Saturday, April 28, 2007

Observação sobre um texto de Julio Lemos

Em seu blog, Julio Lemos, lá numa das partes do texto Je ne Comprends pas les Gens qui Essaient de Sonner Comme en 1974, disse assim:

Uma das dádivas da temperança é poder fazer o que se quer – esse aliás é o núcleo duro das virtudes cardeais. Quem pode rejeitar um trago a mais, acordar cedo e deixar certas manias estranhas mas atraentes pode, mais tarde, ter a liberdade de pelo menos tentar conquistar uma mulher valiosa.O que acontece é que o cara pensa que é livre até se ver diante de uma mulher desse tipo ou de um ‘sistema de crenças’ coerente e exigente. Ele percebe que não [está] livre para aderir a um objeto desses. A preguiça e a sensualidade o escravizam: o máximo que ele consegue fazer é ficar em casa no sábado à noite escrevendo textos no estilo James Joyce recheado de referências eruditas e pornografia barata.Diante do desafio de merecer algo superior a ele, com a condição de abandonar antigos hábitos, o cara acaba por desistir. Orgulhoso (vai saber de que), desqualifica os valores mais exigentes – a mulher perfeita e sei lá, o “serviço aos outros” –, dizendo que não passam de ideologias cristãs ou mocinhas recalcadas. É a conhecida fábula da raposa e das uvas. Não podendo alcançá-las, o faceiro raposinho desiste, arranjando uma desculpa: “estavam verdes


Concordo com tudo, exceto com a conclusão a partir da famosa fábula. Não é sob um pretexto qualquer que os valores têm sido jogados para escanteio. Aliás, se fosse por isso, não haveria a mínima diferença entre a negação dos valores hoje em dia e a atitude de um covarde há 2400 anos. Acontece que a diferença é radical. O problema não é simplesmente decorrente de um caráter dúbio, mas da completa inversão dos valores. A raposa, quando dizia que as uvas estavam verdes, continuava sabendo que as uvas verdes eram inferiores. Ela ainda buscava as melhores, mas devido ao seu fracasso lançou mão dessa desculpa. De qualquer modo, sua escala de valores , no fundo, permanecia intacta. Essa atitude é comum. Hoje em dia o problema é outro. Porque se persegue as uvas verdes exatamente por serem verdes. Elas assumiram um valor em si superior que antes não havia, enquanto as uvas maduras, por serem maduras, são identificadas como de tipo inferior. Não é, repito, simplesmente uma questão de falta de capacidade, mas de reviravolta radical dos valores. O fundo dessa atitude é o ressentimento. Daí esse caráter equívoco das pessoas que pregam essas novas atitudes: parecem ao mesmo tempo profundamente insolentes e covardes. A cada afirmação de superioridade o fundo insubornável demonstra imediatamente a sua farsa. Daí a atitude autoritária que essas pessoas têm a fim de impor pela vontade aquilo que não são de fato. Daí que o líder de movimento negro e o militante gay andem de mãos dadas com Hitler e Stálin.

Sunday, April 22, 2007

Ótimos exemplos do cidadão ideal

Sim, eu sei, já fiz um post sobre isso, mas sabe como é, sempre faz bem recordar.

Exemplo do homem-ideal segundo os modelos da Nova Ordem Mundial: sem preconceitos, feminista, desarmado, cosmopolita, ecologista, moderno, progressista. Eis o homem de nossa época, quer dizer, o super-homem:



A Nova Ordem Mundial também admite protestos. Eis um exemplo de um subversivo típico:



É, são os tempos modernos. Afinal de contas, como escutei um dia alguém falando, ser homem é apenas uma questão que vai da cabeça de cada um...

Wednesday, April 18, 2007

Hoje vamos falar um pouco sobre ciência

Por um desses insondáveis mistérios deste mundo de justiça imperfeita, eis que eu, no momento de publicar um texto, me vi na incumbência de escrever três, os quais não tinham a menor conexão entre si. Para dizer em termos musicais, não eram variações do mesmo tema, sendo portanto bastante improvável que deles eu conseguisse compor uma fuga; no máximo haveria aquelas justaposições tão estranhas que se tornaram comuns na música vocal em fins da Idade Média. Eu iria acrescentar que elas eram fascinantes, porém o leitor muito justamente imaginaria que eu estivesse querendo inflar o meu ego tão raquítico.

Mas em nome da minha preguiça, hoje comentarei sobre apenas um assunto.

O que eu gostaria de dizer agora é que se há uma classe de doidos, certamente é a dos intelectuais, ou intelectualerdas, como costumava dizer Gustavo Corção. Sei que esse assunto já está um pouco batido, ainda mais para o digníssimo leitor deste pobre escritor - se é que poderia me chamar de escritor - , porque não muito raramente eu insisto nessa clave. Mas eu pediria a atenção do leitor mais uma vez para que vejamos isso de um ângulo pequenino e diferente. Gastarei algumas palavras sobre a ciência.

Vejamos a grosso modo a Física. Sem querer entrar em detalhes aristotélicos acerca de seu objeto e de seu método, sabemos todos nós, ou supostamente sabemos, que ela, como ciência, reduz os objetos de seu estudo a umas tantas explicações genéricas, que por sua vez, graças à ajuda da Matemática, são traduzidas em fórmulas algébricas. Essas fórmulas algébricas são o que são porque precisam unir a variedade dos fenômenos com as chamadas leis gerais. Podemos facilmente notar o trabalho de abstração da ciência partindo dos dados, isto é, dos fenômenos observados que se prestam ao estudo. Assim, há de se unir também os dados observados a uma explicação causal determinante, que deve ser, por ser científica, aplicável a todos os casos. Numa palavra, deve ser geral. Mas note o querido leitor que esse dado observado faz parte da realidade. Portanto, a explicação de uma ciência tão imponente quanto a Física é a observação de determinados dados, não da realidade inteira. Só que essa não é a única coisa interessante a ser constatada. O mesmo dado observado pode ser entendido sob perspectivas diferentes, as quais, como não é difícil de imaginar, não esgotam o dado: há sempre brecha para mais. E menos difícil ainda é imaginar que dados cada vez mais complexos são mais difíceis de explicar. O melhor exemplo disso é o homem. Poderíamos buscar explicações as mais variadas a seu respeito, sem que, com isso, esgotássemos a idéia do que seja o homem, porque ele abrange ao mesmo tempo, como já dizia Max Scheler, todos os diferentes estágios dos seres vivos e todo o mundo espiritual. É um ser muito complexo, e como tal ele pode ser compreendido, naturalmente, através das perspectivas mais diversas possíveis. Então alguém poderia estudar o homem pela perspectiva dos seres vivos, e então estará se apoiando na Biologia, assim como poderia compreendê-lo a partir da perspectiva da alma, cujo problema é da Psicologia. Talvez buscasse também entender o homem segundo a sua relação com Deus, o que é problema da Teologia, ou então a partir das suas relações orgânicas, cujo assunto poderia cair nas malhas da Química. E assim poderíamos prosseguir infinitamente, até porque, no caso do homem, ele concentra em si, de forma admirável, uma tal profusão de elementos que mais parece ser um mundo em miniatura - daí que, não por acaso, os medievais chamassem o homem de "mundo pequeno". Enfim, as perspectivas sobre um determinado assunto são as mais variadas possíveis, ainda mais quando o objeto fornecer uma quantidade enorme de elementos para a análise.

Contudo, há um detalhe importante nessa história toda. Todas essas ciências, embora tenham pretensão de explicação universal, só a terão dentro de seu próprio campo. Cada ciência é um recorte da realidade, pois ela é muito complexa. É por meio de abstrações que a realidade vai se tornando melhor entendida - ou mais racionalmente compreendida. Não podemos esquecer nunca desse detalhe. Direi em outras palavras. Todas as ciências buscam estudar sim a realidade, mas a realidade segundo determinado aspecto. Por ter a realidade aspectos infinitos, ela pode ser encarada sob perspectivas infinitas. É por isso que todas as ciências têm sempre um aspecto frágil, já que, além de não serem a explicação de todas as coisas (isto é, da realidade), esse caráter de abstração faz com que elas tenham qualquer coisa de irreal. Há ainda outra coisa, talvez a mais reveladora. Por terem esse aspecto frágil, elas nunca bastam a si mesmas, necessitando de um suporte que esteja para além delas. A Biologia, por exemplo, estuda os seres vivos, mas as suas explicações são também um ser vivo? A Física lida com as propriedades dos corpos, mas a propriedade em si é também um corpo? Quantas moléculas têm a Biologia e quanto mede a Física? A Biologia não é um ser vivo, assim como a Física não é um corpo, até porque, se fosse de outro modo, estaríamos seriamente encrencados: nos acharíamos na emergência de saber a Física da Física, e a Física da Física da Física, e assim até não mais poder, o que seria extremamente ridículo. Se nenhuma delas é aquilo que procuram estudar, que são a Biologia e a Física? Ora, essa pergunta, "o que é", pertence não a cada uma dessas ciências em particular, mas sim a metafísica. As próprias considerações sobre cada ciência exigem uma explicação que não se encerrea tão-somente em cada ciência. Então, se por um acaso eu não tiver dado uma explicação muito complicada, o leitor poderá concluir que qualquer idéia que tome qualquer ciência em particular como modelo explicativo de tudo e em todas as suas partes será apenas uma arbitrariedade e uma fantasia.

Agora bem, existe alguma ciência que estude a realidade, não em determinado aspecto, mas em seu conjunto, de modo radical? Se em sua forma radical a realidade é o ser, a única ciência que estuda o ser enquanto ser, segundo dizia o antigo Aristóteles, é a metafísica. Daí que, embora a metafísica não seja a explicação da realidade em todos os seus múltiplos aspectos, ela é o entendimento mais excelente a seu respeito, porque toma o ser em seu caráter mais radical. Não é estranho, pois que desde muito tempo seja ela considerada a ciência primeira, e nosso caro Estagirita também já dizia que o seu conhecimento participa do divino, já que Deus o tem em sua plenitude.

De tudo isso que o leitor acompanhou, não é difícil notar o quão esquisito é quando alguém, em nome de determinado campo de saber, exige submissão imediata de todos. Sempre tenho a impressão de que o sujeito que age assim é como alguém que construiu uma jaula tão esplêndida que, abobado com o seu trabalho, se mete lá dentro, joga fora as chaves e exige que o mundo inteiro também seja enjaulado. Semelhantes coisas sempre são ditas em tom grave. Mas não é de espantar, afinal de contas não há criatura no mundo que leve suas idéias extravagantes mais a fundo que o louco.

Wednesday, February 14, 2007

Padre Emílio, pena de morte, e a nossa época maluca

Lendo hoje o Permanência, não tive como deixar de citar aqui as considerações do Pe. Emílio da Silva sobre a pena de morte, em entrevista para A Hora Presente, em maio, 1971. Vejamos um trecho da entrevista:

Padre Emílio acha que nessa matéria "há apenas um ponto de tangência com a ordem moral e que poderia ser assim formulado: Na sua luta contra o crime, sobretudo quando o índice de criminalidade se acha em assustadora elevação, pode o Estado usar de meios os mais enérgicos, inclusive da pena capital, para restaurar a tranqüilidade e a segurança pessoal no seio da sociedade? A resposta tem sido afirmativa na Igreja docente, dos seus primórdios, até o dia de hoje. Ainda mais: o Papa Inocêncio III condenou os hereges albigenses que negavam ao Estado o direito de impor a pena capital aos delinqüentes. Se, pois, esse poder é perfeitamente lícito e aceito pela Igreja em todos os tempos, é ao próprio Estado, exclusivamente, que cabe a incumbência de verificar se é oportuna e conveniente a sua aplicação".

