Amigos, contarei a vocês uma história oriental. Não é minha, é uma dessas lendas que simplesmente brotaram das névoas da história, portanto verdadeira em espírito. O fim é meio abrupto, mas não contarei a moral.
Certa vez o sultão contemplava orgulhoso sua cidade, solitário, da varanda de seu palácio. Aquela opulência toda parecia a manifestação de si mesmo, como se fosse uma idéia excelente que por milagre se tornou ato em todos os seus pormenores. Certamente não havia cidade no mundo tão bela quanto a do sultão. Tal contemplação tinha um caráter de Narciso, porque ao olhar a cidade ele via a si mesmo em glória.
Todavia, eis que de repente o sultão sentiu um calafrio tremendo, prenúncio de toda a calamidade. Do alto da abóbada celeste escura e estrelada, desceu um anjo de beleza terrível bem ali na varanda, tal como um um raio. Não era uma criatura qualquer, mas aquele que é a boca de Deus para o flagelo. Estava ali o Anjo da Morte. E o sultão estremeceu.
Logo disse o Anjo: "Ó homem, eis que Deus me enviou para te anunciar terrível desgraça. Prepara-te, pois tocarei a tua cidade como jamais foi tocada antes." Tendo ouvido tão sinistro oráculo, o sultão lhe respondeu: "Que fiz de mal? Ora, diga-me conforme a verdade: quantos hão de tombar? Se foi o Senhor que te enviou, então pela graça de Deus misericordioso te rogo para que me digas!" Falou o Anjo: "Cinco mil tombarão nas próximas semanas de doença terrível. Prepara-te e te alegra, ó homem, porque nem sempre é dado conhecer a extensão da própria desgraça. Tu és pecador, mas Deus é fiel." E voltou aos céus o Anjo da Morte.
Mal tendo desaparecido o Anjo, o sultão, homem extremamente prático como todos bons governantes devem ser, tratou de expedir ordens o quanto antes para que a cidade suportasse o flagelo vindouro. As ordens saíam com alguma melancolia profunda, pois ele considerava a empresa difícil e o fato vindouro brutal. Mas não se discute a vontade de Deus. A cidade foi preparada, na medida do possível, para suportar a calamidade que estava por vir.
A semana seguinte chegou e as pessoas começaram a morrer. O sultão acompanhava a tudo bastante apreensivo, sem nunca deixar de contabilizar o número de mortos. Na primeira semana Deus chamou aos céus setecentas almas. Na segunda foram mil e quinhentas. Na terceira foram mais mil. O pânico era generalizado. O espírito do povo sofria golpe atrás de golpe. E não cessava de morrer gente até que houve um total de mais de trinta mil mortos em pouco mais de um mês, o que deixou indignado o sultão, ao que ele ficava repetindo para si: "Para o inferno esse demônio mentiroso!" Eis então que novamente o Anjo da Morte apareceu e lhe perguntou: "Ó homem, por que razão blasfemas tanto?" Respondeu-lhe o sultão: "Tu me enganaste, tu me enganaste! Falaste que cinco mil homens tombariam de doença terrível. Ora, em pouco mais de um mês morreram mais de trinta mil!" Disse-lhe o Anjo: "Não menti, ó homem: Cinco mil homens certamente tombaram de doença terrível. " Tais palavras exasperaram ainda mais o sultão, que disse enfurecido: "Zombas de mim, anjo! Que queres dizer com isso? Seis vezes mais homens tombaram do que me havias dito!" Então lhe respondeu o Anjo da Morte: "Ó homem de pouca fé, que duvida do aviso do céu! O restante, ó insensato, morreu de medo."
Thursday, June 29, 2006
Saturday, June 17, 2006
Thursday, June 08, 2006
Três métodos de avaliação de sábios
Você pode avaliar o sábio em questão vendo se ele já tratou alguma vez do amor. Se ele nunca escreveu nada sobre o assunto, então ele sabe tanto de gente quanto nós de viagem no tempo. Portanto, seu conhecimento é supérfluo para o que temos de mais radical, problemático e autêntico: a nossa própria vida. Que adianta, radicalmente falando, ser um virtuose da física?
***
Há também um outro jeito, interligado ao primeiro. Veja se ele já tratou seriamente sobre a pessoa. Se nunca disse uma palavra decente a respeito, fuja: sua filosofia é totalmente inútil. Na melhor das hipóteses, um belíssimo acessório.
***
Agora o derradeiro método. Perceba se ele só fala sobre coisas. Há uns que colocam um muro de coisas entre eles e as pessoas para poder se esconder. Como exemplo, os físicos, matemáticos, etc. Mas veja. Se ele só fala sobre o quê, e não quem, também ouso dizer que sua filosofia, se é que podemos chamar algo assim de filosofia, não vale nada de fato.
***
Faço apelo ao leitor inteligente que não interprete tudo isso como uma birra contra a física-matemática. Pelo contrário, eu a adoro. Jamais na história do mundo um conhecimento ofereceu coisas tão espantosas para nossa comodidade. Mas há limites. E é uma impostura tremenda utilizá-la para todas as instâncias da realidade. Entricheirar-se nela é um modo de ser tacanho, muito embora um tacanho que pode ser estupendamente virtuoso nesse campo. Confesso que ela é extremamente elegante e sedutora, porém já passou da hora de nos livrarmos de seus efeitos residuais mais tacanhos. (Digo residuais porque estou longe de ser o primeiro a criticá-la; não falta gente que já demonstrou a necessidade de um outro tipo de saber que nos forneça algo vital e autêntico acerca de nós mesmos.)
***
Há também um outro jeito, interligado ao primeiro. Veja se ele já tratou seriamente sobre a pessoa. Se nunca disse uma palavra decente a respeito, fuja: sua filosofia é totalmente inútil. Na melhor das hipóteses, um belíssimo acessório.
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Agora o derradeiro método. Perceba se ele só fala sobre coisas. Há uns que colocam um muro de coisas entre eles e as pessoas para poder se esconder. Como exemplo, os físicos, matemáticos, etc. Mas veja. Se ele só fala sobre o quê, e não quem, também ouso dizer que sua filosofia, se é que podemos chamar algo assim de filosofia, não vale nada de fato.
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Faço apelo ao leitor inteligente que não interprete tudo isso como uma birra contra a física-matemática. Pelo contrário, eu a adoro. Jamais na história do mundo um conhecimento ofereceu coisas tão espantosas para nossa comodidade. Mas há limites. E é uma impostura tremenda utilizá-la para todas as instâncias da realidade. Entricheirar-se nela é um modo de ser tacanho, muito embora um tacanho que pode ser estupendamente virtuoso nesse campo. Confesso que ela é extremamente elegante e sedutora, porém já passou da hora de nos livrarmos de seus efeitos residuais mais tacanhos. (Digo residuais porque estou longe de ser o primeiro a criticá-la; não falta gente que já demonstrou a necessidade de um outro tipo de saber que nos forneça algo vital e autêntico acerca de nós mesmos.)
Tuesday, June 06, 2006
Filmes horríveis que entraram para a história - A Bolha Assassina
Detesto filme de terror. Todos me parecem uma porcaria.
Talvez a minha ojeriza a esse gênero tenha raízes na minha infância, época em que vi muita coisa especialmente terrível. E a coisa mais bisonha que me lembro daqueles tempos é um chamado A Bolha Assassina.
Será que o leitor lembra desse filme? Espero que não. Eu também não lembro direito. Mas um filme chamado The Blob não pode inspirar respeito. Traduzido então para A Bolha Assassina, bem, certamente é inscrever o filme por antecipação na galeria das bisonhices da história do mundo, talvez ficando no nível do Tony Ramos imitando sotaque de grego.
Dá para imaginar a conversa que tiveram antes de traduzir o título?
- Hm... The Blob... ninguém vai entender...
- É... Põe aí A Coisa.
- Pô, mas já existe um com esse nome.
- Então que tal A Bolha Maligna?
- Existe alguma do bem? Pra mim bolha é neutra. Se bem que essa daí veio do espaço e come todo mundo. Tem que ser um negócio assustador.
- Então coloca aí A Bolha ASSASSINA! - e assim ambos sorriem triunfalmente.
E foi isso que algumas pessoas, talvez com título universitário, pais de família, etc, conceberam. Mas não as reprimamos. A matéria-prima era a pior possível. Que outro título você daria, leitor?
(Por sinal, nunca ouvi alguém dizer que achou esse filme pelo menos legalzinho. As reações que costumo observar são as mesmas daqueles que logo após tomarem cachaça fazem uma cara horrível. Aliás, se cachaça fosse boa, por que todo mundo faz uma cara de Silvester Stallone interpretando o Rocky naquela parte onde ele fica chamando, todo arrebentado, no final da luta, a sua mulher? Ninguém faz essa cara quando toma suco de uva.)
Divertido mesmo foi um comentário que encontrei num site qualquer enquanto catava alguma imagem do filme para colocar aqui. Vejam que obra-prima: Sem problemas de consequencia ou intelecto a bolha faz apenas uma coisa - e o faz muito bem. Ela come tudo e todos que se movem: Homens, mulheres e crianças. Fiz questão de grifar aquele trecho porque é muito bonito. Será que quiseram dizer "consciência" em vez de "conseqüência"? E será que insinuaram que intelecto é problema? Como os intelectuais são aqueles que geralmente aparecem na TV dizendo as maiores atrocidades, estou longe de criticar este ponto. Por outro lado, talvez fosse ainda mais esquisito se a Bolha tivesse problemas morais ou desvio de personalidade. Já pensou se houvesse uma continuação, algo como A Bolha no Terapeuta? Outra coisa digna de nota é que no site onde peguei aquela citação diziam que havia legendas no DVD até para tailandês e coreano. A perspectiva então é de que o filme corra pelo mundo. É um pouco desconcertante para mim saber que em termos culturais o que pode me unir a um coreano é a Bolha Assassina. Mas havia também uma versão em francês, e confesso que acharia curioso escutar o pessoal gritando cafona, tosca e desesperadamente Oh mon Dieu, qu'est-ce que se passe?
Sinto a tentação de bater a cabeça na parede até que minhas recordações desse filme desapareçam. Mas fico com uns versinhos de uma velha e melancólica elegia de Camões:
Se me desses üa arte que em meus dias
me não lembrasse nada do passado,
oh! quanto milhor obra me farias!

Oh mon Dieu, qu'est-ce que se passe?
Talvez a minha ojeriza a esse gênero tenha raízes na minha infância, época em que vi muita coisa especialmente terrível. E a coisa mais bisonha que me lembro daqueles tempos é um chamado A Bolha Assassina.
Será que o leitor lembra desse filme? Espero que não. Eu também não lembro direito. Mas um filme chamado The Blob não pode inspirar respeito. Traduzido então para A Bolha Assassina, bem, certamente é inscrever o filme por antecipação na galeria das bisonhices da história do mundo, talvez ficando no nível do Tony Ramos imitando sotaque de grego.
Dá para imaginar a conversa que tiveram antes de traduzir o título?
- Hm... The Blob... ninguém vai entender...
- É... Põe aí A Coisa.
- Pô, mas já existe um com esse nome.
- Então que tal A Bolha Maligna?
- Existe alguma do bem? Pra mim bolha é neutra. Se bem que essa daí veio do espaço e come todo mundo. Tem que ser um negócio assustador.
- Então coloca aí A Bolha ASSASSINA! - e assim ambos sorriem triunfalmente.
E foi isso que algumas pessoas, talvez com título universitário, pais de família, etc, conceberam. Mas não as reprimamos. A matéria-prima era a pior possível. Que outro título você daria, leitor?
(Por sinal, nunca ouvi alguém dizer que achou esse filme pelo menos legalzinho. As reações que costumo observar são as mesmas daqueles que logo após tomarem cachaça fazem uma cara horrível. Aliás, se cachaça fosse boa, por que todo mundo faz uma cara de Silvester Stallone interpretando o Rocky naquela parte onde ele fica chamando, todo arrebentado, no final da luta, a sua mulher? Ninguém faz essa cara quando toma suco de uva.)
Divertido mesmo foi um comentário que encontrei num site qualquer enquanto catava alguma imagem do filme para colocar aqui. Vejam que obra-prima: Sem problemas de consequencia ou intelecto a bolha faz apenas uma coisa - e o faz muito bem. Ela come tudo e todos que se movem: Homens, mulheres e crianças. Fiz questão de grifar aquele trecho porque é muito bonito. Será que quiseram dizer "consciência" em vez de "conseqüência"? E será que insinuaram que intelecto é problema? Como os intelectuais são aqueles que geralmente aparecem na TV dizendo as maiores atrocidades, estou longe de criticar este ponto. Por outro lado, talvez fosse ainda mais esquisito se a Bolha tivesse problemas morais ou desvio de personalidade. Já pensou se houvesse uma continuação, algo como A Bolha no Terapeuta? Outra coisa digna de nota é que no site onde peguei aquela citação diziam que havia legendas no DVD até para tailandês e coreano. A perspectiva então é de que o filme corra pelo mundo. É um pouco desconcertante para mim saber que em termos culturais o que pode me unir a um coreano é a Bolha Assassina. Mas havia também uma versão em francês, e confesso que acharia curioso escutar o pessoal gritando cafona, tosca e desesperadamente Oh mon Dieu, qu'est-ce que se passe?
Sinto a tentação de bater a cabeça na parede até que minhas recordações desse filme desapareçam. Mas fico com uns versinhos de uma velha e melancólica elegia de Camões:
Se me desses üa arte que em meus dias
me não lembrasse nada do passado,
oh! quanto milhor obra me farias!
Oh mon Dieu, qu'est-ce que se passe?
Sunday, June 04, 2006
Texto para a leitora
Leitora, sei que vocês mulheres vivem reclamando que nós homens queremos saber apenas de mulher gostosona, nada de compromissos, etc. Mas vocês têm de pensar também numa coisa. Quantas de vocês foram um Newton, Mozart ou Machado de Assis? Você, cara amiga, já se deu conta disso? E no entanto nós vivemos aos seus pés. O mais genial dos homens, perto de vocês, é um tolo inseguro, suando para que a mocinha lhe acene favoravelmente. Caso ele dê sorte, tal fato lhe queimará o coração muitíssimo mais que qualquer fórmula química, tratado metafísico ou concepção de engenharia sublimes que ele possa muito imaginar. (Taí o velho Goethe, já em vida aclamado como a glória da Alemanha, perdidamente apaixonado por uma mocinha de menos de vinte anos, que não me deixa mentir.) Isso porque vocês, leitora, valem muitíssimo mais que qualquer uma daquelas coisas. Podem ser menos geniais que Newton. Mas é que a profundidade de vocês é de outra ordem. Para te ser franco, nós, a rigor, sem o nosso intelecto não somos nada. Mais: corremos de um lado para o outro, lutamos até a morte e descobrimos verdades intrincadíssimas porque temos de fazer alguma coisa para sermos algo, e de preferência algo grandioso, porque assim seremos verdadeiros homens para vocês. Se nossa vida interior fosse maravilhosa, haveria necessidade de tantas coisas desse tipo? Já vocês, bem, vocês não precisam de nada disso porque por si mesmas são tudo, incluindo a gente, pois nós só nos encontramos em plenitude no coração de vocês. Um homem só é de fato homem quando alguma mulher assim o percebe. E ser público é coisa nossa, porque o interior pertence a vocês. Não é à toa que os nobres medievais consideravam o estudo um tanto efeminado, já que o estudo tem algo de interior, portanto feminino. Só que vocês, minha amiga, são de outra ordem. Tanto é verdade que a mulher menos considerada é aquela mais próxima de nós: é a mulher pública, a puta. Ela é menos mulher que vocês. Exposta a todos, sem o menor segredo, é como o homem que está aí, na tribuna, na imprensa, na TV, que fora seus afazeres não tem tanta intimidade. Não há muito mais a revelar de si mesmo. Nossa vida é menos vida. Já a de vocês é todo o contrário; porque vocês têm um interior mais profundo e melhor trabalhado. Para vocês foi dada a intimidade e a sensiblidade. Não é mera coincidência que quem costuma cuidar das coisas de fora, exteriores, somos nós, enquanto vocês cuidam daquilo que é mais particular, a casa. Nada mais lógico. Também não é mera coincidência que são vocês que nos acalmam tão só com suas presenças, apenas sendo vocês mesmas, sem agir. Sem a mulher o homem viveria profundamente desorganizado. Até o próprio Deus disse: "Não é bom que o homem viva só". Então no fundo vocês têm o direito de reclamar de nós sim, porque são vocês, sem precisar discursar ou subir em palanques, que nos civilizam. Mas não te esqueça, amiga leitora, que vocês andam esquecendo da própria vocação. Só não reclame sendo relapsa, porque isso seria a ruína do mundo.
Thursday, June 01, 2006
E de repente me vi dizendo coisas sobre Bach
Eu ia dizer alguma coisa qualquer mas até perdi o rumo da meada quando comecei a ouvir a Partita No.2 de J.S. Bach.
Vou dizer uma coisa a ti, leitor. Nunca ouvi uma música de Bach e achei mais ou menos. Foi sempre de ótimo para cima. O sujeito tem mais de mil obras. É uma coisa extremamente espantosa. Já tentei, juro, ser o ouvinte mais chato do mundo, e nada, nadinha me fazia achar alguma coisa ruim. Até Beethoven e Mozart pagaram seus tributos ao mau gosto. E Bach? Coisa alguma. É um negócio impressionante. Mesmo que você vá ouvir alguma música dele que nunca escutou, criando toda uma série de expectativas, você será surpreendido inevitavelmente. Todo tiro no escuro acerta alguma preciosidade.
Levando-se em consideração a quantidade de obras que chegaram até nós, era de se esperar que notássemos em algum ponto algo destoante, um leve escorregão completamente justificável. Por exemplo, algo ruim que pudesse ser explicado pela sua inexperiência, por algum sacrifício da qualidade às exigências do tempo, sei lá. Nada mais diverso. Veja, leitor, você pode pegar qualquer uma de suas músicas mais antigas, para logo em seguida ouvir uma das suas últimas: a impressão que dá é que ele sempre foi um mestre totalmente excepcional. Uma cantata como Christ lag in Todes Banden (Cristo jazia nos grilhões da morte), que é uma de suas obras mais antigas que conhecemos, é tão magnífica quanto qualquer cantata muito posterior.
Gustavo Corção dizia que a obra do mestre tinha um caráter de homilia. Isso porque toda ela tem um indiscutível caráter de lição, de ensinamento. O próprio Corção afirmava: "Sua obra nos deixa sentir a hierarquia." É como se ouvíssemos os fundamentos da música, o que aliás não deixa de ser verdade quando lembramos de uma composição como o Cravo Bem Temperado.
Na minha opinião, ouvir a Missa em si menor é um dos melhores exemplos do que estou dizendo. É um ensinamento musical e religoso ao mesmo tempo. Não sei que música vocal está no mesmo nível daquela. É de um sentimento religioso tão poderoso, uma devoção tão autêntica, um senso de hierarquia tão claro, uma beleza tão incrível, que, por mais que você a ouça, você não acredita que foi possível que alguém concebesse uma coisa dessas e transformasse em música. Não foi à toa que alguns disseram que tal música converte até ateu.
Ficam aqui as músicas supracitadas como sugestões, embora haja muitas outras de Bach que valem a pena escutar.
Vou dizer uma coisa a ti, leitor. Nunca ouvi uma música de Bach e achei mais ou menos. Foi sempre de ótimo para cima. O sujeito tem mais de mil obras. É uma coisa extremamente espantosa. Já tentei, juro, ser o ouvinte mais chato do mundo, e nada, nadinha me fazia achar alguma coisa ruim. Até Beethoven e Mozart pagaram seus tributos ao mau gosto. E Bach? Coisa alguma. É um negócio impressionante. Mesmo que você vá ouvir alguma música dele que nunca escutou, criando toda uma série de expectativas, você será surpreendido inevitavelmente. Todo tiro no escuro acerta alguma preciosidade.
Levando-se em consideração a quantidade de obras que chegaram até nós, era de se esperar que notássemos em algum ponto algo destoante, um leve escorregão completamente justificável. Por exemplo, algo ruim que pudesse ser explicado pela sua inexperiência, por algum sacrifício da qualidade às exigências do tempo, sei lá. Nada mais diverso. Veja, leitor, você pode pegar qualquer uma de suas músicas mais antigas, para logo em seguida ouvir uma das suas últimas: a impressão que dá é que ele sempre foi um mestre totalmente excepcional. Uma cantata como Christ lag in Todes Banden (Cristo jazia nos grilhões da morte), que é uma de suas obras mais antigas que conhecemos, é tão magnífica quanto qualquer cantata muito posterior.
