Sunday, July 23, 2006

Mulheres com quem vale a pena se casar: Selma Blair

Na última sexta-feira passou na Warner Legalmente Loira. O filme era engraçado, mas não vi todo porque calhou que no mesmo horário passava meu tradicional Friday Night Fights. Se o leitor não conhece, é a tradicional noitada de boxe da ESPN de sexta. (Há também o Wednesday Night Fights - ou Miércoles de Combates, dependendo de quem apresenta.) Mas o que me interessou mesmo no filme foi que apareceu uma das moças mais bonitas do mundo. Ela se chama Selma Blair.



Não sei como eu havia me esquecido dela! Vi um filme dela que não me lembro mais qual. Só lembro que ela era uma fumante. Trabalhava acho que numa empresa. Bom, que importa? Ela podia ser até vendedora de caneta no ônibus. Pena que sou duro, porque se dependesse de mim, aqui haveria uma coleção de canetas.

Bom, se o leitor ainda não percebeu, este texto é mais para encher lingüiça. Pois quem lá vai preferir ler um monte de coisas ao invés de ficar olhando para uma das moças mais bonitas do mundo, que é Selma Blair? Compare este post com o de baixo e adivinha qual que mais agrada de cara. E vou colocar agora mais uma foto logo abaixo de uma das moças mais bonitas do mundo, Selma Blair. Você não vai mais esquecer esse nome, não é?




Com essa não vale se casar?





Ok, não resisti. Mais uma aqui ao lado. Só não vale ter inveja, leitora. Admita, tenha bom gosto. Não te esqueça daquela história do belo ter valor trascendental, etc. Ainda mais quando vemos uma das moças mais bonitas do mundo, Selma Blair.

Saturday, July 22, 2006

Senso poético

Nota: O texto é de meados do ano passado, mas eu o reescrevi quase todo hoje.

Em certo post, Ruy Maia Freitas, do ótimo Despoina Damale, disse algo sobre a importância do senso poético. Curiosamente, eu também havia pensado sobre isso, porém em termos um pouco diferentes. Talvez alguém ache até mesmo inusitado o que direi.

Que eu seja cobrado pelo mais empedernido leitor: que raios eu quero dizer? Vou dar um exemplo que parecerá muito, muito idiota, mas não o é – creia em mim. Digamos que eu, ou mesmo você, faça uma troça ingênua sobre determinado assunto, por exemplo o teatro, afirmando que seria menos pior ele não existir a ser cuspido o tempo todo na platéia. Muito bem. Vamos continuar dando asas à imaginação e suponhamos que um sujeito de humor um tanto canhestro, tendo ouvido a troça, resolva logo em seguida explicar passo a passo a grandeza e o esplendor do teatro, cite de cor inclusive a Poética, explique direitinho a história da tragédia, sua relevância para o homem, tudo sem nunca deixar de cobrar exatidão filosofia e quiçá escolástica sobre os conceitos empregados na troça, etc, etc. Ótimo, ninguém duvidaria que quem nos respondesse assim não é uma pessoa de todo mal-informada: quantos seriam aqueles que leram a Poética e algo da escolástica? No entanto, e farei uma comparação com a música, é evidente que houve uma desafinação aqui, porque o que eu – ou você – disse com determinado tipo de espírito, em tom de pura galhofa, o nosso amigo entendeu de outra forma ou não conseguiu manter a conversa no mesmo tom.

Nem discutamos se o sujeito é ou não pedante, ainda que pareça que sim. O problema todo é a maneira com que o nosso caro e suposto amigo encarou a circunstância. Mesmo tendo razão e mesmo tendo o direito de cobrar maiores explicações, o fato é que a situação não exigia de maneira alguma tal tipo de postura. Não sei se o que quero dizer ficará mais claro ou obscuro com a analogia que direi a seguir, mas é como se ele exigisse uma visão escolástica de uma intuição mística, o que seria absurdo. Claro que aqui no exemplo nem há mística ou escolástica, mas fazer cobranças desse tipo naquela circunstância é falta de senso poético. A resposta correta deveria vir mais ou menos na mesma clave. É como se cobrássemos – mais uma analogia – de alguém que contou para a gente uma piada de judeu exatidões filosófico-históricas a fim de provar que a piada não faz jus aos judeus.

Encarar as coisas sem o menor espírito desportivo - espécie de variante do senso poético – é uma característica de duas classes de seres: os animais e os loucos. Sim, os animais, porque afinal de contas alguém já viu um animal irônico ou, fazendo aqui uma concessão a um leitor louco o suficiente para ainda teimar, pelo menos irônico de propósito? Quanto aos loucos, não é difícil entender o motivo: eles encaram tudo de maneira racional demais, colocam a razão acima de tudo, o que naturalmente leva qualquer um à demência. Já dizia Chesterton: O doido é o homem que perdeu tudo, exceto a razão. Alguém lelé da cuca necessita de uma explicação sumamente racional para tudo justamente porque perdeu todo o senso poético do mundo. É sempre assim: começa elogiando até o exagero a ciência e a razão, depois não entende mais as razões das pessoas darem um simples “bom dia” umas às outras, acaba acreditando piamente em toda uma série de disparates (apoiados no que ele chama de ciência), até que, no fim, caso ele seja coerente consigo mesmo, termine seus dias num hospício. Daí haver duas classes de loucos: a daqueles que de fato vão parar no hospício achando que vivem no passado, em outro planeta e demais coisas intrigantes do gênero, e a de alguns intelectuais. A diferença de um doido que está no hospício e alguns intelectuais é que estes não têm coragem de levar suas idéias até as últimas conseqüências. Mas vez ou outra aparece algum mais corajoso e que vira lenda. O exemplo que me vem à mente é o de Empédocles. Segundo uma anedota, após ter salvado os selinúncios de uma grave peste, Empédocles, durante um banquete em comemoração do fim daquela desgraça, foi honrado pelos habitantes da cidade como se fosse um deus. O sábio então teve a esdrúxula idéia de comprovar a opinião dos selinúncios jogando-se dentro de um vulcão ali próximo, o famoso Etna. Segundo alguns, o vulcão logo em seguida cuspiu uma de suas sandálias de bronze que ele costumava calçar. Bom, se dermos crédito à história, temos um belo exemplo de uma falta completa de senso poético, embora o cronista desconhecido tenha introduzido o elemento faltante na conclusão do episódio, ressaltando ainda mais o caso insólito. A falta de senso poético do filósofo fica então compensada com a ironia do cronista. O pobre Empédocles levou toda a história a ferro e fogo, até literalmente no caso do fogo e menos literalmente em relação ao bronze. Mas longe de ele ser um caso isolado dentre os intelectuais que embirutaram. Há pelo menos cerca de trezentos anos parece que alguém resolveu deixar que os loucos publicassem fartamente suas “reflexões”, muito embora, a bem da verdade, eu tenha de admitir que a loucura pareça rondar a vida de qualquer intelectual desavisado.

Um dos mais curiosos e badalados subtipos de intelectuais loucos é o cético materialista. Este de fato não consegue nem mesmo entender como é possível gostar de um poema, isso quando pelo menos o compreende ou imagina compreendê-lo. Note o leitor que não me refiro simplesmente àquele pasmo inicial daquele que ignora algo que de repente aparece na sua frente. Me refiro ao sujeito que só acha que algo está cabalmente explicado quando demonstrado quase de modo físico-matemático, científico. O louco que escolho para ilustrar este exemplo é Karl Marx. Dizem que ele gostava bastante de literatura, em especial a Ilíada. Mas vejam só que coisa curiosa. Ele ficava se perguntando como era possível gostar tanto de um poema feito num modo de produção tão diverso do seu. Santo Cristo! Ele tinha que encaixar o bendito livro que tanto gostava em seu modo de conceber o mundo mas simplesmente não conseguia. Se os fatos contradizem minhas teorias, pior para os fatos, já disse um outro intelectual tantã. Tivesse Marx pensado suficientemente bem apenas sobre este pequeno exemplo e talvez nunca mais viesse com aquelas histórias sobre a cultura ser uma espécie de vestimenta enganadora de uma realidade mais profunda, a saber, a senhora economia e a luta de classes. E não faltam pessoas que raciocinam mais ou menos por este esquema, o qual muitos chamam de “científico” (lembremos mais uma vez daquela frase, “o doido é o homem que perdeu tudo, exceto a razão”): gente que acha que os genes, o sexo, a linguagem e demais excentricidades explicam absolutamente tudo da vida humana. Sim, excentricidades, termo muito próprio, porque tais coisas, embora façam parte de nós, não são de modo algum a gente; é como se vivêssemos através delas, ou mediante elas, embora em última instância sejamos anteriores a elas, que são só a nossa roupagem: são a nossa epiderme. Assim, o sujeito é biruta porque pensa que a nossa vida é tão somente o superficial. Mas a realidade, como não poderia deixar de ser, se apresenta lotada de apesares. Quando o indivíduo é confrontado com eles (os apesares teimam em aparecer), ele então sobe no caixotinho escrito Raison, bate no peito estufado e diz, todo categórico: “Eles não existem! Eles não existem! Vocês estão todos loucos! Loucos!”