Acha o padre Emílio perfeitamente normal que alguém, em nome próprio, seja contra a pena de morte, "da mesma forma que é normal que alguém não goste da profissão de coveiro, mesmo sabendo que enterrar os mortos é obra de misericórdia". Mas tais opções deixam de ser lícitas, na sua opinião, "quando se passa da estimação pessoal para proferir um juízo moral condenatório sobre esses assuntos. Condenar o instituto da pena capital em nome de princípios cristãos é algo contraditório e absurdo".

O padre Emílio aponta exemplos, de Jesus Cristo -- "que declarou a Pilatos que o poder de infligir a morte de cruz era dado pelo Céu aos governantes" -- a Pio XII, que em seus escritos afirmou mais de 20 vezes "a liceidade da pena capital". É um constante ensinamento -- segundo acrescenta -- de São Paulo, de todos os Santos Padres e Doutores da Igreja, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, dos teólogos, moralistas e filósofos. "Qualquer catecismo explicado ou tratado de moral -- diz o padre Emílio -- responde que são as seguintes as ocasiões nas quais é lícito matar: na guerra justa, por sentença judicial e em legítima defesa".


O pessoal do Permanência publicou esse trecho em razão do assassinato bárbaro daquele menino aqui no Rio. Quando aparecer algum bispo recriminando a pena de morte, seria bom que alguém lhe desse a entrevista do padre Emílio. Por sinal, deveriam ter feito a mesma coisa quando o cardeal Martino pediu para que poupassem a vida do Saddam Hussein, afinal de contas o ditador iraquiano era um monstro. Mas parece que até o papa gostou do que ele disse, o que deduzo pelo velho adágio "quem cala, consente".

Pois bem, é nessas horas que pergunto aqui para meus botões: esses bispos todos e esses cardeais realmente não sabem disso ou simplesmente dão de ombros? Sou eu um gênio tão maravilhoso que traz à luz uma doutrina contida na própria tradição e que nem mesmo um cardeal conhece, ou toda essa gente não está nem aí para isso? Aproveito para relembrar ao leitor aquele episódio ocorrido há alguns anos, onde um padre fez greve de fome por causa de um rio. Agora bem, e quanto a esse menino? Vai aparecer alguém fazendo greve de fome?

Note bem, meu caro leitor, não estou exigindo mortificações por parte de clérigos. Não. O que estou dizendo é que de repente as prioridades deram uma cambalhota e tudo ficou de pernas para o ar. De repente vejo um cardeal se humilhando perante os holofotes implorando pela vida de um ditador sanguinário e um padre fazendo greve de fome por causa de um rio, enquanto os fiéis são atacados dia após dia por gente impiedosa em todos os cantos do mundo. Para piorar tudo, eu, que não sou exemplo para ninguém, de repente me vejo obrigado, sabe-se lá a razão, a fazer esse tipo de comentário. Êta época doida, sô!

Sunday, February 11, 2007

Deus escreve certo por linhas tortas

OBS: Como escrevi com muito sono, embora não quisesse perder o lampejo, talvez haja um monte de coisas erradas. Depois dou um jeito, se a preguiça, minha companheira, me permitir. Até lá estarei dormindo e/ou longe daqui. Adeus.

Hoje farei uma pequena confissão ao amável leitor desse blog. Os meus primeiros interesses sobre Cristianismo surgiram através de ninguém menos que Nietzsche e Marx, bigode e barba, só faltando o cabelo. Sim, é verdade: o filósofo do anticristo e apologeta do materialismo dialético foram por assim dizer os motores da minha aproximação do Cristianismo.

Qual a razão desse fato tão insólito? A resposta não é nenhum pouco insólita, porque o que me levou a conhecer mais de perto o Cristianismo foi uma espécie de instinto básico e benéfico, que é conhecer mais de perto o criticado antes de abraçar a crítica. Não que eu fosse um exímio conhecedor daqueles dois alemães. Justamente o pouco que conhecia de cada um deles fez com que eu tivesse muita cautela antes de sair repetindo o que eles diziam a respeito de algo que eu não sabia direito. Por outro lado, não que na época eu imaginasse que eles estivessem mentindo ou, na mais inocente das hipóteses, só confusos, porque eu só queria ter uma opinião melhor a fim de poder falar mal com mais propriedade. E aqui vale um adendo: tal como houve a respeito do Cristianismo, minha frônesis me fez ir direto a Platão, também por causa de Nietzsche, muito embora naquela época eu já estivesse tendo uns primeiros contatos com Aristóteles por motivos que agora não vêm ao caso, os quais já começavam a ser igualmente benéficos.

Não sei se o leitor já teve a experiência de seguir (ou perseguir) as palavras de Platão ou da religião cristã. Se já passou por algo semelhante, é muitíssimo provável que de repente se veja num mundo completamente novo e curioso. É incrível a sensação de elevação que algumas leituras de Platão ou do Cristianismo nos dão. Para dizer bem a verdade, é como se de repente fôssemos compelidos a realizar um grande esforço para atingir pontos cada vez mais altos de uma montanha, de onde pudéssemos olhar através de uma perspectiva mais elevada as coisas que se movem nos planos mais inferiores. De repente surgem problemas que nunca nos déramos conta, ou alguns antigos problemões viram apenas distração de criança. E vamos seguindo sempre adiante, como que guiados por mão segura, rumo a um destino que por enquanto é ainda nebuloso. Nesse sentido, é de espanto em espanto que vamos avançando.

Quando tomei contato com o Cristianismo, uma das primeiras coisas que notei é que tudo o que sabia a seu respeito estava na verdade de pernas para o ar. Pior que não saber nada, eu achava que sabia alguma coisa, embora tudo o que soubesse não passasse de um amontoado grosseiro de erro atrás de erro. Não sou nenhum grande estudioso de Cristianismo, mas posso assegurar ao querido leitor que essa religião é tão rica e tão versátil que é literalmente impossível esgotar a sua compreensão. E da mesma forma que ela é inesgotável do ponto de vista de seu conhecimento, sua história também é riquíssima. Mas onde se lê riquíssima também se deve ler complicadíssima. Porque não há nada mais difícil que estudar algo assim tão vivo. Além do mais, o Cristianismo é das coisas mais problemáticas do mundo porque ele abarca todos os problemas mais radicais da nossa vida - note bem, leitor, tanto da nossa vida no sentido da comunidade de todos os homens (vivos e mortos) como no sentido de cada vida em particular.

Não sei bem se o sentimento de espanto em relação ao Cristianismo e a Platão surgiu em mim por causa do ensino distante que tive de ambos. Em todo o caso, aquela frônesis de repente me colocou diante de duas coisas maravilhosas. Não tenho como agradecer a ela. Mas há outro ponto que faço questão de salientar. O exemplo da minha relação com o Cristianismo e com Platão foi me fazendo compreender que eu não tinha a menor idéia do que dizia e menos ainda do que pensava a respeito de muitíssimas outras coisas. Apenas quando nos deparamos com algo verdadeiramente colossal é que sentimos a nossa pequenez. Pois bem, tanto um quanto o outro equivalem a umas dez pirâmides. Só é possivel sentir-se superior a um e outro mediante ua falsificação tão grosseira e tão radical que o resultado último é, sem a menor sombra de dúvidas, a destruição da nossa inteligência.

É uma sensação curiosa quando de repente você sente que as bases aparentemente tão firmes onde você colocava seus pés com confiança na verdade não passavam de palha, e que você só não afundava de vez no poço porque sua cabeça era tão vazia que o ar ali dentro te fazia flutuar. Penso até que, dependendo do grau de desencanto que você tiver com esse falseamento dos dados mais radicais, você pode muito bem afundar de vez. Embora não sejam exatamente nesse sentido, aqueles dizeres de J. Ortega y Gasset, segundo o qual tínhamos de ser tão profundos que tocássemos o fundo do mar, mas tão vivos que voltássemos para a superfície com a mais valiosa pérola, talvez forneçam uma bela imagem do que estou tentando barrocamente dizer.

Posso dizer que de uma forma ou de outra essa sensação imensa de ignorância me salvou de umas poucas e boas. Sim, porque é uma sensação proveniente de um fato real: minha ignorância é enorme. Agora bem, essa incapacidade para lidar com as questões mais agudas poderia muito bem ter sido aliviada pela falsa consciência de superioridade trazida pelos argumentos daqueles dois alemães, assim como de muitas outras pessoas. Poderia muito bem estar aqui comentando sobre a crítica de Kant à metafísica ou ao argumento ontológico. Isto e aquilo têm qualquer coisa de medonhos, e Kant de salvador. Pois bem, que sei eu de metafísica e de argumento ontológico? Como posso saber se Kant está certo se eu não souber de que maneira o melhor metafísico ou expositor do argumento ontológico defenderiam suas teses? Esgotei já o conhecimento da discussão do assunto para poder tomar partido? Ou então eu poderia fazer uma pergunta que de certa forma é ao mesmo tempo lateral e principal: esse assunto, qual relevância ele possui em minha vida? Digo tudo isso porque, a bem da verdade, todos nós temos a péssima mania de começar tudo pela crítica, hábito esse característico de nossa mentalidade moderna, desconfiada de tudo, exceto de si mesma. E quanto mais aparentemente grandioso for o objeto da crítica, quanto mais ele parecer já ter cabelos brancos, como é o caso da metafísica ou do argumento dito ontológico, mais a crítica parecerá essencial e básica. Essa falsa consciência adquirida pela crítica irresponsável é um dos maiores males que fazemos conosco.

(Mais um texto que no dia de são nunca continuará...)

Friday, January 19, 2007

Todos os homens são mendigos da mais fina nobreza

Embora eu esteja com sono, o último texto do Lord Ass sobre a monarquia me inspirou a escrever uma coisinha aqui no post de número 200 do blog.

Bem, vamos lá. Não tenho nenhuma opinião sobre monarquia, mas tenho sobre a mania que um monte de gente tem de buscar antepassados gloriosos. Acho isso de uma bobice fenomenal e um tiro no pé, porque, em primeiro lugar, virtude não é uma coisa transmitida por inércia, e, em segundo lugar, o fato de você ter um antepassado ilustre pode muito bem indicar que você é a decadência total desse mesmo passado glorioso, mais ou menos como se você fosse uma espécie de ruína, como os escombros que hoje podemos ver com alguma melancolia da outrora majestosa Babilônia ou da antiga Roma, capital do mundo. Além disso, na sua história provavelmente há algum tipo de contraparte dessa nobreza, se é que você mesmo não é essa contraparte. Pode haver uma série de indivíduos completamente irresponsáveis, bandidos e idiotas na árvore genealógica de qualquer um. Por que fazer abstração disso? Mas sempre é mais bonito imaginar que descendemos de um nobre... Ora, muito mais sábios eram os antigos nesse ponto, já que ligavam sua história diretamente a algum deus: esta linhagem teve origem em Asclépio, aquela em Vênus, aqueloutra em Hércules. E isso quando não resolviam tirar da cartola a idéia original de serem eles mesmos um deus, conforme imaginou o pobre e meio tantã Empédocles. Agora bem, nossa perspectiva é cristã, portanto não admite nenhuma idéia a respeito das origens exceto essa: se por um lado todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus Onipotente e Criador do céu e da terra, por outro lado somos os degradados filhos de Eva, isto é, pessoas amputadas da glória que em princípio deveríamos possuir. Vindos do pó, adquirindo o pão pelo suor de nosso rosto, retornaremos ao pó na esperança que o Pai diga: "Eu vos conheço". O contrário é a perdição. Eis uma das perspectivas que temos e que os antigos nem sonhavam.

