Wednesday, February 19, 2014

De uma fagulha que se acendeu em minha cabeça e que bem merece ulteriores explicações

Experiência, sentimento e intuição me dizem que talvez não seja bom, desde novo, rememorar o passado. Parece antinatural. Com efeito, segundo um antigo sábio e a sabedoria popular, os mais novos, por terem diante de si uma longa avenida de anos e pouca bagagem, tendem a sorrir para o futuro, que se lhes abre como uma favorável trilha. Já os mais velhos, movidos pelos achaques da idade e das más experiências, mas sobretudo pelo temor da brevidade dos dias, tendem a encarar, desconfiados, os dias que virão, ao mesmo tempo que se comprazem com aqueles que já se tornaram patrimônios da memória. Estes, sem dúvida, adquirem uma tal integridade e coesão que, vislumbrados pela simpatia favorável de uma perspectiva mais ampla, assemelham-se mais a preciosidades de antiquário. Os de mais idade, com essa ótica especial, contemplam à distância os idos que se perfilam como quadros de uma exposição que apresentaria, uma a uma, cenas capturadas de suas próprias vidas. Isso na melhor das hipóteses. Comumente, as representações que temos do passado são um tanto fragmentadas. Todavia, independente da sua consistência, lá atrás cintilaria uma época risonha, grávida de augustas possibilidades.

Ora, essa artimanha, se bem entendida, não seria motivo de lamentações velhacas. Se tudo pareceu mais gracioso, conforme tal perspectiva, por que o agora não guardaria em si tão bons pressentimentos? O passado, embora engessado, adquire uma tonalidade mais vívida, não tanto por ter sido como foi, mas pelas vias promissoras que antes eram almejadas. É a fecundidade latente, a vida que despontava, que brilha nos olhos dos mais velhos. Conservassem esse espírito hoje e só envelheceriam de corpo. Infelizmente, mutilada a vida de um dos seus aspectos importantes, a capacidade de permanecer criando, as conseqüências mais imediatas são um empobrecimento do presente em relação ao passado e as más perspectivas diante do futuro. Com efeito, é o que ocorre quando, na realidade, a perspectiva é ofuscada por uma ilusão. A consciência do fracasso atual vai mendigar alguma compensação que se encontra, normalmente, numa suposta época dourada. Não obstante, a sensação de existência radicalmente fraturada permanece e conduz, inevitavelmente, ao célebre e triste verso de Manoel Bandeira: "a vida inteira que podia ter sido e que não foi." Agora sobraram apenas ruínas, cuja melancólica beleza não se furta à depressão. A alma, assim constrangida, geme em lamentações.

Há outro fator a se considerar. A areia movediça do presente e a dúvida quanto ao futuro se contrapoem à estrutura coisificada do passado. Este, mal ou bem, já é um dado acabado, independente do nosso posicionamento em relação a ele. Saudade e desejo de estabilidade são termos que, nesse caso, têm mais em comum que a rima acidental. Parafraseando Camões, poderíamos dizer que o amador conserva a coisa amada, isto é, aferra-se ao estável, que se traduz num apego tanto mais mórbido aos tempos passados quão depressivas sejam as circunstâncias atuais. O complemento disto poderá até, quem sabe, redundar numa projeção, de certo modo idealizada, de um futuro alucinado cujo termo é a morte. Quem quer que se ponha entre a bigorna e o martelo sucumbirá à reverência desmesurada pelo passado, com todo o seu aspecto de pleno acabamento, ou à estranha projeção idealista, que culmina no desejo de atravessar logo as fronteiras da vida. Que isso não seja verdadeiro amor parece evidente, pois radica numa ojeriza de si mesmo e da vida que atualmente se leva.

Saturday, November 02, 2013

Do estupor diante de certas revistas

Seja por acaso ou não, chegaram às minhas mãos edições da revista Men's Health. Devo dizer ao leitor, primeiramente, que eu, celerado que sou, havia perdido o costume de folhear revistas impressas. Este produto do engenho humano, é verdade, a mim não se havia tornado de todo exótico, não ao ponto de eu sentir ganas de cheirá-lo ou lambê-lo, como quem se priva da mente para atender os sentidos. Bastou-me ver as letras, não obstante o apelo das muitas imagens, e reminiscências dos bons modos de leitura de outrora surtiram efeito logo, poupando-me da vergonha de digerir não idéias, mas pura celulose.

Mal tendo me posto à tarefa de perscrutar as capas, porque quem se detém na capa se poupa do conteúdo, perguntei-me da relevância de envidar esforços para folhear as revistas. Eis algumas das mensagens, ou melhor, ordens, que constavam em pelo menos quatro edições: "Tchau, pança!" — não a possuo — "Aposente seus pneus!" — não os tenho — "Derreta seus pneus!" — ver o que eu disse anteriormente — "Coma bem & fique magro!" — já o sou. Confesso, entretanto, que não resisti ao desejo de apurar se o digníssimo amigo corpo não velava algum pneu, algum vestígio de gordura zombeteira, mas, de fato, eu realmente não havia me enganado. Nada de pneus, panças ou de flagrantes adiposidades, apenas uma magreza despudorada. Aliviado, supondo ser a gordura um delito, sorri, como aliás todos os homens que estampavam as quatro capas faziam. Estar aquém do peso fez-me um subversivo por natureza e me esquivou dos desmandos da tirania publicitária. Tampouco fui seduzido pelos apelos eróticos. "Sexo já!" — não aprecio imposições panfletárias — "Transe mais!" — não acato ordens de quem não reconheço autoridade — "Mais sexo!" — autocontrole é a base da civilização — "Elas abrem o jogo" — não sou padre a ouvir confissões.

Se meus ouvidos eram moucos, subtraindo-me àquelas palavras de ordem, os editores da revista, engenhosamente, tendo já imaginado uma possível resistência, haviam de antemão recorrido a outro artifício, o arsenal peculiar de imagens da capa, como que supondo que na vista residisse alguma fraqueza. Os olhos também teriam de sofrer a carga. Estampadas na capa, havia pequenas fotos de simpáticas mulheres, fossem de biquíni ou roupas de baixo, como iscas, mas nem assim fui apanhado, pois, sendo as imagens grandes ou pequenas, belas ou feias, tenho para mim que saciar-se com elas é a idolatria da mendacidade. Não me foi possível, entretanto, deixar de notar o contraste curioso entre aquelas pequenas fotos de mulheres e as grandes, que eram de homens, ou protótipos de homens conforme a publicação, contraste que me fez recordar, imediatamente, das gravuras medievais, em que as figuras mais importantes costumavam aparecer em proporção mais destacada que as demais. No caso presente, havia nas entrelinhas a peculiar mensagem de que nós, pobres coitados, fisicamente ridículos e fracassados contumazes nos jogos do amor, poderíamos nos livrar de tantos opróbrios caso emulássemos nossos mais bem-destacados irmãos de espécie, submetendo, portanto, as fêmeas mais notáveis, ao custo de alguns alguns vinténs pela aquisição da revista. Maravilhei-me, pois logo refleti que o apelo de todo o arsenal epicurista dos editores remotava a uma época vetusta, quando a serpente, que não rastejava nem era maldita, sibilava engodos de divinização às custas de uma tola adoração. Hoje, pela boca publicitária, centauro de malícia e ingenuidade, a proposta adquiriu certa sutileza, mascarando-se em simples ofertas de sucesso mundano ao custo da assinatura de uma revista.

Entre um e outro gole de café, meditando um pouco mais sobre o assunto, veio-me o ensejo de chamar a revista não pelo nome que consta, Men's Health, posto não tratar o leitor como homem, mas Animal's Health, por querer conduzi-lo pelo que há de baixo.

Thursday, June 02, 2011

Ars poetica

Si uis me flere, dolendum est primum ipsi tibi. Eis a famosa sentença horaciana em sua Ars Poetica. Não tenho muito tempo para desenvolver um assunto tão rico, mas eu gostaria de dizer que é muito importante ao escritor possuir a capacidade aludida por Horácio: se quiser comover, é preciso que você primeiro se condoa. É necessário um patrimônio de experiências a fim de que nossas palavras signifiquem algo mais do que meros conceitos destituídos de concretude. Em certo sentido, é bom ser pedestre. Esse patrimônio não precisa advir de ferimentos em nossa própria carne: uma sensibilidade cultivada e uma boa capacidade imaginativa bastam. Para eu entender as degraças que se abateram sobre Cartago, Atenas ou Alemanha, não preciso ter eu mesmo compartilhado dos males de seus habitantes, a não ser imaginativamente, bastando para isso que sejam ativadas experiências correspondentes. Podemos aplicar ao assunto o que disse Eric Voegelin em certa passagem de A nova ciência da política:

O teórico talvez não precise ser a encarnação do próprio modelo de virtude, mas deve ao menos ser capaz de reproduzir imaginativamente as experiências que sua teoria busca explicar. (...) A teoria como explicação de certas experiências só é inteligível para aqueles em que a explicação desperte experiências paralelas como base empírica para testar a validade da teoria. Se a exposição teórica não chegar, pelo menos em parte, a ativar experiências correspondentes, dará sempre a impressão de ser conversa fiada ou poderá ser rejeitada como expressão irrelevante de opiniões subjetivas. O debate teórico só pode ser conduzido entre spoudaios, no sentido aristotélico [i.e, o homem maduro, aquele que realizou em grau máximo as potencialidades da natureza humana, que formou seu caráter na realização das virtudes intelectuais e éticas, o homem que, no auge de seu desenvolvimento, atinge o bios theoretikos]; a teoria não tem argumentos contra o homem que se sente, ou finge sentir-se, incapaz de reproduzir a experiência. (pp. 56-7)


Numa palavra, é preciso que se estabeleça entre o leitor e a história uma espécie de simpatia fundamental que ative nele experiências correspondentes ou que ele seja capaz de reproduzi-la ao menos imaginativamente. Lembremos da reação de Ulisses ao ouvir um aedo recitar na corte dos feácios a queda de Tróia. Tal processo não ocorre somente na literatura, mas também na música, na pintura e na fotografia. Um caso interessante é o da canção O Tod, wie bitter bist Du, de Brahms. Ela ativa imediatamente em nós um sentimento compreensível em última análise pela experiência da morte (note o leitor a ênfase na palavra bitter). O texto da canção foi extraído do capítulo 41 do Eclesiástico. Ele nos convida à meditação profunda, enquanto a música explora suas possibilidades dramáticas de forma inesquecível. Dor também pode ser ouvida -- se podemos dizer que ouvimos uma dor -- em Fili mi de Heinrich Schütz, em texto também bíblico, que conta a dor de Davi ao saber da morte de seu filho Absalão. Tanto num caso como no outro temos a música nos ajuda a reproduzir imaginativamente o sentimento dos textos.

O Tod, wie bitter bist Du



Fili mi

A imprensa mal divulgou a manifestação ocorrida em Brasília contra o PLC122

Trabalho numa empresa de monitoria de informação, o que me obriga a passar quase o dia inteiro assistindo a telejornais. Hoje não foi diferente, mas o que me chamou a atenção foi nenhum dos programas que monitoro ter sequer soltado uma nota sobre a manifestação havida em Brasília contra o PLC122, que reuniu cerca de 20 mil pessoas.

A maioria dos programas que vejo são da Record, tanto canal aberto como fechado. Pois bem, nem o Página 1, que vai ao ar das 10h às 11h, nem o Direto da Redação, das 14h30 às 15h30, nem o Hora News, que costuma ir das 16h40 às 17h30, nem o Jornal da Record, das 20h30 até por volta das 21h25, enfim, nenhum deles citou absolutamente nada. Monitoro também o Jornal da Globo News, edições das 16h e das 19h: nenhum deles também citou nada. Alguém poderia argumentar que o fato de a manifestação só ocorrer às 15h excluiria necessariamente da programação matutina informes a respeito, mas respondo dizendo que a afirmação é absurda, já que é mais do que comum a imprensa cobrir um evento até dias antes de ele ser realizado.

As únicas notícias que vi sobre gays foram acerca de agressões contra um homossexual e uma lésbica no Rio e sobre o TCU querer saber se houve desperdício de verbas públicas com a retirada do tal kit gay, ambas na Rede Record. Houve também uma sobre prostituição masculina e consumo de drogas -- amanhã será a vez dos travestis, numa série de reportagens sobre prostituição no Brasil.

