Minha mãe sugeriu que eu entrasse para o Exército, sob influências de minha tia, que por sua vez tem dois filhos na Aeronáutica. O argumento materno é o seguinte: 1) trabalho público é estável; 2) não haverá necessidade de perseguir bandidos; 3) o Exército é uma mãe para quem está lá dentro; 4) por conseguinte, é uma maneira tranqüila de ganhar dinheiro honestamente.
Bem, entendi o argumento materno em outras palavras: 1) é um dinheiro público gasto à toa; 2) qualquer idiota se presta para aquilo (ou seja, aparentemente estou incluso); 3) é uma relação de inutilidade profissional e salário razoável; 4) por conseguinte, é mais uma maneira de ganhar dinheiro sem fazer nada de produtivo. Logicamente, minha mãe não gostou nada da minha interpretação.
Não me perguntem a respeito de organização logística, apoio financeiro, legislação e coisas análogas sobre o Exército, mas o esquema mental que tenho em relação às Forças Armadas é o seguinte: 1) elas existem para defender o povo em situações em que a polícia não é suficiente; 2) chegamos a uma situação drástica, na qual a polícia não parece estar em condições de defender o povo; logo ......... (espaço para o leitor completar o meu raciocínio).
Qualquer conversa para definir antes muito bem quem é o inimigo contra o qual deve-se lutar é, para mim, conversa sobre o nada, algo seinfeldiano. Se depois de vinte anos de guerra contra o tráfico de drogas ninguém souber direito contra quem está lutando, então somente podemos concluir que estamos cercados de gente idiota em questões de segurança pública. E se querem continuar enrolando, já basta a minha ilustríssima pessoa para isso, ao invés de sustentarem toda uma instituição de sujeitos incompetentes. Então, se a população - eu, o leitor e adjacências - está cercada pela violência de traficantes alucinados, mas as Forças Armadas, enquanto policial morre às pencas, negam-se a defendê-la, então só posso concluir que está se acovardando e sendo um dispêndio totalmente inútil para os cofres públicos. Serve apenas para causar comoção nas mulheres que adoram homens fardados ou para enfeitarem as ruas em paradas militares, da mesma forma que os exércitos do Xá no século XIX, segundo os europeus.
Claro (para mim, o que também é claro, e para mim também...) que não estou reclamando da validade das Forças Armadas enquanto instituição. Pois afinal de contas, quem foi que salvou o Brasil? Mas parece que, do jeito que está, elas não fazem jus às suas responsabilidades. E igualmente claro (para mim... O leitor já sabe o resto...) está que a má vontade de políticos (leiam, por favor: PT e siameses) acerca do envolvimento das Forças Armadas em operações ostensivas em favelas (e mais onde for necessário) tem um efeito paralizante nesta solução.
Portanto, se quisermos um Exército que sirva como enfeite em paradas militares, ok, mas que os militares não reclamem quando cortarem seus orçamentos ou quando forem taxados de inúteis. E fico triste em saber que o grau de periculosidade no exercício dos soldados das Forças Armadas é tão grande quanto fazer tricô em casa, mas parece que muita gente vê nisso não uma afronta, porém um motivo de orgulho e garantia de tranqüilidade ao se imaginar soldado.
Como iniciei este texto mencionando minha mãe, com ela o fecho. Desculpe, mãe, porém estatais que tratam seus funcionários como filhinhos - como toda estatal o é -, já bastam as outras. E suponho que nem todo mundo gosta de ser infantilizado - senão apenas e como um fato consumado pelos pais naturais, já que aos olhos desses os filhos nunca conseguirão deixar de fazer caquinha na fralda...
Monday, March 21, 2005
Sunday, March 20, 2005
Mesada para bandido
Não era sobre isso que eu ia escrever, porém foram poucas as vezes que fiquei tão indignado quanto agora, tendo lido que o Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vai dar 60 reais ao mês para as famílias dos bandidos da FEBEM, esses mesmos que você, leitor, como eu, está cansado de saber que degolam, estupram, depredam, amedrontam e coisas lindas do gênero. E, como sempre, usando o dinheiro público - aquele que você trabalha como um doido para pagar em impostos que serão convertidos, mais tarde, em mesada para bandido.
Esse governador merece pelo menos ovo na cabeça.
Esse governador merece pelo menos ovo na cabeça.
Friday, March 18, 2005
Comentários sobre a sinceridade
Se dizer sincero é, na maioria da vezes, um artifício para agir como um canalha perante as pessoas, mas de forma a arrancar aplausos. Não é à toa que todo mundo que defende o aborto, a eutanásia, o comunismo e demais monstruosidades sempre se diz sincero, muito sincero, e tem a sensação de ter agido bem, o que traz prazer.
Ora, o nazista que meteu uma bala na testa do judeu estava apenas sendo sincero, neste sentido peculiar que só uma época tão abrutalhada quanto a nossa pode ser. E ninguém pode negar que Lênin, ao condenar à forca centenas de opositores para servirem de exemplo, se considerava justo.
***
Essa sinceridade é uma maneira de extravasar tudo o que há de pior. Se você estiver com raiva de alguém, não basta engolir seco: é preciso jogar-lhe na cara toda a sorte de insultos. Se você quer uma mulher, não basta dissimular seus próprios passos a fim de, aos poucos, agradar-lhe: é preciso corresponder aos instintos, fazendo jus ao animal que há dentro de ti. Ou se você considera uma pessoa um tanto quanto chata, não basta gentilmente pedir-lhe licença, sob algum pretexto: é necessário jogar-lhe na cara que ela é uma pessoa horrível (vejam, não apenas chata, mas horrível).
Alguém pode dizer que não agiria assim. No entanto, há sempre os mais descarados e os tímidos, porém sonsos. A diferença está na disposição.
É esta modalidade de sentimentos que muitos chamam de sinceridade, mas eu costumo enxergá-la apenas como mais uma forma de estupidez.
***
Só há uma forma verdadeira de sinceridade, que é aquela unida a três coisinhas fundamentais: o belo, o bom e o verdadeiro.
Por isso que a sinceridade é um nobre hábito, praticado por alguns, admirado por muitos, imitado toscamente por muitos mais. Ter sempre em mente que nossos passos devem estar sobre um piso verdadeiro, e que esse é o único caminho bom a se trilhar, e que faz bem e é belo, não, infelizmente não é algo que vem simplesmente do berço. É um esforço desinteressado que nos torna possuidores de tão grande tesouro. E a sinceridade, neste caso, é a paixão que um homem sofre em direção à verdade, sendo guiado por uma consciência reta (nada mais que outra maneira de afirmação da tríade belo-bom-verdadeiro).
Digo mais: é um nobre hábito porque é uma virtude, e toda virtude é prática de nobreza. Por isso que o cristianismo é uma religião feita para seres nobilíssimos, pois impõe como meta a perfeição tal qual Deus-Pai é perfeito. E todo código militar decente também prega algo parecido, sempre o aperfeiçoamento de si mesmo, a superação, a auto-imposição de grandes fardos. Não são, cristianismo e código militar, adequados a burgueses – no sentido de seres voltados apenas para o bem-estar e a comodidade.
Mas somos todos filhos de época burguesa (há os burgueses marxistas, burgueses liberais, burgueses nazistas e demais espécies de burgueses). Então não seria mais cômodo rebaixar essa sinceridade de caráter elevado a uma correspondência primária entre ação e pensamento na moralidade?
É neste sentido que alguém pode dizer que no Afeganistão do Talibã ao menos eles eram sinceros no trato das mulheres, enquanto aqui é tudo dissimulado. Ou que pelo menos em países como os EUA ou África do Sul tratavam (tratam, no caso dos EUA) os pretos de forma mais sincera (se por “mais sincera” se entende “menos dissimulada”) que aqui no Brasil. E que o leitor imagine aqui um sem-número de outros exemplos que por extensão podem ser aplicados ao caso.
***
É por causa da existência da tríade bom-belo-verdadeiro que uma pessoa que age grosseiramente em nome da sinceridade pode ser tudo, menos sincero. Age apenas como um papagaio, repetindo as palavras de alguém toscamente e sem entender nada que ouviu ou diz.
Ou seja: se o leitor não consegue harmonizar uma reta disposição de espírito com a verdade, e não sente prazer ao agir assim, então infelizmente está no time das falsas consciências. E elas, como tais, sempre se arrogam sinceras – e no entanto sua crença realmente o é, mas não a verdade.
***
Apenas um desfecho para o leitor refletir.
Kalos kagathos são duas palavras gregas estranhas e que se prestam, na nossa língua, a vários trocadilhos. No entanto, é uma idéia muito elevada o que elas representam. Sua tradução é “belo e bom”. Um kalos kagathos é um nobre. Era o ideal de nobreza do homem grego. Talvez o leitor se pergunte sobre como atingi-lo. Isso não interessa por enquanto. O que importa é que não é de hoje que existe a associação entre nobreza, a beleza e a bondade.
Ora, o nazista que meteu uma bala na testa do judeu estava apenas sendo sincero, neste sentido peculiar que só uma época tão abrutalhada quanto a nossa pode ser. E ninguém pode negar que Lênin, ao condenar à forca centenas de opositores para servirem de exemplo, se considerava justo.
***
Essa sinceridade é uma maneira de extravasar tudo o que há de pior. Se você estiver com raiva de alguém, não basta engolir seco: é preciso jogar-lhe na cara toda a sorte de insultos. Se você quer uma mulher, não basta dissimular seus próprios passos a fim de, aos poucos, agradar-lhe: é preciso corresponder aos instintos, fazendo jus ao animal que há dentro de ti. Ou se você considera uma pessoa um tanto quanto chata, não basta gentilmente pedir-lhe licença, sob algum pretexto: é necessário jogar-lhe na cara que ela é uma pessoa horrível (vejam, não apenas chata, mas horrível).
