(Nota: Mais um post requentado.)
Provavelmente o leitor acharia muito estranho se um filho fosse ao cartório para anular sua união com os pais ou vice-versa. Isso não seria menos esquisito se ocorresse com nossos irmãos, tios, primos, avós, etc. Mas é bem possível que o leitor não estranhe tanto se um marido insatisfeito fosse ao mesmo cartório para anular suas ligações com a esposa. Estamos tão habituados com a idéia de divórcio que ela se tornou algo tão natural quanto o Corcovado.
O que é o casamento? É a união indissolúvel entre marido e mulher, visando constituição de família. Atentemos para a palavra “indissolúvel”: se é assim, então onde fica o divórcio? Não fica; aliás pode até ficar no caso do casamento civil. Pois o Estado até matrimônios gere, como se não bastasse sugar nossos míseros centavos a cada mês com dezenas de impostos, obrigatoriedade do voto, do serviço militar... Até violar seus cidadãos quando mortos, sob o pomposo nome de “autopsia”, ele quer. Só que, em se tratando de casamento, o Estado não supre uma peculiaridade desta união. É que a Igreja une sob os auspícios de um dom sobrenatural, criando no instante dos votos um parentesco que não foi o de nascimento. Assim, por causa desse dom, os nubentes vêem suas famílias crescer: surge uma segunda mãe, um segundo pai, um segundo primo, um segundo avô etc. etc. Quando um casal se une desse modo, pode-se dizer que cada um se casa com a família do outro. E o resultado dessa união, realmente espantosa, é a junção de várias pessoas em uma só: de um pouco de sangue de cada família surge uma nova criaturazinha, que é conclusão concreta (melhor: carnal) dessa união. Eis que a ligação de sangue sobrenatural se desdobrou e criou uma ligação carnal em forma de pessoa. A palavra empenhada ao pé do altar se fez carne: é o nascimento da criança.
Se pai e mãe são tão parentes quanto primo e tia, como é possível haver o divórcio? Só pode ficar no casamento civil, que une sem unir. Não quero dizer com isso que os anjos não desceram dos céus e transformaram a união de duas pessoas no cartório no principal acontecimento do universo naquele exato instante. E se várias pessoas se casam ao mesmo tempo, então por um mistério também cada uma será o centro do universo. Porém o que eu quero dizer é que o Estado não tem o poder sobrenatural para sacralizar esta união. Tenho um certo receio de usar a palavra “conveniência” para explicar isso, pois dá margem a equívocos. Se o leitor tiver boa vontade, entenderá que com isso digo que o casamento em cartório acaba se baseando em formalidade jurídica, um assinar de papéis, embora um assinar de papéis todo especial. Mas é apenas ali no papel que está a salvaguarda do casamento. E sabemos como papéis são frágeis.
Há um agravante nesta já insólita situação, que não sei dizer se filosoficamente é causa do movimento ou final disso tudo. É o problema da palavra empenhada. Antigamente, quando quase ninguém sabia escrever, só alguém muito original consideraria indispensável um contrato por escrito e assinado para empenhar um juramento. Em épocas muito remotas, as pessoas juravam nas e pelas coisas mais insólitas: água, vinho, fogo... Até os coitados dos santos eram empenhados, ou as mães. Coitados de ambos! Esses hábitos até hoje podem ser vistos na nossa própria sociedade, ainda que tenham perdido a freqüência e importância original. Em pleno século XX, meu avô, segundo lendas, quando empenhava a palavra, dizia também que jurava pelo seu bigode, pois aquilo era a prova de ele ser um homem, e homens não quebram a palavra. Bigode! Não sei dizer se ele se viu muitas vezes com o bigode aparado; em todo caso, é um exemplo engraçado de como essas coisas permaneceram até os dias de hoje.
Devemos acrescentar na nossa breve história dos juramentos que eles sempre tinham um caráter sagrado. Ninguém escolhia a água por ela ser uma substância intrigante ou o vinho porque o juramento era coisa de gente bêbada. Jurava-se sob a água porque muitos acreditavam que no princípio tudo era água, sendo as coisas agora compostas substancialmente por ela – era a substância mais importante que existia. Ou o fogo, segundo outros. Quanto ao vinho, não sei dizer o motivo, mas imagino que tenha alguma relação com Baco ou outro deus. Além disso, não podemos esquecer que a palavra, por si só, é um atributo que os deuses gentilmente nos emprestaram. Se atentássemos para a sua importância, pensaríamos cinco, dez vezes antes de usá-la. Então o juramento é (ou era, se formos muito pessimistas) algo muito especial e até misterioso, sagrado quanto à sua natureza. Quebrar uma promessa, um pacto, só gente impiedosa, só gente completamente afastada da civilização, só teria coragem um bárbaro.
E o que seria o divórcio senão uma quebra de um juramento? Para piorar a situação, um dos mais importantes juramentos que duas pessoas podem fazer? Não é verdade que apenas os bárbaros não empenham seriamente a palavra? Pois aí está, leitor: nós somos incivilizados, impiedosos, pois em uma quantidade absurda de casos, além de não pensarmos no absurdo que é o desligamento de um laço de parentesco, não levamos a sério nossos próprios votos. Não medimos as conseqüências da nossa própria palavra empenhada e não hesitamos em quebrá-la quando melhor nos convém. Elegemos a eficiência como o mais soberbo princípio e, a partir daí, vivemos na mais medíocre prática de conveniências, de egoísmos e do amor-próprio. Esse problema é tão grave que chega a ameaçar uma sociedade. Se do ponto de vista individual cria inimizades, de um ponto de vista mais geral o juramento se torna uma prática vazia. A sociedade acaba aceitando o império universal da desconfiança. Por que não poderia alguém se “divorciar” da sociedade e, por razões de conveniência, realizar um golpe de Estado e rasgar a Constituição? E o que impediria, em um mundo assim, de um país quebrar tratados cuja tinta que serviu para sua assinatura mal secara? É o mundo das traições, das apunhaladas, dos advogados e promotores em número absurdo, do medo, da desconfiança e do descrédito. É a volta a quatro patas a um estado primitivo, onde tudo parece conspirar contra nós.
Wednesday, March 04, 2009
Tuesday, March 03, 2009
O sultão e o Anjo da Morte
(Nota: Já publiquei esse texto, mas decidi reescrevê-lo parcialmente. No futuro escreverei uma segunda versão com um final levemente alterado.)
Contarei a vocês, amigos, uma história oriental. Não é minha: faz parte desse conjunto de lendas que simplesmente brotam das névoas da história, portanto verdadeiras em espírito. O fim é meio abrupto, mas não contarei a moral.
Certa vez o sultão contemplava orgulhoso e solitário a sua cidade da varanda de seu enorme palácio. Toda aquela opulência lhe parecia a manifestação e testemunho de sua própria glória, como se uma idéia grandiosa tivesse sido atualizada por uma pessoa semelhantemente grandiosa, um milagre que havia se tornado ato em todos os pormenores. Certamente não havia cidade em todo orbe tão bela quanto àquela. Essa contemplação tinha traço de Narciso, porque ao olhar a cidade ele via tão-somente a si mesmo. Todavia, eis que de repente o sultão sentiu um calafrio tremendo, prenúncio de toda a calamidade. Do alto da abóbada celeste escura e estrelada, desceu, tal como um raio, um anjo de beleza terrível. Não era uma criatura qualquer, mas aquele que é a boca de Deus para o flagelo. Estava ali o Anjo da Morte. E o sultão estremeceu. Com uma voz indescritível, logo disse o Anjo: "Ó homem, eis que Deus me enviou para te anunciar terrível desgraça. Prepara-te, pois tocarei a tua cidade como jamais fora antes tocada." Tendo ouvido tão sinistro oráculo, o sultão lhe respondeu: "Que fiz de mal? Ora, diga-me conforme a verdade: quantos hão de tombar? Se foi o Senhor que te enviou, então pela graça de Deus misericordioso te rogo para que me digas!" Falou o Anjo: "Cinco mil tombarão nas próximas semanas de doença terrível. Prepara-te e te alegra, ó homem, porque nem sempre é dado conhecer a extensão da própria desgraça. Tu és pecador, mas Deus é fiel." E voltou aos céus o Anjo da Morte.
Mal tendo desaparecido o Anjo, o sultão, homem extremamente prático como todos bons governantes devem ser, tratou de expedir ordens o quanto antes para que a cidade suportasse o flagelo vindouro. As ordens eram dadas com certa melancolia, pois ele considerava a empresa difícil e o fato vindouro brutal. Mas não se discute a vontade de Deus. A cidade foi preparada, na medida do possível, para suportar a calamidade iminente.
A semana seguinte chegou e as pessoas começaram a morrer. O sultão, bastante apreensivo, observava os acontecimentos e agia de acordo com suas possibilidades, sem jamais deixar de contabilizar o número de mortos: estava certo que a desgraça cessaria tão logo a quantidade de almas mencionada pelo Anjo subisse aos céus. Na primeira semana Deus chamou aos céus setecentas almas. Na segunda foram mil e quinhentas. Na terceira foram mais mil. O pânico era generalizado. O espírito do povo sofria golpe atrás de golpe. E não cessava de morrer gente até que houve um total de mais de trinta mil mortos em pouco mais de um mês, o que deixou indignado o sultão, que repetia de si para si: "Para o inferno aquele demônio mentiroso!" Eis então que novamente o Anjo da Morte apareceu e lhe perguntou: "Ó homem, por que blasfemas?" Respondeu-lhe o sultão: "Tu me enganaste, demônio! Falaste que cinco mil homens tombariam de doença terrível. Ora, em pouco mais de um mês morreram mais de trinta mil!" Disse-lhe o Anjo: "Decerto, ó homem, cinco mil tombaram de peste terrível." O sultão, ao ouvir tais palavras, sentiu o coração queimar, e sua alma se inquietou, e uma ira aparentemente justa se apossou dele. Exasperado, disse, com a voz irada: "Zombas de mim, maldito cão dos infernos! Seis vezes mais homens tombaram do que isso!" Então lhe respondeu o Anjo da Morte: "Ó homem de pouca fé e insensato, que duvida do aviso do céu! Celerado! Cinco mil tombaram de peste. O restante, em verdade vos digo, o restante morreu de medo da peste."
Contarei a vocês, amigos, uma história oriental. Não é minha: faz parte desse conjunto de lendas que simplesmente brotam das névoas da história, portanto verdadeiras em espírito. O fim é meio abrupto, mas não contarei a moral.
Certa vez o sultão contemplava orgulhoso e solitário a sua cidade da varanda de seu enorme palácio. Toda aquela opulência lhe parecia a manifestação e testemunho de sua própria glória, como se uma idéia grandiosa tivesse sido atualizada por uma pessoa semelhantemente grandiosa, um milagre que havia se tornado ato em todos os pormenores. Certamente não havia cidade em todo orbe tão bela quanto àquela. Essa contemplação tinha traço de Narciso, porque ao olhar a cidade ele via tão-somente a si mesmo. Todavia, eis que de repente o sultão sentiu um calafrio tremendo, prenúncio de toda a calamidade. Do alto da abóbada celeste escura e estrelada, desceu, tal como um raio, um anjo de beleza terrível. Não era uma criatura qualquer, mas aquele que é a boca de Deus para o flagelo. Estava ali o Anjo da Morte. E o sultão estremeceu. Com uma voz indescritível, logo disse o Anjo: "Ó homem, eis que Deus me enviou para te anunciar terrível desgraça. Prepara-te, pois tocarei a tua cidade como jamais fora antes tocada." Tendo ouvido tão sinistro oráculo, o sultão lhe respondeu: "Que fiz de mal? Ora, diga-me conforme a verdade: quantos hão de tombar? Se foi o Senhor que te enviou, então pela graça de Deus misericordioso te rogo para que me digas!" Falou o Anjo: "Cinco mil tombarão nas próximas semanas de doença terrível. Prepara-te e te alegra, ó homem, porque nem sempre é dado conhecer a extensão da própria desgraça. Tu és pecador, mas Deus é fiel." E voltou aos céus o Anjo da Morte.
Mal tendo desaparecido o Anjo, o sultão, homem extremamente prático como todos bons governantes devem ser, tratou de expedir ordens o quanto antes para que a cidade suportasse o flagelo vindouro. As ordens eram dadas com certa melancolia, pois ele considerava a empresa difícil e o fato vindouro brutal. Mas não se discute a vontade de Deus. A cidade foi preparada, na medida do possível, para suportar a calamidade iminente.
A semana seguinte chegou e as pessoas começaram a morrer. O sultão, bastante apreensivo, observava os acontecimentos e agia de acordo com suas possibilidades, sem jamais deixar de contabilizar o número de mortos: estava certo que a desgraça cessaria tão logo a quantidade de almas mencionada pelo Anjo subisse aos céus. Na primeira semana Deus chamou aos céus setecentas almas. Na segunda foram mil e quinhentas. Na terceira foram mais mil. O pânico era generalizado. O espírito do povo sofria golpe atrás de golpe. E não cessava de morrer gente até que houve um total de mais de trinta mil mortos em pouco mais de um mês, o que deixou indignado o sultão, que repetia de si para si: "Para o inferno aquele demônio mentiroso!" Eis então que novamente o Anjo da Morte apareceu e lhe perguntou: "Ó homem, por que blasfemas?" Respondeu-lhe o sultão: "Tu me enganaste, demônio! Falaste que cinco mil homens tombariam de doença terrível. Ora, em pouco mais de um mês morreram mais de trinta mil!" Disse-lhe o Anjo: "Decerto, ó homem, cinco mil tombaram de peste terrível." O sultão, ao ouvir tais palavras, sentiu o coração queimar, e sua alma se inquietou, e uma ira aparentemente justa se apossou dele. Exasperado, disse, com a voz irada: "Zombas de mim, maldito cão dos infernos! Seis vezes mais homens tombaram do que isso!" Então lhe respondeu o Anjo da Morte: "Ó homem de pouca fé e insensato, que duvida do aviso do céu! Celerado! Cinco mil tombaram de peste. O restante, em verdade vos digo, o restante morreu de medo da peste."
Monday, March 02, 2009
Da Igreja e o comunismo
Olavo de Carvalho, tanto no True Outspeak de segunda última, bem como em muitíssimas ocasiões, tem dito que a Igreja silenciou publicamente acerca da perversidade do comunismo desde o último concílio. Essa acusação, no entanto, está longe da verdade. A tal ponto a Igreja condena pública e expressamente o comunismo que no próprio catecismo há referências a malignidade do comunismo.
Está claramente dito, na seção acerca do sétimo mandamento, que o comunismo e o socialismo são pecados contra este mandamento, e contrários à doutrina social da Igreja:
Isso significa que todo católico deve (ou deveria) saber que professar o comunismo é um pecado grave, e que a Igreja está clara, visível e inequivocamente em combate contra o comunismo, como aliás sempre esteve. Ora, o pecado contra o sétimo mandamento não é o único mal do comunismo. Sendo uma ideologia atéia, e sendo o ateísmo igualmente um pecado gravíssimo, o comunismo é uma afronta ao primeiro mandamento:
Sendo o comunismo ateu e contrário à doutrina social da Igreja, aquele que o professa está queimado em pelo menos dois mandamentos. Todavia, o comunismo também é uma idéia genocida, totalitária, contrária à família e às autoridades legitimamente estabelecidas, promovedor de discórdias, inimigo da propriedade privada e defensor de muitas outras coisas absurdas. Portanto, logicamente ele está em choque contra virtualmente todos os mandamentos de Deus, não havendo sequer necessidade de sempre repetir a palavra "comunismo" em cada exemplo de pecado contra os mandamentos.
Como tudo isso é dito expressamente no próprio catecismo, que é ensinado a todos os fiéis do mundo inteiro, fica evidente que a Igreja permanece em combate feroz contra o comunismo desde sempre e com toda a sua força, não sendo verdade, pois, que a partir do último concílio ela deixou de condená-lo. Tudo isso é de conhecimento básico para todo católico.
Por fim, eu gostaria de dizer que já vi missas em que padres condenavam explicitamente o comunismo. É verdade que já vi uma missa em que um padre criticava a propriedade privada, como se ela fosse pecaminosa de fato, porém esse pretenso ensinamento é um absurdo total, claramente contrário ao catecismo da Igreja, que, ao contrário, considera a propriedade privada legítima, desde que fundada na justiça. Ademais, infelizmente sempre houve heresiarcas no seio da Igreja, mas ela sempre soube defender o depósito da fé da maneira mais sábia e inequívoca. Por mais terríveis que sejam os inimigos da fé e por mais que eles cerquem a Igreja, ela nunca se deixou acovardar nem se amesquinhar: todos os erros em todos os tempos foram combatidos com bravura e nunca deixaram de ser denunciados pelas principais autoridades sacerdotais. Acusar a Igreja atualmente do contrário está em desacordo com a tradição e bem longe do que tem acontecido na realidade.
Está claramente dito, na seção acerca do sétimo mandamento, que o comunismo e o socialismo são pecados contra este mandamento, e contrários à doutrina social da Igreja:
512. O que é que se opõe à doutrina social da Igreja?
2424 – 2425
Opõem-se à doutrina social da Igreja os sistemas económicos e sociais que sacrificam os direitos fundamentais das pessoas ou que fazem do lucro a sua regra exclusiva ou o seu fim último. Por isso, a Igreja rejeita as ideologias associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou às formas ateias e totalitárias de «socialismo». Rejeita, além disso, na prática do «capitalismo», o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano.