O mundo do doido, embora pareça ser todo bem-amarradinho, todo explicadinho, é de um brutal desleixo. Tudo, tudo que é muito bem explicado só o é porque deixou alguma coisa de fora. A simplicidade se faz às custas dos elementos indesejados. É verdade que a ciência opera mais ou menos assim, porém há sempre um limite claro. O físico sabe (ou deveria saber) que seu afazer, embora nobre e valiosíssimo, não esgota todas as possibilidades da realidade. O que não está na alçada da Física, que outra ciência busque explicar. E assim por diante. Acontece que o doido é por natureza destemperado. Então vai andar por cima de tudo como um rolo compressor. Se algo não se encaixa em seu mundo, então é porque não presta. O cético materialista sempre passa uma sensação enorme de aridez mental, de uma pobreza franciscana tremenda, mesmo sendo aparentemente um sujeito bem-informado e instruído. Na verdade, parece demais com um daqueles sujeitos pobres e muito mal-educados que de repente ganha dinheiro demais: com toda a riqueza à sua volta, continua grosseirão em essência.

Essa situação, justamente por ser tão errônea, nos leva a um paradoxo dos mais inusitados. É que o doido, quando corajoso, quando finalmente percebe que não consegue explicar tudo conforme a Senhora Razão, acaba acreditando piamente que este mundo é, em suma, irracional. É o caminho mais natural da “razão embirutada”. Ela começou crendo demais em si mesma e acabou perdendo o juízo e atribuindo os seus próprios disparates à própria natureza do mundo. Em face disso, surge toda uma filosofia que bem mais merecia ser chamada de antifilosofia. É o niilismo final. Nada mais faz sentido, não existe verdade, nem você é quem você é ou o que você pensa foi você mesmo quem pensou. Racionalmente você descobre que não existe razão coisa nenhuma. Uma antifilosofia desse tipo pode ter várias repercussões. Ora ela pode ser encarada de modo desesperado (ou destemperado, que o leitor escolha)– aí estão os suicidas para confirmar –, ora ela pode ser encarada de maneira resignada, com algum resquício estóico que todo o sujeito sentimental geralmente possui. Independente da posição tomada, o dado é este: o mundo é trágico. É por este motivo que imagino ser difícil encontrar um cético realmente bem-humorado. Se ri, é um riso nervoso, quase de desespero. Vive, ou melhor, sobrevive. Ele é como uma árvore seca, pois o senso poético é a seiva o que nos vivifica.

É por este motivo que, ao ouvirmos de alguém cheio de sentimento trágico, que o mundo é uma piada, devemos logo em seguida concordar e até agradecer pela pessoa ter dito tão sábia coisa. Porque apenas um ser dotado de muito bom-humor poderia criar coisas tão belas e boas. E se tudo for fundamentalmente um bem e for bom, então mais um motivo para isso tudo ser uma bela e espirituosa piada, porque tudo o que termina bem é uma comédia. Entre um mundo trágico, onde tudo é marcado pelo mal, e um mundo cômico, onde você pode se divertir porque as coisas são boas e terminam bem, há uma larga diferença. Peço inclusive ao leitor, caso tenha achado estranho o que eu acabei de dizer, que puxe pela memória acontecimentos que pareciam ruins, bem ruins, mas terminaram bem em sua própria vida. Hoje você não consegue até achar graça deles? Contudo, imagine agora se eles terminassem de fato mal: ninguém, ou melhor, nenhuma pessoa de bom-gosto costuma fazer piadas de morte de gente querida. Acho até que foi Machado de Assis que disse ser isso, a morte, um assunto sério por excelência. Mas voltando àquele ponto de vista sobre o fino humor que sutilmente marca este mundo, ele só pode ser percebido por quem possua uma visão poética da realidade, pois do contrário exigirá, como o chato que nunca entende uma piada, explicações pormenorizadas e por fim inúteis de algo que você deveria entender antes pelo espírito da coisa. Daí que uma pessoa inteligente é sempre, e antes de tudo, espirituosa. E o que mais uma pessoa assim faz senão instintivamente dar as mais sábias, curiosas e devidas respostas nos momentos mais inusitados possíveis? Isso porque uma pessoa espirituosa entende bem sua situação e seu momento: é o tal do senso de timing. E seus ditos podem ganhar tanta fama que, esquecido o sujeito que os proferiu, ainda assim eles continuam sendo usados por quem nunca o viu mais gordo e em épocas nunca dantes imaginadas, como é o caso dos provérbios, armazém do senso comum. Ser espirituoso é saber encarar a realidade com o devido senso poético, ou seja, uma espécie de sentido que a transcende e aponta como as coisas deveriam ser. Aliás, este é um outro motivo de tanta gente supostamente racional(ista) menosprezar os ditados, outra fonte do senso comum, pois não podem entender o fundo espirituoso subjacente aos mesmos. Quanta sabedoria e verdade não há naquele velho provérbio português que diz: Não há geração sem rameira ou ladrão.

Para evitar qualquer mal-entendido, aviso de uma vez por todas que no parágrafo anterior não gracejei nem do mundo enquanto criação da boa-vontade divina, nem do senso comum, nem fiz abstração descarada da tensão trágica que também existe neste mundo. Quando digo que tudo aquilo é entendido melhor à medida que tenhamos uma visão espirituosa, acrescentando que o bom-humor está subjacente a isso tudo, não quero dizer que tudo está destituído de seriedade ou que não é para ser levado a sério. Neca de pitibiriba. Embora eu não goste muito de me expressar por idéias paradoxais, ao menos não em prosa, eu diria de um modo poético que a realidade é de tal modo séria que nos faz sorrir de satisfação. É justamente sua seriedade e seu peso que acabam nos dando a real medida da alegria. Isso é uma coisa que um cético não vai entender nunca. Sempre lhe parecerá um mistério como pode haver gente que se rejubila por causa do mistério do Deus pregado na cruz.

Enfim, foi pensando mais ou menos nessas coisas que também percebi a importância do senso poético para lidarmos com o mundo. A falta dele faz com que invariavelmente representemos sem querer, também como Ruy M. Freitas comentou a respeito do caso particular de cem freiras marchando junto ao MST até Brasília dia desses, um papel tragicômico no grande palco do mundo. Ficamos naquele meio-termo que só serve para nos denegrir e nos confundir. Começa bem, começa sensato, mas termina muito mal, porque na verdade nem começou bem, nem sensato. Não é à toa que ao mesmo tempo que abundam os céticos, abundam também a loucura e toda a sorte de disparates. Mas não é nada, meu caro leitor, que São Paulo já não apontasse a solução. Porque, segundo ele, onde abunda o pecado, superabunda a graça. A marca da alegria é sempre presente. O Apóstolo tinha mesmo um baita senso poético.

Sunday, July 16, 2006

Prosa filosófica concretista

Meus amigos, vejamos que coisa bonita de se ver. É a prosa filosófica concretista. O segredo é você dizer várias coisas que parecem inteligentes, provocando um sentimento estético apropriado, mas que no fundo não signifique nada ou pouca coisa. E mesmo que tenha algum valor, a forma é mais impressionante. Aqui vai o primeiro exemplo, um clássico do gênero:

Podemos ver claramente que não há nenhuma correspondência biunívoca entre relações significantes lineares ou de arquiestrutura, dependendo do autor, e essa catálise maquínica multirreferencial e multidimensional.

O artista em questão é Félix Guattari - Maguari para o público nacional -, vindo daqui. E não custa perguntar: você viu claramente mesmo?

Agora, mais um outro. Dessa vez é Pierre Bourdieu. Esses franceses pós-década de 60 resolveram criar um idioma próprio, só pode. Eis o mestre:

As condições associadas numa classe particular de condições de existência produzem o habitus, um sistema de disposições duráveis e transferíveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, quer dizer, como princípios que geram e organizam práticas e representações que podem ser adaptadas objetivamente aos seus resultados sem pressupor um fim objetivo consciente ou um domínio expresso das operações necessário para o atingir, objetivamente 'regulador' e 'regulado' sem ser de qualquer forma o produto de obediência a regras, e, assim, que pode ser orquestrado coletivamente sem ser o produto da ação organizatória de um maestro.
E eu gostaria muito de fechar com uma citação de Paulo Francis sobre uma professora de literatura a respeito de Dom Casmurro. O texto do Francis se chama Capitu na Universidade. Eu o tinha, mas não sei onde foi parar. Se algum simpático leitor deste blog mo passar, ficarei muito agradecido. E tenham um bom dia.

Saturday, July 01, 2006

Ambiente universitário

Hoje eu estava lembrando do mural do Centro Acadêmico da faculdade. Havia um monte de coisas nele, porém o que mais me chamava atenção era a parte sobre cultura. Não lembro exatamente o que havia escrito ali cotidianamente, mas eu sempre tinha a impressão de que por "cultura" os coordenadores do mural entendiam um amontoado caótico de gostos totalmente doidos que porventura tivessem alguma coisa a ver com política. "Cultura", no caso, era simplesmente um desregramento qualquer apoiado em algo que, em última instância, o justificasse, mas sempre tendo um fim político, ainda que remoto. Até a loucura tem algum método.