Alguém pode dizer que não agiria assim. No entanto, há sempre os mais descarados e os tímidos, porém sonsos. A diferença está na disposição.
É esta modalidade de sentimentos que muitos chamam de sinceridade, mas eu costumo enxergá-la apenas como mais uma forma de estupidez.
***
Só há uma forma verdadeira de sinceridade, que é aquela unida a três coisinhas fundamentais: o belo, o bom e o verdadeiro.
Por isso que a sinceridade é um nobre hábito, praticado por alguns, admirado por muitos, imitado toscamente por muitos mais. Ter sempre em mente que nossos passos devem estar sobre um piso verdadeiro, e que esse é o único caminho bom a se trilhar, e que faz bem e é belo, não, infelizmente não é algo que vem simplesmente do berço. É um esforço desinteressado que nos torna possuidores de tão grande tesouro. E a sinceridade, neste caso, é a paixão que um homem sofre em direção à verdade, sendo guiado por uma consciência reta (nada mais que outra maneira de afirmação da tríade belo-bom-verdadeiro).
Digo mais: é um nobre hábito porque é uma virtude, e toda virtude é prática de nobreza. Por isso que o cristianismo é uma religião feita para seres nobilíssimos, pois impõe como meta a perfeição tal qual Deus-Pai é perfeito. E todo código militar decente também prega algo parecido, sempre o aperfeiçoamento de si mesmo, a superação, a auto-imposição de grandes fardos. Não são, cristianismo e código militar, adequados a burgueses – no sentido de seres voltados apenas para o bem-estar e a comodidade.
Mas somos todos filhos de época burguesa (há os burgueses marxistas, burgueses liberais, burgueses nazistas e demais espécies de burgueses). Então não seria mais cômodo rebaixar essa sinceridade de caráter elevado a uma correspondência primária entre ação e pensamento na moralidade?
É neste sentido que alguém pode dizer que no Afeganistão do Talibã ao menos eles eram sinceros no trato das mulheres, enquanto aqui é tudo dissimulado. Ou que pelo menos em países como os EUA ou África do Sul tratavam (tratam, no caso dos EUA) os pretos de forma mais sincera (se por “mais sincera” se entende “menos dissimulada”) que aqui no Brasil. E que o leitor imagine aqui um sem-número de outros exemplos que por extensão podem ser aplicados ao caso.
***
É por causa da existência da tríade bom-belo-verdadeiro que uma pessoa que age grosseiramente em nome da sinceridade pode ser tudo, menos sincero. Age apenas como um papagaio, repetindo as palavras de alguém toscamente e sem entender nada que ouviu ou diz.
Ou seja: se o leitor não consegue harmonizar uma reta disposição de espírito com a verdade, e não sente prazer ao agir assim, então infelizmente está no time das falsas consciências. E elas, como tais, sempre se arrogam sinceras – e no entanto sua crença realmente o é, mas não a verdade.
***
Apenas um desfecho para o leitor refletir.
Kalos kagathos são duas palavras gregas estranhas e que se prestam, na nossa língua, a vários trocadilhos. No entanto, é uma idéia muito elevada o que elas representam. Sua tradução é “belo e bom”. Um kalos kagathos é um nobre. Era o ideal de nobreza do homem grego. Talvez o leitor se pergunte sobre como atingi-lo. Isso não interessa por enquanto. O que importa é que não é de hoje que existe a associação entre nobreza, a beleza e a bondade.
Sunday, March 13, 2005
Pequena e atrasada homenagem ao Dia Internacional da Mulher
Relembrando todo o esforço de milhares de feministas contra o jugo opressor do macho ocidental, e também relembrando que, conforme as palavras do Estagirita, a visão é, dos sentidos, o que mais prazer nos proporciona, eis então minha pequena homenagem a esse dia tão monumental, a ponto de eu nem saber direito quando é - mas que provavelmente já passou -, nem se é correto dizer "da mulher", pois o termo talvez não remeta à diversificação do gênero feminino ao redor do mundo. Deixo como está. Mas esse problema, pensando bem, com toda a certeza haveria de ser comentado e analizado com todas as sutilezas pelo eminente e de voz grave sofista Pródico, bem sábio, rigorosa autoridade em distinções entre sinônimos e belas coisas da mesma espécie. Sem querer me alongar mas louco por dar um exemplo das eminentes distinções do sofista, ele dizia, por exemplo, que uma bela discussão não causava prazer, mas satisfação, porque o prazer é apenas uma sensação corporal agradável, enquanto a satisfação é relativa ao bem-estar da alma. Mas Pródico não está mais entre nós desde o século IV a.C., o que me obriga a apenas imaginar o que ele dissertaria a respeito do tema. Deixo o problema então para alguma bela feminista, caso haja alguma que por ventura leia estas tortas palavras, a fim de esclarecer tão importante questão.
Estou me alogando demais, como de costume. Eis então, logo abaixo, todo um grupo de mulheres que, na minha opinião, com muito esforço e perseverança tornou nosso mundo mais agradável para se viver. Sejamos sempre gratos, pois elas merecem, indiscutivelmente, não só um dia, mas uma semana inteira de festividades.







Eu quase ia esquecendo de mencionar tão preciosa fonte: basta clicar aqui.
Estou me alogando demais, como de costume. Eis então, logo abaixo, todo um grupo de mulheres que, na minha opinião, com muito esforço e perseverança tornou nosso mundo mais agradável para se viver. Sejamos sempre gratos, pois elas merecem, indiscutivelmente, não só um dia, mas uma semana inteira de festividades.
Eu quase ia esquecendo de mencionar tão preciosa fonte: basta clicar aqui.
Saturday, March 12, 2005
O jogo esquerda-direita
Eu escreveria sobre uma coisa qualquer, porém felizmente topei com um extrato de O século do nada, último e mais combativo livro de Gustavo Corção, no bom site Permanência. É o capítulo II, livro I, chamado O jogo esquerda-direita, que pode ser lido aqui. Recomendo fervorosamente aos leitores deste blog, ainda que sintam preguiça por causa da extensão do texto, pois nada mais útil, em relação a um tema tão cheio de falácias, expugarmos nossa tolice, como diria mais ou menos o próprio Corção.
Mais um comentário: é impressionante como este jogo foi difundido e gruda em nossos cérebros como chiclete no sapato. Talvez pela simplicidade e comodidade do (falso) raciocínio, atribuindo tudo de bom à esquerda e tudo de ruim à direita, ou então criando falsas dicotomias (como por exemplo opor justiça, que seria de propriedade da esquerda, à ordem, propriedade da direita, ou liberdade-esquerda e autoridade-direita, etc.), quem quer que caia nessa gandaia intelectual terá o cérebro transformado em pamonha. Daí que não é à toa que é difícil convencer alguém intoxicado até a medula com o jogo esquerda-direita que o comunismo, longe de ser libertário e herói da justiça, é uma proposta completamente ditatorial e promovedora de injustiças por todos os cantos por onde é semeada.
Ah sim, e o artigo demonstra a tremenda mancada de Maritain, que entrou muito catita nesse esquema. Aliás, o livro é recheado de mancadas de Maritain - uma das coisas mais assombrosas do século passado, a julgar a inteligência do filósofo, e que de certa maneira representa as mancadas de boa parte da Igreja sobre o assunto, o socialismo. O neotomista é um caso sui generis, pois em se tratando do conjunto de sua obra, parece que devemos levar a sério tudo o que escreveu sobre filosofia e jogar fora tudo que ele disse sobre política, sociedade, etc, etc - dentro do contexto do século XX, em relação ao socialismo.
Agora chega, pois vou beber água e fazer alguma outra coisa, pois até quem escreve para blogs tem mais o que fazer, por mais assombroso que isso possa parecer a alguns.
Mais um comentário: é impressionante como este jogo foi difundido e gruda em nossos cérebros como chiclete no sapato. Talvez pela simplicidade e comodidade do (falso) raciocínio, atribuindo tudo de bom à esquerda e tudo de ruim à direita, ou então criando falsas dicotomias (como por exemplo opor justiça, que seria de propriedade da esquerda, à ordem, propriedade da direita, ou liberdade-esquerda e autoridade-direita, etc.), quem quer que caia nessa gandaia intelectual terá o cérebro transformado em pamonha. Daí que não é à toa que é difícil convencer alguém intoxicado até a medula com o jogo esquerda-direita que o comunismo, longe de ser libertário e herói da justiça, é uma proposta completamente ditatorial e promovedora de injustiças por todos os cantos por onde é semeada.
Ah sim, e o artigo demonstra a tremenda mancada de Maritain, que entrou muito catita nesse esquema. Aliás, o livro é recheado de mancadas de Maritain - uma das coisas mais assombrosas do século passado, a julgar a inteligência do filósofo, e que de certa maneira representa as mancadas de boa parte da Igreja sobre o assunto, o socialismo. O neotomista é um caso sui generis, pois em se tratando do conjunto de sua obra, parece que devemos levar a sério tudo o que escreveu sobre filosofia e jogar fora tudo que ele disse sobre política, sociedade, etc, etc - dentro do contexto do século XX, em relação ao socialismo.
Agora chega, pois vou beber água e fazer alguma outra coisa, pois até quem escreve para blogs tem mais o que fazer, por mais assombroso que isso possa parecer a alguns.
Sunday, March 06, 2005
Great Books
Na década de 50, enfim foi publicada a coleção Great books of the western world (Chicago, Encyclopaedia Britannica, Inc., 1952, 52 vols; na segunda edição, em 1990, ela foi aumentada para 60). Ela foi criada graças aos esforços de dois homens, Mortimer Jerome Adler, um dos maiores educadores americanos do século XX, e Robert Maynard Hutchins. Em Great books encontramos reunidos autores das mais variadas estirpes, tais como Homero e Freud, Kant e Newton, Lavoisier e Faraday, Virgílio e Aristóteles, Galeno e Euclides, Ptolomeu e Cervantes, Marx e Eurípedes, e muitos outros. Como uma introdução há um livro à parte chamado The great ideas, a syntopicon of great books of the western world (em 2 vols, também pela Encyclopaedia Britannica, Inc., 1952, segunda edição de 1990).
