é, do ponto de vista musical, muito importante. É que no dia 21 de março de 1685 nasceu o maior compositor de todos os tempos: Johann Sebastian Bach. Portanto, eis uma pequena homenagem deste blog àquele grande músico. Oh sim, e sugiro ao leitor que ouça de Bach sua Paixão segundo São Mateus no Corpus Christi dessa semana. Nada mais apropriado e, definitivamente, sublime.
Monday, March 21, 2005
E por falar em exército...
Como Deus quis que tudo fosse interligado neste mundo de justiça imperfeita, e inspirado pelo post anterior, sugiro então ao leitor que ouça uma marcha militar de Schubert. E como essa semana é, do ponto de vista musical, importantíssima, amanhã escreverei algo sobre música.
Minha mãe sugeriu que eu entrasse para o Exército
Minha mãe sugeriu que eu entrasse para o Exército, sob influências de minha tia, que por sua vez tem dois filhos na Aeronáutica. O argumento materno é o seguinte: 1) trabalho público é estável; 2) não haverá necessidade de perseguir bandidos; 3) o Exército é uma mãe para quem está lá dentro; 4) por conseguinte, é uma maneira tranqüila de ganhar dinheiro honestamente.
Bem, entendi o argumento materno em outras palavras: 1) é um dinheiro público gasto à toa; 2) qualquer idiota se presta para aquilo (ou seja, aparentemente estou incluso); 3) é uma relação de inutilidade profissional e salário razoável; 4) por conseguinte, é mais uma maneira de ganhar dinheiro sem fazer nada de produtivo. Logicamente, minha mãe não gostou nada da minha interpretação.
Não me perguntem a respeito de organização logística, apoio financeiro, legislação e coisas análogas sobre o Exército, mas o esquema mental que tenho em relação às Forças Armadas é o seguinte: 1) elas existem para defender o povo em situações em que a polícia não é suficiente; 2) chegamos a uma situação drástica, na qual a polícia não parece estar em condições de defender o povo; logo ......... (espaço para o leitor completar o meu raciocínio).
Qualquer conversa para definir antes muito bem quem é o inimigo contra o qual deve-se lutar é, para mim, conversa sobre o nada, algo seinfeldiano. Se depois de vinte anos de guerra contra o tráfico de drogas ninguém souber direito contra quem está lutando, então somente podemos concluir que estamos cercados de gente idiota em questões de segurança pública. E se querem continuar enrolando, já basta a minha ilustríssima pessoa para isso, ao invés de sustentarem toda uma instituição de sujeitos incompetentes. Então, se a população - eu, o leitor e adjacências - está cercada pela violência de traficantes alucinados, mas as Forças Armadas, enquanto policial morre às pencas, negam-se a defendê-la, então só posso concluir que está se acovardando e sendo um dispêndio totalmente inútil para os cofres públicos. Serve apenas para causar comoção nas mulheres que adoram homens fardados ou para enfeitarem as ruas em paradas militares, da mesma forma que os exércitos do Xá no século XIX, segundo os europeus.
Claro (para mim, o que também é claro, e para mim também...) que não estou reclamando da validade das Forças Armadas enquanto instituição. Pois afinal de contas, quem foi que salvou o Brasil? Mas parece que, do jeito que está, elas não fazem jus às suas responsabilidades. E igualmente claro (para mim... O leitor já sabe o resto...) está que a má vontade de políticos (leiam, por favor: PT e siameses) acerca do envolvimento das Forças Armadas em operações ostensivas em favelas (e mais onde for necessário) tem um efeito paralizante nesta solução.
Portanto, se quisermos um Exército que sirva como enfeite em paradas militares, ok, mas que os militares não reclamem quando cortarem seus orçamentos ou quando forem taxados de inúteis. E fico triste em saber que o grau de periculosidade no exercício dos soldados das Forças Armadas é tão grande quanto fazer tricô em casa, mas parece que muita gente vê nisso não uma afronta, porém um motivo de orgulho e garantia de tranqüilidade ao se imaginar soldado.
Como iniciei este texto mencionando minha mãe, com ela o fecho. Desculpe, mãe, porém estatais que tratam seus funcionários como filhinhos - como toda estatal o é -, já bastam as outras. E suponho que nem todo mundo gosta de ser infantilizado - senão apenas e como um fato consumado pelos pais naturais, já que aos olhos desses os filhos nunca conseguirão deixar de fazer caquinha na fralda...
Bem, entendi o argumento materno em outras palavras: 1) é um dinheiro público gasto à toa; 2) qualquer idiota se presta para aquilo (ou seja, aparentemente estou incluso); 3) é uma relação de inutilidade profissional e salário razoável; 4) por conseguinte, é mais uma maneira de ganhar dinheiro sem fazer nada de produtivo. Logicamente, minha mãe não gostou nada da minha interpretação.
Não me perguntem a respeito de organização logística, apoio financeiro, legislação e coisas análogas sobre o Exército, mas o esquema mental que tenho em relação às Forças Armadas é o seguinte: 1) elas existem para defender o povo em situações em que a polícia não é suficiente; 2) chegamos a uma situação drástica, na qual a polícia não parece estar em condições de defender o povo; logo ......... (espaço para o leitor completar o meu raciocínio).
Qualquer conversa para definir antes muito bem quem é o inimigo contra o qual deve-se lutar é, para mim, conversa sobre o nada, algo seinfeldiano. Se depois de vinte anos de guerra contra o tráfico de drogas ninguém souber direito contra quem está lutando, então somente podemos concluir que estamos cercados de gente idiota em questões de segurança pública. E se querem continuar enrolando, já basta a minha ilustríssima pessoa para isso, ao invés de sustentarem toda uma instituição de sujeitos incompetentes. Então, se a população - eu, o leitor e adjacências - está cercada pela violência de traficantes alucinados, mas as Forças Armadas, enquanto policial morre às pencas, negam-se a defendê-la, então só posso concluir que está se acovardando e sendo um dispêndio totalmente inútil para os cofres públicos. Serve apenas para causar comoção nas mulheres que adoram homens fardados ou para enfeitarem as ruas em paradas militares, da mesma forma que os exércitos do Xá no século XIX, segundo os europeus.
Claro (para mim, o que também é claro, e para mim também...) que não estou reclamando da validade das Forças Armadas enquanto instituição. Pois afinal de contas, quem foi que salvou o Brasil? Mas parece que, do jeito que está, elas não fazem jus às suas responsabilidades. E igualmente claro (para mim... O leitor já sabe o resto...) está que a má vontade de políticos (leiam, por favor: PT e siameses) acerca do envolvimento das Forças Armadas em operações ostensivas em favelas (e mais onde for necessário) tem um efeito paralizante nesta solução.
Portanto, se quisermos um Exército que sirva como enfeite em paradas militares, ok, mas que os militares não reclamem quando cortarem seus orçamentos ou quando forem taxados de inúteis. E fico triste em saber que o grau de periculosidade no exercício dos soldados das Forças Armadas é tão grande quanto fazer tricô em casa, mas parece que muita gente vê nisso não uma afronta, porém um motivo de orgulho e garantia de tranqüilidade ao se imaginar soldado.
Como iniciei este texto mencionando minha mãe, com ela o fecho. Desculpe, mãe, porém estatais que tratam seus funcionários como filhinhos - como toda estatal o é -, já bastam as outras. E suponho que nem todo mundo gosta de ser infantilizado - senão apenas e como um fato consumado pelos pais naturais, já que aos olhos desses os filhos nunca conseguirão deixar de fazer caquinha na fralda...
Sunday, March 20, 2005
Mesada para bandido
Não era sobre isso que eu ia escrever, porém foram poucas as vezes que fiquei tão indignado quanto agora, tendo lido que o Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vai dar 60 reais ao mês para as famílias dos bandidos da FEBEM, esses mesmos que você, leitor, como eu, está cansado de saber que degolam, estupram, depredam, amedrontam e coisas lindas do gênero. E, como sempre, usando o dinheiro público - aquele que você trabalha como um doido para pagar em impostos que serão convertidos, mais tarde, em mesada para bandido.
Esse governador merece pelo menos ovo na cabeça.
Esse governador merece pelo menos ovo na cabeça.
Friday, March 18, 2005
Comentários sobre a sinceridade
Se dizer sincero é, na maioria da vezes, um artifício para agir como um canalha perante as pessoas, mas de forma a arrancar aplausos. Não é à toa que todo mundo que defende o aborto, a eutanásia, o comunismo e demais monstruosidades sempre se diz sincero, muito sincero, e tem a sensação de ter agido bem, o que traz prazer.
Ora, o nazista que meteu uma bala na testa do judeu estava apenas sendo sincero, neste sentido peculiar que só uma época tão abrutalhada quanto a nossa pode ser. E ninguém pode negar que Lênin, ao condenar à forca centenas de opositores para servirem de exemplo, se considerava justo.
***
Essa sinceridade é uma maneira de extravasar tudo o que há de pior. Se você estiver com raiva de alguém, não basta engolir seco: é preciso jogar-lhe na cara toda a sorte de insultos. Se você quer uma mulher, não basta dissimular seus próprios passos a fim de, aos poucos, agradar-lhe: é preciso corresponder aos instintos, fazendo jus ao animal que há dentro de ti. Ou se você considera uma pessoa um tanto quanto chata, não basta gentilmente pedir-lhe licença, sob algum pretexto: é necessário jogar-lhe na cara que ela é uma pessoa horrível (vejam, não apenas chata, mas horrível).
Alguém pode dizer que não agiria assim. No entanto, há sempre os mais descarados e os tímidos, porém sonsos. A diferença está na disposição.
É esta modalidade de sentimentos que muitos chamam de sinceridade, mas eu costumo enxergá-la apenas como mais uma forma de estupidez.
***
Só há uma forma verdadeira de sinceridade, que é aquela unida a três coisinhas fundamentais: o belo, o bom e o verdadeiro.
Por isso que a sinceridade é um nobre hábito, praticado por alguns, admirado por muitos, imitado toscamente por muitos mais. Ter sempre em mente que nossos passos devem estar sobre um piso verdadeiro, e que esse é o único caminho bom a se trilhar, e que faz bem e é belo, não, infelizmente não é algo que vem simplesmente do berço. É um esforço desinteressado que nos torna possuidores de tão grande tesouro. E a sinceridade, neste caso, é a paixão que um homem sofre em direção à verdade, sendo guiado por uma consciência reta (nada mais que outra maneira de afirmação da tríade belo-bom-verdadeiro).
Digo mais: é um nobre hábito porque é uma virtude, e toda virtude é prática de nobreza. Por isso que o cristianismo é uma religião feita para seres nobilíssimos, pois impõe como meta a perfeição tal qual Deus-Pai é perfeito. E todo código militar decente também prega algo parecido, sempre o aperfeiçoamento de si mesmo, a superação, a auto-imposição de grandes fardos. Não são, cristianismo e código militar, adequados a burgueses – no sentido de seres voltados apenas para o bem-estar e a comodidade.
Mas somos todos filhos de época burguesa (há os burgueses marxistas, burgueses liberais, burgueses nazistas e demais espécies de burgueses). Então não seria mais cômodo rebaixar essa sinceridade de caráter elevado a uma correspondência primária entre ação e pensamento na moralidade?
É neste sentido que alguém pode dizer que no Afeganistão do Talibã ao menos eles eram sinceros no trato das mulheres, enquanto aqui é tudo dissimulado. Ou que pelo menos em países como os EUA ou África do Sul tratavam (tratam, no caso dos EUA) os pretos de forma mais sincera (se por “mais sincera” se entende “menos dissimulada”) que aqui no Brasil. E que o leitor imagine aqui um sem-número de outros exemplos que por extensão podem ser aplicados ao caso.
***
É por causa da existência da tríade bom-belo-verdadeiro que uma pessoa que age grosseiramente em nome da sinceridade pode ser tudo, menos sincero. Age apenas como um papagaio, repetindo as palavras de alguém toscamente e sem entender nada que ouviu ou diz.
Ou seja: se o leitor não consegue harmonizar uma reta disposição de espírito com a verdade, e não sente prazer ao agir assim, então infelizmente está no time das falsas consciências. E elas, como tais, sempre se arrogam sinceras – e no entanto sua crença realmente o é, mas não a verdade.
***
Apenas um desfecho para o leitor refletir.
Kalos kagathos são duas palavras gregas estranhas e que se prestam, na nossa língua, a vários trocadilhos. No entanto, é uma idéia muito elevada o que elas representam. Sua tradução é “belo e bom”. Um kalos kagathos é um nobre. Era o ideal de nobreza do homem grego. Talvez o leitor se pergunte sobre como atingi-lo. Isso não interessa por enquanto. O que importa é que não é de hoje que existe a associação entre nobreza, a beleza e a bondade.
Ora, o nazista que meteu uma bala na testa do judeu estava apenas sendo sincero, neste sentido peculiar que só uma época tão abrutalhada quanto a nossa pode ser. E ninguém pode negar que Lênin, ao condenar à forca centenas de opositores para servirem de exemplo, se considerava justo.
***
Essa sinceridade é uma maneira de extravasar tudo o que há de pior. Se você estiver com raiva de alguém, não basta engolir seco: é preciso jogar-lhe na cara toda a sorte de insultos. Se você quer uma mulher, não basta dissimular seus próprios passos a fim de, aos poucos, agradar-lhe: é preciso corresponder aos instintos, fazendo jus ao animal que há dentro de ti. Ou se você considera uma pessoa um tanto quanto chata, não basta gentilmente pedir-lhe licença, sob algum pretexto: é necessário jogar-lhe na cara que ela é uma pessoa horrível (vejam, não apenas chata, mas horrível).
Alguém pode dizer que não agiria assim. No entanto, há sempre os mais descarados e os tímidos, porém sonsos. A diferença está na disposição.
É esta modalidade de sentimentos que muitos chamam de sinceridade, mas eu costumo enxergá-la apenas como mais uma forma de estupidez.
***
Só há uma forma verdadeira de sinceridade, que é aquela unida a três coisinhas fundamentais: o belo, o bom e o verdadeiro.
Por isso que a sinceridade é um nobre hábito, praticado por alguns, admirado por muitos, imitado toscamente por muitos mais. Ter sempre em mente que nossos passos devem estar sobre um piso verdadeiro, e que esse é o único caminho bom a se trilhar, e que faz bem e é belo, não, infelizmente não é algo que vem simplesmente do berço. É um esforço desinteressado que nos torna possuidores de tão grande tesouro. E a sinceridade, neste caso, é a paixão que um homem sofre em direção à verdade, sendo guiado por uma consciência reta (nada mais que outra maneira de afirmação da tríade belo-bom-verdadeiro).
Digo mais: é um nobre hábito porque é uma virtude, e toda virtude é prática de nobreza. Por isso que o cristianismo é uma religião feita para seres nobilíssimos, pois impõe como meta a perfeição tal qual Deus-Pai é perfeito. E todo código militar decente também prega algo parecido, sempre o aperfeiçoamento de si mesmo, a superação, a auto-imposição de grandes fardos. Não são, cristianismo e código militar, adequados a burgueses – no sentido de seres voltados apenas para o bem-estar e a comodidade.
Mas somos todos filhos de época burguesa (há os burgueses marxistas, burgueses liberais, burgueses nazistas e demais espécies de burgueses). Então não seria mais cômodo rebaixar essa sinceridade de caráter elevado a uma correspondência primária entre ação e pensamento na moralidade?
É neste sentido que alguém pode dizer que no Afeganistão do Talibã ao menos eles eram sinceros no trato das mulheres, enquanto aqui é tudo dissimulado. Ou que pelo menos em países como os EUA ou África do Sul tratavam (tratam, no caso dos EUA) os pretos de forma mais sincera (se por “mais sincera” se entende “menos dissimulada”) que aqui no Brasil. E que o leitor imagine aqui um sem-número de outros exemplos que por extensão podem ser aplicados ao caso.