Além daquele mural, outra coisa que me chamava a atenção era a mania excessiva de se possuir um trejeito. Era como se o mais importante, a meta almejada na faculdade não fosse o que se estudava, o saber, mas a incorporação de modos. Podia ser o modo de falar, de se vestir, até mesmo de se sentar e de olhar. E o que é mais estranho (ou de se esperar) é que isso ocorria quase naturalmente. De repente você estava todo "universitado", se o leitor me permitir tal expressão tenebrosa. O universitário geralmente se trái. Quando você ouvir alguém dizendo alguma coisa bizarra, como por exemplo "Eu, entrando aqui, será uma fogueira de paradoxos", pode ter certeza que é universitário. Claro que o bizarro admite graus, porém nunca deixa de ser esquisito. Em todo o caso, o camarada podia ser burro feito uma porta, mas ele haveria de conquistar, talvez por osmose, todo um repertório de ademanes que indicariam de onde ele era, quase como se fosse uma nova impressão digital. Isso não deixa de ser um caso interessante de estudo antropológico.

Querem ver um dos rebentos desse estado de coisas? A TVE é um belíssimo exemplo. Com um pouco de prática você é capaz de dizer qual é a universidade, o curso, o período e as notas de cada um daqueles jovens apresentadores, ou mesmo se fazem pós-graduação e qual a tese. Posso até mesmo listar um conjunto de sujeitos mui apreciados pelos nossos simpáticos universitários: Raul (perdão, Raulzito), Francisco Buarque de Hollanda (perdão de novo, é Chico), Marisa Monte, os grandes poetas Caetano Veloso, Renato Russo e Bob Dylan, Sartre, Nietzsche, Bukowski, um poeta de boca meio mole e brasileiro que esqueci o nome mas vive aparecendo na TV dizendo que é beatnick, Paulo Leminsk, talvez algum rock... E tudo isso porque o camarada é culto. Mas ser culto é coisa esnobe. Então ele vai gostar também de coisas do povo, como um sambinha (não qualquer um, senão é esculhambação, tem de ser da época de D. João Charuto) e um pagode ("de raiz", conforme dizem, seja lá o que isso for). É assim que fica o intelectual depois de tomar muito sol na cuca. E há mais coisas. Fiquemos apenas nessas.

A universidade é um enorme centro de recreação e terapia. Vira clube, onde os pais deixam seus pimpolhos. Lá eles fazem cabriola. Porque onde não há regras sobra bagunça. E aí percebemos o que leva esse povo alegre e festeiro a ter uma concepção tão troncha de cultura. Ninguém quer saber de regra nenhuma. Mas façamos aqui uma concessão. Há uma quantidade imensa de sujeitos que poderiam te dizer que gostam deste ou daquele grande escritor, deste ou daquele grande pintor, etc. Pode parecer mesmo que na verdade repudiam aqueles ademanes todos, conservando-os tão-somente como máscara para espantar a multidão de brutos e inconvenientes. Isso por si só já demonstra que a atmosfera ambiente te obriga a tomar uma determinada postura. Agora bem: quantos seriam capazes de sustentar suas opiniões de modo objetivo, racional, acurado, sem temor da multidão? Sabemos que os menos aptos a sobreviver em dado ambiente acabam morrendo ou tendo de procurar outros ares. Não seria diferente nesse caso. A tendência de que haja pessoas capazes dessas coisas vai tendendo perigosamente a zero, e daqui a pouco será uma questão de façanha. Ora, nada mais diverso do que teria de ser um ambiente de intelectuais.

(continua)

Friday, June 30, 2006

Sexo

Em homenagem a M. (Não o "M" do filme de Fritz Lang, pelo amor de Deus. Ele é mau, o filme é bom.)

(I) É bom, mas os porcos (e, segundo dizem, também os morcegos, dentre alguns outros animais) sentem orgasmo. E macacos se masturbam. Donde se conclui que quem ama falar sobre sexo pode ser comparado a um porquinho ou macaquinho falante. (Não custa nada dizer ao leitor que o homem, bem entendido, é o "asceta da vida". Não é por acaso que temos uma coisa chamada espírito.)

(II) Não foi o Cristianismo que fez a proeza de dizer que sexo é intrinsicamente mau. Sexo não é pecado. Tampouco devemos olhar com desprezo os Santos Agostinhos e Tomás de Aquinos da vida que comentaram sobre o assunto. Se você quer arrumar algum culpado, ele tem nome: cátaro, gnóstico e demais da mesma espécie.

(III) É verdade que a Igreja, por outro lado, sempre teve algumas reservas quanto ao sexo. Mas, entenda-se bem, não contra ele em si. O problema é o desregramento. Se algo não está conforme a sua finalidade, esse algo está viciado. Mais uma vez podemos trazer à baila os Santos Agostinhos e Tomás de Aquinos da vida. Até numa obra como Filotéia - Introdução à vida devota, São Francisco de Sales não deixa de fazer algumas reflexões sobre o que ele chama de "leito conjugal": "assim o que se requer no matrimônio para a geração dos filhos, e multiplicação das pessoas, é uma coisa boa e muito santa, porque é o fim principal do casamento." Mas também diz: "É o grande mal do homem, como diz S. Agostinho, querer gozar das coisas de que só deve usar, e querer usar daquelas de que só deve gozar: devemos gozar das coisas espirituais, e das corporais somente usar; e quando o uso destas se converte em gozo, a nossa alma racional converte-se outrossim em alma brutal e bestial."

(IV) Também se iludem aqueles que acham que apenas a tradição judaico-cristã faz esse tipo de reserva. Nada disso. A filosofia é mestra nesse quesito. Se observarmos por exemplo os ensinamentos de Aristóteles, podemos ver que ele também critica quem se deixa comandar pelos apetites. Pedro Sette Câmara explicou bem este ponto em seu blog: "a idéia de que a promiscuidade é ruim não é nem cristã em sua origem, e nem necessariamente religiosa. Aristóteles já á propõe abertamente, admitindo que o desejo sexual é uma paixão - a qual, como toda paixão, deve ser ordenada pela razão."

(V) Um dos problemas do uso de preservativos e anticoncepcionais é que eles fazem com que a gente dissocie, no sexo, causa e efeito. Você faz sexo ignorando solenemente as suas conseqüências mais simples. Ora, estabelecer simples nexos causais é, do ponto de vista da inteligência, algo básico. Então, de um jeito ou de outro, fazer a propaganda de camisinhas e anticoncepcionais ao mesmo tempo que se faz vista grossa às suas conseqüências só é possível mediante um ataque maciço à inteligência. Por outro lado, a ignorância das conseqüências mais imediatas é uma apologia enorme da irresponsabilidade, em níveis colossais, que vão desde as relações desajustadas entre as pessoas até os problemas mais graves de saúde pública de um país e quiçá do mundo todo. Mas não podemos esquecer que vivemos na época dos señoritos satisfeitos, conforme observou Ortega y Gasset em seu antológico livro A rebelião das massas. É a época dos mimos e das cabriolas. Todos querem tudo sem ter de arcar com a responsabilidade de nada.

(VI) Já dizia Goethe: “Os grandes homens estão ligados ao seu século através de alguma fraqueza.” Por conseguinte, nada mais natural que nós, os pequeninos, acabemos sendo carregados também por toda essa avalanche de confusões e erros, como se tivéssemos de contribuir obrigatoriamente para o sempiterno livro das besteiras humanas. Mas não devemos ficar abalados por conta de nossos próprios erros. Eles mesmos trazem sua própria solução. Daí as palavras de Benedetto Croce em seu Breviário de estética: "O erro fala com voz dupla, uma das quais proclama o falso e a outra o desmente; e é um contender de sim e não, que se chama contradição... O erro condena-se, não pela boca do juiz, mas 'ex ore suo'."

Thursday, June 29, 2006

O Sultão e o Anjo da Morte

Amigos, contarei a vocês uma história oriental. Não é minha, é uma dessas lendas que simplesmente brotaram das névoas da história, portanto verdadeira em espírito. O fim é meio abrupto, mas não contarei a moral.

Certa vez o sultão contemplava orgulhoso sua cidade, solitário, da varanda de seu palácio. Aquela opulência toda parecia a manifestação de si mesmo, como se fosse uma idéia excelente que por milagre se tornou ato em todos os seus pormenores. Certamente não havia cidade no mundo tão bela quanto a do sultão. Tal contemplação tinha um caráter de Narciso, porque ao olhar a cidade ele via a si mesmo em glória.

Todavia, eis que de repente o sultão sentiu um calafrio tremendo, prenúncio de toda a calamidade. Do alto da abóbada celeste escura e estrelada, desceu um anjo de beleza terrível bem ali na varanda, tal como um um raio. Não era uma criatura qualquer, mas aquele que é a boca de Deus para o flagelo. Estava ali o Anjo da Morte. E o sultão estremeceu.

Logo disse o Anjo: "Ó homem, eis que Deus me enviou para te anunciar terrível desgraça. Prepara-te, pois tocarei a tua cidade como jamais foi tocada antes." Tendo ouvido tão sinistro oráculo, o sultão lhe respondeu: "Que fiz de mal? Ora, diga-me conforme a verdade: quantos hão de tombar? Se foi o Senhor que te enviou, então pela graça de Deus misericordioso te rogo para que me digas!" Falou o Anjo: "Cinco mil tombarão nas próximas semanas de doença terrível. Prepara-te e te alegra, ó homem, porque nem sempre é dado conhecer a extensão da própria desgraça. Tu és pecador, mas Deus é fiel." E voltou aos céus o Anjo da Morte.