A coleção segue uma ordem cronológica. Começa com a poesia de Homero e com o Velho Testamento, varando os séculos até chegar, enfim, no século XX. É como se seguisse um roteiro. A leitura seqüenciada é útil porque não raro um autor se refere ao seu mestre e predecessor, tornando claro para nós o desenvolvimento das mais diversas questões.
O conteúdo de cada volume é dividido por autor, salvo em alguns casos de proximidade de um mesmo assunto: aí autores são agrupados em um único volume. Assim, por exemplo, o quarto é dedicado apenas a Homero, enquanto o quinto é dedicado a Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes, ou seja, o teatro grego. Gente mais gulosa como Aristóteles, Sto. Tomás de Aquino, Shakespeare e Gibbon abocanhou dois volumes cada.
Um problema que salta aos olhos de qualquer um é o do critério da escolha dos livros para a coleção. Não é uma questão das mais fáceis. Mortimer Adler, no entanto, disse certa vez que não foi um, mas três os critérios adotados:
O primeiro era o significado contemporâneo do livro - relevância para os problemas e questões importantes do século XX. Os livros não foram feitos para serem olhados como relíquia arqueológica - monumentos em nossa tradição intelectual. Eles seriam obras que tanto nos interessa hoje quanto na época em que foram escritos, ainda que há séculos atrás. Eles são portanto eternos - sempre contemporâneos, e não confinados a interesses que mudam de tempo em tempo ou de lugar em lugar.
O segundo critério foi sua infinita readaptabilidade ou, no caso das mais difíceis obras matemáticas ou científicas, sua análise incessante. A maioria dos 400 mil livros publicados a cada ano não vale a pena ler nem mesmo uma única vez; bem menos de mil a cada ano vale a pena ler novamente. Quando, o que não é freqüente em qualquer século, um grande livro aparece, vale a pena lê-lo de novo e outras vezes. É inexaustivelmente readaptável. Não pode ser completamente entendido em uma, duas, ou três leituras. Mais é para achar em toda leitura subseqüente. Isso é um critério exato, uma idéia que é completamente atendida por unicamente um pequeno número de 511 obras que selecionamos. Ele é aproximado em vários graus pelo resto.
O terceiro critério foi a relevância da obra para um número bem extenso de grandes idéias e grandes questões que ocuparam as mentes de pensadores individuais dos últimos vinte e cinco séculos. Os autores desses livros pegaram parte na grande conversação, não somente para ler obras de muitos de seus predecessores, mas também para discutir muitas das 102 idéias tratadas no Syntopicon. Em outras palavras, os grandes livros são os livros nos quais a grande conversação ocorre sobre grandes idéias. É o conjunto de grandes idéias que determina a escolha dos grandes livros.
M. Adler, em Como ler um livro, disse que buscava oferecer uma educação liberal. Seria uma baseada nas antigas artes liberais medievais. Elas eram divididas no trivium (gramática, retórica e dialética) - a arte das coisas humanas e do bem falar, discutir e raciocinar - e o quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia) - arte das coisas do mundo e do segundo patamar de abstração. Auxiliada pelos mestres através do contato direto com as fontes em Great books, uma pessoa entraria em contato com a tradição que lhe foi legada e teria uma compreensão superior dos problemas fundamentais do mundo, podendo muito bem dar-lhes inclusive solução prática. Daí que M. Adler vislumbrava esse ensino como uma forma de desenvolvimento da liberdade dos cidadãos.
Tal é, em poucas palavras, a importância do Great books. Embora até hoje existam discussões sobre o cânon que ficou estabelecido na coleção, o fato é que ele reúne o mínimo que precisamos para sermos bem educados e trabalharmos bem a nossa inteligência. É uma leitura nas fontes, que nem sempre são fáceis de compreender, mas que são sempre extremamente férteis. E o próprio Adler, em meio de suas centenas de livros, dá várias dicas para uma melhor compreensão dos livros.

A coleção segue uma ordem cronológica. Começa com a poesia de Homero e com o Velho Testamento, varando os séculos até chegar, enfim, no século XX. É como se seguisse um roteiro. A leitura seqüenciada é útil porque não raro um autor se refere ao seu mestre e predecessor, tornando claro para nós o desenvolvimento das mais diversas questões.
O conteúdo de cada volume é dividido por autor, salvo em alguns casos de proximidade de um mesmo assunto: aí autores são agrupados em um único volume. Assim, por exemplo, o quarto é dedicado apenas a Homero, enquanto o quinto é dedicado a Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes, ou seja, o teatro grego. Gente mais gulosa como Aristóteles, Sto. Tomás de Aquino, Shakespeare e Gibbon abocanhou dois volumes cada.
Um problema que salta aos olhos de qualquer um é o do critério da escolha dos livros para a coleção. Não é uma questão das mais fáceis. Mortimer Adler, no entanto, disse certa vez que não foi um, mas três os critérios adotados:
O primeiro era o significado contemporâneo do livro - relevância para os problemas e questões importantes do século XX. Os livros não foram feitos para serem olhados como relíquia arqueológica - monumentos em nossa tradição intelectual. Eles seriam obras que tanto nos interessa hoje quanto na época em que foram escritos, ainda que há séculos atrás. Eles são portanto eternos - sempre contemporâneos, e não confinados a interesses que mudam de tempo em tempo ou de lugar em lugar.
O segundo critério foi sua infinita readaptabilidade ou, no caso das mais difíceis obras matemáticas ou científicas, sua análise incessante. A maioria dos 400 mil livros publicados a cada ano não vale a pena ler nem mesmo uma única vez; bem menos de mil a cada ano vale a pena ler novamente. Quando, o que não é freqüente em qualquer século, um grande livro aparece, vale a pena lê-lo de novo e outras vezes. É inexaustivelmente readaptável. Não pode ser completamente entendido em uma, duas, ou três leituras. Mais é para achar em toda leitura subseqüente. Isso é um critério exato, uma idéia que é completamente atendida por unicamente um pequeno número de 511 obras que selecionamos. Ele é aproximado em vários graus pelo resto.
O terceiro critério foi a relevância da obra para um número bem extenso de grandes idéias e grandes questões que ocuparam as mentes de pensadores individuais dos últimos vinte e cinco séculos. Os autores desses livros pegaram parte na grande conversação, não somente para ler obras de muitos de seus predecessores, mas também para discutir muitas das 102 idéias tratadas no Syntopicon. Em outras palavras, os grandes livros são os livros nos quais a grande conversação ocorre sobre grandes idéias. É o conjunto de grandes idéias que determina a escolha dos grandes livros.
M. Adler, em Como ler um livro, disse que buscava oferecer uma educação liberal. Seria uma baseada nas antigas artes liberais medievais. Elas eram divididas no trivium (gramática, retórica e dialética) - a arte das coisas humanas e do bem falar, discutir e raciocinar - e o quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia) - arte das coisas do mundo e do segundo patamar de abstração. Auxiliada pelos mestres através do contato direto com as fontes em Great books, uma pessoa entraria em contato com a tradição que lhe foi legada e teria uma compreensão superior dos problemas fundamentais do mundo, podendo muito bem dar-lhes inclusive solução prática. Daí que M. Adler vislumbrava esse ensino como uma forma de desenvolvimento da liberdade dos cidadãos.
Tal é, em poucas palavras, a importância do Great books. Embora até hoje existam discussões sobre o cânon que ficou estabelecido na coleção, o fato é que ele reúne o mínimo que precisamos para sermos bem educados e trabalharmos bem a nossa inteligência. É uma leitura nas fontes, que nem sempre são fáceis de compreender, mas que são sempre extremamente férteis. E o próprio Adler, em meio de suas centenas de livros, dá várias dicas para uma melhor compreensão dos livros.

Mortimer J. Adler (1902-2001)
Coleção Great books of the western world
Saturday, March 05, 2005
Sabedoria popular
Dois sujeitos conversando numa lanchonete (segundo testemunhos de alguém que conheço):
- ... mas tô cheio de pobrema na vida.
- Não se fala "pobrema"! "Pobrema" é quando tu tem que resolvê conta. Quando tu tá com a vida ruim, cê tem que falá "probrema".
- Ah é.
E o dia se tornou ainda mais alegre para mim.
- ... mas tô cheio de pobrema na vida.
- Não se fala "pobrema"! "Pobrema" é quando tu tem que resolvê conta. Quando tu tá com a vida ruim, cê tem que falá "probrema".
- Ah é.
E o dia se tornou ainda mais alegre para mim.
Saturday, February 26, 2005
Texto pós-Nemo
Dizer algo sobre o visual de Procurando Nemo chega a ser desnecessário. É tão evidente, tão monstruosamente clara a beleza de suas imagens, que qualquer elogio se torna pleonasmo. É tudo tão colorido e tão bonito que dá vontade de dizer que foi para vê-lo que minha visão foi feita.
Mas não é apenas o visual que merece elogios. O roteiro é muito divertido. Os diálogos são bons. E claro, geralmente os trocadilhos com hábitos de bichos nesse tipo de filme dão certo. Um polvinho soltando uma pequena tinta negra, como se estivesse se mijando de medo, ao ver um imenso tubarão; tubarões que se juntam numa espécie de AA, repetindo para si mesmos que peixes são amigos, não comida; tartarugas surfistas; um peixinho - o mais divertido do filme - que não consegue reter lembranças recentes, mais ou menos como (dizem que) as baratas são; um peixe-palhaço que não consegue fazer uma só piada decente. E por aí vai.