Isso significa que todo católico deve (ou deveria) saber que professar o comunismo é um pecado grave, e que a Igreja está clara, visível e inequivocamente em combate contra o comunismo, como aliás sempre esteve. Ora, o pecado contra o sétimo mandamento não é o único mal do comunismo. Sendo uma ideologia atéia, e sendo o ateísmo igualmente um pecado gravíssimo, o comunismo é uma afronta ao primeiro mandamento:
445. Que proíbe Deus ao ordenar: «Não terás outros deuses perante Mim» (Ex 20,2)?
2110-2128
2138-2140
Este mandamento proíbe:
- o politeísmo e a idolatria, que diviniza uma criatura, o poder, o dinheiro, e até mesmo o demónio;
- a superstição, que é um desvio do culto devido ao verdadeiro Deus, e que se expressa nas várias formas de adivinhação, magia, feitiçaria e espiritismo;
- a irreligião, expressa no tentar a Deus com palavras ou actos, no sacrilégio, que profana pessoas ou coisas sagradas sobretudo a Eucaristia, e na simonia, que pretende comprar ou vender realidades espirituais;
- o ateísmo, que nega a existência de Deus, fundando-se muitas vezes numa falsa concepção de autonomia humana;
- o agnosticismo, segundo o qual nada se poder saber de Deus, e que inclui o indiferentismo e o ateísmo prático
Sendo o comunismo ateu e contrário à doutrina social da Igreja, aquele que o professa está queimado em pelo menos dois mandamentos. Todavia, o comunismo também é uma idéia genocida, totalitária, contrária à família e às autoridades legitimamente estabelecidas, promovedor de discórdias, inimigo da propriedade privada e defensor de muitas outras coisas absurdas. Portanto, logicamente ele está em choque contra virtualmente todos os mandamentos de Deus, não havendo sequer necessidade de sempre repetir a palavra "comunismo" em cada exemplo de pecado contra os mandamentos.
Como tudo isso é dito expressamente no próprio catecismo, que é ensinado a todos os fiéis do mundo inteiro, fica evidente que a Igreja permanece em combate feroz contra o comunismo desde sempre e com toda a sua força, não sendo verdade, pois, que a partir do último concílio ela deixou de condená-lo. Tudo isso é de conhecimento básico para todo católico.
Por fim, eu gostaria de dizer que já vi missas em que padres condenavam explicitamente o comunismo. É verdade que já vi uma missa em que um padre criticava a propriedade privada, como se ela fosse pecaminosa de fato, porém esse pretenso ensinamento é um absurdo total, claramente contrário ao catecismo da Igreja, que, ao contrário, considera a propriedade privada legítima, desde que fundada na justiça. Ademais, infelizmente sempre houve heresiarcas no seio da Igreja, mas ela sempre soube defender o depósito da fé da maneira mais sábia e inequívoca. Por mais terríveis que sejam os inimigos da fé e por mais que eles cerquem a Igreja, ela nunca se deixou acovardar nem se amesquinhar: todos os erros em todos os tempos foram combatidos com bravura e nunca deixaram de ser denunciados pelas principais autoridades sacerdotais. Acusar a Igreja atualmente do contrário está em desacordo com a tradição e bem longe do que tem acontecido na realidade.
Tuesday, February 24, 2009
Pedagogia do cemitério
A disposição de certos locais mais ou menos próximos de onde moro me chama a atenção, tanto por ter sido fruto do acaso como pela significação simbólica. A Lapa, chamada de área boêmia do Rio, é um bom exemplo. Logo no início, há vários estabelecimentos festivos, onde há tanta gente apinhada que não raro é difícil de andar. Não raro também é o consumo de drogas e prostituição. Se continuarmos andando e passando pelos Arcos de Lapa, ainda haverá as mesmas coisas, porém bem mais a frente está uma funerária, e ao seu lado o Instituto Médico Legal. Caminhando mais um pouco, deparamo-nos com o INCA e o Hospital da Cruz Vermelha, embora haja outros estabelecimentos de saúde próximos. Ora, o sentido disso sempre me foi muito presente: além do desregramento está a morte. Não sei se muitas pessoas fazem alguma reflexão desse tipo ao passar por todos esses lugares, mas deveriam.
Bem próximo de onde moro, a ponto de ser impossível de dormir no meu quarto quando há carnaval, há o Sambódromo. O que muitos não sabem ou não se deram conta é que ali perto há o Cemitério do Catumbi, talvez a menos de duzentos passos. Considero simplesmente inacreditável que nenhum carioca tenha refletido acerca disso. Os mortos jazem a não muitos metros das extravagâncias. Deveria ser, aliás, costume fazer uma peregrinação até aquele cemitério após ir ao Sambódromo, como medida educativa. Vejam os gregos por exemplo. Lembro-me muito mal de uma aula em que um rapaz falava acerca de uma festa muito estranha na Grécia clássica. A certa altura das festividades, as pessoas, dentro de tavernas, ficavam por algum tempo caladas e concentradas, de cabeça baixa e olhando para suas canecas. Não me lembro exatamente da razão desse comportamento, mas tinha alguma coisa a ver com a presença de espíritos: era como se cada um se concentrasse a fim de não ser perturbado pelos mortos. Em seguida elas voltavam ao normal e voltavam a beber e conversar. É algo análogo à missa: há o momento em que todos se confraternizam dando a paz de Cristo, mas também todos se calam imediatamente após a comunhão, sendo que anteriormente os mortos são lembrados: Memento etiam, Domine...
Fosse eu pastor ou padre e teria feito um sermão de domingo levantando esses pontos.
A morte é uma das realidades da nossa existência. Assim, toda a nossa vida está ancorada, queiramos ou não, em sua presença. Contudo, mais de um século de positivismo escamoteou tudo aquilo que não passava pelo crivo da ciência experimental. Como a morte poderia ser considerada do ponto de vista científico, ou, melhor dizendo, que ciência teria a morte como objeto? Um materialismo implícito fez com que simplesmente uma das realidades mais próprias de nossa existência fosse considerada um não-assunto. Ela ficou, no máximo, relegada ao domínio das crenças subjetivas e à conversa informal. Todavia, seria injusto considerar o positivismo o único vilão. Por mais estranho que pareça, os avanços técnicos e políticos, que permitiram a existência de uma enxurrada de pessoas como nunca se vira antes, contribuíram igualmente para o quase esquecimento da morte. Com as expectativas de vida subindo cada vez mais e com a relativa melhoria das condições de vida, uma quantidade imensa de luxo e conforto foi disponibilizada para virtualmente quase toda a humanidade. A existência começou a parecer não mais tão penosa como no passado -- um engano lamentável, mas é essa a sensação. A profunda instabilidade da vida, que se refletia tão materialmente que mesmo no Pai-Nosso é sempre pedido "o pão nosso de cada dia", atualmente parece ter se tornado um problema meramente filosófico: com efeito, a urgência do "pão nosso de cada dia" não parece ser mais tão grave assim. Catástrofes de abastecimento tais como houve na Rússia em fins do séc. XIX parecem aos olhos do observador mediano algo circunscrito tão-somente a regiões remotas do mundo. Tudo isso fez com que a realidade da morte fosse uma experiência longínqua para muitíssimas pessoas. Diferentemente de um Bach, que se tornara órfão bem jovem, perdera a primeira esposa e ao longo de sua vida quase metade dos filhos, quantos de nós passaram por algo semelhante? Para muitíssimas pessoas, realmente a morte não tem sido uma experiência próximo: quando muito, chora-se a perda de algum parente afastado ou um amigo. Quanto não conhecem a morte tão somente por assim dizer de oitiva? Contudo, mais cedo ou mais tarde, todos enfrentarão a presença da morte.
Não quero empreender uma análise a fim de descobrir se o positivismo é causa ou efeito do avanço técnico-político. Desejo apenas salientar que a morte acabou sendo posta para debaixo do tapete. Ora, tudo aquilo que é uma realidade na vida humana jamais poderá ser escondido sem prejuízo. A conseqüência disso é que ela surgirá com força redobrada. O século passado foi assaz ilustrativo: quando a morte parecia sob controle, duas guerras mundiais sangrentas e regimes totalitários causaram a morte de mais de trezentos milhões de almas, e essas mortes totalmente desprovidas de sentido não param. Ao mesmo tempo, a decadência da política tem transformado os centros urbanos em moedores de carne, principalmente em países como Brasil, onde a taxa de homicídios é assombrosa. Embora tenham tentado transformar a morte em peça de antiquário, ela vem se mostrando com uma vitalidade apavorante.
Essa situação é desconcertante. Com todo o aparato técnico, simplesmente nos vemos por assim dizer mais inermes do que nunca contra os grilhões da morte. Ela desempenha sua função com um desassombro particularmente humilhante.
(Continua...)
Bem próximo de onde moro, a ponto de ser impossível de dormir no meu quarto quando há carnaval, há o Sambódromo. O que muitos não sabem ou não se deram conta é que ali perto há o Cemitério do Catumbi, talvez a menos de duzentos passos. Considero simplesmente inacreditável que nenhum carioca tenha refletido acerca disso. Os mortos jazem a não muitos metros das extravagâncias. Deveria ser, aliás, costume fazer uma peregrinação até aquele cemitério após ir ao Sambódromo, como medida educativa. Vejam os gregos por exemplo. Lembro-me muito mal de uma aula em que um rapaz falava acerca de uma festa muito estranha na Grécia clássica. A certa altura das festividades, as pessoas, dentro de tavernas, ficavam por algum tempo caladas e concentradas, de cabeça baixa e olhando para suas canecas. Não me lembro exatamente da razão desse comportamento, mas tinha alguma coisa a ver com a presença de espíritos: era como se cada um se concentrasse a fim de não ser perturbado pelos mortos. Em seguida elas voltavam ao normal e voltavam a beber e conversar. É algo análogo à missa: há o momento em que todos se confraternizam dando a paz de Cristo, mas também todos se calam imediatamente após a comunhão, sendo que anteriormente os mortos são lembrados: Memento etiam, Domine...
Fosse eu pastor ou padre e teria feito um sermão de domingo levantando esses pontos.
A morte é uma das realidades da nossa existência. Assim, toda a nossa vida está ancorada, queiramos ou não, em sua presença. Contudo, mais de um século de positivismo escamoteou tudo aquilo que não passava pelo crivo da ciência experimental. Como a morte poderia ser considerada do ponto de vista científico, ou, melhor dizendo, que ciência teria a morte como objeto? Um materialismo implícito fez com que simplesmente uma das realidades mais próprias de nossa existência fosse considerada um não-assunto. Ela ficou, no máximo, relegada ao domínio das crenças subjetivas e à conversa informal. Todavia, seria injusto considerar o positivismo o único vilão. Por mais estranho que pareça, os avanços técnicos e políticos, que permitiram a existência de uma enxurrada de pessoas como nunca se vira antes, contribuíram igualmente para o quase esquecimento da morte. Com as expectativas de vida subindo cada vez mais e com a relativa melhoria das condições de vida, uma quantidade imensa de luxo e conforto foi disponibilizada para virtualmente quase toda a humanidade. A existência começou a parecer não mais tão penosa como no passado -- um engano lamentável, mas é essa a sensação. A profunda instabilidade da vida, que se refletia tão materialmente que mesmo no Pai-Nosso é sempre pedido "o pão nosso de cada dia", atualmente parece ter se tornado um problema meramente filosófico: com efeito, a urgência do "pão nosso de cada dia" não parece ser mais tão grave assim. Catástrofes de abastecimento tais como houve na Rússia em fins do séc. XIX parecem aos olhos do observador mediano algo circunscrito tão-somente a regiões remotas do mundo. Tudo isso fez com que a realidade da morte fosse uma experiência longínqua para muitíssimas pessoas. Diferentemente de um Bach, que se tornara órfão bem jovem, perdera a primeira esposa e ao longo de sua vida quase metade dos filhos, quantos de nós passaram por algo semelhante? Para muitíssimas pessoas, realmente a morte não tem sido uma experiência próximo: quando muito, chora-se a perda de algum parente afastado ou um amigo. Quanto não conhecem a morte tão somente por assim dizer de oitiva? Contudo, mais cedo ou mais tarde, todos enfrentarão a presença da morte.
Não quero empreender uma análise a fim de descobrir se o positivismo é causa ou efeito do avanço técnico-político. Desejo apenas salientar que a morte acabou sendo posta para debaixo do tapete. Ora, tudo aquilo que é uma realidade na vida humana jamais poderá ser escondido sem prejuízo. A conseqüência disso é que ela surgirá com força redobrada. O século passado foi assaz ilustrativo: quando a morte parecia sob controle, duas guerras mundiais sangrentas e regimes totalitários causaram a morte de mais de trezentos milhões de almas, e essas mortes totalmente desprovidas de sentido não param. Ao mesmo tempo, a decadência da política tem transformado os centros urbanos em moedores de carne, principalmente em países como Brasil, onde a taxa de homicídios é assombrosa. Embora tenham tentado transformar a morte em peça de antiquário, ela vem se mostrando com uma vitalidade apavorante.
Essa situação é desconcertante. Com todo o aparato técnico, simplesmente nos vemos por assim dizer mais inermes do que nunca contra os grilhões da morte. Ela desempenha sua função com um desassombro particularmente humilhante.
(Continua...)
Ida ao concerto
(Como estava pessimamente escrito, decidi republicar este post, ainda que certas coisas provavelmente tenham me passado em branco. Não é improvável eu reescrevê-lo novamente.)
Sábado fui assistir à apresentação de Daniel Taylor na Sala Cecília Meirelles acompanhado por mais um Taylor, A.J.P., o falecido historiador inglês que escreveu A Segunda Guerra Mundial. Não sei se os dois têm algum parentesco, mas direi alguma coisa sobre ambos. Contudo, direi primeiramente certas coisas imediatamente anteriores à apresentação.
Tendo chegado cedo, cousa espantosa vindo de alguém tão mal relacionado com os ponteiros como eu, decidi fazer uma hora numa igreja ali próxima. Mal entrei e vi um sujeito baixinho ensaiando umas músicas com um coro tão animado quanto feminino e de idade algo avançada. Ao lado, uma senhora tocava um teclado num estilo tal que julguei ser alguma performance ultra-moderna. Devo mencionar ao leitor que uma das pragas modernas é, na minha opinião, o teclado. Por mais que digam que ele soe como qualquer coisa imaginável, na minha modesta opinião ele soa apenas como um teclado tentando ser qualquer coisa imaginável. A falta de entrosamento entre o coro e o teclado era impressionante, sendo compensada pela extrema desafinação daquelas almas piedosas, algo que o baixinho, animado como estava em lhes ensinar canções, parecia ignorar completamente. Sua boa vontade era igualmente impressionante, e então percebi que talvez ele estivesse cumprindo algum tipo de penitência inusitada misturada com algum tipo de masoquismo, o que talvez tornasse a penitência inútil.
Aquilo não foi minha primeira comoção musical do dia, pois sentira algo semelhante ao passar, muitas horas antes, em frente à Igreja da Santa Cruz dos Militares, caso minha memória não me engane. No momento da comunhão, alguém teve a belíssima idéia de fazer um acompanhamento musical num estilo semelhante a Ivan Lins, porém em tons por assim dizer sacros. Nunca me passara pela cabeça uma missa sitiada pela cafonice, mas naquele momento as pessoas conseguiram esse milagre. Infelizmente meu dáimon me mandou apertar o passo, embora eu esteja até agora querendo saber que raio de música era aquela.
Quanto à igrejinha do baixinho animado, igrejinha aliás muito bela e que conheci graças a um evento totalmente mundano, isto é, quando da apresentação de quartetos de cordas de Beethoven, decidi, pois, ficar ainda mais, pelo menos até a hora da comunhão, esperando que Deus não me julgasse mal por ter de sair no meio da missa por causa do concerto. Chamou-me a atenção todas as pessoas serem de idade avançada. Numa igreja aqui perto de casa algo semelhante parece ocorrer no meio de semana, exceto uma vez que vi uma senhorita de minissaia lá dentro. Mas aquela igrejinha estava razoavelmente cheia, num sábado frio e chuvoso, cousa mui louvável. Em todo o caso, eu era o caçula. Obviamente não havia razões para me incomodar com nada disso. Um incômodo, na realidade, irrompeu mal tendo começado a missa. Antes que alguém me julgue destituído de espiritualidade, advirto que me refiro ao andamento estranho da missa. Aquele sujeito baixinho, que então descobri ser o pároco, juntamente com seu assistente, coreografava um balançar de braços dos fiéis. Havia uma cantoria de gosto duvidoso, uns gestos estranhos, uma música mal feita, uma leitura um tanto canhestra de passagens bíblicas, enfim, tudo era terrivelmente mal conduzido. Naqueles momentos, enquanto eu me perdia a olhar aquela igreja tão agradável, eis que me surgiram as palavras que certa vez meu amigo Carlos escrevera em seu blog sobre a união da beleza com a liturgia. O que ele escreveu é, garanto, produto de considerações mui pessoais, pois ele próprio experimentara cenas litúrgicas esquisitas. Mas, pedindo gentilmente licença a meu amigo, eu avançaria um pouco mais e diria que toda a missa que não leva suficientemente a sério a união da beleza com a liturgia cai, na menos pior das hipóteses, no cômico. Em certa ocasião, durante missa em lembrança à minha avó falecida, havia um cidadão que entoava cânticos numa voz tão bizarra e com um jeito de falar tão inaudito que foi um empreendimento heróico manter o auto-controle para não rir durante tão grave evento.
Como eu estava com um espírito de concerto, não pude deixar de matutar que atualmente seria um período glorioso para as missas de Haydn, as quais, na época, foram ignoradas por causa de seu espírito alegre demais. Ora, sequer precisaríamos de uma orquestra e coro: bastaria um tocador de cd ou um desses cacarecos tecnológicos atuais que desconheço velhacamente. Por que, dentre as opções, há o hábito de sempre escolherem a mais infeliz? O mais curioso é o raciocínio de que o povo precisa daquilo que mais lhe convém, tendo implicitamente a noção de que o povo só gosta do que for pior. Música mal feita no lugar de Haydn parece ser, na cabeça de alguns, mais próprio ao povo.