***
É por causa da existência da tríade bom-belo-verdadeiro que uma pessoa que age grosseiramente em nome da sinceridade pode ser tudo, menos sincero. Age apenas como um papagaio, repetindo as palavras de alguém toscamente e sem entender nada que ouviu ou diz.
Ou seja: se o leitor não consegue harmonizar uma reta disposição de espírito com a verdade, e não sente prazer ao agir assim, então infelizmente está no time das falsas consciências. E elas, como tais, sempre se arrogam sinceras – e no entanto sua crença realmente o é, mas não a verdade.
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Apenas um desfecho para o leitor refletir.
Kalos kagathos são duas palavras gregas estranhas e que se prestam, na nossa língua, a vários trocadilhos. No entanto, é uma idéia muito elevada o que elas representam. Sua tradução é “belo e bom”. Um kalos kagathos é um nobre. Era o ideal de nobreza do homem grego. Talvez o leitor se pergunte sobre como atingi-lo. Isso não interessa por enquanto. O que importa é que não é de hoje que existe a associação entre nobreza, a beleza e a bondade.
Sunday, March 13, 2005
Pequena e atrasada homenagem ao Dia Internacional da Mulher
Relembrando todo o esforço de milhares de feministas contra o jugo opressor do macho ocidental, e também relembrando que, conforme as palavras do Estagirita, a visão é, dos sentidos, o que mais prazer nos proporciona, eis então minha pequena homenagem a esse dia tão monumental, a ponto de eu nem saber direito quando é - mas que provavelmente já passou -, nem se é correto dizer "da mulher", pois o termo talvez não remeta à diversificação do gênero feminino ao redor do mundo. Deixo como está. Mas esse problema, pensando bem, com toda a certeza haveria de ser comentado e analizado com todas as sutilezas pelo eminente e de voz grave sofista Pródico, bem sábio, rigorosa autoridade em distinções entre sinônimos e belas coisas da mesma espécie. Sem querer me alongar mas louco por dar um exemplo das eminentes distinções do sofista, ele dizia, por exemplo, que uma bela discussão não causava prazer, mas satisfação, porque o prazer é apenas uma sensação corporal agradável, enquanto a satisfação é relativa ao bem-estar da alma. Mas Pródico não está mais entre nós desde o século IV a.C., o que me obriga a apenas imaginar o que ele dissertaria a respeito do tema. Deixo o problema então para alguma bela feminista, caso haja alguma que por ventura leia estas tortas palavras, a fim de esclarecer tão importante questão.
Estou me alogando demais, como de costume. Eis então, logo abaixo, todo um grupo de mulheres que, na minha opinião, com muito esforço e perseverança tornou nosso mundo mais agradável para se viver. Sejamos sempre gratos, pois elas merecem, indiscutivelmente, não só um dia, mas uma semana inteira de festividades.







Eu quase ia esquecendo de mencionar tão preciosa fonte: basta clicar aqui.
Estou me alogando demais, como de costume. Eis então, logo abaixo, todo um grupo de mulheres que, na minha opinião, com muito esforço e perseverança tornou nosso mundo mais agradável para se viver. Sejamos sempre gratos, pois elas merecem, indiscutivelmente, não só um dia, mas uma semana inteira de festividades.
Eu quase ia esquecendo de mencionar tão preciosa fonte: basta clicar aqui.
Saturday, March 12, 2005
O jogo esquerda-direita
Eu escreveria sobre uma coisa qualquer, porém felizmente topei com um extrato de O século do nada, último e mais combativo livro de Gustavo Corção, no bom site Permanência. É o capítulo II, livro I, chamado O jogo esquerda-direita, que pode ser lido aqui. Recomendo fervorosamente aos leitores deste blog, ainda que sintam preguiça por causa da extensão do texto, pois nada mais útil, em relação a um tema tão cheio de falácias, expugarmos nossa tolice, como diria mais ou menos o próprio Corção.
Mais um comentário: é impressionante como este jogo foi difundido e gruda em nossos cérebros como chiclete no sapato. Talvez pela simplicidade e comodidade do (falso) raciocínio, atribuindo tudo de bom à esquerda e tudo de ruim à direita, ou então criando falsas dicotomias (como por exemplo opor justiça, que seria de propriedade da esquerda, à ordem, propriedade da direita, ou liberdade-esquerda e autoridade-direita, etc.), quem quer que caia nessa gandaia intelectual terá o cérebro transformado em pamonha. Daí que não é à toa que é difícil convencer alguém intoxicado até a medula com o jogo esquerda-direita que o comunismo, longe de ser libertário e herói da justiça, é uma proposta completamente ditatorial e promovedora de injustiças por todos os cantos por onde é semeada.
Ah sim, e o artigo demonstra a tremenda mancada de Maritain, que entrou muito catita nesse esquema. Aliás, o livro é recheado de mancadas de Maritain - uma das coisas mais assombrosas do século passado, a julgar a inteligência do filósofo, e que de certa maneira representa as mancadas de boa parte da Igreja sobre o assunto, o socialismo. O neotomista é um caso sui generis, pois em se tratando do conjunto de sua obra, parece que devemos levar a sério tudo o que escreveu sobre filosofia e jogar fora tudo que ele disse sobre política, sociedade, etc, etc - dentro do contexto do século XX, em relação ao socialismo.
Agora chega, pois vou beber água e fazer alguma outra coisa, pois até quem escreve para blogs tem mais o que fazer, por mais assombroso que isso possa parecer a alguns.
Mais um comentário: é impressionante como este jogo foi difundido e gruda em nossos cérebros como chiclete no sapato. Talvez pela simplicidade e comodidade do (falso) raciocínio, atribuindo tudo de bom à esquerda e tudo de ruim à direita, ou então criando falsas dicotomias (como por exemplo opor justiça, que seria de propriedade da esquerda, à ordem, propriedade da direita, ou liberdade-esquerda e autoridade-direita, etc.), quem quer que caia nessa gandaia intelectual terá o cérebro transformado em pamonha. Daí que não é à toa que é difícil convencer alguém intoxicado até a medula com o jogo esquerda-direita que o comunismo, longe de ser libertário e herói da justiça, é uma proposta completamente ditatorial e promovedora de injustiças por todos os cantos por onde é semeada.
Ah sim, e o artigo demonstra a tremenda mancada de Maritain, que entrou muito catita nesse esquema. Aliás, o livro é recheado de mancadas de Maritain - uma das coisas mais assombrosas do século passado, a julgar a inteligência do filósofo, e que de certa maneira representa as mancadas de boa parte da Igreja sobre o assunto, o socialismo. O neotomista é um caso sui generis, pois em se tratando do conjunto de sua obra, parece que devemos levar a sério tudo o que escreveu sobre filosofia e jogar fora tudo que ele disse sobre política, sociedade, etc, etc - dentro do contexto do século XX, em relação ao socialismo.
Agora chega, pois vou beber água e fazer alguma outra coisa, pois até quem escreve para blogs tem mais o que fazer, por mais assombroso que isso possa parecer a alguns.
Sunday, March 06, 2005
Great Books
Na década de 50, enfim foi publicada a coleção Great books of the western world (Chicago, Encyclopaedia Britannica, Inc., 1952, 52 vols; na segunda edição, em 1990, ela foi aumentada para 60). Ela foi criada graças aos esforços de dois homens, Mortimer Jerome Adler, um dos maiores educadores americanos do século XX, e Robert Maynard Hutchins. Em Great books encontramos reunidos autores das mais variadas estirpes, tais como Homero e Freud, Kant e Newton, Lavoisier e Faraday, Virgílio e Aristóteles, Galeno e Euclides, Ptolomeu e Cervantes, Marx e Eurípedes, e muitos outros. Como uma introdução há um livro à parte chamado The great ideas, a syntopicon of great books of the western world (em 2 vols, também pela Encyclopaedia Britannica, Inc., 1952, segunda edição de 1990).
A coleção segue uma ordem cronológica. Começa com a poesia de Homero e com o Velho Testamento, varando os séculos até chegar, enfim, no século XX. É como se seguisse um roteiro. A leitura seqüenciada é útil porque não raro um autor se refere ao seu mestre e predecessor, tornando claro para nós o desenvolvimento das mais diversas questões.
O conteúdo de cada volume é dividido por autor, salvo em alguns casos de proximidade de um mesmo assunto: aí autores são agrupados em um único volume. Assim, por exemplo, o quarto é dedicado apenas a Homero, enquanto o quinto é dedicado a Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes, ou seja, o teatro grego. Gente mais gulosa como Aristóteles, Sto. Tomás de Aquino, Shakespeare e Gibbon abocanhou dois volumes cada.
Um problema que salta aos olhos de qualquer um é o do critério da escolha dos livros para a coleção. Não é uma questão das mais fáceis. Mortimer Adler, no entanto, disse certa vez que não foi um, mas três os critérios adotados:
O primeiro era o significado contemporâneo do livro - relevância para os problemas e questões importantes do século XX. Os livros não foram feitos para serem olhados como relíquia arqueológica - monumentos em nossa tradição intelectual. Eles seriam obras que tanto nos interessa hoje quanto na época em que foram escritos, ainda que há séculos atrás. Eles são portanto eternos - sempre contemporâneos, e não confinados a interesses que mudam de tempo em tempo ou de lugar em lugar.
O segundo critério foi sua infinita readaptabilidade ou, no caso das mais difíceis obras matemáticas ou científicas, sua análise incessante. A maioria dos 400 mil livros publicados a cada ano não vale a pena ler nem mesmo uma única vez; bem menos de mil a cada ano vale a pena ler novamente. Quando, o que não é freqüente em qualquer século, um grande livro aparece, vale a pena lê-lo de novo e outras vezes. É inexaustivelmente readaptável. Não pode ser completamente entendido em uma, duas, ou três leituras. Mais é para achar em toda leitura subseqüente. Isso é um critério exato, uma idéia que é completamente atendida por unicamente um pequeno número de 511 obras que selecionamos. Ele é aproximado em vários graus pelo resto.
O terceiro critério foi a relevância da obra para um número bem extenso de grandes idéias e grandes questões que ocuparam as mentes de pensadores individuais dos últimos vinte e cinco séculos. Os autores desses livros pegaram parte na grande conversação, não somente para ler obras de muitos de seus predecessores, mas também para discutir muitas das 102 idéias tratadas no Syntopicon. Em outras palavras, os grandes livros são os livros nos quais a grande conversação ocorre sobre grandes idéias. É o conjunto de grandes idéias que determina a escolha dos grandes livros.
M. Adler, em Como ler um livro, disse que buscava oferecer uma educação liberal. Seria uma baseada nas antigas artes liberais medievais. Elas eram divididas no trivium (gramática, retórica e dialética) - a arte das coisas humanas e do bem falar, discutir e raciocinar - e o quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia) - arte das coisas do mundo e do segundo patamar de abstração. Auxiliada pelos mestres através do contato direto com as fontes em Great books, uma pessoa entraria em contato com a tradição que lhe foi legada e teria uma compreensão superior dos problemas fundamentais do mundo, podendo muito bem dar-lhes inclusive solução prática. Daí que M. Adler vislumbrava esse ensino como uma forma de desenvolvimento da liberdade dos cidadãos.
Tal é, em poucas palavras, a importância do Great books. Embora até hoje existam discussões sobre o cânon que ficou estabelecido na coleção, o fato é que ele reúne o mínimo que precisamos para sermos bem educados e trabalharmos bem a nossa inteligência. É uma leitura nas fontes, que nem sempre são fáceis de compreender, mas que são sempre extremamente férteis. E o próprio Adler, em meio de suas centenas de livros, dá várias dicas para uma melhor compreensão dos livros.

A coleção segue uma ordem cronológica. Começa com a poesia de Homero e com o Velho Testamento, varando os séculos até chegar, enfim, no século XX. É como se seguisse um roteiro. A leitura seqüenciada é útil porque não raro um autor se refere ao seu mestre e predecessor, tornando claro para nós o desenvolvimento das mais diversas questões.
O conteúdo de cada volume é dividido por autor, salvo em alguns casos de proximidade de um mesmo assunto: aí autores são agrupados em um único volume. Assim, por exemplo, o quarto é dedicado apenas a Homero, enquanto o quinto é dedicado a Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes, ou seja, o teatro grego. Gente mais gulosa como Aristóteles, Sto. Tomás de Aquino, Shakespeare e Gibbon abocanhou dois volumes cada.
Um problema que salta aos olhos de qualquer um é o do critério da escolha dos livros para a coleção. Não é uma questão das mais fáceis. Mortimer Adler, no entanto, disse certa vez que não foi um, mas três os critérios adotados:
O primeiro era o significado contemporâneo do livro - relevância para os problemas e questões importantes do século XX. Os livros não foram feitos para serem olhados como relíquia arqueológica - monumentos em nossa tradição intelectual. Eles seriam obras que tanto nos interessa hoje quanto na época em que foram escritos, ainda que há séculos atrás. Eles são portanto eternos - sempre contemporâneos, e não confinados a interesses que mudam de tempo em tempo ou de lugar em lugar.
O segundo critério foi sua infinita readaptabilidade ou, no caso das mais difíceis obras matemáticas ou científicas, sua análise incessante. A maioria dos 400 mil livros publicados a cada ano não vale a pena ler nem mesmo uma única vez; bem menos de mil a cada ano vale a pena ler novamente. Quando, o que não é freqüente em qualquer século, um grande livro aparece, vale a pena lê-lo de novo e outras vezes. É inexaustivelmente readaptável. Não pode ser completamente entendido em uma, duas, ou três leituras. Mais é para achar em toda leitura subseqüente. Isso é um critério exato, uma idéia que é completamente atendida por unicamente um pequeno número de 511 obras que selecionamos. Ele é aproximado em vários graus pelo resto.
O terceiro critério foi a relevância da obra para um número bem extenso de grandes idéias e grandes questões que ocuparam as mentes de pensadores individuais dos últimos vinte e cinco séculos. Os autores desses livros pegaram parte na grande conversação, não somente para ler obras de muitos de seus predecessores, mas também para discutir muitas das 102 idéias tratadas no Syntopicon. Em outras palavras, os grandes livros são os livros nos quais a grande conversação ocorre sobre grandes idéias. É o conjunto de grandes idéias que determina a escolha dos grandes livros.
M. Adler, em Como ler um livro, disse que buscava oferecer uma educação liberal. Seria uma baseada nas antigas artes liberais medievais. Elas eram divididas no trivium (gramática, retórica e dialética) - a arte das coisas humanas e do bem falar, discutir e raciocinar - e o quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia) - arte das coisas do mundo e do segundo patamar de abstração. Auxiliada pelos mestres através do contato direto com as fontes em Great books, uma pessoa entraria em contato com a tradição que lhe foi legada e teria uma compreensão superior dos problemas fundamentais do mundo, podendo muito bem dar-lhes inclusive solução prática. Daí que M. Adler vislumbrava esse ensino como uma forma de desenvolvimento da liberdade dos cidadãos.
Tal é, em poucas palavras, a importância do Great books. Embora até hoje existam discussões sobre o cânon que ficou estabelecido na coleção, o fato é que ele reúne o mínimo que precisamos para sermos bem educados e trabalharmos bem a nossa inteligência. É uma leitura nas fontes, que nem sempre são fáceis de compreender, mas que são sempre extremamente férteis. E o próprio Adler, em meio de suas centenas de livros, dá várias dicas para uma melhor compreensão dos livros.