Se eu fosse comentar cada cena que ri sem parar, o leitor acabaria por não ler apenas um post, mas um livro. Por exemplo, a cena da sobrinha do dentista no consultório. Como era engraçado vê-la se debater apavorada quando entra um pelicano na sala e logo em seguida um peixe sai do aquário para cair em sua cabeça... Ou aquela da explosão de minas submarinas que forma bolhas, fazendo com que um pelicano, alheio a tudo aquilo e vendo se formar uma ao lado de seu amigo, ache que ele soltou um pum.
Logo após o filme, fiquei pensando com os meus botões algo sobre as animações japonesas. Não sou de ver muita animação, porém das poucas que assisti pude perceber que os japoneses, em termos de roteiro, são de longe os mais bizarros: violência desmesurada atrelada a um senso de humor no mínimo alienígena. Confesso que nunca fui muito fã de filmes de animação japonesa, cujas histórias são muito esquisitas. As americanas não - quer dizer, não tanto. Não sei se por serem uma cultura mais próxima de nós, o fato é que geralmente prefiro a deles. Alguns têm um senso de humor esquisito, algo que parece estar se tornando quase um gênero a parte. Porém mesmo assim eu fico com os EUA.
Um outro motivo para minha simpatia para com as animações dos EUA é que suas histórias são bem mais despretensiosas. Você não precisa ter um nível de "abstração" enorme para compreendê-las. Claro, sempre há exceções, como aquela da MTV que tinha uma mulher espiã que, igualzinho ao Kenny do South Park, sempre morria no final (esqueci o nome, cartas para a redação, por favor).
Mas estou fugindo do Nemo. Que são essas palavras, leitor? Faça que nem o pai do simpático peixinho e saia por aí procurando-o logo.
Mas não é apenas o visual que merece elogios. O roteiro é muito divertido. Os diálogos são bons. E claro, geralmente os trocadilhos com hábitos de bichos nesse tipo de filme dão certo. Um polvinho soltando uma pequena tinta negra, como se estivesse se mijando de medo, ao ver um imenso tubarão; tubarões que se juntam numa espécie de AA, repetindo para si mesmos que peixes são amigos, não comida; tartarugas surfistas; um peixinho - o mais divertido do filme - que não consegue reter lembranças recentes, mais ou menos como (dizem que) as baratas são; um peixe-palhaço que não consegue fazer uma só piada decente. E por aí vai.
Se eu fosse comentar cada cena que ri sem parar, o leitor acabaria por não ler apenas um post, mas um livro. Por exemplo, a cena da sobrinha do dentista no consultório. Como era engraçado vê-la se debater apavorada quando entra um pelicano na sala e logo em seguida um peixe sai do aquário para cair em sua cabeça... Ou aquela da explosão de minas submarinas que forma bolhas, fazendo com que um pelicano, alheio a tudo aquilo e vendo se formar uma ao lado de seu amigo, ache que ele soltou um pum.
Logo após o filme, fiquei pensando com os meus botões algo sobre as animações japonesas. Não sou de ver muita animação, porém das poucas que assisti pude perceber que os japoneses, em termos de roteiro, são de longe os mais bizarros: violência desmesurada atrelada a um senso de humor no mínimo alienígena. Confesso que nunca fui muito fã de filmes de animação japonesa, cujas histórias são muito esquisitas. As americanas não - quer dizer, não tanto. Não sei se por serem uma cultura mais próxima de nós, o fato é que geralmente prefiro a deles. Alguns têm um senso de humor esquisito, algo que parece estar se tornando quase um gênero a parte. Porém mesmo assim eu fico com os EUA.
Um outro motivo para minha simpatia para com as animações dos EUA é que suas histórias são bem mais despretensiosas. Você não precisa ter um nível de "abstração" enorme para compreendê-las. Claro, sempre há exceções, como aquela da MTV que tinha uma mulher espiã que, igualzinho ao Kenny do South Park, sempre morria no final (esqueci o nome, cartas para a redação, por favor).
Mas estou fugindo do Nemo. Que são essas palavras, leitor? Faça que nem o pai do simpático peixinho e saia por aí procurando-o logo.
Saturday, February 19, 2005
Faxina
Estive arrumando o caos que virou a parte dos links bem ali, ó, do lado da página. Aproveitei e coloquei alguns novos. Como olhei e gostei da obra, vou tirar o domingo que vem para meu descanso, e santifico este sábado.
Tenho o projeto de comentar cada um deles, mas e a falta de paciência? Por enquanto, leitor, não tenha medo e vá trombando com eles, porque o caminho dos justos é sempre difícil, mas o fim é belo.
Tenho o projeto de comentar cada um deles, mas e a falta de paciência? Por enquanto, leitor, não tenha medo e vá trombando com eles, porque o caminho dos justos é sempre difícil, mas o fim é belo.
Conde de Gobineau e o Brasil
Certa vez, Stefan Zweig comentou que o Conde de Gobineau, após visitar o Brasil, afirmou que o único indivíduo racialmente puro no país era o Nosso Imperador D. Pedro II. O país tinha praticamente a população do Estado do Rio de Janeiro. E ainda que D. Pedro II causasse profunda impressão em quem achasse muito cool as teorias de superioridade nórdica (o homem tinha quase 1,90m, olhos azuis e branco até não poder mais, embora tivesse voz fina - ninguém é perfeito.), acho que no fundo o Conde de Gobineau estava fazendo aquilo que desde o mais pífio pigmeu até um nobre francês talvez não hesitariam em face de um sujeito mais poderoso: o famoso puxa-saquismo.
Mas hoje em dia, se o Conde de Gobineau visitasse nosso país, já ficaria chocado, só para começar, com o nosso presidente, Sr. Luís Inácio Molusco da Silva. Acho divertido imaginar o que ele escreveria em seu diário após uma entrevista com o Sem-Dedo.
Um país que tem quem tem como presidente não poderia ser, é claro, lá muito respeitável. Vejam o Theatro Municipal, por exemplo, se não me engano em dezembro. Eu estava passando pela Cinelândia quando, ao literalmente rufarem os tambores, em frente a uma multidão que se acotovelava em sua frente, saiu um monte de mulatos descamisados pulando de um lado para o outro. Chamam aquilo, ao que parece, de capoeira. Pois o Municipal se transformara - pelo menos a entrada - em palco de ginga de capoeiras. "Ha", pensei na hora, "imagina só o que o Conde de Gobineau diria sobre isso", e fiquei rindo sozinho, enquanto quem me via desse jeito na calçada achava apenas que eu era um bobo alegre.
Aquilo foi mesmo engraçado. Porém mais curioso foi o que um amigo meu me disse ontem. Na verdade, curioso e escatológico, porque esse meu amigo disse que, ao ver numa rua perto da minha casa um monte de cocô ao lado de uma camisinha usada, perguntou para seus botões também o que o Conde diria sobre aquilo. "Que as pessoas neste país copulam e defecam pelas ruas", foi o que meu amigo especulou. Mas quem disse que apenas essa hipótese é verossímil? O Conde poderia imaginar que as pessoas neste país defecam enquanto copulam pelas ruas desse país. Ou copulam enquanto defecam, o que dá na mesma. Bom, em todo o caso, qualquer das hipóteses é provável, pelo menos a julgar o Rio de Janeiro, que ainda querem que se torne capital do turismo.
Não é possível cogitar coisa muito diferente no país do Molusco. Aliás, a chegada mui triunfal do Molusco ao poder foi o coroamento do estrume.
Ah, Conde de Gobineau... Para você ser meu parâmetro de comparação com o Brasil ou, pelo menos, com o Rio de Janeiro, é sinal de que há algo de podre neste reino.
Mas hoje em dia, se o Conde de Gobineau visitasse nosso país, já ficaria chocado, só para começar, com o nosso presidente, Sr. Luís Inácio Molusco da Silva. Acho divertido imaginar o que ele escreveria em seu diário após uma entrevista com o Sem-Dedo.
Um país que tem quem tem como presidente não poderia ser, é claro, lá muito respeitável. Vejam o Theatro Municipal, por exemplo, se não me engano em dezembro. Eu estava passando pela Cinelândia quando, ao literalmente rufarem os tambores, em frente a uma multidão que se acotovelava em sua frente, saiu um monte de mulatos descamisados pulando de um lado para o outro. Chamam aquilo, ao que parece, de capoeira. Pois o Municipal se transformara - pelo menos a entrada - em palco de ginga de capoeiras. "Ha", pensei na hora, "imagina só o que o Conde de Gobineau diria sobre isso", e fiquei rindo sozinho, enquanto quem me via desse jeito na calçada achava apenas que eu era um bobo alegre.
Aquilo foi mesmo engraçado. Porém mais curioso foi o que um amigo meu me disse ontem. Na verdade, curioso e escatológico, porque esse meu amigo disse que, ao ver numa rua perto da minha casa um monte de cocô ao lado de uma camisinha usada, perguntou para seus botões também o que o Conde diria sobre aquilo. "Que as pessoas neste país copulam e defecam pelas ruas", foi o que meu amigo especulou. Mas quem disse que apenas essa hipótese é verossímil? O Conde poderia imaginar que as pessoas neste país defecam enquanto copulam pelas ruas desse país. Ou copulam enquanto defecam, o que dá na mesma. Bom, em todo o caso, qualquer das hipóteses é provável, pelo menos a julgar o Rio de Janeiro, que ainda querem que se torne capital do turismo.
Não é possível cogitar coisa muito diferente no país do Molusco. Aliás, a chegada mui triunfal do Molusco ao poder foi o coroamento do estrume.
Ah, Conde de Gobineau... Para você ser meu parâmetro de comparação com o Brasil ou, pelo menos, com o Rio de Janeiro, é sinal de que há algo de podre neste reino.
Tuesday, February 15, 2005
A farsa do Coelhinho Rosa, do Sapato Dentuço e do Anão Todo Janota em um ato-relâmpago
(A história se passa para lá de Bagdá. Coelhinho Rosa, passeando pela estrada afora, encontra o Sapato Dentuço às margens do rio Eufrates, cantando algo como "My shoes sing the blues", canção anônima muito dançante do Iraque)
Coelhinho Rosa (Olhando atentamente para os dentes do Sapato Dentuço.) - Sapato, me responde uma coisa: por que você tem dentes?