Deixei, pois, a agitação de papéis de lado, mesmo antes da comunhão, e me dirigi à sala de concerto, embora, para meu espanto, faltasse ainda meia hora para o início da apresentação. Sentei-me e decidi conversar um pouco com o historiador inglês, autor de A Segunda Guerra Mundial.
Não há nada pior que estar em má companhia. Talvez a única coisa pior é não poder desembaraçar-se dela. Para me gáudio, não era o caso em questão. A.J.P. Taylor me foi um ótimo companheiro de conversações, de tal modo que o deixei falar o tempo todo a fim de aprender.
Esse livro foi escrito no início da década de 60 e se tornou um clássico, embora tenha sido inicialmente detestado, exceto por "ex"-nazistas. Eu tinhja ouvido falar de Taylor graças a um outro excelente historiador, John Lukács, mas não podia imaginar que, além de ser inteligente, ele era tão divertido. Sua ironia é sutil -- às vezes nem tanto --, bem agradável, o que me rendeu algumas risadas, como no momento em que ele diz que as indenizações de guerra da Alemanha eram motivos "de insatisfação intelectual; coisa para lamentar à noite, e não motivos de sofrimento na vida cotidiana", que, em bom português, significa "frescura". Na mesma página, ainda sobre as indenizações, ele continua: "O homem de negócios em dificuldade, o professor mal pago, o trabalhador desempregado, todos as culpavam pelas suas dificuldades. O choro de uma criança faminta era um protesto contra elas. Os velhos iam para a cova devido às reparações." Ironia e sarcasmo que segundo meu imaginar só os ingleses conseguem desempenhar tão bem. Contudo, não pude deixar de perceber como tudo aquilo se aplica extraordinariamente ao Brasil, com a única diferença de o culpado ser a "exclusão social" ou o "capitalismo". Numa página anterior, ele diz que os ingleses começaram "a denunciar a loucura das reparações, tão logo se apossaram da frota mercante alemã", cousa que deve ter irritado mais de um inglês ao ler isso. Essas e outras passagens indicam que Taylor era polêmico, porque ele estava atacando todos os sagrados lugares-comuns: que a Alemanha não tinha como pagar as indenizações de guerra; que o Tratado de Versalhes foi totalmente péssimo para aquele país; que o programa de rearmamento alemão foi pesado durante quase toda a década de 30; que a guerra mundial foi tramada por Hitler; que o ditador, aliás, era um estadista -- Lukács desenvolveu mais esse ponto; que planos como a anexação da Bélgica e Ucrânia, guerra contra a França e o Lebensraum não eram idéias típicas de Hitler, mas alemãs, e desde a Primeira Guerra. A lista é ainda mais extensa. Não foi por acaso que seu livro teve inicialmente uma recepção péssima e, para piorar, acabou erroneamente saudado por "ex"-nazistas, portanto interpretado por todos como uma espécie de reabilitação de Adolf Hitler: interpretação completamente torta, diga-se de passagem.
É lamentável quando o historiador é obrigado a seguir a opinião de todos tão-somente porque parece ser a mais agradável. A idéia de oposição ao establishment por si mesma é agradável apenas a quem não saiu da adolescência mental. No caso do historiador, a situação é mais complicada porque, afinal de contas, a pesquisa jamais cessa. Um estudioso busca explicar o que ocorreu, nunca se satisfazando com as explicações aparentes. Um pesquisar tem de ser uma pessoa séria, não um instrumento que ecoa a opinião do dia. O exemplo do modo como o próprio Taylor conta de como foi obrigado a rever suas posições ao longo de suas pesquisas é ótimo. Ele, como diria Aristóteles, foi constrangido pela verdade, muito embora fossem contrárias não só às suas primeiras opiniões como ao consenso: ele acabou sendo detestado por muitos. É uma infelicidade monstruosa que em nosso país os cursos de história tenham sido tomados por selvagens cujo espírito é o oposto ao do verdadeiro historiador, embora esses infelizes se considerem espíritos críticos: eles querem unanimidade tão-somente. Mas que o leitor não exagere duplamente o que estou dizendo: Taylor não tem razão sempre e eu ainda estou lendo o livro*.
Precisei terminar a agradável conversa com Taylor porque o concerto iria começar. Até o instante em que escrevo estas linhas tortas, não compreendi por que os organizadores chamaram o evento de "Música Antiga", já que nem Dowland, nem Handel e nem as composições anônimas apresentadas eram música antiga. Naturalmente, a dúvida que surge é saber o que diabos significa esse termo. O canto gregoriano é antiqüíssimo, talvez a música mais antiga ainda em uso, mas não tenho certeza se seria apropriado classificá-lo como música antiga. Talvez seja mais próprio usar o termo para as músicas da Antigüidade, mas é bom que se diga que os próprios medievais, a certa altura, dividiam os estilos em ars antiqua e ars nova, e isso nada tinha a ver com a Antigüidade. Para o nosso gosto e, por que não, da própria Renascença, ars nova é algo inacreditavelmente arcaico, tanto quanto ars antiqua. E sabemos muito pouco da música da Antigüidade. Do ponto de vista da música clássica -- o termo aqui se refere à música de um determinado período --, talvez não seja um absurdo total considerar que o período barroco e anterior não passam de algo cafona e fora de moda, ainda que seja uma extravagância colocar no mesmo saco gente tão diferente como Handel e Dowland. É sempre complicado estabelecer o que é moderno e o que é velho segundo o que parece mais antiquado. Mas, como diria Taylor, são inquietações intelectuais boas para incomodar o sono, mas que não afetam em nada a vida cotidiana. Assim, estando o termo equivocado ou não, os músicos estavam lá e havia público suficiente para a apresentação.
Evidentemente, a atração principal do concerto era o contratenor Donald Taylor, o qual, repito, não faço a menor idéia se é parente ou não do historiador inglês. A primeira parte da apresentação foi consagrada a Dowland e compositores anônimos. Se o leitor nunca ouviu o compositor inglês, saiba que suas músicas são ótimas para incentivar a produção de bílis negra. É impressionante como Dowland compôs tantas músicas melancólicas. Na minha opinião, um dos melhores momentos foi quando Taylor cantou I saw my lady weep, embora não tenha havido uma segunda voz. Não que ele tivesse se apresentado sozinho: havia uma soprano extremamente bonitinha com ele, trajando um longo vestido esverdeado. Dentro do meu limitado entendimento musical, ela cantava muito bem. Pensei nas palavras de um poeta que dizia não haver nada mais agradável que ouvir um talento combinado a uma feição bela. Não posso cometer a injustiça de esquecer o senhor do alaúde, instrumento delicado que foi muito bem tocado.
A segunda parte foi dedicada quase inteiramente a Handel, com acompanhamento de piano. Confesso que seria mais agradável se houvesse uma pequena orquestra de câmara, mas não quero choramingar porque o pianista era muito bom. Se alguém tinha alguma dúvida de sua habilidade, suponho que ela tenha desabao após a execução de uma transcrição de Liszt de uma peça bachiana, se não me engano algum prelúdio e fuga. Algumas árias de Handel sustentaram alguma melancolia, ainda que bela, como durante a apresentação de um duo da ópera Theodora. Para quebrar a melancolia, o espetáculo findou com duas árias heróicas da ópera Giulio Cesare, em que Taylor alternava entre contratenor e barítono, exibindo suas habilidades vocais. Durante as árias heróicas, ele também fazia questão de interpretá-las, explicando antes ao público brevemente do que se tratava.
Eu estava tão perto do palco que não perdi um único perdigoto, nem uma eventual enxurrada deles, mas suficientemente afastado para me pôr a salvo deles. Eu gostaria de ter visto mais o pianista usando o pedal, mas a cabeça de um senhor na primeira fileira embargou-me o intento, bem como do senhor desprovido de cabelos que estava atrás dele. São detalhes irrelevantes, pois a apresentação foi boa, mesmo quando Taylor disse que o Ptolomeu da ópera conseguia ser ainda mais malvado que Bush.
Foi uma sensação curiosa voltar para casa depois daquele evento, pois tive de passar pelo mafuá dos Arcos da Lapa, zona considerada boêmia. Era como se eu estivesse me perdendo nas mais profundas trevas da antiga Germânia ou nos pântanos da velha Britânia. Minha imaginação não concebe as razões que levam um semelhante meu a embrenhar-se prazerosamente num local tão feio e lotado de mafomas e demais gentes de má catadura. Agora bem: a memória do espetáculo anulou aquele ambiente. Segui embalado por aquelas músicas até meu lar, como aliás já o tinha feito em outra ocasião, durante o festival dedicado a Beethoven, o que comprova que a boa arte nos permite sustentar muitos tormentos.
*Isso foi quando publiquei pela primeira vez esse post. Tendo já terminado de ler o livro, apenas devo repetir que ele é realmente excelente. Sua principal contribuição foi reorientar a história diplomática do período do entre-guerras, além de fazer repensar muitos lugares-comuns que infelizmente até hoje são repetidos. Certas vezes Taylor exagera: ao contrário do que ele diz, Hitler bem provavelmente desejava atacar militarmente a Tchecoslováquia e a Polônia, mas é também provável que ele não quisesse envolver as potências ocidentais no jogo. Ele, porém, era um homem de inclinações extremas, até mesmo suicidas, ignorando os riscos de suas cartadas: ao contrário de homens como Chamberlain, Hitler era um jogador.
Há um apêndice interessantíssimo, que é trancrição de um breve curso dado por Taylor numa universidade na década de 70. Ele explica que em raros casos as guerras são realmente planejadas de antemão. Mas há outro motivo para esse apêndice ser interessante. Taylor diz que seu livro A segunda guerra mundial, no qual ele buscava as causas do conflito mundial, tinha um equívoco: ele não analisou os fatos até 1941, quando realmente o conflito se torna mundial. O livro termina com uma análise da crise polonesa. De 1939 a 1941, a guerra teria sido apenas européia, e como tal, fadada a ser contada tão-somente como mais um dos inumeráveis conflitos europeus ao longo da história.
*
Sábado fui assistir à apresentação de Daniel Taylor na Sala Cecília Meirelles acompanhado por mais um Taylor, A.J.P., o falecido historiador inglês que escreveu A Segunda Guerra Mundial. Não sei se os dois têm algum parentesco, mas direi alguma coisa sobre ambos. Contudo, direi primeiramente certas coisas imediatamente anteriores à apresentação.
Tendo chegado cedo, cousa espantosa vindo de alguém tão mal relacionado com os ponteiros como eu, decidi fazer uma hora numa igreja ali próxima. Mal entrei e vi um sujeito baixinho ensaiando umas músicas com um coro tão animado quanto feminino e de idade algo avançada. Ao lado, uma senhora tocava um teclado num estilo tal que julguei ser alguma performance ultra-moderna. Devo mencionar ao leitor que uma das pragas modernas é, na minha opinião, o teclado. Por mais que digam que ele soe como qualquer coisa imaginável, na minha modesta opinião ele soa apenas como um teclado tentando ser qualquer coisa imaginável. A falta de entrosamento entre o coro e o teclado era impressionante, sendo compensada pela extrema desafinação daquelas almas piedosas, algo que o baixinho, animado como estava em lhes ensinar canções, parecia ignorar completamente. Sua boa vontade era igualmente impressionante, e então percebi que talvez ele estivesse cumprindo algum tipo de penitência inusitada misturada com algum tipo de masoquismo, o que talvez tornasse a penitência inútil.
Aquilo não foi minha primeira comoção musical do dia, pois sentira algo semelhante ao passar, muitas horas antes, em frente à Igreja da Santa Cruz dos Militares, caso minha memória não me engane. No momento da comunhão, alguém teve a belíssima idéia de fazer um acompanhamento musical num estilo semelhante a Ivan Lins, porém em tons por assim dizer sacros. Nunca me passara pela cabeça uma missa sitiada pela cafonice, mas naquele momento as pessoas conseguiram esse milagre. Infelizmente meu dáimon me mandou apertar o passo, embora eu esteja até agora querendo saber que raio de música era aquela.
Quanto à igrejinha do baixinho animado, igrejinha aliás muito bela e que conheci graças a um evento totalmente mundano, isto é, quando da apresentação de quartetos de cordas de Beethoven, decidi, pois, ficar ainda mais, pelo menos até a hora da comunhão, esperando que Deus não me julgasse mal por ter de sair no meio da missa por causa do concerto. Chamou-me a atenção todas as pessoas serem de idade avançada. Numa igreja aqui perto de casa algo semelhante parece ocorrer no meio de semana, exceto uma vez que vi uma senhorita de minissaia lá dentro. Mas aquela igrejinha estava razoavelmente cheia, num sábado frio e chuvoso, cousa mui louvável. Em todo o caso, eu era o caçula. Obviamente não havia razões para me incomodar com nada disso. Um incômodo, na realidade, irrompeu mal tendo começado a missa. Antes que alguém me julgue destituído de espiritualidade, advirto que me refiro ao andamento estranho da missa. Aquele sujeito baixinho, que então descobri ser o pároco, juntamente com seu assistente, coreografava um balançar de braços dos fiéis. Havia uma cantoria de gosto duvidoso, uns gestos estranhos, uma música mal feita, uma leitura um tanto canhestra de passagens bíblicas, enfim, tudo era terrivelmente mal conduzido. Naqueles momentos, enquanto eu me perdia a olhar aquela igreja tão agradável, eis que me surgiram as palavras que certa vez meu amigo Carlos escrevera em seu blog sobre a união da beleza com a liturgia. O que ele escreveu é, garanto, produto de considerações mui pessoais, pois ele próprio experimentara cenas litúrgicas esquisitas. Mas, pedindo gentilmente licença a meu amigo, eu avançaria um pouco mais e diria que toda a missa que não leva suficientemente a sério a união da beleza com a liturgia cai, na menos pior das hipóteses, no cômico. Em certa ocasião, durante missa em lembrança à minha avó falecida, havia um cidadão que entoava cânticos numa voz tão bizarra e com um jeito de falar tão inaudito que foi um empreendimento heróico manter o auto-controle para não rir durante tão grave evento.
Como eu estava com um espírito de concerto, não pude deixar de matutar que atualmente seria um período glorioso para as missas de Haydn, as quais, na época, foram ignoradas por causa de seu espírito alegre demais. Ora, sequer precisaríamos de uma orquestra e coro: bastaria um tocador de cd ou um desses cacarecos tecnológicos atuais que desconheço velhacamente. Por que, dentre as opções, há o hábito de sempre escolherem a mais infeliz? O mais curioso é o raciocínio de que o povo precisa daquilo que mais lhe convém, tendo implicitamente a noção de que o povo só gosta do que for pior. Música mal feita no lugar de Haydn parece ser, na cabeça de alguns, mais próprio ao povo.
Deixei, pois, a agitação de papéis de lado, mesmo antes da comunhão, e me dirigi à sala de concerto, embora, para meu espanto, faltasse ainda meia hora para o início da apresentação. Sentei-me e decidi conversar um pouco com o historiador inglês, autor de A Segunda Guerra Mundial.
Não há nada pior que estar em má companhia. Talvez a única coisa pior é não poder desembaraçar-se dela. Para me gáudio, não era o caso em questão. A.J.P. Taylor me foi um ótimo companheiro de conversações, de tal modo que o deixei falar o tempo todo a fim de aprender.
Esse livro foi escrito no início da década de 60 e se tornou um clássico, embora tenha sido inicialmente detestado, exceto por "ex"-nazistas. Eu tinhja ouvido falar de Taylor graças a um outro excelente historiador, John Lukács, mas não podia imaginar que, além de ser inteligente, ele era tão divertido. Sua ironia é sutil -- às vezes nem tanto --, bem agradável, o que me rendeu algumas risadas, como no momento em que ele diz que as indenizações de guerra da Alemanha eram motivos "de insatisfação intelectual; coisa para lamentar à noite, e não motivos de sofrimento na vida cotidiana", que, em bom português, significa "frescura". Na mesma página, ainda sobre as indenizações, ele continua: "O homem de negócios em dificuldade, o professor mal pago, o trabalhador desempregado, todos as culpavam pelas suas dificuldades. O choro de uma criança faminta era um protesto contra elas. Os velhos iam para a cova devido às reparações." Ironia e sarcasmo que segundo meu imaginar só os ingleses conseguem desempenhar tão bem. Contudo, não pude deixar de perceber como tudo aquilo se aplica extraordinariamente ao Brasil, com a única diferença de o culpado ser a "exclusão social" ou o "capitalismo". Numa página anterior, ele diz que os ingleses começaram "a denunciar a loucura das reparações, tão logo se apossaram da frota mercante alemã", cousa que deve ter irritado mais de um inglês ao ler isso. Essas e outras passagens indicam que Taylor era polêmico, porque ele estava atacando todos os sagrados lugares-comuns: que a Alemanha não tinha como pagar as indenizações de guerra; que o Tratado de Versalhes foi totalmente péssimo para aquele país; que o programa de rearmamento alemão foi pesado durante quase toda a década de 30; que a guerra mundial foi tramada por Hitler; que o ditador, aliás, era um estadista -- Lukács desenvolveu mais esse ponto; que planos como a anexação da Bélgica e Ucrânia, guerra contra a França e o Lebensraum não eram idéias típicas de Hitler, mas alemãs, e desde a Primeira Guerra. A lista é ainda mais extensa. Não foi por acaso que seu livro teve inicialmente uma recepção péssima e, para piorar, acabou erroneamente saudado por "ex"-nazistas, portanto interpretado por todos como uma espécie de reabilitação de Adolf Hitler: interpretação completamente torta, diga-se de passagem.