Mortimer J. Adler (1902-2001)
Coleção Great books of the western world
Saturday, March 05, 2005
Sabedoria popular
Dois sujeitos conversando numa lanchonete (segundo testemunhos de alguém que conheço):
- ... mas tô cheio de pobrema na vida.
- Não se fala "pobrema"! "Pobrema" é quando tu tem que resolvê conta. Quando tu tá com a vida ruim, cê tem que falá "probrema".
- Ah é.
E o dia se tornou ainda mais alegre para mim.
- ... mas tô cheio de pobrema na vida.
- Não se fala "pobrema"! "Pobrema" é quando tu tem que resolvê conta. Quando tu tá com a vida ruim, cê tem que falá "probrema".
- Ah é.
E o dia se tornou ainda mais alegre para mim.
Saturday, February 26, 2005
Texto pós-Nemo
Dizer algo sobre o visual de Procurando Nemo chega a ser desnecessário. É tão evidente, tão monstruosamente clara a beleza de suas imagens, que qualquer elogio se torna pleonasmo. É tudo tão colorido e tão bonito que dá vontade de dizer que foi para vê-lo que minha visão foi feita.
Mas não é apenas o visual que merece elogios. O roteiro é muito divertido. Os diálogos são bons. E claro, geralmente os trocadilhos com hábitos de bichos nesse tipo de filme dão certo. Um polvinho soltando uma pequena tinta negra, como se estivesse se mijando de medo, ao ver um imenso tubarão; tubarões que se juntam numa espécie de AA, repetindo para si mesmos que peixes são amigos, não comida; tartarugas surfistas; um peixinho - o mais divertido do filme - que não consegue reter lembranças recentes, mais ou menos como (dizem que) as baratas são; um peixe-palhaço que não consegue fazer uma só piada decente. E por aí vai.
Se eu fosse comentar cada cena que ri sem parar, o leitor acabaria por não ler apenas um post, mas um livro. Por exemplo, a cena da sobrinha do dentista no consultório. Como era engraçado vê-la se debater apavorada quando entra um pelicano na sala e logo em seguida um peixe sai do aquário para cair em sua cabeça... Ou aquela da explosão de minas submarinas que forma bolhas, fazendo com que um pelicano, alheio a tudo aquilo e vendo se formar uma ao lado de seu amigo, ache que ele soltou um pum.
Logo após o filme, fiquei pensando com os meus botões algo sobre as animações japonesas. Não sou de ver muita animação, porém das poucas que assisti pude perceber que os japoneses, em termos de roteiro, são de longe os mais bizarros: violência desmesurada atrelada a um senso de humor no mínimo alienígena. Confesso que nunca fui muito fã de filmes de animação japonesa, cujas histórias são muito esquisitas. As americanas não - quer dizer, não tanto. Não sei se por serem uma cultura mais próxima de nós, o fato é que geralmente prefiro a deles. Alguns têm um senso de humor esquisito, algo que parece estar se tornando quase um gênero a parte. Porém mesmo assim eu fico com os EUA.
Um outro motivo para minha simpatia para com as animações dos EUA é que suas histórias são bem mais despretensiosas. Você não precisa ter um nível de "abstração" enorme para compreendê-las. Claro, sempre há exceções, como aquela da MTV que tinha uma mulher espiã que, igualzinho ao Kenny do South Park, sempre morria no final (esqueci o nome, cartas para a redação, por favor).
Mas estou fugindo do Nemo. Que são essas palavras, leitor? Faça que nem o pai do simpático peixinho e saia por aí procurando-o logo.
Mas não é apenas o visual que merece elogios. O roteiro é muito divertido. Os diálogos são bons. E claro, geralmente os trocadilhos com hábitos de bichos nesse tipo de filme dão certo. Um polvinho soltando uma pequena tinta negra, como se estivesse se mijando de medo, ao ver um imenso tubarão; tubarões que se juntam numa espécie de AA, repetindo para si mesmos que peixes são amigos, não comida; tartarugas surfistas; um peixinho - o mais divertido do filme - que não consegue reter lembranças recentes, mais ou menos como (dizem que) as baratas são; um peixe-palhaço que não consegue fazer uma só piada decente. E por aí vai.
Se eu fosse comentar cada cena que ri sem parar, o leitor acabaria por não ler apenas um post, mas um livro. Por exemplo, a cena da sobrinha do dentista no consultório. Como era engraçado vê-la se debater apavorada quando entra um pelicano na sala e logo em seguida um peixe sai do aquário para cair em sua cabeça... Ou aquela da explosão de minas submarinas que forma bolhas, fazendo com que um pelicano, alheio a tudo aquilo e vendo se formar uma ao lado de seu amigo, ache que ele soltou um pum.
Logo após o filme, fiquei pensando com os meus botões algo sobre as animações japonesas. Não sou de ver muita animação, porém das poucas que assisti pude perceber que os japoneses, em termos de roteiro, são de longe os mais bizarros: violência desmesurada atrelada a um senso de humor no mínimo alienígena. Confesso que nunca fui muito fã de filmes de animação japonesa, cujas histórias são muito esquisitas. As americanas não - quer dizer, não tanto. Não sei se por serem uma cultura mais próxima de nós, o fato é que geralmente prefiro a deles. Alguns têm um senso de humor esquisito, algo que parece estar se tornando quase um gênero a parte. Porém mesmo assim eu fico com os EUA.
Um outro motivo para minha simpatia para com as animações dos EUA é que suas histórias são bem mais despretensiosas. Você não precisa ter um nível de "abstração" enorme para compreendê-las. Claro, sempre há exceções, como aquela da MTV que tinha uma mulher espiã que, igualzinho ao Kenny do South Park, sempre morria no final (esqueci o nome, cartas para a redação, por favor).
Mas estou fugindo do Nemo. Que são essas palavras, leitor? Faça que nem o pai do simpático peixinho e saia por aí procurando-o logo.
Saturday, February 19, 2005
Faxina
Estive arrumando o caos que virou a parte dos links bem ali, ó, do lado da página. Aproveitei e coloquei alguns novos. Como olhei e gostei da obra, vou tirar o domingo que vem para meu descanso, e santifico este sábado.
Tenho o projeto de comentar cada um deles, mas e a falta de paciência? Por enquanto, leitor, não tenha medo e vá trombando com eles, porque o caminho dos justos é sempre difícil, mas o fim é belo.
Tenho o projeto de comentar cada um deles, mas e a falta de paciência? Por enquanto, leitor, não tenha medo e vá trombando com eles, porque o caminho dos justos é sempre difícil, mas o fim é belo.
Conde de Gobineau e o Brasil
Certa vez, Stefan Zweig comentou que o Conde de Gobineau, após visitar o Brasil, afirmou que o único indivíduo racialmente puro no país era o Nosso Imperador D. Pedro II. O país tinha praticamente a população do Estado do Rio de Janeiro. E ainda que D. Pedro II causasse profunda impressão em quem achasse muito cool as teorias de superioridade nórdica (o homem tinha quase 1,90m, olhos azuis e branco até não poder mais, embora tivesse voz fina - ninguém é perfeito.), acho que no fundo o Conde de Gobineau estava fazendo aquilo que desde o mais pífio pigmeu até um nobre francês talvez não hesitariam em face de um sujeito mais poderoso: o famoso puxa-saquismo.
Mas hoje em dia, se o Conde de Gobineau visitasse nosso país, já ficaria chocado, só para começar, com o nosso presidente, Sr. Luís Inácio Molusco da Silva. Acho divertido imaginar o que ele escreveria em seu diário após uma entrevista com o Sem-Dedo.
Um país que tem quem tem como presidente não poderia ser, é claro, lá muito respeitável. Vejam o Theatro Municipal, por exemplo, se não me engano em dezembro. Eu estava passando pela Cinelândia quando, ao literalmente rufarem os tambores, em frente a uma multidão que se acotovelava em sua frente, saiu um monte de mulatos descamisados pulando de um lado para o outro. Chamam aquilo, ao que parece, de capoeira. Pois o Municipal se transformara - pelo menos a entrada - em palco de ginga de capoeiras. "Ha", pensei na hora, "imagina só o que o Conde de Gobineau diria sobre isso", e fiquei rindo sozinho, enquanto quem me via desse jeito na calçada achava apenas que eu era um bobo alegre.
Aquilo foi mesmo engraçado. Porém mais curioso foi o que um amigo meu me disse ontem. Na verdade, curioso e escatológico, porque esse meu amigo disse que, ao ver numa rua perto da minha casa um monte de cocô ao lado de uma camisinha usada, perguntou para seus botões também o que o Conde diria sobre aquilo. "Que as pessoas neste país copulam e defecam pelas ruas", foi o que meu amigo especulou. Mas quem disse que apenas essa hipótese é verossímil? O Conde poderia imaginar que as pessoas neste país defecam enquanto copulam pelas ruas desse país. Ou copulam enquanto defecam, o que dá na mesma. Bom, em todo o caso, qualquer das hipóteses é provável, pelo menos a julgar o Rio de Janeiro, que ainda querem que se torne capital do turismo.
Não é possível cogitar coisa muito diferente no país do Molusco. Aliás, a chegada mui triunfal do Molusco ao poder foi o coroamento do estrume.
Ah, Conde de Gobineau... Para você ser meu parâmetro de comparação com o Brasil ou, pelo menos, com o Rio de Janeiro, é sinal de que há algo de podre neste reino.
Mas hoje em dia, se o Conde de Gobineau visitasse nosso país, já ficaria chocado, só para começar, com o nosso presidente, Sr. Luís Inácio Molusco da Silva. Acho divertido imaginar o que ele escreveria em seu diário após uma entrevista com o Sem-Dedo.
Um país que tem quem tem como presidente não poderia ser, é claro, lá muito respeitável. Vejam o Theatro Municipal, por exemplo, se não me engano em dezembro. Eu estava passando pela Cinelândia quando, ao literalmente rufarem os tambores, em frente a uma multidão que se acotovelava em sua frente, saiu um monte de mulatos descamisados pulando de um lado para o outro. Chamam aquilo, ao que parece, de capoeira. Pois o Municipal se transformara - pelo menos a entrada - em palco de ginga de capoeiras. "Ha", pensei na hora, "imagina só o que o Conde de Gobineau diria sobre isso", e fiquei rindo sozinho, enquanto quem me via desse jeito na calçada achava apenas que eu era um bobo alegre.
Aquilo foi mesmo engraçado. Porém mais curioso foi o que um amigo meu me disse ontem. Na verdade, curioso e escatológico, porque esse meu amigo disse que, ao ver numa rua perto da minha casa um monte de cocô ao lado de uma camisinha usada, perguntou para seus botões também o que o Conde diria sobre aquilo. "Que as pessoas neste país copulam e defecam pelas ruas", foi o que meu amigo especulou. Mas quem disse que apenas essa hipótese é verossímil? O Conde poderia imaginar que as pessoas neste país defecam enquanto copulam pelas ruas desse país. Ou copulam enquanto defecam, o que dá na mesma. Bom, em todo o caso, qualquer das hipóteses é provável, pelo menos a julgar o Rio de Janeiro, que ainda querem que se torne capital do turismo.
Não é possível cogitar coisa muito diferente no país do Molusco. Aliás, a chegada mui triunfal do Molusco ao poder foi o coroamento do estrume.
Ah, Conde de Gobineau... Para você ser meu parâmetro de comparação com o Brasil ou, pelo menos, com o Rio de Janeiro, é sinal de que há algo de podre neste reino.
Tuesday, February 15, 2005
A farsa do Coelhinho Rosa, do Sapato Dentuço e do Anão Todo Janota em um ato-relâmpago
(A história se passa para lá de Bagdá. Coelhinho Rosa, passeando pela estrada afora, encontra o Sapato Dentuço às margens do rio Eufrates, cantando algo como "My shoes sing the blues", canção anônima muito dançante do Iraque)
Coelhinho Rosa (Olhando atentamente para os dentes do Sapato Dentuço.) - Sapato, me responde uma coisa: por que você tem dentes?
Sapato Dentuço - Naturalmente para pronunciar palavras que exijam as dentais. Por exemplo: como eu pronunciaria a palavra “dentais” se não tivesse dentes?
Coelhinho Rosa - Ué, e quem não tem os dentes da frente? Como fala “dentais”?
Sapato Dentuço - Deve dizer “zentais” ou coisa parecida. Mas nunca conversei com alguém sem dentes.
Coelhinho Rosa - Nunca? Nunca ouviu alguém falando algo sem dentadura?
Sapato Dentuço - Lembro de umas sandálias sem dentes. Elas tinham a ponta torta e curvada para dentro.
Coelhinho Rosa – Ué, as sandálias todas não são sem dentes?
Sapato Dentuço - Deve ser por isso que tinham a ponta como eu te disse. Mas não lembro da pronúncia delas direito. Não falavam português bem, talvez por serem havaianas. (Dá risadas com o trocadilho infame, batendo a sola no chão.)
Coelhinho Rosa - Mas, continuando, e por que você é dentuço?
Sapato Dentuço - Você tem alguma coisa contra meus dentes?
Coelhinho Rosa - Não... É que é esquisito um sapato de dentes, ainda mais se for dentuço.
Sapato Dentuço - Você fala dos meus dentes e não comentou nada da minha cueca. Olha, ela está a mostra, é branca e com o “s” do super-homem. Olha aqui, ó.
Coelhinho Rosa (Olhando para o céu.) – Eu não tô com vontade de ver sua cueca, que coisa!
Sapato Dentuço - Olha aqui, ó!
Coelhinho Rosa - Sapato viado...
Sapato Dentuço - Como?
Coelhinho Rosa - Sapato gaiato...
Sapato Dentuço - Mas você não acha estranho eu andar de cueca para fora? Ninguém nunca me pergunta nada sobre isso. Faço para aparecer, mas parece que tá difícil alguém perceber. Só reparam meus dentes.
Coelhinho Rosa - Você usa cueca só para disfarçar os dentes?
Sapato Dentuço - É, mas não adianta.
Coelhinho Rosa - Eu não disse nada para não te dar cadarço. (Ri do trocadilho mal-feito, balançando a pancinha.)
Sapato Dentuço - Pelo menos não adoro um cenourão.
Coelhinho Rosa - Quem disse que coelho só come cenoura? E você, que toda hora te metem o pé todo?
Sapato Dentuço - Viado.
Coelhinho Rosa - Não sou viado.
Sapato Dentuço - Não, é? Você é um coelhinho, que é bicho todo fresco. Para piorar, é todo rosinha. Deve andar rebolando o rabinho todo alegre.
Coelhinho Rosa - Já viu como sou quando encontro uma coelha?
Sapato Dentuço - Tem um monte de gay que finge ser homem.
Coelhinho Rosa - Mas não sou homem, sou coelho!!!
Sapato Dentuço - Além de viadinho, tem mau gosto. Colocar três exclamações numa frase é coisa de filisteu. Aliás, colocar mais de um ponto na frase é coisa bem de filisteu.
Coelhinho Rosa - Ressaltar uma idéia é coisa de filisteu por acaso?
Sapato Dentuço - Começa sempre assim: primeiro ressalta, depois já tá rebolando todo ressaltadinho.
Coelhinho Rosa - Isso não tem nada a ver!!!
Sapato Dentuço - Já começou a por um monte de pontos de novo.
Coelhinho Rosa - Quer dizer, isso não tem nada a ver!
Sapato Dentuço - Melhorou.
Coelhinho Rosa - E você, que é um lambe-chão? Sempre fica se arrastando, que nem um mendigão, no chão imundo. E vez ou outra se mete na merda! E toma esses pontos, toma! (Arremessa umas quatro ou cinco exclamações em qualquer lugar do Sapato, que dá uma mordida no Coelhinho. Este começa a chorar e gritar “ui, ui ui, meu santinho!”, correndo depois para sua toca. O Sapato exprime um ar de vitória e escárnio, de maneira que apenas um sapato dentuço sói fazer. Entretanto, aparece o Anãozinho Todo Janota, chamando a atenção do Sapato Dentuço.)