Digo sem o menor pejo que semelhante idéia é uma das coisas mais elegantes, mais belas, mais sábias que alguém já teve. O sujeito que a bolou foi tão feliz em concebê-la que muito propriamente foi considerado como que inspirado por algo divino. E foi, de fato. Se do ponto de vista natural podemos dizer que a história do homem começa quando ele mendigava pelo mundo, por outro lado há o dado sobrenatural nesse mesmo homem, o qual nos ajuda a entender como é possível que esse mendigo, esse ser aparentemente tão desprovido de atributos naturais, possa elevar-se acima de tudo que existe no mundo. É como num conto de fadas, onde um príncipe, por motivos de contingência, foi obrigado a se tornar um pedinte ou um escravo, mas, graças a seus esforços e ao auxílio de não sei qual criatura bondosa, vai aos poucos largando a sua condição degradante para retornar à antiga posição que lhe é por direito, e agora por mérito. Esse conto de fadas é a verdadeira imagem da nobreza.

Bem, algo me diz que o texto ficou perneta, mas que pule num pé só. Espero que um dia a inspiração retorne para dar uma perna de pau ao texto. Bom dia.

Thursday, January 11, 2007

MST e índios bravos, tudo a ver

Em seus Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil, José Bonifácio, listando as grandes dificuldades para os "cathequizar, e aldear", diz certas coisas que poderiam muito bem ser empregadas a respeito do MST, mutatis mutandis:

[Algumas das grandes dificuldades para a catequização e aldeamento dos índios bravos no Brasil] provém 1° de serem os Indios Povos vagabundos, e dados a continuas guerras, e roubos: 2° de não terem freio algum religioso, e civil, que cohiba, e dirija suas paixões: donde nasce ser-lhes insupportavel sujeitarem-se a Leis, e costumes regulares: 3° entregues naturalmente á preguiça fogem dos trabalhos aturados, e diarios de cavar, plantar e mondar as sementeiras, que pelo nimio viço da terra se cobrem logo de matto, e de hervas ruins: 4° porque temem largando sua vida conhecida, e habitual de Caçadores, soffrer fomes, faltando-lhes alimento á sua gula desregrada: 5° para com as Nações inimigas recresce novo embaraço, e vem a ser o temor que tem que depois de aldeados vinguemos a nosso sabor as atrocidades contra nós commettidas: ou porque não tendo provado o devido castigo de seus attentados, desprezam-nos, confiados na sua presumida valentia: e achando ser lhes mais util roubar-nos, que servir-nos: 6° porque os mais valentes e poderosos d'entre elles temem perder a occasião de cobrar entre os seus naturaes o nome de guerreiro, que muito prezam, esperando ficar seguros das nossas armas no meio de suas Mattas e escondrijos (...)

Sunday, January 07, 2007

Alguns avisos sobre a vida boa

Vou aproveitar esse post e apresentar ao leitor uma idéia que deu "olá" para minha cachola enquanto eu estava preparando misto-quente e Nescau (perdão, Nescau genérico). Aliás, por algum estranho motivo as idéias geralmente surgem quando a última coisa que faço no momento é ir atrás delas: na hora de dormir, ou quando acordo, ou quando vou tomar banho, ou quando como, ou quando minha mãe vem contar a piada que ouviu no rádio (como no dia em que ela contou uma piada e aí de repente entendi o que aquele Aristóteles quis dizer com as quatro causas). Freqüentemente na hora em que estou estudando a idéia não vem nunca, mas é só olhar para o céu e de repente pimba!, lá vem a idéia. Ela gosta de fazer surpresa. Por essas e outras que sempre agradeço, embora talvez na hora possa não parecer, a quem enviou a idéia, afinal de contas é que nem ganhar presente sem o menor motivo.


Após a digressão, contarei logo a idéia, mas já me vejo na iminência de faz outro pequeno desvio, porque agora ela não me parece tão legal quanto antes. Parece agora até meio boboca, mas enfim, vamos lá. O que eu queria dizer apesar de toda essa enrolação é apenas o seguinte: se por ventura o amável leitor se ver de repente em meio a uma discussão onde passem zunindo que nem flecha ou bala perdida os Nietzsches, os Foucaults, os Deleuzes ou os Montaignes da vida, jogue-se no chão e saia do recinto o mais corrido possível. Depois de passar na igreja para tirar qualquer resquício de encosto, em casa tome um bom banho para refrescar a cuca e em seguida vá direto à leitura do primeiro Chesterton que encontrar, ou simplesmente dê boa noite para seus pais e amigos, beba uma coca, tome um sorvete e veja como é bom conversar com gente normal.

Digo isso porque a influência daquela trupe (só não dou outros nomes porque senão aí vira carnaval), se você levá-la realmente a sério, pode acabar te fazendo mal. No final das contas, você talvez não conseguirá nem mesmo dar bom dia para ninguém exceto aos cavalos, e ainda por cima em tom sentimental, trágico ou simplesmente babão. Conheço inclusive alguém que levava a ciência tão a sério que, num belo dia, não conseguiu mais entender a razão de uma pessoa dar bom dia a outra na rua, nem o motivo de alguém ficar olhando perdidamente a paissagem. Achava que todo mundo era doido, menos ele, é claro. Infelizmente ele não havia cogitado a hipótese de estar padecendo da falta de senso poético. E nem poderia, já que se deixou levar por uns caminhos tortos. Mais uma vez parecia se repetir a cruel saga do tantã: levava tudo tão a sério que no final das contas virou a piada trágica de si mesmo.

Às vezes quem lê por ler algum dos membros da trupe não atina direito com o problema. É o caso do sujeito de boa vontade. O ruim disso é que se você realmente tiver boa vontade de encarar aquela trupe, vai ter uma hora em que você não atinará mais com o problema porque você se tornou parte do problema. Só através de um esforço quase miraculoso conseguirá sair disso ileso. Como diria um professor meu, parece pegadinha mas na verdade é mesmo.

Enfim, está dado meu conselho. Ao menor sinal da trupe, fuja como se tivesse visto o filhote de cruz-credo, e vá procurar um livro realmente útil ou uma companhia minimamente sensata.

***

Agora o avesso do post.

Dizem que se você souber o nome do demônio você poderá controlá-lo e vencê-lo. Pois bem, da mesma forma que o vírus pode servir para combater o vírus mediante a vacina, a trupe pode servir como anticorpo contra si mesma mediante a sabedoria autêntica. Ainda aproveitando a analogia medicinal, eu diria que a trupe, se bastante diluída pelo contato com a filosofia autêntica - ou nem isso, porque o contato com uma vida sadia já basta -, pode mesmo fazer bem. Assim, por razões profiláticas, vale a pena conhecer a trupe para evitar males maiores.

O pressuposto disso é que você esteja mais ou menos inteirado do que é a sabedoria autêntica ou vida sadia. Ora, da vida sadia basta o contato com gente minimamente normal (não subestime jamais isso). Da sabedoria autêntica a coisa é um pouco mais complicada, mas de qualquer forma não é um tormento pelo simples fato de ela também servir como aprimoramento da própria vida de quem realmente a leva a sério. Escute o que Platão tem a dizer e em troca você nunca mais terá vontade de explodir o mundo ou achar que poderia explodi-lo. Ouça atentamente Aristóteles e aquele cinismo em demasia que você por um acaso abriga no peito vai se tornar um verdadeiro bom humor. Preste atenção em São Tomás de Aquino e você perceberá que o mundo pode ser mais legal do que parece, simplesmente porque tudo fará sentido a partir de algo aparentemente obscuro. Leia devagar Ortega y Gasset e você poderá mergulhar na profundidade quase enlouquecedora do mundo, mas conseguirá retornar à superfície são e salvo com uma valiosa pérola.

Todos esses homens podem, de um jeito ou de outro, apresentar algum tipo de escapatória da loucura aparente do mundo. Nenhum deles te aprisionará em loucuras forjadas pela mente deles mesmos. Porque mais do que a loucura do mundo, a loucura dos sábios é a mais tenebrosa. Há em comum entre eles qualquer tipo de idéia de salvação. Na medida em que vão compreendendo a realidade, idéias fantasmagóricas do mundo vão desvanecendo.

Se você não estiver minimamente inteirado de nada disso, melhor nem se meter com aquela trupe. Vai querer cutucar onça com vara curta para quê?

***

Se o leitor for um sujeito curioso, talvez já tenha notado que as destruições da família e do exemplo do homem superior foram acompanhadas pelos ataques kamikazes à inteligência. Numa palavra, a vida sadia e a sabedoria autêntica foram golpeadas juntas e sem dó. Não poderia ser de outro modo.

Levando-se em conta as circunstâncias, é mais do que natural que a impostura, em todos os sentidos e níveis, ganhe terrenos. A falta de modos vai desde as relações entre as pessoas até a relação com o conhecimento. Quem não consegue agir minimamente bem com o outro não pode cogitar nada a respeito de Deus, da beleza, da alma etc. É incrível o número de enxeridos que ignoram pomposamente essas constatações mais básicas e insistem em opinar a respeito do que só deveriam em última hipótese ou simplesmente não deveriam.

Saturday, December 30, 2006

Cardeal Renato Martino, com pena de Saddam, pede clemência pelo ditador

OBS: Talvez eu mude alguma coisa nesse texto. Não o revisei. Não que eu costume revisar o que escrevo. Mas é que este foi escrito meio às pressas e com ira.

Geralmente guardo só para mim certas discordâncias quanto a opiniões do Vaticano sobre política atual, mas agora não consegui. Porque achei o fim da picada este cardeal pedir clemência para o Saddam.

Mas que palhaçada é essa? Se tem que pedir clemência, que seja a Jesus Cristo! Ele sim pode perdoá-lo, porque no nível da justiça humana não há a menor possibilidade, em minha opinião, de perdoar um homem como esse. Quer dizer, se ele fizesse uma maldade comigo, talvez eu pudesse até perdoá-lo. Cada pessoa que já foi torturada por Saddam também poderia vir a perdoá-lo, como queira. Mas seria no mínimo uma bravata se eu o perdoasse por ter feito um mal a outra pessoa. Pelo menos é assim que entendo o ensinamento de dar a outra face. Posso dar a minha outra face, não a do outro. Porque senão a única justiça que haveria seria a do diabo. E num caso como o do Saddam, a única pena justa é sem dúvida nenhuma a pena de morte. Não há nenhuma outra pena equivalente às brutalidades que ele cometeu. Que ele seja entregue à justiça divina, porque do ponto de vista humano não há mais nada a fazer por ele.

Estou de saco cheio de um tipo de conversa fiada que chamo de "embora". É sempre assim. Quando alguém quer ser muito bondoso, até mais da conta, sempre começa com um "embora eu saiba que fulano matou várias pessoas, você há de convir que..." Outro dia mesmo eu estava conversando com alguém que veio com esse papo: "Olha, embora eu seja contra genocídio, você tem que entender que Stálin não tinha muitas alternativas". Que maravilha! O sujeito é tão racional e bondoso que chega a ver algo de justificável num genocídio! Conforme li num blog dia desses, o séc. XX esteve repleto de pessoas bondosas assim. Tão bondosas que não sabiam nem que estavam na prática agindo mal.

Sujeitos assim querem sempre posar como mocinhos que sabem reconhecer os dois lados da questão. São os justos. Para falar a verdade, se dependêssemos do senso de justiça do Vaticano, assim como do Brasil, China e Rússia, ainda haveria gente sendo morta ou tendo membros amputados ou quebrados no Iraque, conforme você poderá ver neste vídeo. Por causa desse maravilhoso senso de justiça, Cuba está como está, assim com a China. Enfim, na prática o "embora" é um aval a sofrimentos e humilhações sem fim. (Não duvido nada que o "embora" seria usado pelo cardeal Renato Martino a respeito de uma ação urgente e vigorosa no Sudão.)