É lamentável quando o historiador é obrigado a seguir a opinião de todos tão-somente porque parece ser a mais agradável. A idéia de oposição ao establishment por si mesma é agradável apenas a quem não saiu da adolescência mental. No caso do historiador, a situação é mais complicada porque, afinal de contas, a pesquisa jamais cessa. Um estudioso busca explicar o que ocorreu, nunca se satisfazando com as explicações aparentes. Um pesquisar tem de ser uma pessoa séria, não um instrumento que ecoa a opinião do dia. O exemplo do modo como o próprio Taylor conta de como foi obrigado a rever suas posições ao longo de suas pesquisas é ótimo. Ele, como diria Aristóteles, foi constrangido pela verdade, muito embora fossem contrárias não só às suas primeiras opiniões como ao consenso: ele acabou sendo detestado por muitos. É uma infelicidade monstruosa que em nosso país os cursos de história tenham sido tomados por selvagens cujo espírito é o oposto ao do verdadeiro historiador, embora esses infelizes se considerem espíritos críticos: eles querem unanimidade tão-somente. Mas que o leitor não exagere duplamente o que estou dizendo: Taylor não tem razão sempre e eu ainda estou lendo o livro*.
Precisei terminar a agradável conversa com Taylor porque o concerto iria começar. Até o instante em que escrevo estas linhas tortas, não compreendi por que os organizadores chamaram o evento de "Música Antiga", já que nem Dowland, nem Handel e nem as composições anônimas apresentadas eram música antiga. Naturalmente, a dúvida que surge é saber o que diabos significa esse termo. O canto gregoriano é antiqüíssimo, talvez a música mais antiga ainda em uso, mas não tenho certeza se seria apropriado classificá-lo como música antiga. Talvez seja mais próprio usar o termo para as músicas da Antigüidade, mas é bom que se diga que os próprios medievais, a certa altura, dividiam os estilos em ars antiqua e ars nova, e isso nada tinha a ver com a Antigüidade. Para o nosso gosto e, por que não, da própria Renascença, ars nova é algo inacreditavelmente arcaico, tanto quanto ars antiqua. E sabemos muito pouco da música da Antigüidade. Do ponto de vista da música clássica -- o termo aqui se refere à música de um determinado período --, talvez não seja um absurdo total considerar que o período barroco e anterior não passam de algo cafona e fora de moda, ainda que seja uma extravagância colocar no mesmo saco gente tão diferente como Handel e Dowland. É sempre complicado estabelecer o que é moderno e o que é velho segundo o que parece mais antiquado. Mas, como diria Taylor, são inquietações intelectuais boas para incomodar o sono, mas que não afetam em nada a vida cotidiana. Assim, estando o termo equivocado ou não, os músicos estavam lá e havia público suficiente para a apresentação.
Evidentemente, a atração principal do concerto era o contratenor Donald Taylor, o qual, repito, não faço a menor idéia se é parente ou não do historiador inglês. A primeira parte da apresentação foi consagrada a Dowland e compositores anônimos. Se o leitor nunca ouviu o compositor inglês, saiba que suas músicas são ótimas para incentivar a produção de bílis negra. É impressionante como Dowland compôs tantas músicas melancólicas. Na minha opinião, um dos melhores momentos foi quando Taylor cantou I saw my lady weep, embora não tenha havido uma segunda voz. Não que ele tivesse se apresentado sozinho: havia uma soprano extremamente bonitinha com ele, trajando um longo vestido esverdeado. Dentro do meu limitado entendimento musical, ela cantava muito bem. Pensei nas palavras de um poeta que dizia não haver nada mais agradável que ouvir um talento combinado a uma feição bela. Não posso cometer a injustiça de esquecer o senhor do alaúde, instrumento delicado que foi muito bem tocado.
A segunda parte foi dedicada quase inteiramente a Handel, com acompanhamento de piano. Confesso que seria mais agradável se houvesse uma pequena orquestra de câmara, mas não quero choramingar porque o pianista era muito bom. Se alguém tinha alguma dúvida de sua habilidade, suponho que ela tenha desabao após a execução de uma transcrição de Liszt de uma peça bachiana, se não me engano algum prelúdio e fuga. Algumas árias de Handel sustentaram alguma melancolia, ainda que bela, como durante a apresentação de um duo da ópera Theodora. Para quebrar a melancolia, o espetáculo findou com duas árias heróicas da ópera Giulio Cesare, em que Taylor alternava entre contratenor e barítono, exibindo suas habilidades vocais. Durante as árias heróicas, ele também fazia questão de interpretá-las, explicando antes ao público brevemente do que se tratava.
Eu estava tão perto do palco que não perdi um único perdigoto, nem uma eventual enxurrada deles, mas suficientemente afastado para me pôr a salvo deles. Eu gostaria de ter visto mais o pianista usando o pedal, mas a cabeça de um senhor na primeira fileira embargou-me o intento, bem como do senhor desprovido de cabelos que estava atrás dele. São detalhes irrelevantes, pois a apresentação foi boa, mesmo quando Taylor disse que o Ptolomeu da ópera conseguia ser ainda mais malvado que Bush.
Foi uma sensação curiosa voltar para casa depois daquele evento, pois tive de passar pelo mafuá dos Arcos da Lapa, zona considerada boêmia. Era como se eu estivesse me perdendo nas mais profundas trevas da antiga Germânia ou nos pântanos da velha Britânia. Minha imaginação não concebe as razões que levam um semelhante meu a embrenhar-se prazerosamente num local tão feio e lotado de mafomas e demais gentes de má catadura. Agora bem: a memória do espetáculo anulou aquele ambiente. Segui embalado por aquelas músicas até meu lar, como aliás já o tinha feito em outra ocasião, durante o festival dedicado a Beethoven, o que comprova que a boa arte nos permite sustentar muitos tormentos.
*Isso foi quando publiquei pela primeira vez esse post. Tendo já terminado de ler o livro, apenas devo repetir que ele é realmente excelente. Sua principal contribuição foi reorientar a história diplomática do período do entre-guerras, além de fazer repensar muitos lugares-comuns que infelizmente até hoje são repetidos. Certas vezes Taylor exagera: ao contrário do que ele diz, Hitler bem provavelmente desejava atacar militarmente a Tchecoslováquia e a Polônia, mas é também provável que ele não quisesse envolver as potências ocidentais no jogo. Ele, porém, era um homem de inclinações extremas, até mesmo suicidas, ignorando os riscos de suas cartadas: ao contrário de homens como Chamberlain, Hitler era um jogador.
Há um apêndice interessantíssimo, que é trancrição de um breve curso dado por Taylor numa universidade na década de 70. Ele explica que em raros casos as guerras são realmente planejadas de antemão. Mas há outro motivo para esse apêndice ser interessante. Taylor diz que seu livro A segunda guerra mundial, no qual ele buscava as causas do conflito mundial, tinha um equívoco: ele não analisou os fatos até 1941, quando realmente o conflito se torna mundial. O livro termina com uma análise da crise polonesa. De 1939 a 1941, a guerra teria sido apenas européia, e como tal, fadada a ser contada tão-somente como mais um dos inumeráveis conflitos europeus ao longo da história.
Thursday, January 08, 2009
Minha mãe, Natalina Pereira (28-VI-1953 - 29-XII-2008)
É logo um santo e saudável pensamento orar pelos mortos,
para que sejam livres dos seus pecados. (2 Mac 12,46)
para que sejam livres dos seus pecados. (2 Mac 12,46)
Aos vinte e nove de dezembro de dois mil e oito, às 18h25, minha mãe, Natalina Pereira, aos 55 anos, rendeu sua alma ao Senhor. A causa do falecimento, após cinco dias em estado grave no CTI, foi uma infecção generalizada decorrente de um abscesso subfrênico. O nome da causa mortis pode parecer ininteligível, mas a morte em si é a um só tempo clara, simples e absurda. Não importa a causa: tudo é pretexto para a ação da morte.
Convivi com minha mãe por 26 anos, o que me parece um tempo brevíssimo agora. Gostaria de viver eternamente com ela, porém nesta vida, por culpa de um, a morte foi convidada a se divertir, estranha diversão, neste mundo, mas graças também a um ela foi vencida, o que me dá uma esperança ancorada na fé. Mas digo que tive o privilégio de não só conviver com ela como de ter sido a pessoa mais próxima e principal alvo de todo o seu amor. Sim, privilégio, porque minha mãe era uma pessoa excepcional. Não digo que ela era excepcional tão-somente porque sou filho e o momento é frágil: é o pensamento unânime de todos que a conheceram. Pude testemunhar isso especialmente durante as últimas semans de vida de minha mãe, desde a sua primeira internação, oito de dezembro, dia da Imaculada Conceição, depois durante sua última semana comigo em casa, e finalmente quando do seu enterro, aos trinta de dezembro. E mesmo dias depois, como hoje à tarde, quando uma senhora de quase 90 anos me telefonou, emocionada, elogiando sinceramente minha mãe, e sem mencionar os testemunhos de afeição que todos lhe dirigiam ao longo de sua vida, tudo me fez perceber como ela era de fato querida e recebeu em troca tudo o que buscou dar: carinho. É verdade que faleceu, mas foi realmente amada por todos, e amou a todos com seu jeito humilde. E se por um lado é extremamente doloroso perder alguém tão amado e amável, e ainda mais por ser minha própria mãe, por outro lado me causou espanto e admiração perceber como ela cativou o respeito de tantos, tão-somente sendo humildade, mansa e sempre praticando o amor ao próximo, sempre espontaneamente. Aqui também não digo simplesmente uma opinião parcial e influenciada pelo momento: mais uma vez, é opinião unânime, a ponto de eu já ter ouvido alguém dizer que minha mãe fora exemplo para todos, o que muito me envaidece como filho. Por muitos que sejam os meus defeitos -- e ela não tem culpa deles --, tenho plena consciência de que minhas qualidadas foram em grande parte, senão no todo, herdadas de minha mãe.
Durante o velório, enquanto eu dizia algumas palavras que brotavam na hora, sempre eu lembrava de uma passagem bíblica: “aquele que se humilhar será exaltado”. Efetivamente, por amor minha mãe se humilhou, e por amor ela foi exaltada.
Certamente ela não era santa e tinha toda a consciência disso. Não obstante, seus defeitos mais patentes, como a teimosia, eram suaves e totalmente compensados pelo seu despreendimento. Disso sou testemunha viva. Poderia dar muitos exemplos, mas direi só alguns: certa vez, depois de quase doze horas de trabalho, ela ainda teve ânimo de distribuir comida aos pobres e sem fazer nenhum alarde, caminhando desde a Lapa e Cinelândia até em casa, em frente ao jornal O Globo, quase às 22h30. Impressionante, porque mesmo tendo pouco, distribuía muito. Nunca deixava de visitar os enfermos e gostava de ajudar os idosos. Recusava quase sempre qualquer tipo de ajuda, a ponto de parecer obstinada, embora na realidade era o seu temor de incomodar os outros, de qualquer maneira, que mais lhe tocava. Por outro lado, estava mais preocupada com os outros do que consigo mesma, sem medir esforços para ajudá-los. Especialmente comigo era toda carinhos: se saía de casa comigo dormindo, fazia questão de me dar um beijinho ou de deixar bilhetinhos, que aliás era outra característica sua: nunca enviava nada pronto de antemão, porque preferia escrever tudo, e sempre quando tinha vontade. Ela era incrivelmente espontânea, e destestava fazer qualquer coisa só por fazer. Isso se refletiu até na sua relação com a Igreja. Ela só gostava de ir quando tinha vontade, e várias vezes me repetia isso. Embora não tivesse nenhuma educação religiosa, por algum motivo misterioso gostava demais da Igreja, em especial de Jesus, Maria, de São Judas Tadeu e dos papas. Quando ia ou voltava do trabalho, ela beijava a imagem de Maria e o cruficixo no corredor, e sussurrava alguma reza. De manhã, gostava de ir à janela para orar também, mas eu quase não ouvia o que ela dizia. Quando eu lhe falava alguma coisa a respeito da vida de Jesus, ela chegava a se emocionar, o que sempre achei curioso. Ela também era uma excelente dona de casa, daquelas que fazem o possível para manter a ordem, e várias vezes cheguei considerá-la meio tantã, porque não raramente ela preferia perder horas de sono a manter a casa bagunçada.
Há muitos outros casos que por economia de espaço não direi, mas mencionarei só mais um. Certo dia na enfermaria, quando algumas pessoas a visitavam, entre elas eu, minha mãe começou a se sentir mal, porém não queria demonstrar que não estava bem. Ela então se controlou, esperou todos nós saírmos e logo chamou os enfermeiros, sem que soubéssemos de nada. Ela não queria que ficássemos preocupados. Toda a tristeza que nos acometeu depois, principalmente devido a seu falecimento, nada disso foi por vontade sua.
Era impressionante observar como a vontade dela se ajustava às suas resoluções práticas. Não me lembro de ela fazer uma coisa boa porque se forçou. Pelo contrário: era sempre uma coisa espontânea e sempre colocava em prática. Na realidade, ela gostava de fazer tudo imediatamente, o que não significa que era impulsiva: ela só achava bobagem inventar obstáculos demais para coisas simples. Ela também tinha uma força de vontade incrível. Quanto a este ponto, foi para mim particularmente doloroso -- e certamente para ela -- perceber o quão debilitada estava. Ela nunca foi uma pessoa de se entregar a doenças, detestava depender dos outros, ainda que tivesse consciência bem clara de suas limitações. Seu corpo não lhe dava tréguas, porque ela já começava a senti-lo cansado em decorrência da idade. Mas o fato de ela não se entregar a doenças não significa que tivesse uma saúde de aço. Ela não tinha e sabia disso. Porém nas suas duas últimas semanas de vida, devido ao mal que culminou em sua morte, ela sequer conseguia ficar de pé sozinha, comia com dificuldade e, depois que tornou a ser internada, até a respiração lhe parecia uma tarefa acima de suas capacidades. Nem mesmo a sua força de vontade enorme e sua grande vontade de viver foram suficientes para resistir, porque não nos foi dado resistir à morte com nossas próprias forças: toda a sua energia simplesmente foi embora. Para ela ter chegado ao estado debilitado que chegou, é porque a doença era extremamente grave, e realmente o era.
O último dia que passei com minha mãe em casa foi aos vinte e um de dezembro. No dia seguinte, ela foi internada, sendo que aos vinte e quatro, véspera de Natal, devido a uma grave piora em seu estado de saúde, ela deu entrada no CTI, de onde não saiu mais com vida. Lembro-me perfeitamente bem de cada instante, que mais parecia uma sucessão de acontecimentos sombrios. Foi uma véspera de Natal duríssima para todos nós, e os dias seguintes foram ainda mais desoladores. Havia um lampejo de esperança aqui e acolá, mas o quadro geral piorava constantemente, de tal modo que passei praticamente uma semana achando que a qualquer momento me ligariam avisando que minha mãe havia falecido. É um verdadeiro inferno perceber a morte envolvendo como serpente alguém que amamos, sem que possamos fazer absolutamente nada. Minhas noites foram péssimas. Eu tinha a sensação de que verdadeiramente havia um peso me esmagando, e minha cabeça sempre latejava, como se realmente alguém estivesse esmagando-a. Ainda assim, pude manter a calma, pelo menos na frente de todos, embora eu não tenha resistido quando ela foi internada no CTI. Lembro-me perfeitamente bem de vê-la entrando numa maca no CTI, por volta das 18h do dia vinte e quatro, respirando com ajuda de um nebulizador, dizendo com voz bem fraca um Feliz Natal e acenando devagar, com sua mão debaixo do lençol. Esbocei um Fe..., porém imediatamente me deu vontade de chorar e tive de me segurar a fim de não chorar na frente dela. Tão logo ela entrou, não resisti. Digo, aliás, e sem nenhuma pretensão de bancar uma pessoa sem emoções, que nunca tive o costume de chorar, mas aquela situação e outras foram demais para mim. Foi como se eu tivesse guardado tudo para as últimas semanas de vida de minha mãe.
O último dia que falei com ela foi aos vinte e sete, porque no dia seguinte ela foi posta em coma induzido, tanto porque havia sofrido uma cirurgia como para seu corpo absorver com mais proveito antibióticos. Mas nada adiantou.
O maior medo de minha mãe era sofrer muito. Sua vontade acabou sendo realizada: faleceu em estado de coma. Tivesse sobrevivido àquela segunda-feira, vinte e nove, teria ficado para o resto da vida dependente de hemodiálise. Para alguém como a minha mãe isso teria sido uma catástrofe especialmente pavorosa. Ela, que detestava não trabalhar e tinha verdadeiro horror a hospitais, nunca mais trabalharia, viveria boa parte do tempo num hospital e teria um regime de vida quase draconiano. Mas outra vontade de minha mãe foi cumprida também. Com efeito, ela sempre me dizia, ao longo dos anos, que desejava morrer a ver uma de suas irmãs mortas. Deus lhe deu então o privilégio, se é que posso chamar assim, de ter sido a primeira a falecer entre suas irmãs. Todavia, isso não foi a única coisa notável. Um mês antes, trinta anos após ter deixado a casa de sua infância e boa parte da adolescência, inexplicavelmente ela quis visitá-la, num dia em que todas as suas irmãs haviam se reunido lá, coisa rara, aliás, porque nem é comum todas as minhas tias arrumarem tempo para se verem, nem é comum que todas se encontrem justamente naquela casa, onde atualmente mora uma das minhas tias. Ademais, minha mãe não gostava nada de empreender viagens longas em dias de folga. Mas calhou de todas elas se reunirem num domingo, e a chegada de minha mãe causou surpresa a todas: acabou sendo a última vez em que elas se reuniram em vida. Todavia, creio firmemente que elas todas se reunirão ainda mais uma vez, quando deixarem essa vida mortal ou morte vital, no dia em que todas contemplarão o Senhor em Seu trono. Creio no que diz o Prefácio dos defuntos: “A vida, Senhor, para os vossos fiéis não é destruída: transforma-se.”
Houve outra circunstância estranha. Quando fui ao hospital no dia em que ela faleceu -- e digo que eu nem iria ao hospital naquele dia, mas senti uma necessidade imperiosa de visitá-la --, eu estava prestes a visitá-la quando de repente perdi totalmente ânimo. Permaneci inexplicavelmente parado por algum tempo na sala de espera. No momento em que recobrei coragem e fui falar com a médica, a notícia: minha mão havia falecido dez minutos antes de eu falar com a médica, certamente naquele instante em que empaquei sem motivo nenhum.