Anãozinho Todo Janota - Por Allah, que dor de barriga... Nunca mais como pastel naquele chinês... (Percebe o Sapato Dentuço, e sorri.) Este sapato vai servir direitinho de privada! Meu bumbunzinho cabe perfeitamente em sua entrada. (Ajoelha-se, fazendo mil rapapés e salamaleques.) Obrigado, Allah, obrigado!
Sapato Dentuço (Exprimindo todo o inconformismo de sua situação, como igualmente soem fazer os sapatos.) - Droga...
(Caem as cortinas. No fundo, toca "What a wonderful world".)
Coelhinho Rosa (Olhando atentamente para os dentes do Sapato Dentuço.) - Sapato, me responde uma coisa: por que você tem dentes?
Sapato Dentuço - Naturalmente para pronunciar palavras que exijam as dentais. Por exemplo: como eu pronunciaria a palavra “dentais” se não tivesse dentes?
Coelhinho Rosa - Ué, e quem não tem os dentes da frente? Como fala “dentais”?
Sapato Dentuço - Deve dizer “zentais” ou coisa parecida. Mas nunca conversei com alguém sem dentes.
Coelhinho Rosa - Nunca? Nunca ouviu alguém falando algo sem dentadura?
Sapato Dentuço - Lembro de umas sandálias sem dentes. Elas tinham a ponta torta e curvada para dentro.
Coelhinho Rosa – Ué, as sandálias todas não são sem dentes?
Sapato Dentuço - Deve ser por isso que tinham a ponta como eu te disse. Mas não lembro da pronúncia delas direito. Não falavam português bem, talvez por serem havaianas. (Dá risadas com o trocadilho infame, batendo a sola no chão.)
Coelhinho Rosa - Mas, continuando, e por que você é dentuço?
Sapato Dentuço - Você tem alguma coisa contra meus dentes?
Coelhinho Rosa - Não... É que é esquisito um sapato de dentes, ainda mais se for dentuço.
Sapato Dentuço - Você fala dos meus dentes e não comentou nada da minha cueca. Olha, ela está a mostra, é branca e com o “s” do super-homem. Olha aqui, ó.
Coelhinho Rosa (Olhando para o céu.) – Eu não tô com vontade de ver sua cueca, que coisa!
Sapato Dentuço - Olha aqui, ó!
Coelhinho Rosa - Sapato viado...
Sapato Dentuço - Como?
Coelhinho Rosa - Sapato gaiato...
Sapato Dentuço - Mas você não acha estranho eu andar de cueca para fora? Ninguém nunca me pergunta nada sobre isso. Faço para aparecer, mas parece que tá difícil alguém perceber. Só reparam meus dentes.
Coelhinho Rosa - Você usa cueca só para disfarçar os dentes?
Sapato Dentuço - É, mas não adianta.
Coelhinho Rosa - Eu não disse nada para não te dar cadarço. (Ri do trocadilho mal-feito, balançando a pancinha.)
Sapato Dentuço - Pelo menos não adoro um cenourão.
Coelhinho Rosa - Quem disse que coelho só come cenoura? E você, que toda hora te metem o pé todo?
Sapato Dentuço - Viado.
Coelhinho Rosa - Não sou viado.
Sapato Dentuço - Não, é? Você é um coelhinho, que é bicho todo fresco. Para piorar, é todo rosinha. Deve andar rebolando o rabinho todo alegre.
Coelhinho Rosa - Já viu como sou quando encontro uma coelha?
Sapato Dentuço - Tem um monte de gay que finge ser homem.
Coelhinho Rosa - Mas não sou homem, sou coelho!!!
Sapato Dentuço - Além de viadinho, tem mau gosto. Colocar três exclamações numa frase é coisa de filisteu. Aliás, colocar mais de um ponto na frase é coisa bem de filisteu.
Coelhinho Rosa - Ressaltar uma idéia é coisa de filisteu por acaso?
Sapato Dentuço - Começa sempre assim: primeiro ressalta, depois já tá rebolando todo ressaltadinho.
Coelhinho Rosa - Isso não tem nada a ver!!!
Sapato Dentuço - Já começou a por um monte de pontos de novo.
Coelhinho Rosa - Quer dizer, isso não tem nada a ver!
Sapato Dentuço - Melhorou.
Coelhinho Rosa - E você, que é um lambe-chão? Sempre fica se arrastando, que nem um mendigão, no chão imundo. E vez ou outra se mete na merda! E toma esses pontos, toma! (Arremessa umas quatro ou cinco exclamações em qualquer lugar do Sapato, que dá uma mordida no Coelhinho. Este começa a chorar e gritar “ui, ui ui, meu santinho!”, correndo depois para sua toca. O Sapato exprime um ar de vitória e escárnio, de maneira que apenas um sapato dentuço sói fazer. Entretanto, aparece o Anãozinho Todo Janota, chamando a atenção do Sapato Dentuço.)
Anãozinho Todo Janota - Por Allah, que dor de barriga... Nunca mais como pastel naquele chinês... (Percebe o Sapato Dentuço, e sorri.) Este sapato vai servir direitinho de privada! Meu bumbunzinho cabe perfeitamente em sua entrada. (Ajoelha-se, fazendo mil rapapés e salamaleques.) Obrigado, Allah, obrigado!
Sapato Dentuço (Exprimindo todo o inconformismo de sua situação, como igualmente soem fazer os sapatos.) - Droga...
(Caem as cortinas. No fundo, toca "What a wonderful world".)
Saturday, February 12, 2005
Martírio
Um intermezzo nesta última semana pelas plagas cabofrienses me fez relembrar de como já estão distantes os tempos em que um homem cedia gentilmente a passagem a uma mulher. Atualmente este hábito está relegado a seres esquisitões ou proto-mártires da completa barbárie que está por vir - como se já não existisse -, o que dá na mesma.
Por isso, para todos de boa fé que sonham com o retorno da velha e boa monarquia - Ordem - por estas bandas (pleonasmo, porque toda monarquia é velha e boa), termino este texto pondo mais uma vez a foto do czar, que é santo, Nicolau II, mártir da e pela Sua Mãe Rússia, para o qual valem as seguintes palavras do Salmo 21: Eles transpassaram as minhas mãos, e os meus pés; contaram todos os meus ossos; e eles mesmos me estiveram considerando e olhando. Repartiram entre si os meus vestidos, e lançaram sortes sobre minha túnica
Friday, February 04, 2005
Destilando mau-humor sobre o tal do Fórum
Se ser contra a guerra do Iraque não é uma demonstração de canalhice, então pelo menos é de bobismo levado ao extremo, afinal de contas um governante bigodudo salafrário que mandou para os jardins de Allah mais de trezentos mil de seus próprios cidadãos tinha de ser expulso a chutes de uma imensa botina, mais ou menos como acontece em desenhos animados. Aliás, seria ótimo se realmente o chutassem ou o "torturassem" como fizeram com aqueles pobres-diabos que até então eram os temíveis cães-de-guarda do Iraque (por exemplo, fazendo pipi na cabeça dele, o que, convenhamos, é um tapa com luvas de pelica se comparado aos milhares de mortos, mutilações e coisas belas do gênero que ocorriam no Iraque).
Contudo, bobismo maior é esse Fórum Social Mundial. Ingressar naquilo é escrever na própria testa um atestado de, na melhor das hipóteses, bobão. Exatamente isso: bobão. Mais ainda será caso tenha a displicência de viajar milhares de quilômetros para visitar aquilo, como foi o caso de Saramago ou daquele francês enjoado que há anos atrás foi convidado para, a título de cortesia, invadir umas fazendinhas com o MST.
Não sei o número de pessoas que foram ao Fórum, já que minha preocupação com semelhante coisa se retringe apenas em expressar o óbvio, isto é, sua bobice crônica. Mas suponho que muitas pessoas para lá foram. E possivelmente vários jovens brasileiros, sem contar os que não viajaram mas olham para aquilo ao menos com vaga simpatia, comprovando que, por natureza, fomos doutrinados a por nossos bumbuns para o alto e rezar segundo a Meca esquerdóide.
O problema aumenta quando começam a meter a mão em meu bolso para financiar um bando de bobões a se masturbar debaixo do chuveiro ou a andar nus de um lado para o outro. Aliás, não ficou claro se estavam se masturbando juntos ou não, o que não seria nenhuma surpresa. Não interessa. A própria idéia de financiar com dinheiro público algo como o Fórum Social Mundial é um absurdo de fazer o sol, caso tivesse sentimentos, se esconder para sempre de vergonha. Queria ver a reação dos participantes daquele circo se o Estado patrocinasse anualmente um megaencontro da nata da intelectualidade liberal do mundo.
(Breves parênteses: essa história de masturbação me fez lembrar de uma cena d'A Lagoa Azul (aquele filme com a linda Brooke Shields), na qual a mocinha pega o rapazinho se masturbando. Ora, ambos estavam onde muitos considerariam um paraíso natural, isto é, uma ilha tropical sem uma única biblioteca próxima, muito menos um computador - algo similar ao inferno, na pobre opinião deste mais pobre ainda autor. Não há um paralelo evidente entre essa cena e o que aconteceu no FSM, no paraíso esquerdistóide, onde singelas moças viram rapazes com, se o leitor me permite usar uma expressão adaptada aos tempos modernos, a mão na "botija"?)
Ah, cansei de escrever sobre estas bobices. Fiquei com vontade de mudar completamente de assunto (o texto é meu, faço as inversões que eu quiser, rá, rá, rá...) e dizer algo sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço, filme este que esperei uns quatro anos (sem a menor expectativa, por mais estranho que possa parecer) para assistir, e que no final das contas nem gostei muito. Ele passou de madrugada no Corujão, acho que na madrugada de quarta para quinta (dia 3/02?). Mas deixarei para comentar amanhã ou depois que eu voltar de viagem, semana que vêm.
OBS: Acho que está se tornando um hábito deste blog o empurrar textos com a barriga para um futuro incerto... Não se alarmem, não se alarmem. A este assunto pelo menos voltarei logo.
Contudo, bobismo maior é esse Fórum Social Mundial. Ingressar naquilo é escrever na própria testa um atestado de, na melhor das hipóteses, bobão. Exatamente isso: bobão. Mais ainda será caso tenha a displicência de viajar milhares de quilômetros para visitar aquilo, como foi o caso de Saramago ou daquele francês enjoado que há anos atrás foi convidado para, a título de cortesia, invadir umas fazendinhas com o MST.
Não sei o número de pessoas que foram ao Fórum, já que minha preocupação com semelhante coisa se retringe apenas em expressar o óbvio, isto é, sua bobice crônica. Mas suponho que muitas pessoas para lá foram. E possivelmente vários jovens brasileiros, sem contar os que não viajaram mas olham para aquilo ao menos com vaga simpatia, comprovando que, por natureza, fomos doutrinados a por nossos bumbuns para o alto e rezar segundo a Meca esquerdóide.
O problema aumenta quando começam a meter a mão em meu bolso para financiar um bando de bobões a se masturbar debaixo do chuveiro ou a andar nus de um lado para o outro. Aliás, não ficou claro se estavam se masturbando juntos ou não, o que não seria nenhuma surpresa. Não interessa. A própria idéia de financiar com dinheiro público algo como o Fórum Social Mundial é um absurdo de fazer o sol, caso tivesse sentimentos, se esconder para sempre de vergonha. Queria ver a reação dos participantes daquele circo se o Estado patrocinasse anualmente um megaencontro da nata da intelectualidade liberal do mundo.
(Breves parênteses: essa história de masturbação me fez lembrar de uma cena d'A Lagoa Azul (aquele filme com a linda Brooke Shields), na qual a mocinha pega o rapazinho se masturbando. Ora, ambos estavam onde muitos considerariam um paraíso natural, isto é, uma ilha tropical sem uma única biblioteca próxima, muito menos um computador - algo similar ao inferno, na pobre opinião deste mais pobre ainda autor. Não há um paralelo evidente entre essa cena e o que aconteceu no FSM, no paraíso esquerdistóide, onde singelas moças viram rapazes com, se o leitor me permite usar uma expressão adaptada aos tempos modernos, a mão na "botija"?)
Ah, cansei de escrever sobre estas bobices. Fiquei com vontade de mudar completamente de assunto (o texto é meu, faço as inversões que eu quiser, rá, rá, rá...) e dizer algo sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço, filme este que esperei uns quatro anos (sem a menor expectativa, por mais estranho que possa parecer) para assistir, e que no final das contas nem gostei muito. Ele passou de madrugada no Corujão, acho que na madrugada de quarta para quinta (dia 3/02?). Mas deixarei para comentar amanhã ou depois que eu voltar de viagem, semana que vêm.
OBS: Acho que está se tornando um hábito deste blog o empurrar textos com a barriga para um futuro incerto... Não se alarmem, não se alarmem. A este assunto pelo menos voltarei logo.
Thursday, February 03, 2005
Panorama nacional
Os leitores deste blog terão de parar seja lá o que estiverem fazendo para dar uma lida nisso. E avaliem suas respectivas ignorâncias sobre o assunto segundo o grau de estranheza que o texto provocar em vocês.
Eu ia linkar também um texto sobre a Inquisição, mas fica para próxima. Ou, caso acessem o Orkut, procurem pela comunidade Saudades da Inquisição e dêem uma olhadela por lá. Gracias.
Eu ia linkar também um texto sobre a Inquisição, mas fica para próxima. Ou, caso acessem o Orkut, procurem pela comunidade Saudades da Inquisição e dêem uma olhadela por lá. Gracias.
Monday, January 31, 2005
Fechemos o nariz e entremos nas escolas públicas
Fechemos o nariz e entremos nas escolas públicas. Funcionam em prédios abomináveis, projetados por arquitetos de galinheiro a soldo de políticos analfabetos.
Por exemplo, o sofrido e sofrível professor de português. Não ensina mais gramática e literatura. Como ensinar o que não sabe? Ele e seus colegas nunca aprenderam gramática ou literatura, pois estudaram nas piores universidades do mundo, públicas ou privadas — todas muito bem privadas, naquele sentido fétido da coisa.
O vestibular, nas humanidades, não existe mais para premiar o aluno competente, mas para sustentar um negócio da China que começa nos livros didáticos da escola básica e média, passa bem passado pelos cursinhos e termina em gran finale nas próprias universidades.
Selecionar os melhores é elitismo malvado, covardia de bichão-papão. É dever do professor universitário dar as mãos aos desafortunados da sociedade ou da natureza e erguê-los até o próprio nível — o que, aliás, não é muito difícil. Encolhe, cada vez mais, a diferença de conhecimento que sempre houve entre aluno e professor. Nunca um doutoramento foi tão fácil como no Brasil depois da ditadura militar (que teve o honroso mérito de começar a massificação do ensino, brilhantemente continuada pela esquerda peemedebista, peessedebista e petista, que no fundo não passam de farinha do mesmo saco).
Gramática virou sinônimo de torpe repressão burguesa, embora não se usem mais essas palavras do velho e carunchado comunismo. Gramsci ensinou a esquerda a ser mais sutil... A própria Escola de Frankfurt teria um vocabulário mais light para repetir a mesma idéia. Literatura, sobretudo a boa, é disfarce ideológico (no sentido marxista da palavra) — blablablá de intelectuais pequenos burgueses a serviço das classes dominantes. Bom escritor é quem usa linguagem coloquial, em sadia identificação com as massas oprimidas pelo açúcar e o colesterol. Ou quem não usa linguagem alguma, como os concretistas e os minimalistas.