Também estou de saco cheio desse papo sobre como é ruim os EUA serem a polícia do mundo. Se um país tem a capacidade de parar de uma vez por todas as atrocidades cometidas por outro, por que então não faria nada? Se eu tenho como impedir que meu vizinho espanque seu filho, por que eu não faria nada? Pelo contrário: seria imoral se eu desse qualquer tipo de desculpa para não agir, da mesma forma que seria imoral um país se recusar a ajudar a população de um outro que acabou se tornando refém de seu próprio governo.

Esse problema é discutido melhor pelo Mons. Dr. Emílio Silva de Castro em sua Doutrina Católica sobre as Relações entre Igreja e Estado. Conforme ele mesmo escreveu,

Não é possível, por exemplo, permitir que um povo seja esmagado, exterminado, v.gr. em nossos dias na Ruanda ou Bósnia e Cuba, quando há meios de protegê-lo. Foi contra os propósitos e contra alguns excessos intervencionistas da Santa Aliança que surgiu em certos meios o princípio da não-intervenção. Sem embargo, este princípio é tão ineficaz e às vezes tão desumano que, na realidade, nunca foi estritamente observado.

Em um caso de guerra, esta começa com dois países, no dia seguinte, já são quatro, e logo são inúmeros, como aconteceu na última guerra. E quando um país, como sucede muitas vezes, não quer intervir, é forçado pelos outros. O poderoso sempre intervêm onde quer, e se não é pelas armas, é pela guerra fria, pela propaganda, pelo suborno.

Segue-se do dito que o princípio da não-intervenção se bem seja falso quando se toma na universalidade de sua enunciação, em vários casos é aceitável, e seus transgressores são réus de grave injustiça. assim, quando um país se comporta normalmente com outros países, sem estar lesado nenhum de seus direitos e no regime interno respeita as vidas e direitos naturais dos cidadãos, seria inteiramente contra a justiça a intervenção naquele país com o fim, por exemplo, de mudar seu regime ou usurpar-lhe a soberania. Assim imaginemos que os Estados interviessem no Panamá ou em outro Estado pequeno qualquer, para obrigá-lo a mudar de regime, sem causa alguma justificável, simplesmente porque o atual não é do agrado de Washington; isto constituiria um ato de intervenção imperialista e iníquo, sem justificação possível. Há, porém, muitos outros casos em que a intervenção é obrigada ou, quando menos, legítima, em se tratando da defesa de valores superiores, gravemente ameaçados.

Outro exemplo esclarecerá esta doutrina: todos sabem que existe um direito, protegido pelas leis do Estado, que é a inviolabilidade do lar. Ninguém, sem mandato judicial, pode penetrar no lar alheio. Se, porém, um homem está matando algum de seus familiares, dentro de sua casa, e a vítima gritar pedindo socorro, a intervenção torna-se não só justa, mas indispensável. Este é o caso de um povo no meio do qual estoura uma revolução cruenta. É natural que outros países intervenham se têm meios eficazes para controlar a revolta. No caso de Cuba, para citar um exemplo, nós justificaríamos a intervenção eficaz armada contra o governo revolucionário com o fim de salvar os direitos dos cidadãos e as vidas de muitos inocentes, que morreram em mãos do tirano. Não obsta, no caso, o princípio de autodeterminação, que, bem entendido, com certas restrições é perfeitamente legítimo. Não obsta, digo, porque o verdadeiro sentido da autodeterminação refere-se aos povos, não aos que por qualquer circunstância detêm o poder. Em Cuba não existe a autodeterminação do povo cubano, privado de voz e de representação. Só existem as autodeterminações do ditador que subjuga a nação e asfixia sua voz.

Em geral, a intervenção será sempre legítima nos dois casos seguintes, para a defesa dos direitos próprios do Estado interveniente e para tutela das vidas, ou dos direitos naturais dos súditos do Estado intervindo, justificada pela solidariedade humana universal. No Syllabus* foi reprovado o princípio da não-intervenção por lesar o mais geral e válido princípio cristão da caridade, que liga a todas as pessoas físicas ou morais, iguais ou desiguais. O que antecede faz referência particularmente aos casos de sociedades iguais, como o são duas nações, ambas sociedades civis e de fins temporais.


Pior de tudo é que não é de hoje que o Vaticano, sob pretextos de justiça, mete os pés pelas mãos a respeito da ditadura iraquiana. Em 1999, o arcebispo Jean-Louis Tauran disse que era preciso voltar a integrar o Iraque na comunidade internacional porque "isolar um país nunca é bom". Ele tinha essa mesma opinião a respeito de Cuba e Líbia. Nessa tentativa de se aproximar do Iraque, o Vaticano tinha a companhia de Rússia e França (e, quem sabe, da China). Já em 1998, a respeito de um bombardeio dos EUA no Iraque, L'Osservatore saiu-se com essa: ofensa contra a população iraquiana e contra a humanidade. O próprio papa João Paulo II disse em 2004 a Bush: É desejo claro de todos que essa situação seja normalizada o mais depressa possível, com a participação ativa da comunidade internacional, em particular das Nações Unidas, para restituir rapidamente a soberania do Iraque (grifos meus). Ora, o que a comunidade internacional, o Vaticano, e em particular as Nações Unidas mais fizeram foi retardar ao máximo a guerra contra um regime brutal e, uma vez ela havendo, evitaram que a situação fosse normalizada o mais depressa possível, seja simplesmente não oferecendo auxílio de peso, seja sabotando os esforços do governo americano em demonstrar a justeza do conflito.

Que as nações em geral metam os pés pelas mãos, é já de se esperar. Que o Vaticano cometa os mesmos equívocos, isso não se pode tolerar. Quando as coisas chegam a esse ponto, é difícil ter esperança de alguma coisa. Só nos resta rezar.

PS: Além do vídeo já linkado acima, assista também a este e este. Mas antes de assisti-los, recomendo prudência, pois as imagens são muito fortes. São todos muito brutais, mas servem como uma espécie de ensinamento, tal como as imagens de campos de concentração nazistas. Depois de vê-los, sugiro também que você os compare com todas aquelas fotos e vídeos de soldados americanos colocando calcinhas na cabeça de iraquianos ou despindo-os e medite sobre a indignação mundial contra os EUA a esse respeito, ao mesmo tempo em que esses mesmos indignados não disseram nenhuma palavra a respeito daqueles vídeos, incluindo o cardeal Renato Martino.

*O Syllabus é aquela famosa encíclica que reúne uma série de proposições consideradas errôneas do ponto de vista doutrinário. O texto faz referência a proposição 62: "É correto proclamar e observar o princípio que chamamos de não-intervenção." Ora, intervenção geralmente significa guerra. Portanto, é um equívoco e uma imoralidade não levar as armas a um país tirânico e brutal em nenhuma hipótese. O Vaticano, na ânsia de promover um pacificismo a todo custo, parece que esqueceu o que ele mesmo havia nos ensinado.

Monday, December 25, 2006

Monday, December 18, 2006

Rascunho de post sobre...

Como não queria deixar a idéia escapulir, vai ela aqui toda mal-acabada e primitiva, pesando ainda por cima o acúmulo de noites mal-dormidas.

Há a melancolia, e ela basta. Se pensarmos a sério em todas as coisas, haverá um misto de desgosto e perseverança. Haverá a necessidade de jogarmos às favas um pouco da nossa pretensa importância e haverá a necessidade de nos mantermos de algum jeito firmes apesar de tudo. Não é uma questão de nos mantermos impávidos como colossos, negando tudo aquilo que provém das circunstâncias. Esta é uma idéia muito desagradável e presunçosa, e basta pensarmos na sorte do outrora todo-poderoso Colosso de Rodes ou da outrora memorável Torre de Babel para averiguarmos o quão insuficiente é semelhante coisa. O problema de fundo é, na verdade, aceitar toda uma série de restrições sobre ti mesmo e sobre o mundo, sem deixar de dar prosseguimento a tua vida até quando der. Não um prosseguimento penoso, mas com a bela sensação de pela primeira vez ter percebido como realmente tudo é, como tudo tem de ser e como tudo está em seu devido lugar. Naturalmente, portanto, tudo neste mundo parecerá inacreditavelmente belo e importante, quase necessário, expressão de alguma coisa muito verdadeira, embora talvez obscura para nós.

Tudo isso vem às custas de certos sacrifícios. Você aprende, mas aprende quase violentamente. De certa maneira, talvez isso seja um aspecto bem particular do mal, não sei. Porque embora o mundo tenha qualquer coisa de verdadeiro, ele é insuficiente. Repito: não sei.

Então tudo se passa mais ou menos como Chesterton um dia escreveu sobre a coragem e a vida. Para sermos corajosos e defendermos valentemente a vida, há de se ter um certo desprezo pela vida. Claro, ele quer dizer que ninguém arrisca a própria vida para salvar a de outro(s) se tiver um apego desmesurado a si mesmo. O que, também é claro, não implica em ser completamente temerário. Acho que em relação a tudo podemos dizer o mesmo. Porque também daremos mais atenção para a importância das coisas à medida em que delas nos afastarmos um pouco. Se você percebe a tua inferioridade, saberá bem teus limites, e assim poderá ser melhor.

Bom, ficou este post maior do que eu imaginava. Embora ainda pequeno, termino por aqui, deixando-o assim todo mal-cuidado e exposto às contradições. Inté.

Friday, December 08, 2006

À Cris

Cris,

Tentei escrever algo ontem e hoje, mas nada conseguia, até que pensei no seguinte. Os anjos levaram a bebezinha para junto dos pequenos santos inocentes, onde todos estão reunidos para a maior glória do Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque estar bem aqui é passageiro e quase estranho, já que a gente não casa bem com este mundo. O que perdemos causa dor, mas por que haveríamos de ter algo? Se então temos algo, isso é já por si inexplicável e maravilhoso, e só há razão para agradecermos, mesmo que seja por pouco tempo. E se a bebezinha não pode estar mais aqui, está, com toda a sua inocência, com todos os anjinhos do Paraíso e amparada por Jesus Cristo. E lá do alto acho que todos estão unidos para te ajudar, e quanto mais você pedir auxílio, mais te darão.

Por coincidência, escrevo no dia da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem. Como você, ela foi mãe, e teve também de suportar as dores da perda do filho amado. Mas eu diria que da mesma forma que a Virgem pode suportar a perda do filho amado e reencontrar a alegria por causa de sua fé e dos desejos profundos de Deus, tua fé te servirá para suportar com firmeza a perda da pequenininha, porque nada existe sem a vontade de Deus.

Há tempo de tristeza e tempo de alegria. Se a filhinha não está mais entre nós, o que te causa tristeza, certamente ela está já nos braços de Deus, o que é motivo de alegria. Se não é possível você ensiná-la tudo de lindo que há no mundo, ela por outro lado está cercada da verdadeira beleza que está no Céu. Se não correrá mais aqui no parquinho, correrá no Paraíso junto a todos os outros pequenos inocentes. E eu diria até mais. Porque se a fé não for vã e houver a ressurreição, a bebezinha estará então a tua espera quando Nosso Senhor enfim retornar.

Perdão por não ter me expressado de um jeito mais adequado, porque foi menos por vontade e mais por falta de capacidade.

Que Jesus Cristo proteja a todos nós.

Um beijo,

Cassiano

Friday, December 01, 2006

Ainda pau que dá em doido: o relativismo cultural

Outro dia eu estava acompanhando uma discussão em uma comunidade do Orkut. A certa altura, alguém disse que não era correto criticar a cultura dos outros etc. Não contente, o camarada ainda disse que era algo nazista tal procedimento.

Vamos ignorar a última frase, porque é cretina demais. Em relação ao resto, supondo que a afirmação feita pelo camarada seja ela mesma alicerçada no plano cultural, provavelmente ele nunca se perguntou sobre o motivo de ele mesmo poder criticar quem critica a cultura dos outros. Além disso, uma coisa é relativizar suas próprias referências para melhor compreender outra cultura e talvez a sua própria. Outra é concluir daí que não existe nenhuma diferença de valor entre quaisquer sociedades. Isso é errado e maluquice pura.