Mal tendo desaparecido o Anjo, o sultão, homem extremamente prático como todos bons governantes devem ser, tratou de expedir ordens o quanto antes para que a cidade suportasse o flagelo vindouro. As ordens saíam com alguma melancolia profunda, pois ele considerava a empresa difícil e o fato vindouro brutal. Mas não se discute a vontade de Deus. A cidade foi preparada, na medida do possível, para suportar a calamidade que estava por vir.

A semana seguinte chegou e as pessoas começaram a morrer. O sultão acompanhava a tudo bastante apreensivo, sem nunca deixar de contabilizar o número de mortos. Na primeira semana Deus chamou aos céus setecentas almas. Na segunda foram mil e quinhentas. Na terceira foram mais mil. O pânico era generalizado. O espírito do povo sofria golpe atrás de golpe. E não cessava de morrer gente até que houve um total de mais de trinta mil mortos em pouco mais de um mês, o que deixou indignado o sultão, ao que ele ficava repetindo para si: "Para o inferno esse demônio mentiroso!" Eis então que novamente o Anjo da Morte apareceu e lhe perguntou: "Ó homem, por que razão blasfemas tanto?" Respondeu-lhe o sultão: "Tu me enganaste, tu me enganaste! Falaste que cinco mil homens tombariam de doença terrível. Ora, em pouco mais de um mês morreram mais de trinta mil!" Disse-lhe o Anjo: "Não menti, ó homem: Cinco mil homens certamente tombaram de doença terrível. " Tais palavras exasperaram ainda mais o sultão, que disse enfurecido: "Zombas de mim, anjo! Que queres dizer com isso? Seis vezes mais homens tombaram do que me havias dito!" Então lhe respondeu o Anjo da Morte: "Ó homem de pouca fé, que duvida do aviso do céu! O restante, ó insensato, morreu de medo."

Saturday, June 17, 2006

Thursday, June 08, 2006

Três métodos de avaliação de sábios

Você pode avaliar o sábio em questão vendo se ele já tratou alguma vez do amor. Se ele nunca escreveu nada sobre o assunto, então ele sabe tanto de gente quanto nós de viagem no tempo. Portanto, seu conhecimento é supérfluo para o que temos de mais radical, problemático e autêntico: a nossa própria vida. Que adianta, radicalmente falando, ser um virtuose da física?

***

Há também um outro jeito, interligado ao primeiro. Veja se ele já tratou seriamente sobre a pessoa. Se nunca disse uma palavra decente a respeito, fuja: sua filosofia é totalmente inútil. Na melhor das hipóteses, um belíssimo acessório.

***

Agora o derradeiro método. Perceba se ele só fala sobre coisas. Há uns que colocam um muro de coisas entre eles e as pessoas para poder se esconder. Como exemplo, os físicos, matemáticos, etc. Mas veja. Se ele só fala sobre o quê, e não quem, também ouso dizer que sua filosofia, se é que podemos chamar algo assim de filosofia, não vale nada de fato.

***

Faço apelo ao leitor inteligente que não interprete tudo isso como uma birra contra a física-matemática. Pelo contrário, eu a adoro. Jamais na história do mundo um conhecimento ofereceu coisas tão espantosas para nossa comodidade. Mas há limites. E é uma impostura tremenda utilizá-la para todas as instâncias da realidade. Entricheirar-se nela é um modo de ser tacanho, muito embora um tacanho que pode ser estupendamente virtuoso nesse campo. Confesso que ela é extremamente elegante e sedutora, porém já passou da hora de nos livrarmos de seus efeitos residuais mais tacanhos. (Digo residuais porque estou longe de ser o primeiro a criticá-la; não falta gente que já demonstrou a necessidade de um outro tipo de saber que nos forneça algo vital e autêntico acerca de nós mesmos.)

Tuesday, June 06, 2006

Filmes horríveis que entraram para a história - A Bolha Assassina

Detesto filme de terror. Todos me parecem uma porcaria.

Talvez a minha ojeriza a esse gênero tenha raízes na minha infância, época em que vi muita coisa especialmente terrível. E a coisa mais bisonha que me lembro daqueles tempos é um chamado A Bolha Assassina.

Será que o leitor lembra desse filme? Espero que não. Eu também não lembro direito. Mas um filme chamado The Blob não pode inspirar respeito. Traduzido então para A Bolha Assassina, bem, certamente é inscrever o filme por antecipação na galeria das bisonhices da história do mundo, talvez ficando no nível do Tony Ramos imitando sotaque de grego.

Dá para imaginar a conversa que tiveram antes de traduzir o título?

- Hm... The Blob... ninguém vai entender...
- É... Põe aí A Coisa.
- Pô, mas já existe um com esse nome.
- Então que tal A Bolha Maligna?
- Existe alguma do bem? Pra mim bolha é neutra. Se bem que essa daí veio do espaço e come todo mundo. Tem que ser um negócio assustador.
- Então coloca aí A Bolha ASSASSINA! - e assim ambos sorriem triunfalmente.

E foi isso que algumas pessoas, talvez com título universitário, pais de família, etc, conceberam. Mas não as reprimamos. A matéria-prima era a pior possível. Que outro título você daria, leitor?

(Por sinal, nunca ouvi alguém dizer que achou esse filme pelo menos legalzinho. As reações que costumo observar são as mesmas daqueles que logo após tomarem cachaça fazem uma cara horrível. Aliás, se cachaça fosse boa, por que todo mundo faz uma cara de Silvester Stallone interpretando o Rocky naquela parte onde ele fica chamando, todo arrebentado, no final da luta, a sua mulher? Ninguém faz essa cara quando toma suco de uva.)

Divertido mesmo foi um comentário que encontrei num site qualquer enquanto catava alguma imagem do filme para colocar aqui. Vejam que obra-prima: Sem problemas de consequencia ou intelecto a bolha faz apenas uma coisa - e o faz muito bem. Ela come tudo e todos que se movem: Homens, mulheres e crianças. Fiz questão de grifar aquele trecho porque é muito bonito. Será que quiseram dizer "consciência" em vez de "conseqüência"? E será que insinuaram que intelecto é problema? Como os intelectuais são aqueles que geralmente aparecem na TV dizendo as maiores atrocidades, estou longe de criticar este ponto. Por outro lado, talvez fosse ainda mais esquisito se a Bolha tivesse problemas morais ou desvio de personalidade. Já pensou se houvesse uma continuação, algo como A Bolha no Terapeuta? Outra coisa digna de nota é que no site onde peguei aquela citação diziam que havia legendas no DVD até para tailandês e coreano. A perspectiva então é de que o filme corra pelo mundo. É um pouco desconcertante para mim saber que em termos culturais o que pode me unir a um coreano é a Bolha Assassina. Mas havia também uma versão em francês, e confesso que acharia curioso escutar o pessoal gritando cafona, tosca e desesperadamente Oh mon Dieu, qu'est-ce que se passe?

Sinto a tentação de bater a cabeça na parede até que minhas recordações desse filme desapareçam. Mas fico com uns versinhos de uma velha e melancólica elegia de Camões:

Se me desses üa arte que em meus dias
me não lembrasse nada do passado,
oh! quanto milhor obra me farias!



Oh mon Dieu, qu'est-ce que se passe?

Sunday, June 04, 2006

Texto para a leitora

Leitora, sei que vocês mulheres vivem reclamando que nós homens queremos saber apenas de mulher gostosona, nada de compromissos, etc. Mas vocês têm de pensar também numa coisa. Quantas de vocês foram um Newton, Mozart ou Machado de Assis? Você, cara amiga, já se deu conta disso? E no entanto nós vivemos aos seus pés. O mais genial dos homens, perto de vocês, é um tolo inseguro, suando para que a mocinha lhe acene favoravelmente. Caso ele dê sorte, tal fato lhe queimará o coração muitíssimo mais que qualquer fórmula química, tratado metafísico ou concepção de engenharia sublimes que ele possa muito imaginar. (Taí o velho Goethe, já em vida aclamado como a glória da Alemanha, perdidamente apaixonado por uma mocinha de menos de vinte anos, que não me deixa mentir.) Isso porque vocês, leitora, valem muitíssimo mais que qualquer uma daquelas coisas. Podem ser menos geniais que Newton. Mas é que a profundidade de vocês é de outra ordem. Para te ser franco, nós, a rigor, sem o nosso intelecto não somos nada. Mais: corremos de um lado para o outro, lutamos até a morte e descobrimos verdades intrincadíssimas porque temos de fazer alguma coisa para sermos algo, e de preferência algo grandioso, porque assim seremos verdadeiros homens para vocês. Se nossa vida interior fosse maravilhosa, haveria necessidade de tantas coisas desse tipo? Já vocês, bem, vocês não precisam de nada disso porque por si mesmas são tudo, incluindo a gente, pois nós só nos encontramos em plenitude no coração de vocês. Um homem só é de fato homem quando alguma mulher assim o percebe. E ser público é coisa nossa, porque o interior pertence a vocês. Não é à toa que os nobres medievais consideravam o estudo um tanto efeminado, já que o estudo tem algo de interior, portanto feminino. Só que vocês, minha amiga, são de outra ordem. Tanto é verdade que a mulher menos considerada é aquela mais próxima de nós: é a mulher pública, a puta. Ela é menos mulher que vocês. Exposta a todos, sem o menor segredo, é como o homem que está aí, na tribuna, na imprensa, na TV, que fora seus afazeres não tem tanta intimidade. Não há muito mais a revelar de si mesmo. Nossa vida é menos vida. Já a de vocês é todo o contrário; porque vocês têm um interior mais profundo e melhor trabalhado. Para vocês foi dada a intimidade e a sensiblidade. Não é mera coincidência que quem costuma cuidar das coisas de fora, exteriores, somos nós, enquanto vocês cuidam daquilo que é mais particular, a casa. Nada mais lógico. Também não é mera coincidência que são vocês que nos acalmam tão só com suas presenças, apenas sendo vocês mesmas, sem agir. Sem a mulher o homem viveria profundamente desorganizado. Até o próprio Deus disse: "Não é bom que o homem viva só". Então no fundo vocês têm o direito de reclamar de nós sim, porque são vocês, sem precisar discursar ou subir em palanques, que nos civilizam. Mas não te esqueça, amiga leitora, que vocês andam esquecendo da própria vocação. Só não reclame sendo relapsa, porque isso seria a ruína do mundo.