Com a bunda confortavelmente sentada na poltrona multiculturalista, jurando serem iguais todas as culturas e terem o mesmo direito à luz do sol pedagógico — niilismo caridoso —, a inteligência iletrada escreve livros didáticos para aprimorar nos alunos a idéia, mil vezes engolida na tevê, de que uma letra boçal de rap é igual ou superior a um soneto de Camões.
Para usar a linguagem dessa gente: querem excluir a literatura do currículo e incluir o lixo da mídia, expresso segundo a doce cartilha do politicamente correto. Para agradar o aluno, difunde-se todo tipo de besteira, universalmente reduzida a texto. Hoje, tudo é texto. No mesmo nível estão o artigo de jornal, a bula de remédio, a receita de bolo, a letra do Chico e o conto de Machado. O que importa é “ler o texto do mundo”, palavra de ordem dos cursos de letras, propagada no incompreensível dialeto acadêmico pela imbecilidade semiótica, de braço-dado com as sobras requentadas do marxismo ressentido.
Só um Deus pode nos salvar, diria Heidegger. Ou um dilúvio. De preferência, com água sanitária.
(Texto de José Carlos Zamboni, do dia 30 de janeiro. Tem muito texto interessante sobre literatura por lá, visitem, visitem)
Por exemplo, o sofrido e sofrível professor de português. Não ensina mais gramática e literatura. Como ensinar o que não sabe? Ele e seus colegas nunca aprenderam gramática ou literatura, pois estudaram nas piores universidades do mundo, públicas ou privadas — todas muito bem privadas, naquele sentido fétido da coisa.
O vestibular, nas humanidades, não existe mais para premiar o aluno competente, mas para sustentar um negócio da China que começa nos livros didáticos da escola básica e média, passa bem passado pelos cursinhos e termina em gran finale nas próprias universidades.
Selecionar os melhores é elitismo malvado, covardia de bichão-papão. É dever do professor universitário dar as mãos aos desafortunados da sociedade ou da natureza e erguê-los até o próprio nível — o que, aliás, não é muito difícil. Encolhe, cada vez mais, a diferença de conhecimento que sempre houve entre aluno e professor. Nunca um doutoramento foi tão fácil como no Brasil depois da ditadura militar (que teve o honroso mérito de começar a massificação do ensino, brilhantemente continuada pela esquerda peemedebista, peessedebista e petista, que no fundo não passam de farinha do mesmo saco).
Gramática virou sinônimo de torpe repressão burguesa, embora não se usem mais essas palavras do velho e carunchado comunismo. Gramsci ensinou a esquerda a ser mais sutil... A própria Escola de Frankfurt teria um vocabulário mais light para repetir a mesma idéia. Literatura, sobretudo a boa, é disfarce ideológico (no sentido marxista da palavra) — blablablá de intelectuais pequenos burgueses a serviço das classes dominantes. Bom escritor é quem usa linguagem coloquial, em sadia identificação com as massas oprimidas pelo açúcar e o colesterol. Ou quem não usa linguagem alguma, como os concretistas e os minimalistas.
Com a bunda confortavelmente sentada na poltrona multiculturalista, jurando serem iguais todas as culturas e terem o mesmo direito à luz do sol pedagógico — niilismo caridoso —, a inteligência iletrada escreve livros didáticos para aprimorar nos alunos a idéia, mil vezes engolida na tevê, de que uma letra boçal de rap é igual ou superior a um soneto de Camões.
Para usar a linguagem dessa gente: querem excluir a literatura do currículo e incluir o lixo da mídia, expresso segundo a doce cartilha do politicamente correto. Para agradar o aluno, difunde-se todo tipo de besteira, universalmente reduzida a texto. Hoje, tudo é texto. No mesmo nível estão o artigo de jornal, a bula de remédio, a receita de bolo, a letra do Chico e o conto de Machado. O que importa é “ler o texto do mundo”, palavra de ordem dos cursos de letras, propagada no incompreensível dialeto acadêmico pela imbecilidade semiótica, de braço-dado com as sobras requentadas do marxismo ressentido.
Só um Deus pode nos salvar, diria Heidegger. Ou um dilúvio. De preferência, com água sanitária.
(Texto de José Carlos Zamboni, do dia 30 de janeiro. Tem muito texto interessante sobre literatura por lá, visitem, visitem)
Saturday, January 29, 2005
Provérbios
Mulher? Pois faço minhas as palavras do antigo provérbio:
Nem tam fermosa que matte, nem tam fea que espante,
Até porque
A quem tem molher fermosa, castello em fronteira, vinha na carreira, nam lhe falta cançeira.
Mas também não é sempre ruim casar com mulher feia de dar medo (segundo o provérbio, claro...), já que
Quem casa com molher rica e fea, tem ruim cama e boa mesa,
E caso sejas feia, porém pobre, tranqüiliza-te, leitora, pois
Nam há panella tam fea que nam ache seu cobertouro.
Todavia, se por maldade do fado além de feia não fores muito inteligente (tadinha de ti), nem assim tudo está a perder, porque
De noite à candea, a burra parece donzella.
Agora, se o leitor ou a leitora não gostaram do que escrevi, nada poderei fazer, senão concluir tristemente que
Nam ha geraçam, sem rameira ou ladram.
(E se quiserem mais, procurem por 500 provérbios portugueses antigos)
Nem tam fermosa que matte, nem tam fea que espante,
Até porque
A quem tem molher fermosa, castello em fronteira, vinha na carreira, nam lhe falta cançeira.
Mas também não é sempre ruim casar com mulher feia de dar medo (segundo o provérbio, claro...), já que
Quem casa com molher rica e fea, tem ruim cama e boa mesa,
E caso sejas feia, porém pobre, tranqüiliza-te, leitora, pois
Nam há panella tam fea que nam ache seu cobertouro.
Todavia, se por maldade do fado além de feia não fores muito inteligente (tadinha de ti), nem assim tudo está a perder, porque
De noite à candea, a burra parece donzella.
Agora, se o leitor ou a leitora não gostaram do que escrevi, nada poderei fazer, senão concluir tristemente que
Nam ha geraçam, sem rameira ou ladram.
(E se quiserem mais, procurem por 500 provérbios portugueses antigos)
Silogismo de véspera de carnaval
Se moro perto da Marquês de Sapucaí, e todo homem é mortal, então quero minha cota de virgens no Jardim de Allah.
Monday, January 24, 2005
Mais um desconcerto do mundo (prelúdio para um texto maior num futuro incerto)
Que mundo é esse em que as pessoas olham de jeito esquisito quando você diz que gosta de Bach? Ou que, além de olhar esquisito por isso, acharia lindo se você dissesse que adora Chico Buarque ou, se cercado por gente de má catadura, que você admira Mano Brown, Marcelo D2, Charle Brown Jr. e excrescências do gênero? Mais, mais bizarro ainda é se tal situação ocorrer não em meio ao povão - que gosta aliás de coisas menos degradantes em geral -, porém entre aqueles que teoricamente são considerados a elite, o supra-sumo da laranja podre chamada de (des)educação nacional.
Para que o leitor faça uma idéia do descalabro, darei um exemplo: certa vez alguém ficou admirado por eu estar com um cd da ópera Sigfried na mão. "Wagner? Nossa...", o alguém proferiu, e em seguida fez uma cara de quem ficou mui impressionado. "Mas que coisa bizarra", pensei, "que tem de mais isso?" Depois fui notando como em geral a reação de muitos quando eu dizia que ia ao Municipal era a mesma. A carranca era idêntica. E meu pensamento não mudava: "Mas que coisa...". Acontece, porém, que na quase totalidade dos casos isso se dava com gente teoricamente instruída - mais que a média -, e que também teoricamente deveria considerar Sigfried natural. Natural e quase obrigatório (para o bem ou para o mal).
No entanto, esse povo, a maior parte da tal da elite cultural do país, parece se sentir mais à vontade com sua Bossa Nova - ou, no pior dos casos, com aqueles semi-anencéfalos (termo em moda) drogados que se julgam artistas sublimes.
É totalmente constrangedor, num ambiente desses, dizer que adoro por exemplo Bach. Não sou um conhecedor erudito, mas aos olhos da multidão (leia-se: a maior parte da elite cultural do país) passo miraculosamente a sê-lo. Caso então eu diga por extenso e devagar o nome de uma obra sua qualquer(por exemplo, uma cantata que gosto muito, Ach wie flüchtig, ach wie nichtig (Ah, quão fugaz, quão fútil é a vida dos homens, BWV 26)), presumivelmente isso servirá para impressionar duplamente: primeiro, porque é música de Bach, e segundo, porque é alemão, e nomes germânicos (e cultura alemã em geral) costumam causar furor por essas plagas.
Aliás, por falar em Bach, lembrei de um pequeno incidente lamentável: estava eu conversando sobre música com um sujeito teoricamente mais instruído que a média quando, ao ser perguntado sobre que músicas eu costumava ouvir em casa, respondi "Bach". "Hã?", perguntou-me o infeliz, fazendo as caretas de praxe nesse tipo de situação. "Bach", tornei a responder. "Bar? Como assim?", ele ousou dizer. "Bach, o compositor alemão", eu disse meio constrangido. "Nunca ouvi falar", finalizou às tontas, e mudou de assunto.
Nem me darei ao trabalho de citar outros exemplos que comprovam um desconhecimento total, absoluto e esmagador de alguma noção de literatura universal e/ou nacional.
É sobre esse tipo de coisa que estou a reclamar cá convosco, leitor. Sobre gente que passou mais anos que a média na escola, está estudando ou já se formou nas universidades mais prestigiadas do país, mas caminha pelo universo eminentemente humano tradicionalmente alcunhado de "cultura" como se, cego, pisasse em ovos.
Daí que julgo possuir um bom método de avaliação de uma elite de qualquer país: escolha aleatoriamente três ou quatro estudantes das melhores universidades, diga que você adora o Quarteto de cordas em ré menor KV 421, em especial o terceiro movimento, e observe atentamente a reação geral. Se praticamente todos fizerem alguma careta, pode ter certeza, leitor: são brasileiros com orgulho, e não desistem nunca de serem os mocorongos felizes com seu status.
Para que o leitor faça uma idéia do descalabro, darei um exemplo: certa vez alguém ficou admirado por eu estar com um cd da ópera Sigfried na mão. "Wagner? Nossa...", o alguém proferiu, e em seguida fez uma cara de quem ficou mui impressionado. "Mas que coisa bizarra", pensei, "que tem de mais isso?" Depois fui notando como em geral a reação de muitos quando eu dizia que ia ao Municipal era a mesma. A carranca era idêntica. E meu pensamento não mudava: "Mas que coisa...". Acontece, porém, que na quase totalidade dos casos isso se dava com gente teoricamente instruída - mais que a média -, e que também teoricamente deveria considerar Sigfried natural. Natural e quase obrigatório (para o bem ou para o mal).
No entanto, esse povo, a maior parte da tal da elite cultural do país, parece se sentir mais à vontade com sua Bossa Nova - ou, no pior dos casos, com aqueles semi-anencéfalos (termo em moda) drogados que se julgam artistas sublimes.
É totalmente constrangedor, num ambiente desses, dizer que adoro por exemplo Bach. Não sou um conhecedor erudito, mas aos olhos da multidão (leia-se: a maior parte da elite cultural do país) passo miraculosamente a sê-lo. Caso então eu diga por extenso e devagar o nome de uma obra sua qualquer(por exemplo, uma cantata que gosto muito, Ach wie flüchtig, ach wie nichtig (Ah, quão fugaz, quão fútil é a vida dos homens, BWV 26)), presumivelmente isso servirá para impressionar duplamente: primeiro, porque é música de Bach, e segundo, porque é alemão, e nomes germânicos (e cultura alemã em geral) costumam causar furor por essas plagas.
Aliás, por falar em Bach, lembrei de um pequeno incidente lamentável: estava eu conversando sobre música com um sujeito teoricamente mais instruído que a média quando, ao ser perguntado sobre que músicas eu costumava ouvir em casa, respondi "Bach". "Hã?", perguntou-me o infeliz, fazendo as caretas de praxe nesse tipo de situação. "Bach", tornei a responder. "Bar? Como assim?", ele ousou dizer. "Bach, o compositor alemão", eu disse meio constrangido. "Nunca ouvi falar", finalizou às tontas, e mudou de assunto.
Nem me darei ao trabalho de citar outros exemplos que comprovam um desconhecimento total, absoluto e esmagador de alguma noção de literatura universal e/ou nacional.
É sobre esse tipo de coisa que estou a reclamar cá convosco, leitor. Sobre gente que passou mais anos que a média na escola, está estudando ou já se formou nas universidades mais prestigiadas do país, mas caminha pelo universo eminentemente humano tradicionalmente alcunhado de "cultura" como se, cego, pisasse em ovos.
Daí que julgo possuir um bom método de avaliação de uma elite de qualquer país: escolha aleatoriamente três ou quatro estudantes das melhores universidades, diga que você adora o Quarteto de cordas em ré menor KV 421, em especial o terceiro movimento, e observe atentamente a reação geral. Se praticamente todos fizerem alguma careta, pode ter certeza, leitor: são brasileiros com orgulho, e não desistem nunca de serem os mocorongos felizes com seu status.
Sunday, January 23, 2005
Minha história da "estória"
A cada dia que passa mais eu confirmo minha imbecilidade. O leitor pensa que assumo tal coisa com a alma alegre e disposta a encontrar a luz fora da caverna? Engana-se! Em 99,9% dos casos, tenho a vontade de mergulhar num mutismo absoluto e opressivo, mutismo esse que sempre transforme minha cabeça em bigorna para continuamente ressoar quão pobre de alma estou.
Hoje foi um desses dias, o dia que, além de comprovar o que acabei de dizer, também comprovei a lástima de minha educação.
O negócio foi o seguinte: fui passear pelo blog do Ruy Goiaba e li o texto Oh, life is bigger. Até aí tudo bem (o texto, por sinal, é bem legal). Na parte de comentários, ele disse que "estória" era um neologismo bocó e que os dicionaristas não o seguiram. Quem começou com essa história toda foi Guimarães Rosa, e os livros da Ediouro logo divulgaram essa distinção (história/fato e estória/ficção).
Eu fui alfabetizado com o diacho dessa distinção. Lembro bem de uma série de professores comentando sobre ela e inclusive acho que na própria faculdade ouvi algo a respeito. Logo, tudo aquilo me deixou confuso: tratei de pegar meu Dicionário prático ilustrado (1960); não encontrei "estória" nenhuma. Então apelei para o terceiro volume do dicionário do Laudelino Freire (1954): nadica de nada. Então surtei...
Faço questão de lembrar ao leitor que em situações assim eu jamais confio em dicionários de bolso, ainda mais dessas edições recentes.
Demorei um tempinho para voltar ao normal, após ter praguejado (mais uma vez) contra minha (má) formação. Por sinal, paulatinamente vou me tornando uma espécie de gnóstico neste tipo de situação, imaginando que ela, minha formação, foi uma pegadinha feita por alguma divindade malvada apenas para me fazer sofrer nesta débil existência.
Oh vida, meus caros... Cheguei a conclusão que ela é ao menos uma constante limpeza das porcarias do passado. Então, amigos, estou aqui lavando minha roupa suja. E a partir deste dia, onde vocês leram a palavra estória saída destes meus magros dedos, entendam história - e suspensos todos os dispositivos em contrário...
Hoje foi um desses dias, o dia que, além de comprovar o que acabei de dizer, também comprovei a lástima de minha educação.
O negócio foi o seguinte: fui passear pelo blog do Ruy Goiaba e li o texto Oh, life is bigger. Até aí tudo bem (o texto, por sinal, é bem legal). Na parte de comentários, ele disse que "estória" era um neologismo bocó e que os dicionaristas não o seguiram. Quem começou com essa história toda foi Guimarães Rosa, e os livros da Ediouro logo divulgaram essa distinção (história/fato e estória/ficção).