Sapato Dentuço - Naturalmente para pronunciar palavras que exijam as dentais. Por exemplo: como eu pronunciaria a palavra “dentais” se não tivesse dentes?
Coelhinho Rosa - Ué, e quem não tem os dentes da frente? Como fala “dentais”?
Sapato Dentuço - Deve dizer “zentais” ou coisa parecida. Mas nunca conversei com alguém sem dentes.
Coelhinho Rosa - Nunca? Nunca ouviu alguém falando algo sem dentadura?
Sapato Dentuço - Lembro de umas sandálias sem dentes. Elas tinham a ponta torta e curvada para dentro.
Coelhinho Rosa – Ué, as sandálias todas não são sem dentes?
Sapato Dentuço - Deve ser por isso que tinham a ponta como eu te disse. Mas não lembro da pronúncia delas direito. Não falavam português bem, talvez por serem havaianas. (Dá risadas com o trocadilho infame, batendo a sola no chão.)
Coelhinho Rosa - Mas, continuando, e por que você é dentuço?
Sapato Dentuço - Você tem alguma coisa contra meus dentes?
Coelhinho Rosa - Não... É que é esquisito um sapato de dentes, ainda mais se for dentuço.
Sapato Dentuço - Você fala dos meus dentes e não comentou nada da minha cueca. Olha, ela está a mostra, é branca e com o “s” do super-homem. Olha aqui, ó.
Coelhinho Rosa (Olhando para o céu.) – Eu não tô com vontade de ver sua cueca, que coisa!
Sapato Dentuço - Olha aqui, ó!
Coelhinho Rosa - Sapato viado...
Sapato Dentuço - Como?
Coelhinho Rosa - Sapato gaiato...
Sapato Dentuço - Mas você não acha estranho eu andar de cueca para fora? Ninguém nunca me pergunta nada sobre isso. Faço para aparecer, mas parece que tá difícil alguém perceber. Só reparam meus dentes.
Coelhinho Rosa - Você usa cueca só para disfarçar os dentes?
Sapato Dentuço - É, mas não adianta.
Coelhinho Rosa - Eu não disse nada para não te dar cadarço. (Ri do trocadilho mal-feito, balançando a pancinha.)
Sapato Dentuço - Pelo menos não adoro um cenourão.
Coelhinho Rosa - Quem disse que coelho só come cenoura? E você, que toda hora te metem o pé todo?
Sapato Dentuço - Viado.
Coelhinho Rosa - Não sou viado.
Sapato Dentuço - Não, é? Você é um coelhinho, que é bicho todo fresco. Para piorar, é todo rosinha. Deve andar rebolando o rabinho todo alegre.
Coelhinho Rosa - Já viu como sou quando encontro uma coelha?
Sapato Dentuço - Tem um monte de gay que finge ser homem.
Coelhinho Rosa - Mas não sou homem, sou coelho!!!
Sapato Dentuço - Além de viadinho, tem mau gosto. Colocar três exclamações numa frase é coisa de filisteu. Aliás, colocar mais de um ponto na frase é coisa bem de filisteu.
Coelhinho Rosa - Ressaltar uma idéia é coisa de filisteu por acaso?
Sapato Dentuço - Começa sempre assim: primeiro ressalta, depois já tá rebolando todo ressaltadinho.
Coelhinho Rosa - Isso não tem nada a ver!!!
Sapato Dentuço - Já começou a por um monte de pontos de novo.
Coelhinho Rosa - Quer dizer, isso não tem nada a ver!
Sapato Dentuço - Melhorou.
Coelhinho Rosa - E você, que é um lambe-chão? Sempre fica se arrastando, que nem um mendigão, no chão imundo. E vez ou outra se mete na merda! E toma esses pontos, toma! (Arremessa umas quatro ou cinco exclamações em qualquer lugar do Sapato, que dá uma mordida no Coelhinho. Este começa a chorar e gritar “ui, ui ui, meu santinho!”, correndo depois para sua toca. O Sapato exprime um ar de vitória e escárnio, de maneira que apenas um sapato dentuço sói fazer. Entretanto, aparece o Anãozinho Todo Janota, chamando a atenção do Sapato Dentuço.)
Anãozinho Todo Janota - Por Allah, que dor de barriga... Nunca mais como pastel naquele chinês... (Percebe o Sapato Dentuço, e sorri.) Este sapato vai servir direitinho de privada! Meu bumbunzinho cabe perfeitamente em sua entrada. (Ajoelha-se, fazendo mil rapapés e salamaleques.) Obrigado, Allah, obrigado!
Sapato Dentuço (Exprimindo todo o inconformismo de sua situação, como igualmente soem fazer os sapatos.) - Droga...
(Caem as cortinas. No fundo, toca "What a wonderful world".)
Coelhinho Rosa (Olhando atentamente para os dentes do Sapato Dentuço.) - Sapato, me responde uma coisa: por que você tem dentes?
Sapato Dentuço - Naturalmente para pronunciar palavras que exijam as dentais. Por exemplo: como eu pronunciaria a palavra “dentais” se não tivesse dentes?
Coelhinho Rosa - Ué, e quem não tem os dentes da frente? Como fala “dentais”?
Sapato Dentuço - Deve dizer “zentais” ou coisa parecida. Mas nunca conversei com alguém sem dentes.
Coelhinho Rosa - Nunca? Nunca ouviu alguém falando algo sem dentadura?
Sapato Dentuço - Lembro de umas sandálias sem dentes. Elas tinham a ponta torta e curvada para dentro.
Coelhinho Rosa – Ué, as sandálias todas não são sem dentes?
Sapato Dentuço - Deve ser por isso que tinham a ponta como eu te disse. Mas não lembro da pronúncia delas direito. Não falavam português bem, talvez por serem havaianas. (Dá risadas com o trocadilho infame, batendo a sola no chão.)
Coelhinho Rosa - Mas, continuando, e por que você é dentuço?
Sapato Dentuço - Você tem alguma coisa contra meus dentes?
Coelhinho Rosa - Não... É que é esquisito um sapato de dentes, ainda mais se for dentuço.
Sapato Dentuço - Você fala dos meus dentes e não comentou nada da minha cueca. Olha, ela está a mostra, é branca e com o “s” do super-homem. Olha aqui, ó.
Coelhinho Rosa (Olhando para o céu.) – Eu não tô com vontade de ver sua cueca, que coisa!
Sapato Dentuço - Olha aqui, ó!
Coelhinho Rosa - Sapato viado...
Sapato Dentuço - Como?
Coelhinho Rosa - Sapato gaiato...
Sapato Dentuço - Mas você não acha estranho eu andar de cueca para fora? Ninguém nunca me pergunta nada sobre isso. Faço para aparecer, mas parece que tá difícil alguém perceber. Só reparam meus dentes.
Coelhinho Rosa - Você usa cueca só para disfarçar os dentes?
Sapato Dentuço - É, mas não adianta.
Coelhinho Rosa - Eu não disse nada para não te dar cadarço. (Ri do trocadilho mal-feito, balançando a pancinha.)
Sapato Dentuço - Pelo menos não adoro um cenourão.
Coelhinho Rosa - Quem disse que coelho só come cenoura? E você, que toda hora te metem o pé todo?
Sapato Dentuço - Viado.
Coelhinho Rosa - Não sou viado.
Sapato Dentuço - Não, é? Você é um coelhinho, que é bicho todo fresco. Para piorar, é todo rosinha. Deve andar rebolando o rabinho todo alegre.
Coelhinho Rosa - Já viu como sou quando encontro uma coelha?
Sapato Dentuço - Tem um monte de gay que finge ser homem.
Coelhinho Rosa - Mas não sou homem, sou coelho!!!
Sapato Dentuço - Além de viadinho, tem mau gosto. Colocar três exclamações numa frase é coisa de filisteu. Aliás, colocar mais de um ponto na frase é coisa bem de filisteu.
Coelhinho Rosa - Ressaltar uma idéia é coisa de filisteu por acaso?
Sapato Dentuço - Começa sempre assim: primeiro ressalta, depois já tá rebolando todo ressaltadinho.
Coelhinho Rosa - Isso não tem nada a ver!!!
Sapato Dentuço - Já começou a por um monte de pontos de novo.
Coelhinho Rosa - Quer dizer, isso não tem nada a ver!
Sapato Dentuço - Melhorou.
Coelhinho Rosa - E você, que é um lambe-chão? Sempre fica se arrastando, que nem um mendigão, no chão imundo. E vez ou outra se mete na merda! E toma esses pontos, toma! (Arremessa umas quatro ou cinco exclamações em qualquer lugar do Sapato, que dá uma mordida no Coelhinho. Este começa a chorar e gritar “ui, ui ui, meu santinho!”, correndo depois para sua toca. O Sapato exprime um ar de vitória e escárnio, de maneira que apenas um sapato dentuço sói fazer. Entretanto, aparece o Anãozinho Todo Janota, chamando a atenção do Sapato Dentuço.)
Anãozinho Todo Janota - Por Allah, que dor de barriga... Nunca mais como pastel naquele chinês... (Percebe o Sapato Dentuço, e sorri.) Este sapato vai servir direitinho de privada! Meu bumbunzinho cabe perfeitamente em sua entrada. (Ajoelha-se, fazendo mil rapapés e salamaleques.) Obrigado, Allah, obrigado!
Sapato Dentuço (Exprimindo todo o inconformismo de sua situação, como igualmente soem fazer os sapatos.) - Droga...
(Caem as cortinas. No fundo, toca "What a wonderful world".)