Esse relativismo absoluto é, claro, uma contradição danada. Pode ser também muito nefasto. Porque, a rigor, quem defende uma geringonça dessas tem de estar preparado para aceitar qualquer porcaria que exista no mundo sob a desculpa esfarrapada de ser uma manifestação cultural própria de tal sociedade e que, portanto, o que é correto para ela não é para nós e vice-versa. Assim, se os nazistas teimavam em envenenar judeus e depois incinerar seus corpos, não podemos dizer um "ai", pois aquilo é bom, belo e verdadeiro para eles. Criminosos seríamos nós, que chamamos aquilo de barbárie. O mesmo poderia ser dito quanto a nossa própria sociedade, porque ela é feita dos mais diversos elementos. Um bandido pode virar mocinho e um mocinho bandido graças à mágica do relativismo antropológico, como aliás costumeiramente acontece. Não é verdade que, ao aparecer um bandidão na tv, também aparece algum intelectualerda (termo criado por Corção) choramingando e dizendo que não podemos criticá-lo porque ele é produto - notem que o termo subentende a falta de liberdade e controle do sujeito de sua própria vida - de circunstâncias ruins, as quais relativizam os atos do sujeito? Por outro lado, se a polícia é dura, não reclamam dizendo que ela tem de ser mais civilizada, pois órgão estatal? Em suma, segundo esse curioso modo de pensar, o policial tem de ser censurado porque ele vive em circunstâncias "boas", enquanto o bandidão não pode ser porque vive em circunstâncias "más". A este, os lírios; àquele, a forca. Da minha parte, milhares de bananas aos intelectualerdas.

Curiosamente, nunca vi ninguém usar esse argumento para defender os maiores erros cometidos por cristãos ao longo da história. Nesse caso, vale o mais férreo absolutismo e anacronismo históricos. Quando o asteca abria o peito de um infeliz ainda vivo para retirar o coração pulsante, isso era apenas uma inócua manifestação cultural, quiçá meritória à sua maneira. Mas se o braço secular, instigado pelo Santo Ofício, transformava uma bruxa em torresmo, então isso é a demonstração arquievidente da intolerância e da maldade tradicionais da Igreja e da religião. A bem da verdade, eu até já vi um ou outro sujeito relativizar as práticas do Santo Ofício, geralmente com muita cautela. De qualquer modo, sempre em quantidade incrivelmente reduzida se formos comparar com aqueles que defendem, em nome do tal "relativismo antropológico", as práticas mais estapafúrdias praticadas por povos desapiedados.

Para finalizar, eu diria que quem defende uma idéia dessas faz pouco caso do que é o homem. Não sei se seria um exagero dizer o que direi, mas acho que o homem tem a capacidade de ser uma incrível variação de uma mesma nota. Embora houve, haja e haverá diversos tipos de ser homem, todos provavelmente têm um eixo comum. E é a partir desse eixo que possivelmente podemos dizer o que é certo e o que é errado. Quando a coisa é torta ou se desvia demais do que deveria ser, nesse caso poderíamos ser contrários a tal modo deficiente e anormal de existência.

Saturday, November 18, 2006

Pau que dá em doido...

Questão: se o sujeito não consegue nem mesmo controlar o tamanho do próprio nariz, a cor da pele ou a espinha do rosto, como é que ele vai querer se meter a besta para "reformar integralmente o ser humano"? Novo homem? Se Marx, Hitler e assemelhados tivessem pensado seriamente no peculiar problema de transformar um homem por exemplo em uma galinha, talvez teriam um pouco mais de cuidado com o que escreveram ou fizeram. De qualquer modo, a quem deseja transformar seriamente a natureza humana, se é que esse trem existe mesmo, sugiro em nome da caridade o Instituto Philippe Pinel como moradia sem prazo de retorno.

***

Nota sobre Heráclito: é aquele que, levando-se em conta aquela história de nunca cruzarmos duas vezes o mesmo rio, devia ser chifrado eternamente, já que sua mulher toda a noite se deitava com um homem diferente. É provável que ele também acreditasse literalmente em troca-troca, porque se tudo muda, se de dia ele era Heráclito, de noite era Heráclita.

***

Só começarei a levar em consideração a reencarnação, o racismo e a ideologia no dia em que seus apóstolos humildemente disserem que são de uma raça, espírito ou ideologia inferiores. Alguém já ouviu falar em um entusiástico defensor de uma dessas coisas afirmando o contrário? Bem diz aquele que afirma que a raiz do pecado é o amor-próprio.

***

A solução para a violência atualmente em voga pode ser resumida nos seguintes pontos: esporte, riqueza e livros. Dito de outro modo, se uma pessoa jogar vôlei, ter dinheiro ou ler um livro, ela será incapaz de cometer crimes. Assim, não é apropriado que a polícia combata ferozmente traficantes pesadamente armados e entricheirados, mas sim o florescimento de quadras de esportes, escolas e bolsas-família, cheques-cidadão etc. Se há relação direta mesmo entre fim da violência e os pontos supracitados, nada mais lógico que em meio a um tiroteio enviarmos o Ronaldinho Gaúcho a fim de coibi-lo, citarmos Malarmé assim que um trombadinha nos ameaçar ou deixarmos moedas de ouro em cada barraco como se fôssemos Papai Noel para que ninguém trafique drogas. E seria lindo imaginar guerras prevenidas ou terminadas pela declamação de um canto homérico ou por uma bicicleta do Pelé.

Já ouvi dizer também que combater o tráfico não é alternativa viável porque sempre haverá o danado do tráfico. Quem pensa assim deve achar que um dia ninguém mais roubará ninguém, nem ninguém será mais estuprado ou espancado. Porque se jamais cessar, então seria igualmente ridículo combater os estupros, os espancamentos e os roubos. Quem diz uma coisa dessas é 2/3 idiota, na melhor das hipóteses.

Wednesday, November 01, 2006

Uma opinião de Goethe sobre a literatura

Vou abrir o mês com Goethe. A passagem a seguir é do livro de Eckermann chamado Conversações com Goethe. A tradução é de Luís Silveira pela editora portuguesa (bela terrinha!) Vega. Aliás, por que geralmente as pessoas só dão bola para literatura inglesa ou americana e deixam de lado a espanhola e alemã? Mas vejamos a interessante passagem:

Quarta-feira,
15 de Outubro de 1825.

Fui encontrar esta tarde com Goethe muito bem disposto e tive a satisfação de ouvir mais uma vez da sua boca opiniões importantes. Falamos do estado da nova literatura da qual Goethe disse as palavras que se seguem:

"Falta de caráter de cada uma das personagens que investigam e escrevem", disse ele, "é a origem de todos os males de nossa literatura hodierna."

"Especialmente na crítica esta falta de caráter é prejudicial, pois espalha falsidades com o nome de verdades ou nos dá uma pobre verdade às custas de coisas grandiosas, que nos fora bem mais grato conhecer completamente.

"Até hoje o mundo acreditava no sentido épico duma Lucrécia, de um Mucius Scaevola e agitava-se e entusiasmava-se por eles. Mas eis que vem agora a crítica histórica e diz que tais personagens nunca viveram, e que não passam de ficções e fábulas criadas pelo alto espírito dos romanos. De que nos serve, porém, uma verdade tão pobre?! Se os romanos foram suficientemente grandes para efabular tais coisas, devemos também ser pelo menos tão grandes que nelas acreditemos.

"Até hoje tinha sido para mim sempre um prazer acreditar num episódio do século XIII, aquele em que o Imperador Frederico II, tendo tido de tratar assuntos com o Papa, deixara a Alemanha do Norte aberta a incursões inimigas; hordas asiáticas penetraram nela e chegaram até a Silésia; mas o Duque de Leignitz derrotara-as completamente. Os asiáticos dirigiram-se depois para a Morávia, mas foram aí batidos pelo Conde de Sternberg. Estes heróis viviam na minha imaginação como os grandes salvadores da Nação Alemã. Mas agora vem a crítica histórica e diz-nos que estes heróis se sacrificaram inutilmente porque o exército asiático retiraria em breve e se afastaria por si próprio. Assim se reduz ao nada um grande episódio patriótico e ficamos desolados por completo."

Depois destas opiniões sobre críticos da História, Goethe falou acerca de investigadores e escritores doutra espécie.

"Nunca teria conhecido a miséria dos homens e sabido como poucos se preocupam com os grandes objetivos", disse ele, "se não tivesse feito a prova com os meus estudos de ciências naturais. Reparei que para a maior parte deles a ciência só importa como modo de vida e que adoram até o erro desde que à custa dele possam viver.

"Com as Belas Letras o caso não é diferente. Também nelas os grandes ideais e o sentido puro do que é verdadeiro e bom e o desejo de expansão destas coisas raras vezes surge. Elogia-se e suporta-se um segundo, porque se quer ser também suportado e elogiado por ele, e a verdadeira grandeza não importa a estes literatos que até gostariam de a extinguir do mundo, justamente para que eles pudessem conseguir a importância que não têm. A massa geral é assim, e os que dela sobressaem não são muito melhores.

"A. W. von Schlegel poderia ter sido muito importante dado o seu gênio e erudição enciclopédica. Mas a sua falta de caráter não permitiu que a nação recebesse a extraordinária influência dele nem que lhe desse a atenção devida.

"Precisamos de um homem como Lessing; donde vem a grandeza deste senão do seu caráter e de sua constância! -- Homens tão inteligentes e tão cultos como ele há em quantidade; mas onde há um caráter desta natureza?

"Há muitos homens inteligentes e bastante sabedores, mas simultaneamente tão cheios de orgulho que gostam de se fazer admirar pelas massas de curta visão como pessoas espirituosas, e não se envergonham nem se temem de nada, nem consideram coisa alguma sagrada.

"Por isso tem muita razão Madame Genlis quando protesta contra as liberdades e gracejos de Voltaire, pois, em boa verdade, por muito cheios de espírito que sejam nenhuma melhoria trouxeram ao mundo e nada sobre tal fundamento se pode construir. Antes, pelo contrário, pode ser bem prejudicial, porque desnorteia os homens e lhes tira o apoio indispensável.

"E para mais -- que conhecimento alcançamos, e que objetivos conseguimos com todos os nossos motejos?!

"O homem não nasceu para resolver os problemas do mundo, mas sim para investigar a que importa o problema e parar logo nos limites do que é compreensível.

"Medir os problemas do Universo não é coisa permitida às suas faculdades e querer trazer ao mundo razão é para as suas possibilidades trabalho em vão. A razão dos homens e a razão de Deus são duas coisas muito diferentes.

"Quando defendemos a liberdade do homem fazemo-lo sob a égide da omnisciência divina, pois visto que Deus sabe o que eu farei, terei de proceder como ele sabe.

"Digo isto só como sinal do pouco que sabemos e de que se não deve tocar nos segredos divinos.

"Devemos também só exprimir pensamentos superiores que tragam bem ao mundo. Os outros devemos conservá-los para nós, e devem iluminar aquilo que fazemos com um modesto raio de Sol, quando se vai esconder no poente."

Friday, October 06, 2006

O que você vai ser quando crescer?

Geralmente, quando somos pequenos, gostam de nos perguntar assim: “O que você vai ser quando crescer?” São tantas as opções que às vezes não damos uma, mas várias respostas.