Eu fui alfabetizado com o diacho dessa distinção. Lembro bem de uma série de professores comentando sobre ela e inclusive acho que na própria faculdade ouvi algo a respeito. Logo, tudo aquilo me deixou confuso: tratei de pegar meu Dicionário prático ilustrado (1960); não encontrei "estória" nenhuma. Então apelei para o terceiro volume do dicionário do Laudelino Freire (1954): nadica de nada. Então surtei...
Faço questão de lembrar ao leitor que em situações assim eu jamais confio em dicionários de bolso, ainda mais dessas edições recentes.
Demorei um tempinho para voltar ao normal, após ter praguejado (mais uma vez) contra minha (má) formação. Por sinal, paulatinamente vou me tornando uma espécie de gnóstico neste tipo de situação, imaginando que ela, minha formação, foi uma pegadinha feita por alguma divindade malvada apenas para me fazer sofrer nesta débil existência.
Oh vida, meus caros... Cheguei a conclusão que ela é ao menos uma constante limpeza das porcarias do passado. Então, amigos, estou aqui lavando minha roupa suja. E a partir deste dia, onde vocês leram a palavra estória saída destes meus magros dedos, entendam história - e suspensos todos os dispositivos em contrário...
Friday, January 21, 2005
Vida que insiste em ser vivida
Vida que insiste em ser vivida,
Por que não cessa de uma só vez
Este tormento que me alucina,
Que transtorna minha vista,
Que desmembra meu corpo todo
E, como água, espalha-o no chão
Para me confundir completamente?
De que adianta erguer meu rosto
Para contemplar, admirado, apenas
Um ponto luzente no céu escuro,
Se dele não ouço coisa alguma,
Se um palmo sequer meus olhos vêem,
Se sou atacado por todos os lados
Por uma dúzia de monstros de chifre?
Ah!, se tenho sede - e sede terrível -,
Como posso ao menos dizer algo
Se não sei o que pensar ou mesmo
Para quem me dirigir, e se a idéia,
Que de repente queima minha mente,
Surge confusa na minha garganta
Mas a língua gruda no céu da boca?
A única coisa firme que sinto aqui
É o chão sob meus pés: será que
A vida a ser vivida é um arrastar-se
Perpétuo na relva para, me humilhando
Aos olhos do povo, eu prosseguir
Aos poucos adiante, nunca mais
Ouvindo, enxergando ou falando?
Por que não cessa de uma só vez
Este tormento que me alucina,
Que transtorna minha vista,
Que desmembra meu corpo todo
E, como água, espalha-o no chão
Para me confundir completamente?
De que adianta erguer meu rosto
Para contemplar, admirado, apenas
Um ponto luzente no céu escuro,
Se dele não ouço coisa alguma,
Se um palmo sequer meus olhos vêem,
Se sou atacado por todos os lados
Por uma dúzia de monstros de chifre?
Ah!, se tenho sede - e sede terrível -,
Como posso ao menos dizer algo
Se não sei o que pensar ou mesmo
Para quem me dirigir, e se a idéia,
Que de repente queima minha mente,
Surge confusa na minha garganta
Mas a língua gruda no céu da boca?
A única coisa firme que sinto aqui
É o chão sob meus pés: será que
A vida a ser vivida é um arrastar-se
Perpétuo na relva para, me humilhando
Aos olhos do povo, eu prosseguir
Aos poucos adiante, nunca mais
Ouvindo, enxergando ou falando?
Wednesday, January 19, 2005
Alexander
Se o leitor achou que pelo título eu faria algum comentário geral sobre o filme de Oliver Stone, enganou-se. Pode conseguir coisa assim lendo uma entrevista com um historiador ou comentários de alguém que detestou o filme.
Posso até imaginar alguém se perguntando: Mas então esse sujeito quer escrever sobre o quê? Ora, Aristóteles aparece no filme. E meus ouvidos aguçados iguais a um bicho-que-não-lembro perceberam uma coisa estranha, dessas que só gente neurótica faz questão de perceber e corrigir. Quando em off a voz de Ptolomeu (ele é o narrador do filme) apresenta Aristóteles, diz o seguinte: "(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)", ou coisa parecida. Foi esquisito, mas deixemos por enquanto isso de lado para primeiramente vermos como ficou Aristóteles depois de quase dois mil e trezentos anos após sua morte aqui.
Quem incorporou o Estagirita foi Christopher Plummer, que se não me engano fez A queda do Império Romano. Bom, para quem não sabe, Aristóteles, quando tutor de Alexandre, tinha uns 43 anos anos. Ora, tudo bem que Plummer poderia passar por um Aristóteles mais velho, porém se com aquela idade Aristóteles tinha já cabelo e barba tão branca, além de andar de bengala, então parece que naquela época as pessoas eram mais acabadas. E pior de tudo que ginásios havia para se exercitar, o que talvez demonstre que o pobre Estagirita ou tinha algum problema genético ou, além de ter levado uma vida extremamente sedentária, se rendeu à bebida e às noites áticas em sua juventude, contrariando sua própria Ética e o que aprendeu de Platão. Ou, ainda, parecia que tinha mais de sessenta por causa de um longo desgaste físico devido aos seus fatigantes estudos, o que redimiria seu visual para a história.
Além do problema da velhice precoce, houve aquele outro que citei linhas acima ("(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)"). Quem disse isso foi Ptolomeu (Anthony Hopkins) já bem idoso, o que talvez demonstre que já estava meio esclerosado. A frase é equívoca. O leitor pode justamente se perguntar se Ptolomeu gagá/Hopkins quis dizer que Aristóteles apenas saiu de Atenas para ensinar Alexandre ou se Aristóteles era ateniense, pois era normal no mundo grego as pessoas terem como sobrenome seus locais de nascimento (cidades e aldeias). Porém ambas as hipóteses são falsas. A primeira porque Aristóteles não veio de Atenas, mas de Mitilene, para lecionar a Alexandre (se o leitor tiver curiosidade sobre o assunto, pode ler o Aristóteles, segunda parte, cap.V, de Werner Jaeger ou simplesmente entrar neste site e conferir.); a segunda pelo simples fato de Aristóteles ter nascido na Estagira, pequena cidade na Trácia perto da Macedônia e bem distante de Atenas.
Fora isso, não lembro de mais nada para reclamar sobre a participação do Estagirita no filme. Ao menos por enquanto. É que gente neurótica como eu gosta de esmiuçar tudo nos mínimos detalhes e reclamar sem parar, tanto que estou comentando sobre um personagem que não apareceu nem por dez miseráveis minutos num filme de três horas e que não teve importância quase nenhuma para o enredo. Agora, sobre o filme mesmo, não direi nada, pois basta lembrarmos um Alexandre Magno igual ao Colin Farrell.
Posso até imaginar alguém se perguntando: Mas então esse sujeito quer escrever sobre o quê? Ora, Aristóteles aparece no filme. E meus ouvidos aguçados iguais a um bicho-que-não-lembro perceberam uma coisa estranha, dessas que só gente neurótica faz questão de perceber e corrigir. Quando em off a voz de Ptolomeu (ele é o narrador do filme) apresenta Aristóteles, diz o seguinte: "(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)", ou coisa parecida. Foi esquisito, mas deixemos por enquanto isso de lado para primeiramente vermos como ficou Aristóteles depois de quase dois mil e trezentos anos após sua morte aqui.
Quem incorporou o Estagirita foi Christopher Plummer, que se não me engano fez A queda do Império Romano. Bom, para quem não sabe, Aristóteles, quando tutor de Alexandre, tinha uns 43 anos anos. Ora, tudo bem que Plummer poderia passar por um Aristóteles mais velho, porém se com aquela idade Aristóteles tinha já cabelo e barba tão branca, além de andar de bengala, então parece que naquela época as pessoas eram mais acabadas. E pior de tudo que ginásios havia para se exercitar, o que talvez demonstre que o pobre Estagirita ou tinha algum problema genético ou, além de ter levado uma vida extremamente sedentária, se rendeu à bebida e às noites áticas em sua juventude, contrariando sua própria Ética e o que aprendeu de Platão. Ou, ainda, parecia que tinha mais de sessenta por causa de um longo desgaste físico devido aos seus fatigantes estudos, o que redimiria seu visual para a história.
Além do problema da velhice precoce, houve aquele outro que citei linhas acima ("(...) e trouxe Aristóteles de Atenas para ensinar (...)"). Quem disse isso foi Ptolomeu (Anthony Hopkins) já bem idoso, o que talvez demonstre que já estava meio esclerosado. A frase é equívoca. O leitor pode justamente se perguntar se Ptolomeu gagá/Hopkins quis dizer que Aristóteles apenas saiu de Atenas para ensinar Alexandre ou se Aristóteles era ateniense, pois era normal no mundo grego as pessoas terem como sobrenome seus locais de nascimento (cidades e aldeias). Porém ambas as hipóteses são falsas. A primeira porque Aristóteles não veio de Atenas, mas de Mitilene, para lecionar a Alexandre (se o leitor tiver curiosidade sobre o assunto, pode ler o Aristóteles, segunda parte, cap.V, de Werner Jaeger ou simplesmente entrar neste site e conferir.); a segunda pelo simples fato de Aristóteles ter nascido na Estagira, pequena cidade na Trácia perto da Macedônia e bem distante de Atenas.
Fora isso, não lembro de mais nada para reclamar sobre a participação do Estagirita no filme. Ao menos por enquanto. É que gente neurótica como eu gosta de esmiuçar tudo nos mínimos detalhes e reclamar sem parar, tanto que estou comentando sobre um personagem que não apareceu nem por dez miseráveis minutos num filme de três horas e que não teve importância quase nenhuma para o enredo. Agora, sobre o filme mesmo, não direi nada, pois basta lembrarmos um Alexandre Magno igual ao Colin Farrell.
Sunday, January 16, 2005
Samba do Estagirita
Um dos meus planos para este ano é enfim compor um samba em homenagem ao Estagirita. Faz mais ou menos um ano que planejo isso mas por incompetência não consegui nada mais que este comecinho:
(solta a bateria da minha escola de coração, vai!)
Lá na Estagira, há alguns milênios atrás atrás,
que seria cantado assim:
Lááá na Estagiiiiiira, há alguns milênios a-trááás...
Não consigo desenvolver mais nada. Não sei se é o começo que nasceu ruim ou é o tema que, por natureza, é anti-samba-enredo.
Oh sim, por enquanto não tem nome. E nem sei se terá. Mas, em todo caso, se não sair como samba, há de ser como algum ritmo musical.
(solta a bateria da minha escola de coração, vai!)
Lá na Estagira, há alguns milênios atrás atrás,
que seria cantado assim:
Lááá na Estagiiiiiira, há alguns milênios a-trááás...
Não consigo desenvolver mais nada. Não sei se é o começo que nasceu ruim ou é o tema que, por natureza, é anti-samba-enredo.
Oh sim, por enquanto não tem nome. E nem sei se terá. Mas, em todo caso, se não sair como samba, há de ser como algum ritmo musical.
O Corpo
Juro que tentei com boa vontade assistir O Corpo; não deu. Mal o filme começara e já estava instalado um clima pseudos: uma arqueóloga atéia (Olivia Williams) descobre uma ossada que supostamente seria de Jesus. O Vaticano envia então um jesuíta (Antonio Banderas) para investigar esse acontecimento e ambos, padre e arqueóloga, se vêem metidos numa trama sórdida. Que coisas óbvias provavelmente ocorrerão no filme e que nem precisamos ver o resto para saber?
uno: Discussões do tipo “religião versus ciência”;
duo: Padre posteriormente tendo crise de fé
tres: Arqueóloga também posteriormente tendo crise de fé;
quattuor: Clima entre padre e arqueóloga, etc.
Minha paciência não cessou durante os três minutos iniciais – que geralmente já indicam se um filme é ou não bom –, mas sim num diálogo especialmente bobo entre os protagonistas. Depois do padre apelar inutilmente para a relativização da verdade à arqueóloga (“você tem de enxergar também com minha verdade”, que coisa!), o jesuíta pateticamente disse mais ou menos o seguinte:
- Mas você não pode prosseguir com isso, milhões de pessoas acreditam que Jesus é Deus, isso acabará com a fé delas!
Se um jesuíta argumentasse assim comigo e tivesse suas idéias amparadas pelo Vaticano, julgo que eu escolheria entre duas alternativas: a) me converteria ao islamismo ou judaísmo; b) suporia que tudo aquilo era o prenúncio do fim dos tempos. Convenhamos, ora bolas: um jesuíta enviado especialmente pelo Vaticano defender a fé católica dizendo que seria melhor esconder que o catolicismo era realmente uma mentira para não chocar as pessoas... só faltava depois comentar alegremente sobre o movimento Economia e Humanismo, fundado pelo Pe. Lebret e pelo Pe. Desroches. E se não me engano, Banderas era um padre de El Salvador convertido tardiamente. Bem que não seria estranho se ele inclusive fizesse alguma menção à teologia da libertação...
Essa argumentação singular do jesuíta não deve, presumo, encontrar apoio em nenhuma parte das Escrituras, nem nos Santos Padres e nem na tradição da Igreja. Pois não é humanamente possível que uma religião de dois mil anos, defendida por uma multidão de filósofos, possua suas bases em algo tão chinfrim.
Isso foi o bastante para eu desligar a TV. Aliás, já que o assunto deste texto versa sobre fé, imaginei um filme onde “descobrissem” (como se os estudiosos do assunto já não soubessem) que Galileu, o fundador da ciência experimental, estava completamente errado e a Inquisição certa. Ou um filme sobre a vida de Karl Marx, mostrando, entre outras coisas muito apreciáveis, o episódio em que, malgrado seus protestos contra o tratamento dado pelos patrões às suas domésticas, ele expulsa de casa sua doméstica por tê-la engravidado, ou o episódio em que ele, escrevendo O Capital (refutado há mais de cem anos), percebendo que estatisticamente o proletariado melhorava de vida graças ao capitalismo, utiliza dados de trinta anos antes para supostamente mostrar como eles viviam na miséria.
* * *
Para finalizar, embora eu não tenha lido O Código Da Vinci, a opinião de algumas pessoas que o leram e que julgo inteligentes me fez achar que é mais uma obra pseudos, dessas para ganhar dinheiro às custas da ignorância alheia. Confiando nessa boa gente, tratarei de seguir o conselho de Bismarck – “a gente aprende com erro dos outros” – e procurarei ler o que todo mundo deveria: os clássicos. Entenda o leitor que me refiro a um plano de leitura baseado na educação liberal tal como ensinava Mortimer J. Adler. E isso leva um certo tempo. E se é para perder tempo, que seja com Civilization, embora eu ainda cisme com a civilopédia da segunda versão, onde diz que o comunismo é um ideal nunca realizado na história.
uno: Discussões do tipo “religião versus ciência”;
duo: Padre posteriormente tendo crise de fé
tres: Arqueóloga também posteriormente tendo crise de fé;
quattuor: Clima entre padre e arqueóloga, etc.
Minha paciência não cessou durante os três minutos iniciais – que geralmente já indicam se um filme é ou não bom –, mas sim num diálogo especialmente bobo entre os protagonistas. Depois do padre apelar inutilmente para a relativização da verdade à arqueóloga (“você tem de enxergar também com minha verdade”, que coisa!), o jesuíta pateticamente disse mais ou menos o seguinte:
- Mas você não pode prosseguir com isso, milhões de pessoas acreditam que Jesus é Deus, isso acabará com a fé delas!