É tão flagrante a completa falta de parcialidade da imprensa que, se bem me lembro, monitorei notícias em vários veículos sobre um abraço simbólico em torno do Planalto dado por militantes do movimento gay no dia em que estiverem em Brasília semana retrasada. Por que divulgaram essa notícia e se calaram sobre o que ocorreu nessa quarta? O mais estranho é que a Record, pelo que percebi ao monitorá-la, tem feito uma quantidade impressionante de comentários contra o tal kit gay. Não sei se o fato de o pastor Silas Malafaia ter encabeçado a manifestação em Brasília provocou algum ressentimento no pastor Edir Macedo, mas que isso tudo é estranho, é.

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Como citei a Rede Record, aproveitarei a oportunidade para fazer um testemunho da mendacidade cultural a que chegamos. Numa matéria sobre o acesso das classes baixas a colégios particulares, o Jornal da Record mostrou um grupo de crianças tocando um trecho da Ode à alegria, mas em off a jornalista afirma que executavam Vivaldi. Que o leitor testemunhe a ignorância jornalística.



Não duvido nada que as crianças sejam mais cultas que esses jornalistas.

Sobre o acesso das classes inferiores ao bom estudo, lembro de uma instituição que sempre primou pelo acesso de humildes aos níveis hierárquicos mais elevados: Igreja Católica. A título de exemplo, basta a lembrança de um filho de camponês chamado Hildebrando, homem do séc. XI, que entrou na história como papa Gregório VII e nos céus como santo.

Wednesday, September 22, 2010

Ainda do desejo de ser promovido em empresas bagunçadas

Pois novamente direi algo acerca de ser promovido em empresas bagunçadas. É semelhante a uma cena do filme "A Queda", em que um general alemão, após ter sido nomeado comandante das forças de Berlim, diz morrer era mais vantajoso que receber tal honra. A quem as entrelinhas foram sutis demais, explico que às vezes é melhor permanecer mediocremente oculto a brilhar montado num enorme pepino.

Thursday, September 16, 2010

Do desejo de ser promovido em empresas bagunçadas

Refletindo acerca da cobiça por cargos mais altos em empresas bagunçadas -- a experiência é pessoal, ainda que a vontade seja de terceiros --, lembrei-me, por estranho que pareça, de um episódio do desenho "Liga da Justiça". O poderoso Darkside, para variar, queria subjugar a Terra, mas precisava de ajuda. Convenceu o líder de uns criminosos que o tornaria um grande rei caso o auxiliasse. Não sendo difícil instigar a cobiça de criminosos, foi feito o acordo. Pois bem, após plantar um artefato nuclear num ponto estratégico, o criminoso entrou em contato com Darkside a fim de ser resgatado do local o mais rapidamente possível. O super-vilão, contudo, disse-lhe que já estava satisfeito e simplesmente se despediu. Tendo ficado compreensivelmente indignado, o criminoso disse a Darkside que ele havia quebrado o acordo de lhe tornar o rei do mundo, ao que obteve como resposta: "Mas eu lhe tornei efetivamente rei. O rei dos tolos." Ora bem: eis ao que leva o desejo de promoção em determinadas circunstâncias...

Thursday, June 10, 2010

De um breve comentário sobre um espetáculo artístico

Tenho diante de mim uma cabrocha executando passos ao som de Jeux d'eau, de Ravel, em programa da TV Brasil. Não posso dizer que o espetáculo esteja sendo do meu agradado, e isso por uma dupla razão. Ora, tendo os movimentos de dança me feito lembrar da menina possuída pelo demônio em O Exorcista, custa-me captar qualquer beleza ou sentido artístico no que está sendo executado, descontando, é claro, a minha supina ignorância em matéria de dança. Digo, aliás, que a beleza da cabrocha é proporcional à sua performance, o que muito me entristece. Ao menos para mim, embrutecido pelos sentidos como sou, não é fácil contemplar os passos de dançarinas um tanto desprovidas de recursos estéticos. Contudo, posto que há sempre rastros de bem por toda a parte neste mundo admirável, ao menos é possível dizer que dança e estética estão assaz harmonizadas, embora sob a classe do mal.

Tuesday, February 16, 2010

A. da Silva Mello, "Mistérios e Realidades dêste e do outro Mundo" (3ª ed, pp 35-41)

Queremos lembrar os célebres cavalos de Eberfeld, que constituíram um dos mais assombrosos acontecimentos do mundo civilizado, dando lugar a elevado número de publicações, mesmo de autoridades científicas. O ruído feito em torno da descoberta foi imenso e só diminuiu quando encontrada explicação para o fenômeno. O professor Claparède, da Universidade de Genebra, proclamou-o como "o acontecimento mais sensacional que jamais surgiu na Psicologia". Karl Krall, no seu livro "Animais que pensam", baseado em suas experiências, que foram a continuação das de Von Osten, o descobridor da maravilha inesperada, fêz um estudo minucioso da questão, já estribado em considerável bibliografia.

O fato capital, de onde partiu todo o movimento, proveio das experiências de W. von Osten, um velho oficial alemão aposentado, que dedicou parte da sua vida ao estudo da inteligência dos animais. Em 1900, adquiriu um cavalo russo, que se tornou célebre sob o nome de Hans, apelidado "o sábio", ao qual ensinou cálculo por meio de quilhas, e, depois, de números. Os resultados foram tão extraordinários que se falou de uma transformação da psicologia animal e de descobertas que o homem estava longe de suspeitar. O cavalo aprendeu a contar, a calcular e a resolver pequenos problemas. "Mas Hans não sabia sòmente calcular: podia ler, era musicista, sabendo distinguir acordes harmoniosos de dissonantes. Possuía memória extraordinária, conseguindo indicar a data os dias da semana. Numa palavra: sabia resolver tôdas as operações que um bom colegial de 14 anos é capaz de efetuar." Em poucas semanas aprendeu a extrair raízes quadradas e cúbicas e, logo depois, a soletrar e a ler, servindo-se de um alfabeto convencional imaginado por seus mestres. Durante muitos anos Osten entregou-se, com dedicação nunca vista, à educação do animal, que recebia aulas uma a duas vêzes por dia. A tarefa foi árdua e só prosseguiu a passos muito lentos, pois tudo era desconhecido naquela nova aprendizagem, cheia de mistérios e surpresas, tanto para o mestre, quanto para o discípulo. Osten, de temperamento excêntrico, considerado por muitos como verdadeiro maníaco, não conseguiu, durante longo espaço de tempo, despertar interêsse em tôrno da sua descoberta, que não foi mesmo tomada em consideração. Já desesperado da situação, tentou, por meio de anúncio de jornal, chamar a atenção sobre o extraordinário fenômeno, propondo vender o animal, do qual enumerava as singulares capacidade intelectuais, que demonstraria, gratuitamente, aos interessados. Nessas circunstâncias, apareceu-lhe Eugen Zobel, escritor e profundo conhecedor de hipologia, que, vivamente interessado pelo assunto, publicou diversos artigos sôbre Hans, desde então conhecido como o cavalo sábio. Daquele momento em diante, houve imensa agitação em tôrno do fato, que despertou a curiosidade do grande público, sem contar muitos psicólogos e cientistas. A casa da rua Griebenow 10, na região norte de Berlim, onde morava von Osten e se encontrava o animal, passou a receber tal número de visitantes que se tornou necessária a intervenção da polícia para regular o trânsito circunvizinho. Até do estrangeiro chegavam personalidades de renome para estudar o estranho fenômeno, que vinha revolucionar tudo o que sabíamos dos animais, que agora apareciam como possuidores de inteligência idêntica à do homem, sob todos os pontos de vista! Hans fazia cálculos de alta matemática, conhecia linguagem humana, compreendia alemão, entendia perguntas que lhe eram feitas e dava-lhes respostas inteligentes, demonstrando que raciocinava de maneira idêntica à do ser humano.

É natural que se levantasse grande agitação em tôrno da descoberta, que, desde logo, conduziu às mais desconcertadas opiniões, das mais favoráveis e entusiásticas, às mais céticas e negativas. A imprensa publicava artigo sôbre artigo, surgiam livros sôbre a questão, dando lugar a discussões tão vivas e apaixonadas, que o govêrno e as universidades se sentiam na obrigação de dar atenção ao assunto, estudando-o objetivamente. Eberfeld tornou-se um verdadeiro centro de peregrinação, sobretudo para sábios, que acorriam de diversos países e de todos os recantos da Alemanha. Entre êles, foram registrados: Edinger, o eminente neurologista de Francfort; Claparède, da Universidade de Genebra; Kraemer e Ziegler, de Sttutgart; Sarasin, de Basilea; Besredka, do Instituto Pasteur de Paris; Ostwald, Schoeller e o físico Gehrke, de Berlim; William Mackenzie, de Génova; Assogioli, de Florença; Freudenberg, de Bruxelas; Hartkopf, de Colônia; Buttel-Reepen, de Oldenburg; Ferrari, de Bolonha, Goldstein, de Darmstadt, e inúmeros outros, alguns dos quais se convenceram de que os animais realmente calculavam e que as operações matemáticas eram manifestações da sua inteligência. Maeterlinck, vindo da Bélgica para estudar o fenômeno, ficou maravilhado diante do que pôde observar. Ele próprio confessa ter sido sempre fraco em Matemática e que se sentiu emocionado ao propor ao animal problemas dessa natureza. Realizou experiências com o cavalo Muhamed que, ao lado de Zarif, se revelou ainda mais inteligente que Hans, todos agora sob a direção de Karl Krall, autor do livro fundamental sobre a questão. Maeterlinck relata que devido à sua ignorância em Matemática, formulou erradamente o problema que apresentou ao cavalo e que êste, sem poder resolvê-lo, ficou perplexo, com a pata suspensa no ar. Não foi senão quando Krall descobriu o êrro e corrigiu o problema, que o animal encontrou a solução.

A primeira comissão científica para estudar o caso de Hans iniciou seus trabalhos em setembro de 1904, sendo composta de professores de Psicologia, Fisiologia, Zoologia, Veterinária e de especialistas em equitação e adestramento de animais, além de oficiais de cavalaria, do diretor do Jardim Zoológico e do diretor do Circo Busch, de Berlim. Essa comição comprovou a veracidade dos fenômenos relatados e nada tendo encontrado de falso ou suspeito, concluiu que os fatos eram reais, sendo merecedores de profunda investigação cientítica. Imediatamente depois, em Outubro de 1904, o Ministério da Educação nomeou nova comissão para ocupar-se do assunto, desta vez formada pelo professor C. Stumpf, diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de Berlim e dos seus dois assistentes, O. Pfungst e Hornbostel. Depois de algumas semanas de trabalho, chegou a comissão a resultados completamente diferentes, apresentando um extenso relatório, no qual "sustentava que o cavalo não era dotado de inteligência, não reconhecia letras nem números, não sabia calcular, obedecendo simplesmente a sinais imperceptíveis, que, inconscientemente, escapavam à argúciado seu próprio mestre". A verificação parecia de grande evidência, pois experiências feitas no escuro ou depois de se haver tapado os olhos do animal fracassaram por completo. O mesmo aconteceu quando eram os resultados desconhecidos das pessoas presentes, ou, simplesmente, da pessoa que dirigia a pergunta ao animal, assim como quando êste não a podia ver.

Emilio Rendich, pintor italiano que vivia em Berlim e acompanhara cheio de admiração as experiências de von Osten, acabou por duvidar dos fatos, sobretudo de que o animal agisse servindo-se ùnicamente da sua própria inteligência. Rendich percebeu que o cavalo se orientava por movimentos quase imperceptíveis fornecidos inconscientemente pelo instrutor, cuja boa fé e honestidade estavam fora de dúvida. Bastava um movimento mínimo da cabeça de von Osten para o animal orientar-se quanto ao momento em que devia bater a pata, tudo de acôrdo com os resultados esperados. Para demonstrar que o mecanismo de transmissão era realmente êsse, Rendich realizou experiências com uma cadela de sua propriedade, Nora, cujos resultados foram inteiramente semelhantes aos de von Osten com seu cavalo Hans. A cadela lia, calculava, reconhecia notas musicais e, por meio de latidos, dava respostas às perguntas que lhe eram feitas. E ninguém percebia os sinais que o dono lhe transmitia! Por meio dêsses sinais inconscientes e imperceptíveis, foi encontrada explicação para os fatos em questão, desde logo aceita pelo professor Stumpf e seus auxiliares, que assistiram às experiências de Rendich.

Já antes, em 1903, Albert Moll, então presidente da Sociedade de Psicologia de Berlim, havia feito verificações idênticas, chegando à conclusão de que o cavalo nada apresentava de extraordinário, pois apenas reagia a sinais que lhe eram dados imperceptìvelmente. Mais tarde, isso foi demonstrado experimentalmente por Pfungst, que conseguiu verificar os sinais dados inconscientemente, reproduzindo-se conscientemente. Dessa maneira, êle obteve as mesmas reações do animal, independentemente das questões que lhe eram propostas. Por vêzes, mesmo sem formular a pergunta, apenas nela pensando intensamente, obtinha-se do animal a resposta esperada, pois o simples ato de concentrar a atenção sôbre determinada questão já era suficiente para levar o experimentador a executar movimentos imperceptíveis, que serviam para estabelecer a resposta.