Na última ocasião em que ainda pude vê-la com vida, aos vinte e sete de dezembro, minha mãe havia sido posta em coma induzido. Saí do hospital com o coração perturbado, controlando-me com dificuldade, e considerando que só um milagre a salvaria. Mal tendo chegado em casa, absolutamente desconsolado, eu só pedia a Deus que a salvasse, tal como fez com Lázaro, mas sentia minhas esperanças destroçadas. Foi duro demais ter visto minha mãe daquele jeito. Ora eu pedia a Deus para que a salvasse, ora eu Lhe pedia para que um padre fosse rezar pela alma de minha mãe quando finalmente ela tivesse expirado... Estranhamente, não cheguei a buscar padre nenhum. Eu só pedia a Deus, confusamente, que salvasse a minha mãe e ao mesmo tempo que enviasse um padre para rezar pela sua alma. Acabei buscando em meu missal orações de enfermos, de extrema-unção e até dos mortos, como se minha mãe já fosse morta, e li em casa, como se ela estivesse na minha frente e eu fosse um padre. No dia do enterro, de fato apareceu um padre sem que eu pedisse a ninguém senão a Deus. Uma pessoa amiga de minha mãe, numa inspiração momentânea, havia se dirigido às sete da manhã de terça -- o enterro seria às 11h30 -- a uma igreja no Largo do Machado, pessoa esta que sequer é católica, mas que por algum motivo oculto decidiu ser necessário haver um padre no velório de minha mãe. Mas naquele momento o padre não estava na igreja: participava do velório de uma freira, falecida aos 105 anos, em Botafogo. Ainda assim, no exato instante em que saía do cemitério, o sacristão lhe telefonou pedindo para que se dirigisse ao Catumbi, onde uma senhora, minha mãe, seria enterrada, e como de ônibus era um caminho relativamente próximo, ele aquiesceu. Uma vez que eu não esperava por padre nenhum, minha surpresa foi enorme quando o vi. Percebi que minhas preces haviam sido atendidas e me tranqüilizei. E tanto eu queria que orassem pela minha mãe que, devido a uma pequena confusão, ela acabou tendo não uma, mas duas missas de sétimo dia, ainda que uma delas, particular, não tenha sido formalmente de sétimo dia, posto que foi nesta quinta-feira, aos sete de janeiro. Ambas foram realizadas na Igreja de São Judas Tadeu, Cosme Velho, igreja de predileção de minha mãe.
Em cerca de um ano, quatro amigos e eu perdemos nossos pais, sendo que, desses cinco, dois não têm mais nenhum pai, e dentre esses dois, eu. De repente me vi sozinho e cercado de responsabilidades que sequer sonhava ter tão cedo, no pior momento possível: de repente me vi, literalmente do dia para noite, assumindo todas as despesas e demais burocracias relativas à existência neste mundo, sem ter muito bem como lidar com elas. Mas isso não é o pior: perder a pessoas que eu mais amava neste mundo é definitivamente pior. Certamente eu já havia pensado que um dia não teria mais minha mãe aqui -- esse ano mesmo cheguei a sonhar com isso há meses --, porém nunca imaginei que isso fosse acontecer em tão breve tempo. Ademais, se neste mundo tudo é enrolado, sempre há possibilidades em aberta, coisa que não acontece quando se está diante de Deus justiceiro. A hora da verdade nunca é aqui, mas no Dia da Ira, quando até os virtuosos tremerão.
Por que publicar algo desse tipo? Porque me faz bem falar e, agora, escrever a respeito de minha mãe, mesmo que o assunto seja a sua morte. Não sei o motivo de eu me sentir melhor falando, ou escrevendo.
Quando nasceu o Menino Jesus, havia sombras cercando a humilde manjedoura. Mas Ele estava destinado a vencê-las, pois ele havia nascido para ser a luz do mundo e fonte de amor, fé e esperança. Pois bem, minha mãe, Natalina Pereira, rendeu a alma ao Senhor justamente em dias natalinos, como se seu destino tivesse sido marcado pelo nome. Ainda assim, creio que sua morte foi um breve episódio, embora cercado de trevas, preocupações, tal como durante o nascimento do Menino Jesus, porque logo a seguir ela teve, tem e terá, posto que tudo o que sucede depois dessa vida está fora do tempo, o privilégio de contemplar a face de Nosso Senhor em toda a Sua glória, junto dos santos e à multidão de fiéis que já partiram. Se esse período natalino significou a despedida de minha mãe do meio de nós, causa de tristeza, espero que ela tenha recebido, receba e receberá não um presente qualquer, mas o privilégio, por misericórdia divina, de ver Deus face a face, causa de alegria indizível, e que São Miguel a proteja.
Que minha mãe realmente seja amparada pela luz eterna e que eu possa reencontrá-la no Dia da Glória, a fim de que possamos viver eternamente com Jesus Cristo Nosso Senhor.
Para finalizar, digo que três são as coisas que mais me têm consolado: Deus, palavras e companhia de amigos e músicas. Das três, seguem músicas:
Arvo Part, De Profundis:
Eu iria colocar o Kyrie - Orbis factor, aquele que coloquei num post anterior, mas compreendi que seria tolice. Em seu lugar, o Kyrie da Missa em Si, de Bach:
Victoria, Ave Maria:
Palestrina, Gloria da Missa Viri Galilaei:
Palestrina, Sanctus da Missa Viri Galilaei:
Brahms compôs um réquiem em homenagem ao falecimento de sua mãe. É o imponente Réquiem Alemão. Esse é o segundo movimento: Denn alles Fleisch es ist wie Grass. No Youtube está dividido em duas partes:
Brahms, O Tod, wie bitter bist du, que é uma das Quatro Canções Sérias. Essa música não saiu de minha cabeça por alguns dias:
Allegri, Miserere, também dividido no Youtube em duas partes:
Salve Rainha em gregoriano:
Por último, colocarei a litania dos santos, que meu amigo Carlos me apresentou semana passada. No caso, todavia, no lugar do "nobis" sempre imagino "ea", isto é, pela minha mãe. Como não dá para colocar neste blog o vídeo, só me resta indicar o link: este.
E tudo isso não me faz deixar de desejar, ainda que um tanto tardiamente, um Feliz Natal.
Monday, December 15, 2008
Do partidarismo moderno
Um dos presentes que nos foi dado pela modernidade foi a aparição de partidos políticos perpétuos. Com efeito, nenhum partido aparentemente foi concebido para realizar metas discretas e extremamente pontuais: cada um planeja chacoalhar toda a sociedade, remodelando-a nada timidamente, embora uns sejam menos ambiciosos que outros. A diferença, portanto, é uma questão de prurido. Ademais, mesmo os pouco ambiciosos também carregam algum tipo de crença numa transformação profunda e radical da sociedade. Um partido liberal e conservador não deixa de ser tão impostor quanto um abertamente revolucionário.
A democracia liberal destruiu os antigos privilégios aristocráticos simplesmente expandindo-os universalmente. As antigas disputas famíliares aristocráticas, as quais, por definição, eram privadas -- daí que uma disputa medieval envolvesse tão-somente uns poucos adversários --, caíram em desuso, porque tiveram de ceder espaço a uma nova espécie de família aristocrática: os partidos políticos. Estes, com efeito, substituíram o pacto de sangue pelo pacto ideológico, adquirindo uma universalidade que a nobreza, evidentemente, jamais poderia aceitar. Se algumas famílias consideravam-se nobres ou, como na Antigüidade, descendentes de deuses, a ideologia partidária acabou servindo como espécie de batismo e, em certos casos, como vacina contra a corrupção do mundo -- é o caso dos partidos comunistas, cujos afiliados consideram que a natureza humana é elevada mediante filiação partidária. Em ambos os casos, o disparate é óbvio e insultuoso.
A própria existência desse tipo de partido é extremamente atípica. Normalmente os homens se dividem em partidos porque discordam das formas de resolver determinadas contingências bem determinadas, mas, uma vez resolvidas, os partidos perdem a razão de ser, e cada qual retorna a seus afazeres normais. O pressuposto disso é que os homens só se lançam verdadeiramente à disputa política quando se sentem muito incomodados e quando o esforço exige o emprego das massas. Contudo, os partidos modernos aparentemente não conseguem resolver nada decisivamente, o que seria motivo de acabar com eles porque incompetentes, ou simplesmente querem se manter eternamente, semelhante àquelas pessoas que, uma vez convidadas à nossa casa, jamais se retiram. Essa situação de partidarismo perpétuo é conseqüência de divisões igualmente eternas e radicais: duas pessoas não disputam uma coisa se não discordam a seu respeito. Numa palavra, a existência desse tipo de partidarismo pressupõe algum tipo de discórdia jamais resolvida. Que certos indivíduos concluam que é preciso um super-partido a fim de destruir completamente os adversários certamente não é espantoso, dada a situação de discórdia insolúvel. E isso é ainda mais grave porque a questão disputada deixa de ser um motivo concreto para se tornar uma questão puramente de princípio, ainda que tangente ao mundo prático. A política se torna um confronto de abstrações que movem a humanidade.
Há um efeito igualmente pernicioso causado pelo partidarismo perpétuo: o imperialismo da política. Porquanto tudo se torna um problema político, há uma expansão voraz dos negócios públicos na vida privada de cada qual. O partido em si se torna um fator de coesão superior à família e à amizade, pois a política se torna fundamento da vida, e como tudo gira em torno de lutas públicas, há cada vez menos espaço para o cidadão meditar solitariamente. Ademais, como a política também é a dominação psicológica do outro, no sentido de convencer a multidão a fazer o que o político deseja, segue-se que haverá a disseminação do costume de nas relações pessoais agir politicamente: as pessoas buscarão, mais que de costume, dominar e manobrar o outro. Tal situação só é possível porque, como disse Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas, há uma quantidade grande e anormal de señoritos satisfechos atualmente, ou, em português claro, moleques mimados. De certa maneira, o partidarismo moderno é a atuação pública de moleques mimados.
A democracia liberal destruiu os antigos privilégios aristocráticos simplesmente expandindo-os universalmente. As antigas disputas famíliares aristocráticas, as quais, por definição, eram privadas -- daí que uma disputa medieval envolvesse tão-somente uns poucos adversários --, caíram em desuso, porque tiveram de ceder espaço a uma nova espécie de família aristocrática: os partidos políticos. Estes, com efeito, substituíram o pacto de sangue pelo pacto ideológico, adquirindo uma universalidade que a nobreza, evidentemente, jamais poderia aceitar. Se algumas famílias consideravam-se nobres ou, como na Antigüidade, descendentes de deuses, a ideologia partidária acabou servindo como espécie de batismo e, em certos casos, como vacina contra a corrupção do mundo -- é o caso dos partidos comunistas, cujos afiliados consideram que a natureza humana é elevada mediante filiação partidária. Em ambos os casos, o disparate é óbvio e insultuoso.
A própria existência desse tipo de partido é extremamente atípica. Normalmente os homens se dividem em partidos porque discordam das formas de resolver determinadas contingências bem determinadas, mas, uma vez resolvidas, os partidos perdem a razão de ser, e cada qual retorna a seus afazeres normais. O pressuposto disso é que os homens só se lançam verdadeiramente à disputa política quando se sentem muito incomodados e quando o esforço exige o emprego das massas. Contudo, os partidos modernos aparentemente não conseguem resolver nada decisivamente, o que seria motivo de acabar com eles porque incompetentes, ou simplesmente querem se manter eternamente, semelhante àquelas pessoas que, uma vez convidadas à nossa casa, jamais se retiram. Essa situação de partidarismo perpétuo é conseqüência de divisões igualmente eternas e radicais: duas pessoas não disputam uma coisa se não discordam a seu respeito. Numa palavra, a existência desse tipo de partidarismo pressupõe algum tipo de discórdia jamais resolvida. Que certos indivíduos concluam que é preciso um super-partido a fim de destruir completamente os adversários certamente não é espantoso, dada a situação de discórdia insolúvel. E isso é ainda mais grave porque a questão disputada deixa de ser um motivo concreto para se tornar uma questão puramente de princípio, ainda que tangente ao mundo prático. A política se torna um confronto de abstrações que movem a humanidade.
Há um efeito igualmente pernicioso causado pelo partidarismo perpétuo: o imperialismo da política. Porquanto tudo se torna um problema político, há uma expansão voraz dos negócios públicos na vida privada de cada qual. O partido em si se torna um fator de coesão superior à família e à amizade, pois a política se torna fundamento da vida, e como tudo gira em torno de lutas públicas, há cada vez menos espaço para o cidadão meditar solitariamente. Ademais, como a política também é a dominação psicológica do outro, no sentido de convencer a multidão a fazer o que o político deseja, segue-se que haverá a disseminação do costume de nas relações pessoais agir politicamente: as pessoas buscarão, mais que de costume, dominar e manobrar o outro. Tal situação só é possível porque, como disse Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas, há uma quantidade grande e anormal de señoritos satisfechos atualmente, ou, em português claro, moleques mimados. De certa maneira, o partidarismo moderno é a atuação pública de moleques mimados.
Monday, December 01, 2008
Kyrie - Orbis Factor
Lembrava-me de uma esplêndida música que ouvi há algum tempo e, tendo-a procurado no Youtube, graças aos céus descobri que uma alma gentil a disponibilizou. É o Kyrie (Orbis Factor) que está no CD Graduel d'Aliénor de Bretagne, dirigido por Marcel Pérès.
Wednesday, November 05, 2008
De como a beleza venceu Obama
Eu, pobre rapaz latino-americano sem um tostão furado no bolso, blogueiro de um leitor só -- eu mesmo --, tolo e presunçoso, darei minha opinião definitiva a respeito das tramas políticas do país mais poderoso do mundo, evidentemente os EUA, a fim de lhes indicar o que é bom, porque não simpatizo com Obama, e sim com McCain.
Todavia, o espírito carioca autêntico que corre em minhas veias está me fazendo mudar de idéia. Não só é preciso mudar de vida, como é preciso mudar de opinião, e sempre para algo mais agradável. Porque ao mesmo tempo que leio que Obama venceu, penso nas potencialidades da Internet, e me dou conta de que é muito mais agradável contemplar a belíssima Ana Paula Arósio do que me meter em discussões políticas de países que nunca visitei e que, ademais, estão distantes de mim bons e saudáveis muitos milhares de quilômetros. Ademais, as impressões políticas voam, as belas perduram.
Seja, pois, Ana Paula Arósio a inspiração deste post, e não Obama.

Estou firmermente convencido de que Ana Paula Arósio é uma das mulheres mais lindas do planeta e de que a beleza tem uma propriedade misteriosa de nos transmitir uma calma arrebatadora. Refiro-me tanto à beleza das coisas como das pessoas.
Isso é menos paradoxal do que parece. Ao mesmo tempo que a beleza nos anima, ela transmite uma sensação de ordem. Sentimo-nos como que transportados para uma outra realidade, se bem que nunca deixamos de ter algum pé nessa. É importante ressaltar esse duplo aspecto, porque é tão tolo negar a manifestação concreta da beleza como negar o grande prazer espiritual que ela nos proporciona. Fujamos tanto do poeta sonhador como do materialista devasso. Afirmo também, desprovido de pretensões de originalidade, que a beleza é misericordiosa conosco, porque é um dos únicos atributos grandiosos do ser, senão o único, que se deixa perceber pelos nossos sentidos, esses lembretes de que o mundo é bom. A beleza entra em nossos olhos e ouvidos, e quando menos percebemos, vivenciamos uma sensação indescritível.
Agora bem: a sensibilidade difere de pessoa para pessoa. Alguns enxergam melhor que os outros, e o mesmo pode ser dito a respeito de cada um de nossos sentidos. A sensibilidade para o belo também varia de pessoa para pessoa. Não me atrevo a discutir acerca da existência de um órgão que capta a beleza das coisas, mas podemos observar, sem dúvida alguma, que certas pessoas estão mais propensas a captar o belo nas coisas, e há aqueles que se sentem muito mais comovidos por ele. Todavia, é necessário dizer que isso não implica apologias de excentricidades. A percepção da beleza não se justifica por si mesma, ou, em outras palavras, uma pessoa com o faro do belo muito desenvolvido não é necessariamente uma pessoa melhor, assim como ler muito não torna alguém necessariamente mais sábio. Bem ao contrário, notamos que tais pessoas não raramente são dadas a excentricidades caso essa hipertrofia do senso da beleza não seja proporcional a algum tipo de suporte para melhor administrá-la. Minhas palavras enigmáticas significam tão-somente que é preciso que toda a personalidade acompanhe de maneira harmônica a capacidade de sentir o belo, pois do contrário o indivíduo erguerá para si uma estátua de esteticismo, entregando-se a todo o gênero de loucuras em nome da beleza. Tal como Zeus fulmina o mero mortal com sua presença, o belo pode fulminar aquele que não tem capacidade de aproveitá-lo tranqüilamente.