Se um jesuíta argumentasse assim comigo e tivesse suas idéias amparadas pelo Vaticano, julgo que eu escolheria entre duas alternativas: a) me converteria ao islamismo ou judaísmo; b) suporia que tudo aquilo era o prenúncio do fim dos tempos. Convenhamos, ora bolas: um jesuíta enviado especialmente pelo Vaticano defender a fé católica dizendo que seria melhor esconder que o catolicismo era realmente uma mentira para não chocar as pessoas... só faltava depois comentar alegremente sobre o movimento Economia e Humanismo, fundado pelo Pe. Lebret e pelo Pe. Desroches. E se não me engano, Banderas era um padre de El Salvador convertido tardiamente. Bem que não seria estranho se ele inclusive fizesse alguma menção à teologia da libertação...
Essa argumentação singular do jesuíta não deve, presumo, encontrar apoio em nenhuma parte das Escrituras, nem nos Santos Padres e nem na tradição da Igreja. Pois não é humanamente possível que uma religião de dois mil anos, defendida por uma multidão de filósofos, possua suas bases em algo tão chinfrim.
Isso foi o bastante para eu desligar a TV. Aliás, já que o assunto deste texto versa sobre fé, imaginei um filme onde “descobrissem” (como se os estudiosos do assunto já não soubessem) que Galileu, o fundador da ciência experimental, estava completamente errado e a Inquisição certa. Ou um filme sobre a vida de Karl Marx, mostrando, entre outras coisas muito apreciáveis, o episódio em que, malgrado seus protestos contra o tratamento dado pelos patrões às suas domésticas, ele expulsa de casa sua doméstica por tê-la engravidado, ou o episódio em que ele, escrevendo O Capital (refutado há mais de cem anos), percebendo que estatisticamente o proletariado melhorava de vida graças ao capitalismo, utiliza dados de trinta anos antes para supostamente mostrar como eles viviam na miséria.
* * *
Para finalizar, embora eu não tenha lido O Código Da Vinci, a opinião de algumas pessoas que o leram e que julgo inteligentes me fez achar que é mais uma obra pseudos, dessas para ganhar dinheiro às custas da ignorância alheia. Confiando nessa boa gente, tratarei de seguir o conselho de Bismarck – “a gente aprende com erro dos outros” – e procurarei ler o que todo mundo deveria: os clássicos. Entenda o leitor que me refiro a um plano de leitura baseado na educação liberal tal como ensinava Mortimer J. Adler. E isso leva um certo tempo. E se é para perder tempo, que seja com Civilization, embora eu ainda cisme com a civilopédia da segunda versão, onde diz que o comunismo é um ideal nunca realizado na história.
Tuesday, January 11, 2005
Do comportamento do público em salas de concerto
Por acaso, pulando de canal em canal, peguei pela metade o Oratório de Natal de Bach. Como elogiar essa obra é querer explicar ao leitor que o fogo queima, digo apenas uma coisa: que a platéia sempre se supera nesse tipo de evento. Ora, imagine só, leitor: numa obra de mais de uma hora, a platéia aplaudindo a cada término de ária ou duo... Nos quinze minutos finais, provavelmente com a mão já em carne viva, o público parou de se intrometer. Ainda bem; imagino que simbolicamente foi Bach que do Céu usava a palmatória naquela gente mal-educada.
Interrupções fora de hora, ao menos em concertos, são coisas de praxe por estas plagas verde-amarelas. Não sei dizer como é lá fora; mas aqui a coisa chega a um nível absurdo. Coisas de brasileiro, coisas de brasileiro...
Já prevendo algumas (más) reações devido a minha simpática alusão aos brasileiros, peço licença para contar algo que eu presenciei com estes olhos muxoxos que a terra há de comer e passar mal: eu e meu amigo Thiago fôramos ao Theatro Municipal (aqui no Rio) assistir a alguns trechos de Beethoven, se não me engano no ano passado ou retrasado. Pois bem, a orquestra tocava o último movimento da Nona, quando, no meio da parte coral, após uns dez minutos, quando o coral silenciava para a entrada do tenor (no verso Und der Cherub steht vor Gott), de repente a platéia veio abaixo. As pessoas começaram a aplaudir freneticamente, provavelmente achando que a música terminara por ali mesmo. É verdade, admito, que aquele trecho é bem empolgante, mas daí interromper a música é demais. Não lembro bem, mas acho que inclusive houve um princípio de u-hu!, que graças aos céus morreu prematuro. Naquele fatídico instante, meu corpo se contraiu de tal maneira e meus olhos, pasmos, procuravam com tal ênfase uma explicação visível para aquilo que possivelmente meu amigo deve ter se assustado comigo. Acho que ele mais tarde até confessou que já ia aplaudir – oh, desejo mimético! -, mas se viu inibido ante minha expressão de horror.
Um público despreparado é sempre imprevisível. Imagine o leitor um tatu-bola que seja perseguido por agentes do FBI munidos daquelas armas que dão choques, e eventualmente acabe por ser acertado uma ou duas vezes: coisa tão esquisita quanto à percepção do público ouvindo a Nona. Veja bem, não estou aqui dizendo que apenas criaturas intelectualizadas têm a capacidade de ouvir Beethoven, mas sim que uma gafe é bem provável caso não estivermos adestrados o suficiente para enfrentar certas situações.
Noutra ocasião, acho que no início do ano passado, também no Municipal, à medida que o coro ia entrando as pessoas aplaudiam. O problema todo era que as pessoas aplaudiam a cada fileira que entrava, pois o coro era grande, o que tornava os aplausos intermináveis: eles iam terminando quando de repente uma nova fileira surgia do nada; então retornava o frisson popular. Evidente que aquilo deu no saco. A impressão que dava é que ninguém agüentava mais aplaudir, mas por uma idiotice qualquer não cessavam. Enfim, até o bom-senso dessa gente não funciona em questão tão prática: se era para aplaudir, que assim fizesse quando o maestro surgisse, reservando a bateção para o final. Fiquei com vontade de tirar meus sapatos e batê-los um no outro para ver se o ridículo da situação fizesse com que o frisson baixasse.
E quanto àqueles pequenos ruídos que o público sempre reserva para o momento imediatamente anterior à execução da música? Barulhos pequenos, porém praticados de maneira tão persistente e sincronizada que julgo não ser de todo temerário supor que em meio ao público se forma, por natureza, neste instante, uma espécie de “orquestra paralela”, provando assim empiricamente que todos os homens são músicos em potencial. Talvez pela ânsia de provar que ainda está vivo, embora calado e em ambiente escuro, o público faz as cadeiras rangerem, sussurra de maneira que todos ouçam, chora – literalmente, conquanto (pelo menos que eu tenha presenciado) apenas as criancinhas –, tosse de forma assustadora, etc. Isso sem contar com um ou outro velho que parece não ligar muito para as convenções sociais e insiste em falar alto, aborrecendo-se quando reprimido. Isso me fez lembrar um conhecido meu, que com seus quase sessenta anos teve a autoridade de me dizer que “esses velhos acham que só porque são velhos podem fazer o que querem” (sic), após ouvir um senhor que lamentavelmente cismava em gritar após o alerta para o início do espetáculo.
Eu ia reclamar de mais algumas coisas a respeito do comportamento do público (quando não é o pessoal do próprio espetáculo que causa vexame: vivem dizendo que em teatro o pessoal da fileira da frente recebe uma ducha de saliva dos atores babões. Isso sem contar os espetáculos ditos de "vanguarda", nos quais o pobre-diabo do espectador paga para ser feito de gato-e-sapato pelos supostos artistas; ou mesmo aqueles pobres miseráveis que pagaram não-sei-quantos-reais para assistir Caetano Veloso sendo despido até ficar com o bumbum murcho de fora. É por essas e outras que não vou ao teatro, já que não costumo pagar para ser tratado, à semelhança dos masoquistas, como um vira-lata pulguento.), porém estes pequenos exemplos bastam para aqueles que já têm uma certa experiência nestas coisas. E para quem não tem, que faça como eu próprio fiz nas primeiras idas ao Municipal: vai acompanhado por alguém mais sábio, e só cometa a audácia de aplaudir não quando a chusma assim o fizer, mas tão-somente quando o sábio assim o fizer.
Marido e mulher deveriam aplicar a base deste princípio em seu relacionamento mútuo, e então seriam para sempre felizes. Mas perdão, leitor, por essa inferência aparentemente desconexa. É um subplot de um futuro texto, tenha paciência...
Interrupções fora de hora, ao menos em concertos, são coisas de praxe por estas plagas verde-amarelas. Não sei dizer como é lá fora; mas aqui a coisa chega a um nível absurdo. Coisas de brasileiro, coisas de brasileiro...
Já prevendo algumas (más) reações devido a minha simpática alusão aos brasileiros, peço licença para contar algo que eu presenciei com estes olhos muxoxos que a terra há de comer e passar mal: eu e meu amigo Thiago fôramos ao Theatro Municipal (aqui no Rio) assistir a alguns trechos de Beethoven, se não me engano no ano passado ou retrasado. Pois bem, a orquestra tocava o último movimento da Nona, quando, no meio da parte coral, após uns dez minutos, quando o coral silenciava para a entrada do tenor (no verso Und der Cherub steht vor Gott), de repente a platéia veio abaixo. As pessoas começaram a aplaudir freneticamente, provavelmente achando que a música terminara por ali mesmo. É verdade, admito, que aquele trecho é bem empolgante, mas daí interromper a música é demais. Não lembro bem, mas acho que inclusive houve um princípio de u-hu!, que graças aos céus morreu prematuro. Naquele fatídico instante, meu corpo se contraiu de tal maneira e meus olhos, pasmos, procuravam com tal ênfase uma explicação visível para aquilo que possivelmente meu amigo deve ter se assustado comigo. Acho que ele mais tarde até confessou que já ia aplaudir – oh, desejo mimético! -, mas se viu inibido ante minha expressão de horror.
Um público despreparado é sempre imprevisível. Imagine o leitor um tatu-bola que seja perseguido por agentes do FBI munidos daquelas armas que dão choques, e eventualmente acabe por ser acertado uma ou duas vezes: coisa tão esquisita quanto à percepção do público ouvindo a Nona. Veja bem, não estou aqui dizendo que apenas criaturas intelectualizadas têm a capacidade de ouvir Beethoven, mas sim que uma gafe é bem provável caso não estivermos adestrados o suficiente para enfrentar certas situações.
Noutra ocasião, acho que no início do ano passado, também no Municipal, à medida que o coro ia entrando as pessoas aplaudiam. O problema todo era que as pessoas aplaudiam a cada fileira que entrava, pois o coro era grande, o que tornava os aplausos intermináveis: eles iam terminando quando de repente uma nova fileira surgia do nada; então retornava o frisson popular. Evidente que aquilo deu no saco. A impressão que dava é que ninguém agüentava mais aplaudir, mas por uma idiotice qualquer não cessavam. Enfim, até o bom-senso dessa gente não funciona em questão tão prática: se era para aplaudir, que assim fizesse quando o maestro surgisse, reservando a bateção para o final. Fiquei com vontade de tirar meus sapatos e batê-los um no outro para ver se o ridículo da situação fizesse com que o frisson baixasse.
E quanto àqueles pequenos ruídos que o público sempre reserva para o momento imediatamente anterior à execução da música? Barulhos pequenos, porém praticados de maneira tão persistente e sincronizada que julgo não ser de todo temerário supor que em meio ao público se forma, por natureza, neste instante, uma espécie de “orquestra paralela”, provando assim empiricamente que todos os homens são músicos em potencial. Talvez pela ânsia de provar que ainda está vivo, embora calado e em ambiente escuro, o público faz as cadeiras rangerem, sussurra de maneira que todos ouçam, chora – literalmente, conquanto (pelo menos que eu tenha presenciado) apenas as criancinhas –, tosse de forma assustadora, etc. Isso sem contar com um ou outro velho que parece não ligar muito para as convenções sociais e insiste em falar alto, aborrecendo-se quando reprimido. Isso me fez lembrar um conhecido meu, que com seus quase sessenta anos teve a autoridade de me dizer que “esses velhos acham que só porque são velhos podem fazer o que querem” (sic), após ouvir um senhor que lamentavelmente cismava em gritar após o alerta para o início do espetáculo.
Eu ia reclamar de mais algumas coisas a respeito do comportamento do público (quando não é o pessoal do próprio espetáculo que causa vexame: vivem dizendo que em teatro o pessoal da fileira da frente recebe uma ducha de saliva dos atores babões. Isso sem contar os espetáculos ditos de "vanguarda", nos quais o pobre-diabo do espectador paga para ser feito de gato-e-sapato pelos supostos artistas; ou mesmo aqueles pobres miseráveis que pagaram não-sei-quantos-reais para assistir Caetano Veloso sendo despido até ficar com o bumbum murcho de fora. É por essas e outras que não vou ao teatro, já que não costumo pagar para ser tratado, à semelhança dos masoquistas, como um vira-lata pulguento.), porém estes pequenos exemplos bastam para aqueles que já têm uma certa experiência nestas coisas. E para quem não tem, que faça como eu próprio fiz nas primeiras idas ao Municipal: vai acompanhado por alguém mais sábio, e só cometa a audácia de aplaudir não quando a chusma assim o fizer, mas tão-somente quando o sábio assim o fizer.
Marido e mulher deveriam aplicar a base deste princípio em seu relacionamento mútuo, e então seriam para sempre felizes. Mas perdão, leitor, por essa inferência aparentemente desconexa. É um subplot de um futuro texto, tenha paciência...
Saturday, December 04, 2004
A comovovente história do gordo que queria ser ator mas que não passava de uma máquina de lavar
O gordo se olhou no espelho e, com as mãos no rosto, exclamou:
-- Pelos deuses, pelos deuses... Por que não consigo ser ator de verdade? -- e logo em seguida passou o dedo indicador no umbigo só para sentir cosquinha e rir de si mesmo.
Para o (seu) cúmulo, o máximo que conseguira até então foi atuar em comerciais, porém sempre como um objeto inanimado. Aquilo o frustrava demais. Sua maior "fala" foi quando interpretou uma máquina de lavar, produzindo, por uns dez minutos (quatro segundos na edição) um barulho parecido com vvvvvvrrrrruuummmmm, chop, chop, chop, sendo inclusive aplaudido pela crítica. Continuava figura anônima, todavia, mas seus amigos sempre pediam para que interpretasse novamente a máquina de lavar, proposta que muito gentilmente declinava.
O gordo já estava cansado daquilo tudo. "Posso ser mais", pensava ele com inacreditável confiança em si mesmo, "bem mais que uma maldita máquina de lavar". Por um lado, isso até era verdade: já interpretara uma mesa. Mas ele queria ser mais que apenas um móvel ou um eletrodoméstico.
E o tempo lhe foi generoso, dando-lhe um pequeno papel numa sitcom (o leitor há de convir que não importa saber em qual programa o gordo foi atuar; o que importa é que diria enfim alguma coisa que não só onomatopéias). Logo no primeiro dia de filmagens, porém, ocorreu um bizarro incidente: enquanto ele, num canto, meditava acerca de sua participação, alguém lhe arremessou uma roupa encardida. O gordo riu, julgando ser aquilo uma espécie de trote; mas na segunda vez, terceira e dali por diante, sempre que ele estava no set, num cantinho, as pessoas continuavam a lhe arremessar roupas encardidas. Isso sem contar as vezes em que no meio da gravação o diretor, com um charuto no canto da boca, apontava para ele e berrava:
-- De novo largaram esse bagulho no meio do set! Ô produção, faz o favor de tirar isso daí! -- e lá ia o gordo explicar que o "bagulho" era ele próprio, o que levava sempre o diretor a dizer "chucrute, mil perdões!"