Gustavo Corção dizia que a obra do mestre tinha um caráter de homilia. Isso porque toda ela tem um indiscutível caráter de lição, de ensinamento. O próprio Corção afirmava: "Sua obra nos deixa sentir a hierarquia." É como se ouvíssemos os fundamentos da música, o que aliás não deixa de ser verdade quando lembramos de uma composição como o Cravo Bem Temperado.
Na minha opinião, ouvir a Missa em si menor é um dos melhores exemplos do que estou dizendo. É um ensinamento musical e religoso ao mesmo tempo. Não sei que música vocal está no mesmo nível daquela. É de um sentimento religioso tão poderoso, uma devoção tão autêntica, um senso de hierarquia tão claro, uma beleza tão incrível, que, por mais que você a ouça, você não acredita que foi possível que alguém concebesse uma coisa dessas e transformasse em música. Não foi à toa que alguns disseram que tal música converte até ateu.
Ficam aqui as músicas supracitadas como sugestões, embora haja muitas outras de Bach que valem a pena escutar.
Wednesday, May 31, 2006
Pequena e incompleta nota sobre a juventude
Eu disse há alguns posts atrás que vivo com um pé no passado. Ora, tenho 24 anos, portanto jovem. E todos os jovens têm uma característica específica: são demasiadamente impressionáveis. Portanto, nada mais natural que eu, com meus 24 anos, diga que vivo com pé no passado, porque é lógico que só digo uma coisa dessas porque alguém de algumas gerações mais avançadas que a minha me causou essa impressão. Pode ser que a questão de saber quem da geração passada me influenciou seja válida, mas agora ela é acessória. Dispensemos por ora aquilo que nos atrapalhe a voar e sigamos nosso rumo.
Para comprovar o que eu disse, conto uma conversa que tive com um professor. Certa vez eu dizia que estava querendo ler tal livro do Maritain. Então ele me disse: "Por isso e por outras coisas que você me diz, suponho que você conhece alguém mais velho que te fale sobre esses autores." Ora, Maritain era um autor muito lido e discutido há algumas décadas atrás. Meu conhecimento a seu respeito se deu através de autores que lhe eram contemporâneos, os quais hoje em dia teriam a idade para serem meus bisavós. É verdade que uma ou outra pessoa não tão velha mas ainda assim de outra geração mo indicou, o que corrobora meu argumento. Então minhas referências começaram a ser feitas a partir de gente de uma geração diferente da minha, e em muitos casos bem diferente. Nada mais natural que meu professor achasse que havia algum senhor que mo indicasse.
Talvez algum leitor imagine que o que digo seja uma restrição desnecessária, pois qualquer um, independente da idade, pode ser influenciado fortemente por outro. Isso é verdade em termos. Quanto mais velhos somos, menos propensos estamos a ir conforme a maré. A teimosia dos velhinhos é notória, assim como a impaciência juvenil. Por outro lado, o caro Ortega y Gasset já dizia que ao longo dos anos temos a tendência de confiar cada vez menos nos nossos sentidos e de nos apegarmos cada vez mais aos conceitos e coisas que estão na nossa cabeça. Vamos ficando resistentes às coisas ao nosso redor com o passar dos anos. Antes não: tudo é intrigante, tudo parece ter um colorido mais especial. Nossos sentidos parecem centuplicar cada coisa percebida, e tudo parece ser mais agradável, ou seja, mais propenso de ser amado, portanto investigado. Os sábios conseguem conservar esse dom mesmo quando muito idosos, embora ele seja contrabalanceado por aquela resistência mencionada por Ortega. De qualquer modo, em nós jovens essa qualidade se faz muitíssimo mais presente e radical. Ela se espalha por todo o nosso ser. Ai daqueles de nós que já pensam como velhinhos gagás, fechados em si e inimigos do mundo!
Esse nosso deslumbramento faz com que sejamos, normalmente, bons receptores. Estamos mais abertos às coisas, somos mais livres, e portanto somos muito mais irresponsáveis. Não quero me alongar sobre esta última nota. Meu ponto é o seguinte: somos bastante passivos quanto às informações que recebemos. E isso indica outra coisa, mais profunda: nos falta autenticidade.
Tal coisa me parece extremamente evidente. Se somos tão passivos, se recebemos tudo e não criamos nada de novo e de próprio, então agimos e pensamos segundo a ação e pensamento de outros. No máximo, podemos escolher entre o bom e o mau exemplo. Não podemos nos dar ao luxo de olhar para a nossa própria obra e dizer: "isto é especificamente meu!", como certamente Deus fez quando completou a Criação. Há, no máximo, potencialidades latentes, o que também comprova minha tese. Se realmente algo não está em ato, então esse algo não passa de uma vaga promessa.
O velho Aristóteles, quando era jovem, sintetizou bem esse caráter juvenil quando, na Retórica, disse que os jovens são educados segundo "a lei do convencional" (Ret, II, 12). À primeira vista essa afirmação pode se afigurar estranha. Não é comum vermos jovens contestando valores? Não são eles que trazem novidades?
Não é o jovem que contesta valores. Ele é apenas o local por onde ressoam as idéias de pessoas mais experientes. O século XX foi marcado por jovens na rua e em movimentos revolucionários. Mas por trás da Juventude Hitlerista estavam as idéias de Hitler, que não era nenhum moço, e, por trás dele, a pseudociência e o ressentimento da ralé para com os judeus. A propósito da relação entre Hitler e os jovens, certa vez vi um cartaz nazista que demonstrava de modo eloqüente como isso se dava. Nele havia um garoto num canto e, no fundo de todo o cartaz, em preto e branco, tal como uma sombra opressiva, o rosto em perfil do ditador. Os nazistas realmente entendiam muito bem de propaganda. Mas a manipulação de jovens não é característica só de nazistas. De modo semelhante, por trás dos jovens do Maio de 68 estava Sartre (e toda uma série de professores maníacos). Não é o jovem, portanto, com toda a sua ingenuidade, autor de algo genuíno, pois como ele não é autêntico, não faz nada que lhe seja realmente seu, exceto, é evidente, as questões mais diretas que envolvem responsabilidade pessoal pelos atos que ele mesmo executa. E mesmo assim há em muitos casos certos atenuantes explicáveis pela idade. Mas não estou discutindo isso. O problema é a autenticidade de suas obras. Eis aqui o seu problema mais angustiante, porque os mais velhos estão para ele como a idéia está para a matéria.
A própria mania que nós temos de auto-afirmação é reflexo dessa nossa radical inconsistência. Da mesma forma que todo o cristão sempre tem em vista o outro mundo, o jovem tem de viver para a sua própria madurez. Nosso estado é como um vislumbre do futuro, porque nós ainda não somos de fato: estamos prestes a ser, como se não passássemos de esboços andando para lá e para cá. Daí que se alguém fracassa na vida, fracassa porque não conseguiu ser mais que esboço de si mesmo. Vira uma caricatura de si mesmo.
Por outro lado, não é verdade que o jovem traz algo de novo. Pelo contrário. Não há nada mais óbvio que o comportamento juvenil. Nós mesmos temos a tendência de andar em rebanho, temos um comportamento padronizado segundo nosso grupo, etc. Não é mera coincidência, portanto, o fato de nós termos aparecido tanto na história como nunca acontecer ao mesmo tempo em que virávamos multidões apoiando revoluções em todos os lugares. Ainda em movimentos menos turbulentos, como no caso dos cara-pintadas, isso é evidente. Um simples raciocínio a priori ajuda a entender isso. Certamente somos agora uma idéia original encarnada de algum homem maduro de ontem ou mesmo de hoje. É como se fôssemos uma espécie de conclusão de um silogismo mais ou menos pretérito.
Se nós jovens tivéssemos realmente como própria e particular a maior parte de nossas idéias, certamente não haveríamos de trocá-las tão impunemente. O velho Goethe dizia, em tom complacente, que os jovens se caracterizam por suas promessas não cumpridas. E novamente vejamos o que Aristóteles tem a dizer sobre nós: "Também [os jovens] são facilmente variáveis e em seguida se cansam de seus prazeres, e também os apetecem com violência, porém também se acalmam rapidamente." Isso explica porque temos a tendência de marcar um compromisso para logo em seguida desmarcá-lo, ou porque pulamos de idéia em idéia como macaquinhos de galho em galho. Devo, no entanto, alertar o leitor que Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a juventude pode ser também uma disposição de caráter não relacionada com a idade. Isso quer dizer que se um sujeito com muita idade ainda é volúvel, ele permanece jovem no pior aspecto. Hoje em dia isso virou praga. São os nossos famosos "coroas enxutos", que teimam em se comportar como adolescentes – geralmente se esforçando em manter aquilo que há de pior –, muito embora o tipo "rapazinho mimado" seja o caráter predominante de nossa época. (Compare o leitor nossa época com a dos medievais. Aquela gente se sentia velhíssima e no entanto morria muito mais cedo que nós.) Só lutando podemos nos livrar do predomínio deste caráter, ou melhor, desta forma de ser homem. Infelizmente isso também depõe contra nós, já que, por natureza, estamos mais propícios a fazer só o que nos agrada ao invés de aquilo que deve ser feito. Conquista requer tempo e experiência, dois atributos que geralmente nos faltam. Mas as observações aristotélicas acerca da juventude propriamente dita são gerais. Há espaço para exceções. Nada mais claro que suas própria palavras: "[o jovem] tende a seguir suas paixões". Ótimo exemplo de exceção é o próprio filósofo, que, segundo consta, e para a minha inveja e vergonha, era um mestre da teoria da retórica e já demonstrava grande domínio lógico apenas com a minha idade. A Retórica foi escrita quando ele tinha 24 anos. Aristóteles era um jovem maduro.
(Talvez um dia continue...)
Para comprovar o que eu disse, conto uma conversa que tive com um professor. Certa vez eu dizia que estava querendo ler tal livro do Maritain. Então ele me disse: "Por isso e por outras coisas que você me diz, suponho que você conhece alguém mais velho que te fale sobre esses autores." Ora, Maritain era um autor muito lido e discutido há algumas décadas atrás. Meu conhecimento a seu respeito se deu através de autores que lhe eram contemporâneos, os quais hoje em dia teriam a idade para serem meus bisavós. É verdade que uma ou outra pessoa não tão velha mas ainda assim de outra geração mo indicou, o que corrobora meu argumento. Então minhas referências começaram a ser feitas a partir de gente de uma geração diferente da minha, e em muitos casos bem diferente. Nada mais natural que meu professor achasse que havia algum senhor que mo indicasse.
Talvez algum leitor imagine que o que digo seja uma restrição desnecessária, pois qualquer um, independente da idade, pode ser influenciado fortemente por outro. Isso é verdade em termos. Quanto mais velhos somos, menos propensos estamos a ir conforme a maré. A teimosia dos velhinhos é notória, assim como a impaciência juvenil. Por outro lado, o caro Ortega y Gasset já dizia que ao longo dos anos temos a tendência de confiar cada vez menos nos nossos sentidos e de nos apegarmos cada vez mais aos conceitos e coisas que estão na nossa cabeça. Vamos ficando resistentes às coisas ao nosso redor com o passar dos anos. Antes não: tudo é intrigante, tudo parece ter um colorido mais especial. Nossos sentidos parecem centuplicar cada coisa percebida, e tudo parece ser mais agradável, ou seja, mais propenso de ser amado, portanto investigado. Os sábios conseguem conservar esse dom mesmo quando muito idosos, embora ele seja contrabalanceado por aquela resistência mencionada por Ortega. De qualquer modo, em nós jovens essa qualidade se faz muitíssimo mais presente e radical. Ela se espalha por todo o nosso ser. Ai daqueles de nós que já pensam como velhinhos gagás, fechados em si e inimigos do mundo!
Esse nosso deslumbramento faz com que sejamos, normalmente, bons receptores. Estamos mais abertos às coisas, somos mais livres, e portanto somos muito mais irresponsáveis. Não quero me alongar sobre esta última nota. Meu ponto é o seguinte: somos bastante passivos quanto às informações que recebemos. E isso indica outra coisa, mais profunda: nos falta autenticidade.
Tal coisa me parece extremamente evidente. Se somos tão passivos, se recebemos tudo e não criamos nada de novo e de próprio, então agimos e pensamos segundo a ação e pensamento de outros. No máximo, podemos escolher entre o bom e o mau exemplo. Não podemos nos dar ao luxo de olhar para a nossa própria obra e dizer: "isto é especificamente meu!", como certamente Deus fez quando completou a Criação. Há, no máximo, potencialidades latentes, o que também comprova minha tese. Se realmente algo não está em ato, então esse algo não passa de uma vaga promessa.
O velho Aristóteles, quando era jovem, sintetizou bem esse caráter juvenil quando, na Retórica, disse que os jovens são educados segundo "a lei do convencional" (Ret, II, 12). À primeira vista essa afirmação pode se afigurar estranha. Não é comum vermos jovens contestando valores? Não são eles que trazem novidades?
Não é o jovem que contesta valores. Ele é apenas o local por onde ressoam as idéias de pessoas mais experientes. O século XX foi marcado por jovens na rua e em movimentos revolucionários. Mas por trás da Juventude Hitlerista estavam as idéias de Hitler, que não era nenhum moço, e, por trás dele, a pseudociência e o ressentimento da ralé para com os judeus. A propósito da relação entre Hitler e os jovens, certa vez vi um cartaz nazista que demonstrava de modo eloqüente como isso se dava. Nele havia um garoto num canto e, no fundo de todo o cartaz, em preto e branco, tal como uma sombra opressiva, o rosto em perfil do ditador. Os nazistas realmente entendiam muito bem de propaganda. Mas a manipulação de jovens não é característica só de nazistas. De modo semelhante, por trás dos jovens do Maio de 68 estava Sartre (e toda uma série de professores maníacos). Não é o jovem, portanto, com toda a sua ingenuidade, autor de algo genuíno, pois como ele não é autêntico, não faz nada que lhe seja realmente seu, exceto, é evidente, as questões mais diretas que envolvem responsabilidade pessoal pelos atos que ele mesmo executa. E mesmo assim há em muitos casos certos atenuantes explicáveis pela idade. Mas não estou discutindo isso. O problema é a autenticidade de suas obras. Eis aqui o seu problema mais angustiante, porque os mais velhos estão para ele como a idéia está para a matéria.
A própria mania que nós temos de auto-afirmação é reflexo dessa nossa radical inconsistência. Da mesma forma que todo o cristão sempre tem em vista o outro mundo, o jovem tem de viver para a sua própria madurez. Nosso estado é como um vislumbre do futuro, porque nós ainda não somos de fato: estamos prestes a ser, como se não passássemos de esboços andando para lá e para cá. Daí que se alguém fracassa na vida, fracassa porque não conseguiu ser mais que esboço de si mesmo. Vira uma caricatura de si mesmo.
Por outro lado, não é verdade que o jovem traz algo de novo. Pelo contrário. Não há nada mais óbvio que o comportamento juvenil. Nós mesmos temos a tendência de andar em rebanho, temos um comportamento padronizado segundo nosso grupo, etc. Não é mera coincidência, portanto, o fato de nós termos aparecido tanto na história como nunca acontecer ao mesmo tempo em que virávamos multidões apoiando revoluções em todos os lugares. Ainda em movimentos menos turbulentos, como no caso dos cara-pintadas, isso é evidente. Um simples raciocínio a priori ajuda a entender isso. Certamente somos agora uma idéia original encarnada de algum homem maduro de ontem ou mesmo de hoje. É como se fôssemos uma espécie de conclusão de um silogismo mais ou menos pretérito.
Se nós jovens tivéssemos realmente como própria e particular a maior parte de nossas idéias, certamente não haveríamos de trocá-las tão impunemente. O velho Goethe dizia, em tom complacente, que os jovens se caracterizam por suas promessas não cumpridas. E novamente vejamos o que Aristóteles tem a dizer sobre nós: "Também [os jovens] são facilmente variáveis e em seguida se cansam de seus prazeres, e também os apetecem com violência, porém também se acalmam rapidamente." Isso explica porque temos a tendência de marcar um compromisso para logo em seguida desmarcá-lo, ou porque pulamos de idéia em idéia como macaquinhos de galho em galho. Devo, no entanto, alertar o leitor que Aristóteles, na Ética a Nicômaco, diz que a juventude pode ser também uma disposição de caráter não relacionada com a idade. Isso quer dizer que se um sujeito com muita idade ainda é volúvel, ele permanece jovem no pior aspecto. Hoje em dia isso virou praga. São os nossos famosos "coroas enxutos", que teimam em se comportar como adolescentes – geralmente se esforçando em manter aquilo que há de pior –, muito embora o tipo "rapazinho mimado" seja o caráter predominante de nossa época. (Compare o leitor nossa época com a dos medievais. Aquela gente se sentia velhíssima e no entanto morria muito mais cedo que nós.) Só lutando podemos nos livrar do predomínio deste caráter, ou melhor, desta forma de ser homem. Infelizmente isso também depõe contra nós, já que, por natureza, estamos mais propícios a fazer só o que nos agrada ao invés de aquilo que deve ser feito. Conquista requer tempo e experiência, dois atributos que geralmente nos faltam. Mas as observações aristotélicas acerca da juventude propriamente dita são gerais. Há espaço para exceções. Nada mais claro que suas própria palavras: "[o jovem] tende a seguir suas paixões". Ótimo exemplo de exceção é o próprio filósofo, que, segundo consta, e para a minha inveja e vergonha, era um mestre da teoria da retórica e já demonstrava grande domínio lógico apenas com a minha idade. A Retórica foi escrita quando ele tinha 24 anos. Aristóteles era um jovem maduro.
(Talvez um dia continue...)
Friday, May 26, 2006
Novo blog no "Parada Obrigatória"
Amigos, há algum tempo descobri um blog legal. Seu nome é Bona Musica e, como o nome indica, trata de música (dããã). Até onde li, principalmente clássica (ou erudita, ou ocidental, ou... ah, deixemos para lá).
É um blog interessante, porque essencialmente didático, mas sem tratar o leitor como um demente. É escrito em conjunto pela dupla portuguesa Viktor e Pamina, ambos ligados à área musical. (Supondo que sejam anônimos, nunca entendi bem porque prezar tanto assim o mistério. Ora, será que pensam que serão defenestrados? E vejam que legal, sempre quis ter uma desculpa para escrever "defenestrados". Repitam comigo: de-fe-nes-tra-dos. De novo: de-fe...) Melhor dizendo: bem escrito. É agradável, sempre com exemplos sonoros das músicas tratadas em questão. E para os preguiçosos, é uma mão na roda, já que os posts são curtinhos.
A iniciativa é boa, fazendo parte daquela idéia de como apresentar música clássica (ou erudita, ou...) a todos sem parecer mala sem alça. (O programa do Artur da Távola ia por esse caminho, Quem tem medo de música clássica?, na TV Senado. Não sei se ainda existe. Passava, se não me falha a memória, sábado às 18h. Eu gostei tanto da idéia do Távola que até votei nele para o Senado. Quem quiser ganhar meu voto já sabe.) Quando digo "todos", me refiro a gente que tem curiosidade de aprender mais sobre o que ouve mas não sabe xongas de teoria ou nem mesmo de coisas mais simples, como por exemplo que é um naipe, um movimento, etc.
Ergo minha caneca cheia de sorvete napolitano desejando longa vida ao Bona Musica.
É um blog interessante, porque essencialmente didático, mas sem tratar o leitor como um demente. É escrito em conjunto pela dupla portuguesa Viktor e Pamina, ambos ligados à área musical. (Supondo que sejam anônimos, nunca entendi bem porque prezar tanto assim o mistério. Ora, será que pensam que serão defenestrados? E vejam que legal, sempre quis ter uma desculpa para escrever "defenestrados". Repitam comigo: de-fe-nes-tra-dos. De novo: de-fe...) Melhor dizendo: bem escrito. É agradável, sempre com exemplos sonoros das músicas tratadas em questão. E para os preguiçosos, é uma mão na roda, já que os posts são curtinhos.
A iniciativa é boa, fazendo parte daquela idéia de como apresentar música clássica (ou erudita, ou...) a todos sem parecer mala sem alça. (O programa do Artur da Távola ia por esse caminho, Quem tem medo de música clássica?, na TV Senado. Não sei se ainda existe. Passava, se não me falha a memória, sábado às 18h. Eu gostei tanto da idéia do Távola que até votei nele para o Senado. Quem quiser ganhar meu voto já sabe.) Quando digo "todos", me refiro a gente que tem curiosidade de aprender mais sobre o que ouve mas não sabe xongas de teoria ou nem mesmo de coisas mais simples, como por exemplo que é um naipe, um movimento, etc.
Ergo minha caneca cheia de sorvete napolitano desejando longa vida ao Bona Musica.
Thursday, May 25, 2006
A estratégia e tática do Diabo
A estratégia é de uma simplicidade assustadora. Usa-se a caridade, um dos princípios do Cristianismo, para destruir os próprios cristãos.