Minha lembrança mais remota de quando me fizeram esse tipo de pergunta é da época do meu judô. Já faz um belo tempo. Acho que eu tinha por volta de uns sete anos. Foi quando o professor Ary, um desses sujeitos brincalhões que não perdem a oportunidade de uma distração, pediu para que deixássemos os tai otoshis e ippon-seoi-naguês de lado e disséssemos o que queríamos ser quando crescêssemos. Cada criança, sentada que nem japonês no tatame, foi dando a sua resposta, até chegar a minha vez:

- E você, Cassiano, o que vai ser quando crescer?
- Astronauta, pipoqueiro ou motorista de ônibus!

Ele achou uma graça danada das minhas respostas. Eu havia respondido quase no automático, parecido com a vez em que me perguntaram, dia desses, qual era, na minha opinião, a mulher mais bonita:

- E para você, qual é a mulher mais bonita?
- Monica Bellucci, Ava Gardner e Audrey Hepburn!

Parece que gosto de responder uma pergunta com variantes desde pequeno. Não faço muita idéia do que diria se me perguntassem o mesmo quando era pequeno. Mas me arrisco a cogitar uma opção:

- Mocinho, qual é a mulher mais bonita do mundo?
- Mamãe!

Só quando a gente cresce mais um pouco é que começa a entender que mãe, tia, prima, esposa e filha são modalidades de um tipo de ser: a mulher. Mesmo quando estamos mais grandinhos, às vezes esquecemos dessa constatação óbvia e que tem várias conseqüências importantes. Mas naquela época eu era pequeno demais para ser magnetizado pelos encantos do belo sexo. Mamãe era a mulher mais bonita do mundo.

Acho que o professor chegou a fazer algumas perguntas sobre como é que eu ganharia dinheiro com aquelas profissões... ou será que me perguntou como é que eu faria para ser astronauta no Brasil? A memória agora me trai. É certo que considerações de ordem monetária jamais passaram pela minha cabeça quando respondi, como de certa forma não passaram quando coloquei os pés na faculdade de História, o que já faz parte do passado e é outro assunto.

Dizem que quase toda criança um dia já quis ser astronauta. Pelo menos o meu caso confirma. Na verdade, eu ora dizia que queria ser astronauta, ora dizia que queria ser cientista. Antes que o leitor pergunte que tipo de cientista, respondo que eu não fazia a menor idéia. Que eu me lembre, para mim cientista era um sábio que ficava num laboratório fazendo experiências, cercado por um monte de instrumentos, líquidos coloridos e ajudantes, sempre descobrindo alguma coisa nova. Ele adorava (presumia eu) misturar as substâncias mais díspares (e coloridas) possíveis, sempre descobrindo uma terceira a partir das duas anteriores. Nesse sentido, acho que o que eu entendia por cientista era na verdade um alquimista. Corrobora a hipótese o fato de eu vez ou outra misturar o que havia no banheiro para ver o que acontecia. Por exemplo, eu pegava pasta de dente, xampu, misturava com talco e pingava umas gotas de água, esperando surgir bem diante de meus pequeninos olhos algum fenômeno assombroso jamais visto antes. Como estranhamente nada acontecia, eu várias vezes mudava a proporção das substâncias empregadas no experimento, supondo que a causa do erro fosse a dosagem errada. Às vezes menos talco, outras vezes mais, outras tantas uma quantidade diferente de xampu e água... O máximo que constatei foi o surgimento de uma pasta de cor estranha na pia do banheiro e com cheiro e gosto igualmente esquisitos. Sim, é verdade: além de tudo, eu era cobaia dos meus próprios experimentos, como da vez em que tive a ingrata idéia de meter o dedo na tomada para saber o que aconteceria. Infelizmente, com exceção do choque causado durante o teste da tomada, a natureza jamais se manifestou ante as minhas provocações, e acabei abandonando a vocação devido ao tédio e ao orgulho ferido. A ciência jamais terá noção do talento que perdeu por causa de seus caprichos.

Quanto a ser pipoqueiro, era evidente que eu queria é comer pipoca. Jamais levei em consideração questões de ordem econômica a fim de saber como é que raios eu iria ganhar dinheiro consumindo toda a mercadoria. E se eu levasse tais preocupações em consideração, certamente eu seria uma criança deveras anormal. Outra coisa que me levava a cogitar a respeito desse emprego era o intrigante carrinho de pipoca. Ele me parecia meio misterioso. Aquela produção incessante de pipoca me dava o que pensar. Como aquele carrinho produzia sempre pipoca? Por analogia, eu também cogitava com meus botõezinhos acerca da existência de carrinhos de outras comidas. Todas, é claro, gostosas. Quem é que ia querer saber de um carrinho que fabricasse incessantemente fígado ou língua de boi? Eu me perguntava se haveria algum que produzisse pizzas. Como eu nunca encontrava carrinhos desse tipo, mas cansava de ver os de pipoca, me parecia muito correto que o único tipo de comida que podia ser feita por um carrinho era a pipoca, embora as razões desse fato não me estivessem acessíveis. Ora, sem querer me gabar, o leitor talvez tenha percebido que eu aplicava certa metodologia científica nesse caso, embora ela fosse meio capenga, já que eu me lixava para a teoria explicativa sobre a existência dos carrinhos de pipoca em detrimento dos de pizza. Eu só recolhia dados. Se acaso o leitor for pesquisador, talvez possa formular alguma teoria a respeito e explicá-la para as crianças. Me furto a tão trabalhoso exercício porque agora estou preocupado tão-somente em relatar quais eram as minhas vocações mais antigas.

Falei do pipoqueiro e do astronauta/alquimista. Contudo, a profissão que eu gostava mesmo era de motorista de ônibus. Eu achava a coisa mais legal do mundo ficar passeando para lá e para cá de ônibus. Eu disse “passeando”? Porque, na verdade, eu ficava é imitando o motorista. Gostava tanto de andar de ônibus que fazia questão de sentar naquele banco mais perto do motorista só para vê-lo dirigindo. Quando ele girava o volante, eu fazia um movimento semelhante no apoio em frente ao banco. Quando ele abria a porta para os passageiros, eu fingia que apertava um botão. Até o barulho da porta eu imitava, fazendo um TSSSHHHhhh! quando ela abria ou fechava. Os motoristas gostavam de mim. No ponto final eu era o primeiro a entrar. Mas tenho de confessar uma coisa. Que me perdoem os simpáticos motoristas, mas era eu quem dirigia os ônibus. Os motoristas eram só ajudantes que me substituíam quando eu tinha de ir embora. Era um emprego tão bom que eu labutava voluntariamente. Se eu exigisse hoje honorários não pagos, o sistema de transporte público do Rio de Janeiro entraria em colapso.

Eu gostava tanto de ônibus que uma das brincadeiras minhas prediletas era pegar um monte de carrinhos, colar neles o itinerário de todos os ônibus que eu porventura lembrasse e sair brincando pela casa como se ela fosse a cidade inteira. Eu era bastante criterioso. Passava não sei quanto tempo escrevendo quais eram os pontos finais de cada um dos ônibus, colava o itinerário na frente e ao lado dos carrinhos com fita durex, não permitia que os que transitavam em bairros diferentes se encontrassem (por exemplo, o 456 ficava no quarto e o 574 na sala), tentava, na medida do possível, casar as cores dos carrinhos com as das viações (se os passageiros vissem um 401 amarelo, poderiam confundir com o 170)... ah sim, e fazia questão do TSSSHHHhhh! Eu abstraía as ruas a partir do chão de tacos do meu antigo apartamento. E assim eu passava um tempão distraído, sendo uma espécie de secretário dos transportes públicos especializado em tráfego de ônibus.

Confesso ao leitor que até hoje nutro alguma simpatia por esse tipo de transporte, embora não faça mais os TSSSHHHhhh! quando a porta abre e fecha, nem fique ao lado do motorista imitando-o, até porque se eu ainda fizesse tal gênero de coisas, certamente seria considerado uma pessoa excêntrica ou debochada – ou bêbado, maluco, ou ambos. E só para constar, não tenho mais vontade de dirigir ônibus. Também nunca tive muita vontade de aprender a dirigir carro ou moto. Me contento em ir andando sempre que posso de um canto a outro. Dependo sempre de condução, embora o horário do ônibus e o conforto da viagem não dependam nenhum pouco da minha vontade. Logicamente um carro poderia ser vantajoso, mas digamos que ainda não surgiu a necessidade de ter um.

Se a vontade de dirigir um ônibus desapareceu, como desapareceu a vontade de ser pipoqueiro, ainda que eu continue gostando de pipoca, a simpatia pela ciência permaneceu. Mas permaneceu hibernando, por assim dizer. Porque se a minha vocação me levou para um outro rumo, nunca cheguei a desgostar dela. A cada dia que passa mais tenho gostado da ciência. Admito, contudo, que hoje em dia o seu encanto é diferente. Não acho mais uma coisa tão monstruosamente impressionante como achava quando tinha sete anos. Ainda que eu tenha nascido ontem, nesse pouco tempo de vida venho percebendo que sábio e cientista só de vez em quando se encontram. Mais: é meio difícil encontrar um intelectual inteligente. Às vezes encontramos um sujeito inteligente que não é intelectual, outras vezes um intelectual nada inteligente, e chegamos até a encontrar muitos que manifestam a tolice mais rasa, pois mesmo a tolice tem alguma profundidade. Não me pergunte o leitor a razão, mas hoje em dia é corriqueiro observar a burrice trotando onde há intelectuais, principalmente em seu principal celeiro: a universidade. Em todo o caso, já passei dos ingênuos tempos em que acreditava que cientista era sinônimo de sábio e ciência de sabedoria. Sem querer menosprezar a ciência e sem querer dar um testemunho público e ridículo de amor-próprio, eu diria que ela parecia muito grande porque eu era muito pequenininho. Agora que cresci um tantinho, ela não me parece mais tão grandona como antigamente. Justamente por eu crescer um tantinho, passei a ver certas coisas que meu diminuto tamanho não me permitia.

Depois de pensar em ser astronauta-cientista-alquimista, pipoqueiro e motorista de ônibus, o que mais eu gostaria de ser quando crescer? Ah, se eu puxasse pelo fio da memória, é provável que surgissem outras opções sem parar. É como fusca de palhaço: sai gente sem parar. Essas recordações, no entanto, não deixam de ser aparentadas com a senhorita melancolia, porque apresentam uma série de Cassianos postos de lado com o passar do tempo em prol deste aqui que vos escreve, leitor. Onde será que está o Cassiano motorista de ônibus? E o pipoqueiro? E o motorista de ônibus? Para onde foi toda essa gente? Ou será que estão todos aqui, dormindo, só hoje exigindo direito de se expressar, meio sonolentos? Deixemos essas especulações existenciais para outro instante, até porque este Cassiano atual quer fazer outras coisas da vida. E tenha um bom dia.

Tuesday, September 26, 2006

Duendes atacaram meu PC, mas em troca dou piparotes

Sim, é verdade: duendes estão atacando meu PC. Agora mesmo vi um desses infelizes se escondendo atrás da torre, porém quando fui acender a luz já era tarde demais. Parecem o Batman com essa mania de desaparecer de repente. Gente extremamente mal-educada ("sem humanidade alguma nem conhecimento da vida civil", diria Cícero). Como se já não bastasse o fato de terem acabado com meu mouse. É um inferno mexer no PC sem o mouse, mas a necessidade nos obriga a aprender. (Na verdade, em circunstância assim, se a necessidade fosse realmente tão necessária ninguém aprenderia nada. Isto até que dá um bom post, mas deixemos por enquanto de lado.)

Esses dois últimos anos foram de reformulações forçadas. O monitor, aparentemente com problemas, me forçou a comprar um novo. Em seguida a placa-mãe pifou. Depois, nem mouse nem teclado serviam para a nova placa-mãe. Algum tempo depois tive de comprar outra placa-mãe. Aí o HD fez questão de pifar. Por último, há dois dias o mouse morreu. Tudo isso num intervalo de menos de dois anos. Em homenagem ao mouse, vou depois escutar algum réquiem, sim, a ele, assassinado por duendes, duendes homicidas!