A situação foi aos poucos se tornando intolerável. Os atores o ignoravam, alegando que não viam ninguém à sua frente, exceto uma mesa, um pequeno armário ou, como de praxe, uma máquina de lavar. E, enfim, o diretor foi lhe fazer um pedido:
-- Olha, você até que está bem no papel, mas seria melhor ainda se interpretasse, sei lá, uma máquina de lavar... Que tal uma máquina de lavar, hein?
Ao ouvir tal proposta, o gordo perdeu o controle de si mesmo e, parecido com o uso habitual nos tempos dos Patriarcas de Israel, rasgou sua própria camisa, entre insultos dirigidos ao diretor -- insultos os quais deixo a cargo da imaginação pérfida do leitor. Atirou-se ao chão, rolando de um lado para o outro, ao mesmo tempo em que não parava de chorar.
O diretor, comovido, começou a lhe falar de modo suave:
-- Meu amigo, você tem de entender que não dá para se revoltar contra aquilo que se é. Você nasceu com um talento que ninguém tem. Nunca vi uma pessoa que se passasse tão bem por uma máquina de lavar.
O gordo se acalmava. Ergueu-se pesadamente, com o cabelo desalinhado, pança e rosto meio sujos, sentou-se e apenas soluçava. Então o diretor retirou do bolso dois charutos, oferecendo um ao triste homem, que muito gentilmente declinou. Tratou de acender o seu e, sorrindo, com uma mão no ombro do infeliz, continuou:
-- Você nasceu com um dom! Olha, para você ter idéia, juro por Deus que se eu estivesse distraído agorinha, agorinha, jogaria minha maldita cueca que está para lavar na tua cabeça! Você não faz idéia do que tem, não faz idéia, não faz...
-- Diretor, respondeu o gordo, obrigado, muito mesmo!
-- Oh, gordo...
-- Oh, diretor!
Ambos se abraçaram, emocionadíssimos, e só não se beijaram porque semelhante ato repugnava-lhes a natureza. Alguns que passavam perto daquela cena comovedora estranharam o fato de o diretor estar falando aparentemente com um armário, abraçando-o e chorando. "Já vi que hoje será um daqueles dias", pensou alguém.
E assim, investindo em seu próprio talento e com o auxílio do diretor, o gordo decolou em sua carreira. Tal foi seu sucesso que no Oscar chegaram a inventar a categoria melhor ator/atriz parecido com um móvel e/ou eletrodoméstico. Sylvester Stallone e Tom Cruise ganharam, é verdade, em certas ocasiões. Mas o gordo era quase imbatível, levando muitas estatuetas para sua luxuosa mansão, alcançando glória e opulência. E viveu em felicidade até o fim de seus dias.
-- Pelos deuses, pelos deuses... Por que não consigo ser ator de verdade? -- e logo em seguida passou o dedo indicador no umbigo só para sentir cosquinha e rir de si mesmo.
Para o (seu) cúmulo, o máximo que conseguira até então foi atuar em comerciais, porém sempre como um objeto inanimado. Aquilo o frustrava demais. Sua maior "fala" foi quando interpretou uma máquina de lavar, produzindo, por uns dez minutos (quatro segundos na edição) um barulho parecido com vvvvvvrrrrruuummmmm, chop, chop, chop, sendo inclusive aplaudido pela crítica. Continuava figura anônima, todavia, mas seus amigos sempre pediam para que interpretasse novamente a máquina de lavar, proposta que muito gentilmente declinava.
O gordo já estava cansado daquilo tudo. "Posso ser mais", pensava ele com inacreditável confiança em si mesmo, "bem mais que uma maldita máquina de lavar". Por um lado, isso até era verdade: já interpretara uma mesa. Mas ele queria ser mais que apenas um móvel ou um eletrodoméstico.
E o tempo lhe foi generoso, dando-lhe um pequeno papel numa sitcom (o leitor há de convir que não importa saber em qual programa o gordo foi atuar; o que importa é que diria enfim alguma coisa que não só onomatopéias). Logo no primeiro dia de filmagens, porém, ocorreu um bizarro incidente: enquanto ele, num canto, meditava acerca de sua participação, alguém lhe arremessou uma roupa encardida. O gordo riu, julgando ser aquilo uma espécie de trote; mas na segunda vez, terceira e dali por diante, sempre que ele estava no set, num cantinho, as pessoas continuavam a lhe arremessar roupas encardidas. Isso sem contar as vezes em que no meio da gravação o diretor, com um charuto no canto da boca, apontava para ele e berrava:
-- De novo largaram esse bagulho no meio do set! Ô produção, faz o favor de tirar isso daí! -- e lá ia o gordo explicar que o "bagulho" era ele próprio, o que levava sempre o diretor a dizer "chucrute, mil perdões!"
A situação foi aos poucos se tornando intolerável. Os atores o ignoravam, alegando que não viam ninguém à sua frente, exceto uma mesa, um pequeno armário ou, como de praxe, uma máquina de lavar. E, enfim, o diretor foi lhe fazer um pedido:
-- Olha, você até que está bem no papel, mas seria melhor ainda se interpretasse, sei lá, uma máquina de lavar... Que tal uma máquina de lavar, hein?
Ao ouvir tal proposta, o gordo perdeu o controle de si mesmo e, parecido com o uso habitual nos tempos dos Patriarcas de Israel, rasgou sua própria camisa, entre insultos dirigidos ao diretor -- insultos os quais deixo a cargo da imaginação pérfida do leitor. Atirou-se ao chão, rolando de um lado para o outro, ao mesmo tempo em que não parava de chorar.
O diretor, comovido, começou a lhe falar de modo suave:
-- Meu amigo, você tem de entender que não dá para se revoltar contra aquilo que se é. Você nasceu com um talento que ninguém tem. Nunca vi uma pessoa que se passasse tão bem por uma máquina de lavar.
O gordo se acalmava. Ergueu-se pesadamente, com o cabelo desalinhado, pança e rosto meio sujos, sentou-se e apenas soluçava. Então o diretor retirou do bolso dois charutos, oferecendo um ao triste homem, que muito gentilmente declinou. Tratou de acender o seu e, sorrindo, com uma mão no ombro do infeliz, continuou:
-- Você nasceu com um dom! Olha, para você ter idéia, juro por Deus que se eu estivesse distraído agorinha, agorinha, jogaria minha maldita cueca que está para lavar na tua cabeça! Você não faz idéia do que tem, não faz idéia, não faz...
-- Diretor, respondeu o gordo, obrigado, muito mesmo!
-- Oh, gordo...
-- Oh, diretor!
Ambos se abraçaram, emocionadíssimos, e só não se beijaram porque semelhante ato repugnava-lhes a natureza. Alguns que passavam perto daquela cena comovedora estranharam o fato de o diretor estar falando aparentemente com um armário, abraçando-o e chorando. "Já vi que hoje será um daqueles dias", pensou alguém.
E assim, investindo em seu próprio talento e com o auxílio do diretor, o gordo decolou em sua carreira. Tal foi seu sucesso que no Oscar chegaram a inventar a categoria melhor ator/atriz parecido com um móvel e/ou eletrodoméstico. Sylvester Stallone e Tom Cruise ganharam, é verdade, em certas ocasiões. Mas o gordo era quase imbatível, levando muitas estatuetas para sua luxuosa mansão, alcançando glória e opulência. E viveu em felicidade até o fim de seus dias.
Friday, December 03, 2004
Bravo mundo
Joana era uma dessas pessoas que, segundo alguns, é conscientizada. Lê demais, e tudo que chega em suas mãos ela devora em dois, três dias de leitura.
É uma moça jovem, de futuro promissor na nação. Além do mais, talvez por sua postura conscientizada, ela é, segundo outros, acima de tudo lésbica. Sim, lésbica über alles. E por sua tendência em criar discussões, ela sempre foi, quanto a isto, uma pessoa exemplar – exemplar em buscar todo e qualquer tipo de argumento para defender sua causa.
Joana era, por isso mesmo, uma pessoa bastante peculiar. Não lhe interessava se nas suas discussões ela se batia contra dois mil anos de tradição cristã, ou mais de três mil de judaica, ou toda a filosofia grega, em suma, tudo o que constitui a razão de ser do Ocidente. Não, ela nem pensava em nada disso, preferia antes arremessar todo este legado na lata do lixo que ao menos cogitar acerca de suas paixões irracionais corpóreas. Pois tudo se resume a apenas essa dicotomia, segundo a mente de Joana: todos os escritos dos Santos Padres, acrescentados aos de muitos papas, filósofos e ensaístas, que no total dariam uma quantidade de páginas tão volumosa que apenas em muitas vidas alguém obteria seu pleno conhecimento, contra seu discurso pela liberdade e sua vontade e seu empenho em se fazer aceita – e quem ela julgava participar de sua mesma condição, ainda que às custas deste mesmo legado.
***
Renato era praticante da poligamia. Considerava-se também, sob muitos aspectos, bastante inteligente: afinal de contas, lia sem parar, vinha de família abastada – conquanto ele não fosse, é verdade, uma pessoa esnobe – e já se acostumara a esmagar aquilo que ele próprio chamava de “mediocridade reinante”, isto é, refutar de trás para frente e de frente para trás todo e qualquer tipo de argumento que fosse contrário ao seu peculiar estilo de vida.
Era uma pessoa agradável, simpática e gostava muito de escrever, já tendo publicado, com menos de trinta anos, dois romances, ambos sobre os problemas que a monogamia proporciona à nossa felicidade (melhor seria dizer “à dele”). Foi bem recebido pela crítica, e de fato era muito bem escrito e argumentado. Mas ele caía no mesmo problema que Joana: por trás de todo seu talento ele buscava no fundo se justificar e a todos aqueles que praticavam o que ele próprio praticava às custas de todo um mar de gênios que, desde Moisés até nossos dias, defendem a monogamia. Na verdade, o ataque deste nosso jovem talento, que começava apenas neste pequeno aspecto, isto é, na questão do amor livre, aos poucos se alastrava para um ataque à Bíblia, à filosofia, à sociedade e tudo o que ele considerava como oposto à liberdade (melhor seria dizer “à sua liberdade”). De repente, ele se tornara não apenas um apologista de uma pretensa liberdade, mas um verdadeiro carrasco do tal “legado judaico-cristão”. “Tradição, dizia Renato, nada mais é que máscara e hipocrisia”.
***
Por último, Tereza. Ela é mais uma jovem talentosa – possui apenas 21 anos. Tão jovem, ela é bastante confiante em si mesma, a ponto de dizer que nunca fez algo que se arrependesse. Curiosa opinião! Além do mais, ela é dada a discussões, como Joana. Mas – outra coisa curiosa – ela buscava sempre julgar pessoas e acontecimentos segundo os motivos mais licenciosos possíveis. Por exemplo, se alguém fizesse algo bom, na verdade havia algo de podre por trás. Daí que ela não podia conceber Cristo, que morreu na cruz para apenas nos salvar. Muito menos, ela mesma dizia, era possível levar a sério a hipótese de alguém ir à guerra por razões de honra, como é o caso atual dos EUA.
Tereza não podia conceber que no mundo há gente realmente idônea, ela sempre via algo por trás. Era com verdadeiro prazer, quase sádico, que ela gostava de desmascarar o que chamava de “pseudo-heróis e fatos deturpados”. Ela, Tereza, com seus 21 anos, parecia ter sido escolhida por Deus para fazer revelações ao mundo: parecia até mesmo que o mundo esperou quase cinco mil anos para que ela surgisse e o livrasse da imbecilidade e do erro. Provavelmente ela estranharia essa opinião minha, afinal de contas, segundo ela mesma, nenhuma criatura razoavelmente inteligente pode mais acreditar em Deus.
É uma moça jovem, de futuro promissor na nação. Além do mais, talvez por sua postura conscientizada, ela é, segundo outros, acima de tudo lésbica. Sim, lésbica über alles. E por sua tendência em criar discussões, ela sempre foi, quanto a isto, uma pessoa exemplar – exemplar em buscar todo e qualquer tipo de argumento para defender sua causa.
Joana era, por isso mesmo, uma pessoa bastante peculiar. Não lhe interessava se nas suas discussões ela se batia contra dois mil anos de tradição cristã, ou mais de três mil de judaica, ou toda a filosofia grega, em suma, tudo o que constitui a razão de ser do Ocidente. Não, ela nem pensava em nada disso, preferia antes arremessar todo este legado na lata do lixo que ao menos cogitar acerca de suas paixões irracionais corpóreas. Pois tudo se resume a apenas essa dicotomia, segundo a mente de Joana: todos os escritos dos Santos Padres, acrescentados aos de muitos papas, filósofos e ensaístas, que no total dariam uma quantidade de páginas tão volumosa que apenas em muitas vidas alguém obteria seu pleno conhecimento, contra seu discurso pela liberdade e sua vontade e seu empenho em se fazer aceita – e quem ela julgava participar de sua mesma condição, ainda que às custas deste mesmo legado.
***
Renato era praticante da poligamia. Considerava-se também, sob muitos aspectos, bastante inteligente: afinal de contas, lia sem parar, vinha de família abastada – conquanto ele não fosse, é verdade, uma pessoa esnobe – e já se acostumara a esmagar aquilo que ele próprio chamava de “mediocridade reinante”, isto é, refutar de trás para frente e de frente para trás todo e qualquer tipo de argumento que fosse contrário ao seu peculiar estilo de vida.
Era uma pessoa agradável, simpática e gostava muito de escrever, já tendo publicado, com menos de trinta anos, dois romances, ambos sobre os problemas que a monogamia proporciona à nossa felicidade (melhor seria dizer “à dele”). Foi bem recebido pela crítica, e de fato era muito bem escrito e argumentado. Mas ele caía no mesmo problema que Joana: por trás de todo seu talento ele buscava no fundo se justificar e a todos aqueles que praticavam o que ele próprio praticava às custas de todo um mar de gênios que, desde Moisés até nossos dias, defendem a monogamia. Na verdade, o ataque deste nosso jovem talento, que começava apenas neste pequeno aspecto, isto é, na questão do amor livre, aos poucos se alastrava para um ataque à Bíblia, à filosofia, à sociedade e tudo o que ele considerava como oposto à liberdade (melhor seria dizer “à sua liberdade”). De repente, ele se tornara não apenas um apologista de uma pretensa liberdade, mas um verdadeiro carrasco do tal “legado judaico-cristão”. “Tradição, dizia Renato, nada mais é que máscara e hipocrisia”.
***
Por último, Tereza. Ela é mais uma jovem talentosa – possui apenas 21 anos. Tão jovem, ela é bastante confiante em si mesma, a ponto de dizer que nunca fez algo que se arrependesse. Curiosa opinião! Além do mais, ela é dada a discussões, como Joana. Mas – outra coisa curiosa – ela buscava sempre julgar pessoas e acontecimentos segundo os motivos mais licenciosos possíveis. Por exemplo, se alguém fizesse algo bom, na verdade havia algo de podre por trás. Daí que ela não podia conceber Cristo, que morreu na cruz para apenas nos salvar. Muito menos, ela mesma dizia, era possível levar a sério a hipótese de alguém ir à guerra por razões de honra, como é o caso atual dos EUA.
Tereza não podia conceber que no mundo há gente realmente idônea, ela sempre via algo por trás. Era com verdadeiro prazer, quase sádico, que ela gostava de desmascarar o que chamava de “pseudo-heróis e fatos deturpados”. Ela, Tereza, com seus 21 anos, parecia ter sido escolhida por Deus para fazer revelações ao mundo: parecia até mesmo que o mundo esperou quase cinco mil anos para que ela surgisse e o livrasse da imbecilidade e do erro. Provavelmente ela estranharia essa opinião minha, afinal de contas, segundo ela mesma, nenhuma criatura razoavelmente inteligente pode mais acreditar em Deus.
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