A tática já é um pouco tortuosa. Cria-se um problema de perspectiva: ninguém sabe mais até onde vai o amar ao próximo como a si mesmo e o amar a Deus acima de todas as coisas. As relações mútuas entre uma idéia e outra acabam se tornando nebulosas e até contraditórias. Então surge uma espécie de religião monstrenga, como se fosse um ogro de duas cabeças. Cada cabeça corresponde a uma prática diversa. Uns cedem tudo, variando apenas a celeridade com que buscam agradar a todos. Não conseguem nem mesmo perceber, graças a racionalizações, o perigo que estão correndo, considerando até que estão vivendo segundo as riquezas da verdadeira fé, embora estejam de fato querendo agradar de algum jeito os inimigos mais odiosos e jurados da Igreja. Já outros são tão pior quanto. Tosca e vaidosamente, atacam qualquer um para, logo em seguida, encastelarem-se em seu mundo filisteu, com a Bíblia debaixo do braço, crentes que agem como autênticos monges-guerreiros, despreendidos do mundo.
A tática já é um pouco tortuosa. Cria-se um problema de perspectiva: ninguém sabe mais até onde vai o amar ao próximo como a si mesmo e o amar a Deus acima de todas as coisas. As relações mútuas entre uma idéia e outra acabam se tornando nebulosas e até contraditórias. Então surge uma espécie de religião monstrenga, como se fosse um ogro de duas cabeças. Cada cabeça corresponde a uma prática diversa. Uns cedem tudo, variando apenas a celeridade com que buscam agradar a todos. Não conseguem nem mesmo perceber, graças a racionalizações, o perigo que estão correndo, considerando até que estão vivendo segundo as riquezas da verdadeira fé, embora estejam de fato querendo agradar de algum jeito os inimigos mais odiosos e jurados da Igreja. Já outros são tão pior quanto. Tosca e vaidosamente, atacam qualquer um para, logo em seguida, encastelarem-se em seu mundo filisteu, com a Bíblia debaixo do braço, crentes que agem como autênticos monges-guerreiros, despreendidos do mundo.
Saturday, May 20, 2006
Post curto feito perninha de barata
Três coisas fazem muita falta e só são periféricas a quem tem preguiça de imaginar. Primeiro, todo mundo devia saber tocar um instrumento e, obrigatoriamente, as mulheres o piano em casa, muito embora, como não sei quem já disse, o passar do tempo e o gramofone nos pouparam de ouvir senhoritas de vozes esganiçadas e as subseqüentes obrigações de lhes render estóica e cavalheirescamente palmas. Segundo, todos tinham de usar armas. Todo cavalheiro deveria ter uma colt à mão. Em último lugar, e já dito melancolicamente por mim diversas vezes, a confusão do mundo deveria ser menos onipresente. Alguém consegue imaginar um eremita no Rio de Janeiro? Mas não reclamemos de tudo. Além de terem concebido a Internet e câmeras digitais, por essa mesma Internet é possível lermos uma entrevista com um ermitão. Não é portanto o mundo admirável pelos seus caminhos tortos mas certeiros?
Aqui vou eu, oprimido pelo sono. Bom dia, leitor.
Aqui vou eu, oprimido pelo sono. Bom dia, leitor.
Saturday, May 13, 2006
Criticando a marteladas
Assassinos por Natureza, ô filme escroto.
Dei uma rápida olhadela nalguns sites e li coisas magníficas: "'Assassinos por natureza' retrata a multiplicidade e a complexificação da violência, baseada na construção do mito bandido na TV etc, etc."; "'Assassinos por Natureza' é considerado um dos filmes mais importantes da década de noventa, etc etc."; "ASSASSINOS POR NATUREZA era uma viagem lisérgica, etc, etc" (observação: quem escreveu isso não estava sendo sarcástico; era um elogio); "Um filme como ASSASSINOS POR NATUREZA, de Oliver Stone, por exemplo, consegue abordar o tema nietzscheano da naturalização dos valores de uma maneira situacional, muito melhor fundada e mergulhada na coisa mesma do que muitos tratados sobre Nietzsche."
Não vou nem contar os "até que não é ruim", "gosto demais desse filme" ou "ele é super-hiper-cool" que catei aqui e acolá. O fato é que esse filme é uma bosta. É do tipo "Pulp Fiction" quanto à violência retardada, e isso me faz lembrar, meio que de longe, o "Laranja Mecânica" (dizem que "Taxi Driver" está nesse baixo mundo também, e obviamente também celebrado como filme cult por sujeitos que têm a sensibilidade de um mosquito da dengue).
O que é mais cândido é que ele se presta a ser uma crítica da glamourização do bandido. Como ele critica? Glamourizando o bandido e rebaixado quase literalmente o mundo inteiro ao nível de psicopatas por tabela. Críticas desse tipo, pela experiência que todos nós temos, só poderia vir de uma espécie de cidadão: o esquerdizóide. Sujeitos dessa classe têm o costume de deturpar a realidade e criticá-la a partir de suas psicoses. É a crítica, por excelência, do diabo: somos todos depravados, perdidos, portanto em essência maus. A maldade está repartida eqüitativamente entre nós, e o mais puro homem é essencialmente igual ao mais cafajeste. Nessa ótica tresloucada, há - que coisa paradoxal! - uma classe de gente que se considera iluminada, está acima do bem e do mal, que pode, à parte de seu lado inferior, apontar o dedo inquisidor para o homem moribundo e gritar com toda força cada um de seus mais torpes pecados, enquanto ela mesma considera que está fazendo um serviço divino, um opus dei às avessas. Eis o pacto demoníaco realizado por baixo de nossas barbas. Somente um sujeito inconseqüente ou totalmente pervertido compactuaria com uma coisa tão lamentável. Daí a impressão que tive, assistindo a esse filme, que ele parecia obra de um jovem irresponsável que julgava possuir algo interessante para nos revelar sobre nós mesmos.
Paulo Francis já dizia que Oliver Stone era retardado por causa de seu filme "JFK". Nunca o assisti, mas, a julgar pelo "Assassinos por Natureza", tenho a enorme tentação de concordar com o crítico. Bom, não serei tão radical, afinal de contas o passar dos anos às vezes nos purga de nossas tolices lamentáveis, e eu já tenho muitas na minha conta.
Dei uma rápida olhadela nalguns sites e li coisas magníficas: "'Assassinos por natureza' retrata a multiplicidade e a complexificação da violência, baseada na construção do mito bandido na TV etc, etc."; "'Assassinos por Natureza' é considerado um dos filmes mais importantes da década de noventa, etc etc."; "ASSASSINOS POR NATUREZA era uma viagem lisérgica, etc, etc" (observação: quem escreveu isso não estava sendo sarcástico; era um elogio); "Um filme como ASSASSINOS POR NATUREZA, de Oliver Stone, por exemplo, consegue abordar o tema nietzscheano da naturalização dos valores de uma maneira situacional, muito melhor fundada e mergulhada na coisa mesma do que muitos tratados sobre Nietzsche."
Não vou nem contar os "até que não é ruim", "gosto demais desse filme" ou "ele é super-hiper-cool" que catei aqui e acolá. O fato é que esse filme é uma bosta. É do tipo "Pulp Fiction" quanto à violência retardada, e isso me faz lembrar, meio que de longe, o "Laranja Mecânica" (dizem que "Taxi Driver" está nesse baixo mundo também, e obviamente também celebrado como filme cult por sujeitos que têm a sensibilidade de um mosquito da dengue).
O que é mais cândido é que ele se presta a ser uma crítica da glamourização do bandido. Como ele critica? Glamourizando o bandido e rebaixado quase literalmente o mundo inteiro ao nível de psicopatas por tabela. Críticas desse tipo, pela experiência que todos nós temos, só poderia vir de uma espécie de cidadão: o esquerdizóide. Sujeitos dessa classe têm o costume de deturpar a realidade e criticá-la a partir de suas psicoses. É a crítica, por excelência, do diabo: somos todos depravados, perdidos, portanto em essência maus. A maldade está repartida eqüitativamente entre nós, e o mais puro homem é essencialmente igual ao mais cafajeste. Nessa ótica tresloucada, há - que coisa paradoxal! - uma classe de gente que se considera iluminada, está acima do bem e do mal, que pode, à parte de seu lado inferior, apontar o dedo inquisidor para o homem moribundo e gritar com toda força cada um de seus mais torpes pecados, enquanto ela mesma considera que está fazendo um serviço divino, um opus dei às avessas. Eis o pacto demoníaco realizado por baixo de nossas barbas. Somente um sujeito inconseqüente ou totalmente pervertido compactuaria com uma coisa tão lamentável. Daí a impressão que tive, assistindo a esse filme, que ele parecia obra de um jovem irresponsável que julgava possuir algo interessante para nos revelar sobre nós mesmos.
Paulo Francis já dizia que Oliver Stone era retardado por causa de seu filme "JFK". Nunca o assisti, mas, a julgar pelo "Assassinos por Natureza", tenho a enorme tentação de concordar com o crítico. Bom, não serei tão radical, afinal de contas o passar dos anos às vezes nos purga de nossas tolices lamentáveis, e eu já tenho muitas na minha conta.
Friday, May 12, 2006
Reflexões melancólicas sobre o Rio
Não sei dizer se em tempos passados o mundo costumava entrar com mais sem-cerimônia que a habitual em nossas casas. De qualquer modo, antigamente havia os ermos lugares para onde acorriam, como o leitor pode concluir antecipadamente, os ermitões. Lá no alto penhasco, na densa floresta ou isolada ilha, havia refúgio. Havia também um dado que hoje não temos: o tempo, comparado com o nosso, parecia um velhinho de bengalas. Tudo acontecia devagar. As guerras duravam cem anos, os homens estudavam por uns vinte anos na universidade, Cícero discursava no Senado por horas. Mas, que coisa curiosa!, ainda que a arte fosse longa, a vida conseguia ser mais breve que a de hoje. Breve, porém vivida como se fôssemos eternos.
Essa serena e imponente calmaria, que podemos ainda contemplar numa melancólica ruína ateniense ou romana, virou pó. Os tempos mudaram demais. E todo o tumulto que acontecia por baixo daquele andar vagaroso a nós parece algo menor. Mesmo um ambicioso como Marco Antônio, aos olhos de hoje, parece antes um líder de centro acadêmico universitário que um general populista romano. Hoje, qualquer zebedeu arregimenta massas imensas e delira publicamente como se fosse profeta. Lembremos do cabo austríaco ou do operário sem dedo.
Vejamos um exemplo retirado de minha própria experiência. Segunda-feira última, estava eu em casa quando fui surpreendido por uma gritaria. Pensei que minha Roma, que é meu prédio, estava sendo invadida por um bando de arruaceiros, os hunos de todos os tempos. Ora, se havia invasão, era metafórica: a bagunça ocorria há muitos e infelizmente não maiores metros. Como toda bagunça tem o dom de repercutir com intensidade por tudo ao seu redor, mais ou menos como um terremoto, então era realmente como se houvesse um comício na porta de minha casa. Minha casa, meu mosteiro! E se nem mesmo as casas piedosas escapam da turba violenta, que diria meu lar infestado pelo século!
Lembro que escutei uns zurros (porque pessoas não se comunicam aos gritos e urros), e o que era particularmente mais belo era que quem liderava aquela supina sem-educação não era outra pessoa senão nossa atual governadora. A senhora governadora liderava a gritaria, os xingamentos e as palavras de ordem. Eu era obrigado a ouvir tudo aquilo, porque não havia como eu fisicamente fugir. Sim, fisicamente: depois lembrei que seria mais sábio colocar uns fones de ouvido e ouvir música, coisa que prontamente o fiz. Meu espírito se afastou para lugares mais belos, se bem que levei muita chibatada até ele se fazer presente.
Leitor, essas considerações são melancólicas, o que está de acordo com meu caráter sentimental. Todavia, não é algo tão subjetivo assim. Realmente é uma pena quando sabemos que a cidade nem sempre foi assim, até porque nem sempre pessoas tão desavergonhadas tiveram a audácia de se candidatar a governador, muito menos ganhar. Coisas desse tipo aconteciam uma vez ou outra ao longo da história e só em momentos calamitosos. Hoje é lei. Sugiro ao leitor amigo a leitura d’A Rebelião das massas, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, para que entenda melhor o que quero dizer.
Sei que estarei incorrendo num adágio batidíssimo, mas a verdade me obriga a dizer que antes houve tempos melhores. É por esta razão que te peço paciência, caro leitor, para que leia comigo um texto de Gustavo Corção chamado Rio Antigo. Vejamos o que ele diz:
Usando um jargão platônico, todos nós participamos da boa e bela educação. Nós, seja qual época for, participamos da cidade celeste. E há épocas em que a boa e bela educação é praticada mais forte e naturalmente, de tal modo que transborda até em nossos atos mais simples e irrelevantes. É um estado natural de fleuma, por assim dizer. Abundam homens de notável caráter, só diferindo-se entre si pela grandeza demonstrada. Já constatava Hume, um fleumático, que Buffon, que era outro, tinha um ar de Marechal da França. A esse propósto, o caráter de Buffon, segundo Le Senne, poderia ser de um tipo da família do “fleumático majestoso”, cuja dignidade se faz patente “pela nobreza dos modos e do linguajar” (Le Senne, Traité de Caractérologie, 3a. ed, P.U.F., p. 522). Realmente os homens se comportavam como cavalheiros, até porque as mulheres eram, por assim dizer, mais exigentes (tema este que merece uma atenção especial, conforme o próprio Ortega y Gasset já chamou a atenção em seu livro Sobre el amor; ataquemos melhor esse assunto em outra ocasião). Sendo todas as mulheres como um ideal encarnado, todas pareciam princesas, e os homens necessariamente marechais da França ou algo em vias disso. (Daí vem a especial graça de toda uma série de personagens de Machado de Assis. Eles parecem especialmente cômicos quando comparados ao fundo em que se moviam. Só no séc. XIX que poderia surgir um Simão Bacamarte.) E mesmo o mais nervoso dos homens daquelas épocas gloriosas mais parece um fleumático crasso, um apático, perante os nossos irrequietos olhos modernos. Mesmo a poesia de um Villon, surgida numa época tão problemática quanto aquele fim de Idade Média, parece algo infinitamente aristocrático se comparada a muita coisa escrita hoje em dia. Nada mais natural, portanto, que, numa época em que vivemos curvados sob o peso de uma não sei qual angústia e não sei qual tristeza, nada mais natural que a política esteja tão infestada dessa coisa espessa e feia chamada “cafajestagem”.
Tenho algo em comum com aquele notório bigodudo alemão. Eu e ele temos um pé num tempo diferente do vivido. A diferença é que Nietzsche tinha uma mente póstuma. Eu nasci pretérito mas com o outro pé atoladíssimo no presente. É uma melancolia danada...
Essa serena e imponente calmaria, que podemos ainda contemplar numa melancólica ruína ateniense ou romana, virou pó. Os tempos mudaram demais. E todo o tumulto que acontecia por baixo daquele andar vagaroso a nós parece algo menor. Mesmo um ambicioso como Marco Antônio, aos olhos de hoje, parece antes um líder de centro acadêmico universitário que um general populista romano. Hoje, qualquer zebedeu arregimenta massas imensas e delira publicamente como se fosse profeta. Lembremos do cabo austríaco ou do operário sem dedo.
Vejamos um exemplo retirado de minha própria experiência. Segunda-feira última, estava eu em casa quando fui surpreendido por uma gritaria. Pensei que minha Roma, que é meu prédio, estava sendo invadida por um bando de arruaceiros, os hunos de todos os tempos. Ora, se havia invasão, era metafórica: a bagunça ocorria há muitos e infelizmente não maiores metros. Como toda bagunça tem o dom de repercutir com intensidade por tudo ao seu redor, mais ou menos como um terremoto, então era realmente como se houvesse um comício na porta de minha casa. Minha casa, meu mosteiro! E se nem mesmo as casas piedosas escapam da turba violenta, que diria meu lar infestado pelo século!
Lembro que escutei uns zurros (porque pessoas não se comunicam aos gritos e urros), e o que era particularmente mais belo era que quem liderava aquela supina sem-educação não era outra pessoa senão nossa atual governadora. A senhora governadora liderava a gritaria, os xingamentos e as palavras de ordem. Eu era obrigado a ouvir tudo aquilo, porque não havia como eu fisicamente fugir. Sim, fisicamente: depois lembrei que seria mais sábio colocar uns fones de ouvido e ouvir música, coisa que prontamente o fiz. Meu espírito se afastou para lugares mais belos, se bem que levei muita chibatada até ele se fazer presente.
Leitor, essas considerações são melancólicas, o que está de acordo com meu caráter sentimental. Todavia, não é algo tão subjetivo assim. Realmente é uma pena quando sabemos que a cidade nem sempre foi assim, até porque nem sempre pessoas tão desavergonhadas tiveram a audácia de se candidatar a governador, muito menos ganhar. Coisas desse tipo aconteciam uma vez ou outra ao longo da história e só em momentos calamitosos. Hoje é lei. Sugiro ao leitor amigo a leitura d’A Rebelião das massas, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, para que entenda melhor o que quero dizer.
Sei que estarei incorrendo num adágio batidíssimo, mas a verdade me obriga a dizer que antes houve tempos melhores. É por esta razão que te peço paciência, caro leitor, para que leia comigo um texto de Gustavo Corção chamado Rio Antigo. Vejamos o que ele diz:
Correndo os olhos pelo Rio Antigo, de Charles J. Dunlop, primeiro distraidamente, depois com atenção e a saudade despertadas, vi na fotografia de Augusto Malta, Marques Ferrez, George Leuzinger, E. A. Mortimer, e outros, sem sombra de dúvida, com a firme convicção de que não estava sendo vítima de uma injustiça ditada pelas lembranças pessoais e pela nostalgia de minha própria vida passada, vi que o Rio daquele tempo, do princípio do século e mesmo dos gloriosos tempos de Pereira Passos, era mais belo, mais limpo, mais claro, mais amável, mais espaçoso, mais luminoso do que este Rio de hoje, que cresceu errado, que andou pelos bordéis da péssima arquitetura e das administrações públicas ainda mais prostituídas. Bom, bom Rio de antigamente! Não consigo separar bem a saudade da apreciação puramente objetiva, mas torno a dizer que tenho a certeza – uma certeza difícil de provar – de não ser injusto nas apresentações que faço do crescimento torto desta infeliz cidade. Não me prendo também ao pitoresco, ao aspecto puramente silvestre e rústico. Justamente, de todo o agradável livro de Charles J. Dunlop, os capítulos e as fotografias que mais forte impressão me causaram são aquelas que se referem ao primeiro passo do progresso, às obras do engenheiro Francisco Pereira Passos, que prometia uma cidade maravilhosa, infelizmente abortada mais tarde pelos seus continuadores.Sim, paciente leitor, a belle époque já esteve aqui, e os políticos recitavam poesias de sua própria lavra, o povo andava com garbo e sobriedade, havia cartolas para serem tiradas durante um verdadeiramente cortês “bom dia!”, e toda mulher era senhora ou senhorita, enquanto os homens eram, necessariamente, senhores. Aliás, confesso novamente que sinto uma certa melancolia ao dizer essas coisas, mas que agora tem a companhia de uma estranha sensação de nostalgia por um tempo que nunca vivi. Ah, como falta uma palavra para designar tal sensação!
Desde o capítulo intitulado Primeiras Aplicações Industriais da Luz Elétrica, surge a figura extraordinária do homem de governo que os cariocas de hoje ignoram. O redator do referido capítulo menciona o fato de ter sido a antiga estrada de ferro Dom Pedro II, no ano de 1879, na gestão do engenheiro Francisco Pereira Passos, o primeiro estabelecimento do Brasil que teve iluminação elétrica. A inauguração do novo sistema ocorreu às oito e meia da noite do dia 21 de fevereiro, com a augusta presença de SS. MM. Imperiais, do presidente do conselho, João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu; ministro do Império, Carlos Leôncio de Carvalho, e demais personalidades de destaque. Eis como o Sr. Dunlop narra a cerimônia no seu momento máximo: “Da sala das máquinas, o imperador e sua comitiva dirigiram-se para o saguão. Nesse instante, apagaram-se os bicos de gás. Súbito acenderam os globos opalinos, e uma luz brilhante iluminou o saguão, o vestíbulo e a plataforma dos passageiros. Eram, ao todo, 6 lâmpadas de arco Jablochkov (do engenheiro russo Paul Jablochkov, que morreu na miséria em 1894), sendo 4 na plataforma, 1 no vestíbulo e 1 no saguão. O resultado deve ter sido excelente, pois a “Gazeta de notícias”, do dia seguinte, informou que a luz dava uma claridade que se podia comparar à luz da lua cheia, numa noite perfeitamente limpa de nuvens.”