Há um paralelo com o amor. Certas pessoas amam mais que outras, mas alguns amam de maneira tão intensa que acabam cometendo loucuras, e o senso comum, na falta de um termo melhor, simplesmente diz que esses desatinos são "loucuras da paixão". Todos percebemos, ainda que confusamente, que a paixão no sentido amoroso é uma força exterior que nos arrasta para junto de quem amamos. Identificando essas loucuras com o próprio amor, o senso comum criou a expressão "o amor nos faz cometer loucuras". Alguns povos, como os gregos, chegaram a divinizar o amor. Agora bem: a frase é equívoca. São Paulo não só dizia que a nossa fé é loucura para os gentios, mas também que a loucura de Deus é mais sábia que nós. Isso significa obviamente que a sabedoria humana é limitada, ou seja, o campo da realidade é muito mais vasto que a nossa capacidade de saber. Ademais, São Paulo igualmente dizia que existe em nós um conflito entre o homem exterior, apegado à carne no sentido bíblico, e o homem interior, seguidor de Deus. Nas relações humanas, essa dualidade se converte em dois tipos de amor: o amor de si e o amor pelo próximo. Em última instância, os dois são antagônicos. Pois bem, quando o senso comum nos diz que o amor nos faz cometer loucuras, devemos entender isso de dois modos diferentes, um positivo e o outro negativo. A boa loucura amorosa nos faz partir a redoma do amor de si para que possamos exercer o amor pelo próximo. Assim como a ira nos compele a agir de modo mais intenso que o normal, o amor pelo próximo nos compele a sacrifícios que não estaríamos dispostos a aceitar numa situação normal, isto é, do amor de si. Logo, o amor pelo próximo nos faz cometer loucuras do ponto de vista do amor de si, e tanto isso é verdade que as pessoas que não amam ou amam pouco estranham certas atitudes dos vivamente apaixonados. Evidentemente, não sentiríamos tamanha disposição por algo desprezível. Identificamos no amado alguma perfeição fundamental, o que explica porque geralmente o amante não concorda com críticas ao amado. A perfeição do amado cria uma disposição de perfeição em nós mesmos, como se desejássemos refleti-la em nossa vida, sem no entanto possui-la completamente. Esse gênero elevado de amor é, grosso modo, aquele mencionado por Platão no Fedro. Por outro lado, há a loucura amorosa com efeitos negativos. Ela é mais uma manifestação extrema do amor de si que de qualquer outra coisa. O objeto do amor é flagrantemente forçado a se comportar segundo os desejos do apaixonado. O desejo de refletir em nossa vida a perfeição do amado vira uma tentativa de absorvê-la totalmente. O ciúme, pelo menos aquele excessivo, é manifestação de uma paixão despropositada. É na clave desse tipo de amor que se move quem se mata em nome da paixão, embora seja preciso deixar claro que estou me referindo a um comportamento wertheriano, e não de quem se sacrifica autenticamente, isto é, por alguém. Esse amor é sinal das instabilidades pessoais, significando, longe daquele aperfeiçoamento do outro tipo de amor, uma piora da vida da pessoa, ou melhor, um vício ancorado em sua vaidade.
Quando mencionei a beleza da pessoa, gostaria de deixar claro que esse é o único ponto. Digo tais coisas porque não quero passar a sensação de que devemos idolatrar cegamente quem é belo ou outras bobagens do gênero. De fato, Ana Paula Arósio possui uma beleza impressionante, mas seria passar do limite do sensato, e acredito que ela concordaria comigo a não ser por alguma vaidade, que não deveríamos tratá-la como uma deusa, da mesma forma que é pedir demais uma divinização de um exímio escritor. Por mais que pareça absurdo, não podemos esquecer que as mulheres, e principalmente as belas, são musas somente de um ponto de vista metafórico, e mesmo assim toda a ressalva é pouca. Essa simples prudência foi ignorada por não poucos afoitos durante muito tempo, e boa parte das nossas decepções amorosas é causada por esse motivo paradoxalmente insólito e corriqueiro. Todavia, devo advertir à leitora que, caso não tenha ficado claro, manifesto um ponto de vista apenas masculino, embora o feminino tenha algum paralelo. As mulheres também têm seus "musos", porém numa perspectiva diferente.
Fecho o post agradecendo, ainda que ela nunca saiba, à bela Ana Paula Arósio pela inspiração. Se não fui bem-sucedido, não é devido a ela, mas à minha incompetência.
Todavia, o espírito carioca autêntico que corre em minhas veias está me fazendo mudar de idéia. Não só é preciso mudar de vida, como é preciso mudar de opinião, e sempre para algo mais agradável. Porque ao mesmo tempo que leio que Obama venceu, penso nas potencialidades da Internet, e me dou conta de que é muito mais agradável contemplar a belíssima Ana Paula Arósio do que me meter em discussões políticas de países que nunca visitei e que, ademais, estão distantes de mim bons e saudáveis muitos milhares de quilômetros. Ademais, as impressões políticas voam, as belas perduram.
Seja, pois, Ana Paula Arósio a inspiração deste post, e não Obama.

Estou firmermente convencido de que Ana Paula Arósio é uma das mulheres mais lindas do planeta e de que a beleza tem uma propriedade misteriosa de nos transmitir uma calma arrebatadora. Refiro-me tanto à beleza das coisas como das pessoas.
Isso é menos paradoxal do que parece. Ao mesmo tempo que a beleza nos anima, ela transmite uma sensação de ordem. Sentimo-nos como que transportados para uma outra realidade, se bem que nunca deixamos de ter algum pé nessa. É importante ressaltar esse duplo aspecto, porque é tão tolo negar a manifestação concreta da beleza como negar o grande prazer espiritual que ela nos proporciona. Fujamos tanto do poeta sonhador como do materialista devasso. Afirmo também, desprovido de pretensões de originalidade, que a beleza é misericordiosa conosco, porque é um dos únicos atributos grandiosos do ser, senão o único, que se deixa perceber pelos nossos sentidos, esses lembretes de que o mundo é bom. A beleza entra em nossos olhos e ouvidos, e quando menos percebemos, vivenciamos uma sensação indescritível.
Agora bem: a sensibilidade difere de pessoa para pessoa. Alguns enxergam melhor que os outros, e o mesmo pode ser dito a respeito de cada um de nossos sentidos. A sensibilidade para o belo também varia de pessoa para pessoa. Não me atrevo a discutir acerca da existência de um órgão que capta a beleza das coisas, mas podemos observar, sem dúvida alguma, que certas pessoas estão mais propensas a captar o belo nas coisas, e há aqueles que se sentem muito mais comovidos por ele. Todavia, é necessário dizer que isso não implica apologias de excentricidades. A percepção da beleza não se justifica por si mesma, ou, em outras palavras, uma pessoa com o faro do belo muito desenvolvido não é necessariamente uma pessoa melhor, assim como ler muito não torna alguém necessariamente mais sábio. Bem ao contrário, notamos que tais pessoas não raramente são dadas a excentricidades caso essa hipertrofia do senso da beleza não seja proporcional a algum tipo de suporte para melhor administrá-la. Minhas palavras enigmáticas significam tão-somente que é preciso que toda a personalidade acompanhe de maneira harmônica a capacidade de sentir o belo, pois do contrário o indivíduo erguerá para si uma estátua de esteticismo, entregando-se a todo o gênero de loucuras em nome da beleza. Tal como Zeus fulmina o mero mortal com sua presença, o belo pode fulminar aquele que não tem capacidade de aproveitá-lo tranqüilamente.
Há um paralelo com o amor. Certas pessoas amam mais que outras, mas alguns amam de maneira tão intensa que acabam cometendo loucuras, e o senso comum, na falta de um termo melhor, simplesmente diz que esses desatinos são "loucuras da paixão". Todos percebemos, ainda que confusamente, que a paixão no sentido amoroso é uma força exterior que nos arrasta para junto de quem amamos. Identificando essas loucuras com o próprio amor, o senso comum criou a expressão "o amor nos faz cometer loucuras". Alguns povos, como os gregos, chegaram a divinizar o amor. Agora bem: a frase é equívoca. São Paulo não só dizia que a nossa fé é loucura para os gentios, mas também que a loucura de Deus é mais sábia que nós. Isso significa obviamente que a sabedoria humana é limitada, ou seja, o campo da realidade é muito mais vasto que a nossa capacidade de saber. Ademais, São Paulo igualmente dizia que existe em nós um conflito entre o homem exterior, apegado à carne no sentido bíblico, e o homem interior, seguidor de Deus. Nas relações humanas, essa dualidade se converte em dois tipos de amor: o amor de si e o amor pelo próximo. Em última instância, os dois são antagônicos. Pois bem, quando o senso comum nos diz que o amor nos faz cometer loucuras, devemos entender isso de dois modos diferentes, um positivo e o outro negativo. A boa loucura amorosa nos faz partir a redoma do amor de si para que possamos exercer o amor pelo próximo. Assim como a ira nos compele a agir de modo mais intenso que o normal, o amor pelo próximo nos compele a sacrifícios que não estaríamos dispostos a aceitar numa situação normal, isto é, do amor de si. Logo, o amor pelo próximo nos faz cometer loucuras do ponto de vista do amor de si, e tanto isso é verdade que as pessoas que não amam ou amam pouco estranham certas atitudes dos vivamente apaixonados. Evidentemente, não sentiríamos tamanha disposição por algo desprezível. Identificamos no amado alguma perfeição fundamental, o que explica porque geralmente o amante não concorda com críticas ao amado. A perfeição do amado cria uma disposição de perfeição em nós mesmos, como se desejássemos refleti-la em nossa vida, sem no entanto possui-la completamente. Esse gênero elevado de amor é, grosso modo, aquele mencionado por Platão no Fedro. Por outro lado, há a loucura amorosa com efeitos negativos. Ela é mais uma manifestação extrema do amor de si que de qualquer outra coisa. O objeto do amor é flagrantemente forçado a se comportar segundo os desejos do apaixonado. O desejo de refletir em nossa vida a perfeição do amado vira uma tentativa de absorvê-la totalmente. O ciúme, pelo menos aquele excessivo, é manifestação de uma paixão despropositada. É na clave desse tipo de amor que se move quem se mata em nome da paixão, embora seja preciso deixar claro que estou me referindo a um comportamento wertheriano, e não de quem se sacrifica autenticamente, isto é, por alguém. Esse amor é sinal das instabilidades pessoais, significando, longe daquele aperfeiçoamento do outro tipo de amor, uma piora da vida da pessoa, ou melhor, um vício ancorado em sua vaidade.
Quando mencionei a beleza da pessoa, gostaria de deixar claro que esse é o único ponto. Digo tais coisas porque não quero passar a sensação de que devemos idolatrar cegamente quem é belo ou outras bobagens do gênero. De fato, Ana Paula Arósio possui uma beleza impressionante, mas seria passar do limite do sensato, e acredito que ela concordaria comigo a não ser por alguma vaidade, que não deveríamos tratá-la como uma deusa, da mesma forma que é pedir demais uma divinização de um exímio escritor. Por mais que pareça absurdo, não podemos esquecer que as mulheres, e principalmente as belas, são musas somente de um ponto de vista metafórico, e mesmo assim toda a ressalva é pouca. Essa simples prudência foi ignorada por não poucos afoitos durante muito tempo, e boa parte das nossas decepções amorosas é causada por esse motivo paradoxalmente insólito e corriqueiro. Todavia, devo advertir à leitora que, caso não tenha ficado claro, manifesto um ponto de vista apenas masculino, embora o feminino tenha algum paralelo. As mulheres também têm seus "musos", porém numa perspectiva diferente.
Fecho o post agradecendo, ainda que ela nunca saiba, à bela Ana Paula Arósio pela inspiração. Se não fui bem-sucedido, não é devido a ela, mas à minha incompetência.
Thursday, October 09, 2008
Do qual me desculpo pela omissão do site de Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, e menciono a possibilidade de ouvir aulas de Gustavo Corção
Devido a uma omissão vergonhosa, nunca indiquei o excelente site de Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, sendo tão altamente recomendável. Que o leitor faça bom proveito das leituras por lá indicadas e das aulas do professor. Tenho ouvido suas aulas e gostado bastante.
Motivo maior ainda de felicidade, ao menos para mim, é a possibilidade de ouvir aulas de Gustavo Corção mediante um pequeno donativo à Permanência. Gustavo Corção foi um grande homem e merece ser ouvido.
Motivo maior ainda de felicidade, ao menos para mim, é a possibilidade de ouvir aulas de Gustavo Corção mediante um pequeno donativo à Permanência. Gustavo Corção foi um grande homem e merece ser ouvido.
Sunday, September 28, 2008
E por falar em concerto
Quem tiver ouvidos, ouça. Nessa segunda, na mesma Sala Cecília Meirelles, às 19h, apresentarão o Réquiem de Brahms pelo valor de R$1, preço de três bananadas. A menos que o Senhor quebre Sua promessa e envie outro dilúvio, o evento é imperdível, mesmo eu não tendo a mínima idéia do valor da orquestra, dos solistas etc. etc.
Ida ao concerto
Sábado fui assistir à apresentação de Daniel Taylor na Sala Cecília Meirelles acompanhado por mais um Taylor, A.J.P., o falecido historiador inglês que escreveu A Segunda Guerra Mundial. Não sei se os dois têm algum parentesco, mas direi alguma coisa sobre o livro mais adiante.
Tendo chegado cedo, cousa espantosa vindo de alguém tão mal relacionado com os ponteiros como eu, decidi fazer uma hora numa igreja ali próxima. Mal entrei e vi um sujeito baixinho ensaiando umas músicas com um coro tão animado quanto feminino e de idade algo avançada. Ao lado, uma senhora tocava um teclado num estilo tal que julguei ser alguma performance ultra-moderna. Devo mencionar ao leitor que uma das pragas modernas é, na minha opinião, o teclado. Por mais que digam que ele soe como qualquer coisa imaginável, na minha modesta opinião ele soa apenas como um teclado tentando ser qualquer coisa imaginável. A falta de entrosamento entre o coro e o teclado era impressionante, sendo compensada pela extrema desafinação daquelas almas piedosas, algo que o baixinho, animado como estava em lhes ensinar as canções, parecia ignorar completamente. Sua boa vontade era igualmente impressionante, e então percebi que talvez ele estivesse cumprindo algum tipo de penitência inusitada.
Não havia sentido, no dia, minha primeira comoção musical, pois sentira algo semelhante ao passar, muitas horas antes, em frente a uma outra igreja. No momento da comunhão, alguém teve a belíssima idéia de fazer um acompanhamento musical num estilo semelhante a Ivan Lins, porém em tons sacros. Nunca me passara pela cabeça uma missa sitiada pela cafonice, mas parece que as pessoas conseguiram esse milagre. Infelizmente meu dáimon me mandou apertar o passo, embora eu esteja até agora querendo saber que raio de música era aquela.
Voltanto à igrejinha, aliás muito bela e que conheci graças a um evento totalmente mundano, isto é, quando da apresentação de quartetos de cordas de Beethoven, decidi, pois, ficar ainda mais, pelo menos até a hora da comunhão, esperando que Deus não me julgasse mal por ter de sair no meio da missa por causa do concerto. Chamou-me a atenção todas as pessoas serem de idade avançada. Numa igreja aqui perto de casa, algo semelhante parece ocorrer no meio de semana, exceto uma vez que vi uma senhorita de minissaia lá dentro. Mas a igreja estava razoavelmente cheia, num sábado frio e chuvoso, cousa mui louvável. Em todo o caso, eu era o caçula. Obviamente não havia razões para me incomodar com nada disso. O incômodo irrompeu mal tendo começado a missa. Antes que alguém me julgue destituído de espiritualidade, advirto que me refiro ao andamento estranho da missa. Aquele sujeito baixinho, que então descobri ser o pároco, juntamente com seu assistente, coreografava um balançar de braços dos fiéis. Havia uma cantoria de gosto duvidoso, uns gestos estranhos, uma música mal feita, uma leitura um tanto canhestra de passagens bíblicas, enfim, tudo feito estranhamente. Naqueles momentos, enquanto eu me perdia olhando aquela igreja tão agradável, surgiram-me as palavras que certa vez meu amigo Carlos escrevera em seu blog sobre a união da beleza com a liturgia. O que ele escreveu é, garanto, produto de considerações mui pessoais, pois ele próprio experimentara cenas litúrgicas esquisitas. Mas, pedindo gentilmente licença, eu avançaria um pouco mais e diria que toda a missa que não leve suficientemente a sério essa união da beleza com a liturgia cai, na menos pior das hipóteses, no cômico. Em certa ocasião, durante missa em lembrança à minha avó falecida, havia um cidadão que entoava os cânticos numa voz tão bizarra e com um jeito de falar tão inaudito que foi um empreendimento heróico manter o auto-controle para não rir durante tão grave evento.
Como eu estava com um espírito de concerto, não pude deixar de matutar que atualmente seria um período glorioso para as missas de Haydn, as quais, na época, foram ignoradas por causa de seu espírito alegre demais. Ora, sequer precisaríamos de uma orquestra e coro: bastaria um tocador de cd ou um desses cacarecos tecnológicos atuais que desconheço velhacamente. Por que, dentre as opções, há o hábito de sempre escolherem a mais infeliz? O mais curioso é o raciocínio de que o povo precisa daquilo que mais lhe convém, tendo implicitamente a noção de que o povo só gosta do que for pior. Música mal feita no lugar de Haydn parece ser, na cabeça de alguns, mais próprio ao povo.
Deixei, pois, a agitação de papéis de lado, mesmo antes da comunhão, e me dirigi à sala de concerto, embora, para meu espanto, faltasse meia hora para o início da apresentação. Sentei-me e decidi conversar um pouco com o historiador inglês, autor de A Segunda Guerra Mundial.
Não há nada pior que estar em má companhia. Talvez a única coisa pior é não poder desembaraçar-se dela. Para me gáudio, não era o caso em questão. A.J.P. Taylor me foi um ótimo companheiro de conversações, de tal modo que o deixei falar o tempo todo a fim de aprender.