Thursday, June 01, 2006

E de repente me vi dizendo coisas sobre Bach

Eu ia dizer alguma coisa qualquer mas até perdi o rumo da meada quando comecei a ouvir a Partita No.2 de J.S. Bach.

Vou dizer uma coisa a ti, leitor. Nunca ouvi uma música de Bach e achei mais ou menos. Foi sempre de ótimo para cima. O sujeito tem mais de mil obras. É uma coisa extremamente espantosa. Já tentei, juro, ser o ouvinte mais chato do mundo, e nada, nadinha me fazia achar alguma coisa ruim. Até Beethoven e Mozart pagaram seus tributos ao mau gosto. E Bach? Coisa alguma. É um negócio impressionante. Mesmo que você vá ouvir alguma música dele que nunca escutou, criando toda uma série de expectativas, você será surpreendido inevitavelmente. Todo tiro no escuro acerta alguma preciosidade.

Levando-se em consideração a quantidade de obras que chegaram até nós, era de se esperar que notássemos em algum ponto algo destoante, um leve escorregão completamente justificável. Por exemplo, algo ruim que pudesse ser explicado pela sua inexperiência, por algum sacrifício da qualidade às exigências do tempo, sei lá. Nada mais diverso. Veja, leitor, você pode pegar qualquer uma de suas músicas mais antigas, para logo em seguida ouvir uma das suas últimas: a impressão que dá é que ele sempre foi um mestre totalmente excepcional. Uma cantata como Christ lag in Todes Banden (Cristo jazia nos grilhões da morte), que é uma de suas obras mais antigas que conhecemos, é tão magnífica quanto qualquer cantata muito posterior.

Gustavo Corção dizia que a obra do mestre tinha um caráter de homilia. Isso porque toda ela tem um indiscutível caráter de lição, de ensinamento. O próprio Corção afirmava: "Sua obra nos deixa sentir a hierarquia." É como se ouvíssemos os fundamentos da música, o que aliás não deixa de ser verdade quando lembramos de uma composição como o Cravo Bem Temperado.

Na minha opinião, ouvir a Missa em si menor é um dos melhores exemplos do que estou dizendo. É um ensinamento musical e religoso ao mesmo tempo. Não sei que música vocal está no mesmo nível daquela. É de um sentimento religioso tão poderoso, uma devoção tão autêntica, um senso de hierarquia tão claro, uma beleza tão incrível, que, por mais que você a ouça, você não acredita que foi possível que alguém concebesse uma coisa dessas e transformasse em música. Não foi à toa que alguns disseram que tal música converte até ateu.

Ficam aqui as músicas supracitadas como sugestões, embora haja muitas outras de Bach que valem a pena escutar.

Wednesday, May 31, 2006

Pequena e incompleta nota sobre a juventude

Eu disse há alguns posts atrás que vivo com um pé no passado. Ora, tenho 24 anos, portanto jovem. E todos os jovens têm uma característica específica: são demasiadamente impressionáveis. Portanto, nada mais natural que eu, com meus 24 anos, diga que vivo com pé no passado, porque é lógico que só digo uma coisa dessas porque alguém de algumas gerações mais avançadas que a minha me causou essa impressão. Pode ser que a questão de saber quem da geração passada me influenciou seja válida, mas agora ela é acessória. Dispensemos por ora aquilo que nos atrapalhe a voar e sigamos nosso rumo.

Para comprovar o que eu disse, conto uma conversa que tive com um professor. Certa vez eu dizia que estava querendo ler tal livro do Maritain. Então ele me disse: "Por isso e por outras coisas que você me diz, suponho que você conhece alguém mais velho que te fale sobre esses autores." Ora, Maritain era um autor muito lido e discutido há algumas décadas atrás. Meu conhecimento a seu respeito se deu através de autores que lhe eram contemporâneos, os quais hoje em dia teriam a idade para serem meus bisavós. É verdade que uma ou outra pessoa não tão velha mas ainda assim de outra geração mo indicou, o que corrobora meu argumento. Então minhas referências começaram a ser feitas a partir de gente de uma geração diferente da minha, e em muitos casos bem diferente. Nada mais natural que meu professor achasse que havia algum senhor que mo indicasse.

Talvez algum leitor imagine que o que digo seja uma restrição desnecessária, pois qualquer um, independente da idade, pode ser influenciado fortemente por outro. Isso é verdade em termos. Quanto mais velhos somos, menos propensos estamos a ir conforme a maré. A teimosia dos velhinhos é notória, assim como a impaciência juvenil. Por outro lado, o caro Ortega y Gasset já dizia que ao longo dos anos temos a tendência de confiar cada vez menos nos nossos sentidos e de nos apegarmos cada vez mais aos conceitos e coisas que estão na nossa cabeça. Vamos ficando resistentes às coisas ao nosso redor com o passar dos anos. Antes não: tudo é intrigante, tudo parece ter um colorido mais especial. Nossos sentidos parecem centuplicar cada coisa percebida, e tudo parece ser mais agradável, ou seja, mais propenso de ser amado, portanto investigado. Os sábios conseguem conservar esse dom mesmo quando muito idosos, embora ele seja contrabalanceado por aquela resistência mencionada por Ortega. De qualquer modo, em nós jovens essa qualidade se faz muitíssimo mais presente e radical. Ela se espalha por todo o nosso ser. Ai daqueles de nós que já pensam como velhinhos gagás, fechados em si e inimigos do mundo!

Esse nosso deslumbramento faz com que sejamos, normalmente, bons receptores. Estamos mais abertos às coisas, somos mais livres, e portanto somos muito mais irresponsáveis. Não quero me alongar sobre esta última nota. Meu ponto é o seguinte: somos bastante passivos quanto às informações que recebemos. E isso indica outra coisa, mais profunda: nos falta autenticidade.

Tal coisa me parece extremamente evidente. Se somos tão passivos, se recebemos tudo e não criamos nada de novo e de próprio, então agimos e pensamos segundo a ação e pensamento de outros. No máximo, podemos escolher entre o bom e o mau exemplo. Não podemos nos dar ao luxo de olhar para a nossa própria obra e dizer: "isto é especificamente meu!", como certamente Deus fez quando completou a Criação. Há, no máximo, potencialidades latentes, o que também comprova minha tese. Se realmente algo não está em ato, então esse algo não passa de uma vaga promessa.

O velho Aristóteles, quando era jovem, sintetizou bem esse caráter juvenil quando, na Retórica, disse que os jovens são educados segundo "a lei do convencional" (Ret, II, 12). À primeira vista essa afirmação pode se afigurar estranha. Não é comum vermos jovens contestando valores? Não são eles que trazem novidades?

Não é o jovem que contesta valores. Ele é apenas o local por onde ressoam as idéias de pessoas mais experientes. O século XX foi marcado por jovens na rua e em movimentos revolucionários. Mas por trás da Juventude Hitlerista estavam as idéias de Hitler, que não era nenhum moço, e, por trás dele, a pseudociência e o ressentimento da ralé para com os judeus. A propósito da relação entre Hitler e os jovens, certa vez vi um cartaz nazista que demonstrava de modo eloqüente como isso se dava. Nele havia um garoto num canto e, no fundo de todo o cartaz, em preto e branco, tal como uma sombra opressiva, o rosto em perfil do ditador. Os nazistas realmente entendiam muito bem de propaganda. Mas a manipulação de jovens não é característica só de nazistas. De modo semelhante, por trás dos jovens do Maio de 68 estava Sartre (e toda uma série de professores maníacos). Não é o jovem, portanto, com toda a sua ingenuidade, autor de algo genuíno, pois como ele não é autêntico, não faz nada que lhe seja realmente seu, exceto, é evidente, as questões mais diretas que envolvem responsabilidade pessoal pelos atos que ele mesmo executa. E mesmo assim há em muitos casos certos atenuantes explicáveis pela idade. Mas não estou discutindo isso. O problema é a autenticidade de suas obras. Eis aqui o seu problema mais angustiante, porque os mais velhos estão para ele como a idéia está para a matéria.