No capítulo intitulado Campo de São Cristóvão, estamos em 1906, vinte e sete anos mais tarde. O engenheiro Pereira Passos é agora o prefeito da cidade. Diz lá o narrador daquele melhoramento municipal: “Um dia o prefeito Pereira Passos lembrou-se de embelezá-lo (o Campo de São Cristóvão que era um lugar mau freqüentado e sujo), e ordenou fosse levada a efeito a idéia. Iniciados os trabalhos, em poucos dias estavam podadas as árvores, desentulhado o lixo, cortado o capim e revolvida a terra. Surgiu depois o primeiro canteiro, e, a seguir, dezenas deles, simetricamente plantados. Apareceram, após, as alamedas e os belos repuxos, e começaram a florescer as roseiras e muitas outras plantas. Já era outro o aspecto do Campo de São Cristóvão. Afinal, no domingo, dia 11 de novembro de 1906, foi ele oficialmente inaugurado...”.
Admira, leitor amigo, a genial singeleza deste último período e sobretudo saboreia o discreto, decente, o civilizado advérbio dos bons tempos do engenheiro Francisco Pereira Passos: “Afinal... foi inaugurado...”. Primeiro a limpeza, o revolver da terra, o corte do capim. Depois a vez das rosas abrirem suas pétalas não oficiais, e muitas outras plantas. “Afinal...” Bons, excelentes tempos! A fotografia mostra o coreto em que os personagens importantes compareceram, de cartola, no dia solene da inauguração: lá está a figura do Presidente da República, Rodrigues Alves, que vem a ser tio-avô do governador Carvalho Pinto de São Paulo; e lá está ao lado do pequenino Presidente a figura majestosa do prefeito Pereira Passos. Eis como está narrada a cerimônia: “Aí, o prefeito fez a entrega do Campo, radicalmente transformado, ao povo de São Cristóvão. Estava, incontestavelmente, um primor. Ressoaram palmas e todos ergueram vivas aos Drs. Rodrigues Alves e Pereira Passos. Seguiu-se um lauto almoço em que tomou parte o Presidente etc. etc. Foi esplêndido o ‘menu’ servido, tendo o Comendador Gomes Carneiro, durante o ágape, recitado poesias de sua lavra. Ao champagne foram erguidos diversos brindes. O de honra foi levantado ao povo de São Cristóvão. A fotografia mostra...”.
A fotografia mostra, além dos personagens oficiais e do coreto, uma coisa fina que estava no ar do Campo de São Cristóvão como poderia estar na Place de l’Etoile. A direção em que estava perdido o olhar do prefeito Pereira Passos era uma outra, que evidentemente não foi seguida pelos que trouxeram o colesterol da cafajestagem para as artérias desta pobre República. A fotografia mostra aquilo que era claro, que era limpo, que era belo no Rio de Janeiro do meu tempo de criança. E note bem o leitor que esse tempo de infância a que me refiro foi também uma época de grande pobreza para a nossa família. Mas a casa em que morávamos pobres, e que certamente já foi destruída neste afã de erguer jazigos perpétuos de vinte andares, era feita de tábuas vindas do golfo do Báltico, telhas vindas da França, pedras de Portugal, ferragens da Inglaterra. Expliquem-me isto os economistas, sobretudo aqueles que se apregoam a necessidade de ter tudo nacional, como se o Brasil fosse um planeta perdido na escuridão do espaço. Expliquem-me como se fazia para ser pobre e feliz em casas tão pouco nacionalizadas. E expliquem-me outros doutores a misteriosa razão que leva não sei que Gênio mau a esconder dos cariocas de hoje a lembrança do prefeito Pereira Passos. Quando mudaram o nome da Avenida Central para Rio Branco, seria mais razoável, sem nenhum desapreço ao diplomata, lembrar o nome do Prefeito. Mais tarde, quando parecia que a oposição ia derrubar de vez o mito Vargas, foi procurado um nome para a Avenida que até hoje ficou sendo Presidente Vargas, graças ao suicídio do dito Presidente. Lembraram diversos nomes. Creio que se não fosse o suicídio mudariam para Castro Alves. Ninguém, que me conste, lembrou o nome do engenheiro Pereira Passos.
Lembro-me agora das ressonâncias que tinha em nós, em casa, o nome do grande engenheiro. Foi talvez ele que me plantou na alma o gosto da profissão, de tanto ouvir falar em torno, com respeito e até veneração. Lembro-me de minha mãe, num dia muito claro e muito antigo, a me explicar a obra daquele grande homem que n’’O Malho’ eu via caricaturado ou fotografado ao lado do presidente da República, que eu aprendi a desenhar assim: um círculo, dois círculos menores no lugar dos óculos, e cinco fios de barbante paralelos.
Naquela fotografia do Campo de São Cristóvão, e em outras, vê-se também que as cartolas da época não ofendiam os brios de ninguém. O povo era mais bem vestido, e sobretudo a tenue, a posição do corpo era mais ereta, mais briosa, mais desempenhada que a de hoje. Corra você mesmo, leitor, seu álbum de avós e repare como eles eram mais altivos e verticais. E então? O que foi que houve, com os homens, com as cidades? O que foi que aconteceu?
O que me parece certo, para a cidade, se não para os homens, é que não seguimos hoje a linha de crescimento que estava esboçada naquele coreto em que compareceram Rodrigues Alves e Francisco Pereira Passos. Houve um desvio, uma deflexão, uma inclinação, uma curvatura, uma deformação, e em certo ponto começa uma outra história em que predomina a coisa espessa e feia chamada cafajestagem, e em que inaugura-se um jardim antes de nascerem as rosas...
Usando um jargão platônico, todos nós participamos da boa e bela educação. Nós, seja qual época for, participamos da cidade celeste. E há épocas em que a boa e bela educação é praticada mais forte e naturalmente, de tal modo que transborda até em nossos atos mais simples e irrelevantes. É um estado natural de fleuma, por assim dizer. Abundam homens de notável caráter, só diferindo-se entre si pela grandeza demonstrada. Já constatava Hume, um fleumático, que Buffon, que era outro, tinha um ar de Marechal da França. A esse propósto, o caráter de Buffon, segundo Le Senne, poderia ser de um tipo da família do “fleumático majestoso”, cuja dignidade se faz patente “pela nobreza dos modos e do linguajar” (Le Senne, Traité de Caractérologie, 3a. ed, P.U.F., p. 522). Realmente os homens se comportavam como cavalheiros, até porque as mulheres eram, por assim dizer, mais exigentes (tema este que merece uma atenção especial, conforme o próprio Ortega y Gasset já chamou a atenção em seu livro Sobre el amor; ataquemos melhor esse assunto em outra ocasião). Sendo todas as mulheres como um ideal encarnado, todas pareciam princesas, e os homens necessariamente marechais da França ou algo em vias disso. (Daí vem a especial graça de toda uma série de personagens de Machado de Assis. Eles parecem especialmente cômicos quando comparados ao fundo em que se moviam. Só no séc. XIX que poderia surgir um Simão Bacamarte.) E mesmo o mais nervoso dos homens daquelas épocas gloriosas mais parece um fleumático crasso, um apático, perante os nossos irrequietos olhos modernos. Mesmo a poesia de um Villon, surgida numa época tão problemática quanto aquele fim de Idade Média, parece algo infinitamente aristocrático se comparada a muita coisa escrita hoje em dia. Nada mais natural, portanto, que, numa época em que vivemos curvados sob o peso de uma não sei qual angústia e não sei qual tristeza, nada mais natural que a política esteja tão infestada dessa coisa espessa e feia chamada “cafajestagem”.
Tenho algo em comum com aquele notório bigodudo alemão. Eu e ele temos um pé num tempo diferente do vivido. A diferença é que Nietzsche tinha uma mente póstuma. Eu nasci pretérito mas com o outro pé atoladíssimo no presente. É uma melancolia danada...
Sunday, April 30, 2006
Notícia autoprobante
Deu no portal da Inteligweb: Maioria dos alunos de 4ª série foram mal em língua portuguesa, segundo dados do MEC.
O título dessa notícia já demonstra as deficiências do ensino de nossa língua, não é verdade? Sou da seguinte opinião: pegassem todos nós que brincamos de tecer coisas bonitas e profundas com o espírito e bem provavelmente quase todos nós teríamos nossos afazeres seriamente questionados ou, em casos gravíssimos, seríamos internados em manicômios ou até presos por atentado ao pudor.
É muito comum ouvirmos que a educação é uma porcaria, que o pessoal passa de ano sem saber nada, etc, etc, mas está aí um caso muito, muito singular: todo mundo diz que a educação está uma porcaria, ou seja, todos se julgam aptos a emitir um juízo crítico acerca das escolas, mas poucos são aqueles que reconhecem publicamente que tiveram sua formação justamente nesse pandemônio que é a nossa educação. Ora, apenas aqueles que têm a fé em grau heróico conseguem atravessar o deserto traiçoeiro e cheio de provações sem ferimentos terríveis. Trocando em miúdos: se todo mundo está apto para criticar a educação, como é que ela poderia estar tão ruim? É evidente que existe alguma coisa muito estranha por trás desse problema. E isso, por si, é um sintoma da precariedade do ensino.
Quando todos se sentem aptos para dizer algo a respeito de tudo, quando todos se acham no direito (às vezes até obrigação) de fazer uma crítica sobre o que for durante um tempo muito maior do que aquele que levaram para ter algum embasamento sobre o que dizem, então a situação é calamitosa. Embora esse seja um tema sério e vital, não quero me perder nele. Minha intenção é de apenas testemunhar o quão grave é uma situação onde os críticos da educação são eles mesmos pessoas com deficiências colossais de formação. Este é, infelizmente, o nosso caso.
Não me pergunte, querido leitor, o que devemos fazer para salvar a educação. Se eu soubesse, você acha que eu escreveria apenas minhas divagações neste blog? Só acho, repito, muito estranho quando justamente aqueles que carregam os estandartes da inteligência se mostram não poucas vezes incapacitados de cumprir a sua áurea missão. Em nosso país isso é uma praga. É este o tema de nosso tempo.
O título dessa notícia já demonstra as deficiências do ensino de nossa língua, não é verdade? Sou da seguinte opinião: pegassem todos nós que brincamos de tecer coisas bonitas e profundas com o espírito e bem provavelmente quase todos nós teríamos nossos afazeres seriamente questionados ou, em casos gravíssimos, seríamos internados em manicômios ou até presos por atentado ao pudor.
É muito comum ouvirmos que a educação é uma porcaria, que o pessoal passa de ano sem saber nada, etc, etc, mas está aí um caso muito, muito singular: todo mundo diz que a educação está uma porcaria, ou seja, todos se julgam aptos a emitir um juízo crítico acerca das escolas, mas poucos são aqueles que reconhecem publicamente que tiveram sua formação justamente nesse pandemônio que é a nossa educação. Ora, apenas aqueles que têm a fé em grau heróico conseguem atravessar o deserto traiçoeiro e cheio de provações sem ferimentos terríveis. Trocando em miúdos: se todo mundo está apto para criticar a educação, como é que ela poderia estar tão ruim? É evidente que existe alguma coisa muito estranha por trás desse problema. E isso, por si, é um sintoma da precariedade do ensino.
Quando todos se sentem aptos para dizer algo a respeito de tudo, quando todos se acham no direito (às vezes até obrigação) de fazer uma crítica sobre o que for durante um tempo muito maior do que aquele que levaram para ter algum embasamento sobre o que dizem, então a situação é calamitosa. Embora esse seja um tema sério e vital, não quero me perder nele. Minha intenção é de apenas testemunhar o quão grave é uma situação onde os críticos da educação são eles mesmos pessoas com deficiências colossais de formação. Este é, infelizmente, o nosso caso.
Não me pergunte, querido leitor, o que devemos fazer para salvar a educação. Se eu soubesse, você acha que eu escreveria apenas minhas divagações neste blog? Só acho, repito, muito estranho quando justamente aqueles que carregam os estandartes da inteligência se mostram não poucas vezes incapacitados de cumprir a sua áurea missão. Em nosso país isso é uma praga. É este o tema de nosso tempo.
Saturday, April 22, 2006
Centelha (IV)
Nestes últimos tempos, tenho cada vez mais pensado em duas coisas: que toda a tragédia é precedida pelo império da tolice e que todo o saber de nada vale se não trouxer consigo alguma marca do amor.
Saturday, April 15, 2006
Saturday, April 08, 2006
Como a esquerda não consegue aceitar o 31 de março
Há algum tempo percebi que uma das melhores maneiras de encontrar algum assunto para escrever é dando um pulinho na UFRJ. Se o leitor acha que é pelo fato daquela instituição ser um celeiro de coisas belas e louváveis, engana-se. Infelizmente, na maioria esmagadora dos casos os eventos que por lá ocorrem não são, digamos, muito dignificantes. Poderiam inspirar até, na minha opinião, uma coluna de jornal qualquer, cujo nome poderia ser "O imbecil coletivo" (homenagem ao nosso filósofo), apenas relatando os fatos esdrúxulos cotidianos que insistem em haver naquela universidade.
Já cansei de presenciar ou saber de oitiva coisas deprimentes, até porque estudei no olho do furacão, espécie de Triângulo das Bermudas do Mundo Bizarro: o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, ou simplesmente IFCS.
Freqüento, em todo o caso, a biblioteca da faculdade de Letras, pois, malgrado tudo, há bons livros por lá - o IFCS também tem uma biblioteca interessante, mas devido a uma enrolação por causa da última greve estou com uma dívida que parece que não será paga tão cedo...
Costumo ir à faculdade de Letras mais ou menos de duas em duas semanas, pois este é o prazo de devolução dos livros. Sempre que entro naquele prédio dou uma olhadinha rápida no que está pregado logo na entrada. Nunca tem nada muito fora de costume, porém hoje vi a capa do jornal O globo do dia 31 de março, onde havia uma manchete bradando que o comandante do exército se orgulhava do golpe de 64 e do passado do Exército. Quanto absurdo! Obviamente dizer uma coisa dessas é motivo de escândalo sim... para a esquerda.
A esquerda não quer simplesmente participar do jogo político em condições de igualdade com a direita; ela quer, ela exige que o jogo político seja conforme sua vontade. Ela tampouco quer que alguém discorde de seu ponto de vista sobre os fatos. A interpretação esquerdista é a verdade total e científica, a um só tempo absoluta e moral, relegando qualquer outra interpretação ou mesmo fatos contrários ao que ela diz como de natureza intrinsecamente perversa, portanto censuráveis de um modo ou de outro. A única coisa que varia na censura esquerdista é a índole do censor. É por este motivo que, segundo um ex-colega de turma me contou há tempos, quando ele perguntou o motivo de não estudarem o Mein kampf em certa disciplina a um celebrado professor, este respondeu logo: "Não devemos dar espaços ao inimigo!" Perceba aqui, leitor, que as palavras do historiador não evocaram qualquer dúvida sobre a possibilidade mesma de usarem em sala o Mein kempf, sem que desse modo violassem alguma lei proibindo-o até mesmo de ser utilizado em aula como fonte de pesquisa para estudantes de História. Por mais tenebroso que o nazismo seja, e por mais que aparentemente seja inimigo do comunismo, pois na realidade são dois cumpadres, naquele momento o professor esquerdista, sentindo-se em casa, declarou em outras palavras que não passa de um militante político, um intelectual postiço. Ele demonstrou que todo intelectual de esquerda não passa de um militante pronto a deturpar ou sonegar informações que possam de alguma maneira pôr em risco seus maravilhosos planos revolucionários.
A esquerda sempre foi ditatorial. E aqui voltamos à notícia. A nota do Exército foi tão simples e dirigida tão somente a alguns poucos que chega a ser espantoso que ela tenha recebido destaque na capa de O globo, protestos da OAB e pedidos de demissão do comandante. Surpresa? Não, na verdade não se trata disso. A esquerda simplesmente quer que o Exército jamais ouse dizer qualquer coisa de positivo sobre os eventos de 1964, e se precisar mentir, que minta. A própria esquerda sempre dá fartos exemplos deste modo singular de conduta, demonstrando aliás que aprendeu perfeitamente bem as técnicas cafajestes de seu guru-charlatão Karl Marx. Não importa se a nota não pretendia ter muita repercussão ou que expressasse um tanto timidamente o que pretendia. O que importa é que ela é vista como foco "reacionário", o qual deve ser extinto a todo custo (a paranóia é um típico ingrediente em mentes ditatoriais). Não importa nem mesmo se apenas uns poucos são francamente anti-esquerda ou digam alguma coisa que os incomde, ao mesmo tempo que há uma massa inumerável a seu favor: sempre a existência de gente de direita os incomodará, e eles se unirão para fazer de tudo a fim de calar quem discorde deles, só variando o grau de truculência.
Sim, por mais que seja desgradável, o Exército chegou ao poder com amplo apoio do povo; sim, ele fez com que o Brasil progredisse de um modo impressionante; sim, desbaratou todos os movimentos paramilitares que colocavam em risco a segurança nacional, com um custo de vidas mínimo; sim, ele soube antecipar-se à revolução comunista dada como certa pelos seus promotores, financiada por Cuba desde 1961, sem contar o apoio dado pela URSS já há tempos. Há muitas coisas criticáveis sobre a administração dos militares (inclusive sobre esse fetichismo, tomado aos esquerdistas, com o termo "revolução", embora não deixa de ser divertido usá-lo contra a vontade deles), mas nada daquilo pode ser considerado perverso por ninguém. O Exército tem não só todo o direito mas obrigação de sempre comemorar o 31 de março. Quanto a nós outros, temos de ter sempre profunda admiração por aquela instituição, pois cumpriram de modo notável a sua missão de defesa da pátria.
Já cansei de presenciar ou saber de oitiva coisas deprimentes, até porque estudei no olho do furacão, espécie de Triângulo das Bermudas do Mundo Bizarro: o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, ou simplesmente IFCS.
Freqüento, em todo o caso, a biblioteca da faculdade de Letras, pois, malgrado tudo, há bons livros por lá - o IFCS também tem uma biblioteca interessante, mas devido a uma enrolação por causa da última greve estou com uma dívida que parece que não será paga tão cedo...
Costumo ir à faculdade de Letras mais ou menos de duas em duas semanas, pois este é o prazo de devolução dos livros. Sempre que entro naquele prédio dou uma olhadinha rápida no que está pregado logo na entrada. Nunca tem nada muito fora de costume, porém hoje vi a capa do jornal O globo do dia 31 de março, onde havia uma manchete bradando que o comandante do exército se orgulhava do golpe de 64 e do passado do Exército. Quanto absurdo! Obviamente dizer uma coisa dessas é motivo de escândalo sim... para a esquerda.
A esquerda não quer simplesmente participar do jogo político em condições de igualdade com a direita; ela quer, ela exige que o jogo político seja conforme sua vontade. Ela tampouco quer que alguém discorde de seu ponto de vista sobre os fatos. A interpretação esquerdista é a verdade total e científica, a um só tempo absoluta e moral, relegando qualquer outra interpretação ou mesmo fatos contrários ao que ela diz como de natureza intrinsecamente perversa, portanto censuráveis de um modo ou de outro. A única coisa que varia na censura esquerdista é a índole do censor. É por este motivo que, segundo um ex-colega de turma me contou há tempos, quando ele perguntou o motivo de não estudarem o Mein kampf em certa disciplina a um celebrado professor, este respondeu logo: "Não devemos dar espaços ao inimigo!" Perceba aqui, leitor, que as palavras do historiador não evocaram qualquer dúvida sobre a possibilidade mesma de usarem em sala o Mein kempf, sem que desse modo violassem alguma lei proibindo-o até mesmo de ser utilizado em aula como fonte de pesquisa para estudantes de História. Por mais tenebroso que o nazismo seja, e por mais que aparentemente seja inimigo do comunismo, pois na realidade são dois cumpadres, naquele momento o professor esquerdista, sentindo-se em casa, declarou em outras palavras que não passa de um militante político, um intelectual postiço. Ele demonstrou que todo intelectual de esquerda não passa de um militante pronto a deturpar ou sonegar informações que possam de alguma maneira pôr em risco seus maravilhosos planos revolucionários.
A esquerda sempre foi ditatorial. E aqui voltamos à notícia. A nota do Exército foi tão simples e dirigida tão somente a alguns poucos que chega a ser espantoso que ela tenha recebido destaque na capa de O globo, protestos da OAB e pedidos de demissão do comandante. Surpresa? Não, na verdade não se trata disso. A esquerda simplesmente quer que o Exército jamais ouse dizer qualquer coisa de positivo sobre os eventos de 1964, e se precisar mentir, que minta. A própria esquerda sempre dá fartos exemplos deste modo singular de conduta, demonstrando aliás que aprendeu perfeitamente bem as técnicas cafajestes de seu guru-charlatão Karl Marx. Não importa se a nota não pretendia ter muita repercussão ou que expressasse um tanto timidamente o que pretendia. O que importa é que ela é vista como foco "reacionário", o qual deve ser extinto a todo custo (a paranóia é um típico ingrediente em mentes ditatoriais). Não importa nem mesmo se apenas uns poucos são francamente anti-esquerda ou digam alguma coisa que os incomde, ao mesmo tempo que há uma massa inumerável a seu favor: sempre a existência de gente de direita os incomodará, e eles se unirão para fazer de tudo a fim de calar quem discorde deles, só variando o grau de truculência.