Saturday, February 12, 2005
Martírio
Um intermezzo nesta última semana pelas plagas cabofrienses me fez relembrar de como já estão distantes os tempos em que um homem cedia gentilmente a passagem a uma mulher. Atualmente este hábito está relegado a seres esquisitões ou proto-mártires da completa barbárie que está por vir - como se já não existisse -, o que dá na mesma.
Por isso, para todos de boa fé que sonham com o retorno da velha e boa monarquia - Ordem - por estas bandas (pleonasmo, porque toda monarquia é velha e boa), termino este texto pondo mais uma vez a foto do czar, que é santo, Nicolau II, mártir da e pela Sua Mãe Rússia, para o qual valem as seguintes palavras do Salmo 21: Eles transpassaram as minhas mãos, e os meus pés; contaram todos os meus ossos; e eles mesmos me estiveram considerando e olhando. Repartiram entre si os meus vestidos, e lançaram sortes sobre minha túnica
Friday, February 04, 2005
Destilando mau-humor sobre o tal do Fórum
Se ser contra a guerra do Iraque não é uma demonstração de canalhice, então pelo menos é de bobismo levado ao extremo, afinal de contas um governante bigodudo salafrário que mandou para os jardins de Allah mais de trezentos mil de seus próprios cidadãos tinha de ser expulso a chutes de uma imensa botina, mais ou menos como acontece em desenhos animados. Aliás, seria ótimo se realmente o chutassem ou o "torturassem" como fizeram com aqueles pobres-diabos que até então eram os temíveis cães-de-guarda do Iraque (por exemplo, fazendo pipi na cabeça dele, o que, convenhamos, é um tapa com luvas de pelica se comparado aos milhares de mortos, mutilações e coisas belas do gênero que ocorriam no Iraque).
Contudo, bobismo maior é esse Fórum Social Mundial. Ingressar naquilo é escrever na própria testa um atestado de, na melhor das hipóteses, bobão. Exatamente isso: bobão. Mais ainda será caso tenha a displicência de viajar milhares de quilômetros para visitar aquilo, como foi o caso de Saramago ou daquele francês enjoado que há anos atrás foi convidado para, a título de cortesia, invadir umas fazendinhas com o MST.
Não sei o número de pessoas que foram ao Fórum, já que minha preocupação com semelhante coisa se retringe apenas em expressar o óbvio, isto é, sua bobice crônica. Mas suponho que muitas pessoas para lá foram. E possivelmente vários jovens brasileiros, sem contar os que não viajaram mas olham para aquilo ao menos com vaga simpatia, comprovando que, por natureza, fomos doutrinados a por nossos bumbuns para o alto e rezar segundo a Meca esquerdóide.
O problema aumenta quando começam a meter a mão em meu bolso para financiar um bando de bobões a se masturbar debaixo do chuveiro ou a andar nus de um lado para o outro. Aliás, não ficou claro se estavam se masturbando juntos ou não, o que não seria nenhuma surpresa. Não interessa. A própria idéia de financiar com dinheiro público algo como o Fórum Social Mundial é um absurdo de fazer o sol, caso tivesse sentimentos, se esconder para sempre de vergonha. Queria ver a reação dos participantes daquele circo se o Estado patrocinasse anualmente um megaencontro da nata da intelectualidade liberal do mundo.
(Breves parênteses: essa história de masturbação me fez lembrar de uma cena d'A Lagoa Azul (aquele filme com a linda Brooke Shields), na qual a mocinha pega o rapazinho se masturbando. Ora, ambos estavam onde muitos considerariam um paraíso natural, isto é, uma ilha tropical sem uma única biblioteca próxima, muito menos um computador - algo similar ao inferno, na pobre opinião deste mais pobre ainda autor. Não há um paralelo evidente entre essa cena e o que aconteceu no FSM, no paraíso esquerdistóide, onde singelas moças viram rapazes com, se o leitor me permite usar uma expressão adaptada aos tempos modernos, a mão na "botija"?)
Ah, cansei de escrever sobre estas bobices. Fiquei com vontade de mudar completamente de assunto (o texto é meu, faço as inversões que eu quiser, rá, rá, rá...) e dizer algo sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço, filme este que esperei uns quatro anos (sem a menor expectativa, por mais estranho que possa parecer) para assistir, e que no final das contas nem gostei muito. Ele passou de madrugada no Corujão, acho que na madrugada de quarta para quinta (dia 3/02?). Mas deixarei para comentar amanhã ou depois que eu voltar de viagem, semana que vêm.
OBS: Acho que está se tornando um hábito deste blog o empurrar textos com a barriga para um futuro incerto... Não se alarmem, não se alarmem. A este assunto pelo menos voltarei logo.
Contudo, bobismo maior é esse Fórum Social Mundial. Ingressar naquilo é escrever na própria testa um atestado de, na melhor das hipóteses, bobão. Exatamente isso: bobão. Mais ainda será caso tenha a displicência de viajar milhares de quilômetros para visitar aquilo, como foi o caso de Saramago ou daquele francês enjoado que há anos atrás foi convidado para, a título de cortesia, invadir umas fazendinhas com o MST.
Não sei o número de pessoas que foram ao Fórum, já que minha preocupação com semelhante coisa se retringe apenas em expressar o óbvio, isto é, sua bobice crônica. Mas suponho que muitas pessoas para lá foram. E possivelmente vários jovens brasileiros, sem contar os que não viajaram mas olham para aquilo ao menos com vaga simpatia, comprovando que, por natureza, fomos doutrinados a por nossos bumbuns para o alto e rezar segundo a Meca esquerdóide.
O problema aumenta quando começam a meter a mão em meu bolso para financiar um bando de bobões a se masturbar debaixo do chuveiro ou a andar nus de um lado para o outro. Aliás, não ficou claro se estavam se masturbando juntos ou não, o que não seria nenhuma surpresa. Não interessa. A própria idéia de financiar com dinheiro público algo como o Fórum Social Mundial é um absurdo de fazer o sol, caso tivesse sentimentos, se esconder para sempre de vergonha. Queria ver a reação dos participantes daquele circo se o Estado patrocinasse anualmente um megaencontro da nata da intelectualidade liberal do mundo.
(Breves parênteses: essa história de masturbação me fez lembrar de uma cena d'A Lagoa Azul (aquele filme com a linda Brooke Shields), na qual a mocinha pega o rapazinho se masturbando. Ora, ambos estavam onde muitos considerariam um paraíso natural, isto é, uma ilha tropical sem uma única biblioteca próxima, muito menos um computador - algo similar ao inferno, na pobre opinião deste mais pobre ainda autor. Não há um paralelo evidente entre essa cena e o que aconteceu no FSM, no paraíso esquerdistóide, onde singelas moças viram rapazes com, se o leitor me permite usar uma expressão adaptada aos tempos modernos, a mão na "botija"?)
Ah, cansei de escrever sobre estas bobices. Fiquei com vontade de mudar completamente de assunto (o texto é meu, faço as inversões que eu quiser, rá, rá, rá...) e dizer algo sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço, filme este que esperei uns quatro anos (sem a menor expectativa, por mais estranho que possa parecer) para assistir, e que no final das contas nem gostei muito. Ele passou de madrugada no Corujão, acho que na madrugada de quarta para quinta (dia 3/02?). Mas deixarei para comentar amanhã ou depois que eu voltar de viagem, semana que vêm.
OBS: Acho que está se tornando um hábito deste blog o empurrar textos com a barriga para um futuro incerto... Não se alarmem, não se alarmem. A este assunto pelo menos voltarei logo.
Thursday, February 03, 2005
Panorama nacional
Os leitores deste blog terão de parar seja lá o que estiverem fazendo para dar uma lida nisso. E avaliem suas respectivas ignorâncias sobre o assunto segundo o grau de estranheza que o texto provocar em vocês.
Eu ia linkar também um texto sobre a Inquisição, mas fica para próxima. Ou, caso acessem o Orkut, procurem pela comunidade Saudades da Inquisição e dêem uma olhadela por lá. Gracias.
Eu ia linkar também um texto sobre a Inquisição, mas fica para próxima. Ou, caso acessem o Orkut, procurem pela comunidade Saudades da Inquisição e dêem uma olhadela por lá. Gracias.
Monday, January 31, 2005
Fechemos o nariz e entremos nas escolas públicas
Fechemos o nariz e entremos nas escolas públicas. Funcionam em prédios abomináveis, projetados por arquitetos de galinheiro a soldo de políticos analfabetos.
Por exemplo, o sofrido e sofrível professor de português. Não ensina mais gramática e literatura. Como ensinar o que não sabe? Ele e seus colegas nunca aprenderam gramática ou literatura, pois estudaram nas piores universidades do mundo, públicas ou privadas — todas muito bem privadas, naquele sentido fétido da coisa.
O vestibular, nas humanidades, não existe mais para premiar o aluno competente, mas para sustentar um negócio da China que começa nos livros didáticos da escola básica e média, passa bem passado pelos cursinhos e termina em gran finale nas próprias universidades.
Selecionar os melhores é elitismo malvado, covardia de bichão-papão. É dever do professor universitário dar as mãos aos desafortunados da sociedade ou da natureza e erguê-los até o próprio nível — o que, aliás, não é muito difícil. Encolhe, cada vez mais, a diferença de conhecimento que sempre houve entre aluno e professor. Nunca um doutoramento foi tão fácil como no Brasil depois da ditadura militar (que teve o honroso mérito de começar a massificação do ensino, brilhantemente continuada pela esquerda peemedebista, peessedebista e petista, que no fundo não passam de farinha do mesmo saco).
Gramática virou sinônimo de torpe repressão burguesa, embora não se usem mais essas palavras do velho e carunchado comunismo. Gramsci ensinou a esquerda a ser mais sutil... A própria Escola de Frankfurt teria um vocabulário mais light para repetir a mesma idéia. Literatura, sobretudo a boa, é disfarce ideológico (no sentido marxista da palavra) — blablablá de intelectuais pequenos burgueses a serviço das classes dominantes. Bom escritor é quem usa linguagem coloquial, em sadia identificação com as massas oprimidas pelo açúcar e o colesterol. Ou quem não usa linguagem alguma, como os concretistas e os minimalistas.