O que aconteceu com Hans, o cão Rolf, de Marnheim e a gata Daisy, e outros animais, reproduziu-se com Basso, um chimpanzé do Jardim Zoológico de Frankfurt, que se se tornou centro de atração devido à sua capacidade intelectual, idêntica à do cavalo Hans, sobretudo para cálculos. Houve, igualmente, aí, muita disputa em tôrno dêsse caso, tendo-se apelado até para a telepatia, com o fim de explicá-lo. Finalmente, tudo acabou nos sinais imperceptíveis fornecidos pelo guarda e dos quais êle próprio não tinha conhecimento.

Dessa maneira, foi abandonada a explicação da transmissão directa de pensamento, assim como da telepatia e do mediunismo, que alguns autores quiseram explorar para interpretar os fenômenos em questão. Tudo terminou no mais puro cumberlandismo, isto é, na averiguação de que a pretensa transmissão de pensamento não passava do emprêgo de sinais convencionais, reduzindo-se o processo ao simples mecanismo da "dressagem", pela qual são transmitidas ao animal as ordens do domesticador. Aliás, parece que o interêsse e a atenção do animal eram despertados e mantidos pela ofêrta de pão, cenoura e outros alimentos, recurso muito usado nos habituais processos de adestramento. Em todo o caso, não foi fácil pôr a claro o mecanismo dessas manifestações, que a princípio deram lugar às mais fantásticas suposições. O próprio professor C. Stumpf, que fizera parte da primeira Comissão, concluindo pela realidade e inexplicabilidade do fenômeno, é o mesmo que assina o segundo parecer, que destruiu o mistério, explicando-o de modo tão simples e natural. "Pelo relatório da Comissão científica foi destruído o limbo de glória que havia cercado o cavalo de von Osten, no que êle tinha de mais extraordinário e mesmo inacreditável. Apesar de tôda a sua arte, saber ler e calcular, tornou-se um simples cavalo de circo, semelhante a muitos outros, apenas reagindo a sinais menos perceptíveis. Com isso desapareceu também o interêsse que havia em tôrno dêsse prodigioso animal, raramente aparecendo, desde então, qualquer pessoa para assistir às novas experiências". É o que nos diz Karl Krall, enquanto Maeterlinck acrescenta: "Houve na opinião pública uma grande e brusca reviravolta. Sentia-se uma espécie de alívio algo covarde, vendo-se sùbitamente extinguir-se um milagre que já ameaçava lançar perturbação nesse pequeno rebanho tão satisfeito com as verdades já adquiridas. Ao pobre von Osten nada valeu protestar; não foi mais ouvido, a causa estava perdida. Também não se levantou mais dêsse golpe oficial, tornando-se motivo de chacota de todos aquêles que, a princípio, havia maravilhado. E assim morreu na amargura e no isolamento, a 21 de julho de 1909, na idade de 71 anos." É dessa maneira, românticamente, que Maeterlinck descreve o final da vida de von Osten. Na verdade, êle morreu de um câncer do fígado, que o fêz sofrer enormemente. E, durante a doença, não cessou de praguejar contra o pobre Hans, amaldiçoando-o de tôdas as maneiras, como responsável por todos os seus males. Talvez constitua isso um elemento psicológico de valor para esclarecer a marcha que tomaram os acontecimentos!

A obra de von Osten foi, como dissemos, prosseguida por Karl Krall, a quem aquêle doou o seu Hans e que fêz experiências com outros cavalos, sobretudo os de nome Muhamed e Zarif, que, sob muitos aspectos, se revelaram mais inteligentes que o próprio Hans, cognominado o sábio. Krall procurou demonstrar que as observações de von Osten eram exactas e que os animais em questão realmente possuiam as qualidades intelectuais que lhes eram atribuidas. Procurou excluir as causas do êrro, sobretudo em relação aos sinais imperceptíveis e, com auxílio do seu colaborador, Dr. Schoeller, tentou ensinar a Muhamed, o seu cavalo mais inteligente, a se exprimir por meio da palavra articulada. O animal fêz esforços para consegui-lo, mas terminou por parar de repente, dizendo em alemão, por meio de pancadas dadas com a pata, na sua estranha linguagem fonética: "Ig hb kein gud Stim", que quer dizer: "Eu não tenho boa voz!" Essa simples frase possui incalculável valor para decidir a questão, pois traduz raciocínio de caráter puramente humano, que mostra capacidade de expressão em idioma também puramente humano. Já se tem alegado, com tôda a razão, que a sabedoria animal atribuída aos cavalos de Eberfeld pressupõe o conhecimento de um idioma humano, no caso em questão da língua alemã, o que ultrapassa tudo o que se pode admitir, mesmo por hipótese. É verdade que Krall, no seu livro, fornece protocolos dando a impressão de que mantinha conversa com os seus cavalos em têrmos estritamente humanos, até porpondo-lhes enigmas, que êles conseguiam resolver. Em vez, porém, dêsses exageros possuirem qualquer valor de prova, o que antes demonstram é quanto deve haver de falso e errôneo em tais interpretações. Antes de tudo, é preciso considerar que os conhecimentos em causa em nada adiantariam aos animais, estando fora das suas tendências e necessidades biológicas. Se não fôsse assim, seria mais fácil, em vez das complicas experiências realizadas por Krall e outros autores, que se dissesse simplesmente ao animal onde se encontravam guardados os seus alimentos, deixando-os procurá-los por simples informação verbal. Certamente, teriam êles mais interêsse em realizar essa prova do que em fazer cálculos matemáticos, inteiramente estranhos à sua maneira de viver e que as próprias crianças, nas escolas, têm dificuldade de aprender.

Charles Richet, referindo-se aos animais sábios, apresenta um argumento de grande valor: "Não podemos admitir que Muhamed, Rolf, Hanschen e Berto sejam sêres excepcionais. Se êles deram provas de inteligência, é quase certo que tanbém outros animais as dariam. Porque, então, os fatos relativos aos cavalos de Eberfeld e aos cães de Mannheim não se repetiram? Porque ficaram isolados na ciência, ou na lenda? Se a aptidão de cavalos para o cálculo fôsse um fenômeno verdadeiro e não uma ilusão, poder-se-iam criar centenas de cavalos calculadores. E não foi isso o que aconteceu. O silêncio fez-se em tôrno dos cavalo de Eberfeld. Não apareceram outros! Porque, se não foi uma ilusão, idola temporis? Tal é, penso eu, a mais grave objeção que pode ser feita aos fatos alegados por Krall. E é uma objeção tão grave, que arrasta à negação".

Aliás, não era a primeira vez que se pretendia haver descoberto características de inteligência humana no cavalos e outros animais, pois, já em tempos passados, haviam aparecido casos idênticos aos de Eberfeld. Basta recorda o que nos conta Guer sôbre um célebre cavalo exposto na feira de Saint Germain, em 1732, e que andou em excursão por outras cidades da França. Êsse animal reconhecia cartas de baralho, dados de jogar, horas e minutos no relógio e dinheiro em moedas, batendo com a pata para designar os seus valores. O filósofo Le Gandre, que descreve o fato, diz nada haver nêle de falso ou exagerado, pois tudo era executado diante de numerosos observadores. Conclui, porém, que o cavalo era guiado por sinais, por gestos e pela voz do dono, acrescentando que o extraordinário é que esse sinais fôssem imperceptíveis, passando despercebidos à assistência.

Sunday, October 04, 2009

De como a união entre beleza e toleima numa só mulher é das primeiras causas de espanto

Minha intenção primogênita era continuar a saga do desempregado, no caso eu, mas todavia atualizada, posto que desempregado não mais sou, e aliás me pus a formalizar esse artigo em meu emprego -- o esboço foi feito em casa --, emprego que talvez seja mais próprio da verdade dizer um quase-emprego. Porém minha vontade soberana cometeu uma revolução: pareceu-lhe mais superior rabiscar acerca da pedagogia do cemitério, assunto que me tem gentilmente atormentado e que considero bastante fundamental. Mas uma derradeira viragem minha vontade inquieta deu, motivada, é certo, por uma razão mais urgente, altaneira, elegante e agradável: mulheres.

Poucos assuntos são mais interessantes que as mulheres, embora elas sejam mais interessantes que mero objeto de debate. Pois se há um problema fundamental na vida de todo homem, sem dúvida é o belo sexo, expressão que já demonstra quão admiráveis são essas criaturas.

Para dar uma razão ao nosso ataque, caríssimo leitor, tratemos de duas questões a esse respeito. Para uma alma sensível -- em verdade mais acossada pela tolice da rasa experiência que pela presunçosa aspiração angélica de vida --, há duas fontes monumentais de espanto motivadas pelo feminino. Poucas coisas superam a desconcertante descoberta de que nas mulheres também reside a tosquice, não raras vezes perigosamente ombreada à tosquice viril. Não se trata aqui apenas da tosquice reinante nas despossuídas de graça ou das sumamente atrasadas mentalmente. É uma espécie de modo de ser universal. Não posso duvidar que tal coisa é manifestação daquilo que filósofos chamavam de indeterminado: ele constrange o feminino. A quem está tolamente acostumado com delírios amorosos, chocar-se com essa tosquice feminina pode ser um episódio sumamente deprimente. Não sejamos tolos a ponto de acusá-las de pecado, posto que talvez seja exatamente esse constrangimento que as torna palpáveis e interessantes, o que não significa, em nenhuma hipótese, que a palpabilidade é proporcional à tosquice. Apenas é preciso haver uma justa medida. Ademais, contra todos amantes do amor cortês algo cartesiano, é parte intrínseca da experiência de vida saber cumprimentar o que se demonstra insólito. Toda a experiência humana -- incluo aí até as mais variadas formas de técnica -- confirma que nada há de mais insólito que determinadas manifestações do feminino. Faz parte das regras inquebrantáveis da civilização, por conseguinte, tratar com algum carinho esse aspecto misterioso da nossa realidade: não nos foi dada argúcia suficiente para entender tal mistério. Bem como há o Cristo Todo, há também a mulher completa, a quem devemos amar, em toda a sua glória e em todos os seus constrangimentos.

A segunda fonte de desconcerto, talvez pela ação do indeterminado, é a união entre a mais rica beleza e a mais pobre argúcia numa só mulher. Eis o assunto da breve meditação a seguir.

A mulher por natureza identifica um modelo moral que configura essencialmente seu padrão estético, o que lhe impede muitas vezes de perceber a gravidade do desequilíbrio que assinalei. Não digo que ela não o perceba completamente: ela simplesmente não se choca. Devido a essa identificação, o próprio modelo de beleza da mulher, pautado em considerações algo estapafúrdias a nós homens, parece eivado de bizarrias. Seus padrões nos parecem incompreensíveis. O homem só consegue compreender certas considerações femininas acerca da beleza ao imaginar que elas estão repletas de subjetivismos e competições. Numa palavra, freqüentemente os juízos femininos parecem motivados pela inveja ou pela caridade. Ao tecermos a uma mulher observações objetivas acerca das justas proporções de outra, ela não raramente fará críticas ininteligíveis do ponto de vista objetivo, fisicamente falando, quando não considerará nossa afirmação estritamente objetiva um insulto pessoal. Se ela consentir, será a contragosto e com afetação de superioridade. O reduzido número de mulheres capazes de uma avaliação desinteressada é prova do que afirmo. Até quando elas concordam acerca da má catadura de outra, o prazer de sua concordância demonstra que também não é por uma questão objetiva, mas por algum senso competitivo. Quando elas consideram sinceramente alguém admirável do ponto de vista estético, normalmente é devido a considerações estrangeiras: como se o comportamento mudasse a aparência física. Força é considerarmos portanto que só aos homens foi dada a real capacidade de espanto acerca desse problema, o qual exige de nossa parte um esforço reflexivo assaz agudo e que já engendrou as mais formidáveis filosofias deste mundo.