O mais estranho é que não em poucas vezes de repente me pego tateando bem ali onde ficava o mouse. Sinto saudade do amiguinho.

Se minha preguiça deixar, amanhã (digo "amanhã" porque muito embora hoje já seja terça, meu dia oficialmente só termina quando durmo e começa quando acordo, de modo que meu calendário se desvia ligeiramente do calendário comum, o que talvez me faça ser uma espécie de super-homem das datas - übermenschenkalender), digo, amanhã ou quarta compro outro. E por falar em preguiça, compartilharei com o leitor um dos meus maiores temores. Ei-lo: ser abraçado por um bicho-preguiça. É verdade. Eu, o übermenschenkalender, sinto temor e tremor só de pensar nessa criatura. Aquele seu modo vagaroso parece dissimular algum embuste. Ela parece ardilosa. Associo a um capanga do Fu-Manchu. Não me perguntem a razão dessa extravagância. Mas não é por isso que temo aquele animal. É que não lembro onde ouvi dizer que se esse bicho te abraçar, cravará as unhas em ti e só te soltará se cortarem seus braços. Que coisa angustiante! É por isso que achei no mínimo uma temeridade quando vi um sujeito perto de uma preguiça em um comercial que agora não lembro mais qual. Aliás, já percebeu o leitor que toda a idéia que tentamos relembrar mas que toda hora nos escapa tem algo de feminino? A mulher, a boa mulher, tem algo de esguio, de fugidio. Algumas exageram até demais. Outras de menos. O curioso é que geralmente a mulher cujos traços parecem mais ariscos tem a tendência de ficar com os homens mais prosaicos. Geralmente as pessoas pensam que é por uma equação monetária que elas se casam com homens assim. Na verdade, tais pessoas trocam a conseqüência pela causa. Mas... isto é assunto também para outro post.

Enfim, escrevo essas coisas todas para demonstrar a vocês, duendes, que não os temo, por mais homicidas que sejam, por pior que seja a aparência de mata-mouros que possuam. E se não gostarem desse meu destemor, então digo como dizia o bom escritor: piparotes!

Saturday, September 23, 2006

O aborto ou: por que política em excesso é ruim?

Meu computador já está bom. Aliás, está bom faz um tempinho. Resolvi tirar férias do blog. Coincidentemente, acabei retornando junto com a Primavera. Que interessante acaso, não? De todo modo, se o leitor tiver se sentido ofendido por tamanho desleixo de minha parte, peço sinceras desculpas.

Na verdade, ninguém que se ocupa de escrever e ler, mesmo que de um modo tão amador, pode dizer que está de férias. Porque coisas desse tipo são feitas justamente quando o tempo está vago, isto é, nas horas de descanso e quando o homem está apenas consigo mesmo. Um homem que realmente lê tem necessidade de ler. Daí que se ficar mais de três dias sem pegar em algum livro já começa a sentir um progressivo desconforto. Chega mesmo a se considerar mais próximo da burrice. E a diferença do sábio para o tolo, como já dizia Ortega, é que o primeiro se vê a dois passos da burrice, concentrando todos os seus esforços para dela se afastar. O tolo é narcisista, compraz-se consigo mesmo, ignorando o que há além de sua visão míope. O tolo, portanto, passa uma calma e tranqüilidade quase invejáveis.

Eu queria dizer outra coisa (caso o diacho do mosquitinho que está me infernizando deixe). A inspiração vem do comentário do post abaixo, onde um gentil anônimo citou parte de um texto recente do Olavo de Carvalho sobre o aborto.

Por esses últimos dias tenho atazanado amigos por e-mail sobre o perigo de elegermos Lula e Jandira Feghali, candidata ao Senado no Rio de Janeiro pelo PC do B. Ambos venderam suas almas para implementar o aborto no nosso país. Talvez o leitor conheça melhor minha posição porque escrevi sobre o aborto faz um tempinho aqui mesmo no blog. Mas não é sobre isso que quero comentar agora. É que me espanta a violência da atual circunstância brasileira. Ela é de tal modo ensandecida que um sujeito como eu, que não sente o mínimo prazer em discutir sobre política, de repente se vê na obrigação de dizer alguma coisa a respeito. E não só uma vez, mas reiteradas vezes.

Há certas ocasiões onde é preciso agir politicamente. Mas a peculiaridade de nossa época é que somos obrigados a viver permanentemente sob a tutela política, queiramos ou não. Somos como guardas de uma fortaleza assediada constantemente. Isso é um indício de um mal pior. Porque a política não é uma necessidade. Ela não pertence àquele último estrato para o qual as nossas energias se dirigem em busca do sentido da vida. A política é algo prosaico demais para se prestar à satisfação das ansiedades mais profundas que temos. Quando ela se converte em necessidade, em componente integral de um impulso profundo, há necessariamente um falseamento da vida. Questões de grande gravidade continuam a existir, porém sem tratamento adequado. Tudo é compreendido de modo torpe, quer dizer, apenas tendo como finalidade o lucro político. Já falarei sobre a falsidade intrínseca disso. O cúmulo é a politização radical da vida e até da realidade.

O que é mais triste é a aridez mental que a política pode provocar nos jovens. Há idades para tudo. Quem é novo não deve empregar suas principais forças em algo desse tipo. Primeiro, como já disse, porque não é algo imprescindível. Segundo, porque a política é apenas o desembocar de mil e uma atividades precedentes. Antes de buscar a reforma de todas as coisas, temos de nos preocupar com o nosso próprio interior. Mas o que ocorre é que nós jovens somos estimulados a buscar a modificação de todas as coisas. Primeiro se cria uma atmosfera de indignação ante o atual estado das coisas. Depois vem a excitação da vontade de modificar tudo. Então a gente age de modo estabanado, podendo permanecer assim para o resto de nossas vidas. Fechamo-nos tão só para esse aspecto, ignorando solenemente os demais. Mais de um jovem de talento se perdeu nesse afã ensandecido.

Talvez para a política valesse o mesmo que para a filosofia segundo o velho adágio primum vivere, deinde philosophari, primeiro viver para depois filosofar. Trocar os pés pelas mãos nessa situação significa apenas se ater a um palavrório destituído de significado. É ser seduzido pelo encanto que as palavras por si evocam, sem se ater realmente para o conteúdo. Essa é a máquina por excelência da destruição da inteligência e do analfabetismo funcional. O maior e mais flagrante exemplo disso é o problema do aborto. Pessoas como nosso presidente e a candidata ao Senado correm para legislar acerca do direito de vida ou morte que a mãe pode ter sobre seus filhos. Suponhamos que não sabemos se realmente o feto é uma pessoa. Há um problema filosófico para ser resolvido, porque não é da alçada da física nem da biologia. Essas ciências nobres apenas resvalam sobre esse tipo de problema. A virtude delas está precisamente em cumprir bem seu papel, ainda que nada possam dizer sobre questões mais tipicamente humanas. E antes disso há o problema fundamental da escala de valores, que implora também um tratamento filosófico adequado e diferenciado. Antes de nos atirarmos nessa aventura, antes é necessário algum virtuosismo interior. Quero dizer com isso que é necessário todo um treinamento que fortaleça nosso interior a fim de que, uma vez devidamente organizado e preparado, comece a alçar vôos mais altos, da mesma forma que a tensão enorme do arco permite que a flecha voe mais distante. Nada disso provém de questões utilitárias, e a política é o utilitário por excelência. O problema do aborto é discutido na maior parte das vezes tão somente tendo como base questões utilitárias. Ora, questões dessa natureza sempre buscam adaptar a coisa discutida segundo os meios propostos. Isso nada mais é que falseamento. Porque o objeto não é visto em si mesmo, mas segundo alguma conveniência. O que lhe é exterior lhe força a se transformar em algo diverso de si mesmo e mais próximo do que é exterior. O problema todo da discussão do aborto é precisamente esse: parte de um falseamento radical. É tratado sob um ponto de vista eminentemente utilitário, ou, em outras palavras, eminentemente político. Daí que a discussão seja viciada intrinsecamente e que aparentemente não tenha mais fim.

O presidente e a candidata ao Senado fizeram desse falseamento radical a razão de suas vidas.

É por isso que a política acaba se convertendo em algo terrível para o jovem. Ele acaba se apressando em julgar as coisas sem antes ter tido o devido desenvolvimento, ou melhor, amadurecimento de certas faculdades que, após milhões de giros, desembocarão só acidentalmente na política. E a pior coisa que pode haver para a educação dos jovens é comprometer suas almas desde a raiz na falsidade. Todos os erros subseqüentes (e haverá muitos, em progressão geométrica) surgem desse erro primordial.

O próprio Platão tinha toda a cautela para a formação de seu político, chegando ao cúmulo de propor que só os filósofos deveriam reinar. O mesmo filósofo também dizia que a própria dialética não era assunto para jovens com menos de 25 anos: para eles, ginástica e ginástica. Platão parece ter compreendido bem o espírito juvenil. Que dizer de nossos políticos, que insistem em criar em seus partidos núcleos que absorvem o que há de melhor nos jovens, dando-lhes em troca um deserto espiritual?

Já me alonguei demais e já toquei em assuntos que saíram até demais do tópico do texto. Fica aqui, depois de voltas e mais voltas, meu gemido. Espero ansiosamente que chegue logo o dia em que possamos sossegar nosso facho da política.


***

Dei uma revisada muito au passant no texto. Achei que haveria lugar para um outro assunto, pois tem alguma relação com o que escrevi. Vejamos rapidamente umas três ou quatro palavrinhas sobre a democracia.

Há regimes que simplesmente descuidam da opinião do povo. Há outros que transformam a opinião do povo na mais tacanha tirania. Entre os dois extremos, isto é, entre o enorme desleixo e a enorme opressão, suponho que a democracia seja o meio-termo ideal. Pois ela tempera todos os homens para um saudável comprometimento político. As pessoas nem são deixadas ao Deus-dará, nem são completamente absorvidas pelos afazeres políticos. Elas não precisam ser politizadas até a medula num regime deste tipo, e isto é muito bom. A política tem o seu devido reconhecimento, o que equivale a ter seus limites próprios claramente dispostos. Além disso, de modo geral, a democracia acaba exigindo uma maior responsabilidade das pessoas para os assuntos em comunidade.

Esses rápidos apontamentos que mencionei sobre a democracia pressupõem muitíssimas coisas. Não interessa para nós agora todos os seus pressupostos. Quero apenas chamar a atenção do leitor para este ponto importante: que a democracia não tem uma natureza por si mesma, não é um antes de mais nada, porque é produto de muitíssimas outras coisas. Sua existência é precária por natureza. Daí que não é lícito sermos antes de tudo democratas. Seria ridículo, tão ridículo quanto se fôssemos antes de tudo botafoguenses.

A mais imporante aplicação prática deste princípio, segundo o qual aquilo que é secundário e precário dependende daquilo que lhe é anterior e mais estável, pode ser mais ou menos resumida assim: de nada adiantará nos atermos a certas formalidades se elas não têm qualquer força que lhes dê vida interior. Voltando ao caso da democracia, eu diria que o Parlamento, o Ministério e o voto popular na verdade são como uma espécie de signos. Eles são manifestações visíveis de algo que não é palpável, de uma idéia. É essa idéia que lhes dá vida e sentido. Se por um acaso há uma dissociação entre essa idéia e seus signos correspondentes, estes começarão a não mais fazer sentido e por fim morrerão. Daí que a defesa da democracia não se dá apenas com a preocupação com o Parlamento, com o Ministério e com o voto popular. Há muitos exemplos de tiranias que mantiveram tudo isso. Só que o espírito por trás era completamente outro. Os imperadores não aboliram o Senado. O próprio Hitler manteve deputados e periódicas consultas populares. Tornaram-se meras sombras, alusões a algo que ninguém mais entendia direito. Este é o caminho melancólico de muitas coisas do homem. O que antes esbanjava vitalidade acaba esmorecendo e só permanece como fetiche. É precisamente este um dos maiores perigos da democracia, cujos efeitos já podem ser notados há bastante tempo. Ela vem se tornando um enorme fetiche, uma espécie de fórmula mágica que ninguém entende direito mas que produz um agradável encantamento.