Sim, por mais que seja desgradável, o Exército chegou ao poder com amplo apoio do povo; sim, ele fez com que o Brasil progredisse de um modo impressionante; sim, desbaratou todos os movimentos paramilitares que colocavam em risco a segurança nacional, com um custo de vidas mínimo; sim, ele soube antecipar-se à revolução comunista dada como certa pelos seus promotores, financiada por Cuba desde 1961, sem contar o apoio dado pela URSS já há tempos. Há muitas coisas criticáveis sobre a administração dos militares (inclusive sobre esse fetichismo, tomado aos esquerdistas, com o termo "revolução", embora não deixa de ser divertido usá-lo contra a vontade deles), mas nada daquilo pode ser considerado perverso por ninguém. O Exército tem não só todo o direito mas obrigação de sempre comemorar o 31 de março. Quanto a nós outros, temos de ter sempre profunda admiração por aquela instituição, pois cumpriram de modo notável a sua missão de defesa da pátria.
Monday, March 27, 2006
O (estranho) filme Smoking Room
Quarta-feira passada passou um filme espanhol no Cinemax chamado Smoking Room. A história girava em torno de uma empresa recém-comprada por americanos e que havia proibido que se fumasse em suas dependências. Um dos funcionários, fumante, resolve fazer um abaixo-assinado contra aquela norma, mas acaba esbarrando na má vontade enorme de seus colegas de empresa. Eis o fio da meada.
"Fio da meada". Na verdade, a história é um pouco mais complicada, e aqui já começam os problemas do filme, que aliás ganhou prêmios na Espanha. Os diretores queriam ir mais além. Por exemplo, em certa parte tratam do problema do racismo, porque um dos funcionários confessa a um colega que não gostou de terem posto um preto num alto cargo. Em outra passagem, alguém reclama da imposição de hábitos americanos na empresa. Adiante, um funcionário desabafa dizendo que trabalha como um louco, está por isso com o casamento ameaçado e que pensa em se matar. Outro cara desenvolve uma tese qualquer sobre o sentido da existência, pelo menos no sentido de como certas ações aparentemente insignificantes podem modificar nossas vidas. E, acredite, há um montão de outras coisas tratadas. O problema é que o filme tem 88 minutos. Ele é, portanto, uma série de digressões que mal tem relação com o tal fio da meada. Na verdade, embora o filme se chame Smoking Room, o fio de meada serve de pretexto para fazer com que a história se desenvolva. Se você portanto for vê-lo pensando que haverá discussões em torno do problema da proibição de fumar nas empresas, esqueça: parece que não foi essa a intenção dos diretores.
O filme demonstra bem duas coisas: que há sempre algum interesse alheio por trás das ações das pessoas e que para coisas sem tanta importância as gentes se organizam prontamente. É que, ao longo do filme, enquanto o infeliz caça assinaturas, outros estão organizando uma pelada de fim de semana. O abaixo-assinado não acontece, mas a pelada sim, e aliás muito bem, obrigado. Quanto ao interesse, parece que sempre tem alguém de rabo-preso. Até mesmo o infeliz do herói já teve problemas anteriores com a empresa. Mas o problema do rabo-preso ficou especialmente engraçado naquele filme, porque se por um acaso o que levou o sujeito a bolar o abaixo-assinado na verdade foi algo diverso do alegado, tampouco a história do próprio filme poderia escapar dessa observação, já que o problema da probição de fumar é trabalhado também de forma alheia à questão em si. Será que fizeram isso de propósito?
Quero prestar contas ao simpático leitor que teve a boa vontade de me acompanhar até agora e que quer saber simplesmente se gostei ou não do filme. Respondo dizendo que não. Aquelas digressões todas só serviram para deixar o filme chato, e até mesmo um tanto pretensioso. Dizer mais do que deveria é um pecado que todos nós, sujeitos que se expressam de algum jeito para um público qualquer, estão arriscados a cometer, e com o dobro dos prejuízos em relação a alguém que o faça privadamente. É aquela história: se há muitos que cantam debaixo do chuveiro, quantos mais cantariam do mesmo jeito num palco? Talvez se o filme se fixasse, tão humildemente quanto o preguinho na madeira, no tema proposto, ele não seria tão esquisito.
Por sinal, há alguma coisa mais estranha em "Smoking Room". Os personagens parecem todos meio lelés da cuca. É como se os doidos vestissem momentaneamente a roupa de funcionário de empresa para que pudessem sobreviver. Eles não saíam por aí gritando como condenados ou dizendo que nasceram de uma abóbora que miava, porém tinham um jeitão estranho. Tentaram fazer com que os modos e os diálogos parecessem normais, coisa corriqueira, mas eles eram tudo, menos normais e corriqueiros. Os diálogos, supostamente naturais, são sem pé nem cabeça. Várias vezes há conversa apenas entre duas pessoas. Uma então dispara um sem-número de idéias, meio desencontradas umas das outras, mas que no final servem para formar só uma impressão, enquanto a outra apenas a acompanha, às vezes dizendo um inócuo "Não pode ser!" ou alguma outra expressão aparentada. Também o cenário do filme, que se passa quase todo dentro de um edifício, a câmara que focaliza de um jeito estranho cada ator, tudo contribui para fazer com que haja um clima esquisitão. Será que os diretores têm uma idéia tão inusitada do que é trabalhar numa empresa e de como são os empregados?
É por essas razões que o filme é uma mistura esquisita de drama com humor. Não que seja um drama e humor involuntários. Só não ficou muito bem feito. Na verdade, não sei como algo assim pode ficar bem feito, mas de qualquer modo não foi o caso de Smoking Room.
"Fio da meada". Na verdade, a história é um pouco mais complicada, e aqui já começam os problemas do filme, que aliás ganhou prêmios na Espanha. Os diretores queriam ir mais além. Por exemplo, em certa parte tratam do problema do racismo, porque um dos funcionários confessa a um colega que não gostou de terem posto um preto num alto cargo. Em outra passagem, alguém reclama da imposição de hábitos americanos na empresa. Adiante, um funcionário desabafa dizendo que trabalha como um louco, está por isso com o casamento ameaçado e que pensa em se matar. Outro cara desenvolve uma tese qualquer sobre o sentido da existência, pelo menos no sentido de como certas ações aparentemente insignificantes podem modificar nossas vidas. E, acredite, há um montão de outras coisas tratadas. O problema é que o filme tem 88 minutos. Ele é, portanto, uma série de digressões que mal tem relação com o tal fio da meada. Na verdade, embora o filme se chame Smoking Room, o fio de meada serve de pretexto para fazer com que a história se desenvolva. Se você portanto for vê-lo pensando que haverá discussões em torno do problema da proibição de fumar nas empresas, esqueça: parece que não foi essa a intenção dos diretores.
O filme demonstra bem duas coisas: que há sempre algum interesse alheio por trás das ações das pessoas e que para coisas sem tanta importância as gentes se organizam prontamente. É que, ao longo do filme, enquanto o infeliz caça assinaturas, outros estão organizando uma pelada de fim de semana. O abaixo-assinado não acontece, mas a pelada sim, e aliás muito bem, obrigado. Quanto ao interesse, parece que sempre tem alguém de rabo-preso. Até mesmo o infeliz do herói já teve problemas anteriores com a empresa. Mas o problema do rabo-preso ficou especialmente engraçado naquele filme, porque se por um acaso o que levou o sujeito a bolar o abaixo-assinado na verdade foi algo diverso do alegado, tampouco a história do próprio filme poderia escapar dessa observação, já que o problema da probição de fumar é trabalhado também de forma alheia à questão em si. Será que fizeram isso de propósito?
Quero prestar contas ao simpático leitor que teve a boa vontade de me acompanhar até agora e que quer saber simplesmente se gostei ou não do filme. Respondo dizendo que não. Aquelas digressões todas só serviram para deixar o filme chato, e até mesmo um tanto pretensioso. Dizer mais do que deveria é um pecado que todos nós, sujeitos que se expressam de algum jeito para um público qualquer, estão arriscados a cometer, e com o dobro dos prejuízos em relação a alguém que o faça privadamente. É aquela história: se há muitos que cantam debaixo do chuveiro, quantos mais cantariam do mesmo jeito num palco? Talvez se o filme se fixasse, tão humildemente quanto o preguinho na madeira, no tema proposto, ele não seria tão esquisito.
Por sinal, há alguma coisa mais estranha em "Smoking Room". Os personagens parecem todos meio lelés da cuca. É como se os doidos vestissem momentaneamente a roupa de funcionário de empresa para que pudessem sobreviver. Eles não saíam por aí gritando como condenados ou dizendo que nasceram de uma abóbora que miava, porém tinham um jeitão estranho. Tentaram fazer com que os modos e os diálogos parecessem normais, coisa corriqueira, mas eles eram tudo, menos normais e corriqueiros. Os diálogos, supostamente naturais, são sem pé nem cabeça. Várias vezes há conversa apenas entre duas pessoas. Uma então dispara um sem-número de idéias, meio desencontradas umas das outras, mas que no final servem para formar só uma impressão, enquanto a outra apenas a acompanha, às vezes dizendo um inócuo "Não pode ser!" ou alguma outra expressão aparentada. Também o cenário do filme, que se passa quase todo dentro de um edifício, a câmara que focaliza de um jeito estranho cada ator, tudo contribui para fazer com que haja um clima esquisitão. Será que os diretores têm uma idéia tão inusitada do que é trabalhar numa empresa e de como são os empregados?
É por essas razões que o filme é uma mistura esquisita de drama com humor. Não que seja um drama e humor involuntários. Só não ficou muito bem feito. Na verdade, não sei como algo assim pode ficar bem feito, mas de qualquer modo não foi o caso de Smoking Room.
Sunday, March 26, 2006
Comentário curto e atrasado sobre o Oscar
O Oscar. Não vi muitos porque nunca gostei muito. Depois desse último que assisti, e parece que sabiam que eu estava vendo só para implicarem comigo (digressão: há uma certa tendência inata nas pessoas de achar que as coisas ocorrem para e por causa delas. Não faço a menor idéia se isso faz ou não pelo menos algum sentido, mas é divertido dizer coisas como "Aquela lontra só arremessou estrume em Damião só porque eu estava com ele." Também é engraçado imaginar que há uma conspiração mundial contra ti, especialmente se você não tem um inimigo sequer, o que talvez seja mesmo indício de que estão de tramóia contra a tua obesa, magra ou normal pessoa. Mas voltemos ao texto, obrigado pela atenção, etc.), mas como eu estava dizendo, depois desse último prêmio do Oscar, fiquei não só com desvontade como até com medo de voltar a assisti-lo.
Que há de mais apavorante que piadas horríveis contadas por três horas? Respondo, pode deixar: o politicamente correto. Só que a perversão do mundo parece não ter limites, porque o Oscar foi uma mistura devidamente dosada de uma coisa e outra, com pitadas de mau gosto e coisas do mesmo sangue de barata. Foi obra de um cientista macabro.
Pelo menos uma daquelas opiniões, que a premiação foi politicamente correta, não foi de minha exclusiva lavra. Foi o presidente Juscelino Kubitschek que a proferiu, embora estivesse durante o evento vestido de José Wilker. Na verdade, o presidente vestido de ator, embora todo presidente seja um ator, e atores se comportem como presidentes, até foi mais enfático, dizendo que o Oscar foi politicamente corretíssimo. Ele disse aquilo em tom elogioso. Fiquei embasbacado, porque foi a primeira vez que ouvi alguém dizer aquela expressão em tom sério e satisfeito. Permita-me outra digressão, leitor, bela leitora. Quinta-feira última assisti, para variar, a Gilmore Girls. Portanto, o que direi é meio que para iniciados. Luke e Lorelai tinham acabado de sair de um jantar com os pais da Lorelai. Ambos estavam meio confusos após um montaréu de coisas ditas pela Emily e pelo Richard. Luke pôs a mão no peito e perguntou a Lorelai algo como "Que sensação estranha é essa que estou sentido, uma mistura de raiva com fraqueza paralisante?" Lorelai diz então que ele acabara de ser gilmorizado. Gilmorização é o mais belo conceito que explica o que sinto quando penso em universidades e nessa chateação do politicamente correto. Gostei.
Mas foi isso o Oscar, emporcalhando a tv com o politicamente corretíssimo. Quem não assistiu não perdeu nada.
Que há de mais apavorante que piadas horríveis contadas por três horas? Respondo, pode deixar: o politicamente correto. Só que a perversão do mundo parece não ter limites, porque o Oscar foi uma mistura devidamente dosada de uma coisa e outra, com pitadas de mau gosto e coisas do mesmo sangue de barata. Foi obra de um cientista macabro.
Pelo menos uma daquelas opiniões, que a premiação foi politicamente correta, não foi de minha exclusiva lavra. Foi o presidente Juscelino Kubitschek que a proferiu, embora estivesse durante o evento vestido de José Wilker. Na verdade, o presidente vestido de ator, embora todo presidente seja um ator, e atores se comportem como presidentes, até foi mais enfático, dizendo que o Oscar foi politicamente corretíssimo. Ele disse aquilo em tom elogioso. Fiquei embasbacado, porque foi a primeira vez que ouvi alguém dizer aquela expressão em tom sério e satisfeito. Permita-me outra digressão, leitor, bela leitora. Quinta-feira última assisti, para variar, a Gilmore Girls. Portanto, o que direi é meio que para iniciados. Luke e Lorelai tinham acabado de sair de um jantar com os pais da Lorelai. Ambos estavam meio confusos após um montaréu de coisas ditas pela Emily e pelo Richard. Luke pôs a mão no peito e perguntou a Lorelai algo como "Que sensação estranha é essa que estou sentido, uma mistura de raiva com fraqueza paralisante?" Lorelai diz então que ele acabara de ser gilmorizado. Gilmorização é o mais belo conceito que explica o que sinto quando penso em universidades e nessa chateação do politicamente correto. Gostei.
Mas foi isso o Oscar, emporcalhando a tv com o politicamente corretíssimo. Quem não assistiu não perdeu nada.
Thursday, March 23, 2006
Militância e ressentimento
Não há nada mais irritante que um ateu militante. Melhor dizendo, na verdade até há: o gay militante. Porém, talvez acima de um e outro esteja o abortista militante, maior pretendente da coroa das coisas que mais são irritantes. Pessoalmente, consigo respeitar gays e ateus. Abortistas não; merecem tanto desprezo quanto os defensores de extermínio de etnias. Mas isso é outra conversa.
Não sei o que se passa na cadeia de valores de militantes dos tipos que mencionei, mas uma coisa é certa: eles passaram e continuam passando demais da conta do limite do tolerável. Ouso dizer mesmo que são umas ameaças públicas, gente maluca que enxerga a realidade de um modo torto e que por isso pretende nos arrastar para seu mundo doente. Esta expressão, "doente", é de fato uma descrição real.
Todos aqueles tipos de militantes são repugnantes porque eles próprios só têm razão de ser devido ao ódio que destilam contra seus inimigos. Sim, ódio, porque eles buscam a todo preço destruir seus opositores mediante toda a sorte de expedientes malucos, justificativas nonsenses, chantagens emocionais e o diabo a quatro. Não há possibilidade de argumentarmos racional e friamente com alguém desse tipo - no máximo, só por desencargo de consciência ou, se tivermos um quê de professor, com aquele otimismo inerente à educação que não morre jamais e que permite que depositemos confiança no mais inepto dos educandos. O problema, de qualquer jeito, é mais sério. Isso requer uma justificativa.
Militantes gays, ateus ou abortistas seguem bem aquela fórmula de Marx, segundo a qual devemos transformar tudo pois já passou o tempo de buscarmos uma interpretação das coisas. Essa atitude é uma impostura do ponto de vista do conhecimento. Na verdade, é o apelo à inimizade entre nós e o mundo. Quando buscamos compreender as coisas, nos sentimos como que arrebatados por elas e, por que não, até elas. Tudo parece fascinante a quem quer conhecer. Mesmo o mais asqueroso animal ou a mais abstrata idéia, o mais insignificante pó ou a mais complicada composição química, tudo é transfigurado durante o caminho do conhecimento de modo que o conhecedor age como se estivesse enamorado pela coisa que é investigada. Sempre se descobre algo especial, único, inusitado, e há até mesmo algo de misterioso e de inexplicável que nos fascina naquilo que contemplamos. A coisa está aí, embora eu não a conheça perfeitamente bem; percebo seus detalhes e me apaixono por ela tal como ela é, sem tirar nem por nada, ainda que esteja cercada de mistérios insondáveis - talvez por isso mesmo ela acabe se tornando especial. Aquele que é curioso (no sentido bom do termo), o amigo da verdade, é um entusiasta. Eis a palavra mais adequada, se atentarmos para seu significado mais primitivo: um arrebatado por algo divino. Tudo tem algo de divino porque foi tocado por Deus.
O conselho de Marx para que transformemos tudo sem que interpretemos mais nada é um aviltamento contra a ordem natural das coisas. Na raiz disso está a inimizade ante o mundo: contra a sua ordem, contra a sua excelência, contra a sua essência. Nada disso interessa. Na verdade, essas coisas acabam tendo uma relação problemática com os seguidores do conselho de Marx porque elas impõem uma resistência natural que frustra a vontade daqueles senhores. É impossível contorná-la completamente, mas buscam de alguma maneira adaptá-la aos seus caprichos, como se tivessem nascido para serem senhores do universo. Para tanto, qualquer meio que esteja à disposição é válido desde que, claro, contribua com a causa. Um empreendimento tão grandioso assim assume naturalmente uma gravidade imponente, e seus próceres acabam se sentindo como se fossem pessoas muito importantes, levando o progresso ao mundo, quando na verdade não passam de sujeitos muito abusados, para dizer o mínimo.
Quanto mais se afundam em seus sonhos delirantes, mais a realidade torna-se-lhes hostil, e é aqui que surge a prova final. Se ainda houver em suas almas algum resquício de amor ao mundo, pode ser que ocorra uma gradual reviravolta em suas vidas. No entanto, se eles estiverem completamente viciados, eles sentirão ódio do mundo, aliado a uma impotência essencial que lhes impede de fazer tudo o que querem. Então surge o mais vil veneno da alma, corruptor supremo dos homens a ponto de lhes fazer enxergar só o mal onde houver o mais puro bem: o ressentimento. É nele que surge o motor de toda uma série de abominações contra a ordem do mundo, porque o ressentimento carrega uma raiva mal contida que se transforma em sentimendo de vingança com requintes de perversidade. Nada mais distante do amor.
É o ressentimento que move o militante gay, ateu, etc. Como ele é fundamentalmente impotente, sua ação será uma mistura de temeridade com pusilanimidade, porque se de um lado sempre deixará transparecer seu caráter frágil (por exemplo, o militante tal diz que pertence a um grupo de perseguidos pela sociedade), por outro ele utilizará todos os meios que estiverem à sua disposição, sob a desculpa de que quer apenas proteger a si mesmo e a seu grupo, para ferir de morte, de modo ousado, seu rival, nem que para isso carrega para o fundo do poço toda a nação e quiçá o mundo.
Pretendo no futuro comentar melhor sobre o problema grave do ressentimento como motor de todas essas loucuras.
Não sei o que se passa na cadeia de valores de militantes dos tipos que mencionei, mas uma coisa é certa: eles passaram e continuam passando demais da conta do limite do tolerável. Ouso dizer mesmo que são umas ameaças públicas, gente maluca que enxerga a realidade de um modo torto e que por isso pretende nos arrastar para seu mundo doente. Esta expressão, "doente", é de fato uma descrição real.
Todos aqueles tipos de militantes são repugnantes porque eles próprios só têm razão de ser devido ao ódio que destilam contra seus inimigos. Sim, ódio, porque eles buscam a todo preço destruir seus opositores mediante toda a sorte de expedientes malucos, justificativas nonsenses, chantagens emocionais e o diabo a quatro. Não há possibilidade de argumentarmos racional e friamente com alguém desse tipo - no máximo, só por desencargo de consciência ou, se tivermos um quê de professor, com aquele otimismo inerente à educação que não morre jamais e que permite que depositemos confiança no mais inepto dos educandos. O problema, de qualquer jeito, é mais sério. Isso requer uma justificativa.