A própria mania que nós temos de auto-afirmação é reflexo dessa nossa radical inconsistência. Da mesma forma que todo o cristão sempre tem em vista o outro mundo, o jovem tem de viver para a sua própria madurez. Nosso estado é como um vislumbre do futuro, porque nós ainda não somos de fato: estamos prestes a ser, como se não passássemos de esboços andando para lá e para cá. Daí que se alguém fracassa na vida, fracassa porque não conseguiu ser mais que esboço de si mesmo. Vira uma caricatura de si mesmo.

Por outro lado, não é verdade que o jovem traz algo de novo. Pelo contrário. Não há nada mais óbvio que o comportamento juvenil. Nós mesmos temos a tendência de andar em rebanho, temos um comportamento padronizado segundo nosso grupo, etc. Não é mera coincidência, portanto, o fato de nós termos aparecido tanto na história como nunca acontecer ao mesmo tempo em que virávamos multidões apoiando revoluções em todos os lugares. Ainda em movimentos menos turbulentos, como no caso dos cara-pintadas, isso é evidente. Um simples raciocínio a priori ajuda a entender isso. Certamente somos agora uma idéia original encarnada de algum homem maduro de ontem ou mesmo de hoje. É como se fôssemos uma espécie de conclusão de um silogismo mais ou menos pretérito.

Se nós jovens tivéssemos realmente como própria e particular a maior parte de nossas idéias, certamente não haveríamos de trocá-las tão impunemente. O velho Goethe dizia, em tom complacente, que os jovens se caracterizam por suas promessas não cumpridas. E novamente vejamos o que Aristóteles tem a dizer sobre nós: "Também [os jovens] são facilmente variáveis e em seguida se cansam de seus prazeres, e também os apetecem com violência, porém também se acalmam rapidamente." Isso explica porque temos a tendência de marcar um compromisso para logo em seguida desmarcá-lo, ou porque pulamos de idéia em idéia como macaquinhos de galho em galho. Devo, no entanto, alertar o leitor que Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a juventude pode ser também uma disposição de caráter não relacionada com a idade. Isso quer dizer que se um sujeito com muita idade ainda é volúvel, ele permanece jovem no pior aspecto. Hoje em dia isso virou praga. São os nossos famosos "coroas enxutos", que teimam em se comportar como adolescentes – geralmente se esforçando em manter aquilo que há de pior –, muito embora o tipo "rapazinho mimado" seja o caráter predominante de nossa época. (Compare o leitor nossa época com a dos medievais. Aquela gente se sentia velhíssima e no entanto morria muito mais cedo que nós.) Só lutando podemos nos livrar do predomínio deste caráter, ou melhor, desta forma de ser homem. Infelizmente isso também depõe contra nós, já que, por natureza, estamos mais propícios a fazer só o que nos agrada ao invés de aquilo que deve ser feito. Conquista requer tempo e experiência, dois atributos que geralmente nos faltam. Mas as observações aristotélicas acerca da juventude propriamente dita são gerais. Há espaço para exceções. Nada mais claro que suas própria palavras: "[o jovem] tende a seguir suas paixões". Ótimo exemplo de exceção é o próprio filósofo, que, segundo consta, e para a minha inveja e vergonha, era um mestre da teoria da retórica e já demonstrava grande domínio lógico apenas com a minha idade. A Retórica foi escrita quando ele tinha 24 anos. Aristóteles era um jovem maduro.

(Talvez um dia continue...)

Friday, May 26, 2006

Novo blog no "Parada Obrigatória"

Amigos, há algum tempo descobri um blog legal. Seu nome é Bona Musica e, como o nome indica, trata de música (dããã). Até onde li, principalmente clássica (ou erudita, ou ocidental, ou... ah, deixemos para lá).

É um blog interessante, porque essencialmente didático, mas sem tratar o leitor como um demente. É escrito em conjunto pela dupla portuguesa Viktor e Pamina, ambos ligados à área musical. (Supondo que sejam anônimos, nunca entendi bem porque prezar tanto assim o mistério. Ora, será que pensam que serão defenestrados? E vejam que legal, sempre quis ter uma desculpa para escrever "defenestrados". Repitam comigo: de-fe-nes-tra-dos. De novo: de-fe...) Melhor dizendo: bem escrito. É agradável, sempre com exemplos sonoros das músicas tratadas em questão. E para os preguiçosos, é uma mão na roda, já que os posts são curtinhos.

A iniciativa é boa, fazendo parte daquela idéia de como apresentar música clássica (ou erudita, ou...) a todos sem parecer mala sem alça. (O programa do Artur da Távola ia por esse caminho, Quem tem medo de música clássica?, na TV Senado. Não sei se ainda existe. Passava, se não me falha a memória, sábado às 18h. Eu gostei tanto da idéia do Távola que até votei nele para o Senado. Quem quiser ganhar meu voto já sabe.) Quando digo "todos", me refiro a gente que tem curiosidade de aprender mais sobre o que ouve mas não sabe xongas de teoria ou nem mesmo de coisas mais simples, como por exemplo que é um naipe, um movimento, etc.

Ergo minha caneca cheia de sorvete napolitano desejando longa vida ao Bona Musica.

Thursday, May 25, 2006

A estratégia e tática do Diabo

A estratégia é de uma simplicidade assustadora. Usa-se a caridade, um dos princípios do Cristianismo, para destruir os próprios cristãos.

A tática já é um pouco tortuosa. Cria-se um problema de perspectiva: ninguém sabe mais até onde vai o amar ao próximo como a si mesmo e o amar a Deus acima de todas as coisas. As relações mútuas entre uma idéia e outra acabam se tornando nebulosas e até contraditórias. Então surge uma espécie de religião monstrenga, como se fosse um ogro de duas cabeças. Cada cabeça corresponde a uma prática diversa. Uns cedem tudo, variando apenas a celeridade com que buscam agradar a todos. Não conseguem nem mesmo perceber, graças a racionalizações, o perigo que estão correndo, considerando até que estão vivendo segundo as riquezas da verdadeira fé, embora estejam de fato querendo agradar de algum jeito os inimigos mais odiosos e jurados da Igreja. Já outros são tão pior quanto. Tosca e vaidosamente, atacam qualquer um para, logo em seguida, encastelarem-se em seu mundo filisteu, com a Bíblia debaixo do braço, crentes que agem como autênticos monges-guerreiros, despreendidos do mundo.

Saturday, May 20, 2006

Post curto feito perninha de barata

Três coisas fazem muita falta e só são periféricas a quem tem preguiça de imaginar. Primeiro, todo mundo devia saber tocar um instrumento e, obrigatoriamente, as mulheres o piano em casa, muito embora, como não sei quem já disse, o passar do tempo e o gramofone nos pouparam de ouvir senhoritas de vozes esganiçadas e as subseqüentes obrigações de lhes render estóica e cavalheirescamente palmas. Segundo, todos tinham de usar armas. Todo cavalheiro deveria ter uma colt à mão. Em último lugar, e já dito melancolicamente por mim diversas vezes, a confusão do mundo deveria ser menos onipresente. Alguém consegue imaginar um eremita no Rio de Janeiro? Mas não reclamemos de tudo. Além de terem concebido a Internet e câmeras digitais, por essa mesma Internet é possível lermos uma entrevista com um ermitão. Não é portanto o mundo admirável pelos seus caminhos tortos mas certeiros?

Aqui vou eu, oprimido pelo sono. Bom dia, leitor.

Saturday, May 13, 2006

Criticando a marteladas

Assassinos por Natureza, ô filme escroto.

Dei uma rápida olhadela nalguns sites e li coisas magníficas: "'Assassinos por natureza' retrata a multiplicidade e a complexificação da violência, baseada na construção do mito bandido na TV etc, etc."; "'Assassinos por Natureza' é considerado um dos filmes mais importantes da década de noventa, etc etc."; "ASSASSINOS POR NATUREZA era uma viagem lisérgica, etc, etc" (observação: quem escreveu isso não estava sendo sarcástico; era um elogio); "Um filme como ASSASSINOS POR NATUREZA, de Oliver Stone, por exemplo, consegue abordar o tema nietzscheano da naturalização dos valores de uma maneira situacional, muito melhor fundada e mergulhada na coisa mesma do que muitos tratados sobre Nietzsche."

Não vou nem contar os "até que não é ruim", "gosto demais desse filme" ou "ele é super-hiper-cool" que catei aqui e acolá. O fato é que esse filme é uma bosta. É do tipo "Pulp Fiction" quanto à violência retardada, e isso me faz lembrar, meio que de longe, o "Laranja Mecânica" (dizem que "Taxi Driver" está nesse baixo mundo também, e obviamente também celebrado como filme cult por sujeitos que têm a sensibilidade de um mosquito da dengue).