Infelizmente o assunto terá de ser deixado de lado meio que abruptamente. Peço desculpas mais uma vez ao bondoso e paciente leitor. Estou com um sono terrível (são agora 5h17 e estou bem mal dormido). Além do mais, este assunto é bem complicado. Quem sabe se um dia o retomo mais decentemente? Até, leitor, tenha um bom dia.

Wednesday, August 23, 2006

Variados

Meu PC, para variar, está ruim. Vai de novo para o conserto. Portanto, sabe-se lá Deus quando vou escrever aqui de novo. Mas como ele aparentemente me deu hoje uma bela folga, vou aproveitar, muito embora eu saiba do perigo que é cantar vitória antes do tempo.

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O perdão. O leitor já parou para pensar nessa prática admirável? Através do perdão nossos erros são apagados. O pecador se torna inocente. O ódio e o ressentimento se convertem em amor. O inimigo se torna leal companheiro. Tudo, tudo isso através dessa simples idéia: o perdão.

É verdade que se tal é pecado, conseqüentemente tal será a penitência. Se gravíssimo o pecado, pesadíssima a penitência. E isto é belo. Porque não há mal tão grande que não seja passível de cura, exceto um: ter fé na impossibilidade de ter fé. Em outras palavras: ignorar clamorosamente a possibilidade de ser salvo. Ora, o perdão é um excelente indício de nossa liberdade. Negar o perdão é negar a liberdade e o amor. É o pior mal que há, o único que não é passível de perdão, como não poderia deixar de ser.

E eu diria ainda mais. Dizem que fazer um cego enxergar é um milagre. Dizem que trazer à vida um morto também é milagre. Que dizer então de apagar a mancha do erro do espírito? Alguém comete um erro e apenas com perdão e penitência se redime: não é isto admirável? Você se virar para alguém e desculpá-lo, e então realmente a culpa se extinguir, isso tudo não é sublime? Os santos praticam milagres mais vistosos, mas também fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Temos algo de santo em nós. E prova disso é justamente isso: praticamos milagres o tempo todo, porque apagamos os erros alheios, enquanto quem apaga os nossos é Deus. E tão natural é essa santidade que nem notamos a sua enorme gravidade. Feliz quem pratica o bem como respira, tão naturalmente que nem percebe.

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Estou noivo!

Se por um acaso o leitor se lembrar, há tempos atrás eu disse que me casaria com a leitora que me desse um livro de Gustavo Corção chamado Dois Amores, Duas Cidades (se fosse um sujeito que mo desse, apenas um aperto de mão bastaria). Pois não é que uma simpática amiga me deu o bendito livro? Sim, esse livro, que procurei em todos os cantos que pude conceber, armado como cavaleiro e lutando contra dragões. Não pude tomar castelos mas também não perdi minhas armas, o que foi, confesso, um resultado bem medíocre. A moça, pelo contrário, com discrição feminina típica, rapidamente o encontrou e generosamente mo ofereceu. Isto prova que as mulheres têm uma capacidade inata de desperdiçar menos energia que nós homens de boa vontade. A mulher é mais prosaica - uma de suas glórias, e que o leitor inteligente, portanto, não interprete mal minhas palavras.

Espero que meus agradecimentos estejam gravados na alma da boa moça - e mais ainda gostaria de agradecer, se possível. Que fiquem eles também registrados aqui no blog. Porém... palavras gravadas no espirito valem mais que em bronze, se é que eu poderia dizer que escrever neste blog é como gravar minhas idéias em bronze.

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Meus amigos, acho que a tragédia da educação é não sabermos nem quais são aqueles primeiros princípios que movem a nossa alma para o saber. Você não saber português, matemática ou biologia é uma coisa. Isto pode ser remediado de uma forma ou de outra. O problema é quando teu espírito não foi bem preparado para que você esteja apto à dedicação do saber.

Se tua alma não foi preparada, dê graças a Deus se pelo teu engenho natural você ainda consiga aprender. Mas antes dê maiores graças a Deus, porque você foi provido de algo raro. Talvez eu pudesse até mesmo dizer que foi um golpe de sorte. E mesmo quem tem engenho natural necessita de exercícios constantes. Ora, eu te pergunto: que exercícios você aprendeu sobre como se deve aprender? Meditação, humildade, solidão, ligação entre o saber e a vida... Até que ponto você aprendeu a respeito dessas coisas? Ser uma pessoa voltada ao estudo não é esse oba-boa de entrar na escola e depois fazer faculdade.

Pensava sobre isso enquanto folheava o Disdacálicon - A arte de ler. Obra de Hugo de São Vítor, antiga de uns 900 anos e atual, pois verdadeira. Disse ele logo na primeira parte que basicamente o estudante precisa saber o que ler, a ordem que se deve ler e, por último, como ler. Mas não só isso. O espírito precisa estar preparado. Então Hugo de São Vítor indica vários preceitos necessários para o estudante, alguns dos quais já citei por alto: Ser humilde, dedicado, bom de memória, dedicado à pesquisa, meditativo, ter boa conduta, etc. São esses alguns dos preceitos para que alguém seja um bom estudante. Talvez seja possível resumi-los não muito erroneamente assim: é uma certa disposição de ânimo que pode (ou não) nos ajudar no estudo.

Nossos estudos estão entre Caríbdes e Cila. De um lado são praticados com fins utilitários. Do outro, para fins políticos. Como então seria possível salvar nossos estudos e conseqüentemente nossas inteligências sem que naufragassem nesse oceano de imposturas?

Pelo que estou vendo, ler Hugo de São Vítor já é um bom caminho.

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Sou atrasado em tudo. Quando comecei a jogar Civilization III, já haviam lançado o seguinte. Quando comecei a ler contos fantásticos, já era burro velho. Justamente agora, quando comecei a me animar em ter um bloguinho, um monte de ótimos blogs foi acabando. E um atrás do outro. Agora foi o caso do César Miranda. Isso é muito ruim. De qualquer modo, foi bom lê-los porque serviu como exemplo de como tem gente boa escrevendo por aí. Do jeito que digo parece até que não sobrou mais ninguém, o que é totalmente falso. Mas parece que muita gente foi tomando desgosto da coisa. Só espero não ser o último marido a saber das escapulidas da minha mulher, embora seja preferível que ela se mantivesse fiel.

***

São quase 3h30 e alguém colocou uma música altíssima. Não era ruim, era só meia-boca. A questão é a seguinte: por que nunca ninguém coloca música alta que seja boa? O leitor já reparou que toda a música que colocam para tocar naquelas caixas de som de carro são horríveis? Lembro que foi assim que ouvi pela primeira vez a Eguinha Pocotó. Por que nunca ouvi assim pela primeira vez um quarteto de cordas? Nunca ouvi alguém aos berros recitando Fernando Pessoa no meio da rua. O barulho na verdade apenas indica o quão desprovido de bom-gosto o sujeito é. É como se gritassem que ele é um barnabé com sua aprovação tácita.

***

(Dessa vez será meu último arrazoado, prometo. E me despeço por antecipação do leitor, bom dia.)

Dia desses eu estava vendo um filme onde um casal transava. Transar chega a ser eufemismo, porque era uma sacanagem danada que só. Estranhamente, o que me chamou atenção foi o fato de a mulher usar um cordão com uma cruz. Minha primeira reação foi achar aquilo horrível, porque indicava falta de respeito. Pensei depois um pouco melhor. Ainda continuo achando aquilo uma falta de respeito, mas não deixava de ser algo simbólico. São Paulo já disse uma coisa que Homero, se fosse cristão, alcunharia de "palavra alada". O Apóstolo afirmou que onde abunda o pecado, superabunda a graça. Belíssima frase! A cruz no peito da moça me fez lembrar disso. Ainda que pequemos, ainda assim há a possibilidade de perdão. Deus foi crucificado justamente para nos salvar. Portanto, não há erro tão grave que não seja passível de perdão, exceto aquele que já mencionei mais acima. Mesmo naquela cena onde a falta de respeito à religião mais do que sobrava, aquela cruz tão pequenina e que estava servindo de motivo de escárnio poderia servir como ponte para redenção. A marca da salvação estava ali. O problema era ignorá-la. De qualquer forma, a possibilidade da salvação foi oferecida. Mas sou o último a querer repreender alguém. Foi minha excessiva boa vontade que me fez escrever essas coisas, talvez salpicada com um poquinho de sono.

Friday, August 04, 2006

Comentário ligeiro sobre a opinião

Atualmente Israel está em guerra contra o Líbano, conforme aqueles que têm a paciência de ler um desses jornais chatíssimos sabem. E mesmo que você não quisesse saber de nada, acabaria sendo obrigado a ouvir alguma palavra a respeito.

Esse tipo de obrigação é um mal, em certo sentido, pior que a guerra, porque você é tratado feito escravo e retardado.

Mentes esclarecidíssimas acham que temos de saber algo? Então temos de aceitar. E se não quisermos? Bem, se houver resistência, você será forçado ainda mais a saber. Você sabe aquilo que acham que você deve saber, ponto. Essa obrigação é de tal modo bizarra que muitas vezes somos nós mesmos que nos sentimos obrigados a ter uma opinião. Isso lembra aqueles mecanismos de controle de mentes no estilo de 1984. Agora bem: ninguém é obrigado a ter opinião.

Como somos atacados constantemente pelos jornais e suas inúmeras notícias, acabamos nos sentindo, quase intuitivamente, capazes de dizer alguma coisa sobre um assunto qualquer que está a léguas de nosso real interesse e entendimento. Ainda que não houvesse tantas informações em jornais, o simples fato de termos sido alfabetizados nos levaria a ter alguma posição sobre uma série de coisas. O problema é que esse esquema faz com que o sujeito só sirva como retransmissor do que foi dito. É como age o povo. Porque ele é como um sino: quando chocado pelo badalo, repica. É esta uma das características principais do povo, a retransmissão de idéias quando atiçado. Só assim, quando elas estiverem bem espalhadas, haverá como empreendê-las. Todas as loucuras no mundo tiveram início nalgum cômodo gabinete.

A educação, neste esquema, é um paradoxo esquisito. Quanto mais gente passa pelas escolas, maior é o número de gente desinformada. Chegamos então na estranha situação onde uma quantidade inacreditável de gente fala demais sem dizer nada. Suas palavras não têm corpo nem conseguem pisar no chão. É o campo predileto da fantasia, ou melhor, do reino do disparate. Ele surge quando uma quantidade descomunal de pessoas se sente obrigada a dizer alguma coisa sem conexão com os fatos ou com seus próprios interesses. As pessoas falam só por falar, cada um contribuindo com seu quinhão para a poluição de idéias. Nessas circunstâncias, o trabalho de quem quer realmente ter uma opinião sincera, pessoal, se transforma em martírio, porque acaba se vendo obrigado a trabalhar incansavelmente nesse imenso entulho a fim de encontrar uma preciosa pérola.

PS: Quem quiser saber um pouco mais sobre o problema da opinião e da informação, recomendo as seguintes leituras:

1) O Século do Nada, de Gustavo Corção, pp. 119-138 (felizmente podem ser lidas aqui);

2) A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset;

3) a palestra do Prof. Olavo de Carvalho sobre a Educação Liberal.