Pois bem, como ficou suficientemente demonstrado, a mulher articula misteriosamente o físico e o psicológico, tecendo juízos estéticos que são assaz insólitos a nós homens: eis a razão da relativa falta de espanto feminino quando aqueles dois campos parecem antagônicos. Já o homem não faz essa articulação, pelo menos não inicialmente. E isso é pedra de escândalo às mulheres. Por termos a capacidade natural de realizar esse tipo de abstração, bem ao contrário das mulheres, elas consideram os nossos juízos fundados numa impostura moral. Se o leitor tiver suficiente coragem e for amigo da verdade, louve os atributos corporais de uma mulher a outra. Aos olhos da mulher, o leitor rapidamente se transformará num bárbaro ou num cretino. Porque do ponto de vista feminino, uma observação tão crua da natureza, tão desimpedida de critérios exóticos, só pode ser realizada por uma criatura no mais pleno estágio da natureza, ou então por um monstro desprovido de moralidade. O requinte de perversidade chega ao ponto de o homem considerar a beleza um salvo-conduto da tolice. Torna-se suportável uma mulher tola na proporção de sua beleza. Ouso afirmar que tal caridade mulher nenhuma é capaz de praticar.

Cara leitora, se é que ainda me resta uma eventual leitora, digo, pois, que muito embora seja verdade inconcussa que a beleza nos serve como estimulante, reconheço que a falta constante de agrados mais espirituais convida a toda sorte de dores e constrangimentos. Não é difícil de gerenciar os rompantes de toleima caso forem esporádicos e suportáveis. Se contudo forem excessivamente intensos e constantes, tais como uma dor de dente, apenas uma fortaleza heróica tornaria capaz de suportar tantas adversidades.

Preciso desfazer um eventual mal-entendido antes de terminar. Talvez o leitor tenha se perguntado como é possível ao homem ficar espantado com o choque entre beleza e falta de espírito, já que ele lida tão bem com a união de ambas em uma mulher. A resposta está precisamente na constatação das duas realidades distintas. A mulher não se espanta porque percebe de uma forma bastante insólita a união entre beleza e espírito, enquanto o homem as percebe inicialmente como duas realidade separadas e distintas. Só com o desenvolver do tempo é que o problema começa a se lhe tornar nítido. Antecipando-me a uma eventual leitora irônica, em nada isso demonstra a falta de capacidade cognitiva masculina. Ocorre no caso apenas operações mui distintas. A intuição feminina e a operação de síntese masculina são de natureza diversa, produzindo, no fim, resultados igualmente diversos. Prova é que por maior que seja a operação de síntese masculina, muito dificilmente ele considerará que o espiritual de uma mulher predomina e reconfigura a sua aparência. Entre a espirituosa mas desgraciosa e a graciosa mas desespirituosa, esta última normalmente lhe chamará mais a atenção. Já a mulher, ainda que não desprovida de percepção objetiva, muito dificilmente enfrentará dilemas ao lidar com alguém espiritualmente agradável mas de aparência assaz original. Nisso, como em quase tudo, homens e mulheres são fatalmente diferentes.

No futuro, talvez eu continue a tratar dessa questão, mas por enquanto adeus.

Wednesday, April 22, 2009

No qual continuo o post anterior

Mas eu tive a sensação de que "tudo está dominado" ao ver um monge batendo palmas e fazendo coreografia, empolgado com as festividades, ainda que fizesse tudo discretamente. Diante de situações desse tipo, lembro-me de Matatias e de sua fúria santa, que desencadeou a revolta dos Macabeus. É duro permanecer impassível, quiçá sorridente, em meio a tantas coisas. Esperemos que D. Orani dê um jeito nessa situação.

Da cerimônia de posse de D. Orani, novo arcebispo do Rio de Janeiro

Confesso que no momento em que nosso arcebispo fez seu pronunciamento, eu simplesmente me desliguei no meio das intermináveis saudações às autoridades, quando ele virou a primeira ou segunda folha e continuou saudando-as, o que me fez lembrar da Doação de Constantino, em cujo início há tantos títulos referentes ao imperador que aparentemente a doação é apenas um detalhe no documento, e só retornei a mim nos aplausos finais. Se de fato o discurso de D. Orani foi de cerca de meia hora, então bizarramente fiquei meia hora em transe. Conforme um amigo me disse, não foi nada fácil acompanhar a litania das autoridades feitas pelo núncio, D. Eusébio e D. Orani.

Naquele domingo, por acaso eu folheava à noite meu catecismo, no qual está dito que a igreja é um excelente local para oração, mas aparentemente isso não é aplicável a certas zonas do Rio de Janeiro. Acho que foi a primeira vez em que realmente tive dificuldade de orar numa igreja no momento da comunhão, tamanha a baderna. O negócio estava tão feio que no banco à minha frente havia duas ou três pessoas que simplesmente estavam ouvindo uma partida de futebol no meio da missa. Não sei se na Idade Média havia bagunças nas igrejas -- acho que já li em algum lugar sobre gente entrando com bichos em igrejas e que isso não era raro --, mas atualmente a situação está se tornando insuportável, se é que já não o está em determinadas igrejas.

Eu só gostaria que as pessoas não berrassem na igreja, não fizessem tumultos por farra, nem que transformassem as missas numa ode à breguice e ao kitsch, mas aparentemente é pedir demais. Qualquer dia, do jeito que a banda toca, haverá lutas de sumô em plena missa, a fim de atrair mais fiéis e de tornar tudo mais intrigante.

Friday, April 10, 2009

De como tento me livrar de certos ranços que me impedem de usufruir bem da vida religiosa

Antigamente, e devo alertar que por esse advérbio entendo um passado de seis anos, eu era de certa forma influenciado pelas opiniões dos assim chamados "tradicionalistas", cujo mote é que houve na década de 60, devido a um concílio infeliz, a criação de uma igreja diferente da Igreja: seria a "Outra", nas palavras de Gustavo Corção. A "Outra" seria uma espécie de anti-Igreja e até mesmo parasita: dentro da própria Igreja ela lhe consumiria. Vem disso a célebre expressão "auto-destruição da Igreja." Dadas as dificuldades que atualmente cercam a Igreja, o poder de atração dessa idéia é hipnotizador, pois parece explicar de modo mais ou menos simples praticamente tudo. Todavia, nada como um ano após outro. Atualmente, acho que me livrei em boa parte dessa explicação, pois ela me parece não só desprovida de sentido mas também maléfica. Meus motivos não são difíceis de entender, embora sejam, talvez, difíceis de vivenciar. Tentarei, pois, explicar esse meu aparente enigma.

Não tocarei em questões teológicas nem filósoficas, pois não quero me enrolar ridiculamente. Ademais, a prudência exige que não nos atiremos de cabeça em águas que não conhecemos a profundidade. Portanto peço ao leitor católico que aceite tão-somente algumas idéias bem simples. Com efeito, sabemos por exemplo que a Igreja foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que "sobre ela as portas do inferno jamais prevalecerão". Precisamos então confiar na Igreja assim como confiamos em Jesus Cristo: é absolutamente impossível separar um do outro. Sabemos também que o Espírito Santo sempre estará ao lado da Igreja, afinal "o Senhor é meu pastor e nada me faltará". Certa vez Bento XVI, na época cardeal, disse que a Igreja é um barco antigo mas seguro e bem provado. Ele tinha razão, porque se ainda que estivermos no vale da morte o Senhor estará conosco, também Ele estará com a comunidade de fiéis em meio às tribulações que ela vier a atravessar ao longo dos séculos. Jesus Cristo, conforme as Santas Escrituras, diante do temor dos Seus ministros quando da tempestade no mar, acalmou-a, e todos seguiram boa viagem. Do mesmo modo, sendo a Igreja um barco e o mundo águas revoltas, o Espírito Santo estará sempre presente a fim de que tudo concorra bem. Nossas preocupações são decorrentes da nossa pouca fé: acaso não disse o Senhor que "não vos preocupeis com o dia de amanhã"? A Igreja também é nossa "mãe e mestra", "mater et magistra". À certeza inabalável de suas decisões como mestra, junta-se a doçura da mãe que cuida de seus pequeninos. Ora, quando alunos acatamos aquilo que o mestre nos ensina, e como filhos confiamos em nossas mães sem temor algum. A Igreja não ensina novidades, mas guarda e atualiza todo o patrimônio sagrado. Doutra maneira, ela nos ampara em todas as nossas necessidades, pois é a Esposa de Cristo e nós os Seus filhos. Daí que devemos acatá-la como mãe e como guardiã do que há de mais precioso, que é a tradição sagrada.

Se o leitor é católico, tais pontos, simples, são indisputáveis. Nessas questões de princípio ninguém deve tocar. Porém sabemos como a nossa fé caminha aos solavancos, principalmente nas adversidades. Quantos podem resistir aos assaltos daqueles que, vendo-nos em circunstâncias miseráveis, caçoam e dizem: "Esperou no Senhor, livre-o; salve-o, se é que o ama"? Eu próprio tenho dificuldade de entender muitíssimas coisas. Contudo, aqueles pontos simples precisam ser a minha rota de fuga. Se dissermos todos os dias "creio", e se pedirmos a Deus força para crermos n'Ele e na Santa Igreja, enfim, se aceitarmos a graça de Deus, ela será derramada em nós e nos fortificará. Nossas dúvidas serão aos poucos saciadas, pois Jesus Cristo já dissera: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á, porque todo o que busca, recebe: e o que busca, acha: e a quem bate, abrir-se-á". É preciso, portanto, ter confiança, pois se nossas dúvidas forem sinceras elas serão satisfeitas.

No entanto, preciso dizer ao leitor que tudo aquilo que for ocasião de perda deve ser dispensado. Compreendo perfeitamente o quão difícil é às vezes agir assim, porque há momentos em que uma renúncia parece uma afronta não só a nós mesmos como também aos outros. Darei como exemplo todas as discussões acerca da licitude do último concílio. Ora, as discussões a respeito moveram escândalo após escândalo. Isso é absolutamente inaceitável. Tal como a Reforma produziu um escândalo tão imenso que pôs as almas de todos os fiéis em perigo, as discussões acerca da validade do último concílio também têm sido ocasião de muitas perdas: o que mais tem havido são insubmissões, mentiras e calúnias. Numa palavra, tem havido ataques constantes à caridade. Note o leitor que nem entro na questão de nossa irrelevância diante desses problemas. Realmente, por uma questão de humildade, seria ridículo nos revolvermos demais a esse respeito. Todavia, estou atacando o problema de um modo que vai mais além. Considero extremamente maléfico se envolver demais nessas discussões, porque são de fato motivo de perda. Já dissera Nosso Senhor: "Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o, e lança-o fora de ti: porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno." Que palavras formidáveis e aterrorizantes! Assim, em termos práticos, eu tento evitar, na medida do possível, entrar em discussões acerca do concílio, a não ser para lembrar que a Igreja é fiel a Deus e que o concílio, sendo da Igreja, é também fiel a Deus. Por outro lado, já que o próprio Jesus Cristo dissera que é necessário tirar antes a trave de nosso próprio olho antes de falar do cisco no olho de outrem, tento evitar, na medida do possível, falar ou pensar mal de alguém, a não ser de brincadeira. Claro que freqüentemente me pego nessas faltas, mas se eu próprio não consigo me submeter à Igreja como é preciso, até que ponto é justo eu reclamar de um padre ou leigo insubmissos? Finalmente, se porventura eu observar que a pessoa, mau grado ter opiniões estranhas (uso "mau grado" porque não compreendo a forma "malgrado"), está sinceramente em busca de uma resposta pessoal, serei o último a denigri-la: o problema não é a busca em si, mas o jeito como conduz suas buscas. Seria um problema de direção espiritual -- não que eu esteja me considerando um diretor espiritual, é óbvio.

Há muito a dizer ainda sobre o assunto, mas basta por enquanto.

Thursday, March 12, 2009

A saga de um desempregado

Blogs foram feitos para relatar experiências pessoais, ou essa é a fama que em geral eles têm. Eu diria de outra forma: blog é um dos vários meios pelos quais compartilhamos nossas misérias com estranhos. Somos como uma dessas pessoas que ficam tão loucas para desabafar que não perdoam o primeiro gaiato que aparece na frente, que no caso presente é você, caro leitor. Essa minha observação, aliás, modéstia de lado, é muito interessante, porque costumeiramente tendemos -- inclusive eu -- a considerar blogs como exibicionismo. Isso não está totalmente errado. Blogs, bem como qualquer outro meio de escrita, são, do ponto de vista de quem escreve coisas pessoais, como estar nu em alguma avenida: uns gostam mais, outros menos, mas é exibicionismo. Contudo, o que nesta vida não é vaidade? Não, caríssimo leitor. Meus colegas blogueiros ou eu passarmos determinada imagem, conscientemente ou não, a ti, não é apenas uma questão de identidade. O que está em jogo é um catolicíssimo compartilhar de lágrimas dos degredados filhos de Eva. Desde aquele que exibe suas medalhas ao que aponta para suas dores, tudo é uma busca pelo irmão perdido, a fim de que ele nos acompanhe fraternalmente.