Militantes gays, ateus ou abortistas seguem bem aquela fórmula de Marx, segundo a qual devemos transformar tudo pois já passou o tempo de buscarmos uma interpretação das coisas. Essa atitude é uma impostura do ponto de vista do conhecimento. Na verdade, é o apelo à inimizade entre nós e o mundo. Quando buscamos compreender as coisas, nos sentimos como que arrebatados por elas e, por que não, até elas. Tudo parece fascinante a quem quer conhecer. Mesmo o mais asqueroso animal ou a mais abstrata idéia, o mais insignificante pó ou a mais complicada composição química, tudo é transfigurado durante o caminho do conhecimento de modo que o conhecedor age como se estivesse enamorado pela coisa que é investigada. Sempre se descobre algo especial, único, inusitado, e há até mesmo algo de misterioso e de inexplicável que nos fascina naquilo que contemplamos. A coisa está aí, embora eu não a conheça perfeitamente bem; percebo seus detalhes e me apaixono por ela tal como ela é, sem tirar nem por nada, ainda que esteja cercada de mistérios insondáveis - talvez por isso mesmo ela acabe se tornando especial. Aquele que é curioso (no sentido bom do termo), o amigo da verdade, é um entusiasta. Eis a palavra mais adequada, se atentarmos para seu significado mais primitivo: um arrebatado por algo divino. Tudo tem algo de divino porque foi tocado por Deus.
O conselho de Marx para que transformemos tudo sem que interpretemos mais nada é um aviltamento contra a ordem natural das coisas. Na raiz disso está a inimizade ante o mundo: contra a sua ordem, contra a sua excelência, contra a sua essência. Nada disso interessa. Na verdade, essas coisas acabam tendo uma relação problemática com os seguidores do conselho de Marx porque elas impõem uma resistência natural que frustra a vontade daqueles senhores. É impossível contorná-la completamente, mas buscam de alguma maneira adaptá-la aos seus caprichos, como se tivessem nascido para serem senhores do universo. Para tanto, qualquer meio que esteja à disposição é válido desde que, claro, contribua com a causa. Um empreendimento tão grandioso assim assume naturalmente uma gravidade imponente, e seus próceres acabam se sentindo como se fossem pessoas muito importantes, levando o progresso ao mundo, quando na verdade não passam de sujeitos muito abusados, para dizer o mínimo.
Quanto mais se afundam em seus sonhos delirantes, mais a realidade torna-se-lhes hostil, e é aqui que surge a prova final. Se ainda houver em suas almas algum resquício de amor ao mundo, pode ser que ocorra uma gradual reviravolta em suas vidas. No entanto, se eles estiverem completamente viciados, eles sentirão ódio do mundo, aliado a uma impotência essencial que lhes impede de fazer tudo o que querem. Então surge o mais vil veneno da alma, corruptor supremo dos homens a ponto de lhes fazer enxergar só o mal onde houver o mais puro bem: o ressentimento. É nele que surge o motor de toda uma série de abominações contra a ordem do mundo, porque o ressentimento carrega uma raiva mal contida que se transforma em sentimendo de vingança com requintes de perversidade. Nada mais distante do amor.
É o ressentimento que move o militante gay, ateu, etc. Como ele é fundamentalmente impotente, sua ação será uma mistura de temeridade com pusilanimidade, porque se de um lado sempre deixará transparecer seu caráter frágil (por exemplo, o militante tal diz que pertence a um grupo de perseguidos pela sociedade), por outro ele utilizará todos os meios que estiverem à sua disposição, sob a desculpa de que quer apenas proteger a si mesmo e a seu grupo, para ferir de morte, de modo ousado, seu rival, nem que para isso carrega para o fundo do poço toda a nação e quiçá o mundo.
Pretendo no futuro comentar melhor sobre o problema grave do ressentimento como motor de todas essas loucuras.
Saturday, March 04, 2006
Como escrever bem?
Um bom amigo meu, certo dia, se queixava comigo porque achava que escrevia mal até não mais poder. Enquanto ele fazia suas confissões, eu sorria um pouco, mais ou menos como quem diz em tom de galhofa: "Bem vindo ao clube, amigão!"
Infelizmente eu não estava em condições de lhe dar algum conselho para que escrevesse melhor, pois sou a penúltima pessoa deste mundo que tem condições de dar conselhos: não a última, porque já vi horror pior que o meu. Mas se não estou no último lugar da fila, então alguma coisa eu sei, ou supostamente penso saber.
Vamos então ser poéticos, leitor, e fantasiemos juntos.
Uma coisa que me parece ser tão clara quanto Jesus ter sido filho de Maria é que só se aprende a escrever primeiramente lendo. Só que há leituras e leituras. Será difícil saber escrever lendo jornais, ou pelo menos os jornais de hoje em dia, que são escritos do jeito mais troncho possível. Às vezes é tal o descuido com o texto que podemos mudar de posição os parágrafos e até todas as frases sem que haja a menor diferença. As idéias não formam um todo amarradinho, sem contar quando são vagas, imprecisas. Pelo contrário, mais parece que foram expelidas com toda a má vontade deste mundo, cuspidas no papel a intervalos irregulares. Não será pelos jornais que aprenderemos a escrever, embora haja as sempre honradas exceções. Pensemos então nos livros. Mas quais? Há livros que só servem de alimento às traças, e com razão. A promiscuidade de publicações deveria ser um pecado equivalente à luxúria. É uma montanha de entulho que sem dúvida nenhuma tende ao infinito. A situação só não está irremediavelmente perdida porque da mesma forma que a existência de um só justo redime toda a cidade corrompida, também um bom livro justifica de certa maneira a má nomeada dos seus demais irmãos de papel.
Mas essa retomada de confiança nos livros não respondeu a pergunta: quais? No caso em questão, leitor, só podem ser os clássicos. Teremos então de ler as principais obras de nossa língua, antes de mais nada, a fim de saber como se deve escrever. E aqui peço licença ao Senhor Fio da Meada para convidar a Senhorita Digressão. Acho útil lembrar ao leitor de onde vem a expressão "clássico". Sabemos que o português é derivado do latim, e naturalmente há milhares de palavras provenientes da língua de Cícero. A nossa palavra em questão está nesse vasto grupo: provém do termo classici. Segundo Áulio Gélio, ele se referia, em sentido estrito, à primeira das classes instituídas pelo rei Sérvio Túlio. Com o passar do tempo, o sentido da palavra também passou a desiginar aquilo que fosse mais exemplar e elevado. Até hoje dizemos que um "sujeito desclassificado" é aquele sem modos, enquanto o que tem classe é mais digno. Naturalmente, o termo foi sendo utilizado também para designar as obras que eram mais estimadas. Assim, da mesma forma que há várias categorias de cidadãos, sendo que uma delas é a mais elevada (e por isso mesmo a menor, se bem que a mais poderosa), há várias categorias de livros, dentre as quais o seleto grupo dos clássicos. E onde um romano aprendia os clássicos? Na classis, que em português dará a nossa classe. Era através deles que o jovem romano, auxiliado pelo grammaticus, dominava com maior solidez o latim. Ortografia, gramática e, é claro, um mergulho em sua cultura, tudo isso o moço romano aprendia através dos clássicos. Aqui o Senhor Fio da Meada gentilmente pede a mão da Senhorita Digressão, porque o ensino dos jovens latinos muito tem a ver com o que estamos discutindo, leitor, que é o saber escrever. Os clássicos serviam como exemplos para o aprendizado. E, coisa curiosa, o ensino da gramática, segundo os antigos, vinha exatamente acompanhado do ensino literário. Esse verdadeiro legado romano foi largamente utilizado durante boa parte da longa Idade Média.
Do que foi dito, poderíamos fazer a seguinte pergunta: quais autores estariam para a nossa língua assim como Cícero e outros estavam para o latim e Homero e os demais ilustres helenos para o grego? Tendo em vista que as obras clássicas têm a característica de estarem já consolidadas - elas se tornam uma autoridade por si mesmas e pela força da tradição -, citemos só uns poucos nomes como exemplo: Camões, Pe. Antônio Vieira, Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e Machado de Assis. É lógico que há muitos outros, e não apenas no campo da literatura propriamente dita: é o caso de Joaquim Nabuco, só para dar um exemplo. Cada um desses autores (e muitos outros) são muito úteis como exemplo do bom modo de escrever, e é muito útil imitá-los como estudo. Com a prática, as construções mais intrincadas e o vocabulário mais nebuloso tornar-se-ão familiares. Nossa compreensão do idioma aumentará aos poucos, e então saberemos nos expressar muito melhor que antes, sem contar que ao mesmo tempo nossa própria cultura literária crescerá.
Leitor, aqui termina a nossa fantasia, mas antes quero dizer mais três palavras.
Vou aos poucos colocando em prática tudo isso que te disse, embora eu esteja seguro da minha defasagem, sobretudo se compararmos com que idade um moço romano já dominava perfeitamente sua língua. O domínio do próprio idioma é uma condição básica para o desenvolvimento cultural, portanto é mais que urgente estarmos largamente familiarizados com ele, ou seja, é vital dominá-lo bem, ainda que às vezes ele nos seja violentamente hostil. É preciso aprender a domesticá-lo.
A discussão acerca do que é um clássico certamente não se encerra com o que eu disse, pois minha intenção era só dizer uma coisinha em linhas bem gerais. Além disso, é importante avaliar até que ponto os clássicos de uma língua estrangeira podem ser úteis para a nossa.
Por último, ainda que eu incorra no pecado de subestimar o leitor amigo, aviso que é claro que a discussão sobre como escrever bem não se esgota aqui. Há outras coisas importantes também. No entanto, achei por bem atacar um dos pontos mais necessários e tradicionais, que é o auxílio dos clássicos.
Infelizmente eu não estava em condições de lhe dar algum conselho para que escrevesse melhor, pois sou a penúltima pessoa deste mundo que tem condições de dar conselhos: não a última, porque já vi horror pior que o meu. Mas se não estou no último lugar da fila, então alguma coisa eu sei, ou supostamente penso saber.
Vamos então ser poéticos, leitor, e fantasiemos juntos.
Uma coisa que me parece ser tão clara quanto Jesus ter sido filho de Maria é que só se aprende a escrever primeiramente lendo. Só que há leituras e leituras. Será difícil saber escrever lendo jornais, ou pelo menos os jornais de hoje em dia, que são escritos do jeito mais troncho possível. Às vezes é tal o descuido com o texto que podemos mudar de posição os parágrafos e até todas as frases sem que haja a menor diferença. As idéias não formam um todo amarradinho, sem contar quando são vagas, imprecisas. Pelo contrário, mais parece que foram expelidas com toda a má vontade deste mundo, cuspidas no papel a intervalos irregulares. Não será pelos jornais que aprenderemos a escrever, embora haja as sempre honradas exceções. Pensemos então nos livros. Mas quais? Há livros que só servem de alimento às traças, e com razão. A promiscuidade de publicações deveria ser um pecado equivalente à luxúria. É uma montanha de entulho que sem dúvida nenhuma tende ao infinito. A situação só não está irremediavelmente perdida porque da mesma forma que a existência de um só justo redime toda a cidade corrompida, também um bom livro justifica de certa maneira a má nomeada dos seus demais irmãos de papel.
Mas essa retomada de confiança nos livros não respondeu a pergunta: quais? No caso em questão, leitor, só podem ser os clássicos. Teremos então de ler as principais obras de nossa língua, antes de mais nada, a fim de saber como se deve escrever. E aqui peço licença ao Senhor Fio da Meada para convidar a Senhorita Digressão. Acho útil lembrar ao leitor de onde vem a expressão "clássico". Sabemos que o português é derivado do latim, e naturalmente há milhares de palavras provenientes da língua de Cícero. A nossa palavra em questão está nesse vasto grupo: provém do termo classici. Segundo Áulio Gélio, ele se referia, em sentido estrito, à primeira das classes instituídas pelo rei Sérvio Túlio. Com o passar do tempo, o sentido da palavra também passou a desiginar aquilo que fosse mais exemplar e elevado. Até hoje dizemos que um "sujeito desclassificado" é aquele sem modos, enquanto o que tem classe é mais digno. Naturalmente, o termo foi sendo utilizado também para designar as obras que eram mais estimadas. Assim, da mesma forma que há várias categorias de cidadãos, sendo que uma delas é a mais elevada (e por isso mesmo a menor, se bem que a mais poderosa), há várias categorias de livros, dentre as quais o seleto grupo dos clássicos. E onde um romano aprendia os clássicos? Na classis, que em português dará a nossa classe. Era através deles que o jovem romano, auxiliado pelo grammaticus, dominava com maior solidez o latim. Ortografia, gramática e, é claro, um mergulho em sua cultura, tudo isso o moço romano aprendia através dos clássicos. Aqui o Senhor Fio da Meada gentilmente pede a mão da Senhorita Digressão, porque o ensino dos jovens latinos muito tem a ver com o que estamos discutindo, leitor, que é o saber escrever. Os clássicos serviam como exemplos para o aprendizado. E, coisa curiosa, o ensino da gramática, segundo os antigos, vinha exatamente acompanhado do ensino literário. Esse verdadeiro legado romano foi largamente utilizado durante boa parte da longa Idade Média.
Do que foi dito, poderíamos fazer a seguinte pergunta: quais autores estariam para a nossa língua assim como Cícero e outros estavam para o latim e Homero e os demais ilustres helenos para o grego? Tendo em vista que as obras clássicas têm a característica de estarem já consolidadas - elas se tornam uma autoridade por si mesmas e pela força da tradição -, citemos só uns poucos nomes como exemplo: Camões, Pe. Antônio Vieira, Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e Machado de Assis. É lógico que há muitos outros, e não apenas no campo da literatura propriamente dita: é o caso de Joaquim Nabuco, só para dar um exemplo. Cada um desses autores (e muitos outros) são muito úteis como exemplo do bom modo de escrever, e é muito útil imitá-los como estudo. Com a prática, as construções mais intrincadas e o vocabulário mais nebuloso tornar-se-ão familiares. Nossa compreensão do idioma aumentará aos poucos, e então saberemos nos expressar muito melhor que antes, sem contar que ao mesmo tempo nossa própria cultura literária crescerá.
Leitor, aqui termina a nossa fantasia, mas antes quero dizer mais três palavras.
Vou aos poucos colocando em prática tudo isso que te disse, embora eu esteja seguro da minha defasagem, sobretudo se compararmos com que idade um moço romano já dominava perfeitamente sua língua. O domínio do próprio idioma é uma condição básica para o desenvolvimento cultural, portanto é mais que urgente estarmos largamente familiarizados com ele, ou seja, é vital dominá-lo bem, ainda que às vezes ele nos seja violentamente hostil. É preciso aprender a domesticá-lo.
A discussão acerca do que é um clássico certamente não se encerra com o que eu disse, pois minha intenção era só dizer uma coisinha em linhas bem gerais. Além disso, é importante avaliar até que ponto os clássicos de uma língua estrangeira podem ser úteis para a nossa.
Por último, ainda que eu incorra no pecado de subestimar o leitor amigo, aviso que é claro que a discussão sobre como escrever bem não se esgota aqui. Há outras coisas importantes também. No entanto, achei por bem atacar um dos pontos mais necessários e tradicionais, que é o auxílio dos clássicos.
Monday, February 27, 2006
A política
A política é algo estranho. Parece que quanto mais presente ela estiver numa comunidade, quer dizer, quanto mais precisamos dela, tanto mais anormais estão as coisas.
O ideal é não termos de recorrer à política, ou pelo menos não tanto. Ela é apenas uma espécie de técnica - isto mesmo, técnica - para que seja possível viver bem em comunidade - e só. Nesse sentido, sua "manutenção" é mínima, até mesmo um tanto prosaica. Claro, muitas pessoas podem ter muitas idéias sobre o que é viver bem e como tornar isso possível. Contudo, todas elas precisam ter como pressuposto que as leis têm de ser tão genéricas quanto possível e que garantam que não haja empecilhos para que a sociedade funcione por si mesma. Digo isso porque tenho o seguinte pressuposto: que a sociedade por si mesmo funciona bem, mas às vezes é necessário dar uns retoques aqui e ali. Em casos mais extremos, que por isso são completamente excepcionais, aí sim podemos dedicar bastante energia a fim de sanar o problema, mas só enquanto houver tal necessidade.
Quando os homens se reúnem para fazer política, naturalmente há discordâncias sobre o que se deve fazer ou não, o que é mais necessário, etc, e assim principiam os partidos. No entanto, findados os objetivos, dissipa-se o partido, que já não teria mais razão de ser. Isso aconteceu durante toda a história. Todavia, o que torna a nossa época particularmente estranhíssima do ponto de vista político é que agora os partidos permanecem por si mesmos, a despeito do tempo de existência e do que fazem. Eles mesmos se tornam a razão de seu próprio existir. Isso é tão arraigado que ninguém nem cogita a possibilidade de desfazer um partido após algum tempo: pelo contrário, não é o partido que nos serve, mas a gente é que serve ao partido. Esta é uma perversão.
A existência do partido fica então condicionada a uma situação problemática e insolúvel, porque na verdade os partidos acabam existindo cada vez mais em função de si mesmos e menos para resolver o que tinham de resolver. Daí que a politização da sociedade seja uma tendência. E se a sociedade inteira se politiza, então o próprio partido vai sendo encarado num sentido falsamente profundo, onde ele encarnaria de algum modo o que há de mais essencial no homem (ou até mesmo na realidade). Ele passa a ter um fundamento metafísico. Foi graças a isso que surgiram partidos como o comunista e o nazista, e talvez surja coisa pior no futuro. E coisas assim são a maior perversão da política.
É preciso então reorganizar a hierarquia das coisas, pondo a política em seu devido lugar. Mas despolitizar numa época tão politizada não será tarefa fácil.
O ideal é não termos de recorrer à política, ou pelo menos não tanto. Ela é apenas uma espécie de técnica - isto mesmo, técnica - para que seja possível viver bem em comunidade - e só. Nesse sentido, sua "manutenção" é mínima, até mesmo um tanto prosaica. Claro, muitas pessoas podem ter muitas idéias sobre o que é viver bem e como tornar isso possível. Contudo, todas elas precisam ter como pressuposto que as leis têm de ser tão genéricas quanto possível e que garantam que não haja empecilhos para que a sociedade funcione por si mesma. Digo isso porque tenho o seguinte pressuposto: que a sociedade por si mesmo funciona bem, mas às vezes é necessário dar uns retoques aqui e ali. Em casos mais extremos, que por isso são completamente excepcionais, aí sim podemos dedicar bastante energia a fim de sanar o problema, mas só enquanto houver tal necessidade.
Quando os homens se reúnem para fazer política, naturalmente há discordâncias sobre o que se deve fazer ou não, o que é mais necessário, etc, e assim principiam os partidos. No entanto, findados os objetivos, dissipa-se o partido, que já não teria mais razão de ser. Isso aconteceu durante toda a história. Todavia, o que torna a nossa época particularmente estranhíssima do ponto de vista político é que agora os partidos permanecem por si mesmos, a despeito do tempo de existência e do que fazem. Eles mesmos se tornam a razão de seu próprio existir. Isso é tão arraigado que ninguém nem cogita a possibilidade de desfazer um partido após algum tempo: pelo contrário, não é o partido que nos serve, mas a gente é que serve ao partido. Esta é uma perversão.
A existência do partido fica então condicionada a uma situação problemática e insolúvel, porque na verdade os partidos acabam existindo cada vez mais em função de si mesmos e menos para resolver o que tinham de resolver. Daí que a politização da sociedade seja uma tendência. E se a sociedade inteira se politiza, então o próprio partido vai sendo encarado num sentido falsamente profundo, onde ele encarnaria de algum modo o que há de mais essencial no homem (ou até mesmo na realidade). Ele passa a ter um fundamento metafísico. Foi graças a isso que surgiram partidos como o comunista e o nazista, e talvez surja coisa pior no futuro. E coisas assim são a maior perversão da política.
É preciso então reorganizar a hierarquia das coisas, pondo a política em seu devido lugar. Mas despolitizar numa época tão politizada não será tarefa fácil.
Sunday, February 26, 2006
Quando um sambista deslumbrado tenta falar de religião
Nota: Já havia um tempinho que eu não escrevia notas. Mas o motivo para tanto é que este texto é um rascunho, nada revisado. Então talvez eu mude alguma coisa só depois do carnaval, não porque cairei na farra, mas por pura e simples preguiça. E se nada a obstar, piparotes.
Tentei não dizer nada sobre o carnaval, mas não consegui. Parece que me incomodam de propósito. Isso porque em certa ocasião um sambista disse na tv que "o carnaval une mais gente que a religião". Em outro canal, uma senhorita disse sobre o carnaval: "É uma festa excelente porque não há diferença de classes na folia". Digo de passagem que o senhor e a senhorita não eram intelectuais, ao menos no sentido normal que a palavra um dia já teve, porque no sentido da "longa marcha rumo ao aparelho do Estado" (Gramsci) eles podem ser considerados intelectuais orgânicos. Notem bem: se você colocar de um lado da balança alguém como, digamos, Carlos Alberto Nunes, e, do outro, o sambista que disse aquela asneira, do ponto de vista da tal marcha rumo ao aparelho do Estado o sambista leva a melhor, porque contribuiu para a agitação revolucionária de algum modo, enquanto C.A. Nunes não passa de um esquisitão que traduziu para nossa língua todo Platão, todo teatro de Shakespeare e a Ilíada e a Odisséia, empreendimento este neutro do ponto de vista do conflito entre esquerda e direita.