Esse livro foi escrito no início da década de 60 e se tornou um clássico, embora tenha sido inicialmente detestado, exceto por "ex"-nazistas. Eu ouvira falar de Taylor graças a um outro excelente historiador, John Lukács, mas não podia imaginar que, além de ser inteligente, ele era tão divertido. Sua ironia é sutil -- às vezes nem tanto --, bem agradável, o que me rendeu algumas risadas, como no momento em que ele diz que as indenizações de guerra da Alemanha eram motivos "de insatisfação intelectual; coisa para lamentar à noite, e não motivos de sofrimento na vida cotidiana", que, em bom português, significa "frescura". Na mesma página, ainda sobre as indenizações, ele continua: "O homem de negócios em dificuldade, o professor mal pago, o trabalhador desempregado, todos as culpavam pelas suas dificuldades. O choro de uma criança faminta era um protesto contra elas. Os velhos iam para a cova devido às reparações." Ironia e sarcasmo que segundo meu imaginar só os ingleses conseguem desempenhar tão bem. Contudo, não pude deixar de perceber como tudo aquilo se aplica extraordinariamente ao Brasil, com a única diferença de o culpado ser a "exclusão social" ou o "capitalismo". Numa página anterior, ele diz que os ingleses começaram "a denunciar a loucura das reparações, tão logo se apossaram da frota mercante alemã", cousa que deve ter irritado mais de um inglês ao ler isso. Essas e outras passagens indicam que Taylor era polêmico, porque ele estava atacando todos os sagrados lugares-comuns: que a Alemanha não tinha como pagar as indenizações de guerra; que o Tratado de Versalhes foi totalmente péssimo para aquele país; que o programa de rearmamento alemão foi pesado durante quase toda a década de 30; que a guerra mundial foi tramada por Hitler; que ele, aliás, não era um estadista - mas é Lukács quem desenvolverá mais esse ponto; que planos como a anexação da Bélgica e Ucrânia, guerra contra a França e o Lebensraum não eram idéias típicas de Hitler, mas alemãs, e desde a Primeira Guerra. A lista é ainda mais extensa. Não foi por acaso que seu livro teve inicialmente uma recepção péssima e, para piorar, acabou erroneamente saudado por "ex"-nazistas, portanto interpretado por todos como uma espécie de reabilitação de Adolf Hitler: interpretação completamente torta, diga-se de passagem.
É lamentável quando o historiador é obrigado a seguir a opinião de todos tão-somente porque parece ser a mais agradável. A idéia de oposição ao establishment por si mesma é agradável apenas a quem não saiu da adolescência mental. No caso do historiador, a situação é mais complicada porque, afinal de contas, a história necessita ser sempre revisada. Sendo um estudioso, ele busca explicar o que ocorreu, nunca se satisfazando com as explicações aparentes. Um historiador precisa ser um pesquisador sério, não um instrumento que ecoa a opinião do dia. Como as pesquisas de Taylor, no dizer de Aristóteles, constrangeram-no a adotar certas verdades, muitas das quais eram contrárias às suas primeiras opiniões, por certo tempo ele foi detestado por muitos. É uma infelicidade monstruosa que em nosso país os cursos de história tenham sido tomados por selvagens cujo espírito é o oposto ao do verdadeiro historiador, embora esses infelizes se considerem espíritos críticos: eles querem unanimidade tão-somente. Mas que o leitor não exagere duplamente o que estou dizendo: Taylor não tem razão sempre e eu ainda estou lendo o livro.
Precisei terminar a agradável conversa com Taylor porque o concerto iria começar. Até o instante em que escrevo estas linhas tortas, não compreendi por que os organizadores chamaram o evento de "Música Antiga", já que nem Dowland, nem Haendel e nem as composições anônimas apresentadas eram música antiga. Naturalmente, a dúvida que surge é saber o que diabos significa esse termo. O canto gregoriano é antiqüíssimo, talvez a música mais antiga ainda em uso, mas não tenho certeza se seria apropriado classificá-lo como música antiga. Talvez seja mais próprio usar o termo para as músicas da Antigüidade, mas é bom que se diga que os próprios medievais, a certa altura, dividiam os estilos em ars antiqua e ars nova, e isso nada tinha a ver com a Antigüidade. Para o nosso gosto e, por que não, da própria Renascença, ars nova é algo inacreditavelmente arcaico, tanto quanto ars antiqua. Do ponto de vista da música clássica - o termo aqui se refere à música de um determinado período -, talvez não seja um absurdo total considerar que o período barroco e anterior não passam de algo cafona e fora de moda, ainda que seja uma extravagância colocar no mesmo saco gente tão diferente como Haendel e Dowland. É sempre complicado estabelecer o que é moderno e o que é velho segundo o que parece mais antiquado. Mas, como diria Taylor, são inquietações intelectuais boas para incomodar o sono, mas que não afetam em nada a vida cotidiana. Assim, estando o termo equivocado ou não, os músicos estavam lá e havia público suficiente para a apresentação.
Evidentemente, a atração principal do concerto era o contratenor Donald Taylor, o qual, repito, não faço a menor idéia se é parente ou não do historiador inglês. A primeira parte da apresentação foi consagrada a Dowland e compositores anônimos. Se o leitor nunca ouviu o compositor inglês, saiba que suas músicas são ótimas para, conforme a medicina antiga, incentivar a produção de bílis negra. É impressionante como Dowland compôs tantas músicas melancólicas. Na minha opinião, um dos melhores momentos foi quando Taylor cantou I saw my lady weep, embora não tenha havido uma segunda voz. Não que ele estivesse se apresentado sozinho, porque havia uma soprano extremamente bonitinha com ele, trajando um longo vestido esverdeado. Dentro do meu limitado entendimento musical, gostei de ouvi-la também. Pensei nas palavras de um poeta que dizia não haver nada mais agradável que ouvir um talento combinado a uma feição bela. Não posso cometer a injustiça de esquecer o senhor do alaúde, instrumento delicado que foi muito bem tocado.
A segunda parte foi dedicada quase inteiramente a Haendel, com acompanhamento de piano. Confesso que seria mais agradável se houvesse uma pequena orquestra de câmara, mas não quero choramingar porque o pianista era muito bom. Se alguém tinha alguma dúvida de sua habilidade, suponho que ela desabou após a execução de uma transcrição de Liszt de uma peça bachiana, se não me engano algum prelúdio e fuga. Uma certa melancolia continuou da forma mais bela possível, como durante a apresentação de um duo da ópera Theodora. Para quebrar a melancolia, o espetáculo findou com duas árias heróicas da ópera Giulio Cesare, em que Taylor alternava entre contratenor e barítono, exibindo suas habilidades vocais. Durante as árias heróicas, ele também fazia questão de interpretá-las, explicando antes ao público brevemente do que se tratava.
Eu estava tão perto do palco que não perdi um único perdigoto, nem uma eventual enxurrada deles, mas suficientemente afastado para me por a salvo deles. Eu gostaria de ter visto mais o pianista usando o pedal, mas a cabeça de um senhor na primeira fileira embargou-me o intento, bem como do senhor desprovido de cabelos que estava atrás dele. São detalhes irrelevantes, pois a apresentação foi boa, mesmo quando Taylor disse que o Ptolomeu da ópera conseguia ser ainda mais malvado que Bush.
Foi uma sensação curiosa voltar para casa depois daquele evento, pois tive de passar pelo mafuá dos Arcos da Lapa, zona considerada boêmia. Era como se eu estivesse me perdendo nas mais profundas trevas da antiga Germânia ou nos pântanos da velha Britânia. Minha imaginação não concebe as razões que levam um semelhante meu a embrenhar-se prazerosamente num local tão feio e lotado de mafomas e demais gentes de má catadura. Agora bem: a memória do espetáculo anulou aquele ambiente. Segui embalado por aquelas músicas até meu lar, como aliás já o tinha feito em outra ocasião, durante o festival dedicado a Beethoven.
Tendo chegado cedo, cousa espantosa vindo de alguém tão mal relacionado com os ponteiros como eu, decidi fazer uma hora numa igreja ali próxima. Mal entrei e vi um sujeito baixinho ensaiando umas músicas com um coro tão animado quanto feminino e de idade algo avançada. Ao lado, uma senhora tocava um teclado num estilo tal que julguei ser alguma performance ultra-moderna. Devo mencionar ao leitor que uma das pragas modernas é, na minha opinião, o teclado. Por mais que digam que ele soe como qualquer coisa imaginável, na minha modesta opinião ele soa apenas como um teclado tentando ser qualquer coisa imaginável. A falta de entrosamento entre o coro e o teclado era impressionante, sendo compensada pela extrema desafinação daquelas almas piedosas, algo que o baixinho, animado como estava em lhes ensinar as canções, parecia ignorar completamente. Sua boa vontade era igualmente impressionante, e então percebi que talvez ele estivesse cumprindo algum tipo de penitência inusitada.
Não havia sentido, no dia, minha primeira comoção musical, pois sentira algo semelhante ao passar, muitas horas antes, em frente a uma outra igreja. No momento da comunhão, alguém teve a belíssima idéia de fazer um acompanhamento musical num estilo semelhante a Ivan Lins, porém em tons sacros. Nunca me passara pela cabeça uma missa sitiada pela cafonice, mas parece que as pessoas conseguiram esse milagre. Infelizmente meu dáimon me mandou apertar o passo, embora eu esteja até agora querendo saber que raio de música era aquela.
Voltanto à igrejinha, aliás muito bela e que conheci graças a um evento totalmente mundano, isto é, quando da apresentação de quartetos de cordas de Beethoven, decidi, pois, ficar ainda mais, pelo menos até a hora da comunhão, esperando que Deus não me julgasse mal por ter de sair no meio da missa por causa do concerto. Chamou-me a atenção todas as pessoas serem de idade avançada. Numa igreja aqui perto de casa, algo semelhante parece ocorrer no meio de semana, exceto uma vez que vi uma senhorita de minissaia lá dentro. Mas a igreja estava razoavelmente cheia, num sábado frio e chuvoso, cousa mui louvável. Em todo o caso, eu era o caçula. Obviamente não havia razões para me incomodar com nada disso. O incômodo irrompeu mal tendo começado a missa. Antes que alguém me julgue destituído de espiritualidade, advirto que me refiro ao andamento estranho da missa. Aquele sujeito baixinho, que então descobri ser o pároco, juntamente com seu assistente, coreografava um balançar de braços dos fiéis. Havia uma cantoria de gosto duvidoso, uns gestos estranhos, uma música mal feita, uma leitura um tanto canhestra de passagens bíblicas, enfim, tudo feito estranhamente. Naqueles momentos, enquanto eu me perdia olhando aquela igreja tão agradável, surgiram-me as palavras que certa vez meu amigo Carlos escrevera em seu blog sobre a união da beleza com a liturgia. O que ele escreveu é, garanto, produto de considerações mui pessoais, pois ele próprio experimentara cenas litúrgicas esquisitas. Mas, pedindo gentilmente licença, eu avançaria um pouco mais e diria que toda a missa que não leve suficientemente a sério essa união da beleza com a liturgia cai, na menos pior das hipóteses, no cômico. Em certa ocasião, durante missa em lembrança à minha avó falecida, havia um cidadão que entoava os cânticos numa voz tão bizarra e com um jeito de falar tão inaudito que foi um empreendimento heróico manter o auto-controle para não rir durante tão grave evento.
Como eu estava com um espírito de concerto, não pude deixar de matutar que atualmente seria um período glorioso para as missas de Haydn, as quais, na época, foram ignoradas por causa de seu espírito alegre demais. Ora, sequer precisaríamos de uma orquestra e coro: bastaria um tocador de cd ou um desses cacarecos tecnológicos atuais que desconheço velhacamente. Por que, dentre as opções, há o hábito de sempre escolherem a mais infeliz? O mais curioso é o raciocínio de que o povo precisa daquilo que mais lhe convém, tendo implicitamente a noção de que o povo só gosta do que for pior. Música mal feita no lugar de Haydn parece ser, na cabeça de alguns, mais próprio ao povo.
Deixei, pois, a agitação de papéis de lado, mesmo antes da comunhão, e me dirigi à sala de concerto, embora, para meu espanto, faltasse meia hora para o início da apresentação. Sentei-me e decidi conversar um pouco com o historiador inglês, autor de A Segunda Guerra Mundial.
Não há nada pior que estar em má companhia. Talvez a única coisa pior é não poder desembaraçar-se dela. Para me gáudio, não era o caso em questão. A.J.P. Taylor me foi um ótimo companheiro de conversações, de tal modo que o deixei falar o tempo todo a fim de aprender.
Esse livro foi escrito no início da década de 60 e se tornou um clássico, embora tenha sido inicialmente detestado, exceto por "ex"-nazistas. Eu ouvira falar de Taylor graças a um outro excelente historiador, John Lukács, mas não podia imaginar que, além de ser inteligente, ele era tão divertido. Sua ironia é sutil -- às vezes nem tanto --, bem agradável, o que me rendeu algumas risadas, como no momento em que ele diz que as indenizações de guerra da Alemanha eram motivos "de insatisfação intelectual; coisa para lamentar à noite, e não motivos de sofrimento na vida cotidiana", que, em bom português, significa "frescura". Na mesma página, ainda sobre as indenizações, ele continua: "O homem de negócios em dificuldade, o professor mal pago, o trabalhador desempregado, todos as culpavam pelas suas dificuldades. O choro de uma criança faminta era um protesto contra elas. Os velhos iam para a cova devido às reparações." Ironia e sarcasmo que segundo meu imaginar só os ingleses conseguem desempenhar tão bem. Contudo, não pude deixar de perceber como tudo aquilo se aplica extraordinariamente ao Brasil, com a única diferença de o culpado ser a "exclusão social" ou o "capitalismo". Numa página anterior, ele diz que os ingleses começaram "a denunciar a loucura das reparações, tão logo se apossaram da frota mercante alemã", cousa que deve ter irritado mais de um inglês ao ler isso. Essas e outras passagens indicam que Taylor era polêmico, porque ele estava atacando todos os sagrados lugares-comuns: que a Alemanha não tinha como pagar as indenizações de guerra; que o Tratado de Versalhes foi totalmente péssimo para aquele país; que o programa de rearmamento alemão foi pesado durante quase toda a década de 30; que a guerra mundial foi tramada por Hitler; que ele, aliás, não era um estadista - mas é Lukács quem desenvolverá mais esse ponto; que planos como a anexação da Bélgica e Ucrânia, guerra contra a França e o Lebensraum não eram idéias típicas de Hitler, mas alemãs, e desde a Primeira Guerra. A lista é ainda mais extensa. Não foi por acaso que seu livro teve inicialmente uma recepção péssima e, para piorar, acabou erroneamente saudado por "ex"-nazistas, portanto interpretado por todos como uma espécie de reabilitação de Adolf Hitler: interpretação completamente torta, diga-se de passagem.
É lamentável quando o historiador é obrigado a seguir a opinião de todos tão-somente porque parece ser a mais agradável. A idéia de oposição ao establishment por si mesma é agradável apenas a quem não saiu da adolescência mental. No caso do historiador, a situação é mais complicada porque, afinal de contas, a história necessita ser sempre revisada. Sendo um estudioso, ele busca explicar o que ocorreu, nunca se satisfazando com as explicações aparentes. Um historiador precisa ser um pesquisador sério, não um instrumento que ecoa a opinião do dia. Como as pesquisas de Taylor, no dizer de Aristóteles, constrangeram-no a adotar certas verdades, muitas das quais eram contrárias às suas primeiras opiniões, por certo tempo ele foi detestado por muitos. É uma infelicidade monstruosa que em nosso país os cursos de história tenham sido tomados por selvagens cujo espírito é o oposto ao do verdadeiro historiador, embora esses infelizes se considerem espíritos críticos: eles querem unanimidade tão-somente. Mas que o leitor não exagere duplamente o que estou dizendo: Taylor não tem razão sempre e eu ainda estou lendo o livro.
Precisei terminar a agradável conversa com Taylor porque o concerto iria começar. Até o instante em que escrevo estas linhas tortas, não compreendi por que os organizadores chamaram o evento de "Música Antiga", já que nem Dowland, nem Haendel e nem as composições anônimas apresentadas eram música antiga. Naturalmente, a dúvida que surge é saber o que diabos significa esse termo. O canto gregoriano é antiqüíssimo, talvez a música mais antiga ainda em uso, mas não tenho certeza se seria apropriado classificá-lo como música antiga. Talvez seja mais próprio usar o termo para as músicas da Antigüidade, mas é bom que se diga que os próprios medievais, a certa altura, dividiam os estilos em ars antiqua e ars nova, e isso nada tinha a ver com a Antigüidade. Para o nosso gosto e, por que não, da própria Renascença, ars nova é algo inacreditavelmente arcaico, tanto quanto ars antiqua. Do ponto de vista da música clássica - o termo aqui se refere à música de um determinado período -, talvez não seja um absurdo total considerar que o período barroco e anterior não passam de algo cafona e fora de moda, ainda que seja uma extravagância colocar no mesmo saco gente tão diferente como Haendel e Dowland. É sempre complicado estabelecer o que é moderno e o que é velho segundo o que parece mais antiquado. Mas, como diria Taylor, são inquietações intelectuais boas para incomodar o sono, mas que não afetam em nada a vida cotidiana. Assim, estando o termo equivocado ou não, os músicos estavam lá e havia público suficiente para a apresentação.
Evidentemente, a atração principal do concerto era o contratenor Donald Taylor, o qual, repito, não faço a menor idéia se é parente ou não do historiador inglês. A primeira parte da apresentação foi consagrada a Dowland e compositores anônimos. Se o leitor nunca ouviu o compositor inglês, saiba que suas músicas são ótimas para, conforme a medicina antiga, incentivar a produção de bílis negra. É impressionante como Dowland compôs tantas músicas melancólicas. Na minha opinião, um dos melhores momentos foi quando Taylor cantou I saw my lady weep, embora não tenha havido uma segunda voz. Não que ele estivesse se apresentado sozinho, porque havia uma soprano extremamente bonitinha com ele, trajando um longo vestido esverdeado. Dentro do meu limitado entendimento musical, gostei de ouvi-la também. Pensei nas palavras de um poeta que dizia não haver nada mais agradável que ouvir um talento combinado a uma feição bela. Não posso cometer a injustiça de esquecer o senhor do alaúde, instrumento delicado que foi muito bem tocado.