Com a bunda confortavelmente sentada na poltrona multiculturalista, jurando serem iguais todas as culturas e terem o mesmo direito à luz do sol pedagógico — niilismo caridoso —, a inteligência iletrada escreve livros didáticos para aprimorar nos alunos a idéia, mil vezes engolida na tevê, de que uma letra boçal de rap é igual ou superior a um soneto de Camões.
Para usar a linguagem dessa gente: querem excluir a literatura do currículo e incluir o lixo da mídia, expresso segundo a doce cartilha do politicamente correto. Para agradar o aluno, difunde-se todo tipo de besteira, universalmente reduzida a texto. Hoje, tudo é texto. No mesmo nível estão o artigo de jornal, a bula de remédio, a receita de bolo, a letra do Chico e o conto de Machado. O que importa é “ler o texto do mundo”, palavra de ordem dos cursos de letras, propagada no incompreensível dialeto acadêmico pela imbecilidade semiótica, de braço-dado com as sobras requentadas do marxismo ressentido.
Só um Deus pode nos salvar, diria Heidegger. Ou um dilúvio. De preferência, com água sanitária.
(Texto de José Carlos Zamboni, do dia 30 de janeiro. Tem muito texto interessante sobre literatura por lá, visitem, visitem)
Por exemplo, o sofrido e sofrível professor de português. Não ensina mais gramática e literatura. Como ensinar o que não sabe? Ele e seus colegas nunca aprenderam gramática ou literatura, pois estudaram nas piores universidades do mundo, públicas ou privadas — todas muito bem privadas, naquele sentido fétido da coisa.
O vestibular, nas humanidades, não existe mais para premiar o aluno competente, mas para sustentar um negócio da China que começa nos livros didáticos da escola básica e média, passa bem passado pelos cursinhos e termina em gran finale nas próprias universidades.
Selecionar os melhores é elitismo malvado, covardia de bichão-papão. É dever do professor universitário dar as mãos aos desafortunados da sociedade ou da natureza e erguê-los até o próprio nível — o que, aliás, não é muito difícil. Encolhe, cada vez mais, a diferença de conhecimento que sempre houve entre aluno e professor. Nunca um doutoramento foi tão fácil como no Brasil depois da ditadura militar (que teve o honroso mérito de começar a massificação do ensino, brilhantemente continuada pela esquerda peemedebista, peessedebista e petista, que no fundo não passam de farinha do mesmo saco).
Gramática virou sinônimo de torpe repressão burguesa, embora não se usem mais essas palavras do velho e carunchado comunismo. Gramsci ensinou a esquerda a ser mais sutil... A própria Escola de Frankfurt teria um vocabulário mais light para repetir a mesma idéia. Literatura, sobretudo a boa, é disfarce ideológico (no sentido marxista da palavra) — blablablá de intelectuais pequenos burgueses a serviço das classes dominantes. Bom escritor é quem usa linguagem coloquial, em sadia identificação com as massas oprimidas pelo açúcar e o colesterol. Ou quem não usa linguagem alguma, como os concretistas e os minimalistas.
Com a bunda confortavelmente sentada na poltrona multiculturalista, jurando serem iguais todas as culturas e terem o mesmo direito à luz do sol pedagógico — niilismo caridoso —, a inteligência iletrada escreve livros didáticos para aprimorar nos alunos a idéia, mil vezes engolida na tevê, de que uma letra boçal de rap é igual ou superior a um soneto de Camões.
Para usar a linguagem dessa gente: querem excluir a literatura do currículo e incluir o lixo da mídia, expresso segundo a doce cartilha do politicamente correto. Para agradar o aluno, difunde-se todo tipo de besteira, universalmente reduzida a texto. Hoje, tudo é texto. No mesmo nível estão o artigo de jornal, a bula de remédio, a receita de bolo, a letra do Chico e o conto de Machado. O que importa é “ler o texto do mundo”, palavra de ordem dos cursos de letras, propagada no incompreensível dialeto acadêmico pela imbecilidade semiótica, de braço-dado com as sobras requentadas do marxismo ressentido.
Só um Deus pode nos salvar, diria Heidegger. Ou um dilúvio. De preferência, com água sanitária.
(Texto de José Carlos Zamboni, do dia 30 de janeiro. Tem muito texto interessante sobre literatura por lá, visitem, visitem)
Saturday, January 29, 2005
Provérbios
Mulher? Pois faço minhas as palavras do antigo provérbio:
Nem tam fermosa que matte, nem tam fea que espante,
Até porque
A quem tem molher fermosa, castello em fronteira, vinha na carreira, nam lhe falta cançeira.
Mas também não é sempre ruim casar com mulher feia de dar medo (segundo o provérbio, claro...), já que
Quem casa com molher rica e fea, tem ruim cama e boa mesa,
E caso sejas feia, porém pobre, tranqüiliza-te, leitora, pois
Nam há panella tam fea que nam ache seu cobertouro.
Todavia, se por maldade do fado além de feia não fores muito inteligente (tadinha de ti), nem assim tudo está a perder, porque
De noite à candea, a burra parece donzella.
Agora, se o leitor ou a leitora não gostaram do que escrevi, nada poderei fazer, senão concluir tristemente que
Nam ha geraçam, sem rameira ou ladram.
(E se quiserem mais, procurem por 500 provérbios portugueses antigos)
Nem tam fermosa que matte, nem tam fea que espante,
Até porque
A quem tem molher fermosa, castello em fronteira, vinha na carreira, nam lhe falta cançeira.
Mas também não é sempre ruim casar com mulher feia de dar medo (segundo o provérbio, claro...), já que
Quem casa com molher rica e fea, tem ruim cama e boa mesa,
E caso sejas feia, porém pobre, tranqüiliza-te, leitora, pois
Nam há panella tam fea que nam ache seu cobertouro.
Todavia, se por maldade do fado além de feia não fores muito inteligente (tadinha de ti), nem assim tudo está a perder, porque
De noite à candea, a burra parece donzella.
Agora, se o leitor ou a leitora não gostaram do que escrevi, nada poderei fazer, senão concluir tristemente que
Nam ha geraçam, sem rameira ou ladram.
(E se quiserem mais, procurem por 500 provérbios portugueses antigos)
Silogismo de véspera de carnaval
Se moro perto da Marquês de Sapucaí, e todo homem é mortal, então quero minha cota de virgens no Jardim de Allah.
Monday, January 24, 2005
Mais um desconcerto do mundo (prelúdio para um texto maior num futuro incerto)
Que mundo é esse em que as pessoas olham de jeito esquisito quando você diz que gosta de Bach? Ou que, além de olhar esquisito por isso, acharia lindo se você dissesse que adora Chico Buarque ou, se cercado por gente de má catadura, que você admira Mano Brown, Marcelo D2, Charle Brown Jr. e excrescências do gênero? Mais, mais bizarro ainda é se tal situação ocorrer não em meio ao povão - que gosta aliás de coisas menos degradantes em geral -, porém entre aqueles que teoricamente são considerados a elite, o supra-sumo da laranja podre chamada de (des)educação nacional.
Para que o leitor faça uma idéia do descalabro, darei um exemplo: certa vez alguém ficou admirado por eu estar com um cd da ópera Sigfried na mão. "Wagner? Nossa...", o alguém proferiu, e em seguida fez uma cara de quem ficou mui impressionado. "Mas que coisa bizarra", pensei, "que tem de mais isso?" Depois fui notando como em geral a reação de muitos quando eu dizia que ia ao Municipal era a mesma. A carranca era idêntica. E meu pensamento não mudava: "Mas que coisa...". Acontece, porém, que na quase totalidade dos casos isso se dava com gente teoricamente instruída - mais que a média -, e que também teoricamente deveria considerar Sigfried natural. Natural e quase obrigatório (para o bem ou para o mal).
No entanto, esse povo, a maior parte da tal da elite cultural do país, parece se sentir mais à vontade com sua Bossa Nova - ou, no pior dos casos, com aqueles semi-anencéfalos (termo em moda) drogados que se julgam artistas sublimes.
É totalmente constrangedor, num ambiente desses, dizer que adoro por exemplo Bach. Não sou um conhecedor erudito, mas aos olhos da multidão (leia-se: a maior parte da elite cultural do país) passo miraculosamente a sê-lo. Caso então eu diga por extenso e devagar o nome de uma obra sua qualquer(por exemplo, uma cantata que gosto muito, Ach wie flüchtig, ach wie nichtig (Ah, quão fugaz, quão fútil é a vida dos homens, BWV 26)), presumivelmente isso servirá para impressionar duplamente: primeiro, porque é música de Bach, e segundo, porque é alemão, e nomes germânicos (e cultura alemã em geral) costumam causar furor por essas plagas.
Aliás, por falar em Bach, lembrei de um pequeno incidente lamentável: estava eu conversando sobre música com um sujeito teoricamente mais instruído que a média quando, ao ser perguntado sobre que músicas eu costumava ouvir em casa, respondi "Bach". "Hã?", perguntou-me o infeliz, fazendo as caretas de praxe nesse tipo de situação. "Bach", tornei a responder. "Bar? Como assim?", ele ousou dizer. "Bach, o compositor alemão", eu disse meio constrangido. "Nunca ouvi falar", finalizou às tontas, e mudou de assunto.
Nem me darei ao trabalho de citar outros exemplos que comprovam um desconhecimento total, absoluto e esmagador de alguma noção de literatura universal e/ou nacional.
É sobre esse tipo de coisa que estou a reclamar cá convosco, leitor. Sobre gente que passou mais anos que a média na escola, está estudando ou já se formou nas universidades mais prestigiadas do país, mas caminha pelo universo eminentemente humano tradicionalmente alcunhado de "cultura" como se, cego, pisasse em ovos.