Meu objetivo agora não é fazer o leitor chorar, nem muito menos pretendo reclamar como velho da vida. Imagino que todos nós já sabemos que a vida tem um aspecto bastante complicado. Porém é bom senso ter noção de que não vivemos numa Sibéria stalinista. Nem eu poderia reclamar exageradamente, a não ser para efeitos retóricos; confio no leitor inteligente.

Quarta passada, enquanto eu zanzava pelo Centro do Rio atrás de algo para fazer, dei-me conta da quantidade de pessoas que possivelmente também ficam zanzando com o mesmo objeto no Centro. Neste bairro, diariamente, a quantidade de gente que está procurando algum emprego deve ser realmente muito assombrosa. Dei-me conta disso desde que vi as filas em agências de emprego, cotidianamente lotadíssimas, ou quando vi a quantidade de pessoas que vão aos montes a consultorias de trabalho. Devido à minha própria situação, fiquei mais sensível a essas coisas, da mesma forma que pensei nas pessoas que ficam vagando pelas ruas sem muita razão, após a perda de entes queridos, como Gustavo Corção e eu mesmo já fizemos, ainda que eu não tenha a chegado a agir exatamente como o velho católico, que por um tempo seguia às vezes, como que hipnotizado, transeuntes de madrugada. Mas já dei boas voltas de madrugada como espécie de distração. Não sei muito bem a razão de tal comportamento. Pode ser, talvez, porque achamos de alguma maneira que a pessoa amada e falecida vai cruzar conosco na rua. Porém estou fugindo um pouco do meu propósito neste parágrafo, que é comentar acerca da quantidade nebulosa de pessoas andando no Centro do Rio atrás de emprego. A fim de me repetir, torno a dizer que as agências de emprego são sintomáticas. Há uma delas, governamental, próxima da Igreja de São José. Tenho o hábito de passar ali perto, e não me recordo de um só santo dia em que não tenha visto filas de manhã. É algo que me faz lembrar das históricas filas de desempregados no período do entre-guerras, com a diferença de não aparecerem agitadores profissionais querendo incitar as multidões à revolta. Um fato auxiliar é a quantidade de gentes em locais para concurso público. Essa manada de gente só pode indicar que a insegurança quanto ao emprego é ampla, geral e irrestrita. O outro fator, agências de recrutamento, é também eloqüente. Não cometerei o absurdo de exigir do leitor a ida a uma dessas agências: confie na minha experiência. Fui a uma e fiquei espantado com o enorme número de pessoas indo e indo e indo tão-somente para entregar currículos e pedir qualquer salário baixo – isso quando não diziam que topavam qualquer coisa, usando o termo “a combinar”. O mais impressionante é que pelas conversas eu tive a sensação de que ninguém tinha muita noção do que queria, exceto trabalhar: gente de todas as idades. Aliás, quando a tormenta se acalmou, perguntei à atendente se sempre era daquele jeito, ao que ela me disse que normalmente era muito pior. A sala de espera, se é que podemos chamar assim um local onde só cabem três pessoas sentadas e outras três de pé, parecia um formigueiro. Ninguém ficava muito. Mais lá para dentro, havia essas dinâmicas de emprego que mais me parecem humilhações adicionais criadas por algum sádico contra quem topa tudo por dinheiro. Por amor a um possível emprego, todos se submetem a tudo, o que não é de se estranhar.

Aqui no Centro há o Mosteiro de São Bento. Esse ano, graças a um amigo, passei a freqüentá-lo durante as manhãs, 7h15, umas duas vezes no meio da semana, sempre que minha preguiça é vencida. Gosto de ir andando. Nessas idas, passo geralmente no maior zunzunzum já às 6h20: o mundo se levanta cedo. Fico sempre impressionado com a quantidade de pessoas por essas redondezas. É normalmente gente de todos os cantos da cidade, e isso quando não são de fora. Em meu prédio, por exemplo, há dois porteiros que moram em cidades próximas. Aproveito para dizer que é totalmente falsa a impressão de que cariocas não toleram trabalho: ao contrário, topam tudo e em qualquer horário. A visão das hordas na praia é enganosa. A população em geral não fica só na praia. Suspeito que o problema é que ela não parece ser bem qualificada, para usar um termo econômico. Isso por si não me parece justificar tamanho desemprego, porém não sou especialista nessas coisas. A única pessoa satisfeita com a economia do país é o presidente, porém todos sabem que ele não é autoridade para nada. Por outro lado, é freqüente observar como as pessoas tentam se virar do jeito que dá. É o caso dos vendedores ambulantes. Eles são o maior exemplo de como é falso também supor que o brasileiro, ou pelo menos o carioca, não tem espírito empreendedor. Muito pelo contrário: estamos lotados de espíritos empreendedores, mas que não conseguem avançar de vez por alguma razão que me escapa. Perto do Campo de Santana, na altura da Biblioteca Estadual, há sempre muito cedo uma lanchonete improvisada ao ar livre. Vendem caldo de cana, suco, pastel e sanduíches a trabalhadores. Quando passo por ali bem cedo, jamais deixo de ver uns vinte clientes, sem contar os outros que se dirigem àquele “estabelecimento”. Essa lanchonete improvisada só funciona bem cedinho: pouco mais tarde desaparece, junto com o vermelhidão da aurora. É de se crer que ocorram iniciativas semelhantes em muitos outros lugares.

Conforme eu tenho visto anúncios de emprego, chamou-me atenção a admirável formalização do nome dos cargos. A maioria das pessoas e eu sabemos o que é um faxineiro e um varredor. Contudo, ai daquele que buscar vagas pela Internet com esses nomes! Hoje em dia, por um motivo que me escapa inteiramente, nossos caros faxineiros e varredores se transformaram em um insosso "auxiliar geral. Peão-de-obra também desapareceu: acho que se transformou em “auxiliar de produção". São nomes mais elegantes, sem dúvida, porém totalmente vagos. Isso me parece algum ranço técnico-jurídico ingrato, misturado com o politicamente correto. Os juristas medievais eram mais criativos. Como disse Marc Bloch, algum deles, de veias poéticas, cunhou o termo "feudo do sol" aos alódios, isto é, terras que não eram enfeudadas, desprovidas de encargos feudais. Como eram terras que não foram dadas por ninguém ao seu proprietário, daí a expressão "do sol". Hoje em dia, época da exatidão técnico-matemática e do politicamente correto, expressões poéticas como aquela são inimagináveis no sistema jurídico. O concreto faxineiro se torna um abstrato "auxiliar geral".

Eu, que nunca tive empregos formais, vi-me numa situação inusitada. Ao ter de fazer currículos online, freqüentemente tinha de mencionar um emprego bem específico, o que é normal. Contudo, jamais tinha me dado conta da tecnicidade dos empregos e da pluralidade de funções. Há semanas venho lendo isso e até agora não consegui entender a diferença entre um emprego profissional e um operativo, conforme li nalgum site de empregos. Tampouco sei o que significa a hierarquia auxiliar-técnico-estagiário-júnior-gestor, e que o leitor me corrija se acaso tropecei na hierarquia correta. Dentro do meu mundo, inicialmente há professores e os outros, sendo que dentre os primeiros a gradação se dá pelo título adquirido: isso por si só já é um verdadeiro inferno. Quanto aos outros, até pouco tempo atrás achei que havia o jornalista, o editor, o advogado, o faxineiro, o lanterninha... Porém descubro que há assistentes, que são diferentes dos auxiliares. Há igualmente um bando de júniors, certamente, imagino, antecessores dos sêniors. Para mim, um assistente e um auxiliar são a mesma coisa, porém na tecnicidade empregatícia há diferenças. Se o leitor me permitir uma referência filosófica assaz bizarra, eu chamaria essa explosão de tipos de emprego e especializações de "kantismo empregatício positivista", já que após Kant e positivismo tudo virou objeto de ciência, mesmo as coisas mais inusitadamente irreais. Contudo, faltaria com o bom senso se durante uma entrevista de emprego eu objetasse que tal emprego, mau grado -- faço de bom grado um assassínio lingüístico -- remunerar bem, é um delírio de inspiração kantista-positivista, portanto necessariamente inferior a outras funções. Conhecer monstruosidades lingüísticas como “endomarketing" só me causam furor e ressentimento. Calo-me quanto a empregos cujos significados, a partir do nome, são ininteligíveis, ainda que bem remunerados.

A minha situação só me tem confirmado aquilo que eu já havia percebido: sou pária. Aparentemente, estou um pouquinho acima da média educacional, porém um pouquinho abaixo da excelência do ensino superior. Vivo portanto num intramundo, e aqui, gentil leitor, não há empregos. Se eu fosse um ex-clérigo, vivesse enfurnado num bar e amasse vagabundear pelas estradas e saias alheias, talvez eu poderia ser um goliardo, se é que isso significa pertencer a uma classe. Estou muito mais próximo do clérigo que disse a Raimundo Lúlio que havia passado a juventude estudando e esmolando. Seria esta situação, aliás, concebível para nossa imaginação, um estudante universitário literalmente mendigo? Só consigo imaginar algo parecido a partir das pobrezas estudantis russas de Dostoievski. Atualmente conseguimos ser universitários sem piolhos, sem lepra e, o que é melhor, cercados de belas universitárias, ainda que isso varie dramaticamente de curso para curso: eu, por exemplo, desde meus tempos de segundo grau de Eletrotécnica, jamais tive a sorte de estudar com beldades.

Daqui do intramundo observo o quão distante é a perspectiva de emprego de um intelectual de quem não é intelectual. Se um historiador do futuro investigasse nossa época, analisando que tipo de emprego costumeiramente era oferecido em 2009, talvez ele concluísse que nós éramos criaturas excepcionalmente inteligentes, posto que aparentemente ninguém quer saber mais de professores ou qualquer coisa desse gênero. Há milhares de cargos para “auxiliar geral”, para técnico de informática, jornalista... A demanda de cargos burocráticos ultrapassa o infinito. E para quem quer dar aulas? Só se for de idiomas. Obviamente isso é um exagero retórico: a questão é a baixa quantidade de cargos daquele tipo. É também óbvio que existem mais varredores que professores, mas isso não explica a inacreditável baixa demanda. Existe realmente um abismo entre intelectuais e a população em geral, de modo que o contato entre eles é puramente acidental ou cercado de misticismo de ambas as partes. O povo é uma coisa que o intelectual vê de longe, enquanto o intelectual é algo que escapa completamente do horizonte do povo. Não que isso seja totalmente estranho por si: o problema é que por essas bandas a situação é muito dramática. Mas estou já escapando do assunto.

Como só podemos viver no intramundo comendo e bebendo o que as pessoas do mundo comem e bebem também, não dá para ficar contemplando aristotelicamente a realidade. Porém as pessoas no mundo exigem qualificações excessivamente formais ou se agrupam em convênios: ambos, em português bem claro, significam tão-somente armação e boquinha. Os “superiores” usam de esperteza a fim de restringir o acesso aos seus cargos. Qualificações excessivamente formais e convênios são seu escudo protetor contra as hordas vindas do inframundo. Aliás, o mesmo se dá com concursos públicos: são a chance dos “superiores” viverem tranqüilamente. Assim, um concurso público que exige 2° grau e que dá todo o tipo de benefícios a quem passar será disputado preferencialmente pelos “superiores”: o mesmo ocorre em concurso que exige tão-somente 1° grau. Na realidade, concurso público é a boquinha dos “superiores”. Os que estão entre os “superiores” e não conseguem participar da boquinha vão ocupar cargos imediatamente inferiores, supostamente destinados aos do inframundo, e os que estão no inframundo mas são melhores que seus companheiros vão ocupar os cargos destes. Os últimos, no fim das contas, vão pastar e comer grama. As regulamentações a fim de proteger os direitos dos trabalhadores servem apenas para dificultar contratações e arremessar todo mundo na rua o mais rapidamente possível. A acrescentar as autênticas sacanagens empregatícias, é de se espantar como chamam tudo isso de exemplo autêntico da maldade inerente ao capitalismo, quanto é apenas exemplo de pega-pra-capar tupiniquim.