Isso explica um pouco porque certos cidadãos como Scheler, Zubiri e Husserl são geralmente deixados de lado pelos "intelectuais", trocados por gente do calibre de Sartre, Foucault e, por que não?, sambistas: nossos "intelectuais" não querem compreender mais coisa alguma, só querem encher o saco com o sonho humilde de transformar o mundo.
Voltemos à afirmação daquele senhor. Um disparate tão grande talvez em outras épocas fosse motivo de censura pública, ou pelo menos censura da própria consciência. Mas não, passou em branco, e até imagino que com certo aplauso. O sambista disse o que não deveria ter dito porque segundo ele o samba une, enquanto a religião afasta. "Vejam só quantas guerras religiosas já houve!", asseverou. Se o samba tem um poder tão maravilhoso de união, porque o primeiro lugar onde surgem as desordens da nossa cidade é justamente nos morros, já que as escolas de samba por lá ficam? Então antes de mais nada. deveriam tocar mais samba para tentar unir a população de suas comunidades a fim de que parem de se matar e matar quem por lá não mora. Mas há samba nos morros desde não sei quando, o que me leva a concluir que este não deve ser o melhor método, pois a violência na cidade só tem aumentado. E justamente São Paulo e Rio (que ergueu um lugar chamado Apoteose a fim de homenagear gente tocando tambor e de tanguinha), cidades que têm sido o centro das escolas de samba, são ambas violentíssimas. Por outro lado, quantos amantes de samba há no país? Talvez menos que de evangélicos. E há envagélicos em todo o mundo, inclusive em países comunistas - caçados e torturados por aquelas bandas, diga-se de passagem -, enquanto sambistas só existem em um ou outro canto do mundo a título de "cultura exótica", completamente insignificante. E não me parece que a ONU já tenha cogitado terminar conflitos como o que há entre Israel e os palestinos com a força da bateria da Estação Primeira de Mangueira.
Se há muitos evangélicos, mais ainda há católicos, e em praticamente todos os países. Mais de um bilhão de fiéis em todo o mundo não é um exemplo claro e raro de união entre os povos? Uma coisa dessas só é possível porque embora diversas as pessoas se unem através de uma série de valores transcendentes. E quem irá se matar por causa do samba? Na verdade talvez até haja algum infeliz, afinal existem pessoas que se matam por causa do futebol. Isso só depõe a favor da religião, porque com ela essas sandices não aconteceriam. Identificar religião e catástrofe é, eu sei, o ponto de vista de muita gente, e o fato de um sambista dizer algo desse tipo demostra como essas opiniões bizarras já estão se espalhando entre o povão.
Embora o samba tenha uma folha de serviços tão irrelevante, defendê-lo acima da religião é coisa de burrinho. É uma falta de senso de proporções tão troncha que chego a duvidar que disseram aquilo que eu mesmo ouvi. É uma daquelas coisas que você não sabe até que ponto termina a malícia e começa a burrice.
Quanto ao que disse a senhorita, se ela soubesse as implicações e os pressupostos daquela frase, talvez evitasse para sempre repeti-la. Isso porque tal idéia apóia-se no preconceito marxista de que a sociedade está divida em classes antagônicas, e que a mais progressita deve eliminar a "reacionária". Daí que, enxergando as coisas desse modo, o carnaval parece algo esquisito: exploradores e explorados, inimigos entre si, mas festejando juntos. Nem preciso dizer a opinião desses senhores quando o assunto é futebol, e em especial a Copa do Mundo. Tudo isso deve parecer-lhes um tipo de hipnose, explorada maquiavelicamente pelas elites reacionárias. Eis um pensamento esquisito, cujos defensores de tão insólita opinião o dr. Simão Bacamarte com razão internaria na Casa Verde. E se o carnaval é estranho, que dizer da religião, onde na missa os mesmíssimos inimigos comungam juntos em nome de um Deus que certa vez disse que aquilo que Ele une homem nenhum separa? Nem a alegria boba do carnaval nem a alegria esperançosa do Cristianismo são alienantes, ao contrário das doutrinas que pregam que a discórdia é o fundamento de todas as coisas. Não: o fundamento de todas as coisas é precisamente este Deus que mantém os opostos unidos. Aquelas doutrinas, estas sim alienam o homem, fazendo com que ele enxergue problemas e discórdias que na verdade só existem em sua cabeça.
Embora o que disseram o senhor e a senhorita careça de fundamento, tais idéias tem por alguma razão um valor autoprobante, de tal modo que nos meios supostamente esclarecidos elas passam como se fossem evidências inquestionáveis, quando na verdade deviam ser consideradas no mínimo inusitadas. Na verdade, elas são mais propaganda que idéias propriamente ditas. Seus fundamentos estão menos em si mesmos que nas intenções dúbias de que as diz. Elas são, numa palavra, propaganda de guerra. É preciso desmascará-las no ato.
Tentei não dizer nada sobre o carnaval, mas não consegui. Parece que me incomodam de propósito. Isso porque em certa ocasião um sambista disse na tv que "o carnaval une mais gente que a religião". Em outro canal, uma senhorita disse sobre o carnaval: "É uma festa excelente porque não há diferença de classes na folia". Digo de passagem que o senhor e a senhorita não eram intelectuais, ao menos no sentido normal que a palavra um dia já teve, porque no sentido da "longa marcha rumo ao aparelho do Estado" (Gramsci) eles podem ser considerados intelectuais orgânicos. Notem bem: se você colocar de um lado da balança alguém como, digamos, Carlos Alberto Nunes, e, do outro, o sambista que disse aquela asneira, do ponto de vista da tal marcha rumo ao aparelho do Estado o sambista leva a melhor, porque contribuiu para a agitação revolucionária de algum modo, enquanto C.A. Nunes não passa de um esquisitão que traduziu para nossa língua todo Platão, todo teatro de Shakespeare e a Ilíada e a Odisséia, empreendimento este neutro do ponto de vista do conflito entre esquerda e direita.
Isso explica um pouco porque certos cidadãos como Scheler, Zubiri e Husserl são geralmente deixados de lado pelos "intelectuais", trocados por gente do calibre de Sartre, Foucault e, por que não?, sambistas: nossos "intelectuais" não querem compreender mais coisa alguma, só querem encher o saco com o sonho humilde de transformar o mundo.
Voltemos à afirmação daquele senhor. Um disparate tão grande talvez em outras épocas fosse motivo de censura pública, ou pelo menos censura da própria consciência. Mas não, passou em branco, e até imagino que com certo aplauso. O sambista disse o que não deveria ter dito porque segundo ele o samba une, enquanto a religião afasta. "Vejam só quantas guerras religiosas já houve!", asseverou. Se o samba tem um poder tão maravilhoso de união, porque o primeiro lugar onde surgem as desordens da nossa cidade é justamente nos morros, já que as escolas de samba por lá ficam? Então antes de mais nada. deveriam tocar mais samba para tentar unir a população de suas comunidades a fim de que parem de se matar e matar quem por lá não mora. Mas há samba nos morros desde não sei quando, o que me leva a concluir que este não deve ser o melhor método, pois a violência na cidade só tem aumentado. E justamente São Paulo e Rio (que ergueu um lugar chamado Apoteose a fim de homenagear gente tocando tambor e de tanguinha), cidades que têm sido o centro das escolas de samba, são ambas violentíssimas. Por outro lado, quantos amantes de samba há no país? Talvez menos que de evangélicos. E há envagélicos em todo o mundo, inclusive em países comunistas - caçados e torturados por aquelas bandas, diga-se de passagem -, enquanto sambistas só existem em um ou outro canto do mundo a título de "cultura exótica", completamente insignificante. E não me parece que a ONU já tenha cogitado terminar conflitos como o que há entre Israel e os palestinos com a força da bateria da Estação Primeira de Mangueira.
Se há muitos evangélicos, mais ainda há católicos, e em praticamente todos os países. Mais de um bilhão de fiéis em todo o mundo não é um exemplo claro e raro de união entre os povos? Uma coisa dessas só é possível porque embora diversas as pessoas se unem através de uma série de valores transcendentes. E quem irá se matar por causa do samba? Na verdade talvez até haja algum infeliz, afinal existem pessoas que se matam por causa do futebol. Isso só depõe a favor da religião, porque com ela essas sandices não aconteceriam. Identificar religião e catástrofe é, eu sei, o ponto de vista de muita gente, e o fato de um sambista dizer algo desse tipo demostra como essas opiniões bizarras já estão se espalhando entre o povão.
Embora o samba tenha uma folha de serviços tão irrelevante, defendê-lo acima da religião é coisa de burrinho. É uma falta de senso de proporções tão troncha que chego a duvidar que disseram aquilo que eu mesmo ouvi. É uma daquelas coisas que você não sabe até que ponto termina a malícia e começa a burrice.
Quanto ao que disse a senhorita, se ela soubesse as implicações e os pressupostos daquela frase, talvez evitasse para sempre repeti-la. Isso porque tal idéia apóia-se no preconceito marxista de que a sociedade está divida em classes antagônicas, e que a mais progressita deve eliminar a "reacionária". Daí que, enxergando as coisas desse modo, o carnaval parece algo esquisito: exploradores e explorados, inimigos entre si, mas festejando juntos. Nem preciso dizer a opinião desses senhores quando o assunto é futebol, e em especial a Copa do Mundo. Tudo isso deve parecer-lhes um tipo de hipnose, explorada maquiavelicamente pelas elites reacionárias. Eis um pensamento esquisito, cujos defensores de tão insólita opinião o dr. Simão Bacamarte com razão internaria na Casa Verde. E se o carnaval é estranho, que dizer da religião, onde na missa os mesmíssimos inimigos comungam juntos em nome de um Deus que certa vez disse que aquilo que Ele une homem nenhum separa? Nem a alegria boba do carnaval nem a alegria esperançosa do Cristianismo são alienantes, ao contrário das doutrinas que pregam que a discórdia é o fundamento de todas as coisas. Não: o fundamento de todas as coisas é precisamente este Deus que mantém os opostos unidos. Aquelas doutrinas, estas sim alienam o homem, fazendo com que ele enxergue problemas e discórdias que na verdade só existem em sua cabeça.
Embora o que disseram o senhor e a senhorita careça de fundamento, tais idéias tem por alguma razão um valor autoprobante, de tal modo que nos meios supostamente esclarecidos elas passam como se fossem evidências inquestionáveis, quando na verdade deviam ser consideradas no mínimo inusitadas. Na verdade, elas são mais propaganda que idéias propriamente ditas. Seus fundamentos estão menos em si mesmos que nas intenções dúbias de que as diz. Elas são, numa palavra, propaganda de guerra. É preciso desmascará-las no ato.
Friday, February 24, 2006
Xi, de novo os comentários sumiram...
Voltei sem meus sisos inferiores e meu blog sem os antigos comentários.
Trato terrivelmente mal os visitantes! Não sei se argumento a favor de minha ignorância, porque entendo muito mal dessas alterações de templates - e vejam que este aqui já veio pronto, era só uma questão de optar! -, ou se contra minha falta de prudência, porque justamente por eu entender tão pouco dessas coisas melhor talvez seria nada fazer. Em todo caso, neste blog, onde o branco se tornou preto para de novo voltar a ser branco, achei melhor adotar o sistema de comentários do Blogger, até porque o anterior já caducara algumas vezes, fazendo o desfavor de apagar vários comentários.
Peço desculpas pelos novos transtornos, ainda que involuntários.
Trato terrivelmente mal os visitantes! Não sei se argumento a favor de minha ignorância, porque entendo muito mal dessas alterações de templates - e vejam que este aqui já veio pronto, era só uma questão de optar! -, ou se contra minha falta de prudência, porque justamente por eu entender tão pouco dessas coisas melhor talvez seria nada fazer. Em todo caso, neste blog, onde o branco se tornou preto para de novo voltar a ser branco, achei melhor adotar o sistema de comentários do Blogger, até porque o anterior já caducara algumas vezes, fazendo o desfavor de apagar vários comentários.
Peço desculpas pelos novos transtornos, ainda que involuntários.
Saturday, February 04, 2006
Este blog entrará em recesso por tempo indeterminado
Eis que um vilão qualquer quis que este blog entrasse em recesso por tempo indeterminado devido aos achaques de velhice precoce de meu computador.
Nestas últimas semanas, meu computador não permanece ligado por mais de uma hora, se bem que às vezes ele não está naqueles dias e me atura por mais algum tempo. Ora, se não consigo levar menos de meia hora para me despedir de alguém (meu amigo Thiago pode dar fé, já que em certa ocasião levamos mais de uma hora para nos despedirmos), e se levo mais de uma hora para almoçar de modo adequado - outras pessoas podem dar fé do que estou dizendo -, quanto tempo mais não me é necessário para sentar a buzanfa na cadeira a fim de escrever alguma coisinha neste blog? A verdade é que sou uma pessoa lenta - oh, e que dizer de meus proverbiais atrasos, embora eu esteja melhorando? -, lenta até não mais poder, se bem que nesta minha vagarosa vida eu já tenha conhecido gente pior, que de tão devagar parecia viver em um tempo paralelo, como se morasse em Plutão, aquele lugarzinho que de tão moroso flertar com o sol só recebe uns raiozinhos de luz da estrela-mãe por questões de caridade.
De repente, como o juiz é vilão, desacatarei vez ou outra seu querer e postarei alguma coisa na medida do possível, mas não estranhem se talvez eu dê uma sumidinha. Mas caso haja algum pagão que esteja a ler este meu texto, tenha um pingo de caridade e vaticine por gentileza quando é que tudo por aqui voltará ao normal. De agradecimento pedirei aos céus que você seja salvo. Deuses imortais, o tempora, o mores.
Nestas últimas semanas, meu computador não permanece ligado por mais de uma hora, se bem que às vezes ele não está naqueles dias e me atura por mais algum tempo. Ora, se não consigo levar menos de meia hora para me despedir de alguém (meu amigo Thiago pode dar fé, já que em certa ocasião levamos mais de uma hora para nos despedirmos), e se levo mais de uma hora para almoçar de modo adequado - outras pessoas podem dar fé do que estou dizendo -, quanto tempo mais não me é necessário para sentar a buzanfa na cadeira a fim de escrever alguma coisinha neste blog? A verdade é que sou uma pessoa lenta - oh, e que dizer de meus proverbiais atrasos, embora eu esteja melhorando? -, lenta até não mais poder, se bem que nesta minha vagarosa vida eu já tenha conhecido gente pior, que de tão devagar parecia viver em um tempo paralelo, como se morasse em Plutão, aquele lugarzinho que de tão moroso flertar com o sol só recebe uns raiozinhos de luz da estrela-mãe por questões de caridade.
De repente, como o juiz é vilão, desacatarei vez ou outra seu querer e postarei alguma coisa na medida do possível, mas não estranhem se talvez eu dê uma sumidinha. Mas caso haja algum pagão que esteja a ler este meu texto, tenha um pingo de caridade e vaticine por gentileza quando é que tudo por aqui voltará ao normal. De agradecimento pedirei aos céus que você seja salvo. Deuses imortais, o tempora, o mores.
Sunday, January 22, 2006
Cigarro e neurose
Tenho uma verdadeira simpatia pelos fumantes. Fico chateado com a maneira como eles são tratados, parecendo um bando de marginais só por causa de um maldito cigarrinho.
Que as pessoas são neuróticas não tenho dúvidas. Sempre há alguma esquisitice, alguma coisa mal resolvida na nossa biografia, alguma coisa a ser revista não sem alguma dor. Não há remissão de pecados sem a devida luta contra si mesmo. O problema todo é quando descaradamente dirigem as neuroses e frustrações do povo contra determinadas coisas que não são maléficas. Isso é o fim da picada. Um bom exemplo disso é justamente o maldito cigarrinho.
Certa vez, quando eu ainda era um bebezinho no segundo grau, havia uma professora de Biologia que fumava demais. Nós então achávamos - eu não, mas como não me opus a nada, me coloco nessa ciranda - que ela cometia uma espécie de impiedade em plena sala quando fumava. Começávamos naqueles momentos a incorporar uns nazistinhas de plantão e gritávamos literalmente para que ela apagasse aquilo. Era uma cena linda, a turma às patadas obrigando a professora a apagar o cigarro, como se nossa ação, digna de 1984, fosse no futuro cantada pelos aedos. Era ridículo.
Igualmente ridículo é quando pessoas absolutamente mal-educadas começam a fazer cara feia na rua quando alguém na frente está fumando. Chegam a tentar pateticamente dispersar a fumaça como se fosse Zyklon-B, aos prantos. Isso é coisa de neuróticos, mal-educados neuróticos. E me calo sobre aqueles procedimentos vergonhosos em restaurantes e lugares afins, onde a pessoa é obrigada ilegalmente a parar de fumar. Passemos.
Há anos atrás vi na GNT um programa em que uma empresa de fumo passava por uma verdadeira sabatina de uma comissão parlamentar americana. Desde o início, a comissão estava francamente hostil. Talvez por já prever semelhante procedimento, a empresa contratou uns quinze advogados para defendê-la, muito embora não fosse um julgamento. Os congressistas ignoravam solenemente, por despreparo, malícia ou ambos, aquele princípio pelo qual o réu é considerado inocente até que se prove o contrário. O modo como a sabatina era conduzida forçava o tempo todo a empresa a provar que não comercializava veneno. Só faltou o auto-de-fé. Em certa altura, um parlamentar perguntou se por um acaso os advogados tinham filhos pequenos. Acho que a maioria respondeu que sim. O mesmo parlamentar, com malícia extrema, em seguida fez uma pergunta inacreditável a cada um dos senhores advogados:
- Sr. Tal, se o cigarro é tão inofensivo como dizes, permitirias então que teus filhos fumassem?
Os advogados, um por um, não sabiam o que responder, porque provavelmente não esperavam aquele tipo de pergunta. Não lembro exatamente o que disseram, mas não responderam nem que sim, nem que não, e foram passando a bola adiante. No final a impressão que ficou, como era óbvio de imaginar, foi que eles só defendiam a empresa porque eram pagos, pois intimamente cada um eles não sabia se o cigarro era mesmo nocivo. Uma autêntica bola fora.
No dia eu achei aquilo lindo, porque parecia uma prova eloqüente da falsidade dos argumentos dos pró-tabagistas. Mas logo em seguida eu pensei cá comigo: os advogados não disseram que o cigarro é totalmente inofensivo, mas que não era a praga que os congressistas afirmavam, e que o controle de qualidade era um método eficaz para a preservação da saúde das pessoas. Levando-se em consideração isso, a pergunta do parlamentar era uma pegadinha, e todos os quinze advogados caíram. Podiam replicar perguntando se o parlamentar tinha filhos pequenos, se ele dirigia, e se ele permitiria então que seu filhinho passeasse de carro. Podiam até mesmo trocar "dirigir" por "beber": o raciocínio seria o mesmo. Um outro exemplo do que quero dizer é o seguinte: dia desses eu vi no jornal que os cosméticos para adultos são nocivos para as crianças, porque os de adultos contém substâncias nocivas para a saúde delas. Agora bem: proibiríamos então a venda de cosméticos? Segundo o raciocínio do parlamentar, sim, e assim muitas outras coisas deveriam ser proibidas também, como o carro. Não sei como aqueles advogados não tiveram presença de espírito naquela hora, e olha que eles ganham milhões no que fazem!
Desde aquele programa fiquei com uma pulga atrás da orelha com as medidas antitabagistas. Nunca me pareceram firmadas em razões decentes. Não sou um conhecedor virtuose das discussões sobre o fumo, mas sei que há alguns fatores que não são considerados com a devida cautela. Por exemplo, o problema da poluição do ar. Quem sabe se o fumo é apenas um pequeno problema inserido em algo muito mais vasto, que é a porcaria de ar que respiramos nas cidades grandes? Também não sei dizer se o ar é mesmo tão ruim quanto afirmei, mas é uma hipótese a ser investigada. Ainda que algum leitor, lembrando-se do velho provérbio “a prudência é uma virtude”, diga que por via das dúvidas é melhor controlar de algum jeito a venda do fumo, eu diria que nem por isso é válido concluir que o cigarro é igual ao comunismo: intrinsecamente perverso.
Há também a questão óbvia da qualidade do cigarro: pode ser que os que causem mal são apenas os piores, como um iogurte estragado causa dor de barriga sem que por isso o iogurte bom seja considerado nocivo. Por outro lado, as pessoas têm diferentes graus de susceptibilidade às mais variadas substâncias. Não é à toa que existe alergia: algo que teu organismo não acusa como hostil pode ter efeitos completamente contrários em outras pessoas. O mesmo pode se dar com o fumo: pode haver pessoas mais susceptíveis aos seus efeitos, mas sem que com isso o cigarro em si seja algo condenável.