Daí que julgo possuir um bom método de avaliação de uma elite de qualquer país: escolha aleatoriamente três ou quatro estudantes das melhores universidades, diga que você adora o Quarteto de cordas em ré menor KV 421, em especial o terceiro movimento, e observe atentamente a reação geral. Se praticamente todos fizerem alguma careta, pode ter certeza, leitor: são brasileiros com orgulho, e não desistem nunca de serem os mocorongos felizes com seu status.
Para que o leitor faça uma idéia do descalabro, darei um exemplo: certa vez alguém ficou admirado por eu estar com um cd da ópera Sigfried na mão. "Wagner? Nossa...", o alguém proferiu, e em seguida fez uma cara de quem ficou mui impressionado. "Mas que coisa bizarra", pensei, "que tem de mais isso?" Depois fui notando como em geral a reação de muitos quando eu dizia que ia ao Municipal era a mesma. A carranca era idêntica. E meu pensamento não mudava: "Mas que coisa...". Acontece, porém, que na quase totalidade dos casos isso se dava com gente teoricamente instruída - mais que a média -, e que também teoricamente deveria considerar Sigfried natural. Natural e quase obrigatório (para o bem ou para o mal).
No entanto, esse povo, a maior parte da tal da elite cultural do país, parece se sentir mais à vontade com sua Bossa Nova - ou, no pior dos casos, com aqueles semi-anencéfalos (termo em moda) drogados que se julgam artistas sublimes.
É totalmente constrangedor, num ambiente desses, dizer que adoro por exemplo Bach. Não sou um conhecedor erudito, mas aos olhos da multidão (leia-se: a maior parte da elite cultural do país) passo miraculosamente a sê-lo. Caso então eu diga por extenso e devagar o nome de uma obra sua qualquer(por exemplo, uma cantata que gosto muito, Ach wie flüchtig, ach wie nichtig (Ah, quão fugaz, quão fútil é a vida dos homens, BWV 26)), presumivelmente isso servirá para impressionar duplamente: primeiro, porque é música de Bach, e segundo, porque é alemão, e nomes germânicos (e cultura alemã em geral) costumam causar furor por essas plagas.
Aliás, por falar em Bach, lembrei de um pequeno incidente lamentável: estava eu conversando sobre música com um sujeito teoricamente mais instruído que a média quando, ao ser perguntado sobre que músicas eu costumava ouvir em casa, respondi "Bach". "Hã?", perguntou-me o infeliz, fazendo as caretas de praxe nesse tipo de situação. "Bach", tornei a responder. "Bar? Como assim?", ele ousou dizer. "Bach, o compositor alemão", eu disse meio constrangido. "Nunca ouvi falar", finalizou às tontas, e mudou de assunto.
Nem me darei ao trabalho de citar outros exemplos que comprovam um desconhecimento total, absoluto e esmagador de alguma noção de literatura universal e/ou nacional.
É sobre esse tipo de coisa que estou a reclamar cá convosco, leitor. Sobre gente que passou mais anos que a média na escola, está estudando ou já se formou nas universidades mais prestigiadas do país, mas caminha pelo universo eminentemente humano tradicionalmente alcunhado de "cultura" como se, cego, pisasse em ovos.
Daí que julgo possuir um bom método de avaliação de uma elite de qualquer país: escolha aleatoriamente três ou quatro estudantes das melhores universidades, diga que você adora o Quarteto de cordas em ré menor KV 421, em especial o terceiro movimento, e observe atentamente a reação geral. Se praticamente todos fizerem alguma careta, pode ter certeza, leitor: são brasileiros com orgulho, e não desistem nunca de serem os mocorongos felizes com seu status.
Sunday, January 23, 2005
Minha história da "estória"
A cada dia que passa mais eu confirmo minha imbecilidade. O leitor pensa que assumo tal coisa com a alma alegre e disposta a encontrar a luz fora da caverna? Engana-se! Em 99,9% dos casos, tenho a vontade de mergulhar num mutismo absoluto e opressivo, mutismo esse que sempre transforme minha cabeça em bigorna para continuamente ressoar quão pobre de alma estou.
Hoje foi um desses dias, o dia que, além de comprovar o que acabei de dizer, também comprovei a lástima de minha educação.
O negócio foi o seguinte: fui passear pelo blog do Ruy Goiaba e li o texto Oh, life is bigger. Até aí tudo bem (o texto, por sinal, é bem legal). Na parte de comentários, ele disse que "estória" era um neologismo bocó e que os dicionaristas não o seguiram. Quem começou com essa história toda foi Guimarães Rosa, e os livros da Ediouro logo divulgaram essa distinção (história/fato e estória/ficção).
Eu fui alfabetizado com o diacho dessa distinção. Lembro bem de uma série de professores comentando sobre ela e inclusive acho que na própria faculdade ouvi algo a respeito. Logo, tudo aquilo me deixou confuso: tratei de pegar meu Dicionário prático ilustrado (1960); não encontrei "estória" nenhuma. Então apelei para o terceiro volume do dicionário do Laudelino Freire (1954): nadica de nada. Então surtei...
Faço questão de lembrar ao leitor que em situações assim eu jamais confio em dicionários de bolso, ainda mais dessas edições recentes.
Demorei um tempinho para voltar ao normal, após ter praguejado (mais uma vez) contra minha (má) formação. Por sinal, paulatinamente vou me tornando uma espécie de gnóstico neste tipo de situação, imaginando que ela, minha formação, foi uma pegadinha feita por alguma divindade malvada apenas para me fazer sofrer nesta débil existência.
Oh vida, meus caros... Cheguei a conclusão que ela é ao menos uma constante limpeza das porcarias do passado. Então, amigos, estou aqui lavando minha roupa suja. E a partir deste dia, onde vocês leram a palavra estória saída destes meus magros dedos, entendam história - e suspensos todos os dispositivos em contrário...
Hoje foi um desses dias, o dia que, além de comprovar o que acabei de dizer, também comprovei a lástima de minha educação.
O negócio foi o seguinte: fui passear pelo blog do Ruy Goiaba e li o texto Oh, life is bigger. Até aí tudo bem (o texto, por sinal, é bem legal). Na parte de comentários, ele disse que "estória" era um neologismo bocó e que os dicionaristas não o seguiram. Quem começou com essa história toda foi Guimarães Rosa, e os livros da Ediouro logo divulgaram essa distinção (história/fato e estória/ficção).
Eu fui alfabetizado com o diacho dessa distinção. Lembro bem de uma série de professores comentando sobre ela e inclusive acho que na própria faculdade ouvi algo a respeito. Logo, tudo aquilo me deixou confuso: tratei de pegar meu Dicionário prático ilustrado (1960); não encontrei "estória" nenhuma. Então apelei para o terceiro volume do dicionário do Laudelino Freire (1954): nadica de nada. Então surtei...
Faço questão de lembrar ao leitor que em situações assim eu jamais confio em dicionários de bolso, ainda mais dessas edições recentes.
Demorei um tempinho para voltar ao normal, após ter praguejado (mais uma vez) contra minha (má) formação. Por sinal, paulatinamente vou me tornando uma espécie de gnóstico neste tipo de situação, imaginando que ela, minha formação, foi uma pegadinha feita por alguma divindade malvada apenas para me fazer sofrer nesta débil existência.
Oh vida, meus caros... Cheguei a conclusão que ela é ao menos uma constante limpeza das porcarias do passado. Então, amigos, estou aqui lavando minha roupa suja. E a partir deste dia, onde vocês leram a palavra estória saída destes meus magros dedos, entendam história - e suspensos todos os dispositivos em contrário...
Friday, January 21, 2005
Vida que insiste em ser vivida
Vida que insiste em ser vivida,
Por que não cessa de uma só vez
Este tormento que me alucina,
Que transtorna minha vista,
Que desmembra meu corpo todo
E, como água, espalha-o no chão
Para me confundir completamente?
De que adianta erguer meu rosto
Para contemplar, admirado, apenas
Um ponto luzente no céu escuro,
Se dele não ouço coisa alguma,
Se um palmo sequer meus olhos vêem,
Se sou atacado por todos os lados
Por uma dúzia de monstros de chifre?
Ah!, se tenho sede - e sede terrível -,
Como posso ao menos dizer algo
Se não sei o que pensar ou mesmo
Para quem me dirigir, e se a idéia,
Que de repente queima minha mente,
Surge confusa na minha garganta
Mas a língua gruda no céu da boca?
A única coisa firme que sinto aqui
É o chão sob meus pés: será que
A vida a ser vivida é um arrastar-se
Perpétuo na relva para, me humilhando
Aos olhos do povo, eu prosseguir
Aos poucos adiante, nunca mais
Ouvindo, enxergando ou falando?
Por que não cessa de uma só vez
Este tormento que me alucina,
Que transtorna minha vista,
Que desmembra meu corpo todo
E, como água, espalha-o no chão
Para me confundir completamente?
De que adianta erguer meu rosto
Para contemplar, admirado, apenas
Um ponto luzente no céu escuro,
Se dele não ouço coisa alguma,
Se um palmo sequer meus olhos vêem,
Se sou atacado por todos os lados
Por uma dúzia de monstros de chifre?
Ah!, se tenho sede - e sede terrível -,
Como posso ao menos dizer algo
Se não sei o que pensar ou mesmo
Para quem me dirigir, e se a idéia,
Que de repente queima minha mente,
Surge confusa na minha garganta
Mas a língua gruda no céu da boca?
A única coisa firme que sinto aqui
É o chão sob meus pés: será que
A vida a ser vivida é um arrastar-se
Perpétuo na relva para, me humilhando
Aos olhos do povo, eu prosseguir
Aos poucos adiante, nunca mais
Ouvindo, enxergando ou falando?
Subscribe to:
Posts (Atom)