Dizendo assim, até parece que meu caso específico é culpa da maldade ambiente. Não é bem assim. Como esse blog não é um confessionário, não devo me dirigir ao leitor como se você fosse meu padre confessor. Digo tão-somente que, dada a situação ambiente, eu também fiz questão de me enrolar. Creio que ter escapado heroicamente da universidade não foi uma ação virtuosa. Certamente as universidades têm problemas muito graves, porém a solução não me parece fugir, ainda mais quem não tem muitas fontes de renda. É uma simples questão de bom senso. Sou o primeiro a dizer que freqüentemente topamos com situações deprimentes em faculdades, mas também quero ser um dos primeiros a dizer que cada faculdade é um microcosmo: o que ocorre na faculdade de História da UFRJ é diferente do que ocorre na da UFF. E mesmo em cada uma delas existe um tremendo saco de gatos. Passados quatro ou cinco anos sem pôr os pés numa sala universitária, hoje tenho melhor noção dos problemas que o positivismo trouxe aos estudos. Eles chegam a ser ininteligíveis para quase todo mundo, tal é a influência dos seus pressupostos metodológicos aparentemente sensatos e humildes. As opiniões e estudos esquerdistas certamente estão bem disseminados e são irritantes. Todavia, uma faculdade não é só isso: bem ou mal, determinadas coisas você só conhecerá, ou pelo menos conhecerá mais facilmente, numa faculdade. Ademais, digo por experiência própria que se na universidade já ficamos angustiados por encontrar pouca gente disposta a estudar verdadeiramente assuntos amplos, fora dela é virtualmente impossível encontrar alguém. Não acho essa concentração toda benéfica: a academia nunca poderia ter o monopólio do que é intelectual. Mas sejamos práticos: a verdade é essa. Em termos gerais, vida intelectual não existe fora dos muros da universidade, pela simples razão de a maior parte das pessoas simpáticas ao estudo estarem nas universidades. Posso estar enganado, porém nas atuais condições a universidade, mesmo do jeito que está, é, no final das contas, um lucro. Há também o problema tradicional da confusão entre estudo acadêmico e estudo academicista. O primeiro é um autêntico estudo superior, enquanto o segundo é tão-somente sua cópia exterior. Como macaquear é mais fácil e cômodo, onde não houver seriedade haverá academicismos. Tudo isso é de conhecimento geral, mas é necessário enfrentar a selva e reter o que vier de bom.

Meus gostos históricos são bem variados: vão desde a Antigüidade até Segunda Guerra Mundial. Sei muito bem que este último assunto, na UFRJ, foi tomado por loucos esquerdistas, de modo que é impossível estudar adequadamente o assunto. Por outro lado, estudos sobre a vida de Jesus foram tomados por outros loucos, esquerdistas ou não. Em se tratando da minha faculdade de Histórico, busco me ater ao meio termo, ou melhor, na Idade Média, não toda, é claro. Também por experiência pessoal vi que é possível estudá-la sem cometer indecências. O fato de haver uma propensão enorme a se estudar meia dúzia de autores franceses não é um problema tão grave. Nenhuma dessas coisas serve de impedimento grave aos meus estudos, exceto circunstâncias externas, isto é, conseguir novamente minha matrícula e ter condições materiais para me manter estudando e vivendo adequadamente.

Se eu tivesse tido essas precauções eu não estaria tão enrolado. Mas “o tolo só aprende por experiência”, nos dizeres de Homero. Vejamos se consigo levar adiante o que aprendi com minhas tolices.

Friday, March 06, 2009

Do último post do Omayr

O blog do Omayr é um dos mais felizes que há. Sempre há textos muito interessantes, ou citações muito boas. Porém eu gostaria de convidar o amigo leitor a ler seu último post, um relato pessoal, que está magnífico.

Wednesday, March 04, 2009

Divórcio e barbárie

(Nota: Mais um post requentado.)

Provavelmente o leitor acharia muito estranho se um filho fosse ao cartório para anular sua união com os pais ou vice-versa. Isso não seria menos esquisito se ocorresse com nossos irmãos, tios, primos, avós, etc. Mas é bem possível que o leitor não estranhe tanto se um marido insatisfeito fosse ao mesmo cartório para anular suas ligações com a esposa. Estamos tão habituados com a idéia de divórcio que ela se tornou algo tão natural quanto o Corcovado.

O que é o casamento? É a união indissolúvel entre marido e mulher, visando constituição de família. Atentemos para a palavra “indissolúvel”: se é assim, então onde fica o divórcio? Não fica; aliás pode até ficar no caso do casamento civil. Pois o Estado até matrimônios gere, como se não bastasse sugar nossos míseros centavos a cada mês com dezenas de impostos, obrigatoriedade do voto, do serviço militar... Até violar seus cidadãos quando mortos, sob o pomposo nome de “autopsia”, ele quer. Só que, em se tratando de casamento, o Estado não supre uma peculiaridade desta união. É que a Igreja une sob os auspícios de um dom sobrenatural, criando no instante dos votos um parentesco que não foi o de nascimento. Assim, por causa desse dom, os nubentes vêem suas famílias crescer: surge uma segunda mãe, um segundo pai, um segundo primo, um segundo avô etc. etc. Quando um casal se une desse modo, pode-se dizer que cada um se casa com a família do outro. E o resultado dessa união, realmente espantosa, é a junção de várias pessoas em uma só: de um pouco de sangue de cada família surge uma nova criaturazinha, que é conclusão concreta (melhor: carnal) dessa união. Eis que a ligação de sangue sobrenatural se desdobrou e criou uma ligação carnal em forma de pessoa. A palavra empenhada ao pé do altar se fez carne: é o nascimento da criança.

Se pai e mãe são tão parentes quanto primo e tia, como é possível haver o divórcio? Só pode ficar no casamento civil, que une sem unir. Não quero dizer com isso que os anjos não desceram dos céus e transformaram a união de duas pessoas no cartório no principal acontecimento do universo naquele exato instante. E se várias pessoas se casam ao mesmo tempo, então por um mistério também cada uma será o centro do universo. Porém o que eu quero dizer é que o Estado não tem o poder sobrenatural para sacralizar esta união. Tenho um certo receio de usar a palavra “conveniência” para explicar isso, pois dá margem a equívocos. Se o leitor tiver boa vontade, entenderá que com isso digo que o casamento em cartório acaba se baseando em formalidade jurídica, um assinar de papéis, embora um assinar de papéis todo especial. Mas é apenas ali no papel que está a salvaguarda do casamento. E sabemos como papéis são frágeis.

Há um agravante nesta já insólita situação, que não sei dizer se filosoficamente é causa do movimento ou final disso tudo. É o problema da palavra empenhada. Antigamente, quando quase ninguém sabia escrever, só alguém muito original consideraria indispensável um contrato por escrito e assinado para empenhar um juramento. Em épocas muito remotas, as pessoas juravam nas e pelas coisas mais insólitas: água, vinho, fogo... Até os coitados dos santos eram empenhados, ou as mães. Coitados de ambos! Esses hábitos até hoje podem ser vistos na nossa própria sociedade, ainda que tenham perdido a freqüência e importância original. Em pleno século XX, meu avô, segundo lendas, quando empenhava a palavra, dizia também que jurava pelo seu bigode, pois aquilo era a prova de ele ser um homem, e homens não quebram a palavra. Bigode! Não sei dizer se ele se viu muitas vezes com o bigode aparado; em todo caso, é um exemplo engraçado de como essas coisas permaneceram até os dias de hoje.

Devemos acrescentar na nossa breve história dos juramentos que eles sempre tinham um caráter sagrado. Ninguém escolhia a água por ela ser uma substância intrigante ou o vinho porque o juramento era coisa de gente bêbada. Jurava-se sob a água porque muitos acreditavam que no princípio tudo era água, sendo as coisas agora compostas substancialmente por ela – era a substância mais importante que existia. Ou o fogo, segundo outros. Quanto ao vinho, não sei dizer o motivo, mas imagino que tenha alguma relação com Baco ou outro deus. Além disso, não podemos esquecer que a palavra, por si só, é um atributo que os deuses gentilmente nos emprestaram. Se atentássemos para a sua importância, pensaríamos cinco, dez vezes antes de usá-la. Então o juramento é (ou era, se formos muito pessimistas) algo muito especial e até misterioso, sagrado quanto à sua natureza. Quebrar uma promessa, um pacto, só gente impiedosa, só gente completamente afastada da civilização, só teria coragem um bárbaro.

E o que seria o divórcio senão uma quebra de um juramento? Para piorar a situação, um dos mais importantes juramentos que duas pessoas podem fazer? Não é verdade que apenas os bárbaros não empenham seriamente a palavra? Pois aí está, leitor: nós somos incivilizados, impiedosos, pois em uma quantidade absurda de casos, além de não pensarmos no absurdo que é o desligamento de um laço de parentesco, não levamos a sério nossos próprios votos. Não medimos as conseqüências da nossa própria palavra empenhada e não hesitamos em quebrá-la quando melhor nos convém. Elegemos a eficiência como o mais soberbo princípio e, a partir daí, vivemos na mais medíocre prática de conveniências, de egoísmos e do amor-próprio. Esse problema é tão grave que chega a ameaçar uma sociedade. Se do ponto de vista individual cria inimizades, de um ponto de vista mais geral o juramento se torna uma prática vazia. A sociedade acaba aceitando o império universal da desconfiança. Por que não poderia alguém se “divorciar” da sociedade e, por razões de conveniência, realizar um golpe de Estado e rasgar a Constituição? E o que impediria, em um mundo assim, de um país quebrar tratados cuja tinta que serviu para sua assinatura mal secara? É o mundo das traições, das apunhaladas, dos advogados e promotores em número absurdo, do medo, da desconfiança e do descrédito. É a volta a quatro patas a um estado primitivo, onde tudo parece conspirar contra nós.

Tuesday, March 03, 2009

O sultão e o Anjo da Morte

(Nota: Já publiquei esse texto, mas decidi reescrevê-lo parcialmente. No futuro escreverei uma segunda versão com um final levemente alterado.)

Contarei a vocês, amigos, uma história oriental. Não é minha: faz parte desse conjunto de lendas que simplesmente brotam das névoas da história, portanto verdadeiras em espírito. O fim é meio abrupto, mas não contarei a moral.

Certa vez o sultão contemplava orgulhoso e solitário a sua cidade da varanda de seu enorme palácio. Toda aquela opulência lhe parecia a manifestação e testemunho de sua própria glória, como se uma idéia grandiosa tivesse sido atualizada por uma pessoa semelhantemente grandiosa, um milagre que havia se tornado ato em todos os pormenores. Certamente não havia cidade em todo orbe tão bela quanto àquela. Essa contemplação tinha traço de Narciso, porque ao olhar a cidade ele via tão-somente a si mesmo. Todavia, eis que de repente o sultão sentiu um calafrio tremendo, prenúncio de toda a calamidade. Do alto da abóbada celeste escura e estrelada, desceu, tal como um raio, um anjo de beleza terrível. Não era uma criatura qualquer, mas aquele que é a boca de Deus para o flagelo. Estava ali o Anjo da Morte. E o sultão estremeceu. Com uma voz indescritível, logo disse o Anjo: "Ó homem, eis que Deus me enviou para te anunciar terrível desgraça. Prepara-te, pois tocarei a tua cidade como jamais fora antes tocada." Tendo ouvido tão sinistro oráculo, o sultão lhe respondeu: "Que fiz de mal? Ora, diga-me conforme a verdade: quantos hão de tombar? Se foi o Senhor que te enviou, então pela graça de Deus misericordioso te rogo para que me digas!" Falou o Anjo: "Cinco mil tombarão nas próximas semanas de doença terrível. Prepara-te e te alegra, ó homem, porque nem sempre é dado conhecer a extensão da própria desgraça. Tu és pecador, mas Deus é fiel." E voltou aos céus o Anjo da Morte.

Mal tendo desaparecido o Anjo, o sultão, homem extremamente prático como todos bons governantes devem ser, tratou de expedir ordens o quanto antes para que a cidade suportasse o flagelo vindouro. As ordens eram dadas com certa melancolia, pois ele considerava a empresa difícil e o fato vindouro brutal. Mas não se discute a vontade de Deus. A cidade foi preparada, na medida do possível, para suportar a calamidade iminente.

A semana seguinte chegou e as pessoas começaram a morrer. O sultão, bastante apreensivo, observava os acontecimentos e agia de acordo com suas possibilidades, sem jamais deixar de contabilizar o número de mortos: estava certo que a desgraça cessaria tão logo a quantidade de almas mencionada pelo Anjo subisse aos céus. Na primeira semana Deus chamou aos céus setecentas almas. Na segunda foram mil e quinhentas. Na terceira foram mais mil. O pânico era generalizado. O espírito do povo sofria golpe atrás de golpe. E não cessava de morrer gente até que houve um total de mais de trinta mil mortos em pouco mais de um mês, o que deixou indignado o sultão, que repetia de si para si: "Para o inferno aquele demônio mentiroso!" Eis então que novamente o Anjo da Morte apareceu e lhe perguntou: "Ó homem, por que blasfemas?" Respondeu-lhe o sultão: "Tu me enganaste, demônio! Falaste que cinco mil homens tombariam de doença terrível. Ora, em pouco mais de um mês morreram mais de trinta mil!" Disse-lhe o Anjo: "Decerto, ó homem, cinco mil tombaram de peste terrível." O sultão, ao ouvir tais palavras, sentiu o coração queimar, e sua alma se inquietou, e uma ira aparentemente justa se apossou dele. Exasperado, disse, com a voz irada: "Zombas de mim, maldito cão dos infernos! Seis vezes mais homens tombaram do que isso!" Então lhe respondeu o Anjo da Morte: "Ó homem de pouca fé e insensato, que duvida do aviso do céu! Celerado! Cinco mil tombaram de peste. O restante, em verdade vos digo, o restante morreu de medo da peste."