Por fim, há o problema, como eu disse antes, da neurose. Da mesma forma que nosso organismo pode ser tão sensível que acusa como hostil algo que na verdade não é ruim em si, as pessoas podem estar predispostas a agir mal ante algo que muitos digam que é ruim, embora esse algo não seja verdadeiramente ruim. Vou dar um exemplo simples: minha boa mãe. Um dia ela pediu Novalgina. Fui pegar, mas fiquei curioso em saber se ela, caso eu desse só água, teria a reação de desgosto como se estivesse tomando aquele remédio horrível só porque pensava mesmo que o estava tomando. Muito bem: só dei água para ela. Adivinhem? Ela fez uma careta horrível, me agradeceu, e já ia fazer outra coisa se eu não ficasse rindo e dizendo que não havia uma só gota de Novalgina. Se eu quisesse averiguar cientificamente isso, eu teria de testar em outras pessoas tal procedimento, mas acho que não é necessário porque já vi coisas semelhantes ocorrerem. Além do mais, a mente é algo tão misterioso que pode muito bem enganar o próprio corpo a ponto de a gente sentir algo como se fosse uma outra coisa (exemplo: a pessoa come cebola e pensa que é maçã, como ocorre em hipnoses).
Como nada disso, ao que parece, foi analisado minuciosamente - porque os cientistas devem analisar tudo minuciosamente -, então sempre me pareceram por demais audaciosas as afirmações sumárias veiculadas contra os cigarros, tendo como base certezas no mínimo duvidosas. E se é loucura considerar uma pessoa culpada não havendo indícios conclusivos para tanto, o mesmo se dá com o cigarro. Infelizmente a situação é tão estranha que até médicos entram nessa ciranda, emitindo juízos não segundo a ciência, mas segundo aquela coisa amorfa e esquisita chamada consenso. Consenso? Talvez fosse melhor dizer “politicamente correto”.
Portanto, ainda permaneço simpatizante de quem fuma, até porque, como eu disse antes, acho absolutamente maluca a hostilidade que pessoas aparentemente normais dirigem contra eles. E antes que um maldoso leitor diga que defendo tais coisas em causa própria, afirmo que nem fumo, nem sou pago por alguma empresa tabagista para dizer essas coisas, até porque se o fosse, eu estaria ganhando bem e já teria pagado alguém para mudar o layout do meu bloguinho. E se um leitor malicioso, usando da mesma malícia daqueles parlamentares, disser que se eu acho o cigarro tão inofensivo então eu deveria fumar, respondo que usar sungas até onde sei não é algo maléfico para a saúde, e nem por isso eu as uso, já que não gosto nenhum pouco. Acho supinamente ridículo andar de cuecas em público, anda que um chato no melhor "estilo Pródico de ser" venha discutir que cueca é uma coisa, sunga é outra. Não acho ridículo fumar, mas fora em uma ocasião onde literalmente queimei a língua da maneira mais prosaica possível, nunca me deu vontade de fumar. Por último, faltaria saber as razões de haver esse nonsense todo sobre o fumo. Não sei responder, mas certamente deve haver alguma coisa por trás disso.
Que as pessoas são neuróticas não tenho dúvidas. Sempre há alguma esquisitice, alguma coisa mal resolvida na nossa biografia, alguma coisa a ser revista não sem alguma dor. Não há remissão de pecados sem a devida luta contra si mesmo. O problema todo é quando descaradamente dirigem as neuroses e frustrações do povo contra determinadas coisas que não são maléficas. Isso é o fim da picada. Um bom exemplo disso é justamente o maldito cigarrinho.
Certa vez, quando eu ainda era um bebezinho no segundo grau, havia uma professora de Biologia que fumava demais. Nós então achávamos - eu não, mas como não me opus a nada, me coloco nessa ciranda - que ela cometia uma espécie de impiedade em plena sala quando fumava. Começávamos naqueles momentos a incorporar uns nazistinhas de plantão e gritávamos literalmente para que ela apagasse aquilo. Era uma cena linda, a turma às patadas obrigando a professora a apagar o cigarro, como se nossa ação, digna de 1984, fosse no futuro cantada pelos aedos. Era ridículo.
Igualmente ridículo é quando pessoas absolutamente mal-educadas começam a fazer cara feia na rua quando alguém na frente está fumando. Chegam a tentar pateticamente dispersar a fumaça como se fosse Zyklon-B, aos prantos. Isso é coisa de neuróticos, mal-educados neuróticos. E me calo sobre aqueles procedimentos vergonhosos em restaurantes e lugares afins, onde a pessoa é obrigada ilegalmente a parar de fumar. Passemos.
Há anos atrás vi na GNT um programa em que uma empresa de fumo passava por uma verdadeira sabatina de uma comissão parlamentar americana. Desde o início, a comissão estava francamente hostil. Talvez por já prever semelhante procedimento, a empresa contratou uns quinze advogados para defendê-la, muito embora não fosse um julgamento. Os congressistas ignoravam solenemente, por despreparo, malícia ou ambos, aquele princípio pelo qual o réu é considerado inocente até que se prove o contrário. O modo como a sabatina era conduzida forçava o tempo todo a empresa a provar que não comercializava veneno. Só faltou o auto-de-fé. Em certa altura, um parlamentar perguntou se por um acaso os advogados tinham filhos pequenos. Acho que a maioria respondeu que sim. O mesmo parlamentar, com malícia extrema, em seguida fez uma pergunta inacreditável a cada um dos senhores advogados:
- Sr. Tal, se o cigarro é tão inofensivo como dizes, permitirias então que teus filhos fumassem?
Os advogados, um por um, não sabiam o que responder, porque provavelmente não esperavam aquele tipo de pergunta. Não lembro exatamente o que disseram, mas não responderam nem que sim, nem que não, e foram passando a bola adiante. No final a impressão que ficou, como era óbvio de imaginar, foi que eles só defendiam a empresa porque eram pagos, pois intimamente cada um eles não sabia se o cigarro era mesmo nocivo. Uma autêntica bola fora.
No dia eu achei aquilo lindo, porque parecia uma prova eloqüente da falsidade dos argumentos dos pró-tabagistas. Mas logo em seguida eu pensei cá comigo: os advogados não disseram que o cigarro é totalmente inofensivo, mas que não era a praga que os congressistas afirmavam, e que o controle de qualidade era um método eficaz para a preservação da saúde das pessoas. Levando-se em consideração isso, a pergunta do parlamentar era uma pegadinha, e todos os quinze advogados caíram. Podiam replicar perguntando se o parlamentar tinha filhos pequenos, se ele dirigia, e se ele permitiria então que seu filhinho passeasse de carro. Podiam até mesmo trocar "dirigir" por "beber": o raciocínio seria o mesmo. Um outro exemplo do que quero dizer é o seguinte: dia desses eu vi no jornal que os cosméticos para adultos são nocivos para as crianças, porque os de adultos contém substâncias nocivas para a saúde delas. Agora bem: proibiríamos então a venda de cosméticos? Segundo o raciocínio do parlamentar, sim, e assim muitas outras coisas deveriam ser proibidas também, como o carro. Não sei como aqueles advogados não tiveram presença de espírito naquela hora, e olha que eles ganham milhões no que fazem!
Desde aquele programa fiquei com uma pulga atrás da orelha com as medidas antitabagistas. Nunca me pareceram firmadas em razões decentes. Não sou um conhecedor virtuose das discussões sobre o fumo, mas sei que há alguns fatores que não são considerados com a devida cautela. Por exemplo, o problema da poluição do ar. Quem sabe se o fumo é apenas um pequeno problema inserido em algo muito mais vasto, que é a porcaria de ar que respiramos nas cidades grandes? Também não sei dizer se o ar é mesmo tão ruim quanto afirmei, mas é uma hipótese a ser investigada. Ainda que algum leitor, lembrando-se do velho provérbio “a prudência é uma virtude”, diga que por via das dúvidas é melhor controlar de algum jeito a venda do fumo, eu diria que nem por isso é válido concluir que o cigarro é igual ao comunismo: intrinsecamente perverso.
Há também a questão óbvia da qualidade do cigarro: pode ser que os que causem mal são apenas os piores, como um iogurte estragado causa dor de barriga sem que por isso o iogurte bom seja considerado nocivo. Por outro lado, as pessoas têm diferentes graus de susceptibilidade às mais variadas substâncias. Não é à toa que existe alergia: algo que teu organismo não acusa como hostil pode ter efeitos completamente contrários em outras pessoas. O mesmo pode se dar com o fumo: pode haver pessoas mais susceptíveis aos seus efeitos, mas sem que com isso o cigarro em si seja algo condenável.
Por fim, há o problema, como eu disse antes, da neurose. Da mesma forma que nosso organismo pode ser tão sensível que acusa como hostil algo que na verdade não é ruim em si, as pessoas podem estar predispostas a agir mal ante algo que muitos digam que é ruim, embora esse algo não seja verdadeiramente ruim. Vou dar um exemplo simples: minha boa mãe. Um dia ela pediu Novalgina. Fui pegar, mas fiquei curioso em saber se ela, caso eu desse só água, teria a reação de desgosto como se estivesse tomando aquele remédio horrível só porque pensava mesmo que o estava tomando. Muito bem: só dei água para ela. Adivinhem? Ela fez uma careta horrível, me agradeceu, e já ia fazer outra coisa se eu não ficasse rindo e dizendo que não havia uma só gota de Novalgina. Se eu quisesse averiguar cientificamente isso, eu teria de testar em outras pessoas tal procedimento, mas acho que não é necessário porque já vi coisas semelhantes ocorrerem. Além do mais, a mente é algo tão misterioso que pode muito bem enganar o próprio corpo a ponto de a gente sentir algo como se fosse uma outra coisa (exemplo: a pessoa come cebola e pensa que é maçã, como ocorre em hipnoses).
Como nada disso, ao que parece, foi analisado minuciosamente - porque os cientistas devem analisar tudo minuciosamente -, então sempre me pareceram por demais audaciosas as afirmações sumárias veiculadas contra os cigarros, tendo como base certezas no mínimo duvidosas. E se é loucura considerar uma pessoa culpada não havendo indícios conclusivos para tanto, o mesmo se dá com o cigarro. Infelizmente a situação é tão estranha que até médicos entram nessa ciranda, emitindo juízos não segundo a ciência, mas segundo aquela coisa amorfa e esquisita chamada consenso. Consenso? Talvez fosse melhor dizer “politicamente correto”.
Portanto, ainda permaneço simpatizante de quem fuma, até porque, como eu disse antes, acho absolutamente maluca a hostilidade que pessoas aparentemente normais dirigem contra eles. E antes que um maldoso leitor diga que defendo tais coisas em causa própria, afirmo que nem fumo, nem sou pago por alguma empresa tabagista para dizer essas coisas, até porque se o fosse, eu estaria ganhando bem e já teria pagado alguém para mudar o layout do meu bloguinho. E se um leitor malicioso, usando da mesma malícia daqueles parlamentares, disser que se eu acho o cigarro tão inofensivo então eu deveria fumar, respondo que usar sungas até onde sei não é algo maléfico para a saúde, e nem por isso eu as uso, já que não gosto nenhum pouco. Acho supinamente ridículo andar de cuecas em público, anda que um chato no melhor "estilo Pródico de ser" venha discutir que cueca é uma coisa, sunga é outra. Não acho ridículo fumar, mas fora em uma ocasião onde literalmente queimei a língua da maneira mais prosaica possível, nunca me deu vontade de fumar. Por último, faltaria saber as razões de haver esse nonsense todo sobre o fumo. Não sei responder, mas certamente deve haver alguma coisa por trás disso.
Sunday, January 15, 2006
Dia de casamento
Ontem, pela primeira vez em minha vida, fui a um casamento. Senti que estava avançando um grauzinho na participação da vida "sócio-familiar".
Ah, o casamento... Que posso falar do que vi? Um igreja pequena, modesta, mas acolhedora e linda por dentro, mais ou menos que nem a Sagrada Família na manjedoura. E que calor lá não fazia, como se ela estivesse tentando espantar definitivamente os frios ventos de qualquer ceticismo, trazendo para nós o calor das verdades únicas do matrimônio sagrado! O recinto fervia pela alegria, recinto este onde lá no alto havia escrito: "ESTE LUGAR É SAGRADO". Tenhamos sempre isso em mente quando pensarmos numa igreja, por mais modesta que ela seja, e em tudo que for divino. É uma frase que desperta naqueles que têm o divino em si temor e tremor, alegria pueril e sujeição filial. "ESTE LUGAR É SAGRADO".
Acima do altar havia, ao redor de Deus Pai, anjinhos com instrumentos musicais, certamente festejando mais que nós o sacramento. Bem abaixo, entre o céu e o submundo, havia os padrinhos bem vestidos, acertadamente mais discretos que os noivos, que em pouco tempo estarão trocando alianças, que simbolizam a imperturbável eternidade. Entre os noivos, e em frente aos padrinhos, o padre, já um senhor, como convém à imaginação para ocasiões dessa natureza, abençoava o vínculo eterno dos esposos, dizendo coisas que ninguém entende e... Ah, que importa? Todos queriam apenas que o padre terminasse logo de abençoar para que os esposos se beijassem, agora transmutados divininamente em sr. e sra... Ao mesmo tempo que o padre abençoava, muita gente falava, um falatório tremendo ao meu lado, sem contar com as célebres crianças chorando sem nem terem idéia do que faziam naquele templo consagrado em primeiro lugar a Deus, em segundo à Santa Cecília, etc, etc.
Será que o problema atual é a falta de timing para o silêncio?
Que dizer dos juramentos? Os esposos com olhos fixos um no outro, jurando, jurando, jurando... Juram até que ficarão unidos até a morte. Tem gente que diz que isso é estranho, algo falso. Pois ame, e você penhorará o universo, e ainda assim parecerá pouco. Não é um juramento em vão, porque o que está em jogo é a manutenção de um futuro lar, ainda que este atravesse as piores tribulações. No fundo, o que está havendo é Cristo dizendo aos noivos que se crerem nele, tudo será calmo e límpido. Basta seguir cristãmente a vida conjugal, basta crer nele, e todos ganharão o cêntuplo.
Depois o casal ia embora, com a mesma pompa que entrou, assim como os padrinhos e pais dos noivos. Nós, as pessoas escolhidas como testemunhas do amor, a comunidade que acolhia com prazer aquele novo casal, nós olhávamos aquele único espetáculo e desejávamos, cada um ao seu modo, em meio a sorrisos e lágrimas, humildemente um bom futuro aos recém-casados sr. e sra...
O casamento está fundado na casa, e participa da sacralidade do templo. Assim, no futuro, assim que os novos esposos fundarem um lar, eles poderão também olhar para ele e pensar: "ESTE LUGAR É SAGRADO", amém.
Ah, o casamento... Que posso falar do que vi? Um igreja pequena, modesta, mas acolhedora e linda por dentro, mais ou menos que nem a Sagrada Família na manjedoura. E que calor lá não fazia, como se ela estivesse tentando espantar definitivamente os frios ventos de qualquer ceticismo, trazendo para nós o calor das verdades únicas do matrimônio sagrado! O recinto fervia pela alegria, recinto este onde lá no alto havia escrito: "ESTE LUGAR É SAGRADO". Tenhamos sempre isso em mente quando pensarmos numa igreja, por mais modesta que ela seja, e em tudo que for divino. É uma frase que desperta naqueles que têm o divino em si temor e tremor, alegria pueril e sujeição filial. "ESTE LUGAR É SAGRADO".
Acima do altar havia, ao redor de Deus Pai, anjinhos com instrumentos musicais, certamente festejando mais que nós o sacramento. Bem abaixo, entre o céu e o submundo, havia os padrinhos bem vestidos, acertadamente mais discretos que os noivos, que em pouco tempo estarão trocando alianças, que simbolizam a imperturbável eternidade. Entre os noivos, e em frente aos padrinhos, o padre, já um senhor, como convém à imaginação para ocasiões dessa natureza, abençoava o vínculo eterno dos esposos, dizendo coisas que ninguém entende e... Ah, que importa? Todos queriam apenas que o padre terminasse logo de abençoar para que os esposos se beijassem, agora transmutados divininamente em sr. e sra... Ao mesmo tempo que o padre abençoava, muita gente falava, um falatório tremendo ao meu lado, sem contar com as célebres crianças chorando sem nem terem idéia do que faziam naquele templo consagrado em primeiro lugar a Deus, em segundo à Santa Cecília, etc, etc.
Será que o problema atual é a falta de timing para o silêncio?
Que dizer dos juramentos? Os esposos com olhos fixos um no outro, jurando, jurando, jurando... Juram até que ficarão unidos até a morte. Tem gente que diz que isso é estranho, algo falso. Pois ame, e você penhorará o universo, e ainda assim parecerá pouco. Não é um juramento em vão, porque o que está em jogo é a manutenção de um futuro lar, ainda que este atravesse as piores tribulações. No fundo, o que está havendo é Cristo dizendo aos noivos que se crerem nele, tudo será calmo e límpido. Basta seguir cristãmente a vida conjugal, basta crer nele, e todos ganharão o cêntuplo.
Depois o casal ia embora, com a mesma pompa que entrou, assim como os padrinhos e pais dos noivos. Nós, as pessoas escolhidas como testemunhas do amor, a comunidade que acolhia com prazer aquele novo casal, nós olhávamos aquele único espetáculo e desejávamos, cada um ao seu modo, em meio a sorrisos e lágrimas, humildemente um bom futuro aos recém-casados sr. e sra...
O casamento está fundado na casa, e participa da sacralidade do templo. Assim, no futuro, assim que os novos esposos fundarem um lar, eles poderão também olhar para ele e pensar: "ESTE LUGAR É SAGRADO", amém.
Sunday, January 08, 2006
Primeiro Post do Ano é em Homenagem ao Ano Novo
Eu já estava todo contente e faceiro, prestes a escrever alguma coisa sobre o Ano Novo, quando de repente me deparei com um texto do Gustavo Corção: Ano Novo? Ali está tudinho o que eu gostaria de escrever sobre o assunto, embora me falte capacidade para tanto.
Resta-me dizer que o que foi de bom agrado não foi foguetório nenhum, já que permaneci na gruta que chamo de lar. Na-na-ni-na-não. Nada de praia, reuniões, etc. Não há criatura mais prazerosamente anti-social do que eu, e quando penso nisso acho muito bom, dados os vexames coletivos dos quais escapei, se bem que nem sempre. Passei o Ano Novo "monasticamente" - já já vem a explicação das aspas - assistindo à TV, sem a menor curiosidade de ver o foguetório da praia de não sei onde, tendo de fundo a banda não sei qual, havendo trocentas milhões de almas acotovelando-se umas às outras. E amigo leitor, não poderia ser o fim mais perfeito de mais uma monótona volta do sol em torno do nosso planetinha: creia, uma maratona de doze horas de James Bond, preludiada por Rocky III, que eu não via desde que Maomé II tomou de assalto Constantinopla! E para maior gáudio, ainda havia Pepsi e pavê me fazendo companhia! Realmente este é de todos o melhor mundo possível.
Tal é minha idéia de retiro do mundo, explicando portanto as aspas. Mas não inveje minha sorte, caro leitor. Eu é que tenho de te agradecer, pois se você não cresse que a cada volta do sol tudo se renovará, não haveria especiais tais como aquele. Então permaneça com tua adoração do irmão sol que eu me divertirei com o resto.
Resta-me dizer que o que foi de bom agrado não foi foguetório nenhum, já que permaneci na gruta que chamo de lar. Na-na-ni-na-não. Nada de praia, reuniões, etc. Não há criatura mais prazerosamente anti-social do que eu, e quando penso nisso acho muito bom, dados os vexames coletivos dos quais escapei, se bem que nem sempre. Passei o Ano Novo "monasticamente" - já já vem a explicação das aspas - assistindo à TV, sem a menor curiosidade de ver o foguetório da praia de não sei onde, tendo de fundo a banda não sei qual, havendo trocentas milhões de almas acotovelando-se umas às outras. E amigo leitor, não poderia ser o fim mais perfeito de mais uma monótona volta do sol em torno do nosso planetinha: creia, uma maratona de doze horas de James Bond, preludiada por Rocky III, que eu não via desde que Maomé II tomou de assalto Constantinopla! E para maior gáudio, ainda havia Pepsi e pavê me fazendo companhia! Realmente este é de todos o melhor mundo possível.
Tal é minha idéia de retiro do mundo, explicando portanto as aspas. Mas não inveje minha sorte, caro leitor. Eu é que tenho de te agradecer, pois se você não cresse que a cada volta do sol tudo se renovará, não haveria especiais tais como aquele. Então permaneça com tua adoração do irmão sol que eu me divertirei com o resto.
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