A segunda parte foi dedicada quase inteiramente a Haendel, com acompanhamento de piano. Confesso que seria mais agradável se houvesse uma pequena orquestra de câmara, mas não quero choramingar porque o pianista era muito bom. Se alguém tinha alguma dúvida de sua habilidade, suponho que ela desabou após a execução de uma transcrição de Liszt de uma peça bachiana, se não me engano algum prelúdio e fuga. Uma certa melancolia continuou da forma mais bela possível, como durante a apresentação de um duo da ópera Theodora. Para quebrar a melancolia, o espetáculo findou com duas árias heróicas da ópera Giulio Cesare, em que Taylor alternava entre contratenor e barítono, exibindo suas habilidades vocais. Durante as árias heróicas, ele também fazia questão de interpretá-las, explicando antes ao público brevemente do que se tratava.
Eu estava tão perto do palco que não perdi um único perdigoto, nem uma eventual enxurrada deles, mas suficientemente afastado para me por a salvo deles. Eu gostaria de ter visto mais o pianista usando o pedal, mas a cabeça de um senhor na primeira fileira embargou-me o intento, bem como do senhor desprovido de cabelos que estava atrás dele. São detalhes irrelevantes, pois a apresentação foi boa, mesmo quando Taylor disse que o Ptolomeu da ópera conseguia ser ainda mais malvado que Bush.
Foi uma sensação curiosa voltar para casa depois daquele evento, pois tive de passar pelo mafuá dos Arcos da Lapa, zona considerada boêmia. Era como se eu estivesse me perdendo nas mais profundas trevas da antiga Germânia ou nos pântanos da velha Britânia. Minha imaginação não concebe as razões que levam um semelhante meu a embrenhar-se prazerosamente num local tão feio e lotado de mafomas e demais gentes de má catadura. Agora bem: a memória do espetáculo anulou aquele ambiente. Segui embalado por aquelas músicas até meu lar, como aliás já o tinha feito em outra ocasião, durante o festival dedicado a Beethoven.
Saturday, September 20, 2008
Da beleza da mulher

Qualquer assunto, da metafísica à harmonia cósmica, é banal se comparado à bela mulher. Perto dela, os maiores gênios da humanidade se assemelham à pandilha mais grosseira. Evidentemente, outras qualidades tornam a mulher ainda mais superior. Acaso a natureza lhe seja tão mãe que, não obstante sua beleza, ofereça-lhe também algum talento notável, seja um dote artístico, seja um nobre discernimento, seja um bom trato, toda a nossa admiração será justificavelmente minúscula diante de tal mulher.
Caríssimos senhores que se aventuram em proezas platônicas, homéricas e dantescas, não seria melhor deixar de lado tão magníficas ações em nome de uma mulher bela? Com esse chamamento à filosofia da ação, despeço-me, não sem antes pedir a compreensão de uma eventual leitora ressentida. Infelizmente nada poderei fazer a não ser desejar que essa leitora tenha ao menos algum talento. Adeus.
Caríssimos senhores que se aventuram em proezas platônicas, homéricas e dantescas, não seria melhor deixar de lado tão magníficas ações em nome de uma mulher bela? Com esse chamamento à filosofia da ação, despeço-me, não sem antes pedir a compreensão de uma eventual leitora ressentida. Infelizmente nada poderei fazer a não ser desejar que essa leitora tenha ao menos algum talento. Adeus.
Wednesday, September 17, 2008
Um breve comentário sobre a política e as eleições
Se o voto é a arma do cidadão, sejamos coerentes: façamos mais uma campanha de desarmamento, dessa vez eleitoral.
Exceto entre comunistas e outros desastres, jamais conheci criatura do gênero humano que levasse a política a sério, o que talvez explique as calamidades atuais, especialmente aqui no Rio, que já deu dois passos para além do pior impropério. Tanto quanto, jamais tive a oportunidade de conhecer alguém que depositasse fé inabalável em qualquer candidato, exceto, como de praxe, os esquerdistas, mas aqui estou me referindo a gente normal.
Muito embora eu ouça que o brasileiro é tolo o suficiente para continuar crendo em políticos, não posso concordar, pelo menos não totalmente. Considero que esse tipo de opinião é parcial. Pode haver esse aspecto de ingenuidade amplamente disseminado, mas desconfio que não seja o dado predominante. Uma outra visão, talvez parcial também, mas que freqüentemente compartilho, embora com alguma desconfiança, é que, como já disse, as pessoas simplesmente não confiam na política. Prova disso é a vergonhosa popularidade do Congresso, cuja função como bode expiatório de todos os flagelos da nação ele vem desempenhando assaz bem.
Na minha modesta opinião, o brasileiro está longe de ter uma confiança suicida na política, pelo menos na medida em que ele não lhe dá muita importância. O máximo que faz é dar apenas um reconhecimento necessário. Apesar de tudo, as pessoas sabem que a política não é uma obra satânica, o que demonstra um enorme bom senso popular. Note o leitor que uma das marcas do pensamento conservador não é imaginar que a política seja intrinsecamente maligna. Quando um conservador destaca a precariedade da política, ele tem consciência de que está apontando apenas para um dos aspectos da questão. Numa época cheia de idéias políticas malignas, não age mal quem destaca o quão perversa a política é, mas isso, no fundo, conforme eu disse, é apenas um dos aspectos da questão. Pois bem, as pessoas em geral desconfiam da política sem considerá-la intrinsecamente maligna. Nesse sentido, o povo é conservador. É óbvio, todavia, que não estamos no campo da necessidade. Uma visão rígida das coisas apenas exageraria tudo. O caráter das pessoas, bem como de um povo, é passível de giros, da mesma forma que admite uma série de nuanças.
Continuando no campo da opinião modesta, não acho que o problema esteja no povo, porque, além de tudo o que já disse, ele é, por natureza, reagente. Não é na população que devemos, por conseguinte, buscar a fonte de nossos problemas. Eu diria que a principal responsabilidade é da elite letrada, isto é, pessoas mais ou menos cultas com alguma capacidade de influência na sociedade. O leitor encontrará ali toda uma sorte de criaturas as mais crédulas possíveis. O exemplo mais eloqüente foi o assentimento que parte dessa gente sempre deu a Lula, crendo que, uma vez no poder, o infeliz salvaria a nação. Essa cegueira se alastrou e contaminou o povo. Por outro lado, é nessa mesma elite que encontramos todo o gênero de reformadores sociais, que sempre visam a política como ferramenta fundamental, ou politizam todas as esferas da vida, o que é rigorosamente idêntico. Eu diria até que é essa classe que mais considera que "o voto é a arma do cidadão".
Para finalizar, e sendo ainda mais repetitivo, o povo ignora os fatos políticos simplesmente porque está pouco ligando para a política, enquanto a elite letrada o que mais faz é se haver com eles. Ora, amável leitor, quem você acha que é verdadeiramente cético?
Exceto entre comunistas e outros desastres, jamais conheci criatura do gênero humano que levasse a política a sério, o que talvez explique as calamidades atuais, especialmente aqui no Rio, que já deu dois passos para além do pior impropério. Tanto quanto, jamais tive a oportunidade de conhecer alguém que depositasse fé inabalável em qualquer candidato, exceto, como de praxe, os esquerdistas, mas aqui estou me referindo a gente normal.
Muito embora eu ouça que o brasileiro é tolo o suficiente para continuar crendo em políticos, não posso concordar, pelo menos não totalmente. Considero que esse tipo de opinião é parcial. Pode haver esse aspecto de ingenuidade amplamente disseminado, mas desconfio que não seja o dado predominante. Uma outra visão, talvez parcial também, mas que freqüentemente compartilho, embora com alguma desconfiança, é que, como já disse, as pessoas simplesmente não confiam na política. Prova disso é a vergonhosa popularidade do Congresso, cuja função como bode expiatório de todos os flagelos da nação ele vem desempenhando assaz bem.
Na minha modesta opinião, o brasileiro está longe de ter uma confiança suicida na política, pelo menos na medida em que ele não lhe dá muita importância. O máximo que faz é dar apenas um reconhecimento necessário. Apesar de tudo, as pessoas sabem que a política não é uma obra satânica, o que demonstra um enorme bom senso popular. Note o leitor que uma das marcas do pensamento conservador não é imaginar que a política seja intrinsecamente maligna. Quando um conservador destaca a precariedade da política, ele tem consciência de que está apontando apenas para um dos aspectos da questão. Numa época cheia de idéias políticas malignas, não age mal quem destaca o quão perversa a política é, mas isso, no fundo, conforme eu disse, é apenas um dos aspectos da questão. Pois bem, as pessoas em geral desconfiam da política sem considerá-la intrinsecamente maligna. Nesse sentido, o povo é conservador. É óbvio, todavia, que não estamos no campo da necessidade. Uma visão rígida das coisas apenas exageraria tudo. O caráter das pessoas, bem como de um povo, é passível de giros, da mesma forma que admite uma série de nuanças.
Continuando no campo da opinião modesta, não acho que o problema esteja no povo, porque, além de tudo o que já disse, ele é, por natureza, reagente. Não é na população que devemos, por conseguinte, buscar a fonte de nossos problemas. Eu diria que a principal responsabilidade é da elite letrada, isto é, pessoas mais ou menos cultas com alguma capacidade de influência na sociedade. O leitor encontrará ali toda uma sorte de criaturas as mais crédulas possíveis. O exemplo mais eloqüente foi o assentimento que parte dessa gente sempre deu a Lula, crendo que, uma vez no poder, o infeliz salvaria a nação. Essa cegueira se alastrou e contaminou o povo. Por outro lado, é nessa mesma elite que encontramos todo o gênero de reformadores sociais, que sempre visam a política como ferramenta fundamental, ou politizam todas as esferas da vida, o que é rigorosamente idêntico. Eu diria até que é essa classe que mais considera que "o voto é a arma do cidadão".
Para finalizar, e sendo ainda mais repetitivo, o povo ignora os fatos políticos simplesmente porque está pouco ligando para a política, enquanto a elite letrada o que mais faz é se haver com eles. Ora, amável leitor, quem você acha que é verdadeiramente cético?
Monday, September 01, 2008
A beleza é objeto de contemplação
Houve uma semana, cujo mês escapa vaidosamente à lembrança, na qual o acaso me presenteou com seguidos filmes da Jennifer Connelly. Enquanto desfilavam Hulk, Água Negra e outros, eu prestava mais atenção na atriz que nos enredos. Embora outras atrizes sejam ainda mais belas -- mas, diga-se de passagem, Jennifer Connelly está bem longe de não ser atraente -- o que mais me chama atenção na atriz é aquele dado tão difícil de precisar mas que costumamos chamar de "graça".
A avaliar certas fotos que andam circulando por aí, a atriz parece ter adotado a equívoca moda da magreza compulsiva. Jamais pude entender como as mulheres vislumbram alguma beleza no esqueleto -- porque nós homens, pelo menos geralmente, não apreciamos ossos. É mais chocante quando a pessoa, dotada de tanta beleza natural, força a si mesma em caminho contrário, certamente por causa de conselhos tenebrosos.
Deixemos, caro leitor, as divagações aquietadas. Alegremo-nos com a graça e a beleza da Jennifer Connelly.


A avaliar certas fotos que andam circulando por aí, a atriz parece ter adotado a equívoca moda da magreza compulsiva. Jamais pude entender como as mulheres vislumbram alguma beleza no esqueleto -- porque nós homens, pelo menos geralmente, não apreciamos ossos. É mais chocante quando a pessoa, dotada de tanta beleza natural, força a si mesma em caminho contrário, certamente por causa de conselhos tenebrosos.
Deixemos, caro leitor, as divagações aquietadas. Alegremo-nos com a graça e a beleza da Jennifer Connelly.

Prototipia emasculada e inerte do corriqueiro, em poligamia branca com todas as realidades imbecis e inexpressivas da vida
Passeando pelo excelente blog de Antonio Fernando Borges, deparei-me com uma crítica extremamente cativante a Machado de Assis por parte do Pe. José Severiano Resende. De acordo com a sapiência do clérigo, a obra de Machado de Assis não passa de "Prototipia emasculada e inerte do corriqueiro, em poligamia branca com todas as realidades imbecis e inexpressivas da vida.” Ora, confesso ao distinto leitor que há anos venho me esforçando para criar uma frase tão casquilha. Por conseguinte, ela será meu lema, a partir de agora, para uso em todas as situações possível e impossíveis, seja como insulto, seja como descrição orkutiana, superando o "apostrofá-lo-ei com doestos e vitupérios incandentes" que li há quase uma década numa coluna divertida de João Ubaldo Ribeiro.
Se eu pudesse fazer mais um elogio às exuberantes críticas do padre e daqueles que o acompanharam, diria tão-somente que foi-se o tempo em que até a fala mais caturra exigia alguma sofisticação, ainda que beócia.
Se eu pudesse fazer mais um elogio às exuberantes críticas do padre e daqueles que o acompanharam, diria tão-somente que foi-se o tempo em que até a fala mais caturra exigia alguma sofisticação, ainda que beócia.
Sunday, August 17, 2008
De um aparente dilema marxista
Para mim, um dos mistérios mais insondáveis do universo é entender, do ponto de vista marxista, por que Cuba exerce um fascínio tão comovente em nossa elite intelectual e governamental, bem como na América Latina. Por mais que eu tente raciocinar de um ponto de vista marxista, a única explicação que encontro é que os esquerdistas latino-americanos estão profundamente hipnotizados por aquilo que Marx chamava de "superestrutura": produção simbólica que inicialmente emerge de um dado sistema econômico mas que ao longo do tempo entra em contradição com o desenvolvimento desse mesmo sistema econômico. Contudo, seria imensamente paradoxal -- ou irônico -- que os próprios esquerdistas, que se julgam aptos a vislumbrar os reais fundamentos da conduta humana através de uma doutrina científica, fossem eles mesmo engolidos pela máscara ideológica de uma forma tão cândida. Na realidade, seria até absurdo que uma teoria que eles apresentam como suficiente apenas servisse para enganá-los de modo miserável. Ademais, seria interessante compreender até que ponto o modo de produção exercido em Cuba e as relações de produção existente por lá estão ligadas. Será que tudo o que é dito em Cuba não passa igualmente de mera máscara ideológica? Se for assim, nossos caríssimos intelectuais latino-americanos, bem como nossos governos, estão como o burro a correr atrás da cenoura, tocados por uma estrutura econômica que eles julgam entender mas sem a menor idéia do que estão falando.
Naturalmente estou me esforçando a raciocinar como um marxista, o que me levou a esse aparente dilema. Ficaria mui grato se algum marxista pudesse me ajudar.
Naturalmente estou me esforçando a raciocinar como um marxista, o que me levou a esse aparente dilema. Ficaria mui grato se algum marxista pudesse me ajudar.
Friday, July 18, 2008
Concordo com o que Omayr disse
Ainda que eu possa correr algum perigo de atingir a mim mesmo, embora faço de antemão penitência por qualquer prática levemente semelhante que por acaso eu já tenha feito, preciso concordar com este post de Omayr sobre deslumbramentos, embora minha ojeriza não seja radical -- há uma fonte de humorismo inesgotável nisso --, e só não concordo ainda mais porque não tenho condições de polemizar a respeito da qualidade das traduções do latim.
Não cito exemplos de blogs deslumbrados porque são legião, ainda que alguns blogs que eu gosto caiam nesse vício, em maior ou menor medida. Cinco minutos de pesquisa já bastam.
Se eu tivesse um magnífico domínio de vastas línguas estrangeiras, eu já teria escrito um livro em inglês que tivesse expressões greco-espanholas, em caracteres góticos, declinado em latim, com notas de rodapé em alfabeto hebraico e com a advertência de que sua completa inteligibilidade só seria possível caso ele fosse pronunciado num misto de francês e alemão. Seria a apoteose do linguajar macarrônico. Dedicaria aos meus queridos compatriotas três volumes: aos iluminados pelas letras, distantes do realismo bárbaro nacional, um volume sobre literatura, destacando a literatura anglo-saxã; aos doutos estudiosos de filosofia, impregnados de status quaestionis, haveria um volume dedicado especialmente a Platão e Aristóteles; aos pietíssimos leigos que se acham verdadeiros padres e aos padres que se acham verdadeiros leigos, minha homenagem seria um volume dedicado aos santos, referência maliciosa a certas práticas religiosas nacionais. Quanto aos esquerdistas e ateus, como eles não lêem nada ou entendem tudo errado, minha homenagem seria um piparote.
É provável que essa obra não tenha uma boa acolhida, mas, em tempos democráticos tão magníficos como o nosso, ninguém poderia me acusar de não distribuir homenagens a todos, sérios e não sérios. E com isso, adeus.
Não cito exemplos de blogs deslumbrados porque são legião, ainda que alguns blogs que eu gosto caiam nesse vício, em maior ou menor medida. Cinco minutos de pesquisa já bastam.
Se eu tivesse um magnífico domínio de vastas línguas estrangeiras, eu já teria escrito um livro em inglês que tivesse expressões greco-espanholas, em caracteres góticos, declinado em latim, com notas de rodapé em alfabeto hebraico e com a advertência de que sua completa inteligibilidade só seria possível caso ele fosse pronunciado num misto de francês e alemão. Seria a apoteose do linguajar macarrônico. Dedicaria aos meus queridos compatriotas três volumes: aos iluminados pelas letras, distantes do realismo bárbaro nacional, um volume sobre literatura, destacando a literatura anglo-saxã; aos doutos estudiosos de filosofia, impregnados de status quaestionis, haveria um volume dedicado especialmente a Platão e Aristóteles; aos pietíssimos leigos que se acham verdadeiros padres e aos padres que se acham verdadeiros leigos, minha homenagem seria um volume dedicado aos santos, referência maliciosa a certas práticas religiosas nacionais. Quanto aos esquerdistas e ateus, como eles não lêem nada ou entendem tudo errado, minha homenagem seria um piparote.
É provável que essa obra não tenha uma boa acolhida, mas, em tempos democráticos tão magníficos como o nosso, ninguém poderia me acusar de não distribuir homenagens a todos, sérios e não sérios. E com isso, adeus.
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