O que é mais cândido é que ele se presta a ser uma crítica da glamourização do bandido. Como ele critica? Glamourizando o bandido e rebaixado quase literalmente o mundo inteiro ao nível de psicopatas por tabela. Críticas desse tipo, pela experiência que todos nós temos, só poderia vir de uma espécie de cidadão: o esquerdizóide. Sujeitos dessa classe têm o costume de deturpar a realidade e criticá-la a partir de suas psicoses. É a crítica, por excelência, do diabo: somos todos depravados, perdidos, portanto em essência maus. A maldade está repartida eqüitativamente entre nós, e o mais puro homem é essencialmente igual ao mais cafajeste. Nessa ótica tresloucada, há - que coisa paradoxal! - uma classe de gente que se considera iluminada, está acima do bem e do mal, que pode, à parte de seu lado inferior, apontar o dedo inquisidor para o homem moribundo e gritar com toda força cada um de seus mais torpes pecados, enquanto ela mesma considera que está fazendo um serviço divino, um opus dei às avessas. Eis o pacto demoníaco realizado por baixo de nossas barbas. Somente um sujeito inconseqüente ou totalmente pervertido compactuaria com uma coisa tão lamentável. Daí a impressão que tive, assistindo a esse filme, que ele parecia obra de um jovem irresponsável que julgava possuir algo interessante para nos revelar sobre nós mesmos.

Paulo Francis já dizia que Oliver Stone era retardado por causa de seu filme "JFK". Nunca o assisti, mas, a julgar pelo "Assassinos por Natureza", tenho a enorme tentação de concordar com o crítico. Bom, não serei tão radical, afinal de contas o passar dos anos às vezes nos purga de nossas tolices lamentáveis, e eu já tenho muitas na minha conta.

Friday, May 12, 2006

Reflexões melancólicas sobre o Rio

Não sei dizer se em tempos passados o mundo costumava entrar com mais sem-cerimônia que a habitual em nossas casas. De qualquer modo, antigamente havia os ermos lugares para onde acorriam, como o leitor pode concluir antecipadamente, os ermitões. Lá no alto penhasco, na densa floresta ou isolada ilha, havia refúgio. Havia também um dado que hoje não temos: o tempo, comparado com o nosso, parecia um velhinho de bengalas. Tudo acontecia devagar. As guerras duravam cem anos, os homens estudavam por uns vinte anos na universidade, Cícero discursava no Senado por horas. Mas, que coisa curiosa!, ainda que a arte fosse longa, a vida conseguia ser mais breve que a de hoje. Breve, porém vivida como se fôssemos eternos.

Essa serena e imponente calmaria, que podemos ainda contemplar numa melancólica ruína ateniense ou romana, virou pó. Os tempos mudaram demais. E todo o tumulto que acontecia por baixo daquele andar vagaroso a nós parece algo menor. Mesmo um ambicioso como Marco Antônio, aos olhos de hoje, parece antes um líder de centro acadêmico universitário que um general populista romano. Hoje, qualquer zebedeu arregimenta massas imensas e delira publicamente como se fosse profeta. Lembremos do cabo austríaco ou do operário sem dedo.

Vejamos um exemplo retirado de minha própria experiência. Segunda-feira última, estava eu em casa quando fui surpreendido por uma gritaria. Pensei que minha Roma, que é meu prédio, estava sendo invadida por um bando de arruaceiros, os hunos de todos os tempos. Ora, se havia invasão, era metafórica: a bagunça ocorria há muitos e infelizmente não maiores metros. Como toda bagunça tem o dom de repercutir com intensidade por tudo ao seu redor, mais ou menos como um terremoto, então era realmente como se houvesse um comício na porta de minha casa. Minha casa, meu mosteiro! E se nem mesmo as casas piedosas escapam da turba violenta, que diria meu lar infestado pelo século!

Lembro que escutei uns zurros (porque pessoas não se comunicam aos gritos e urros), e o que era particularmente mais belo era que quem liderava aquela supina sem-educação não era outra pessoa senão nossa atual governadora. A senhora governadora liderava a gritaria, os xingamentos e as palavras de ordem. Eu era obrigado a ouvir tudo aquilo, porque não havia como eu fisicamente fugir. Sim, fisicamente: depois lembrei que seria mais sábio colocar uns fones de ouvido e ouvir música, coisa que prontamente o fiz. Meu espírito se afastou para lugares mais belos, se bem que levei muita chibatada até ele se fazer presente.

Leitor, essas considerações são melancólicas, o que está de acordo com meu caráter sentimental. Todavia, não é algo tão subjetivo assim. Realmente é uma pena quando sabemos que a cidade nem sempre foi assim, até porque nem sempre pessoas tão desavergonhadas tiveram a audácia de se candidatar a governador, muito menos ganhar. Coisas desse tipo aconteciam uma vez ou outra ao longo da história e só em momentos calamitosos. Hoje é lei. Sugiro ao leitor amigo a leitura d’A Rebelião das massas, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, para que entenda melhor o que quero dizer.

Sei que estarei incorrendo num adágio batidíssimo, mas a verdade me obriga a dizer que antes houve tempos melhores. É por esta razão que te peço paciência, caro leitor, para que leia comigo um texto de Gustavo Corção chamado Rio Antigo. Vejamos o que ele diz:

Correndo os olhos pelo Rio Antigo, de Charles J. Dunlop, primeiro distraidamente, depois com atenção e a saudade despertadas, vi na fotografia de Augusto Malta, Marques Ferrez, George Leuzinger, E. A. Mortimer, e outros, sem sombra de dúvida, com a firme convicção de que não estava sendo vítima de uma injustiça ditada pelas lembranças pessoais e pela nostalgia de minha própria vida passada, vi que o Rio daquele tempo, do princípio do século e mesmo dos gloriosos tempos de Pereira Passos, era mais belo, mais limpo, mais claro, mais amável, mais espaçoso, mais luminoso do que este Rio de hoje, que cresceu errado, que andou pelos bordéis da péssima arquitetura e das administrações públicas ainda mais prostituídas. Bom, bom Rio de antigamente! Não consigo separar bem a saudade da apreciação puramente objetiva, mas torno a dizer que tenho a certeza – uma certeza difícil de provar – de não ser injusto nas apresentações que faço do crescimento torto desta infeliz cidade. Não me prendo também ao pitoresco, ao aspecto puramente silvestre e rústico. Justamente, de todo o agradável livro de Charles J. Dunlop, os capítulos e as fotografias que mais forte impressão me causaram são aquelas que se referem ao primeiro passo do progresso, às obras do engenheiro Francisco Pereira Passos, que prometia uma cidade maravilhosa, infelizmente abortada mais tarde pelos seus continuadores.

Desde o capítulo intitulado Primeiras Aplicações Industriais da Luz Elétrica, surge a figura extraordinária do homem de governo que os cariocas de hoje ignoram. O redator do referido capítulo menciona o fato de ter sido a antiga estrada de ferro Dom Pedro II, no ano de 1879, na gestão do engenheiro Francisco Pereira Passos, o primeiro estabelecimento do Brasil que teve iluminação elétrica. A inauguração do novo sistema ocorreu às oito e meia da noite do dia 21 de fevereiro, com a augusta presença de SS. MM. Imperiais, do presidente do conselho, João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu; ministro do Império, Carlos Leôncio de Carvalho, e demais personalidades de destaque. Eis como o Sr. Dunlop narra a cerimônia no seu momento máximo: “Da sala das máquinas, o imperador e sua comitiva dirigiram-se para o saguão. Nesse instante, apagaram-se os bicos de gás. Súbito acenderam os globos opalinos, e uma luz brilhante iluminou o saguão, o vestíbulo e a plataforma dos passageiros. Eram, ao todo, 6 lâmpadas de arco Jablochkov (do engenheiro russo Paul Jablochkov, que morreu na miséria em 1894), sendo 4 na plataforma, 1 no vestíbulo e 1 no saguão. O resultado deve ter sido excelente, pois a “Gazeta de notícias”, do dia seguinte, informou que a luz dava uma claridade que se podia comparar à luz da lua cheia, numa noite perfeitamente limpa de nuvens.”

No capítulo intitulado Campo de São Cristóvão, estamos em 1906, vinte e sete anos mais tarde. O engenheiro Pereira Passos é agora o prefeito da cidade. Diz lá o narrador daquele melhoramento municipal: “Um dia o prefeito Pereira Passos lembrou-se de embelezá-lo (o Campo de São Cristóvão que era um lugar mau freqüentado e sujo), e ordenou fosse levada a efeito a idéia. Iniciados os trabalhos, em poucos dias estavam podadas as árvores, desentulhado o lixo, cortado o capim e revolvida a terra. Surgiu depois o primeiro canteiro, e, a seguir, dezenas deles, simetricamente plantados. Apareceram, após, as alamedas e os belos repuxos, e começaram a florescer as roseiras e muitas outras plantas. Já era outro o aspecto do Campo de São Cristóvão. Afinal, no domingo, dia 11 de novembro de 1906, foi ele oficialmente inaugurado...”.

Admira, leitor amigo, a genial singeleza deste último período e sobretudo saboreia o discreto, decente, o civilizado advérbio dos bons tempos do engenheiro Francisco Pereira Passos: “Afinal... foi inaugurado...”. Primeiro a limpeza, o revolver da terra, o corte do capim. Depois a vez das rosas abrirem suas pétalas não oficiais, e muitas outras plantas. “Afinal...” Bons, excelentes tempos! A fotografia mostra o coreto em que os personagens importantes compareceram, de cartola, no dia solene da inauguração: lá está a figura do Presidente da República, Rodrigues Alves, que vem a ser tio-avô do governador Carvalho Pinto de São Paulo; e lá está ao lado do pequenino Presidente a figura majestosa do prefeito Pereira Passos. Eis como está narrada a cerimônia: “Aí, o prefeito fez a entrega do Campo, radicalmente transformado, ao povo de São Cristóvão. Estava, incontestavelmente, um primor. Ressoaram palmas e todos ergueram vivas aos Drs. Rodrigues Alves e Pereira Passos. Seguiu-se um lauto almoço em que tomou parte o Presidente etc. etc. Foi esplêndido o ‘menu’ servido, tendo o Comendador Gomes Carneiro, durante o ágape, recitado poesias de sua lavra. Ao champagne foram erguidos diversos brindes. O de honra foi levantado ao povo de São Cristóvão. A fotografia mostra...”.