Monday, March 02, 2009

Da Igreja e o comunismo

Olavo de Carvalho, tanto no True Outspeak de segunda última, bem como em muitíssimas ocasiões, tem dito que a Igreja silenciou publicamente acerca da perversidade do comunismo desde o último concílio. Essa acusação, no entanto, está longe da verdade. A tal ponto a Igreja condena pública e expressamente o comunismo que no próprio catecismo há referências a malignidade do comunismo.

Está claramente dito, na seção acerca do sétimo mandamento, que o comunismo e o socialismo são pecados contra este mandamento, e contrários à doutrina social da Igreja:

512. O que é que se opõe à doutrina social da Igreja?

2424 – 2425

Opõem-se à doutrina social da Igreja os sistemas económicos e sociais que sacrificam os direitos fundamentais das pessoas ou que fazem do lucro a sua regra exclusiva ou o seu fim último. Por isso, a Igreja rejeita as ideologias associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou às formas ateias e totalitárias de «socialismo». Rejeita, além disso, na prática do «capitalismo», o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano.


Isso significa que todo católico deve (ou deveria) saber que professar o comunismo é um pecado grave, e que a Igreja está clara, visível e inequivocamente em combate contra o comunismo, como aliás sempre esteve. Ora, o pecado contra o sétimo mandamento não é o único mal do comunismo. Sendo uma ideologia atéia, e sendo o ateísmo igualmente um pecado gravíssimo, o comunismo é uma afronta ao primeiro mandamento:

445. Que proíbe Deus ao ordenar: «Não terás outros deuses perante Mim» (Ex 20,2)?

2110-2128
2138-2140

Este mandamento proíbe:

- o politeísmo e a idolatria, que diviniza uma criatura, o poder, o dinheiro, e até mesmo o demónio;

- a superstição, que é um desvio do culto devido ao verdadeiro Deus, e que se expressa nas várias formas de adivinhação, magia, feitiçaria e espiritismo;

- a irreligião, expressa no tentar a Deus com palavras ou actos, no sacrilégio, que profana pessoas ou coisas sagradas sobretudo a Eucaristia, e na simonia, que pretende comprar ou vender realidades espirituais;

- o ateísmo, que nega a existência de Deus, fundando-se muitas vezes numa falsa concepção de autonomia humana;

- o agnosticismo, segundo o qual nada se poder saber de Deus, e que inclui o indiferentismo e o ateísmo prático


Sendo o comunismo ateu e contrário à doutrina social da Igreja, aquele que o professa está queimado em pelo menos dois mandamentos. Todavia, o comunismo também é uma idéia genocida, totalitária, contrária à família e às autoridades legitimamente estabelecidas, promovedor de discórdias, inimigo da propriedade privada e defensor de muitas outras coisas absurdas. Portanto, logicamente ele está em choque contra virtualmente todos os mandamentos de Deus, não havendo sequer necessidade de sempre repetir a palavra "comunismo" em cada exemplo de pecado contra os mandamentos.

Como tudo isso é dito expressamente no próprio catecismo, que é ensinado a todos os fiéis do mundo inteiro, fica evidente que a Igreja permanece em combate feroz contra o comunismo desde sempre e com toda a sua força, não sendo verdade, pois, que a partir do último concílio ela deixou de condená-lo. Tudo isso é de conhecimento básico para todo católico.

Por fim, eu gostaria de dizer que já vi missas em que padres condenavam explicitamente o comunismo. É verdade que já vi uma missa em que um padre criticava a propriedade privada, como se ela fosse pecaminosa de fato, porém esse pretenso ensinamento é um absurdo total, claramente contrário ao catecismo da Igreja, que, ao contrário, considera a propriedade privada legítima, desde que fundada na justiça. Ademais, infelizmente sempre houve heresiarcas no seio da Igreja, mas ela sempre soube defender o depósito da fé da maneira mais sábia e inequívoca. Por mais terríveis que sejam os inimigos da fé e por mais que eles cerquem a Igreja, ela nunca se deixou acovardar nem se amesquinhar: todos os erros em todos os tempos foram combatidos com bravura e nunca deixaram de ser denunciados pelas principais autoridades sacerdotais. Acusar a Igreja atualmente do contrário está em desacordo com a tradição e bem longe do que tem acontecido na realidade.

Tuesday, February 24, 2009

Pedagogia do cemitério

A disposição de certos locais mais ou menos próximos de onde moro me chama a atenção, tanto por ter sido fruto do acaso como pela significação simbólica. A Lapa, chamada de área boêmia do Rio, é um bom exemplo. Logo no início, há vários estabelecimentos festivos, onde há tanta gente apinhada que não raro é difícil de andar. Não raro também é o consumo de drogas e prostituição. Se continuarmos andando e passando pelos Arcos de Lapa, ainda haverá as mesmas coisas, porém bem mais a frente está uma funerária, e ao seu lado o Instituto Médico Legal. Caminhando mais um pouco, deparamo-nos com o INCA e o Hospital da Cruz Vermelha, embora haja outros estabelecimentos de saúde próximos. Ora, o sentido disso sempre me foi muito presente: além do desregramento está a morte. Não sei se muitas pessoas fazem alguma reflexão desse tipo ao passar por todos esses lugares, mas deveriam.

Bem próximo de onde moro, a ponto de ser impossível de dormir no meu quarto quando há carnaval, há o Sambódromo. O que muitos não sabem ou não se deram conta é que ali perto há o Cemitério do Catumbi, talvez a menos de duzentos passos. Considero simplesmente inacreditável que nenhum carioca tenha refletido acerca disso. Os mortos jazem a não muitos metros das extravagâncias. Deveria ser, aliás, costume fazer uma peregrinação até aquele cemitério após ir ao Sambódromo, como medida educativa. Vejam os gregos por exemplo. Lembro-me muito mal de uma aula em que um rapaz falava acerca de uma festa muito estranha na Grécia clássica. A certa altura das festividades, as pessoas, dentro de tavernas, ficavam por algum tempo caladas e concentradas, de cabeça baixa e olhando para suas canecas. Não me lembro exatamente da razão desse comportamento, mas tinha alguma coisa a ver com a presença de espíritos: era como se cada um se concentrasse a fim de não ser perturbado pelos mortos. Em seguida elas voltavam ao normal e voltavam a beber e conversar. É algo análogo à missa: há o momento em que todos se confraternizam dando a paz de Cristo, mas também todos se calam imediatamente após a comunhão, sendo que anteriormente os mortos são lembrados: Memento etiam, Domine...

Fosse eu pastor ou padre e teria feito um sermão de domingo levantando esses pontos.

A morte é uma das realidades da nossa existência. Assim, toda a nossa vida está ancorada, queiramos ou não, em sua presença. Contudo, mais de um século de positivismo escamoteou tudo aquilo que não passava pelo crivo da ciência experimental. Como a morte poderia ser considerada do ponto de vista científico, ou, melhor dizendo, que ciência teria a morte como objeto? Um materialismo implícito fez com que simplesmente uma das realidades mais próprias de nossa existência fosse considerada um não-assunto. Ela ficou, no máximo, relegada ao domínio das crenças subjetivas e à conversa informal. Todavia, seria injusto considerar o positivismo o único vilão. Por mais estranho que pareça, os avanços técnicos e políticos, que permitiram a existência de uma enxurrada de pessoas como nunca se vira antes, contribuíram igualmente para o quase esquecimento da morte. Com as expectativas de vida subindo cada vez mais e com a relativa melhoria das condições de vida, uma quantidade imensa de luxo e conforto foi disponibilizada para virtualmente quase toda a humanidade. A existência começou a parecer não mais tão penosa como no passado -- um engano lamentável, mas é essa a sensação. A profunda instabilidade da vida, que se refletia tão materialmente que mesmo no Pai-Nosso é sempre pedido "o pão nosso de cada dia", atualmente parece ter se tornado um problema meramente filosófico: com efeito, a urgência do "pão nosso de cada dia" não parece ser mais tão grave assim. Catástrofes de abastecimento tais como houve na Rússia em fins do séc. XIX parecem aos olhos do observador mediano algo circunscrito tão-somente a regiões remotas do mundo. Tudo isso fez com que a realidade da morte fosse uma experiência longínqua para muitíssimas pessoas. Diferentemente de um Bach, que se tornara órfão bem jovem, perdera a primeira esposa e ao longo de sua vida quase metade dos filhos, quantos de nós passaram por algo semelhante? Para muitíssimas pessoas, realmente a morte não tem sido uma experiência próximo: quando muito, chora-se a perda de algum parente afastado ou um amigo. Quanto não conhecem a morte tão somente por assim dizer de oitiva? Contudo, mais cedo ou mais tarde, todos enfrentarão a presença da morte.

Não quero empreender uma análise a fim de descobrir se o positivismo é causa ou efeito do avanço técnico-político. Desejo apenas salientar que a morte acabou sendo posta para debaixo do tapete. Ora, tudo aquilo que é uma realidade na vida humana jamais poderá ser escondido sem prejuízo. A conseqüência disso é que ela surgirá com força redobrada. O século passado foi assaz ilustrativo: quando a morte parecia sob controle, duas guerras mundiais sangrentas e regimes totalitários causaram a morte de mais de trezentos milhões de almas, e essas mortes totalmente desprovidas de sentido não param. Ao mesmo tempo, a decadência da política tem transformado os centros urbanos em moedores de carne, principalmente em países como Brasil, onde a taxa de homicídios é assombrosa. Embora tenham tentado transformar a morte em peça de antiquário, ela vem se mostrando com uma vitalidade apavorante.

Essa situação é desconcertante. Com todo o aparato técnico, simplesmente nos vemos por assim dizer mais inermes do que nunca contra os grilhões da morte. Ela desempenha sua função com um desassombro particularmente humilhante.

(Continua...)

Ida ao concerto

(Como estava pessimamente escrito, decidi republicar este post, ainda que certas coisas provavelmente tenham me passado em branco. Não é improvável eu reescrevê-lo novamente.)

*

Sábado fui assistir à apresentação de Daniel Taylor na Sala Cecília Meirelles acompanhado por mais um Taylor, A.J.P., o falecido historiador inglês que escreveu A Segunda Guerra Mundial. Não sei se os dois têm algum parentesco, mas direi alguma coisa sobre ambos. Contudo, direi primeiramente certas coisas imediatamente anteriores à apresentação.

Tendo chegado cedo, cousa espantosa vindo de alguém tão mal relacionado com os ponteiros como eu, decidi fazer uma hora numa igreja ali próxima. Mal entrei e vi um sujeito baixinho ensaiando umas músicas com um coro tão animado quanto feminino e de idade algo avançada. Ao lado, uma senhora tocava um teclado num estilo tal que julguei ser alguma performance ultra-moderna. Devo mencionar ao leitor que uma das pragas modernas é, na minha opinião, o teclado. Por mais que digam que ele soe como qualquer coisa imaginável, na minha modesta opinião ele soa apenas como um teclado tentando ser qualquer coisa imaginável. A falta de entrosamento entre o coro e o teclado era impressionante, sendo compensada pela extrema desafinação daquelas almas piedosas, algo que o baixinho, animado como estava em lhes ensinar canções, parecia ignorar completamente. Sua boa vontade era igualmente impressionante, e então percebi que talvez ele estivesse cumprindo algum tipo de penitência inusitada misturada com algum tipo de masoquismo, o que talvez tornasse a penitência inútil.

Aquilo não foi minha primeira comoção musical do dia, pois sentira algo semelhante ao passar, muitas horas antes, em frente à Igreja da Santa Cruz dos Militares, caso minha memória não me engane. No momento da comunhão, alguém teve a belíssima idéia de fazer um acompanhamento musical num estilo semelhante a Ivan Lins, porém em tons por assim dizer sacros. Nunca me passara pela cabeça uma missa sitiada pela cafonice, mas naquele momento as pessoas conseguiram esse milagre. Infelizmente meu dáimon me mandou apertar o passo, embora eu esteja até agora querendo saber que raio de música era aquela.

Quanto à igrejinha do baixinho animado, igrejinha aliás muito bela e que conheci graças a um evento totalmente mundano, isto é, quando da apresentação de quartetos de cordas de Beethoven, decidi, pois, ficar ainda mais, pelo menos até a hora da comunhão, esperando que Deus não me julgasse mal por ter de sair no meio da missa por causa do concerto. Chamou-me a atenção todas as pessoas serem de idade avançada. Numa igreja aqui perto de casa algo semelhante parece ocorrer no meio de semana, exceto uma vez que vi uma senhorita de minissaia lá dentro. Mas aquela igrejinha estava razoavelmente cheia, num sábado frio e chuvoso, cousa mui louvável. Em todo o caso, eu era o caçula. Obviamente não havia razões para me incomodar com nada disso. Um incômodo, na realidade, irrompeu mal tendo começado a missa. Antes que alguém me julgue destituído de espiritualidade, advirto que me refiro ao andamento estranho da missa. Aquele sujeito baixinho, que então descobri ser o pároco, juntamente com seu assistente, coreografava um balançar de braços dos fiéis. Havia uma cantoria de gosto duvidoso, uns gestos estranhos, uma música mal feita, uma leitura um tanto canhestra de passagens bíblicas, enfim, tudo era terrivelmente mal conduzido. Naqueles momentos, enquanto eu me perdia a olhar aquela igreja tão agradável, eis que me surgiram as palavras que certa vez meu amigo Carlos escrevera em seu blog sobre a união da beleza com a liturgia. O que ele escreveu é, garanto, produto de considerações mui pessoais, pois ele próprio experimentara cenas litúrgicas esquisitas. Mas, pedindo gentilmente licença a meu amigo, eu avançaria um pouco mais e diria que toda a missa que não leva suficientemente a sério a união da beleza com a liturgia cai, na menos pior das hipóteses, no cômico. Em certa ocasião, durante missa em lembrança à minha avó falecida, havia um cidadão que entoava cânticos numa voz tão bizarra e com um jeito de falar tão inaudito que foi um empreendimento heróico manter o auto-controle para não rir durante tão grave evento.

Como eu estava com um espírito de concerto, não pude deixar de matutar que atualmente seria um período glorioso para as missas de Haydn, as quais, na época, foram ignoradas por causa de seu espírito alegre demais. Ora, sequer precisaríamos de uma orquestra e coro: bastaria um tocador de cd ou um desses cacarecos tecnológicos atuais que desconheço velhacamente. Por que, dentre as opções, há o hábito de sempre escolherem a mais infeliz? O mais curioso é o raciocínio de que o povo precisa daquilo que mais lhe convém, tendo implicitamente a noção de que o povo só gosta do que for pior. Música mal feita no lugar de Haydn parece ser, na cabeça de alguns, mais próprio ao povo.

Deixei, pois, a agitação de papéis de lado, mesmo antes da comunhão, e me dirigi à sala de concerto, embora, para meu espanto, faltasse ainda meia hora para o início da apresentação. Sentei-me e decidi conversar um pouco com o historiador inglês, autor de A Segunda Guerra Mundial.

Não há nada pior que estar em má companhia. Talvez a única coisa pior é não poder desembaraçar-se dela. Para me gáudio, não era o caso em questão. A.J.P. Taylor me foi um ótimo companheiro de conversações, de tal modo que o deixei falar o tempo todo a fim de aprender.

Esse livro foi escrito no início da década de 60 e se tornou um clássico, embora tenha sido inicialmente detestado, exceto por "ex"-nazistas. Eu tinhja ouvido falar de Taylor graças a um outro excelente historiador, John Lukács, mas não podia imaginar que, além de ser inteligente, ele era tão divertido. Sua ironia é sutil -- às vezes nem tanto --, bem agradável, o que me rendeu algumas risadas, como no momento em que ele diz que as indenizações de guerra da Alemanha eram motivos "de insatisfação intelectual; coisa para lamentar à noite, e não motivos de sofrimento na vida cotidiana", que, em bom português, significa "frescura". Na mesma página, ainda sobre as indenizações, ele continua: "O homem de negócios em dificuldade, o professor mal pago, o trabalhador desempregado, todos as culpavam pelas suas dificuldades. O choro de uma criança faminta era um protesto contra elas. Os velhos iam para a cova devido às reparações." Ironia e sarcasmo que segundo meu imaginar só os ingleses conseguem desempenhar tão bem. Contudo, não pude deixar de perceber como tudo aquilo se aplica extraordinariamente ao Brasil, com a única diferença de o culpado ser a "exclusão social" ou o "capitalismo". Numa página anterior, ele diz que os ingleses começaram "a denunciar a loucura das reparações, tão logo se apossaram da frota mercante alemã", cousa que deve ter irritado mais de um inglês ao ler isso. Essas e outras passagens indicam que Taylor era polêmico, porque ele estava atacando todos os sagrados lugares-comuns: que a Alemanha não tinha como pagar as indenizações de guerra; que o Tratado de Versalhes foi totalmente péssimo para aquele país; que o programa de rearmamento alemão foi pesado durante quase toda a década de 30; que a guerra mundial foi tramada por Hitler; que o ditador, aliás, era um estadista -- Lukács desenvolveu mais esse ponto; que planos como a anexação da Bélgica e Ucrânia, guerra contra a França e o Lebensraum não eram idéias típicas de Hitler, mas alemãs, e desde a Primeira Guerra. A lista é ainda mais extensa. Não foi por acaso que seu livro teve inicialmente uma recepção péssima e, para piorar, acabou erroneamente saudado por "ex"-nazistas, portanto interpretado por todos como uma espécie de reabilitação de Adolf Hitler: interpretação completamente torta, diga-se de passagem.

É lamentável quando o historiador é obrigado a seguir a opinião de todos tão-somente porque parece ser a mais agradável. A idéia de oposição ao establishment por si mesma é agradável apenas a quem não saiu da adolescência mental. No caso do historiador, a situação é mais complicada porque, afinal de contas, a pesquisa jamais cessa. Um estudioso busca explicar o que ocorreu, nunca se satisfazando com as explicações aparentes. Um pesquisar tem de ser uma pessoa séria, não um instrumento que ecoa a opinião do dia. O exemplo do modo como o próprio Taylor conta de como foi obrigado a rever suas posições ao longo de suas pesquisas é ótimo. Ele, como diria Aristóteles, foi constrangido pela verdade, muito embora fossem contrárias não só às suas primeiras opiniões como ao consenso: ele acabou sendo detestado por muitos. É uma infelicidade monstruosa que em nosso país os cursos de história tenham sido tomados por selvagens cujo espírito é o oposto ao do verdadeiro historiador, embora esses infelizes se considerem espíritos críticos: eles querem unanimidade tão-somente. Mas que o leitor não exagere duplamente o que estou dizendo: Taylor não tem razão sempre e eu ainda estou lendo o livro*.

Precisei terminar a agradável conversa com Taylor porque o concerto iria começar. Até o instante em que escrevo estas linhas tortas, não compreendi por que os organizadores chamaram o evento de "Música Antiga", já que nem Dowland, nem Handel e nem as composições anônimas apresentadas eram música antiga. Naturalmente, a dúvida que surge é saber o que diabos significa esse termo. O canto gregoriano é antiqüíssimo, talvez a música mais antiga ainda em uso, mas não tenho certeza se seria apropriado classificá-lo como música antiga. Talvez seja mais próprio usar o termo para as músicas da Antigüidade, mas é bom que se diga que os próprios medievais, a certa altura, dividiam os estilos em ars antiqua e ars nova, e isso nada tinha a ver com a Antigüidade. Para o nosso gosto e, por que não, da própria Renascença, ars nova é algo inacreditavelmente arcaico, tanto quanto ars antiqua. E sabemos muito pouco da música da Antigüidade. Do ponto de vista da música clássica -- o termo aqui se refere à música de um determinado período --, talvez não seja um absurdo total considerar que o período barroco e anterior não passam de algo cafona e fora de moda, ainda que seja uma extravagância colocar no mesmo saco gente tão diferente como Handel e Dowland. É sempre complicado estabelecer o que é moderno e o que é velho segundo o que parece mais antiquado. Mas, como diria Taylor, são inquietações intelectuais boas para incomodar o sono, mas que não afetam em nada a vida cotidiana. Assim, estando o termo equivocado ou não, os músicos estavam lá e havia público suficiente para a apresentação.

Evidentemente, a atração principal do concerto era o contratenor Donald Taylor, o qual, repito, não faço a menor idéia se é parente ou não do historiador inglês. A primeira parte da apresentação foi consagrada a Dowland e compositores anônimos. Se o leitor nunca ouviu o compositor inglês, saiba que suas músicas são ótimas para incentivar a produção de bílis negra. É impressionante como Dowland compôs tantas músicas melancólicas. Na minha opinião, um dos melhores momentos foi quando Taylor cantou I saw my lady weep, embora não tenha havido uma segunda voz. Não que ele tivesse se apresentado sozinho: havia uma soprano extremamente bonitinha com ele, trajando um longo vestido esverdeado. Dentro do meu limitado entendimento musical, ela cantava muito bem. Pensei nas palavras de um poeta que dizia não haver nada mais agradável que ouvir um talento combinado a uma feição bela. Não posso cometer a injustiça de esquecer o senhor do alaúde, instrumento delicado que foi muito bem tocado.

A segunda parte foi dedicada quase inteiramente a Handel, com acompanhamento de piano. Confesso que seria mais agradável se houvesse uma pequena orquestra de câmara, mas não quero choramingar porque o pianista era muito bom. Se alguém tinha alguma dúvida de sua habilidade, suponho que ela tenha desabao após a execução de uma transcrição de Liszt de uma peça bachiana, se não me engano algum prelúdio e fuga. Algumas árias de Handel sustentaram alguma melancolia, ainda que bela, como durante a apresentação de um duo da ópera Theodora. Para quebrar a melancolia, o espetáculo findou com duas árias heróicas da ópera Giulio Cesare, em que Taylor alternava entre contratenor e barítono, exibindo suas habilidades vocais. Durante as árias heróicas, ele também fazia questão de interpretá-las, explicando antes ao público brevemente do que se tratava.

Eu estava tão perto do palco que não perdi um único perdigoto, nem uma eventual enxurrada deles, mas suficientemente afastado para me pôr a salvo deles. Eu gostaria de ter visto mais o pianista usando o pedal, mas a cabeça de um senhor na primeira fileira embargou-me o intento, bem como do senhor desprovido de cabelos que estava atrás dele. São detalhes irrelevantes, pois a apresentação foi boa, mesmo quando Taylor disse que o Ptolomeu da ópera conseguia ser ainda mais malvado que Bush.

Foi uma sensação curiosa voltar para casa depois daquele evento, pois tive de passar pelo mafuá dos Arcos da Lapa, zona considerada boêmia. Era como se eu estivesse me perdendo nas mais profundas trevas da antiga Germânia ou nos pântanos da velha Britânia. Minha imaginação não concebe as razões que levam um semelhante meu a embrenhar-se prazerosamente num local tão feio e lotado de mafomas e demais gentes de má catadura. Agora bem: a memória do espetáculo anulou aquele ambiente. Segui embalado por aquelas músicas até meu lar, como aliás já o tinha feito em outra ocasião, durante o festival dedicado a Beethoven, o que comprova que a boa arte nos permite sustentar muitos tormentos.

*Isso foi quando publiquei pela primeira vez esse post. Tendo já terminado de ler o livro, apenas devo repetir que ele é realmente excelente. Sua principal contribuição foi reorientar a história diplomática do período do entre-guerras, além de fazer repensar muitos lugares-comuns que infelizmente até hoje são repetidos. Certas vezes Taylor exagera: ao contrário do que ele diz, Hitler bem provavelmente desejava atacar militarmente a Tchecoslováquia e a Polônia, mas é também provável que ele não quisesse envolver as potências ocidentais no jogo. Ele, porém, era um homem de inclinações extremas, até mesmo suicidas, ignorando os riscos de suas cartadas: ao contrário de homens como Chamberlain, Hitler era um jogador.

Há um apêndice interessantíssimo, que é trancrição de um breve curso dado por Taylor numa universidade na década de 70. Ele explica que em raros casos as guerras são realmente planejadas de antemão. Mas há outro motivo para esse apêndice ser interessante. Taylor diz que seu livro A segunda guerra mundial, no qual ele buscava as causas do conflito mundial, tinha um equívoco: ele não analisou os fatos até 1941, quando realmente o conflito se torna mundial. O livro termina com uma análise da crise polonesa. De 1939 a 1941, a guerra teria sido apenas européia, e como tal, fadada a ser contada tão-somente como mais um dos inumeráveis conflitos europeus ao longo da história.