A fotografia mostra, além dos personagens oficiais e do coreto, uma coisa fina que estava no ar do Campo de São Cristóvão como poderia estar na Place de l’Etoile. A direção em que estava perdido o olhar do prefeito Pereira Passos era uma outra, que evidentemente não foi seguida pelos que trouxeram o colesterol da cafajestagem para as artérias desta pobre República. A fotografia mostra aquilo que era claro, que era limpo, que era belo no Rio de Janeiro do meu tempo de criança. E note bem o leitor que esse tempo de infância a que me refiro foi também uma época de grande pobreza para a nossa família. Mas a casa em que morávamos pobres, e que certamente já foi destruída neste afã de erguer jazigos perpétuos de vinte andares, era feita de tábuas vindas do golfo do Báltico, telhas vindas da França, pedras de Portugal, ferragens da Inglaterra. Expliquem-me isto os economistas, sobretudo aqueles que se apregoam a necessidade de ter tudo nacional, como se o Brasil fosse um planeta perdido na escuridão do espaço. Expliquem-me como se fazia para ser pobre e feliz em casas tão pouco nacionalizadas. E expliquem-me outros doutores a misteriosa razão que leva não sei que Gênio mau a esconder dos cariocas de hoje a lembrança do prefeito Pereira Passos. Quando mudaram o nome da Avenida Central para Rio Branco, seria mais razoável, sem nenhum desapreço ao diplomata, lembrar o nome do Prefeito. Mais tarde, quando parecia que a oposição ia derrubar de vez o mito Vargas, foi procurado um nome para a Avenida que até hoje ficou sendo Presidente Vargas, graças ao suicídio do dito Presidente. Lembraram diversos nomes. Creio que se não fosse o suicídio mudariam para Castro Alves. Ninguém, que me conste, lembrou o nome do engenheiro Pereira Passos.

Lembro-me agora das ressonâncias que tinha em nós, em casa, o nome do grande engenheiro. Foi talvez ele que me plantou na alma o gosto da profissão, de tanto ouvir falar em torno, com respeito e até veneração. Lembro-me de minha mãe, num dia muito claro e muito antigo, a me explicar a obra daquele grande homem que n’’O Malho’ eu via caricaturado ou fotografado ao lado do presidente da República, que eu aprendi a desenhar assim: um círculo, dois círculos menores no lugar dos óculos, e cinco fios de barbante paralelos.

Naquela fotografia do Campo de São Cristóvão, e em outras, vê-se também que as cartolas da época não ofendiam os brios de ninguém. O povo era mais bem vestido, e sobretudo a tenue, a posição do corpo era mais ereta, mais briosa, mais desempenhada que a de hoje. Corra você mesmo, leitor, seu álbum de avós e repare como eles eram mais altivos e verticais. E então? O que foi que houve, com os homens, com as cidades? O que foi que aconteceu?

O que me parece certo, para a cidade, se não para os homens, é que não seguimos hoje a linha de crescimento que estava esboçada naquele coreto em que compareceram Rodrigues Alves e Francisco Pereira Passos. Houve um desvio, uma deflexão, uma inclinação, uma curvatura, uma deformação, e em certo ponto começa uma outra história em que predomina a coisa espessa e feia chamada cafajestagem, e em que inaugura-se um jardim antes de nascerem as rosas...

Sim, paciente leitor, a belle époque já esteve aqui, e os políticos recitavam poesias de sua própria lavra, o povo andava com garbo e sobriedade, havia cartolas para serem tiradas durante um verdadeiramente cortês “bom dia!”, e toda mulher era senhora ou senhorita, enquanto os homens eram, necessariamente, senhores. Aliás, confesso novamente que sinto uma certa melancolia ao dizer essas coisas, mas que agora tem a companhia de uma estranha sensação de nostalgia por um tempo que nunca vivi. Ah, como falta uma palavra para designar tal sensação!

Usando um jargão platônico, todos nós participamos da boa e bela educação. Nós, seja qual época for, participamos da cidade celeste. E há épocas em que a boa e bela educação é praticada mais forte e naturalmente, de tal modo que transborda até em nossos atos mais simples e irrelevantes. É um estado natural de fleuma, por assim dizer. Abundam homens de notável caráter, só diferindo-se entre si pela grandeza demonstrada. Já constatava Hume, um fleumático, que Buffon, que era outro, tinha um ar de Marechal da França. A esse propósto, o caráter de Buffon, segundo Le Senne, poderia ser de um tipo da família do “fleumático majestoso”, cuja dignidade se faz patente “pela nobreza dos modos e do linguajar” (Le Senne, Traité de Caractérologie, 3a. ed, P.U.F., p. 522). Realmente os homens se comportavam como cavalheiros, até porque as mulheres eram, por assim dizer, mais exigentes (tema este que merece uma atenção especial, conforme o próprio Ortega y Gasset já chamou a atenção em seu livro Sobre el amor; ataquemos melhor esse assunto em outra ocasião). Sendo todas as mulheres como um ideal encarnado, todas pareciam princesas, e os homens necessariamente marechais da França ou algo em vias disso. (Daí vem a especial graça de toda uma série de personagens de Machado de Assis. Eles parecem especialmente cômicos quando comparados ao fundo em que se moviam. Só no séc. XIX que poderia surgir um Simão Bacamarte.) E mesmo o mais nervoso dos homens daquelas épocas gloriosas mais parece um fleumático crasso, um apático, perante os nossos irrequietos olhos modernos. Mesmo a poesia de um Villon, surgida numa época tão problemática quanto aquele fim de Idade Média, parece algo infinitamente aristocrático se comparada a muita coisa escrita hoje em dia. Nada mais natural, portanto, que, numa época em que vivemos curvados sob o peso de uma não sei qual angústia e não sei qual tristeza, nada mais natural que a política esteja tão infestada dessa coisa espessa e feia chamada “cafajestagem”.

Tenho algo em comum com aquele notório bigodudo alemão. Eu e ele temos um pé num tempo diferente do vivido. A diferença é que Nietzsche tinha uma mente póstuma. Eu nasci pretérito mas com o outro pé atoladíssimo no presente. É uma melancolia danada...

Sunday, April 30, 2006

Notícia autoprobante

Deu no portal da Inteligweb: Maioria dos alunos de 4ª série foram mal em língua portuguesa, segundo dados do MEC.

O título dessa notícia já demonstra as deficiências do ensino de nossa língua, não é verdade? Sou da seguinte opinião: pegassem todos nós que brincamos de tecer coisas bonitas e profundas com o espírito e bem provavelmente quase todos nós teríamos nossos afazeres seriamente questionados ou, em casos gravíssimos, seríamos internados em manicômios ou até presos por atentado ao pudor.

É muito comum ouvirmos que a educação é uma porcaria, que o pessoal passa de ano sem saber nada, etc, etc, mas está aí um caso muito, muito singular: todo mundo diz que a educação está uma porcaria, ou seja, todos se julgam aptos a emitir um juízo crítico acerca das escolas, mas poucos são aqueles que reconhecem publicamente que tiveram sua formação justamente nesse pandemônio que é a nossa educação. Ora, apenas aqueles que têm a fé em grau heróico conseguem atravessar o deserto traiçoeiro e cheio de provações sem ferimentos terríveis. Trocando em miúdos: se todo mundo está apto para criticar a educação, como é que ela poderia estar tão ruim? É evidente que existe alguma coisa muito estranha por trás desse problema. E isso, por si, é um sintoma da precariedade do ensino.

Quando todos se sentem aptos para dizer algo a respeito de tudo, quando todos se acham no direito (às vezes até obrigação) de fazer uma crítica sobre o que for durante um tempo muito maior do que aquele que levaram para ter algum embasamento sobre o que dizem, então a situação é calamitosa. Embora esse seja um tema sério e vital, não quero me perder nele. Minha intenção é de apenas testemunhar o quão grave é uma situação onde os críticos da educação são eles mesmos pessoas com deficiências colossais de formação. Este é, infelizmente, o nosso caso.

Não me pergunte, querido leitor, o que devemos fazer para salvar a educação. Se eu soubesse, você acha que eu escreveria apenas minhas divagações neste blog? Só acho, repito, muito estranho quando justamente aqueles que carregam os estandartes da inteligência se mostram não poucas vezes incapacitados de cumprir a sua áurea missão. Em nosso país isso é uma praga. É este o tema de nosso tempo.

Saturday, April 22, 2006

Centelha (IV)

Nestes últimos tempos, tenho cada vez mais pensado em duas coisas: que toda a tragédia é precedida pelo império da tolice e que todo o saber de nada vale se não trouxer consigo alguma marca do amor.